1966: o que escrevi sobre a violenta injustia da minha cassao. Num jornal apreendido, num livro que jamais circulou. 43 anos depois, uma histria vivida numa ditadura esquecida e protegida.

Minha cassao foi considerada por unanimidade, entre civis ou militares, como a maior injustia do governo Castelo, ou melhor: como uma vingana pessoal do ex-presidente. Sem nenhuma justificativa, sem poderem me classificar como corrupto ou subversivo, minha cassao se juntou a tantas outras injustias praticadas pela revoluo, mas essas consumadas no calor dos primeiros momentos, naqueles dias de agitao e de adeses precipitadas, quando os prprios objetivosrevolucionrios ainda no estavam identificados. Mas a minha cassao foi feita 1 ano depois do furor cassatrio j ter passado, 4 dias antes de uma eleio em que os menos otimistas previam que eu ultrapassaria os 100 mil votos, e 25 minutos depois de uma deciso do Supremo Tribunal Federal garantindo a minha candidatura, impugnada pelo governo por defeitos na ata, e24 horas depois desse ato infame, injusto e de pura vingana, eu publicava o artigo que agora transcrevo. E transcrevo para que se veja que ele era mais contundente e duro do que os dois artigos que publiquei depois da sua morte, como contundente, dura e implacvel foi a oposio que lhe movi durante todos os seus 3 anos de governo. Comparem e vejam que meus artigos de 19 e 20 de julho de 1967, depois da morte do presidente Castelo Branco, no tm a menor importncia diante de tudo que eu disse dele quando ele era o mais poderoso presidente de toda a Histria brasileira.

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Pela segunda vez eu ganho no Supremo Tribunal Federal, para honra minha e principalmente da dignidade e da independncia dos Poderes. Na primeira vez, em julho de 1963, quando a opresso do despotismo procurava me roubara liberdade. Fui ento devolvido vida e famlia por uma deciso do Supremo Tribunal Federal e pela ao indmita e indomvel do ministro Ribeiro da Costa.

Agora, quando a opresso tambm do despotismo e da boalidade procurava impedir a minha candidatura, foi outra vez um ministro do Supremo Tribunal Federal (um tribunal que est sempre presente nas melhores pginas da Histria brasileira) que reconheceu o meu direito, que determinou o registro da minha candidatura, que de pblico afirmou que no se tira de um cidado, nas vsperas de uma eleio, o seu legitimo direito de ser julgado pela opinio publica, que era apenas o que eu exigia. Desta vez a dignidade e a bravura do Supremo Tribunal Federal foram representadas pelo ministro Eloy Rocha, novo ainda, nomeado no faz muito tempo, mas j imbudo por aquele ar de grandeza e grandiosidade que tanto impressionava Rui Barbosa.

Mas infelizmente a deciso do Supremo s teve durao por escassos 25 minutos. Pois assinada a deciso do ministro Eloy Rocha s 13:30, s 13:55 osr. Humberto Castelo Branco tomava conhecimento da deciso e resolvendo atingir muito mais o ministro e o Supremo do que a mim, imediatamente resolvia me incluir na lista de cassao que j estava pronta para ser publicada. Eram 17 nomes, passaram a ser 18. Mais um ou menos um no tem importncia para quem j cometeu tanta indignidade, tanta barbaridade, para quem faz do insulto Lei e Ordem a razo maior da prpria miservel existncia. Pois miservel toda existncia sem amor, e sem o calor da amizade.

Esse decreto de cassao dos meus direitos, assinado pelo Sr. Humberto Castelo Branco, o corolrio de uma longa luta dos traidores da revoluo contra mim e contra a minha voz que no h seduo que abafe, no h intimidao que silencie, que no h ameaa que possa calar. No tenho o menor gosto pela encenao ou pela bravata, mas posso dizer, como Bernard Shaw, que paguei e continuarei a pagar o preo exigido pelo meu direito de dizer a verdade. Doa a quem doer, fira a quem ferir, atinja a quem atingir, mesmo ou principalmente se for poderoso.

Nem se diga que o presidente assinou um ato com raiva, revoltado ou dominado pela exasperao. J estava tudo preparado. E tanto isso verdade que 24 horas antes da deciso do Supremo Tribunal Federal o irresponsvel chanceler que o Sr. Juracy Montenegro, encontrando o jornalista Ibrahim Sued num jantar, afirmou-lhe a respeito do meu caso: No faz a menor diferena a deciso do Supremo no caso do jornalista Helio Fernandes. Se ele ganhar no Supremo o presidente imediatamente cassar os seus direitos polticos para que ele no seja candidato. Era verdade, e talvez pela primeira vez na vida o chanceler no estava mentindo.

O objetivo da minha cassao era impedir a eleio. Os institutos de pesquisa de opinio pblica, as velhas raposas eleitoreiras, todos os que participam do processo eleitoral da Guanabara, sabiam que eu iria ter uma votao espetacular e caminhava mesmo para ser o mais votado da Guanabara, repetindo a votao estrondosa que o Sr. Carlos Lacerda tivera duas vezes consecutivas. E isso o governo no podia permitir por dois motivos principais: 1- Que a mesquinhez do Sr. Castelo Branco no pode admitir a vitria de ningum, principalmente junto ao tribunal da opinio pblica, tribunal ao qual ele jamais ousou ou ousaria se submeter. 2- Porque evidentemente a minha consagrao eleitoral seria debitada ao desprestgio do Governo, pois o povo iria votar em massa em quem no poupou nunca este Governo, que denunciou-lhe sempre as traies ao interesse nacional, que no hesitou nunca quando se tratava de revelar a monstruosidade do seu comportamento em relao ao patrimnio deste pas, dilapidado e miseravelmente roubado com a colaborao, a conivncia e a participao de quase todo o Governo do presidente Castelo Branco, com as possveis excees de praxe, excees nas quais certamente no se pode inscrever o prprio chefe de Governo.

Eu precisava ser cassado, silenciado, amordaado, para que este Governo tivesse mais tranquilidade e continuar o seu restinho de tarefa que o de vender a retalho e a granel o pouco de patrimnio que nos resta, pois o resto j propriedade dos trustes internacionais. E na verdade, a minha cassao uma derrota imposta ao sentimento nacionalista, a este nacionalismo autntico que est latente e domina o povo brasileiro, que j compreendeu que sem nacionalismo no h desenvolvimento, que sem desenvolvimento no h progresso, que sem progresso no h enriquecimento do Pas, e sem o Pas enriquecer no pode haver enriquecimento de ningum, a no ser alguns privilegiados. Em suma: fui cassado pelos trustes estrangeiros, que viam em mim um inimigo incmodo, que era preciso calar de qualquer maneira.

Mas tenho a impresso que infelizmente (este infelizmente para os trustes e para o Governo) ainda agora no atingiro os seus objetivos. Pois no tomo conhecimento de atos arbitrrios e baseados apenas na vontade pessoal de um ditador enlouquecido e ensandecido, que usa o Pas inteiro como arena para satisfazer a sua auto-idolatriae o seu egocentrismo autocrtico e delirante.

A Histria dos povos e das naes no se escreve com a covardia dos que se entregam e sim com a bravura e a intrepidez dos que resistem.

No aceito, no acato, no admito, no reconheo e no ratifico a empulhao praticada por meia dzia de cretinos, que assaltaram o Poder se aproveitando do descuido de alguns idealistas.

J disse h muito tempo, j afirmei e reafirmo agora: no a simples assinatura de um farsante que pode atingir ou derrubar um homem com as minhas convices. Alm do mais, meus atos e minhas aes no podem ser julgados por um Castelo Branco qualquer. Eles sero julgados por um tribunal altssimo, que o Sr. Castelo Branco jamais conheceu, e que constitudo por minha mulher, pelos meus 5 filhos menores. Podem dizer aos meus filhos que seu pai foi ameaado pela violncia e pela arbitrariedade, mas o que no diro jamais que o pai deles se rendeu ou se entregou sem luta.

Continuarei a escrever aqui mesmo, continuarei a dirigir este jornal e esta empresa, continuarei a manter esta ilha de liberdade enquanto me sobrarem foras para isso. E livre ou encarcerado continuarei a protestar contra a quadrilha que a soldo de grupos estrangeiros pretende escravizar e espoliar eternamente este Pas, que sem o assalto desses grupos j seria a potncia mundial com que todos sonhamos.

Contra mim no basta um simples decreto. No me asilo, no me exilo, no fujo, no me entrego. S sei viver neste Pas onde nasci, pois aqui que esto as minhas esperanas, as minhas ambies, os meus objetivos, a minha famlia e todos os que dependem de mim e dos quais eu dependo tambm. Portanto, desistam da esperana de que podem me pressionar ou me intimidar at que eu alugue espao numa embaixada.

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PS- A eleio era no dia 15 de novembro, fui cassado no dia 11, a campanha terminava no dia 12. noite do dia 11 me telefonou Mario Martins, (excelente figura, candidato a senador, foi eleito) disse: Helio, o nosso comcio final est marcado para amanh na PUC, logicamente com voc. Estamos te esperando. Fui, lgico.

PS2- na porta, me esperando, o Reitor, Padre Larcio. Falou: Helio, esto a dois coronis, que disseram que voc no pode falar. Respondi que no recebo ordens deles e sim dos meus superiores da Igreja, disseram que eu resolvo.

PS3- Resposta do reprter: Padre Larcio, se o senhor garante meu direito de falar, j devamos estar no palanque. Fiz o mais violento discurso da minha vida. Ao sair, os dois coronis me prenderam, me levaram, me cassaram, me proibiram de escrever e de dirigir o jornal.

PS4- a primeira vez que conto esta histria. Ou que publico o artigo sobre a minha cassao.

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