A ditadura acabava, Brizola aguardava, Maluf se lançava, Ulisses liderava, Tancredo festejava, Sarney operava

Senadores se estilhaçarem, se engalfinharem, se hostilizarem com palavras até impublicáveis, nada surpreendente. O clima e o tom das acusações já antecipavam o que houve na segunda-feira, bem tarde, quase chegando a noite. Disseram tudo que estavam pensando, uns dos outros, não esconderam nada.

Mas se transformarem em HISTORIADORES, é demais. Só mesmo repetindo o que Bernard Shaw afirmou ao visitar a primeira vez a Estátua da Liberdade: “Meu gosto pela ironia não vai tão longe”.

Os senadores que tentavam a humilhação recíproca e polivalente, mostraram que não só não conhecem História, como não sabem definir ou explicar até mesmo os episódios dos quais participaram. É inacreditável mas rigorosamente verdadeiro.

Só um civil, Fernando Lira, e um militar, o general Leônidas Pires Gonçalves, poderiam contar melhor esses fatos, que começaram em 1979/80 e tiveram uma parte do desfecho em 1985. Enquanto não são ouvidos, contarei o que vi, do qual participei, inclusive como personagem prejudicado.

A mudança do clima político-eleitoral começou a se tornar visível com a chegada dos exilados. Principalmente Brizola e Arraes. Os dois tinham prestígio e repercussão para tentarem consolidar o que pretendiam antes de 1964: a presidência da República. Brizola com mais chances, Arraes era sabidamente comunista, mesmo com o fim do golpe não dava para um comunista ganhar eleição.

Um dia, sem qualquer aviso, Brizola foi me visitar na Tribuna. Falou: “Fiz questão que a minha primeira visita fosse a você, por tudo que a tua resistência representa”, Carlos Lacerda havia morrido em 1977, e como Brizola tinha pontos de afinidade, ficamos amigos.

Eu pertencia ao traído MDB, no qual fora cassado em 1966, com Chagas Freitas “governador”, e Miro Teixeira faturando essas aspas. Preterido por Golbery, multinacional patrocinado pela Dow Chemical, mas esperto (nada a ver com inteligência), tirou o PTB de Brizola, teve que fundar o PDT. Continuei no MDB.

Num domingo do final de 1980, Tancredo me telefona, convida para um café no seu apartamento da Avenida Atlântica, conversa de horas e a colocação, textual: “Você quer ser senador, nosso partido precisa de um candidato, a legenda é tua, Helio”. A legenda era o PP, presidida por ele, com Magalhães Pinto como presidente de Honra.

Diziam que o PP não era de oposição ou de governo, Tancredo Neves insistiu, aceitei, ele me disse: “Você fez a opção certa, está eleito”. Minha entrada no partido, uma apoteose e outra surpresa. Me saudando, Tancredo Neves disse naquele vozeirão: “Agora quero ver quem vai dizer que o PP não é de oposição, se temos o jornalista que é o maior oposicionista do país?”.

Refleti sozinho na multidão: então era isso?

Em meados de 1981, estamos almoçando em Brasília, eu, Tancredo e o doutor Ulisses, presidente e maior líder do MDB, quando veio um porta-voz, com o recado: “O general Figueiredo quer falar imediatamente com os dois líderes”. Largaram o almoço, foram atender à convocação. Nem demoraram muito, era uma ordem. A ditadura já no chão, mas no Poder, decidira mudar as coisas.

Acabavam a Arena e o MDB, poderiam ser fundados quantos partidos quisessem, “com um P na frente da sigla”. Como não estabeleceram o número de letras da sigla, o MDB colocou um P na frente, passou a ser PMDB, até hoje não sei de quem foi a idéia que enfureceu Golbery (autor do projeto e o próprio Figueiredo) nada mais podia ser feito.

Brizola se fixou no PDT (que foi registrado), Tancredo que estava registrando o seu PP, ficou sem ação, tentou fazer a FUSÃO com o PMDB, não deu, criaram o que se chamou de INCORPORAÇÃO. Dois partidos num só, duas grandes lideranças disputando o mesmo objetivo, que era a eleição indireta.

Sabiam que uma exigência da ditadura derrubada era o período de TRANSIÇÃO. Os militares queriam essa eleição indireta, que achavam que poderiam mobilizar e manipular.

Só que o deputado Dante de Oliveira, “inspirado” pelo Doutor Ulisses, apresentou projeto na Câmara, estabelecendo a eleição direta, que ficou nacionalmente conhecida como “DRETAS JÁ”.

*  *  *

PS – A Arena passou a ser PDS, inversão das letras PSD, de antes de 1964, o maior partido brasileiro. E Sarney, que servira à ditadura, surgia como presidente do PDS, com todo o fervor democrático que era capaz com seus 52 anos de acomodação.

PS2 – A votação das “DIRETAS JÁ”, a grande batalha entre Tancredo e Ulisses. Os dois combatendo lado a lado, mas os dois sabendo que disputavam uma batalha que não poderia ter dois vencedores.

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(Amanhã termino, é muita coisa. Sabendo fatos contados por Tancredo, mas do lado de Brizola. Este sabia que o “Terceiro Homem” era um excelente filme, que não poderia ser refilmado na vida real e política. E como repórter, acompanhando tudo).

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