A História no escuro

Sebastião Nery

Osvaldo Aranha foi o primeiro ministro da Justiça depois que Getulio Vargas assumiu o poder em 1930. Algum tempo depois, foi visitar a Agência Nacional. O diretor tinha feito uma reforma e queria mostrar ao chefe:

– Senhor ministro, reorganizamos toda a Agência.

E pelos corredores foi levando Osvaldo Aranha, com seus bastos cabelos, quase dois metros de altura, os olhos grandes, luminosos. Diante de uma porta, o diretor parou, entusiasmado:

– Senhor ministro, aqui é a seção mais importante da Agência. É onde guardamos os recortes dos jornais que aproveitam as notícias que mandamos.

– O arquivo?

– Sim, ministro, o arquivo. Aqui está a documentação da vida brasileira.
Um dia, para ser escrita a história de hoje, é só vir aqui e ver o que o governo pensava e a Agência Nacional escrevia. Está tudo aqui. Aqui se faz a história.

– Muito bem.

– O senhor quer ver?

O diretor empurrou a porta, acendeu a luz. Osvaldo Aranha entrou. No chão, por cima dos recortes de jornais e revistas, nus, um homem e uma mulher se amavam. Osvaldo Aranha apagou a luz, fechou a porta:

– Realmente, senhor diretor, esta é a seção mais importante. Faz a vida e a história no escuro.

***
COLLOR

Osvaldo Aranha estava certo. Como a vida, a história costuma ser também escrita no escuro. Em 2008, o escândalo do grampo nos telefones do ministro Gilmar Mendes, presidente do Supremo, do senador Garibaldi Alves, presidente do Senado, e do Congresso, do senador Demostenes Torres, de Goiás, e, supõe-se agora, de numerosas outras autoridades, senadores e deputados, era apenas mais um capítulo da continuidade do SNI e do poder policial no País.

Quando o presidente Fernando Collor, com sua coragem e autossuficiência, fechou o SNI, que o general Golbery, seu criador, chamou de “o monstro”, estava selando o destino de seu governo. Cometeu o erro de fechar o SNI mas deixar atuando, com seus salários e vícios, mais de 5 mil arapongas.
Não fizeram outra coisa senão continuar fazendo o que faziam em 20 anos de ditadura: aliaram-se à imprensa obsequiosa e subsidiada, e ao PT, policialesco desde o ventre da esquerda golpista, e o derrubaram.

NEGRÃO

Aqui, na Alemanha, na União Soviética, nos Estados Unidos, em Israel, polícia sempre foi polícia. O grave é quando os partidos, os governos e o País passam a ser comandados e controlados policialmente, policialescamente.

Outra pequena história. Negrão de Lima, primeiro ministro da Justiça do segundo governo de Getulio (1951-53), recebeu a visita de Agamanenon Magalhães, governador de Pernambuco (1951-52). Estava de saída para o Dops (Departamento de Ordem Política e Social), onde ia inaugurar o novo fichário. Levou Agamenon, para de lá irem almoçar juntos.

No Dops, um alto funcionário, muito posudo, começou a mostrar ao ministro as vantagens do serviço reorganizado:

– Agora, excelência, nenhum subversivo nos escapa. Estão todos aqui, fichados e à mão. Em um minuto, temos a informação que quisermos.

***
AGAMENON

Agamenon, que tinha sido ministro da Justiça em 37, interventor de Pernambuco de 37 a 45 e novamente ministro da Justiça em 45, ouvia anonimamente a explicação e sorria.

Resolveu testar:

– O senhor podia ver se está aí a ficha de Agamenon Magalhães?

O alto funcionário, muito posudo, deu quatro passadas, abriu uma estante, voltou com o cartão em menos de um minuto. Estava escrito:

“Agamenon Magalhães, pernambucano, etc., etc. Perigoso inimigo do capital estrangeiro”.

O “perigoso” grifado em vermelho.

Não sei como ainda há tanta gente tão surpresa. De ninho de cobra não saem canarinhos.

MARCONDES

Aproveito para recomendar  um pequeno grande livro: “Assim caminha a mediocridade”, do jornalista Marcondes Sampaio. Um longo poema político, um cordel culto e ferino.

Marcondes conhece o poder em Brasília e o Congresso, como as linhas de suas mãos. Há algumas dezenas de anos, nas principais revistas e jornais do País, ele acompanha a vida nacional e cada um de seus líderes. Estupefato com a corrosão da vida pública, para denunciar preferiu versejar. E avisou:

“O pântano encurrala o processo político na chamada governabilidade, sustentada pela barganha e locupletação da máquina pública e favorecida por uma oposição quase monotemática, midiática, sem projeto de País, tal como o governo, centralizada no tema fácil da corrupção e nem de longe voltada para as causas mais profundas e tantaculares dessa mesma corrupção, intrínsecas ao próprio capitalismo selvagem a que grande parte dela está associada”.

É a História no escuro.

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