A impostura dos papagaios

Sebastião Nery

Há 34 anos, em outubro de 1977, em plenas ditaduras do general Rafael Videla aqui na Argentina e do general Ernesto Geisel no Brasil, chegou a Lisboa uma delegação do MDB para um encontro com o Partido Socialista Português de Mario Soares: senadores Paulo Brossard do Rio Grande do Sul, Marcos Freire de Pernambuco e Gilvan Rocha de Sergipe, deputado Fernando Lyra de Pernambuco e o empresário Fernando Gasparian, da direção nacional do MDB.

Mario Soares era o primeiro-ministro e recebeu os brasileiros em um grande jantar partidário, mas quem comandou o encontro e fez as honras da casa foi o secretário internacional do PSP, deputado Rui Mateus. Ao fim de dois dias de reuniões e debates, foi marcada uma entrevista da delegação brasileira na sede do Partido Socialista Português, no Largo do Rato.

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FROTA E GEISEL

De repente, tudo já pronto para a entrevista, chega uma bomba do Brasil: o general Silvio Frota, ministro do Exército, havia tentado dar um golpe e derrubar o presidente Geisel, mas, no fim, ele é que foi derrubado.

Sem maiores informações, então com enormes dificuldades em Portugal para uma comunicação mais rápida e mais fácil com o Brasil e sem saberem ainda como se situarem dentro da crise, que evidentemente era gravíssima, os peemedebistas tentaram suspender a entrevista coletiva.

Mas a imprensa já estava toda lá: a portuguesa, representantes de jornais brasileiros como eu, que saía da Constituinte espanhola em Madri, e vários correspondentes da imprensa européia em Lisboa. E o salão cheio de gente da esquerda portuguesa e de exilados brasileiros ansiosos por notícia sobre as teses do MDB: abertura política, anistia e uma Constituinte.

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BROSSARD

Os cinco tomaram logo uma prudente e sábia providência: o senador Paulo Brossard falaria por todos. Mesmo assim, com seu indefectível chapéu branco e o talento de minuano verbal dos pampas, Brossard foi lá, veio cá, driblou as perguntas, pouco falou e quase nada disse. Nem devia.

A entrevista foi encerrada o mais rapido possível e, na saída, no corredor, o jovem exilado carioca Alfredo Sirkis (hoje deputado federal do PV do Rio), que havia participado dos sequestros dos embaixadores alemão e suíço e depois escreveu excelente livro símbolo da época, “Os carbonários”, abordou Brossard, à frente de um grupo de exilados:

– Senador, como vão ficar os exilados? Quando poderemos voltar?

– A rigor, meu jovem, não há exilados. Voltarão quando quiserem.

– Voltar como? Só eu tenho duas prisões perpétuas decretadas.

– E o que é que você fez para merecer tudo isso, meu filho?

Brossard enfiou o chapéu na cabeça e desceu a escadaria.

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VIDELA

A diferença entre a democracia e a ditadura é que, em uma, qualquer notícia é só notícia e, na outra, todo assunto logo vira escândalo. Em 2008, os jornais de Buenos Aires deram uma notícia pequena, foto pequena, de um assunto enorme:

“A Corte Suprema negou um pedido de liberdade do ditador Jorge Rafael Videla, no processo da Operação Condor” (“Clarin”).

E lá está ele, na cadeia, careca, rosto magro, bigodes ralos, punido.

No Brasil, a “Folha” publicava, sem destaque, esta notícia outrora censurada:
“Acusado de ter participado em 1976 do seqüestro e assassinato de 22 opositores do regime militar da Argentina, o major da reserva argentino, Norberto Raul Tozzo, 63 anos, foi preso ontem no Rio pela Polícia Federal, que representa a Interpol. O episódio ficou conhecido como `O massacre de Margarita Belen’, a cidade onde ocorreu”.

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ARGENTINA

A Argentina anistiou mas não perdoou. E discute seu presente e seu futuro. A presidente Cristina Kirchner  cobra “a impostura dos papagaios”:

– “O Primeiro Mundo, que havia se pintado como uma Meca a que devíamos chegar, se desmancha como bolha. Papagaios internacionais, eles vivem prevendo caos, cataclismos e nossos riscos. E ninguém previu o risco do Lehman Brothers, do Merrill Lynch” (ou do Morgan, do Goldman).

Não é só a Argentina que cobra a impostura do Banco Central dos Estados Unidos, do FMI, dos banqueiros e seus papagaios “lobistas”, “analistas” e “jornalistas” (como os tão nossos conhecidos no Brasil). O professor Paulo Guedes recomenda (a eles e a todos nós) ler “O homem-bolha: Alan Greenspan e o desaparecimento de 7 trilhões de dólares”. Ou “A era da ignorância no Federal Reserve”, de William Fleckenstein.

Durante um quarto de século, Greenspan falava e todos se ajoelhavam.

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