A imprensa é um espelho, não uma fábrica de fatos

Pedro do Coutto

Ao participar, ao lado do governador Sergio Cabral e do prefeito Eduardo Paes, de lançamento das obras de revitalização da antiga área portuária do Rio, o presidente Lula por momentos deixou o teor e o tema do evento e, deslocando-se para crise do Senado, culpou a imprensa, usando um argumento rotineiro e banal. Além de equivocado. A mídia –disse- prefere a desgraça. A afirmação, que está em todos os jornais, tornou-se um episódio infeliz. A melhor reportagem sobre o assunto, a meu ver, foi de Felipe Werneck e Alexandre Rodrigues, O Estado de São Paulo de ontem 24 de junho. Os jornais são eternamente o espelho dos fatos, não uma fábrica de acontecimentos. Refletem a realidade, não a produzem.

A força dos fatos, isso sim, está tanto no lado positivo quanto no lado negativo. Vejam só: o programa de recuperação do entorno da avenida Rodrigues Alves recebeu um destaque enorme na mídia. Qualquer um pode comprovar isso. Basta percorrer as edições publicadas. Trata-se de iniciativa positiva. De outro lado, a imprensa destaca a sequência do desastre que envolve a chamada Câmara Alta. E, no fundo, são as denúncias colocadas à disposição da sociedade que estão fazendo com que os senadores tomem providência. Não, é claro, totalmente satisfatórias na dimensão do escândalo. Mas, de qualquer forma, medidas que decorrem da pressão legítima dos jornais e das emissoras de televisão e rádio. Sem a imprensa, como digo sempre, não pode haver afirmação humana. Sem imprensa, não haveria Pelé, Garrincha, Gene Kelly, Fred Astaire, Daiane dos Santos, Michael Phelps e, para ficar em poucos exemplos, o próprio Luis Inácio da Silva. Lula, equivocando-se, omitiu sua decolagem. Foi a partir da greve de 1980 que comandou no ABCD paulista,que teve seu caminho político aberto.

A arrancada inicial ele deve exatamente aos meios de comunicação. Primeira greve depois do movimento militar que derrubou o governo João Goulart, teve seu personagem principal elevado às manchetes: Lula o metalúrgico, o texto aproveitando  a frase –título de um filme da diretora Lina Wertmuller então exibido no Rio e São Paulo. Sempre contou com o apoio da imprensa. Nas suas derrotas e vitórias. Em 82, quando concorreu ao governo paulista. Em 86, quando se elegeu deputado constituinte. Em 89, na campanha presidencial foi vítima de um golpe baixíssimo desfechado pelo adversário, Fernando Collor, cujo mandato desabou três anos depois.

É fácil culpar a imprensa. Se um casal torpemente alucinado mata a filha e a arremessa do sexto andar de um edifício, quem é o culpado? O casal ou os jornais? Quando pessoas estão em perigo ou são vítimas da inércia da administração pública, a quem recorrer? À imprensa, às rádios, às televisões. À mídia, na qual todos, no fundo, buscam apoio. E depois, de modo primário e banal, a condenam. É fácil agir assim. A ingratidão faz parte do comportamento humano. Infelizmente. É lugar comum os beneficiados voltarem-se contra quem os ajudou. Que fazer? Nada. Apenas constatar o absurdo através do pensamento. Os exemplos são infindáveis.

Deu apenas um, que julgo definitivo. Quando as pessoas vão a um museu, a uma retrospectiva, assistem a uma reportagem história, e vêem fotos e filmes da bomba atômica explodindo em Hiroshima ficam alguns instantes impressionados. Seguem em frente, como é natural. Mas esquecem que naquela tarde de agosto de 45, havia repórteres, fotógrafos e cinegrafistas lá para cumprir o dever de documentar para a história. Podiam morrer. Poderiam ser atingidos pela irradiação. Alguns devem ter sido. Mas fizeram seu trabalho e seu papel. Lula deve pensar nisso.

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