A intervenção vai demorar

Carlos Chagas

Custou mas foi  adotada pelo governo a única solução eficaz para superar a crise da roubalheira em Brasília: a intervenção federal. Coube ao Procurador Geral da República, Roberto Gurgel, sustentar a medida diante de um presidente Lula indeciso, mas, afinal, atropelado pela iniciativa do Superior Tribunal de Justiça. O Executivo não  poderia ficar de braços cruzados, aparentando inércia.

Pela Constituição, o pedido precisa  passar pelo Supremo Tribunal Federal e, depois, pelo Congresso. Só então o presidente da República nomeia o interventor.

Pela gravidade dos acontecimentos, com um governador preso por decisão da Justiça, a intervenção federal já deveria ter sido aprovada, mas, como estamos no Brasil, vai demorar. Importa menos saber se a prisão de José Roberto Arruda aconteceu às vésperas do Carnaval, quando tudo se interrompe. Não poderia ser assim, no caso do mensalão do DEM e sua seqüência. Afinal, o domicílio dos ministros do Supremo é Brasília, assim como o local de trabalho de deputados e senadores. Como os  meretíssimos estão  fora,  e os parlamentares, mais  ainda, fica tudo adiado.  Falta aos presidentes do STF, do Senado e da Câmara, coragem para convocar todo mundo. O mais provável é que Gilmar Mendes, José Sarney e Michel Temer também se tenham ausentado ou, no mínimo, estarem de malas prontas.

Fim da impunidade?

Muita gente acha emblemática a decisão do Superior Tribunal de Justiça, mandando o governador José Roberto Arruda para a cadeia. Os otimistas celebram a decisão como uma espécie de marco em nossa história política porque, a partir de agora, todos os corruptos acertarão contas com o Judiciário.

Infelizmente, não é bem assim. O episódio Arruda pode ter sido uma exceção. Junto com montes de políticos e administradores corruptos que passeiam sua impunidade pelo país encontram-se, também, legiões de empresários tão culpados quanto eles. Aqueles que super-faturam o preço de obras e encomendas públicas, distribuindo parte do roubo por prefeituras, governos estaduais,  ministérios e sucedâneos.

Tratou-se de um bom começo, mas longe de equiparar o Brasil com países como o Japão e os Estados Unidos, onde quem rouba vai para atrás das grades.

Democracia no PMDB

O sol parece estar nascendo no horizonte do PMDB. O presidente do partido, Michel Temer, vem  recomendando a todos os diretórios estaduais que abram as portas para as diversas correntes posicionadas em torno da sucessão presidencial. Traduzindo: que recebam com as devidas honras Dilma Rousseff, se a candidata manifestar o desejo de ser recebida, assim como José Serra, Marina Silva, Ciro Gomes e, também,  o correligionário Roberto Requião.

A iniciativa do parlamentar paulista deve-se ao fato de que, nos diretórios estaduais, vinham prevalecendo  tendências e idiossincrasias. Importa menos se a direção nacional do PMDB inclina-se por Dilma Rousseff. Nem por isso os companheiros nos estados devem ignorar ou até hostilizar Roberto Requião ou qualquer outro  candidato.  Até porque, só em junho o partido formalizará  sua posição. O leque deve ficar aberto antes da convenção nacional. Depois, tomada a decisão, a unidade se tornará palavra de ordem.

Falcão

A idade nos faz menos irascíveis e mais tolerantes. Talvez mais injustos. Mas é preciso evitar conceitos estratificados. Morreu  Armando Falcão. Não haverá que esconder, bem como condenar,  o fato de ter sido   ministro da Justiça da ditadura. Agiu  de forma radical, cerceando direitos políticos e até sustentando a censura. Ficou  marcado.

No entanto, é bom lembrar que também foi ministro da Justiça de Juscelino Kubitschek. Como deputado, defendeu o respeito à Constituição quando da tentativa de golpe contra a posse de JK. Era, como parlamentar, uma das fontes mais pródigas do jornalismo  político. Informava como poucos, e sempre com precisão. Talvez por isso, quando mudou de lado, tenha preferido o “nada a declarar”, chavão que marcou a fase final de sua carreira.

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