A morte e a morte de Lincoln Gordon. A traio que durou 45 anos e no serviu nossa Histria nem a dos EUA

Agora ser enterrado mesmo. Da primeira vez, apareceu no Brasil como embaixador, ressalvando que vinha como professor de Harvard. Iluso fugaz. Da mesma linha dos outros que chegavam fingindo amizade e respeito, mas mandavam da mesma forma. S que Gordon enganou mesmo.

Em 1962, um importante lder do PTB, (j morto) que morava no Parque Guinle, num edifcio bem em frente ao Palcio Laranjeiras, me dizia da varanda, com mais dois amigos do presidente Joo Goulart: Tivemos sorte de receber como embaixador, um professor como esse, 100 por cento democrata.

Se lessem seus relatrios, saberiam o que preparava junto com generais americanos. Sem o embaixador Gordon, a Operao Brother Sam no teria obtido tanto sucesso.

Em 1963, logo depois de 6 de janeiro, quando acabou o parlamentarismo com Tancredo, e voltou o presidencialismo, Brizola, tendo terminado o mandato de governador do Rio Grande do Sul, e eleito deputado pela Guanabara (em cada 10 eleitores, 4 votaram em Brizola, o governador era Carlos Lacerda) fez uma proposta ao cunhado presidente: Voc me nomeia Ministro da Fazenda e o Marechal Lott, Ministro da Guerra.

Jango que no tinha bom relacionamento com Brizola, perguntou: Para qu o Lott ministro? Voc na Fazenda, compreendo. E Brizola imediatamente: Se eu me exceder em alguma coisa como Ministro da Fazenda, voc pode me demitir que o Lott te garante.

Joo Goulart disse que ia pensar, Brizola me contou, mas pediu sigilo, temos que esperar, acho que o Jango vai aceitar. No demorou uma semana, Jango recebeu o embaixador (que morreu agora pela segunda vez) junto com Roberto Marinho, este sempre vivo e atuante. J sabiam de tudo.

No quarto particular do presidente, sentado na cama dele, (o embaixador era mais discreto mas apoiava tudo), Roberto Marinho foi direto, nem cortou caminho, garantiu: Jango (assim mesmo) se voc nomear o Brizola Ministro da Fazenda, no conseguir terminar o mandato. Jango perdeu a oportunidade de expulsar os dois ou mandar prend-los, ganharia o respeito e a admirao da opinio pblica. No fez isso, os dois saram livres. Uma semana depois, Jango chamou Roberto Marinho, sozinho, ao Palcio, comunicou: Achei melhor no nomear o Brizola Ministro da Fazenda.

Jango no terminou o mandato, (o que Roberto Marinho disse que aconteceria, mas em outras circunstncias). 24 horas depois de ter dito que no nomearia Brizola, O Globo, na terceira pgina, publicou uma foto grande de Joo Goulart, com o ttulo: Jango, o Estadista.

Em 1966, em plena ditadura, mas ainda sem a censura que na Tribuna duraria 10 anos exatos, de 1968 a 1978, escrevi um artigo, com total iseno, sinceridade e esperana. Eu dizia que gostaria que o Brasil passasse pela experincia de ter Lacerda e Brizola, (ou os dois, seguidos, como deixava bem claro) como presidentes da Repblica.

Brizola estava exilado e asilado no Uruguai, estvamos em plena Frente Ampla. Registrava: possvel que nem Lacerda nem Brizola atingissem o que eu esperava ou acreditava. Mas o Brasil merecia a oportunidade. Lacerda morreu em 1977 (com 63 anos), Brizola bem depois, teve uma chance em 1989, quando no foi para o segundo turno com Collor. Se tivesse ido, teria ganho, apesar do aparato e do espetculo da candidatura empresada, participada e dirigida, precisamente pelo prprio Roberto Marinho e sua tropa de choque.

Em 1982, o dono da poderosa Organizao, armou a Proconsult para Brizola no ser governador. No conseguiu, Brizola ganhou, se empossou e governou. Como fazia sempre, Roberto Marinho demitiu todo mundo, assim no se julgava derrotado.

Quando escrevi sobre a possibilidade dos dois lderes chegarem a presidente da Repblica, eu estava no auge da amizade com Carlos Lacerda, jamais havia falado com Brizola. Este me mandou uma carta muito agradvel, por algum que passara pelo Uruguai.

At 1979 nunca falei com Brizola, nenhuma animosidade. Acontece que ele fez toda a carreira at 1962, no Rio Grande do Sul. (Deputado estadual, prefeito de Porto Alegre, governador, quando se elegeu deputado federal, em 1962, a capital j era Braslia). Em 1979 voltou para o Brasil aparece na Tribuna sem aviso, diz: Minha primeira visita tinha que ser para voc. Durante 15 anos, diariamente chegavam 20 ou 30 Tribunas, disputadas e distribudas. Era nossa nica satisfao. Todos ns comentvamos. Como que esse jornalista Helio Fernandes, escreve o que escreve e no sai do Brasil? Quando voc escreveu o artigo histrico sobre a morte do Castelo, achvamos que ia ser morto. Agora estou conversando com voc.

* * *

PS Quando Lacerda foi a Montevidu levar o documento para Joo Goulart assinar, eu ia com ele, no pude sair do Brasil. O presidente perguntou: O jornalista Helio Fernandes no vinha com o senhor?. Lacerda confirmou e explicou a ausncia. Jango lamentou.

PS2 Numa poca, Lacerda me ouvia muito. Mas no seguia. Teria disputado a presidncia se tivesse atendido e entendido a minha anlise: Lute contra a prorrogao do mandato de Castelo, uma jogada contra voc. Foras mais altas se ALEVANTARAM, ficou calado, perdeu por 1 voto.

PS3 Numa poca, Brizola me ouvia muito. Mas no seguia. Disse a ele: No possvel ser presidente da Repblica sem voto em So Paulo. Voc tem o Rio Grande e a Guanabara, mas tem que MORAR UM TEMPO EM SO PAULO. Foras mais altas se ALEVANTARAM, no foi para o segundo turno, por causa de meio ponto. Foi quando chamou Lula de sapo barbudo. Mas tinha que apoi-lo. Como poderia ficar com Collor, produzido por Roberto Marinho, ao vivo e a cores?.

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