A São Paulo só resta apelar para São Pedro

Carlos Chagas

Senão declarar falência, São Paulo deveria, ao   menos, recorrer a figura já extinta no Direito Econômico e pedir concordata. Porque não   dá mais para o poder público sustentar a dívida acumulada com sua população. Chove há cinqüenta dias, 68 cidadãos já morreram por conta de alagamentos, quedas de barreiras e sucedâneos e nem  uma simples palavra se ouviu das autoridades municipais, estaduais e federais a respeito de desenvolverem  planos de curto, médio e longo prazo para socorrer os atingidos. O máximo que a gente escuta é o prefeito culpar os habitantes pelo acúmulo de lixo nas bocas de lobo e demais acessos às débeis  galerias pluviais.  Do governador, nem isso. No plano federal,  o ministro  das Cidades empurra a responsabilidade de  iniciativas inexistentes para seus colegas de governo enquanto o presidente da República, com todo respeito pela sua hipertensão, sequer anuncia a inclusão das enchentes em algum PAC de emergência.

Se a água cai como nunca na grande São Paulo e em cidades do interior, a culpa será do céu,  de um lado, e dessa irresponsável massa que construiu suas casas e barracos nas encostas dos  morros ou à margem de imponderáveis cursos d’água. Quem mandou deixarem suas regiões de origem em busca de empregos na capital e adjacências?

Era para se terem reunido os responsáveis maiores  e definido ações imediatas, tipo limpeza das galerias pluviais, tanto quando planejado a seqüência através da dragagem de rios, da transferência de comunidades para locais seguros,  da proibição de construções em locais de risco e até da interdição de zonas de perigo. Sem esquecer o redirecionamento  dos transportes coletivos e a limitação do tráfego. E a liberação de verbas.   O problema é que essas obras custam caro e não costumam dar votos,  enterrada a maioria delas longe  da visão popular.

Nem Serra, nem Dilma, muito menos Ciro e Marina imaginam tratar-se de tarefa a eles afeta.   Igualmente Geraldo Alckmin, Aloísio Nunes Ferreira, Marta Suplicy e  Aloísio Mercadante. Todos dispõem de guarda-chuva. Quanto a São Paulo, que continue apelando para São Pedro…

Bomba-relógio

O escândalo do mensalão de Brasília parece longe de refluir, apesar da boa vontade da Câmara Legislativa para com o governador José Roberto Arruda. São capazes de assustar o país inteiro as  investigações da Polícia Federal e do Ministério Público, mais os processos já se iniciando no Poder Judiciário.  Porque a cascata de dinheiro irregular não vinha encharcando apenas deputados distritais, secretários e assessores do governo local. Pelo jeito, chegaram até mesmo às cúpulas de grandes partidos. Arruda era do DEM, mas outras legendas também teriam sido beneficiadas com mesadas permanentes, a título de “congraçamento político”.  Quando a bomba estourar, e não falta muito, vai ter gente correndo para todo lado.

Orgia inexplicável

Não apenas na administração direta e nas empresas estatais federais multiplicou-se a orgia de gastos em publicidade. Nos estados é a mesma coisa, exceção de um. No Paraná, faz tempo, o governador Roberto Requião proibiu o uso de recursos públicos para agradar os meios de comunicação, exceção dos editais determinados por lei.

Neste ano eleitoral a gastança atinge limites nunca antes atingidos. Não se trata de a Petrobrás aumentar o número de veículos abastecidos em seus postos, nem de o Banco do Brasil e a Caixa Econômica conquistarem mais correntistas. Estão se lixando para isso. A multiplicidade da propaganda  dessas empresas visa outro objetivo. No caso, obter para o governo a boa vontade dos variados  veículos da mídia nacional. Estenda-se a estratégia para os estados e se terá a receita de como é fácil  gastar dinheiro público em silêncio.

Redivisões extemporâneas

Com a reabertura dos trabalhos do Congresso, em se tratando de um ano eleitoral, ganharão fôlego certos projetos extemporâneos, inusitados e absurdos. Fala-se da redivisão territorial do país.  Parlamentares de pouca expressão em seus estados insistirão no desmembramento capaz de criar dois ou mais governos locais, assembléias legislativas, tribunais de justiça, tribunais de contas, mais vagas de deputado federal e de senadores. Querem dividir o Amazonas em três, o Pará em dois, Maranhão também, além da Bahia, Mato Grosso e até Minas, com o esdrúxulo Estado do Triângulo.  Seria bom tomar cuidado porque um dia desses, por descuido ou malícia, as lideranças do governo permitirão que alguns desses monstrengos se formem, favorecendo exclusivamente grupos e oligarquias.

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