A vingana contra a notcia

Carlos Chagas

Houve tempo em que a profisso de jornalista era tida como de segunda classe. Fora os polticos que se utilizavam da imprensa como instrumento para a difuso de suas idias ou a concretizao de seus interesses, botando dinheiro prprio nos jornais, a imensa maioria vivia de receber vales, obrigava-se a trabalhar em diversos veculos e no raro morria na indigncia. A prpria Associao Brasileira de Imprensa nasceu como Caixa de Peclio para atender velhos profissionais sem aposentadoria. Seu fundador, Gustavo Lacerda, morreu na Santa Casa da Misericrdia, no Rio de Janeiro.

Rui Barbosa, Joaquim Nabuco, Julio Mesquita, Ronald de Carvalho, Armando de Salles Oliveira, Gilberto Amado e quantos outros eram profissionais liberais de sucesso ou nobres bem fornidos de recursos, especializados em campanhas polticas de sucesso, intitulando-se jornalistas por diletantismo. Bem diferente era a massa que cuidava da noticia, que reportava e editava as folhas, dividida entre a boemia e a quase misria. A sociedade referia-se a ela fazendo aqueles gestos de quem tange galinhas.

O tempo passou, espaos foram sendo abertos. Mesmo assim, usava-se a mdia, e hoje tambm se usa, como instrumento para ingresso na poltica. S que a categoria dos jornalistas foi crescendo, claro que ainda submetida a constrangimentos. Vieram as Escolas de Jornalismo, sem exigncia de diploma, aumentando da mesma forma o nmero de profissionais que cursavam Direito, Arquitetura e outras faculdades.

Nos idos dos anos cinquenta do sculo passado j se podia sobreviver com os salrios pagos pelos meios de comunicao, ainda que muitos jornalistas misturassem reportagem com publicidade ou histrionismo.

Deixamos de ser uma profisso de segunda classe, as exigncias da informao correta e verdadeira cresceram. A boemia foi ficando para trs, assim como a misria. Diminuiu a fora dos patres diante da noticia, ainda que continuassem impondo concepes e interesses.

Com a modernizao e a sofisticao dos meios de comunicao, alm da exigncia sempre maior dos leitores, ouvintes e telespectadores, acabamos aceitos na comunidade. Para isso contribuiu essencialmente a obrigatoriedade do diploma. S com conhecimentos ordenados do mundo e da tcnica jornalstica, adquiridos tambm pela experincia, tornou-se possvel s novas geraes ingressar na profisso a servio da notcia. Valoriz-la, conquistando espaos capazes de exigir melhores salrios e mais tica por parte das empresas. O culto notcia veraz e honesta cresceu, no obstante as excees, como em qualquer outra profisso.

A reao veio desde o incio, por parte de muitos patres, saudosos dos tempos em que dominavam por completo os jornalistas e as notcias. Como tambm, em progresso at maior, entrou em campo a raiva daqueles que se sentiam atingidos pelos fatos publicados. Tentarem e parece que conseguiram confundir-se com as instituies e as corporaes a que servem, interessados em sobrepor-se sociedade e, mesmo, ࠠ lei e aos bons costumes. Excessos aconteceram e acontecem do nosso lado, mas, como regra, o jornalismo imps-se como valor social.

A queda de brao permaneceu, assim como o conluio entre a maioria dos proprietrios e o monte de atingidos pela notcia, integrantes de instituies variadas, flagrados em lambanas ou simplesmente irritados por ver afirmar-se um outro poder capaz de arranhar e at de demolir suas maracutaias. Particularizando: no Congresso, nos partidos polticos, nos governos, nos tribunais, nas entidades empresariais, at nos sindicatos e nas universidades - os incomodados entenderam necessrio contra-atacar. Com inteligncia, fizeram alvo principal a obrigatoriedade do diploma para o exerccio da profisso de jornalista. Uma espcie de vingana, de revanche para eles capaz dispersar a categoria que os incomoda.

Ignora-se haver sido o Supremo Tribunal Federal um instrumento, um agente dessa reao, ou, simplesmente, as mos do gato com que as elites tiram as castanhas do fogo. Tanto faz, pois da deciso de dez ministros, em onze, acaba de sair o petardo supostamente letal para esmagar a fora da notcia. Apesar do protesto de alguns veculos e da promessa de seus proprietrios de que nada vai mudar e de que continuaro sendo admitidos em suas redaes os melhores profissionais, o risco de a teoria ser desmentida pelos fatos. Agora podero ingressar no jornalismo, alm dos jovens obviamente preparados, indivduos manipulveis, sem a formao necessria para o cumprimento de nossa obrigao maior, o culto notcia.

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