A vulgaridade é lixa áspera, que marca a deselegância da política em tempos de cólera

Resultado de imagem para marina colasantiMarina Colasanti

A vulgaridade é lixa áspera em que me ralo toda. E a vulgaridade está comandando o momento. Tento entender como queimamos as pontes que nos ligavam a comportamentos mais elegantes. Somos seres de rituais. Do café da manhã ao casamento, tudo é ritualizado. E cada rito é um combo que vem com seus próprios trajes e linguagem. Não participamos dos rituais com as mesmas roupas com que enfrentamos o batente. Nem com o mesmo espírito. Como um instrumento, o ritual exige embocadura.

Os juízes do Supremo usam togas, os padres usam batina, os generais usam fardas. Os trajes dizem do cargo. E, quando no cargo, quem os veste fala linguagens condizentes.

ESTRATÉGIA – Mas o presidente fala à nação envolto na capa do barbeiro e com voz displicente diz inverdades ofensivas, enquanto o profissional faz seu serviço de tesoura cuidando para não encobrir o cliente. Não se trata de acaso nem descuido. A cena bem concebida faz parte da estratégia “gente como a gente”.

Produto dos tempos modernos, essa estratégia destina-se a falar diretamente com o eleitor que gosta de se ver representado ipsis litteris, quase como em uma caricatura, e busca entre os candidatos aquele que replica não só seus pensamentos como suas próprias atitudes, que diz frases de botequim como ditas diante do balcão. É o eleitor que ainda não assimilou o conceito de representação simbólica. E, ao que parece, há muitos.

CORES POPULARES – Estratégia idêntica comanda frases como: “Os caras vão morrer na rua igual baratas, pô. E tem que ser assim”, em que o desleixe da frase veste de cores populares a ferocidade do conteúdo, e angaria seguidores a favor da “retaguarda jurídica”, porta aberta para os policiais matarem livremente.

É o mesmo princípio da propaganda que, em frases destinadas ao grande público, comete erros propositais de português para facilitar a identificação e garantir a aquisição do produto.

As redes sociais, veículo favorito do clã presidencial, aninham alto grau de estratégia e de vulgaridade. A estratégia mais frequentada consiste em mostrar-se melhor do que se é na realidade. Chama-se a isso “construir a imagem”. Arriscada arquitetura que põe na fachada somente o belo, e deixa o feio escondido, corroendo as estruturas – bom exemplo disso está na novela das nove, com a vilã construindo imagem impecável enquanto peca nas coxias. “Construir a imagem” tornou-se lícito, não sendo considerado imoral ou sequer expediente enganoso.

EXIBIÇÃO – A vulgaridade vai por conta da exibição. No passado remoto em que fui educada, exibir-se ou gabar-se era deselegante. Hoje é dever de cada um, atalho certo no caminho que conduz aos tapetes vermelhos e aos milhões de seguidores. Fomos engolidos pela multidão, só ganha destaque e dinheiro aquele que consegue emergir. E todos os meios para isso são considerados válidos, legítima defesa contra a escuridão do anonimato. Mais brilha quem mais se exibe.

Tenho me perguntado para que porta-voz oficial se quem porta a voz do presidente é ele mesmo, galopando desenfreado no dorso do Twitter ou em situações nada oficiais. O palavreado chulo, grosseiro, que não faz questão de disfarçar o ódio, brota inesperado e nos cobre de vergonha.

As pontes para a elegância foram queimadas há tempos em favor do mercado, e progressivamente cada um queimou as suas. Parafraseando o poeta, a elegância é só um quadro na parede, mas como dói a sua ausência.

(Crônica enviada por Carmem Lins)

15 thoughts on “A vulgaridade é lixa áspera, que marca a deselegância da política em tempos de cólera

  1. Essa voz que assombra deselegante e xula é SCRIPT.
    É encenação!

    A realidade está acontecendo por trás, acortinada, no camarim da ‘peca’, onde se negocia O BRASIL…
    A bola da vez é a Eletrobrás, estao decidindo quanto do dinheiro da conta de luz de cada brasileiro consumidor vai pra XP deles, e o Bozó, o palhaço que fica no palco como um amnulante com a placa na rua gritando “vende-se ouro” leva um ‘aportezinho’ de lambuja pra esconder com uns fincionarios 1 2 3 … queiróses da vida.

    • Prova disso é que o bagual firula têm plena consciência do estrago à sua reputação perante a opinião publica, e aumenta o escárnio ao invés de frear…
      Isso é Script, jogo sujo pra trouxa engolir….

      • Inclusive, cada passaporte diplomático que ele manda emitir no grito, é uma estrada pavimentada para escoar pra paraisos fiscais o dinheiro que esta sendo roubado no camarim.
        Cada um desses passaportes são umas 10 estradas a menos por ano, no Brasil….

        Um desastre anunciado todo dia, com baixaria, e há quem ainda dê um rim pra esses macacos….

  2. Muito boa cronica. É isso mesmo, crônica? Há muito tempo não ouço essa palavra. Atualmente os pensamentos têm que caber no twitter.
    Meu ponto de vista: embora a autora tenha razão em quase tudo que disse, acho que não podemos generalizar o que acontece em certos grupos sociais. A senhora esposa do Sergio Cabral e outras senhoras da sociedade, em uma comemoração em Paris (com o nosso dinheiro), mostraram orgulhosas as solas coloridas dos sapatos Louis Vuitton. A um tempo atrás isso se chamava cafonice.
    Todas as senhoras de autoridades ou de milionários são assim? Claro que não. A Melinda Gates se veste sem luxo nenhum e tem uma sobriedade admirável. Obama é um cara simples e genial. Os americanos, em geral, são frugais e muito educados. Para não me alongar, eu diria que nós não tivemos oportunidades de escolher boas pessoas para nos representar e aqueles que usam a internet para se exibirem são medíocres. Só um exemplo: Recebi pela internet uma foto que mostra passarinhos e flores em um jardim com os dizeres: “Um passarinho me contou que hoje vai ser um dia muito abençoado para todos nós!” No entanto o reportar da TV mostra cenas de gente sendo roubada, mulher sendo espancada e crianças passando fome. Dia abençoado pra quem?
    A mediocridade sempre existirá enquanto existirem medíocres. Ou: shit happens!

    • Cara, elegante é outra coisa!
      Não é Louis Vuitton!
      É respirar, existir, ter consciência do que voce está fazendo com o tempo que lhe é dado para viver!
      Voce pode optar por fazer disso algo medíocre, e perecer nas trevas, ou viver elegantemente, no sentido de ser probo e lapidar cada vez mais o seu cristal….
      Somos luz!
      Bozolados nao entendem disso, são um bando de urubus, sonhando que elegante é virar avestruz….

    • Ôu Íéah! Chíte répenz en dên iú dái….
      O lance é nao permitir que caguem nas nossas cabeças…
      Por exemplo, falar de um Gates, como se cosse flor que se cheire, so porque se veste assim assado???
      Caraca! Nem um ano de molho no sal de banho limpa essa merda….
      Vai crentando nisso.

  3. Outra coisa, o povo nao quer elegância, quer comida no prato, escola pros filhos, e essas coisas o Malazarte em questão NÃO VAI ENTREGAR…..

    A roda da fortuna girando, os empregos de contrato zero hora matando….

    Tá na hora de recolocarem um novo Sai de Baixo nas noites de Domingo, antes que a taxa de suicídios fique em primeiro lugar no Mundo….

  4. Voce assiste ao ELEGANTE presidente indo ao Piauí para inaugurar uma escola elegantemente batizada com o nome dele….

    Mais tarde, quando a maioria dos assalariados ja foi dormir, passa a reportagem mostrando o verdadeiro estado das instalações escolares no Brasil, cupim, jararaca na sala de aula, ferrugem, abandono total….
    Nessa hora perguntam a meia duzia de gatos pingados: quem é o responsavel?

    Faca essa pergunta voce, a que serve a encenação de uma escola Bozolado no Piauí????

  5. Bolsonaro é um merda deselegante, não aprende nunca, exemplos não faltam, Dilma, Lula, Márcia Tiburi, Marilena Chauí e outros Albae gallinae filius.
    Fico pensando o que eu faria se tivesse escrever uma cronica sobre a Dercy Gonçalves.

  6. Gostaria de ouvir da sra Marina Colassanti o que ela acha das Organizações Globo que divulgam materias mentirosas, pornográficas, e em muitos casos mal redigidas, em todos os seus veiculos de comunicação?

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