Aécio contribui para abalar Serra

Pedro do Coutto

Reportagem de Cátia Seabra e Valdo Cruz, Folha de São Paulo de 2 de março, revela que Aécio Neves, neto de Tancredo, convidou Ciro Gomes e Dilma Roussef, da mesma forma que o governador de São Paulo, para comparecerem à solenidade em Belo Horizonte que, na quinta-feira, marcará a passagem do centenário do ex governador de Minas que a fatalidade do destino impediu que chegasse à presidência da República.

Com esta atitude, o atual governador mineiro demonstrou não estar engajado, pelo menos com entusiasmo por Serra, inclusive descartando a hipótese de concorrer à vice em sua chapa. O convite a Ciro e Dilma não tem muita razão de ser, exceto dar uma demonstração de eqüidistância do pleito que vai se travar em Outubro. Ciro ainda poderia ter alguma proximidade com Tancredo, mas a ministra chefe da Casa Civil nenhuma.

Logo, o convite acentuou neutralidade que em nada acrescenta para Serra. Ao contrário. Distancia uma forte ala do PSDB da disputa sucessória. E não constituiu um ato isolado. Foi acompanhado pelo lançamento da chapa tucana Serra, ele próprio, tendo como companheiro na vice de Tasso Jereissati. Tasso acrescenta muito pouco a Serra. Aécio acrescentaria. Mas deixou claro que pretende disputar o Senado por Minas Gerais. Uma vitória aparentemente tranqüila.

O lance, isolado, já seria muito forte contra José Serra. Mas é que, ainda  por cima, vem na seqüência imediata da pesquisa do datafolha, que apontou um encurtamento de dez pontos entre Serra e Dilma na disputa presidencial. E isso sem que a campanha comece pra valer com a presença de Lula que, sem dúvida, está conseguindo transferir seu prestígio e seus votos para a chefe da Casa Civil.

Foram assim dois abalos no espaço de uma semana. O primeiro casual, resultado de uma pesquisa do Datafolha. Mas o segundo nitidamente intencional. Ambos produzem como conseqüência uma neutralidade de Aécio, que procurou assim, mais provavelmente, resguardar-se para 2014. Ou então escolher o governo de Minas como teto de seus projetos políticos. Serra, quer mantinha apenas quatro pontos na frente de Dilma, a partir desta semana, não deve livrar vantagem alguma. Sobretudo porque na solenidade de quinta-feira, também tanto Ciro, quanto Dilma e Aécio deverão discursar destacando a personalidade do homem que foi fundamental para o encerramento do ciclo dos militares no poder, mas não viveu infelizmente para ver sua obra executada.

Mas se isso pertence ao passado, quinta-feira pertence ao presente. E não se pode descartar a presença de Lula na solenidade, se estiver no Brasil, ou um pronunxciamento seu se estiver no exterior. O episódio de quinta-feiram sem dúvida, é um dos mais importantes que a campanha presidencial poderia proporcionar. Tanto de um lado, quanto de outro.

Maior vantagem para Dilma que pouco contato manteve com o presidente eleito em 85 que não assumiu depois de memorável campanha pelas diretas já e pelo fato de ter, em sequência e conseqüência, colocado seu nome nas ruas. Ele mobilizou duplamente a nação. Como principal autor de reabertura democrática não viveu para assistir sua obra. Ela continuou e talvez mude de mãos, sobretudo em função de uma falta de disposição de luta por parte de Serra do que pelo aguerrimento e motivação de Dilma.

O destino reserva episódios assim. Não quero dizer que, com isso, a sucessão esteja decidida. Mas o quadro de hoje está mais frio para Serra do que para a candidata do Planalto. A candidata de Lula com uma popularidade impressionante. Mas surpresas sempre pode haver. A de Dilma no Centenário de Tancredo é uma dessas.

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *