Ameaças de “medidas duras” contra governadores e prefeitos fizeram Fux enquadrar Bolsonaro

Ministro Luiz Fux ligou para cobrar explicações de Bolsonaro

Carlos Newton

Depois de passar os dois primeiros anos de gestão fazendo ameaças de golpe e se arvorando de estar no comando das Forças Armadas, o presidente Jair Bolsonaro conseguiu criar nova institucional na última sexta-feira (dia 19), ao proclamar que poderia baixas “medidas duras” contra governadores e prefeitos.

Depois de tantos exercícios infundados de jactância gratuita, empunhando a caneta esferográfica e tudo o mais, é impressionante que Bolsonaro ainda não tenha percebido que não é ele quem comanda as Forças Armadas. Quem o faz é inquilino do Planalto, seja quem for, mas apenas no exercício de suas funções, e só pode exercer esse comando em nome do interesse público e jamais em nome do interesse pessoal, sobretudo quando se trata de um político sem equilíbrio emocional e que circunstancialmente conseguiu chegar à chefia do governo.

MAIA E MINISTROS – Desta vez, o deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ), ex-presidente da Câmara, para ganhar mais 15 minutos de fama, apressou-se em informar ao presidente do Supremo, Luiz Fux, a gravidade da fala de Bolsonaro. Outros ministros do STF também o fizeram, como se Fux estivesse distraído ou desligado do noticiário político, algo que rigorosamente jamais acontece.

A verdade é que são tantos disparates de Bolsonaro que Fux já nem dá mais importância aos absurdos que o presidente diz a todo momento. Mesmo assim, atendendo a pedidos, Fux resolveu ligar para Bolsonaro para pegar a tradução simultânea e saber se o presidente da República estava se referindo a estado de sítio.

Tremendo na base, o chefe do governo negou e saiu com críticas à imprensa, que estaria distorcendo suas palavras, porque disse que “um terreno fértil para a ditadura é exatamente a miséria, a fome e a pobreza. Onde um homem, com necessidade, perde a razão. Estão esperando o quê? Vai chegar um momento, gostaria que não chegasse esse momento, mas vai acabar chegando”.

VALE PARA TODOS – O inesperado telefonema de Fux pode até ter levado Bolsonaro o entender o recado de que não apenas ele, mas também os presidente do Supremo e do Congresso podem pedir intervenção militar, nos termos do famoso art. 142, ao definir que “as Forças Armadas destinam-se à defesa da Pátria, à garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem”.

Ou seja, se Bolsonaro continuar bagunçando o coreto, como se dizia antigamente, tanto Fux quanto o senador Rodrigo Pacheco (DEM-MG), juntos ou separadamente, podem requisitar a ação dos militares.

É claro que Fux, hábil e educado, não tocou no assunto. Apenas indagou a Bolsonaro qual é o seu real objetivo com esses palavras, ou seja, cobrou explicações. E Bolsonaro teve de se explicar, fato que constituiu uma humilhação para o presidente da República, sem a menor dúvida. 

4 thoughts on “Ameaças de “medidas duras” contra governadores e prefeitos fizeram Fux enquadrar Bolsonaro

  1. Até nisso estamos ferrados.
    Como poderemos resistir a está verdadeira briga de foice entre o STF e os demais poderes.
    Mesmo errado, cada um tem o seu poder e não deve interferir no outro. Mas esta é a realidade.

  2. Seria ótimo, se não fosse irónico.

    Hoje, a composição maior do stf, infelizmente não passa de grupelhos, que usam seus cargos para tomarem decisões políticas, ao invés de se aterem às Leis…..

  3. Não posso deixar de registrar minha alegria de um remanescente do MDB histórico ao constatar ser nosso editor Dr. CN … o primeiro Jurista a explicar de Verdade o artigo 142.

    É mais válida por ele ter convivido na Constituinte.

    Sds.

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