Ao demitir o ministro da Defesa, Bolsonaro entra na fase do pré-golpe de seu sonho ditatorial

Charge do Flávio Luiz (Arquivo Google)

Carlos Newton

Sabe-se, com toda certeza, que o presidente Jair Bolsonaro é desprovido de equilíbrio emocional e não tem condições de continuar no cargo. Mas a democracia é assim mesmo e não há como pedir uma junta médica para examinar o chefe do governo. Assim, a gente vai levando, contém a indignação e fica torcendo para chegar logo à próxima eleição. Mas há ocasiões em que o presidente é quem se encarrega de encomendar a própria queda.

É exatamente o que está acontecendo com Jair Bolsonaro. Ao demitir o experiente ministro da Defesa, general Fernando Azevedo e Silva, o chefe do governo pretende que o substituto, general Braga Netto, um apagado chefe da Casa Civil, seja também desequilibrado a ponto de garantir envolvimento direto das Forças Armadas com a política, que é o principal motivo da atual crise.

NO FORTE APACHE – O descontentamento militar vem se arrastando desde abril do ano passado, quando o “gabinete do ódio” convocou e organizou uma manifestação antidemocrática diante do território sagrado do Forte Apache, Quartel-Geral do Exército, com discurso do próprio Bolsonaro, em meio a faixas e cartazes pedindo o fechamento do Supremo e do Congresso.

O fato concreto é que Bolsonaro, em seus delírios, desde a eleição julga ser comandante-em-chefe das Forças Armadas “lato sensu”, em sentido amplo, esquecido de que somente pode exercer esses poderes nos termos expressos contidos na Constituição.

Seu sonho é criar um estado de exceção que possa lhe garantir superpoderes institucionais, conforme ocorreu em 1964 e 1968, com edição do AI-1 e do AI-5, sem perceber que essa possibilidade é absolutamente impossível em período de democracia plena, como se vive no Brasil de hoje, apesar de todas as mazelas nacionais.

PRÉ-GOLPE – Na mente doentia de Bolsonaro, a demissão do correto e responsável general Fernando Azevedo e Silva corresponde a uma espécie de pré-golpe, suficiente para lhe garantir um automático alinhamento das Forças Armadas a seus planos de empolgar o poder ditatorialmente.

Na sua ignorância, ele pensa que basta nomear para o Ministério da Defesa um chefe militar vergável, amoldável e maleável, que troque os comandantes das Forças Armadas por oficiais também manejáveis, para abrir caminho ao estado de exceção. Mas será que o escolhido, general Walter Braga Neto, tem esse perfil?

“Oh, coitado!” – diria a humorista Gorete Milagres ao tomar conhecimento desses planos bolsonarianos. Realmente, o estado mental do presidente chega a dar pena. Como ele pode julgar que os militares brasileiros sejam de tão baixo nível? Como pretender que os oficiais superiores o acompanhem nessa tresloucada aventura, quando eles são formados e treinados exatamente para fazer o contrário e manter a democracia?

OUTRAS EXONERAÇÕES – Bolsonaro espera que entreguem seus cargos os comandantes do Exército, general Edson Pujol, da Marinha, almirante Ilques Barbosa Júnior, e da Aeronáutica, brigadeiro Antonio Carlos Moretti Bermudez, que se reuniram nesta segunda-feira, para tomar uma posição conjunta.

Hoje, 30 de março, exatamente na véspera da comemoração do golpe de 64, saberemos se os três comandantes vão permanecer ou também serão exonerados. Mas a exata extensão da crise somente será divulgada nesta quarta-feira, nas ordens do dia de Exército, Marinha e Aeronáutica, que irão relembrar o aniversário da chamada Redentora.

Em tradução simultânea, é grave a crise. Mas a democracia ainda não está sob ameaça. Isso só ocorrerá se houver quebra das normas constitucionais. No momento, o presidente pensa que se fortaleceu, mas na realidade pode estar cavando um abismo a seus pés, sem entender que o mundo é um moinho, como ensinava o mestre Cartola, numa linguagem simples, que até Bolsonaro pode entender.

11 thoughts on “Ao demitir o ministro da Defesa, Bolsonaro entra na fase do pré-golpe de seu sonho ditatorial

  1. É no que dá – pessoas com grande capacidade de análise votarem num notório coiteiro de milicianos.

    A área de atuação das milícias será sempre o Estado Paralelo. O desprezo pelo Estado de Direito. O desmonte desse último. Isso jamais foi segredo para ninguém minimamente esclarecido.

    No que consiste o “ofício” de miliciano? Mais uma vez reafirmo: até as PEDRAS do RIO sabem… venda de proteção, comercialização de drogas e armas, construção, venda e aluguel de imóveis clandestinos, exploração de transporte clandestino, venda de gás e serviço de tevê a cabo clandestinos, assassinatos por encomenda, etc, etc, etc.

    Tenho críticas severas à Exquerda e aos traidores do Povo, mas isso jamais ensejará – por meio do voto -, colocar no ilusório poder os criminosos ora nele encastelados.

  2. CN, bom dia! Suspeito que no segundo parágrafo tem uma correção.

    “(…) saberemos se os três comandantes vão sair ou também serão exonerados (…)”

    No lugar de sair – a intenção fosse escrever: permanecerão.

  3. O Bolsonaro já capitulou. Agora, todo poder emana do presidente da câmara, e em seu nome será exercido.
    Estamos inaugurando o parlamentarismo “a brasileira”, tal qual a Viúva Porcina, aquele que é, sem nunca ter sido. Coisas do Brasil.

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