Partidos do Centrão conseguiram acumular uma dotação eleitoral extra

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Charge do Newton Silva (newtonsilva.com)

Reynaldo Turollo Jr.
Folha

Cortejados por vários presidenciáveis antes de fecharem com Geraldo Alckmin (PSDB), os partidos do Centrão, bloco considerado a “noiva da eleição”, foram os que mais fizeram caixa no ano passado com recursos oriundos do fundo partidário, que é distribuído para a manutenção das siglas.

Esse dinheiro poderá ser usado na eleição, junto com a fatia que cada partido receberá do novo fundo eleitoral, o “fundão” de R$ 1,7 bilhão criado exclusivamente para financiar campanhas após a proibição de doações por empresas.

ECONOMIAS – O PR, com R$ 42,5 milhões em caixa, foi o partido que mais guardou recursos em 2017. Em seguida vem o PRB, com R$ 24,9 milhões, e, em terceiro lugar, o PP, com R$ 20,1 milhões. Somadas as economias dos três, o dote da noiva chega a R$ 88 milhões.

Em maio, em resposta a uma consulta de um parlamentar do Solidariedade, que também integra o centrão, o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) confirmou que os partidos poderão aplicar 100% das sobras do fundo partidário na campanha deste ano, junto com os recursos do novo fundo eleitoral.

Será o maior volume de recursos públicos já posto numa disputa eleitoral. As legendas ainda poderão usar uma parte do fundo partidário que vem sendo distribuído ao longo deste ano, mas esse valor é impossível de calcular no momento porque os partidos ainda não fecharam suas contas de 2018.

NA CAMPANHA – O PR e o PP disseram que vão empregar na campanha os recursos que guardaram em caixa. O PRB não foi específico, apenas informou que fará a campanha dentro da lei e com lisura.

Para receber sua fatia do fundo eleitoral, os partidos precisaram criar critérios —mesmo que muito imprecisos— e informar ao TSE como vão repartir o dinheiro entre seus candidatos. Já a repartição das sobras do fundo partidário poderá ser feita conforme a vontade dos dirigentes, sem divulgação prévia.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
É preciso ficar claro que se trata de recursos públicos, pois o Fundo Partidário é inteiramente formado com verbas do Tesouro. O Brasil é um dos países que sustentam os partidos políticos, que acabaram se transformando em balcões de negócios. E ainda chamam isso de democracia… Minha ironia não chega a tanto. (C.N.)

Primeiro, acabaram com Odeon, depois eles acabaram com a música brasileira

'Pelo Telefone', de BaianoRuy Castro
Folha

Há dias, numa coluna sobre João Gilberto, citei a gravadora Odeon como “a mais importante da nossa história fonográfica”. Um jovem pesquisador musical me perguntou: “Foi mesmo a Odeon? Não terá sido a Philips, que, entre 1960 e 1980, tinha Os Cariocas, o Tamba Trio, Elis Regina, Nara Leão, Jorge Ben, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, Gal e Bethânia?”.

De fato, a Philips dominou o mercado naqueles 20 anos. Mas o reinado da Odeon, cheio de pioneirismos, estendeu-se do começo do disco no Brasil, em 1902, até justamente os anos 60. Foi pela Odeon que o primeiro cantor brasileiro, o famosíssimo Bahiano, lançou o “Pelo Telefone”, em 1917. Foi também pela Odeon que, a partir de 1927, Francisco Alves e Mario Reis fixaram o samba, gravando os clássicos instantâneos de Sinhô e os da turma de Ismael Silva no Estácio.

CARMEN MIRANDA – Houve um momento nos anos 30 em que a Victor, a marca do cachorrinho, pareceu se impor. Ela já tinha Carmen Miranda, Silvio Caldas e Carlos Galhardo; conquistou por algum tempo Chico Alves e Mario Reis e revelou o fenômeno Orlando Silva. Mas bastou Carmen ir para a Odeon, em 1935, para esta recuperar a supremacia.

Então, de novo na Odeon, Chico Alves gravou “Aquarela do Brasil”, em 1939. E aí, por ela, vieram “Ai Que Saudades da Amélia”, em 1942, com Ataulpho Alves; “Baião”, em 1946, com os Quatro Ases e Um Coringa, inaugurando o gênero; e “Segredo”, em 1947, com Dalva de Oliveira, estabelecendo o samba-canção.

BOSSA NOVA – Foi na Odeon, em 1958, que a bossa nova começou, com João Gilberto. E, nos anos 70, enquanto a Philips tentava reduzir tudo à “MPB”, foi a Odeon que manteve o samba vivo, com Elza Soares, Paulinho da Viola, Clara Nunes.

A Philips foi importante, sim, mas só naquela fase. Antes de 1960, ela não existia. E, a partir dos anos 80, quem deixou de existir foi a música brasileira.

Chapa militarizada de Bolsonaro não é representante das Forças Armadas

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Bolsonaro e Mourão fazem reviver velhos estigmas

Eliane Cantânhede
Estadão

Se alguém acha que a atual campanha para a Presidência da República é uma boa propaganda para a imagem dos militares, está redondamente enganado. Depois do capitão Jair Bolsonaro, o general Hamilton Mourão e agora o inacreditável Cabo Daciolo, que foi do PSOL e concorre a presidente pelo Patriota, bom para quem? Na fala dele, sobra Deus e falta a letra “S”.

As Forças Armadas são a instituição mais admirada pela população em todas as pesquisas e os oficiais fazem sofisticados cursos na carreira, passam por escolas superiores de excelência, estudam geopolítica e estratégia. Demoraram anos para se livrar das marcas da ditadura, apesar de ainda não confortáveis com a abertura dos arquivos, e concluir esse ciclo da história.

VELHOS ESTIGMAS – Lamentável que a campanha resgate velhos estigmas e preconceitos, como o de que militares são toscos, turrões, alheios ao mundo fora da caserna – uns “brucutus”. Eles não são nada disso, mas o que dizer de Bolsonaro? Militar, largou a carreira como capitão por indisciplina e para ser vereador. Deputado desde 1991, no sétimo mandato, nunca se destacou no plenário, nas comissões, nem por projetos: dois em 27 anos. Candidato, demonstra evidente despreparo para governar um País complexo e mergulhado em crise como o Brasil.

Tem-se, pois, que o líder nas pesquisas, quando o nome do ex-presidente Lula não entra, é um militar que não é militar há quase 30 anos e um deputado que critica os colegas, mas é do “baixo clero”, usa imóvel funcional indevidamente e é acusado de desviar funcionários pagos pela Câmara para cuidar de sua casa no Rio. Ele, o filho mais velho, o segundo e o terceiro são políticos e até a ex-mulher tentou ser. Se a política é tão abjeta, o que a família inteira faz dentro dela? Um mistério.

VICE MOURÃO – Bolsonaro procurou seu vice entre astronauta, príncipe, pastor, general, socialite, advogada polêmica… O risco seria um príncipe presidindo nossa República ou o Brasil indo para o espaço com o astronauta. Prevaleceu o general Mourão, que já defendeu intervenção militar e já estreou como vice decretando a “indolência” dos índios e a “malandragem” dos negros. E o Exército é justamente reduto e símbolo dessa rica miscigenação brasileira.

Para piorar, os eleitores acabam de descobrir o Cabo Daciolo, que nem chegou a sargento, mas já se imagina presidente. Bombeiro, foi expulso da corporação depois de tentar invadir um quartel. Do PSOL, foi expulso por querer incluir Deus na Constituição. Uma piada, mas uma piada de mau gosto.

NADA A VER – Antes mesmo de Daciolo aboletar-se no debate de presidenciáveis na Rede Bandeirantes, o ministro da Defesa, general Joaquim Silva e Luna, já tinha dado o primeiro alerta de que as Forças Armadas não têm nada a ver com essas maluquices. Disse que vê “com naturalidade” Mourão na vice de Bolsonaro, mas frisando que não se trata de “uma chapa de militares”. Leia-se: “Não temos nada a ver com isso”.

Quem conhece de dentro as Forças Armadas e os generais Luna e Silva, Eduardo Villas Bôas, comandante do Exército, e Sérgio Etchegoyen, do Gabinete de Segurança Institucional, aplaudiu a fala: “Eles têm de se distanciar rapidamente dessa aventura do Bolsonaro, porque, depois que cola, não descola mais”.

SEGUIDORES – Bolsonaro atraiu legiões de seguidores nas redes sociais com a condenação à corrupção e um discurso conservador e caro à expressiva parcela da população, senão à maioria, na área de costumes: família tradicional, papel das mulheres, drogas, aborto.

Ok, é um direito de quem prega e de quem segue. Só não se pode transformar essa embalagem de comportamento social numa candidatura militar e menos ainda numa promessa de governo militar. Além da ameaça para o Brasil, é um enorme risco para as próprias Forças Armadas.

Projeto de Ciro para limpar nome prevê dívida de R$ 1,4 mil por família

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Ciro Gomes explica o seu “Refis para os pobres”

Deu no Correio Braziliense
Agência Estado

O candidato à Presidência da República pelo PDT, Ciro Gomes, afirmou calcular em cerca de R$ 1,4 mil a dívida por família que poderia participar de seu projeto de “limpar o nome” dos brasileiros no cadastro de inadimplentes do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC), medida que tem chamado atenção entre suas propostas. Em uma transmissão ao vivo no Facebook, o candidato rebateu críticas de seus adversários afirmando que não vai “tirar dinheiro do cofre do governo” para cumprir a promessa

Ciro descreveu a proposta afirmando que haveria negociações das dívidas das famílias com as empresas que estiverem fazendo a cobrança, para que fossem dados descontos no caso de uma quitação. Os R$ 1,4 mil da conta, disse, é a dívida já com descontos.

REFINANCIAMENTO – O próximo passo, segundo ele, seria envolver os bancos públicos, o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal, no refinanciamento das dívidas com desconto. “Quando você vai no feirão, a Serasa dá desconto para quitar a dívida. Eu vou começar por aquele que me dá o maior desconto”, afirmou. “Pego, então, o Banco do Brasil e a Caixa, e vou ganhar dinheiro com isso. Eles vão ganhar dinheiro”, afirmou. “Se o banco privado se interessar por isso, dou uma afrouxadinha no compulsório”, acrescentou.

Na transmissão ao vivo no Facebook, ele conversa com candidatos pelo PDT a deputado federal, além de candidatos a governador e senador do partido por São Paulo.

CRÍTICAS – A medida que propõe “limpar o nome” dos brasileiros tem sido alvo de críticas por parte de candidatos opositores. Em debate realizado na sexta-feira, dia 10, com assessores de diferentes candidaturas, a proposta de Ciro foi criticado sobretudo por Persio Arida, assessor econômico do tucano Geraldo Alckmin, que disparou contra o que chamou de “promessas irresponsáveis”, estimando que a proposta de Ciro teria um impacto superior a R$ 60 bilhões nas contas públicas.

Ciro rebateu as críticas afirmando que os recursos envolvidos no projeto são muito inferiores aos aplicados pelos últimos governos no refinanciamento de dívidas tributárias de empresas, no programa Refis.

TETO DE GASTOS – O candidato do PDT criticou ainda o estabelecimento do teto de gastos, proposto pelo governo em 2016 via emenda constitucional, que congelou por 20 anos as despesas públicas. O crescimento dos gastos foi limitado à inflação do ano anterior. Para o pedetista, a medida é uma “aberração”.

“Essa gente proibiu que se expanda o investimento por vinte anos. Tem que resolver isso, mas não é para afrouxar. Nos governos e cargos que ocupei, jamais gastei mais do que podia”, concluiu Ciro Gomes.

Direção do PSB tenta abortar a candidatura rebelde de Lacerda em Minas

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Candidatura de Lacerda virou uma guerra judicial

Bernardo Miranda
O Tempo

A novela que envolve a candidatura do ex-prefeito Marcio Lacerda (PSB) ao governo de Minas nas eleições deste ano ganhou mais um capítulo. O presidente nacional do PSB, Carlos Siqueira, negou o pedido de Lacerda para uma reunião destinada a aparar as arestas e dar um fim ao imbróglio. Na sexta-feira (10), Lacerda enviou uma carta para Siqueira pedindo um encontro nesta segunda-feira (13). O objetivo seria chegar a um acordo com o partido para manter sua candidatura ao governo de Minas, sem precisar de uma disputa judicial.

Porém, no sábado (11), o presidente nacional do PSB enviou uma carta com a resposta, referendando o posicionamento anterior, de retirada da candidatura do socialista. Siqueira reafirma que houve decisão unânime pela anulação da convenção estadual do partido que lançou a candidatura.

RECURSO AO TRE – Siqueira ainda criticou a ação judicial que Lacerda impetrou no Tribunal Regional Eleitoral (TRE-MG) pedindo que fosse considerada inválida a ata da legenda baseada na convenção nacional.

“Vossa senhoria apresentou em juízo narrativa fática totalmente distorcida da realidade, deixando de elencar a vossa contínua indecisão quanto à candidatura, bem como deixou de noticiar as inúmeras críticas dos segmentos organizados do PSB de Minas quanto à falta de prioridade às candidaturas proporcionais”, diz o texto assinado por Siqueira.

Na ação citada pelo presidente do PSB, a defesa de Marcio Lacerda afirma que a ata feita com base na convenção nacional tem informações falsas. A peça diz que em nenhum momento o ex-prefeito afirma que retiraria a sua candidatura ou que concordava com a anulação da convenção estadual realizada um dia antes. Uma perícia técnica com a transcrição das falas durante o encontro nacional foi anexada ao processo.

OUTRA AÇÃO – Neste sábado, a direção do PSB mineiro entrou com outra ação no TRE-MG em resposta a Lacerda. Nessa ação, o partido reafirma que Lacerda aprovou a anulação da convenção que referendou a sua candidatura. “Márcio Lacerda participou como delegado do XIV Congresso Nacional do PSB, em março, em Brasília, quando foi aprovada resolução definindo o leque de partidos do campo de alianças. E também aqueles que não o são: como o MDB, PSDB, DEM etc. Resolução que explicita que coligações com os partidos que estão fora do campo de alianças estão condicionadas a aprovação da Executiva Nacional. Marcio Lacerda também foi delegado no Congresso Nacional de 5 de agosto. Ele próprio votou pela anulação da ‘convenção’ que tentou realizar no dia 4 de agosto”, disse o presidente do PSB de Minas, Renê Vilela.

No sábado, Lacerda se posicionou sobre a negativa de Siqueira de tentar buscar uma saída política para a questão. Ele voltou a criticar o acordo firmado entre PSB e PT para a retirada de sua candidatura.

PERGUNTAS – “Quem construiu este acordo para impor que eu me candidate a senador na chapa do atual governador Fernando Pimentel, a quem faço oposição? A quem interessa este golpe contra os mineiros que desmerece toda a história do PSB, a qual me levou a filiar ao partido em 2007? A quais interesses este acordo serve? A quem ele beneficia? Uma certeza eu tenho: ao povo mineiro não é”, disse Lacerda.

No TRE-MG, há duas atas de convenções do PSB registradas. Uma com a convenção estadual, que referendou a candidatura de Lacerda, e outra com decisão nacional do partido, que orienta a coligação com o PT.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOGO presidente do PSB em Minas diz que Márcio Lacerda votou e foi filmado ao participar da decisão que agora contesta. Mas o candidato rebelde não aceita a afirmação, o que significa que um dos dois está mentindo. Isso é muito feio e logo saberemos que é o mentiroso. (C.N.)

Mantega tinha quase US$ 2 milhões em contas não declaradas”, afirma Moro

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Mantega já teve prisão decretada e foi salvo pela mulher

Matheus Leitão
G1 Notícias

Ao aceitar denúncia contra Guido Mantega e torná-lo réu, o juiz Sérgio Moro afirmou que o ex-ministro da Fazenda mantinha quase US$ 2 milhões no exterior não declarados às autoridades brasileiras nem à Receita Federal. Responsável pela Lava Jato na primeira instância, Moro define a descoberta como uma “inusitada revelação”.

“Agregue-se ao quadro probatório a inusitada revelação de que o acusado Guido Mantega é titular de não só uma, mas de pelo menos duas contas no exterior, uma em nome pessoal e outra em nome da off-shore Papillon Company, ambas abertas no Banque Pictet & Cie S/A”, afirma Moro. Somadas, as contas somam mais de US$ 1,9 milhão.

TENTOU LEGALIZAR – Moro ainda explica que a off-shore e o saldo respectivo só foram informadas ao Brasil na adesão, em julho de 2017, de Guido Mantega ao programa de regularização cambial e tributária imposta pela lei 13.254/2016. A regra foi aprovada durante o governo que ele fez parte.

O juiz da Lava Jato registra que Mantega explicou a existência dos valores com o suposto pagamento por fora de negócio imobiliário do Brasil. A questão, contudo, precisará ser melhor avaliada, segundo Moro, no momento e no processo próprio.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
Guido Mantega ée esperto e ardiloso. Seu erro foi tentar “legalizar” parte do dinheiro que estocou no exterior, comprovando o enriquecimento ilícito. É por isso que existe aquele velho ditado de que “peixe morre pela boca”. Afinal, como se sustenta o Sr. Guido Mantega, para ter essa vida fácil, de milionário, com plano de saúde no Sírio-Libanês em São Paulo? (C.N.)

 

Crítica do PT, socióloga diz que “inventou” Ursal em 2001 como ironia

A socióloga Maria Lucia Victor Barbosa

Maria Lucia Barbosa inventou a sigla há 17 anos

Denise Perotti
Folha

A Ursal (União das Repúblicas Socialistas da América Latina), sigla virtualmente desconhecida que virou piada nas redes sociais na semana passada após ser citada por Cabo Daciolo (Patriota) no primeiro debate na TV, é uma “ficção” criada há 17 anos.

A afirmação é da socióloga e professora universitária aposentada Maria Lucia Victor Barbosa, que diz à Folha ter inventado o termo Ursal em 2001 como uma ironia, uma crítica a um encontro do Foro de São Paulo em Havana que ocorreu naquele ano.

ATÉ FIDEL – Na ocasião, participaram da reunião do grupo, que reúne partidos latino-americanos de esquerda, Luiz Inácio Lula da Silva e o então ditador cubano, Fidel Castro, entre outros.

No evento, Lula fez um discurso veemente contra a Alca (Área de Livre Comércio das Américas), dizendo ser um projeto de anexação que os Estados Unidos queriam impor, afirmando que seria o fim da integração latino-americana.

Em artigo publicado na internet em 9 de dezembro de 2001 intitulado “Os Companheiros”, que foi reproduzido em alguns blogs à época, a professora escreveu: “Mas qual seria, me pergunto, essa tal integração no modelo Castro-Chávez-Lula? Quem sabe, a criação da União das Republiquetas Socialistas da América Latina (URSAL)?” —em tom de deboche, ela utiliza o termo Republiquetas, em vez de Repúblicas.

NA BLOGOSFERA – A partir daí, diz a professora, a sigla começou a se espalhar na blogosfera e fugiu a seu controle. A professora afirma que pessoas telefonavam para ela para saber se a tal união existia mesmo, e ela explicava que era uma invenção. “Eu falava para as pessoas ‘não passa isso’ [adiante], mas não teve jeito, de repente espalhou”, diz ela.

Na internet, a referência mais antiga encontrada pela Folha para a Ursal é o artigo de Maria Lucia. Cinco anos depois, em maio de 2006, a Ursal já era tratada como um fato em artigo do filósofo Olavo de Carvalho, papa do conservadorismo brasileiro, para o jornal Diário do Comércio.

Maria Lucia diz que ficou surpresa ao ver sua piada citada por Cabo Daciolo no debate da Band. “Isso é meu, olha onde foi parar, eu fiquei boba”, afirmou.

CIRO NO DEBATE – No encontro, na última quinta (9), Daciolo se dirigiu a Ciro Gomes (PDT) e perguntou a ele, “um dos fundadores do Foro de São Paulo”, o que teria a dizer sobre o plano da Ursal. Ciro responde que não é fundador do Foro e que desconhece a sigla.

Formada pela Universidade Federal de Minas Gerais, a socióloga não declara em quem vai votar para presidente, mas diz que na juventude era de esquerda. “Todos éramos de esquerda, eu achava lindo o Fidel Castro”, disse. “Aí, vc me pergunta, ‘o que mudou então?’ Vou parafrasear Paulo Francis: Eu era criança e cresci.”

Hoje a professora aposentada se diz adversária ferrenha do PT porque começou a perceber “que não ia dar certo, como não deu”. E disse que já perdeu coluna em jornal por censura a seus artigos.

QUINTO PODER – Maria Lucia tem alguns livros publicados, entre eles “O Voto da Pobreza e a Pobreza do Voto – a Ética da Malandragem” (Zahar, 1988) —que ela considera seu principal. É autora ainda de “Contos da Meia-Noite”, que, ela brinca, é para ser lido até esta hora, nunca depois.

A ex-professora da Universidade Estadual de Londrina agora se dedica a estudar as redes sociais e seus algoritmos, que ela denomina de “o quinto poder”.  “A mídia é o quarto poder e as redes sociais, sem dúvida, estão se tornando o quinto poder. Veja o caso de Jair Bolsonaro. Ele não tem partido, não tem dinheiro, não tem nada, mas é muito favorecido pelas redes. É um poder paralelo”, afirma ela.

A reportagem procurou a assessoria de Cabo Daciolo para comentar as observações da socióloga, mas não conseguiu falar com ele.

Bolsonaro usou uma estratégia diferenciada no primeiro debate das eleições

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Bolsonaro, menos radical, foi a surpresa do debate

Marcelo de Moraes
Estadão

Com os candidatos disputando migalhas de tempo para falar, é quase um devaneio achar ser possível aprofundar discussões nesse tipo de debate a ponto de mudar o voto de algum eleitor. Mesmo veteranos em eleições presidenciais como Marina Silva, Ciro Gomes e Geraldo Alckmin não conseguiram superar a superficialidade nos temas tratados.

Apenas um candidato mostrou ter uma tática definida para usar no debate da Band. Jair Bolsonaro aproveitou a ocasião para exibir um figurino diferente. Sem gritar (muito), fugindo de provocações e fazendo observações ponderadas, Bolsonaro foi para o programa claramente tentando transmitir o recado que não é um desequilibrado, sem condições de governar o País.

TABELINHAS – O candidato do PSL foi até mais longe, fazendo surpreendente tabelinhas com o senador Alvaro Dias, elogiando sua preocupação em abrir “a caixa preta” do BNDES, e com Cabo Daciolo, do Patriota. Bolsonaro parece, inclusive, já estar mirando numa potencial aliança para o segundo turno. Chegou ainda a trocar ideias de forma civilizada e bem humorada com Ciro Gomes, outro candidato famoso pelo pavio curto.

Em vantagem nas pesquisas nos cenários em que Lula não é incluído, Bolsonaro saiu do debate sem desgastar esse patrimônio. Uma recompensa para o único candidato que parece ter entendido que tipo de vantagem poderia tirar desse modelo de discussão.

MUITOS INDECISOS – Não é pouca coisa, considerando o elevado número de eleitores indecisos que não sabem sequer se votarão em alguém. Mas Bolsonaro sabe que ainda precisa melhorar muito sua imagem. Ele é constantemente acusado de ser racista, machista e homofóbico, como Guilherme Boulos, do PSOL, lhe jogou na cara logo na abertura do debate.

Para os outros candidatos, sobrou a lição de que precisam chegar aos debates com algum tipo de plano. Falar por falar se torna mero ruído para quem está do outro lado da tela acompanhando o programa. Sempre é bom lembrar que a corrida presidencial é curta. Faltam menos de dois meses para a eleição. Chances desperdiçadas não reaparecerão.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
Muito interessante a análise de Marcelo de Moraes, que focou bastante em Jair Bolsonaro. Mas é claro que os demais candidatos também tinham suas próprias estratégias. Ciro Gomes, por exemplo, entrou num linha bem-humorada, enquanto Alvaro Dias e Marina Silva passaram a bater mais forte, revelando mudança de estratégica. Quanto a Geraldo Alckmin, o tucano manteve a postura de sempre, de caráter defensivo, pelo que percebi nos dois primeiros blocos do debate, a que consegui assistir, antes de cair nos braços de Morfeu. (C.N.)

Os pequenos grandes terremotos que nos abalam, na visão de Affonso Romano

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Site Poemas & Canções

O jornalista e poeta mineiro Affonso Romano de Sant’Anna, no poema “Assombros”, confessa os abalos que lhe ocorrem, mas que os outros nem percebem.

ASSOMBROS
Affonso Romano de Sant’Anna

Às vezes, pequenos grandes terremotos
ocorrem do lado esquerdo do meu peito.
Fora, não se dão conta os desatentos.
Entre a aorta e o omoplata rolam
alquebrados sentimentos.
Entre as vértebras e as costelas
há vários esmagamentos.
Os mais íntimos
já me viram remexendo escombros.
Em mim há algo imóvel e soterrado
em permanente assombro.

Na eleição, votar em branco ou anular o voto beneficia quem está na frente

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Charge do Diogo (Arquivo Google)

Pedro do Coutto

Analisando-se de forma serena e objetiva a lei eleitoral brasileira, chega-se à conclusão de que não adianta o eleitor que deseja expressar sua rejeição pela política votar em branco ou anular o voto. Tanto nas eleições majoritárias, presidente da República, governador e senador, quanto nas eleições proporcionais para a Câmara Federal e Assembleias Legislativas.

Nas eleições para presidente da República, por exemplo, votar em branco ou anular é indiretamente favorecer o que vai na frente, inclusive votar em branco ou anular pode fazer com que não haja segundo turno. Tal hipótese é improvável na disputa presidencial, mas é possível que ocorra nas eleições para governador.

CÂMARA E SENADO – A disputa pelo Senado não tem segundo turno. Nas eleições para deputado, o voto branco e nulo é ignorado, sobretudo seu efeito pode alterar para menos o quociente partidário.

O quociente partidário resulta da divisão dos votos válidos pelo número de cadeiras em jogo. Assim, quanto maior for a parcela de brancos e nulos, menor será o quociente. Se o voto nulo ou branco reduzisse o número de cadeiras, poder-se-ia dizer que o eleitor que anulou estaria diminuindo o número de vagas. Mas a legislação não prevê isso. O número de cadeiras não diminui; ao contrário, torna mais fácil a reeleição exatamente daqueles que o eleitor ou eleitora deseja substituir. Dessa forma, esterilizar o sufrágio é, no final das contas, uma atitude conservadora.

ELEITORES FIEIS – Vale frisar também que os eleitores que formam a base fisiológica dos candidatos que mais cultivam esses redutos não deixarão de votar de maneira alguma.

Para presidente da República, o voto branco ou nulo favorece o candidato que vai na frente nas pesquisas.

Se o líder não for do agrado de parcela do eleitorado, o jeito é escolher um candidato e, com isso, forçar o desfecho no segundo turno. Este ano o primeiro turno é dia 7 de outubro, e o segundo no dia 28 do mesmo mês.

FRUSTRAÇÕES – Os eleitores que rejeitam o quadro político ficarão frustrados consigo mesmos. Não adianta nada tal atitude, ao passo que escolhendo um candidato ele pode evitar que a eleição se decida anda no primeiro turno. Esta lógica se estende às disputas pelos governos estaduais.

Por isso, digo eu, marque seu candidato ou candidata na máquina eletrônica e tenha certeza de que assim agindo você estará fortalecendo o direito democrático do voto.

Alguém tem que ocupar o poder e para chegar ao poder só existem dois caminhos:  pelas urnas ou pelas armas. Vamos sempre pelas urnas.

Campanha do PT, comandada por Lula dentro da prisão, desmoraliza a Justiça

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Charge do Vascap (Arquivo Google)

Carlos Newton

Bem, o fato concreto é que chegou a um ponto realmente inadmissível a permissividade em relação ao procedimento de Lula da Silva dentro da prisão, na Superintendência da Polícia Federal em Curitiba. Lá de dentro de sua cela/quitinete, o ex-presidente está comandando diretamente a campanha presidente do PT, porque tem total liberdade de receber os visitantes que bem entender e ficar com eles o tempo que desejar. Na última sexta-feira, por exemplo, passou quase quatro horas seguidas com a senadora Gleisi Hoffmann, a pretexto de lhe transmitir a decisão de mudar o rumo da campanha do PT e levar às ruas o vice oficial Fernando Haddad e a vice reserva Manuela d’Ávila.

Dentro da carceragem, Lula reúne-se livremente com companheiros de partido, advogados, parentes e amigos. No último dia 2, por exemplo, recebeu os amigos Martinho da Vila e Chico Buarque para uma visita amistosa e depois teve um prolongado encontro político com Gleisi e Haddad.

O JUIZ PERMITE – Essa abusiva liberdade de receber visitas demonstra que no Brasil a Constituição está equivocada ao determinar que todos são iguais perante a lei. O responsável pelas decisões sobre a custódia do ex-presidente é o juiz Danilo Pereira Júnior, titular da 12ª Vara Federal de Curitiba, que autorizou essa prisão tipo “sessão passatempo” exclusivamente para Lula, o único preso brasileiro que tem direito a essas regalias.

Mas nem sempre foi assim. Quando Lula foi preso, em abril, o juiz Pereira Júnior tinha sido convocado para assumir outras funções no Judiciário e foi substituído pela juiz Carolina Moura Lebbos, tida como uma magistrada discreta, técnica e rígida com os presos oriundos da Lava Jato.

Foi ela quem negou a visita de um grupo de governadores ao ex-presidente, em 10 de abril, 24 horas após a prisão. A juíza seguiu à risca as regras da carceragem na Superintendência da Polícia Federal em Curitiba, que permite visita de apenas três familiares aos detentos em apenas um dia da semana, entre 8h30 e 11h30 e 13h30 e 17h30.

ADVOGADOS – As visitas de advogados são permitidas, é claro, mas não podem ser diárias nem a qualquer hora do dia, a pretexto de o detento transmitir ao PT as longas mensagens que na verdade são redigidas por seus defensores.

Em tradução simultânea, a prisão de Lula virou Piada do Ano, embora a Lei de Execução Penal determine que o direito à visita pode “ser suspenso ou restringido mediante ato motivado do diretor do estabelecimento”. No caso, o comando da carceragem ou a Superintendência da PF. Mas na verdade não se vê nenhuma iniciativa destinada a acabar com a transformação da cela de Lula em escritório eleitoral e outras coisas mais, porque ele é um preso com privacidade total, é como se morasse num pequeno apartamento.

Essa situação desmoraliza não somente a Justiça, mas também a própria Polícia Federal.

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P.S. 1
E o ex-presidente Lula pode repetir seu famoso bordão e dizer que nunca antes, na história deste país, houve um preso com tamanhas regalias como um tal de Luiz Inacio.

P.S. 2 – Nesta segunda-feira, por exemplo, o vice Fernando Haddad, sem pedir autorização a ninguém, estará com Lula e Gleisi Hoffmann para que o ex-presidente aprove o material de campanha do PT. Em tradução simultânea, podemos dizer que reina a esculhambação também na República de Curitiba. (C.N.)

Fux envia à primeira instância o inquérito sobre corrupção do ministro Kassab

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Desde prefeito, Kassab recebia propinas da Odebrecht 

Mariana Oliveira
TV Globo, Brasília

O ministro Luiz Fux, do Supremo Tribunal Federal (STF), enviou à Justiça de São Paulo o inquérito que investiga o ministro da Ciência, Tecnologia e Comunicações, Gilberto Kassab. O inquérito foi aberto após as delações de executivos da Odebrecht e apura se Kassab recebeu R$ 20 milhões em vantagens indevidas da empreiteira entre 2008 e 2014, o que ele sempre negou.

Conforme a Procuradoria Geral da República (PGR), os valores seriam “contrapartida a uma série de benefícios deferidos em favor da Odebrecht, quando [Kassab] era prefeito de São Paulo e ministro das Cidades do governo Dilma”.

SEM FORO ESPECIAL – Ao enviar o caso para a Justiça de São Paulo, Luiz Fux atendeu a um pedido da PGR segundo o qual o processo deveria deixar o Supremo porque os fatos investigados ocorreram quando Kassab não era ministro da Ciência e Tecnologia.

Em junho deste ano, a Primeira Turma do STF decidiu restringir o foro privilegiado de ministros do governo a crimes cometidos no exercício da função e em razão do cargo. Ao analisar o caso de Kassab, Fux destacou que o processo deveria ser enviado para a primeira instância por se encaixar neste entendimento.

“O investigado teria praticado os fatos delituosos quando exercia o cargo de prefeito da cidade de São Paulo e de ministro das Cidades. Conclui-se que os fatos não foram praticados no exercício do cargo exercido atualmente pelo investigado nem estão a ele relacionados, razão pela qual não incide a competência constitucional do Supremo Tribunal Federal para o processo e julgamento da presente causa”, afirmou o ministro.

Está confuso, mas eu sonho com um país melhor e mais justo

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Foto reproduzida do Arquivo Google

Leonardo Boff

“Faz escuro mas eu canto porque a manhã vai chegar”, proclamou o poeta Thiago de Mello na época sombria da ditadura civil-militar de 1964. ”Está confuso mas eu sonho”, digo eu, nestes tempos não menos sombrios. O sonho ninguém pode prender. Ele antecipa o futuro e anuncia o amanhã.

Ninguém pode dizer o que vai ser deste país após o golpe parlamentar-jurídico-mediático de 2016. Faz escuro e tudo está confuso mas eu sonho. Este sonho está rodando em minha cabeça há muitos dias e resolvi expressá-lo para alimentar a nossa inarredável esperança.

MÃE TERRA – Sonho ver um Brasil construído de baixo para cima e de dentro para fora, forjando uma democracia popular, participativa e sócio-ecológica, reconhecendo como novos cidadãos com direitos, a natureza e a Mãe Terra.

Sonho ver o povo organizado em redes de movimentos, povo cidadão, com competência social para gerar as suas próprias oportunidades e moldar o seu próprio destino, livre da dependência dos poderosos e resgatando a própria autoestima.

Sonho ver a utopia mínima plenamente realizada de comer pelo menos três vezes ao dia, de morar com decência, de ter frequentado a escola por oito anos, de cursar a universidade e a pós-graduação, de receber por seu trabalho um salário que satisfaça as necessidades essenciais de toda a família, de ter acesso à saúde básica e depois de ter labutado por toda uma vida, ganhar uma aposentadora digna para enfrentar, serenamente os achaques da velhice.

CASAMENTO – Sonho ver celebrado o casamento entre o saber popular, de experiências feito, com o saber acadêmico, de estudos feito, ambos construindo um país para todos, sem excessos e também sem carências.

Sonho ver o povo celebrando suas festas com muita comida e alegria, dançando o seu São João, o seu Bumba-meu-Boi, seu samba, seu frevo, seu funk e seu esplêndido carnaval, expressão de uma sociedade sofrida mas que se encontrou na fraternura e na alegre celebração da vida.

Sonho ver aqueles que foram condenados a sempre perder, sentirem-se vitoriosos porque o sofrimento não foi em vão e os amadureceu para, com outros, construírem um Brasil diferente, uno e diverso, hospitaleiro e alegre.

SEM MEDO – Sonho contar com políticos que se abaixam para estar à altura dos olhos do outro, despojados de arrogância, conscientes de representar as demandas populares, fazendo da política cuidado diligente da coisa pública.

Sonho andar por aí à noite sem medo de ser assaltado ou vítima de balas perdidas podendo desfrutar da liberdade de poder falar e criticar nas redes sociais, sem logo ser ofendido e difamado.

Sonho contemplar nossas florestas verdes, nossos imensos rios regenerados, nossas soberbas paisagens e a biodiversidade preservada, renovando o pacto natural com a Mãe Terra que tudo nos dá, reconhecendo seus direitos e por isso tratá-la com veneração e cuidado.

Sonho ver o povo místico e religioso, venerando a Deus como gosta, sentindo-se acompanhado por espíritos bons, por forças portadoras da energia cósmica do axé, dando um caráter mágico à realidade com a convicção de que, no fim, por causa de Deus-Pai-e-Mãe de infinita bondade e misericórdia, tudo vai dar certo.

UMA REALIDADE – Sonho que este sonho não seja apenas um sonho  mas uma realidade ridente e factível, fruto maduro de tantos séculos de resistência, de luta, de lágrimas, de suor  e de sangue.

Só então, só então, poderemos rir e cantar, cantar e dançar, dançar e celebrar um Brasil novo, o maior país latino do mundo, uma das províncias mais ricas e belas da Terra que a evolução ou Deus nos entregara.

Termino com o grande cantor das Comunidades eclesiais  de base, Zé Vicente de  Crateús: Sonho que se sonha só pode ser pura ilusão, mas sonho que se sonha junto é sinal de solução. Então vamos sonhar companheiros e companheiras, sonhar ligeiro, sonhar em mutirão” (Zé Vicente de Crateús)

Assim o quer o povo brasileiro e nos ajude Deus.

PT continua dividido sobre a saída imediata de Lula da disputa presidencial

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Charge do Jota A (Jornal O Dia/PI)

Alessandra Azevedo e Renato Souza
Correio Braziliense

Com o candidato oficial do partido preso em Curitiba e ausente do primeiro debate entre os presidenciáveis, o PT reavalia a estratégia para a campanha. A sigla continua decidida a registrar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em 15 de agosto, mas repensa o que fazer a partir de então. Com base em levantamentos internos, a direção do PT já avalia que a próxima pesquisa eleitoral vai mostrar uma queda na intenção de votos em Lula — reflexo da ausência no debate e sintoma da necessidade de uma mudança de rumos.

A legenda está dividida sobre como agir nos próximos dias para não piorar o quadro e perder algo em torno de 20% a 30% do eleitorado que Lula ostenta até agora, a depender do cenário.

DEBATES – A última esperança de boa parte dos petistas é que, quando a candidatura for oficializada, a Justiça o libere para participar de debates. As divergências internas ficam mais fortes diante da possibilidade de que venha outra negativa do Judiciário em relação à possibilidade dele fazer campanha — como ocorreu esta semana — ou a decisão do TSE de impugnar a candidatura do ex-presidente, algo que a direção do partido espera que aconteça até uma semana depois dos registros, em 22 de agosto.

Em qualquer um desses casos, uma ala defende a troca imediata do nome dele pelo do vice, Fernando Haddad, enquanto outra aposta em recursos para esticar a exposição de Lula como candidato.

A segunda corrente, da qual fazem parte a presidente nacional do PT, Gleisi Hoffmann, e o senador Lindbergh Farias (RJ), é favorável à manutenção de Lula como cabeça de chapa o máximo de tempo possível, mesmo depois que o TSE decidir pela nulidade da candidatura.

RECURSOS – Gleisi e Lindbergh defendem a apresentação de recursos, o que esticaria o tempo dele como candidato por mais alguns dias, porque entendem que desistir antes de o TSE tomar uma decisão iria contra o argumento defendido pela legenda até agora, de que Lula é um preso político e está sendo injustamente impedido de participar das eleições.

“Eles vão ter que abrir mão em algum momento, mas acredito que evitam fazer isso muito cedo para não enfraquecer o discurso”, avalia o cientista político Sérgio Praça, da Fundação Getulio Vargas (FGV).

Mesmo admitindo que é necessário um “selo” da impugnação do TSE para abrir mão do nome do ex-presidente sem cair em contradições, outro grupo quer que Haddad assuma o quanto antes a chapa, assim que a Corte decidir negar a candidatura.

SAÍDA IMEDIATA – Entre os defensores dessa ideia estão o senador Jorge Viana (AC) e o ex-governador da Bahia e ex-ministro da Casa Civil Jaques Wagner. Essa ala considera muito arriscado deixar o PT sem representação nos debates e, talvez, na propaganda eleitoral gratuita, a depender de decisão judicial a respeito desse assunto. “O problema é convencer Lula disso”, disse um cacique petista.

Um dos riscos de manter a candidatura de Lula até o fim é de que o partido perca votos por não aparecer o suficiente, o que, em uma corrida fragmentada como a que se desenha, é um perigo real de que o PT não chegue ao segundo turno. Enquanto outros candidatos se expõem, ganham destaque e conseguem apresentar propostas, o petista está, literalmente, isolado. O partido está perdendo “preciosos dias de campanha para apresentar Haddad”, que é pouco conhecido em nível nacional, pondera o cientista político Sérgio Praça.

ESTRATÉGIA – A reavaliação da estratégia petista ficou clara em entrevista coletiva concedida na tarde de ontem por Gleisi, após visita a Lula, em Curitiba. Apesar de ter reafirmado que o ex-presidente é o candidato oficial do partido, que o nome dele será registrado em 15 de agosto e que é a foto dele que estará nas urnas em 7 de outubro, a senadora fez uma observação que sinaliza para uma mudança de rumos ao relembrar que, “durante a campanha, o nosso candidato a vice é o porta-voz do presidente”.

Segundo Gleisi, Haddad “vai andar o Brasil, vai fazer os debates, vai participar das sabatinas, vai ser a voz de Lula, do nosso programa, do nosso projeto para o povo brasileiro” — ou seja, fará todas as tarefas atribuídas a um candidato cabeça de chapa, não ao vice.

INVISÍVEL – Os receios do partido ficaram ainda maiores diante da pouca visibilidade do “debate alternativo” promovido por Haddad e a aliada Manuela D’Ávila (PCdoB) — vice-candidata, quando Lula sair de cena — ao vivo na internet, durante o debate de quinta-feira.

As visualizações foram muito abaixo do que os petistas esperavam. Apenas 44,8 mil visualizações, contra 2,6 milhões que viram o debate oficial, sem representante do PT e quase nenhuma menção à candidatura de Lula, que foi encarado pelos candidatos como página virada.

O partido tentou minimizar o fato de Lula ter sido pouco mencionado e da ausência dele não ter sido suprida pelo debate paralelo.

DIZ GLEISI – Sexta-feira, em entrevista coletiva em Curitiba, após visitar o ex-presidente na sede da Polícia Federal, em Curitiba, a presidente do partido, Gleisi Hoffmann, afirmou que ele “só viu um pedaço do debate”, que considerou “sem propostas”. Mas, nos bastidores, a ausência preocupa muitos dirigentes do partido.

Depois de ter sido invisibilizado no debate, Lula corre o risco de não aparecer no horário eleitoral gratuito, que começa em 31 de agosto, segundo a especialista em direito eleitoral Karina Kufa. Se a justiça criminal não autorizá-lo a participar das propagandas oficiais na televisão e no rádio, ele não pode ser substituído pelo vice, explica. “É a mesma lógica do debate”, diz. A propaganda eleitoral gratuita vai até 4 de outubro, três dias antes do primeiro turno.

Poder Judiciário tem estourado sistematicamente o teto de gastos públicos

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Charge sem assinatura (Arquivo Google)

Rosana Hessel
Correio Braziliense

O Judiciário vem estourando o limite do teto de gastos desde a entrada em vigor da Emenda Constitucional 95, mas só poderá ter os excessos cobertos pela União até este ano, o que será incompatível com o aumento de 16,38% nos salários propostos para os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Se o reajuste for aprovado pelo Congresso, o Judiciário terá, por lei, que passar a tesoura em outras despesas. Só o STF terá incremento de R$ 3 milhões na folha de pessoal em 2019. No Judiciário, os gastos crescerão mais de R$ 700 milhões.

Em 2017, os gastos do Judiciário, incluindo a Justiça Militar, subiram 7,8%, superando a correção de 7,2% prevista no teto de gastos. As despesas somaram R$ 45,2 bilhões ante os R$ 41,9 bilhões desembolsados em 2016, conforme dados do Painel do Teto de Gastos do Tesouro Nacional.

JÁ ULTRAPASSOU– Agora em 2018, o índice de correção das despesas sujeitas à EC 95 é de 3%, já ultrapassado de janeiro a junho, segundo informações preliminares do Tesouro. No período, os gastos do Judiciário foram de $ 22,9 bilhões no primeiro semestre, o que equivale a um salto de 8,49% sobre as despesas do mesmo período de 2017, quase o triplo da regra do teto.

O limite total para as despesas da União sujeitas ao teto de gasto deste ano é de R$ 1,347 trilhão. Para o ano que vem, considerando a inflação acumulada em 12 meses até junho, de 4,39%, esse montante será corrigido em R$ 59 bilhões, passando para R$ 1,406 trilhão.

Pelas contas do economista Bruno Lavieri, da 4E Consultoria, de início, sem considerar os reajustes do Judiciário, o próximo governo precisará cortar pelo menos R$ 10 bilhões para cumprir esse novo teto.

DESCUMPRIMENTO – “O teto corre o risco de não ser cumprido em 2019, e, na verdade, será o primeiro ano com essa emenda funcionado e com maior restrição de despesas. Na prática, o próximo governo terá que negociar os cortes e ainda conviver com as pressões de reajustes dos servidores sem ter espaço no Orçamento para acomodar os aumentos”, avisa Lavieri.

O espaço para cortes, contudo, é cada vez menor. Pela Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2019, aprovada pelo Congresso em julho, o governo só poderá mexer em R$ 98,4 bilhões, recursos destinados à manutenção da máquina, aos investimentos e ao Bolsa Família.

Essa quantia é R$ 30,5 bilhões inferior aos R$ 128,9 bilhões reservados para as despesas discricionárias neste ano.

GATILHOS – Pelas regras da emenda do teto, quando ele não for cumprido, vários gatilhos deverão ser acionados e os órgãos serão proibidos, por exemplo, de conceder reajuste aos servidores, de contratar pessoal ou de realização de concursos, além de suspender a concessão de subsídios.

Mangabeira Unger, um profeta entre originalidade audaciosa e lugar-comum

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Mangabeira está lançando seu novo livro

Otavio Frias Filho
Folha

​O filósofo brasileiro Roberto Mangabeira Unger está lançando um novo livro, “Depois do Colonialismo Mental – Repensar e Reorganizar o Brasil” (Autonomia Literária). Novo livro em termos, pois se a segunda parte do volume é composta de artigos publicados na imprensa, principalmente neste jornal, a primeira é um ensaio em que o autor burila, mais uma vez, as ideias que o inspiram desde a segunda metade dos anos 1970.

Os escritos de Mangabeira, pela originalidade audaciosa, deveriam interessar todo brasileiro preocupado com o país.

Ele descarta tanto as políticas autoritárias do marxismo, que falharam no teste da prática, quanto as vertentes autonomistas da extrema-esquerda. Além de repelir também o pensamento de direita, por ser retrógrado e mesquinho, ele é ainda um crítico acerbo das combinações de liberalismo e social-democracia que estiveram em voga nas últimas décadas, por se limitarem a humanizar aspectos do capitalismo, em vez de “reinventá-lo”.

DUAS FONTES – As origens de um pensamento assim peculiar e intransigente estão em duas fontes. De um lado, o “progressismo” que vigorou nos Estados Unidos da primeira parte do século 20, sobretudo nos governos reformistas dos dois Roosevelt, que canalizaram a pressão popular crescente no rumo do estímulo ao pequeno negócio e da regulamentação dos oligopólios. De outro, a fé em fórmulas redentoras que se encontra tanto no puritanismo americano como no catolicismo messiânico brasileiro.

Mangabeira começa onde começaram tantos de seus antecessores, pelo descompasso entre as potencialidades incalculáveis do Brasil, dadas por sua unidade, vitalidade e sincretismo, e o pouco que se obteve até agora em termos de realizações emancipatórias.

REFORMISMO – Seu texto vem embalado numa fulgurante retórica baiana que pode iludir. Suas ideias sobre educação, por exemplo, não estão longe do que virou lugar-comum no tema, ou seja, máxima prioridade a um ensino que capacite as inteligências para resolver problemas concretos e desenvolva sua visão crítica do mundo.

Quais os estratos a serem mobilizados por esse reformismo radical? São os emergentes, com sua paixão por subir na vida, são os batalhadores, que tendem a seguir aqueles, são as massas menos qualificadas, que têm pouco a perder.

Aqui sempre caiu a linha divisória entre nosso autor e os petistas, que ele via como representantes da aristocracia operária de São Paulo –mas isso até ceder ao canto de sereia de Lula, dois anos após ter clamado pelo impeachment deste, para assumir em 2007 uma etérea Secretaria de Planejamento de Longo Prazo (que Reinaldo Azevedo apelidou inesquecivelmente de “Se Alopra”).

CONTRAPESOS – Até mesmo o mecanismo de freios e contrapesos, considerado em ciência política a maior contribuição dos redatores da Constituição americana à democracia, é rejeitado por Mangabeira, que nele vê uma fórmula conservadora de desacelerar e esfriar a política, quando esta deveria ser conduzida pela paixão sob as rédeas da razão. O autor propõe uma mistura de democracia representativa e direta, com recurso frequente a plebiscitos e “recalls” de governantes.

Os social-democratas brasileiros, para voltar por um momento a eles, são imitadores acanhados, que desejam fazer do Brasil uma “Suécia tropical”.

Mas o que haveria de tão errado nisso? Ora, diz Mangabeira, a tarefa mundial do Brasil é mostrar que é possível associar “pujança e ternura”. Somente isso poderia traduzir nossa verdadeira grandeza, definida como disposição para nos colocarmos em pé e irmos além de nossas próprias possibilidades. É certamente esse aspecto da utopia mangabeirana que sensibiliza artistas ambiciosos, como Caetano Veloso, autor do prefácio.

AMBIÇÃO SAGRADA – E, de fato, o que é apresentado como ambição sagrada de todo um povo talvez se reduza a uma dimensão estética que mesmeriza profetas. Será que a ambição das pessoas comuns, normais, não consiste apenas em ter uma profissão decente, uma remuneração condigna, uma vida familiar em segurança, algum lazer de vez em quando? Será que vale a pena passar pelos horrores da revolução, da “política de alta energia”, para poder ostentar um título de originalidade? Isso é existencial ou frívolo?

Sobretudo num pensador que se diz dedicado à prática e à experimentação, sua vida não se pode dissociar de suas ideias. Mangabeira se mantém numa sinecura na Universidade Harvard para, a cada eleição, fazer uma incursão pela Terra de Santa Cruz. Antes assessorava líderes voluntaristas, tumultuários, como Brizola e Ciro Gomes. Depois passou a tentar candidatura própria pelos partidos mais implausíveis, e são também inesquecíveis as caras e poses de Napoleão de hospício que ele fazia para as câmeras. Talvez se trate, afinal, mais da grandeza de Mangabeira do que do Brasil.

Nesta eleição, o PT vai colher o que semeou, e será o início de seu fim

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Charge do Wilmar (Arquivo Google)

Antonio Fallavena

É difícil debater com torcedores apaixonados. Vejam o caso dos petistas e seu líder. Política precisa ser feita com verdade, bom senso, equilíbrio e tudo mais que possa nos levar a decisões corretas e sensatas. Não pode ser como o futebol. Quem aceita qualquer coisa recebe qualquer coisa. Sempre busquei o melhor e o máximo, lutando para que estejamos próximos aos conceitos que prego e defendo.

Já escrevi muito sobre o PT quando nasceu, quando cresceu e quando se corrompeu. O PT, em muito breve, colherá o que semeou.

INÍCIO DO FIM – No começo, todos eram corruptos, menos ele. Chegando ao poder, a facção que o criou, interna e ideologicamente, já tinha dominado os demais petistas. A maioria eram pessoas simples e/ou se consideravam excluídos. A cabeça da serpente usou a todos eles. Esta mesma facção se apoderou da direção do partido e depois dos negócios que sempre condenou.

Este ano, os resultados nas urnas mostrarão o início do fim do PT. E a Lava Jato continuará seu trabalho: mais cadeias, mais condenados, novas descobertas de roubos antigos.

O PT nasceu nas urnas e nelas terminará. É o plantador colhendo o que semeou

AO CULPADOS – Me permitam perguntar, mais uma vez: quem nasceu primeiro, o governo ou a sociedade? Quem criou quem? Os governos e os governantes têm muito da sociedade, para não dizer que têm tudo da sociedade. Se estão errados, fomos nós que erramos (se não nós, pessoas como nós).

A falta de valores na sociedade produz governos sem valores. Enquanto buscarmos responsabilidades nos outros, não estaremos assumindo as nossas.

Basta ter algum conhecimento para verificar como está o país. Nenhum governante, sem que tenha apoio da grande maioria da sociedade, fará alguma coisa em quatro anos. E só poderá ficar no poder se continuar dividindo o bolo com os mesmos comensais.

UM SACRIFÍCIO – Nas últimas décadas, confesso que votar, para mim, tem sido um dilema e um sacrifício. Este ano, no primeiro turno votarei no candidato menos pior. Se ele não passar ao segundo turno, terei de votar num ainda pior do que o escolhido anteriormente.

Dou valor ao voto, mas dou muito mais valor à minha consciência. Bem sei, a imensa maioria dos brasileiros nem sabe o que é isso.

Na verdade, o mundo que vamos deixar para os nossos filhos depende dos filhos que vamos deixar para o nosso mundo. O mesmo critério vale para o país.

Diretor da Polícia Federal conta que ia libertar Lula na decisão do plantonista

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Galloro comunicou a Jungmann que ia soltar Lula

Andreza Matais
Estadão

Trinta homens do Comando de Operações Táticas (COT), a tropa de elite da Polícia Federal, estavam a postos com suas armas para invadir o Sindicato dos Metalúrgicos, em São Bernardo do Campo. Com mandado de prisão expedido pelo juiz Sérgio Moro, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva resistia a se entregar.

Na primeira entrevista desde que assumiu o cargo, há cinco meses, o diretor-geral da PF, Rogério Galloro, relata detalhes das negociações para levar o petista a Curitiba naquele sábado, 7 de abril. O número um da polícia se aproximou dos negociadores de Lula: “Acabou! Se não sair em meia hora, vamos entrar”. Em seguida, ordenou que os agentes invadissem o prédio no fim do prazo estipulado.

Como foi o episódio da prisão do ex-presidente Lula?
Foi um dos piores dias da minha vida. Quando eles (interlocutores de Lula) pediram detalhes da logística da prisão, nos convenceram de que havia interesse do ex-presidente de se entregar ainda na sexta (6 de abril, prazo dado pelo juiz Sérgio Moro). Acabou o dia e ele não se apresentou. Nós não queríamos atrito, nenhuma falha.  Chegou o sábado, Moro exigiu que a gente cumprisse logo o mandado. A missa (improvisada no sindicato) não acabava mais. Deu uma hora (da tarde) e eles disseram: ‘Ele vai almoçar e se entregar’.

O sr. perdeu a paciência em algum momento?
No sábado, nós fizemos contato com uma empresa de um galpão ao lado, lá tinha 30 homens do COT (Comando de Operações Táticas) prontos para invadir. Ele (Lula) iria sair em sigilo pelo fundo quando alguém, lá do sindicato, foi para a sacada e gritou para multidão do lado de fora, que correu para impedir a saída. Foi um susto. A multidão começou a cercá-lo e eu vi que ali poderia acontecer uma desgraça. Ele retornou.

Qual era o risco?
Quando tem multidão, você não tem controle. Aquele foi o pior momento, porque eu percebi que não tinha outro jeito. A pressão aumentando. Quando deu 17h30, eu liguei para o negociador e disse: ‘Acabou! Se ele não sair em meia hora nós

Houve alguma exigência?
Eles pediram para não haver muita exposição, que não humilhasse o ex-presidente, nós usamos tudo descaracterizado. Ele estava quieto o tempo todo, bastante concentrado.

Por que o ex-presidente está na superintendência da PF?
Isso não nos agrada. Nunca tivemos preso condenado numa superintendência. É uma situação excepcional. O juiz Moro me ligou, pediu nosso apoio, ele sabe que não temos interesse nisso. Mas, em prol do bom relacionamento, nós cedemos.

Recentemente, Lula mandou chamar dirigentes do PT para discutir, dentro da superintendência, a eleição presidencial. É um tratamento diferenciado?
Não somos nós que organizamos isso (as regras para visitas), mas o juiz da Vara de Execuções Penais. O Lula está lá de visita, de favor. Nas nossas novas superintendências não vão ter mais custódia. No Paraná, não vamos mexer agora. Só depois da Lava Jato.

O sr. conversou com o ex-presidente na prisão?
Eu estive na superintendência, mas não fui vê-lo. É um simbolismo muito ruim. O segundo momento tenso para a PF envolveu a ordem de soltar Lula dada pelo desembargador Rogério Favreto e a contraordem de Moro e dos desembargadores Gebran Neto e Thompson Flores, do TRF-4. Eu estava no Park Shopping, em Brasília, dei uma mordida no sanduíche, toca o telefone. Avisei para a minha mulher: ‘Acabou o passeio’.

Em algum momento a PF pensou em soltar o ex-presidente?
Diante das divergências, decidimos fazer a nossa interpretação. Concluímos que iríamos cumprir a decisão do plantonista do TRF-4. Falei para o ministro Raul Jungmann (Segurança Pública): ‘Ministro, nós vamos soltar’. Em seguida, a (procuradora-geral da República) Raquel Dodge me ligou e disse que estava protocolando no STJ (Superior Tribunal de Justiça) contra a soltura. ‘E agora?’ Depois foi o (presidente do TRF-4) Thompson (Flores) quem nos ligou. ‘Eu estou determinando, não soltem’. O telefonema dele veio antes de expirar uma hora. Valeu o telefonema.

O ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo, blindou o delegado da PF Cleyber Malta Lopes ao autorizar a prorrogação do inquérito dos Portos, que investiga o presidente Michel Temer. O sr. tentou trocar o delegado?
Não. Eu estive com o Cleyber antes de me tornar diretor-geral. Depois disso sequer o vi. Houve um momento em que eu coloquei 25 policiais para ajudá-lo. Foi no período anterior à decisão do ministro de prorrogar por mais 60 dias.

Não lhe pareceu um recado o fato de o ministro especificar em sua decisão que o delegado deveria continuar à frente do caso?
Acho que o ministro quis dizer que Cleyber toca bem o caso. Na linha: ‘Olhe, não tire ele, não. Se ele entrar de férias, não põe outro no lugar’.

A PF está perseguindo professores da UFSC que fizeram protestos contra agentes da operação que investigou o ex-reitor Luiz Carlos Cancellier?
Depois que o reitor se suicidou, uma situação terrível, começou um movimento de muita crítica às autoridades que participaram da investigação, a delegada, a juíza, o corregedor da universidade. Foram colocadas fotos deles dizendo: ‘autoridades que cometeram abuso de poder e mataram o reitor’. E essa faixa é exposta toda vez que fazem uma manifestação. E essas autoridades se sentiram ofendidas.

Houve necessidade de abertura de inquérito?
É a mesma coisa de colocar, por exemplo, a foto de servidores e dizer: ‘Esses indivíduos estupraram alguém’. É uma acusação seriíssima. E esses indivíduos, cada vez que saem da oitiva, dizem que estão sendo perseguidos. Não é uma investigação contra a universidade. É de crime contra a honra.

Mas o inquérito não pode ser uma forma de censura?
Tem outros meios de protestar que não acusar uma autoridade de abuso.

O sr. é um gestor, um técnico. Como evitar que o próximo presidente nomeie um delegado amigo para a diretoria da PF? Tem policial com viés político. E isso é legal. Mas será que um desses, se tornando diretor-geral, é bom para a instituição? A gente teve um exemplo recente que se provou que não é. Se o gestor não tiver legitimidade interna, ele não consegue permanecer. Eu não tenho influência nas investigações.

No Dia dos Pais, a inspiração que se deve ter, antes que as crianças cresçam

Affonso Romano, um pai e avô muito inspirado 

Carmen Lins

No Dia dos Pais, é conveniente saborear uma crônica de Affonso Romano de Sant’Anna sobre o relacionamento de pais e filhos, com a chegada depois do que de melhor poderia acontecer — os netos.

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ANTES QUE ELAS CRESÇAM
Affonso Romano de Sant’Anna

Há um período em que os pais vão ficando órfãos dos próprios filhos.

É que as crianças crescem. Independentes de nós, como árvores, tagarelas e pássaros estabanados, elas crescem sem pedir licença. Crescem como a inflação, independente do governo e da vontade popular. Entre os estupros dos preços, os disparos dos discursos e o assalto das estações, elas crescem com uma estridência alegre e, às vezes, com alardeada arrogância.

Mas não crescem todos os dias, de igual maneira; crescem, de repente.

Um dia se assentam perto de você no terraço e dizem uma frase de tal maturidade que você sente que não pode mais trocar as fraldas daquela criatura.

Onde e como andou crescendo aquela danadinha que você não percebeu? Cadê aquele cheirinho de leite sobre a pele? Cadê a pazinha de brincar na areia, as festinhas de aniversário com palhaços, amiguinhos e o primeiro uniforme do maternal?

Ela está crescendo num ritual de obediência orgânica e desobediência civil. E você está agora ali, na porta da discoteca, esperando que ela não apenas cresça, mas apareça. Ali estão muitos pais, ao volante, esperando que saiam esfuziantes sobre patins, cabelos soltos sobre as ancas. Essas são as nossas filhas, em pleno cio, lindas potrancas.

Entre hambúrgueres e refrigerantes nas esquinas, lá estão elas, com o uniforme de sua geração: incômodas mochilas da moda nos ombros ou, então com a suéter amarrada na cintura. Está quente, a gente diz que vão estragar a suéter, mas não tem jeito, é o emblema da geração.

Pois ali estamos, depois do primeiro e do segundo casamento, com essa barba de jovem executivo ou intelectual em ascensão, as mães, às vezes, já com a primeira plástica e o casamento recomposto. Essas são as filhas que conseguimos gerar e amar, apesar dos golpes dos ventos, das colheitas, das notícias e da ditadura das horas. E elas crescem meio amestradas, vendo como redigimos nossas teses e nos doutoramos nos nossos erros.

Há um período em que os pais vão ficando órfãos dos próprios filhos.

Longe já vai o momento em que o primeiro mênstruo foi recebido como um impacto de rosas vermelhas. Não mais as colheremos nas portas das discotecas e festas, quando surgiam entre gírias e canções. Passou o tempo do balé, da cultura francesa e inglesa. Saíram do banco de trás e passaram para o volante de suas próprias vidas. Só nos resta dizer “bonne route, bonne route”, como naquela canção francesa narrando a emoção do pai quando a filha oferece o primeiro jantar no apartamento dela.

Deveríamos ter ido mais vezes à cama delas ao anoitecer para ouvir sua alma respirando conversas e confidências entre os lençóis da infância, e os adolescentes cobertores daquele quarto cheio de colagens, posteres e agendas coloridas de pilô. Não, não as levamos suficientemente ao maldito “drive-in”, ao Tablado para ver “Pluft”, não lhes demos suficientes hambúrgueres e cocas, não lhes compramos todos os sorvetes e roupas merecidas.

Elas cresceram sem que esgotássemos nelas todo o nosso afeto.

No princípio subiam a serra ou iam à casa de praia entre embrulhos, comidas, engarrafamentos, natais, páscoas, piscinas e amiguinhas. Sim, havia as brigas dentro do carro, a disputa pela janela, os pedidos de sorvetes e sanduíches infantis. Depois chegou a idade em que subir para a casa de campo com os pais começou a ser um esforço, um sofrimento, pois era impossível deixar a turma aqui na praia e os primeiros namorados. Esse exílio dos pais, esse divórcio dos filhos, vai durar sete anos bíblicos. Agora é hora de os pais na montanha terem a solidão que queriam, mas, de repente, exalarem contagiosa saudade daquelas pestes.

O jeito é esperar. Qualquer hora podem nos dar netos. O neto é a hora do carinho ocioso e estocado, não exercido nos próprios filhos e que não pode morrer conosco. Por isso, os avós são tão desmesurados e distribuem tão incontrolável afeição. Os netos são a última oportunidade de reeditar o nosso afeto.

Por isso, é necessário fazer alguma coisa a mais, antes que elas cresçam.