Barbosa não teve culpa nenhuma no gol de Ghiggia que nos derrotou na Copa de 1950

Se vivo fosse, Barbosa completaria 100 anos neste sábado

Pedro do Coutto
 
O goleiro Barbosa não teve culpa alguma no gol de Ghiggia que nos derrotou diante do Uruguai na final da Copa do Mundo de 1950, no Maracanã, Estádio Mário Filho em 16 de julho daquele ano. Reportagem de Bruno Rodrigues, Folha de São Paulo, e de Rafael Oliveira, O Globo, destacam a trajetória do goleiro que completaria 100 anos neste sábado.

Eu estava no Maracanã e posso afirmar que ao contrário do que o próprio Barbosa, ele não teve a menor dose de culpa em nossa derrota. Ghiggia vinha passando facilmente por Bigode. O zagueiro central Juvenal Amarijo, não saiu para cobertura e o meio campo, especialmente Danilo Alvim e Jair da Rosa Pinto, não se deslocaram para ações defensivas que pudessem barrar os avanços seguidos do ponta direita uruguaio

PRESENTE NA ARQUIBANCADA – O treinador Flavio Costa não se preocupou com isso, mas Barbosa sim. E muito. Eu estava na arquibancada com meus amigos Mario Pucheu, depois advogado de renome, e do futuro engenheiro Carlos Eduardo Fernandes. Carlos Eduardo Fernandes não está mais entre nós.

Eu me lembro da partida em detalhes e sou a última testemunha viva do diálogo que na quinta-feira, dia 13, mantiveram na sede do Fluminense, na Rua Álvaro Chaves, João Coelho Netto, o Preguinho, filho do escritor e titular da seleção brasileira na Copa do Mundo de 1930.

Em 1930 havia um menino de 10 anos no Estádio de Montevideo: Obdulio Varela. Ao longo do tempo ficaram amigos e tinham um grande amigo em comum, o meia esquerda do Peñarol, time de Varela, Ruan Carlos que veio para o Flumiense em 1943. Prego, Obdulio e Ruan Carlos ficaram amigos.

DIÁLOGO – Na quinta-feira, 13 de julho, os uruguaios que estavam hospedados no Hotel Paysandu foram treinar campo do Fluminense. Saíram a pé do hotel e chegaram na Álvaro Chaves.  Prego e Obdulio se abraçaram e Prego congratulou-se com Obdulio pela atuação do Urugaui na Copa do Mundo. Mas disse: “no domingo não vai dar para vocês. Não vai dar para a sua seleção”.

Obdulio rebateu e disse: “Prego não vai dar por quê?”. Joao Coelho Netto disse: “Porque ganhamos da Espanha por 6×1 e a sua seleção ganhou por 3×2 nos três minutos finais. Vocês empataram com a Suécia e nós ganhos por 7×1”.

E Obdulio respondeu, “se nós fossemos jogar contra o Brasil da forma com que jogamos com a Espanha e com a Suécia, você teria razão. Perderíamos disparado. Mas não vamos atuar assim. Vamos fazer o seguinte, só combateremos o time brasileiro a partir da nossa linha intermediaria em nosso campo. A torcida brasileira vai empurrar vocês para frente. A nossa tática será de combater vocês a partir da nossa intermediária”.

NÃO DEU ATENÇÃO – Estava participando do encontro também o treinador Otto Vieira do Fluminense, que depois treinou a seleção paraguaia, além de um antigo sócio do clube, Joaquim Amaral, e o diretor de natação. Otto Vieira achou o relato de Obdulio bastante óbvio e procurou Flavio Costa, técnico da seleção brasileira. Depois Otto me contaria que Flavio não deu maior atenção.  

Não foi este lado do sistema uruguaio que garantiu a vitória, mas funcionou para reduzir o espaço do ataque brasileiro. Porque o ponta-esquerda Rubén Morán recuava para marcar o ponta brasileiro Friaça, que era um ponto improvisado, cuja posição real era de meia direita e com isso traçava uma linha obliqua para encostar em Zizinho e Ademir de Menezes. A tática uruguaia viria ser o primeiro 4x3x3 da história.  Flávio Costa não percebeu. Entretanto não foi por aí que o Uruguai venceu o jogo.

Friaça fez 1×0 para nós. Mas Júlio Pérez lançou Ghiggia, ponta direita, que passou por Bigode, aproximou-se do lado área, Barbosa temeu o chute e procurou fechar o ângulo esquerdo. Mas Ghiggia levantou por cima de Juvenal. Schiafino ficou sozinho com o goleiro e empatou o jogo chutando.

VITÓRIA DO URUGUAI – Momentos depois, sete minutos, a jogada se repetiu. Ghiggia passou facilmente por Bigode, mais uma vez o meio campo não recuou para cobrir e Juvenal também não saiu do meio da área. Ghiggia entrou muito fácil e desfechou o chute fatal a curta distância no lado esquerdo do arco de Barbosa. Era a vitória uruguaia

Escrevo esse artigo inspirado também no artigo de Ruy Castro , na Folha de São Paulo, sobre a morte do jornalista Geraldo Mayrink, que tinha um relato publicado sobre o drama de 16 de julho.

Vendo o filme do jogo, Ruy Castro também é de opinião que Barbosa não teve a menor culpa. Eu e Ruy Castro não sabemos qual o motivo que levou Barbosa a culpar-se. E carregou essa culpa até o final da vida. Foi uma injustiça que ele cometeu contra si mesmo. Disse isso a ele na mesa do programa Haroldo de Andrade, de grande audiência, na antiga Rádio Globo.

ALÍVIOParticipava da mesa às terças e quintas-feiras. Barbosa foi numa quinta-feira. Tive a certeza de que o depoimento que dei o aliviou um pouco, afinal o programa tinha grande audiência. Fui vacinado contra derrotas, assumindo a certeza que futebol só se ganha no campo. Ninguém ganha na véspera. Na véspera houve um carnaval na Avenida Rio Branco entre a Santa Luzia e o Hotel Serrador. Era a véspera da derrota. Não se pode cantar vitória antes do tempo.

No entanto, a vitória uruguaia foi comandada por Obdulio Varela, o herói da partida. Ele estava em todos os pontos do campo, com dedos da mão direita sacudia a camisa e pedia aos companheiros amor ao Uruguai e à camisa o tempo inteiro.

JOGO FECHADO – Quando o Brasil abriu o placar no gol de Friaça, ele correu para os seus companheiros e disse, contaria depois quando se despediu do Prego e voltava para o Uruguai, “olha ninguém sai, vamos continuar jogando fechados. Se abrirmos, perderemos de quatro. Vamos manter o modo com que estamos jogando até agora.”

Na segunda, no Jornal dos Sports, de Mário Filho, Nelson Rodrigues escrevia, “fomos derrotados por um homem só. Obdulio Varela merece o reconhecimento de sua atuação. É preciso notar que com Obdulio e o goleiro Roque Máspoli,  os uruguaios foram aplaudidos por parte da torcida brasileira quando deram a volta olímpica no estádio. Esta é a história do jogo.

MISTÉRIO DE MARADONA –  Reportagem de Tony Assis, correspondente do Estado de São Paulo em Buenos Aires, revela que após quatro meses de sua morte, a justiça argentina abriu inquérito sobre as causas fatais a partir de uma investigação baseada em gravações telefônicas entre o médico Leopoldo Luque e a psiquiatra Augustina Cosachov, aparentemente comprometedoras para ambos.

A matéria reproduz os diálogos. O médico não se referiu bem a Maradona. Pouco antes da morte, Maradona foi internado e submetido a uma cirurgia para retirar um coágulo do cérebro. A justiça argentina indiciou também uma psicóloga e dois enfermeiros. A questão ganhou um contorno nebuloso. Maradona havia feito um testamento deserdando pessoas de sua família.  

CONVITE DE BIDEN – Joe Biden convida Bolsonaro para Conferencia sobre o Clima nos dia 22 de abril. O presidente Joe Biden formalizou nesta sexta-feira o convite ao presidente Jair Bolsonaro para participar da Conferência de líderes mundiais sobre o Clima no dia 22 de abril através de videoconferência. O convite, na minha opinião, cria um problema bastante sensível para Bolsonaro.

Convidado pelo presidente dos EUA não pode mandar representante. E na conferência ficara exposto ao projeto internacional para combater o desmatamento e as queimadas na Amazônia. Acredito que não possa deixar de participar.  

6 thoughts on “Barbosa não teve culpa nenhuma no gol de Ghiggia que nos derrotou na Copa de 1950

  1. Caro Coutto;
    Manchete do jornal inglês, após a vitória do Uruguai em 1.950:
    ” Foi a vitória do bem sobre o mal. O Brasil foi grande na derrota, como jamais teria sido na vitória”

    Na final de 1962, Amarildo faria (na final) um gol muito parecido com o de Ghiggia.

    Antes da final de 1970, o Brasil era super favorito, contra uma Itália cansada.
    Ao ser perguntado sobre o resultado de “amanha”, Pelé falou;
    ” O Brasil já ganhou uma vez uma final antes de jogar; foi em 1950)”

  2. A narrativa do Pedro do Couto é a pura verdade.

    Escutei narrativa idêntica por parte de Nilton Santos em uma reunião na sede do Botafogo.

    Conheci Barbosa pessoalmente. Estivemos juntos muitas vezes em Santos e na Praia Grande. Pessoa educadíssima.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *