“Brasil não perde a oportunidade de perder uma boa oportunidade”, dizia Roberto Campos

Roberto Campos | Citações de sabedoria, Frases reflexão vida, Frases  reflexãoMerval Pereira
O Globo

Diante da crise que a cada dia se aprofunda no país, favorecida pela irresponsabilidade fiscal do presidente Bolsonaro e pela submissão das convicções do ministro da Economia Paulo Guedes às ambições políticas, tem importância didática relembrar as disputas da equipe que implantou o Plano Real com as forças políticas e econômicas que sustentavam a hiperinflação brasileira àquela altura.

É o que faz o economista Edmar Bacha, membro da Academia Brasileira de Letras, em seu recém lançado livro “No País dos Contrastes”, do selo História Real. Como dizia outro economista de renome, Roberto Campos, “o Brasil nunca perde a oportunidade de perder uma boa oportunidade”, frase citada por Bacha ao relembrar o Programa de Estabilização enviado ao Congresso no final de 1993 quando Fernando Henrique era ministro da Fazenda, que propunha uma série de reformas na revisão constitucional que estava prevista para cinco anos depois da promulgação da Constituição de 1988.

TEMAS INCONCLUSOS – Constavam lá temas que ainda hoje estão inconclusos, como o “federalismo fiscal”, o “realismo orçamentário”, a “reforma tributária”, a “reforma administrativa”, eliminação dos monopólios estatais e reservas de mercado, reforma previdenciária.

Houve avanços, como o fim do monopólio da Petrobras ou o início da reforma da Previdência, ainda hoje inconclusa. Mas perdemos quase 30 anos sem dar solução definitiva a questões que já eram conhecidas, e ainda hoje esbarram em interesses corporativos ou fisiológicos.

Outro ponto a se destacar no livro de Edmar Bacha é a negociação parlamentar para se chegar ao Plano Real. Apelidado de “senador”, pelo tempo que dedicava a conversas com parlamentares no próprio Congresso, Bacha revela detalhes de enfrentamentos delicados resolvidos com recuos e avanços, sem que tenham sido necessárias trocas de favores não republicanos, como assistimos já há algum tempo, com o Centrão envolvido em mensalões, petrolões e outros escândalos. 

ALGUMAS FRASES – Ele relembra algumas frases que ouviu durante essas negociações que revelam muito bem o pensamento médio do parlamentar brasileiro. Desde “você é PHD e coisa e tal, mas não ache que pode nos enganar. Aqui, o mais bobo foi eleito” a “na barganha política, o relógio zera todo dia. Nada dê hoje para obter algo em troca somente no dia seguinte”.

Outro membro da equipe do Plano Real, o economista Winston Fritsch, que foi Secretário de Política Econômica, escreveu um belo artigo recentemente no Globo (“A única via”) em que analisa as causas da perda de governabilidade do presidencialismo de coalizão, e o que chama de “irrelevância da fulanização da discussão da sucessão”.

Para ele, a solução passa por um pacto de governabilidade entre, citando o ex-ministro da Fazenda Rubem Ricupero, “o centro socialmente progressista e a esquerda democraticamente renovada”.

PACTO MAIS DIFÍCIL – Winston Fritsch admite, porém, que esse pacto é de difícil consumação “pois o que diluiu os partidos tradicionais no mundo pós-moderno foi exatamente a perda da representatividade política dos agentes tradicionais que definiam o espectro político real entre centro-direita democrática e esquerda, e a consequente volta da direita, num mundo ainda crescentemente desigual mesmo nos países ricos”.

O pacto que exemplifica a vitória da política é o de Moncloa, na volta da Espanha à democracia depois da ditadura de Franco, mas Fritsch ressalta que ele se baseava num “mundo de sindicatos e patrões dos anos 70”. Um Pacto de Moncloa 2.0 teria que ser inventado, mas ele acha que fazer uma versão “à brasileira” é mais fácil, pois “a agenda da governabilidade aqui é infinitamente mais simples do que o original. Moncloa tinha 700 páginas. O nosso caberia em uma”.

MENOS NACIONALISMO – Winston Fritsch acha que a emergência climática e outras ameaças de externalidades globais reais e urgentes, como pandemias, “impossíveis de serem tratadas sem cooperação multilateral, acabarão com o surto de nacionalismo que é a força de que se alimenta a direita pós-moderna, uma forma de tribalismo político revivido com a ajuda das novas redes de comunicação”.

Infelizmente, como os Bourbons, nossos políticos “não aprenderam nada, nem esqueceram nada”.

10 thoughts on ““Brasil não perde a oportunidade de perder uma boa oportunidade”, dizia Roberto Campos

  1. De tudo que se fala do posto Ipiranga resta a constatação que Maílson Nóbrega, Bresser Pereira, Zélia Cardoso de Mello, Antônio Palocci e Guido Mantega fizeram um paraíso terreno com as nossas finanças, um Shangri-La, e veio o desgraçado do Guedes e o terrivelmente genocida do Bolsonaro que destruíram tudo de bom que os bons samaritanos e patriarcas da distribuição de renda citados fizeram.

      • Exato Renato. Só tem um detalhe mais no Guedes. Uma alta dose de maquieavelismo e uma insensibilidade social gigantesca.
        Só mudou para furar o teto visando cacifar a reeleição do chefe em 2022, não por causa de Bolsonaro, mas na esperança de ficar mais quatro anos no poder.
        Bolsonaro que fique esperto, que gente assim, trai com uma facilidade atroz. Guedes é o Moro de amanhã.

  2. O monopólio do Petróleo não existe mais. Porque as empresas estrangeiras não querem elas próprias descobrir perltroleo? Só querem campos com boa promessa e com a participação da Petrobrás?
    Porque empresas estrangeiras só querem construir termoelétricas? Hidroelétricas só com verba do BNDES?
    Sou a favor da Privatização, mas não de ativos sub avaliados e com garantia de retorno!!!

  3. TEMAS INCONCLUSOS – Constavam lá temas que ainda hoje estão inconclusos, como o “federalismo fiscal”, o “realismo orçamentário”, a “reforma tributária”, a “reforma administrativa”, eliminação dos monopólios estatais e reservas de mercado, reforma previdenciária.

    Sr. Merval, lá também constava aquele Artigo 192 que dizia sobre o sistema financeiro.
    Lembra disso, Merval.?
    Que tal lembrar.?
    E o que foi feito com o artigo no Desgoverno do seu Partido….

    § 3º – As taxas de juros reais, nelas incluídas comissões e quaisquer outras remunerações direta ou indiretamente referidas à concessão de crédito, não poderão ser superiores a doze por cento ao ano; a cobrança acima deste limite será conceituada como crime de usura, punido, em todas as suas modalidades, nos termos que a lei determinar”.

    Alguns juros dos Banqueiros Piratas chegaram quase á 800% ao ano nas modalidades de cartões….
    Que tal um artigo sobre essa esculhambação e roubo descarado contra o povo brasileiro.??

  4. Quando Merval Pereira se refere aos Bourbons, estava mirando os últimos Reis franceses, Luiz XVIII e Carlos X, que assumiram o trono com a queda de Napoleão e não aprenderam com os erros de Luis XVI, o rei guilhotinado com Maria Antonieta, pelos jacobinos, líderes da Revolução Francesa.
    Segundo Leandro Karnal, em fabuloso artigo no Estadão deste domingo, assim reproduzo:
    ” Bom senso, sensibilidade, política, moderação …Nada!”
    Os reis, irmãos do decapitado eram iguais ou piores do que o desposta golpeado.
    ” perseguiram quem participou da Revolução. Sem Anistia, sem negociação, sem equilíbrio diplomático.
    Ainda Karnal: ” Nada aprenderam porque nada avaliaram a mudança do mundo:.
    “Não! Nada esqueceram, nada perdoaram, tudo lembraram de quem tinha atuado contra a família ou quem era a favor de Napoleão.
    Vale a Pena ler o artigo de Karnal por inteiro, como dizia Fernando Pessoa” tudo vale a pena quando a alma não é pequena”.
    Poderia enumerar vários exemplos de políticos e suas famílias , impelido pelo exemplo dos Bourbons, mas, cito apenas um, o general presidente João Figueiredo, que lutou pela Anistia Ampla, Geral e Irrestrita. Disse o general, que lugar de brasileiro é no Brasil. Seu pai, general Euclides foi perseguido pela ditadura Vargas.
    A linha dura não deu trégua ao seu governo, a ponto de levar o atleta da Cavalaria ao infarto, que quase o levou.
    Saiu pedindo, que o esquecesse e não passou a faixa presidencial para o sucessor José Sarney.
    A mesma falta de grandeza dos Bourbons vemos campear nos nossos políticos e presidenciáveis.

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