Caso de William Waak mostra que os jornalistas estão sempre no fio da navalha

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William Waack cometeu um erro que lhe foi fatal

Pedro do Coutto

O título repete o famoso romance de Somerset Maugham, em 1949 transformado em filme de sucesso da Fox, com Tyrone Power no papel principal. A frase se ajusta bem ao episódio William Waack, desligado da Rede Globo, que o tornou fato público na noite de sexta-feira, no Jornal das 23 horas que sucedeu o show de Roberto Carlos. O apresentador do telejornal leu nota redigida por Ali Kamel, diretor de jornalismo da emissora. O desligamento foi objeto também de matéria publicada com destaque pela edição deste sábado da Folha de São Paulo.

Não entro no mérito, sobretudo dos motivos que levaram à demissão. Não sei o que teria ocorrido nos bastidores, além de uma expressão de cunho racista, proferida em 2016.

RISCOS NATURAIS – Quero apenas acentuar os riscos naturais que envolvem a nossa profissão. Estão sempre presentes no desenrolar dos fatos.

Por isso, a profissão, que envolve o contato direto com a opinião pública, está sempre repleta de riscos. É preciso distinguir falsas informações das verdadeiras, ter cautela redobrada com os bajuladores de sempre, analisar as informações que nos chegam e saber selecioná-las. Além disso, é imprescindível a capacidade de análise de forma correta, clara e objetiva. Uma coisa é ver o fato, outra é ver no fato. Armadilhas não faltam, interesses insinuantes também não; falsas amizades de um, de outro, amizades não correspondidas. Cuidado intenso com a realização de entrevistas, mais cuidado ainda com as consultorias e agências de comunicação. Lembro a passagem da Odisséia de Ulisses, que se amarrou no mastro do navio para não ceder ao canto sedutor de Circe.

FIO DA NAVALHA – Mas eu disse que nós, jornalista, estamos sempre no fio da navalha. O risco é enorme. Carlos Lacerda, escrevia a coluna Tribuna da Imprensa no Correio da Manhã, foi demitido em 1948 por Paulo BITtencourt por ter publicado em sua coluna uma nota contra o empresário Soares Sampaio, amigo fraterno do dono do Correio da Manhã. Foi esse episódio que levou Lacerda a fundar em 1949 o jornal Tribuna da Imprensa, que depois viveu até seu final nas mãos de Hélio Fernandes.

Em 1956, o escritor José Lins do Rego mantinha um espaço duas vezes por semana em O Globo. Sucedeu na ABL a Ataulfo de Paiva. Rompeu a tradição de elogiar o antecessor. Atacou-o frontalmente, ridicularizando sua obra. Roberto Marinho era amigo fraterno de Ataulfo de Paiva, demitiu José Lins do Rego.

FOTO DE JK – Outro acadêmico, Odilo Costa Filho, era diretor da redação do Jornal do Brasil, quando em 1959 publicou na primeira página a foto do encontro entre Foster Dulles diante de Juscelino Kubitschek, sob a legenda “Me dá um Dinheiro Aí”. JK negociava um crédito junto ao FMI e acabou rompendo com a política monetarista do órgão internacional.

Em 1962, depois da atuação heróica contra o cerco de Lacerda ao velho Correio da Manhã, Luiz Alberto Bahia, último redator chefe a entusiasmar a redação, de repente recebeu o comunicado de Paris avisando da demissão. Paulo Bitencourt estava na França com sua mulher Niomar Moniz Sodré.

CARPEAUX – Para não estender muito os exemplos, cito apenas mais dois emblemáticos. O gênio Otto Maria Carpeaux no final da década de 60 foi demitido do Correio da Manhã por Oswaldo Peralva.  Em 1982, Paulo Henrique Amorim era redator chefe de de O Jornal do Brasil. Trabalhei com ele. O JB denunciou a tentativa de fraude da Proconsult e assegurou a vitória de Leonel Brizola para o governo do Rio de Janeiro conquistada nas urnas. Foi em outubro. Em dezembro, não sei por que. Nascimento Brito o demitiu do cargo. O Paulo Henrique Amorim de ontem não é o Paulo Henrique Amorim de hoje. Mas esta é outra questão.

IDEIA PRECISA – O editor deste site, Carlos Newton, conhece os episódios que relacionei. Penso que, ao verem este texto, os leitores deste site poderão ter a ideia precisa dos perigos que envolvem o exercício do jornalismo.

Um deles mudou a história do Brasil: o atentado de 5 de agosto de 54 ao jornalista Carlos Lacerda.  O desfecho foi o suicídio de Vargas. Dois motivos o levaram a isso. A força extraordinária de Gregório Fortunato, chefe da guarda pessoal do presidente, e um outro fato narrado a mim pelo embaixador Edmundo Barbosa da Silva durante almoço oferecido pelo economista Gilberto Paim.

Vargas teve conhecimento de que uma das fazendas de sua família fora vendida por seu filho Maneco Vargas ao mesmo Gregório Fortunato. Caiu em depressão e viajou para outra vida.

6 thoughts on “Caso de William Waak mostra que os jornalistas estão sempre no fio da navalha

  1. Os jornalistas normalmente são os maiores responsáveis por destruir reputações alheias, muitas vezes fazendo uso de notícias falaciosas, então não faz sentido dizer que o jornalismo é um profissão de risco, pois o maior risco quem corre são as pessoas que se tornam alvos de seus ataques da mídia. No caso do jornalista citado no artigo, não se trata de uma “opinião arriscada”, mas sim de uma manifestação de racismo que poderia custar o emprego de qualquer um, inclusive de um grande jornalista.

  2. Sabe-se a muito tempo, que a liberdade de imprensa, vai até onde se encontra com os interesses dos patrões, dali para frente o que fala mais alto, é a voz do dono do veículo.
    Até hoje nunca vi jornalista falar mal do patrão, mas se falou, nunca ficaremos sabendo foi demitido antes da publicação da matéria.
    O velo Chateaubriand já dizia, quer ter opinião,
    seja dono de um jornal.

  3. Pedro do Couto, sabes bem do respeito que te tenho. Não me impede entretanto de fazer duas observações: Circe da Odisseia era uma feiticeira, que teve seus poderes neutrlizados por uma planta que Hermes deu a Ulisses. Ulisses teve relações com Circe tendo com ela uma filho. Em suas aventuras Ulisses teve que amarrar sua tripulação aos mastros do navio pra que não sucumbissem ao “canto das sereias”. Épossível que Ulisses tambem tenha se amarrado. Ulisses viajava para Ítaca.
    Quanto ao suicídio não foi em decorrência da venda de uma fazenda que seu filho Manoel fez a Gregório. O suicídio foi em decorrência da traição do Mnistro da Guerra Zenóbio da Costa que combinou na presença de todos os outros ministros que concordava com a licença de Getúlio até a apuração da morte de Rubens Vaz. Depois o Ministro já no Ministério diz aos generais que relutavam em aceitar a licença: A licença é mera formalidade; ele não voltará mais. Foi a gota d’água para o suicídio que estava em seu propósito a muito tempo.

  4. Dizem que o jornalismo é o 4º poder. Para mim, o Jornalismo é O PODER. Beneficia ou degrada quando quer. Torço para que algum jornalista se levante contra a manipulação dos jogos de loteria da CEF.
    Ainda me lembro de como David Nasser torcia as noticias que vinha ao público. Muitas vezes acertava. Por exemplo, os autores da morte de Aida Cury foram absolvidos. Ele não se conformou e encampou a causa. “O Cruzeiro”, jornais eram seus veiculos de informações. Assim, os autores acabaram sendo condenados, fazendo-se justiça.
    JORNALISMO É O PODER – Derruba ou Ergue.

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