A cidadania e o projeto de deixar de ser massa e passar a ser povo

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Ilustração do Duke (O Tempo)

Leonardo Boff
O Tempo

Entendemos por cidadania o processo histórico-social que capacita a massa humana a forjar condições de consciência, de organização e de elaboração de um projeto no sentido de deixar de ser massa e de passar a ser povo. O grande desafio histórico é certamente este: como fazer das massas anônimas, deserdadas e manipuláveis, um povo brasileiro de cidadãos conscientes e organizados. E como situar-se hoje diante do projeto dos golpistas de 2016? Vejo seis dimensões de uma cidadania plena.

1) A dimensão econômico-produtiva: a pobreza material e política é produzida e cultivada pelas oligarquias, pois assim podem explorar melhor as massas. Isso é profundamente injusto. O pobre que não tiver consciência das causas de sua pobreza pela exploração não terá condições de realizar sua emancipação.

2) A dimensão político-participativa: se as pessoas não lutarem por sua autonomia e participação social, nunca serão cidadãos plenos.

3) A dimensão popular: o tipo de cidadania vigente é de corte liberal-burguês, por isso inclui os que têm uma inserção no sistema produtivo e marginaliza os demais. É uma cidadania reduzida. Não se reconhece ainda o caráter incondicional dos direitos. A construção da cidadania deve começar lá embaixo e estar aberta a todos. Ela já é exercida nos inúmeros movimentos sociais e associações comunitárias nas quais os excluídos constroem um novo tipo de cidadania.

4) A dimensão de concidadania: a cidadania não define apenas a posição do cidadão face ao Estado, como sujeito de direitos. A concidadania define o cidadão face a outro cidadão pela solidariedade e pela cooperação, como foi mostrado na Campanha contra a Fome, a Miséria e em favor da Vida, herança imorredoura de Betinho.

5) A cidadania ecológica: cada cidadão tem o direito de gozar de qualidade de vida. Isso só será possível se houver uma relação de cuidado e de respeito com a natureza. E se mostra pelo cuidado com o ar, as águas, os solos. Cada cidadão deve se conscientizar para garantir um futuro à Casa Comum e deixá-la habitável para as gerações futuras.

6) A cidadania terrenal: a concidadania se abre hoje à dimensão planetária, incorporando cuidados com a única Casa Comum e com bens e serviços limitados. Importa viver os vários erres do pensamento ecológico: reduzir, reusar, reciclar, rearborizar, rejeitar a propaganda enganosa, respeitar todos os seres etc.

PROJETOS ANTAGÔNICOS – Após o golpe jurídico-parlamentar de 2016, a cidadania é desafiada a confrontar-se com dois projetos antagônicos, disputando a hegemonia. O primeiro é o projeto dos endinheirados, articulados com as corporações transnacionais, que querem um Brasil menor, de no máximo 120 milhões de pessoas, pois assim acreditam que daria para administrá-lo sem preocupações.

O outro projeto quer construir um Brasil para todos, pujante, autônomo e soberano face às pressões das potências militaristas, que visam estabelecer um império e viver da rapinagem das riquezas de outros países. Estes se associam com as elites nacionais, que estão por trás do golpe de 2016.

FORÇAS DESIGUAIS – A correlação de forças é muito desigual e corre em favor das oligarquias. Mas estas não têm nada a oferecer para os milhões de brasileiros, especialmente para os pobres, senão mais empobrecimento. Essas elites não são portadoras de esperança e, por isso, estão condenadas a viver sob o medo permanente de que, um dia, a situação possa se reverter e acabar com sua opulência e privilégio. Esse dia chegará.

O futuro pertence especialmente aos humilhados e ofendidos de nossa história, que herdarão as bondades que a Mãe Terra Brasil reservou a todos. Valeram a pena sua resistência, a indignação e a coragem de mudar em direção a um Brasil do qual possamos nos orgulhar.

Betinho foi um homem de grandes sonhos e de muitas realizações

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Ilustração do Duke (O Tempo)

Leonardo Boff
O Tempo

Em agosto ocorreram várias homenagens nos 20 anos da morte do sociólogo e ativista social Herbert de Souza, conhecido como Betinho. Há mortos que recordamos com saudade, mas há também mortos que celebramos com júbilo. Estes não estão ausentes, são apenas invisíveis. É o caso de Betinho. Em suas próprias palavras, sua vida foi uma sucessão infinita de sortes: hemofílico, sobreviveu à tuberculose e, por fim, confrontou-se corajosamente com a Aids. Militou na esquerda católica contra a ditadura militar, viveu no exílio no Chile, no Canadá e no México. Regressou em 1979, recebido por uma multidão, reconhecido como o irmão de Henfil, genial cartunista. Aldir Blanc e João Bosco imortalizaram Betinho com a canção sempre cantada “O Bêbado e a Equilibrista” sobre “a volta do irmão do Henfil”.

Betinho foi um homem de grandes sonhos e de não menores realizações: a fundação da Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida; o Comitê de Entidades no Combate à Fome e pela Vida (Coep); em colaboração com o engenheiro de Furnas André Spitz, com o Coppe e o Coep ajudou a formar o Comitê de Entidades Públicas no Combate à Fome, Comitês da Cidadania pelo Brasil afora, o Natal sem Fome e a Abia, para o estudo da Aids, entre outras.

COMBATE À FOME – Entre 1993 e 2005 a Ação da Cidadania distribuiu 30.351 toneladas de alimentos, beneficiando cerca de 3 milhões de famílias.

Sua prioridade absoluta, verdadeira obsessão humanitária, era o combate à fome. Costumava responder aos que o acusavam de certo assistencialismo que “a fome tem pressa”, não permite esperar a grande revolução. Com razão dizia Gandhi que a fome é “a forma de violência mais assassina que existe”. Isso Betinho queria evitar a todo custo.

Dar de comer nunca pode ser um gesto apenas assistencialista, mas de um humanismo em grau zero. Juntos repetíamos com frequência: “O pão que tenho em minhas mãos é material; mas o pão que entrego ao faminto é espiritual, pois vai carregado de amor, de compaixão e de humanidade e salva a vida”.

OPÇÃO SOCIAL – Ao regressar ao país, optou pela sociedade civil, e não pelos partidos e pela participação no Estado. Na sociedade civil via a presença de potencial de solidariedade e de criatividade que poderia ser mobilizado em favor das grandes causas nacionais: cobrar ética na política, reconstruir a democracia pela base, participativa e popular, promover a urgência da reforma agrária em terras do campo e da cidade, combater a fome, incentivar a educação na linha de Paulo Freire.

Betinho era um indignado com a antirrealidade brasileira dos milhões de marginalizados, castigados pela fome e pelas doenças. Mas não era um resignado. Logo lançava projetos para pô-los em prática, sempre com um sentido de trabalho coletivo e solidário.

NOS DIAS DE HOJE – Se vivesse hoje com a desordem social provocada pelo infame golpe parlamentar, jurídico e midiático, atrás do qual se escondem as classes oligárquicas, que Darcy Ribeiro considerava as mais insensíveis e reacionárias do mundo, o que vem sendo repetido por Jessé Souza, Betinho estaria seguramente na rua mobilizando o povo, os movimentos, os que ainda acreditam no Brasil, para defender nossa frágil democracia e salvar os direitos sonegados aos trabalhadores e aos futuros aposentados, defender as terras indígenas e impedir a venda de terras nacionais a estrangeiros.

Os escândalos da corrupção milionária, atingindo a maioria dos partidos e as grandes empresas, seguramente levariam a retomar com vigor o tema sobre o qual tanto se debatia: a ética na política e a transparência em todas as coisas. Que falta nos faz Betinho.

Solidariedade, a condição humana que está sendo esquecida nos tempos atuais

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Ilustração do Duke (O Tempo)

Leonardo Boff
O Tempo

Há falta clamorosa de solidariedade no momento atual. Neste exato momento, 20 milhões de pessoas estão ameaçadas de morrer, literalmente, de fome no Iêmen, na Somália, no Sudão do Sul e na Nigéria. O grito dos famélicos dirige-se ao céu e a todas as direções, e quem os escuta? Um pouco a ONU e só algumas corajosas agências humanitárias.

Por causa dos ajustes promovidos pelos atuais governantes, que deram um golpe parlamentar visando impor sua agenda neoliberal, há pelo menos 500 mil famílias que perderam o Bolsa Família. Pobres estão caindo na miséria da qual haviam saído, e miseráveis estão tornando-se indigentes.

COOPERAÇÃO – É urgente resgatarmos o significado antropológico fundamental da solidariedade. Ela é antissistêmica, pois o capitalismo é individualista e rege-se pela concorrência, não pela solidariedade e pela cooperação. Isso vai contra o sentido da natureza.

Dizem-nos os etnoantropólogos que foi a solidariedade que nos fez passar da ordem dos primatas para a ordem dos humanos. Quando nossos ancestrais antropóides saíam para buscar seus alimentos não os comiam individualmente. Traziam-nos ao grupo para, juntos, comerem. Viviam a comensalidade, própria dos humanos. A solidariedade está na raiz da hominização.

O filósofo Pierre Leroux, em meados do século XIX, ao surgirem as primeiras associações de trabalhadores contra a selvageria do mercado, resgatou politicamente essa categoria. Era cristão, mas disse: “Devemos entender a caridade cristã hoje como solidariedade mútua entre os seres humanos”.

RECIPROCIDADE – A solidariedade implica reciprocidade entre todos como fato social elementar. Daí nasceu a economia do dom mútuo, tão bem analisada por Marcel Mauss. Se bem repararmos, a natureza não criou um ser para si mesmo, mas todos os seres uns para os outros. Estabeleceu entre eles laços de mutualidade e redes de relações solidárias. A solidariedade originária nos faz a todos irmãos e irmãs dentro da mesma espécie.

Se não houvesse solidariedade, nem teríamos condições de sobreviver. Não possuímos nenhum órgão especializado (Mangelwesen de A. Gehlen) que garanta nossa subsistência. Para sobreviver, dependemos do cuidado e da solidariedade dos outros. Esse é um fato inegável, outrora e ainda hoje.

Mas precisamos ser realistas, adverte-nos E. Morin. Somos simultaneamente sapiens e demens, não como decadência da realidade, mas como expressão de nossa condição humana.

AMBIGUIDADE – Podemos ser sapientes e solidários e criar laços de humanização. Mas podemos também ser dementes e destruir a solidariedade.

Foi por causa desse momento demente que Hobbes e Rousseau viram a necessidade de um contrato social que nos permitisse conviver e evitasse que nos devorássemos. O contrato social não nos dispensa de resgatar continuamente a solidariedade que nos humaniza, sem a qual o lado demente predominaria sobre o sapiente.

É o que estamos vivendo nos níveis mundial e nacional, pois pouquíssimos controlam as finanças e o acesso aos bens e aos serviços naturais, deixando mais da metade da humanidade na indigência. Bem diz o papa Francisco: o sistema imperante é assassino e antivida.

Entre nós, as atuais políticas de ajustes fiscais estão onerando especialmente os pobres e beneficiando aqueles poucos que controlam os fluxos financeiros. O Estado, enfraquecido pela corrupção, não consegue frear a voracidade da acumulação ilimitada das oligarquias. É urgente resgatarmos o paradigma básico de nossa humanidade tão olvidado: a solidariedade essencial. Fora dela, desvirtuaremos nossa humanidade e a dos outros.

A democracia está sob ataque em todo o mundo, inclusive no Brasil

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Leonardo Boff
O Tempo

O pressuposto básico de toda democracia é: o que interessa a todos deve poder ser decidido por todos, seja direta, seja indiretamente, por representantes. Como se depreende, democracia não convive com a exclusão e a desigualdade. Verdadeiro é o juízo de Pedro Demo, brilhante sociólogo da Universidade de Brasília, em sua “Introdução à Sociologia”: “Nossa democracia é encenação nacional de hipocrisia refinada, repleta de leis ‘bonitas’, mas feitas sempre, em última instância, pela elite dominante para que a ela sirva do começo até o fim. Se ligássemos democracia com justiça social, nossa democracia seria sua própria negação”.

Não obstante, não desistimos de querer gestar uma democracia enriquecida, especialmente a partir dos movimentos sociais de base, proclamando o ideal de uma sociedade na qual todos possam caber, a natureza incluída.

O REGIME IDEAL – Será uma democracia sem fim, conforme Boaventura de Souza Santos, cotidiana, vivida em todos os relacionamentos: na família, na escola, na comunidade, nos movimentos sociais, nos sindicatos, nos partidos e, evidentemente, na organização do Estado democrático de direito. Portanto, pretende-se uma democracia mais que delegatícia, que não comece e termine no voto, mas uma democracia como modo de relação social inclusiva, como valor universal (vide Norberto Bobbio) e que incorpore os direitos da natureza e da Mãe Terra – uma democracia ecológico-social.

Esse último aspecto nos obriga a superar um limite interno do discurso corrente da democracia: o fato de ser ainda antropocêntrica e sociocêntrica, vale dizer, centrada apenas nos seres humanos e na sociedade. O antropocentrismo e o sociocentrismo representam um reducionismo. Pois o ser humano não é o centro exclusivo, nem mesmo a sociedade, como se todos os demais seres não entrassem em nossa existência, não tivessem valor em si mesmos e somente ganhassem sentido e valor enquanto ordenados ao ser humano e à sociedade.

CORRENTE DA VIDA – Ser humano e sociedade constituem um elo, entre outros, da corrente da vida. Sem as relações com a biosfera, com o meio ambiente e com as precondições físico-químicas, não existe nem subsiste. Na era da nascente geossociedade e da conscientização ecológica e planetária, a natureza, o ser humano e a sociedade estão indissoluvelmente relacionados: possuem um mesmo destino comum, como bem dizem a encíclica do papa Francisco “Cuidando da Casa Comum” e a “Carta da Terra”.

A perspectiva ecológico-social tem, ademais, o condão de inserir a democracia na lógica geral das coisas. Sabemos hoje pelas ciências da terra e da vida que a lei básica que subjaz à cosmogênese e a todos os ecossistemas é a cooperação de todos com todos, a sinergia, a simbiose e a inter-relação entre todos, e não a vitória do mais forte.

IDEAL BUSCADO – A democracia é o valor e o regime de convivência que melhor se adéqua à natureza humana cooperativa e societária. Realizar a democracia significa avançar mais e mais no reino do especificamente humano. Significa religar-se também mais profundamente com a Terra e com o Todo.

É o ideal buscado. No entanto, o que estamos vendo nos dias atuais é o contrário: um ataque à democracia em níveis mundial e nacional. O avanço do neoliberalismo ultrarradical, que concentra poder em pouquíssimos grupos, radicaliza o consumismo individualista e alinha os países à lógica do império norte-americano, solapa as bases da democracia. O golpe parlamentar dado no Brasil se inscreve dentro desse ideário.

Crítica aos fundadores da fissura entre o ser humano e a natureza

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Ilustração do Duke (O Tempo)

Leonardo Boff
O Tempo

Quero apresentar um livro que, brevemente, sairá traduzido no Brasil: “A Pachamama e o Ser Humano”, de Eugenio Raúl Zaffaroni, bem conhecido no Brasil nos meios jurídicos. É um reconhecido magistrado argentino, ministro da Suprema Corte de 2003 a 2014 e professor emérito da Universidade de Buenos Aires.

O presente livro se inscreve entre as melhores contribuições de ordem ecológica e filosófica que se tem escrito ultimamente. Ele se situa na esteira da encíclica do Papa Francisco “Laudato Si” sobre o cuidado da Casa Comum. Zaffaroni aborda a questão da ecologia integral, em especial da violência social, e particularmente contra os animais, exibindo uma informação admirável de ordem científica e filosófica.

UM CORTE LETAL – O mais importante do livro é a crítica ao paradigma dominante, surgido com os pais fundadores da modernidade dos séculos XVI e XVII, que, ex abrupto, introduziram uma profunda fissura entre o ser humano e a natureza. O contrato natural, presente nas culturas desde tempos imemoriais, do Ocidente e do Oriente, sofreu um corte fatal e letal.

A Terra deixou de ser a Magna Mater dos antigos, a Pachamama dos andinos e a Gaia dos contemporâneos, portanto algo vivo e gerador de vida, para ser transformada numa coisa inerte (“res extensa” de Descartes), num balcão de recursos colocados à disposição da voracidade ilimitada dos seres humanos. Clássica é a formulação de René Descartes: o ser humano é o “maître et possesseur” da natureza, vale dizer, é o senhor e dono da natureza. Ele pode fazer dela o que bem entender. E o fez.

A cultura moderna se construiu sobre a compreensão do ser humano como “dominus”, como senhor e dono de todas as coisas. Estas não possuem valor intrínseco, como vão afirmar mais tarde a Carta da Terra e, com grande vigor, a encíclica papal. Seu valor reside apenas em poder estar a serviço do ser humano.

A DOMINAÇÃO – O projeto é o do poder entendido como capacidade de dominação sobre tudo e sobre todos, a partir de quem mais poder possui. No caso, os europeus, que realizaram a aventura do submetimento da natureza, da conquista do mundo, da colonização de nações inteiras, do genocídio, do ecocídio e da destruição de culturas ancestrais. E o fizeram usando a força brutal das armas, da espada e também da cruz. Hoje em dia, com armas capazes de extinguir a espécie humana.

Zaffaroni rastreia o surgimento desse projeto civilizatório e o faz com grande riqueza bibliográfica. Enfrenta com coragem e com grande liberdade crítica os presumidos corifeus do pensamento moderno, como Hegel, Spencer, Darwin e Heidegger. Hegel tornou-se o expoente maior do etnocentrismo. Spencer, com seu biologismo, estabeleceu a raça branca como superior, o que acabou por legitimar o colonialismo.

PREDADORES HUMANOS – Zaffaroni aborda a questão do animal visto como sujeito de direitos. O autor é duro na constatação “de que nos convertemos nos campeões biológicos da destruição intraespécie e nos depredadores máximos extraespécie”.

A América Latina foi a primeira a inaugurar um constitucionalismo ecológico, inserindo nas Constituições do Equador e da Bolívia os direitos da natureza e da Mãe Terra. Anteriormente, e também por primeiro, foi o México a introduzir em sua Constituição de 1917 os direitos sociais.

Zaffaroni nos traz uma brilhante e convincente perspectiva, crítica severa por um lado, mas cheia de esperança por outro. Vale lê-lo, estudá-lo e incorporar em nossa compreensão sua visão de uma ecologia holística e profundamente integradora de todos os elementos da natureza e do universo.

A consciência persegue o corrupto mesmo que ninguém o condene

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Ilustração do Duke (O Tempo)

Leonardo Boff
O Tempo

Há uma voz dentro de nós que nunca conseguimos fazer calar. É a voz da consciência. Ela está acima da ordem estabelecida e das leis vigentes. Há fatos criminosos como roubar o dinheiro destinado à saúde e à educação, praticar verdadeira pilhagem de milhões de reais que eram para a infraestrutura e outros crimes, e pode o criminoso acostumar-se a tais práticas a ponto de criar uma segunda natureza e pensar: “Como a coisa é de todos, portanto não é de ninguém, posso me apropriar dela”. Se ocupa um cargo público, “quem se enriquece nessa posição é esperto, quem não o faz é bobo”. A corrupção, endêmica no Brasil, se rege por tal sofisma.

Mas ninguém pode livrar-se da voz interior, da natureza primeira, que inapelavelmente o acusa e pede punição. Pode fugir como Caim, mas ela continua, como um tímpano, a vibrar dentro dele. O corrupto foge mesmo que a Justiça não o persiga. Quem é esse que vê dentro do coração e para o qual não existem segredos e câmaras secretas? Novamente, a consciência: ela julga, admoesta, corrói por dentro, aplaude e condena.

DEUS EM NÓS – Os homens do espírito de ontem e de hoje testemunham: é Deus dentro de nós. Pouco importa o nome que lhe dermos. Mas tem a ver com uma instância que é mais alta que nós, cuja voz não consegue ser abafada pelo vozerio humano por mais forte que seja. Com acerto escreveu Sêneca: “A consciência é Deus dentro de ti, junto de ti e contigo”.

Abundam exemplos. No ano 310, Maximiliano mandou dizimar uma unidade de soldados cristãos porque se negaram a matar. Escreveram: “Somos teus soldados, imperador, mas antes somos servos de Deus. A ti fizemos o juramento imperial, mas a Deus prometemos não praticar nenhum mal. Preferimos morrer a matar. Preferimos ser mortos como inocentes a viver com a consciência acusando-nos”.

Em 1944, escreveu a seus pais um soldado alemão e cristão: “Fui condenado à morte porque me neguei a fuzilar prisioneiros russos indefesos. Prefiro morrer a levar pela vida afora a consciência carregada com o sangue de inocentes. Foi a senhora, querida mãe, que me ensinou sempre a seguir a consciência. Chegou a hora de viver essa verdade”.

VOZ DA CONSCIÊNCIA – Que força é essa que encheu de coragem os soldados romanos e o soldado alemão para poderem agir assim? É a voz da consciência. Nós não a criamos, por isso não podemos destruí-la. Podemos desobedecê-la. Negá-la. Recalcá-la. Mas fazê-la silenciar, isso não podemos.

A consciência é intocável e suprema. O respeito a ela é tão grande que até a consciência errônea deve ser ouvida e seguida. Por isso, os bispos reunidos no Concílio Vaticano II (1962-1965) deixaram escrito: “A consciência, mesmo quando erra, não perde sua dignidade”.

Está em consciência invencivelmente errônea a pessoa que empenha todos os esforços para buscar sinceramente a verdade, perguntando, estudando, deixando-se aconselhar por outros e questionando a si mesmo e, mesmo assim, erra.

ERRAR E CORRIGIR – Todo homem pode errar com a melhor das boas vontades. Por isso, deve sempre interrogar-se como está escutando ou não a voz interior. Albert Camus, referindo-se à moral da obediência cega, escreveu: “A boa vontade pode causar tanto mal quanto a má, quando não for suficientemente bem-informada”, quer dizer, quando não escutar a voz da consciência, chamando-o para a boa ação.

Escrevemos isso pensando na vergonhosa corrupção que contaminou nossa sociedade, especialmente os donos de empresas e políticos, até o desastrado presidente da República. São moucos face a sua consciência que os incrimina.

A urgência de uma reforma política para uma nova repactuação social

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Ilustração do Duke (O Tempo)

Leonardo Boff
O Tempo

Seguramente, não estou enganado se disser o que está passando na cabeça das pessoas: assim como está, o Brasil não pode continuar. A corrupção generalizada contaminou todas as instâncias públicas e privadas. A política apodreceu. A maioria dos parlamentares não representa o povo, mas os interesses das empresas que financiaram suas campanhas. Perpetuam a política tradicional das coligações espúrias, das negociatas e dos conchavos.

O atual presidente não mostra nenhuma grandeza, pois não pensa no povo nem nas graves consequências de suas medidas sociais, mas em sua biografia. Entrará seguramente na história. Mas como o presidente das antirreformas, o presidente ilegítimo do antipovo que desmantelou os poucos avanços sociais que beneficiavam as grandes maiorias sempre maltratadas.

NEOLIBERALISMO – O projeto dos que deram o golpe parlamentar é do mais radical neoliberalismo, em crise no mundo inteiro.

Estamos num voo cego em um avião sem piloto. Há poucos que ousam apresentar um novo sonho para o Brasil. Mas tenho para mim que o cientista político Luiz Gonzaga de Sousa Lima o tentou com seu livro “A Refundação do Brasil: Rumo a uma Sociedade Biocentrada” (Rima, São Carlos, 2011). Nele, se vislumbra uma visão atualizada com o discurso da nova cosmologia, da ecologia e contra o pensamento único, recolhendo as alternativas para outro mundo possível.

O desafio para ele consiste em gestar outro software social que nos seja adequado e que nos desenhe um futuro diferente. A inspiração vem de algo bem nosso: a cultura brasileira. Esta foi elaborada pelos escravos e seus descendentes, pelos indígenas que restaram, pelos mamelucos, pelos filhos e filhas da pobreza e da mestiçagem. Gestaram algo singular, não desejado pelos donos do poder que nunca os reconheceram como sujeitos de direitos e filhos e filhas de Deus.

REFUNDAR O PAÍS – O que se trata agora é de refundar o Brasil, “construir, pela primeira vez, uma sociedade humana neste território imenso e belo; e habitá-lo, pela primeira vez, por uma sociedade humana de verdade, o que nunca ocorreu em toda a era moderna, desde que o Brasil foi fundado como uma empresa mundializada; fundar uma sociedade é o único objetivo capaz de salvar nosso povo”. Trata-se de passar do Brasil como Estado economicamente globalizado para o Brasil como sociedade biocentrada, cujo eixo estruturador é a vida em toda sua diversidade; a ela se ordena tudo o mais, mormente a economia e a política.

Ao refundar-se como sociedade humana biocentrada, o povo brasileiro deixará para trás a modernidade, apodrecida pela injustiça e pela ganância e que está conduzindo a humanidade a um caminho sem retorno. Não obstante, a modernidade entre nós, bem ou mal, nos concedeu forjar uma infraestrutura material que pode permitir-nos a construção de uma biocivilização que ame a vida humana, que conviva pacificamente com as diferenças, dotada de capacidade de integrar os mais diferentes fatores e valores que estão sendo negados pela onda de ódio e de preconceito surgida nos últimos tempos.

NOVA SOCIEDADE – É nesse contexto que Souza Lima associa a refundação do Brasil às promessas de um tipo novo de sociedade. Para esse propósito se faz urgente uma reforma política que embasará uma nova repactuação social.

Para essa repactuação dever-se-á colocar a nação como referência básica, e não os partidos, e contar com a boa vontade de todos para gestar algo novo e promissor.

Minha esperança não arrefece e se traduz no verso de Thiago de Mello dos tempos sombrios da ditadura militar: “faz escuro, mas eu canto”.

Lembrando o profeta Gentileza, cuja crítica social equivale à da Escola de Frankfurt

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Leonardo Boff
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No Rio de Janeiro, é por muitos conhecida aquela figura singular, de cabelos longos, barbas brancas, vestindo uma bata alvíssima com apliques cheios de mensagens. Carregava um estandarte na mão, com dizeres em vermelho. A partir do início de 1970 até sua morte, em 1996, percorria toda a cidade para fazer sua pregação.

A partir de 1980, encheu as pilastras do viaduto do Caju com inscrições em verde-amarelo, fazendo sua crítica do mundo atual e propondo sua alternativa ao mal-estar de nossa civilização. Não era louco, mas um profeta da têmpera de Amós ou Oseias. Como todo profeta, sentiu ele um chamamento divino que veio por meio de um acontecimento de grande densidade trágica: o incêndio do circo norte-americano em Niterói, em 1961, no qual foram calcinadas cerca de 400 pessoas.

CHAMAMENTO – Ele era um pequeno empresário de transporte de cargas em Guadalupe, bairro na periferia do Grande Rio. Sabedor daquela tragédia, sentiu-se chamado para ser o consolador das famílias dessas vítimas. Deixou tudo para trás, tomou um de seus caminhões e colocou sobre ele duas pipas com cem litros de vinho. Distribuía-o em copos de plástico, dizendo: “Quem quiser tomar não precisa pagar nada, é só pedir por gentileza, é só dizer agradecido”.

De José da Trino, esse era seu nome, começou a se chamar José Agradecido ou Profeta Gentileza. Interpretou a queima do circo como um metáfora da queima do mundo: ele é um circo montado pelo “capeta-capital… que vende tudo, destrói tudo, destruindo a própria humanidade”.

Ensinava com insistência: em lugar de “muito obrigado”, deveríamos dizer “agradecido”, e, em vez de “por favor”, usar “por gentileza”, porque ninguém é obrigado a nada e devemos ser gentis uns para com os outros e relacionarmo-nos por amor, e não por favor”. Junto com o princípio de geometria (Pascal), típico do pensamento técnico-científico dominante, Gentileza (“Esprit de finesse” de Pascal) funda um princípio alternativo de convivência civilizada, descurado pela modernidade e hoje de extrema importância para humanizar as relações demasiadamente funcionais, frias e marcadas pela truculência.

ESCOLA DE FRANKFURT – A crítica da modernidade não é monopólio dos mestres da Escola de Frankfurt. O profeta Gentileza, representante do pensamento popular e sapiencial, chegou à mesma conclusão que aqueles mestres.

Ou daremos razão ao profeta Gentileza e assumimos sua proposta do paradigma da gentileza, que supõe uma relação respeitosa e cuidadosa para com a natureza, ou então poderemos ir ao encontro do pior. O futuro da vida e de nossa civilização dependem da gentileza.

O profeta Gentileza nos remete ao relato do livro do Eclesiastes, no qual se lê: “Havia uma pequena cidade de poucos habitantes: um rei poderoso marchou sobre ela, cercou-a e levantou contra ela grandes obras de assédio. Havia na cidade um homem pobre, porém sábio, que poderia ter salvo a cidade com sua sabedoria. Mas ninguém se lembrou daquele homem, porque era pobre. E a cidade foi tomada e destruída” (Ecl 9, 14-16).

SABEDORIA – Comenta, pesaroso, o Eclesiastes: “Mais vale a sabedoria que o poder, mas a sabedoria do pobre é menosprezada, e suas palavras não são ouvidas” (Ecl 9, 16).

Oxalá essa atitude de desvalorização da sabedoria do pobre não se perpetue. Ela possui uma verdade escondida que, descoberta e acolhida, nos poderá proteger de catástrofes altamente destrutivas.

Mas, se cultivarmos “a gentileza que gera gentileza” como uma relação alternativa para com a natureza e a casa comum, seguramente teremos escolhido o comportamento adequado que nos poderá salvar.

Santo Agostinho e a força política da esperança face à situação atual

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Ilustração do Duke (O Tempo)

Leonardo Boff
O Tempo

Vivemos tempos de grande desamparo social. Ocorreu uma espécie de terremoto, desta vez não provocado pela natureza, mas pela própria política. Houve um golpe da classe dos endinheirados, ameaçados em seus privilégios pelos beneficiados pelas políticas sociais dos governos do PT. Usaram para isso o Parlamento, como em 1964 os militares. A deposição da presidente Dilma Rousseff, eleita democraticamente, serviu aos propósitos dessas elites econômicas (0,05% da população, segundo o Ipea), que implicavam ocupar os aparelhos de Estado e assim garantir seu status histórico-social feito à base de privilégios e negociatas.

A corrupção, primeiramente detectada pelos órgãos de espionagem dos Estados Unidos e repassada a nosso sistema jurídico, permitiu instaurar um processo judicial que levou o nome de Lava Jato. Aí se detectou a trama inimaginável de corrupção que atravessa as grandes empresas, das estatais às privadas, os fundos e outros órgãos, dentro da lógica do patrimonialismo. A corrupção identificada foi de tal ordem que escandalizou o mundo. Chegou a quebrar Estados da Federação, como, por exemplo, o Rio de Janeiro.

DESCALABRO TOTAL – A consequência é o descalabro político, jurídico e institucional. É falacioso dizer que as instituições funcionam. Todas elas estão contaminadas pela corrupção. A Justiça é vergonhosamente parcial, especialmente o justiceiro Sergio Moro e boa parte do Ministério Público, apoiados por uma imprensa reacionária, sem compromisso com a verdade.

Essa Justiça revela uma fúria incontrolável de perseguição ao ex-presidente Lula e a seu partido, o PT, o maior do país. A vontade é de destruir sua incontestável liderança, desfigurar sua biografia e impedir que seja candidato. Força-se uma condenação, fundada mais por convicções do que por provas materiais, o que impediria sua candidatura, que goza da preferência da maioria.

SEM ESPERANÇAS – A consequência é um sofrido vazio de esperança. Mas importa resgatar o caráter político-transformador da esperança. De santo Agostinho, talvez o maior gênio cristão, grande formulador de frases, nos vem esta sentença: “A esperança tem duas filhas queridas: a indignação e a coragem; a indignação nos ensina a recusar as coisas como estão aí; e a coragem, a mudá-las”.

Neste momento, devemos evocar, em primeiro lugar, a filha indignação contra o que o governo Temer está perpetrando contra o povo, os indígenas, a população do campo, as mulheres, os trabalhadores e os idosos. Se o governo ofende o povo, este tem direito de evocar indignação e exigir sua saída, pois é acusado de crimes de corrupção, é fruto de um golpe e, por isso, carece de legitimidade.

SEGUIR NA LUTA – A filha coragem se mostra na vontade de mudanças, não obstante os enfrentamentos, que poderão ser perigosos. É ela que nos mantém animados, nos sustenta na luta e pode levar-nos à vitória. Importa seguir o conselho do Quixote: “no hay que aceptar las derrotas sin antes dar todas las batallas”.

Uma dessas possibilidades é evocar o primeiro artigo da Constituição, que reza: “todo o poder emana do povo”. Governantes e políticos são apenas delegados do povo. Quando aqueles atraiçoam, o povo tem direito de tirá-los do poder, mediante eleições diretas.

O “Fora, Temer, e diretas já” não é mais um slogan de grupos, mas das multidões. A filha coragem deve exigir, por direito, essa opção, a única que garantirá autoridade e credibilidade a um governo, capaz de nos tirar da presente crise. E as duas filhas da esperança poderão fazer sua a frase de A. Camus: “Em meio ao inverno, aprendi que bem dentro de mim morava um verão invencível”.

A boa vontade que falta no Brasil de hoje para o país dar certo

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Ilustração do Duke

Leonardo Boff
O Tempo

Na sociedade brasileira grassa uma onda de ódio e dilaceração que raramente tivemos em nossa história. Chegamos a um ponto em que a má vontade generalizada impede qualquer convergência em função de uma saída da avassaladora crise que afeta toda a sociedade. Immanuel Kant (1724-1804), o mais rigoroso pensador da ética no Ocidente moderno, fez uma afirmação em sua “Fundamentação para uma Metafísica dos Costumes” (1785): “Não é possível se pensar algo que, em qualquer lugar no mundo, e mesmo fora dele, possa ser tido irrestritamente como bom senão a boa vontade (der gute Wille)”.

Kant reconhece que qualquer projeto ético possui defeitos. Entretanto, todos os projetos possuem algo comum que é sem defeito: a boa vontade, que é o único bem que é somente bom e ao qual não cabe nenhuma restrição.

SEM BASE COMUM – Há aqui uma verdade com graves consequências: se a boa vontade não for a atitude prévia a tudo que pensarmos e fizermos, será impossível criar uma base comum que a todos envolva. Em momento de crise como o nosso, é a boa vontade o fator principal de união de todos para uma resposta viável que supere a crise.

Essas reflexões valem tanto para o mundo globalizado quanto para o Brasil atual. Se não houver boa vontade da grande maioria da humanidade, não vamos encontrar uma saída para a desesperadora crise social que dilacera as sociedades periféricas, nem uma solução para o alarme ecológico que põe em risco o sistema Terra.

No Brasil, se não contarmos com a boa vontade da classe política, em grande parte corrompida e corruptora, nem com a boa vontade dos órgãos jurídicos, não superaremos a corrupção que se encontra na estrutura mesma de nossa fraca democracia. Se essa boa vontade não estiver também nos movimentos sociais e na grande maioria dos cidadãos que com razão resistem às mudanças antipopulares, não haverá nada, nem governo, nem alguma liderança carismática que seja capaz de apontar para alternativas esperançadoras.

TÁBUA DE SALVAÇÃO – A boa vontade é a última tábua de salvação que nos resta. A situação mundial é uma calamidade. Vivemos em permanente estado de guerra civil mundial. Não há ninguém, nem as duas santidades, o papa Francisco e o Dalai-Lama, nem as elites intelectuais mundiais, nem a tecnociência, nada que forneça uma chave de encaminhamento global.

O Brasil reproduz, em miniatura, a dramaticidade mundial. A chaga social produzida em 500 anos de descaso com a coisa do povo significa uma sangria desatada. Nossas elites nunca pensaram uma solução para o Brasil como um todo, mas somente para si. Está aqui a razão do golpe parlamentar que foi sustentado pelas elites opulentas que querem continuar com seu nível absurdo de acumulação, especialmente o sistema financeiro e os bancos, cujos lucros são inacreditáveis.

BENEFÍCIOS SOCIAIS – Por isso, os que tiraram a presidente Dilma Rousseff do poder, por tramoias político-jurídicas, ousam modificar a Constituição em questões fundamentais para a grande maioria do povo, como a legislação trabalhista e a Previdência Social, visando, em último termo, desmontar os benefícios sociais de milhões.

Se a boa vontade é assim tão decisiva, então urge suscitá-la em todos. Em momento de risco, todos, até os corruptores, se sentem obrigados a ajudar com o que lhes resta de boa vontade. Já não contam as diferenças partidárias, mas o destino comum da nação, que não pode cair na categoria de um país falido. Em todos vigora um capital inestimável de boa vontade que pertence a nossa natureza de seres sociais. Se cada um, de fato, quisesse que o Brasil desse certo, com a boa vontade de todos, ele seguramente daria certo.

A fome como maior desafio ético e espiritual da humanidade

Resultado de imagem para crianças famintasLeonardo Boff
O Tempo

Nada mais humanitário, social, político e espiritual que saciar a fome dos pobres. Um místico medieval da escola holandesa, John Ruysbroeck (1293-1381), bem disse: “Se estiveres em êxtase diante de Deus e um faminto bater a sua porta, deixa o Deus do êxtase e vai atender o faminto. O Deus que deixas no êxtase é menos seguro do que o Deus que encontras no faminto”.

Jesus encheu-se de compaixão e saciou com pão e peixe os famintos que o seguiam. No núcleo central de sua mensagem encontram-se o Pai Nosso e o Pão Nosso na oração do Senhor. Somente está na herança de Jesus quem mantém unido o Pai Nosso com o Pão Nosso. Só este poderá dizer “amém”.

DESIGUALDADE – Os níveis de pobreza mundial são estarrecedores. Segundo a Oxfam, que anualmente mede os níveis de desigualdade no mundo, somente oito pessoas possuem renda igual à que têm 3,6 bilhões de seres humanos, ou cerca da metade da humanidade. Tal fato é mais que a palavra fria “desigualdade”.

A pobreza é sistêmica, pois é fruto de uma sociedade que tem por objetivo acumular bens materiais sem qualquer consideração humanitária (justiça social) e ambiental (justiça ecológica). Ela pressupõe pessoas sem solidariedade, num contexto de alta desumanização e até de barbárie.

No Brasil, por mais que o país tenha saído do mapa da fome, existem ainda 20 milhões vivendo em extrema pobreza. Com seu programa Brasil Carinhoso, a ex-presidente Dilma Rousseff propunha-se a tirar essa multidão dessa situação desumana.

ECONOMIA SOLIDÁRIA – São múltiplas as interpretações que se dão à pobreza. A mim é esclarecedora a posição do Prêmio Nobel de Economia, o indiano Amartya Sen, que criou a economia solidária. Para ele, a pobreza não se mede pelo nível de ingressos nem pela participação dos bens e serviços naturais. Ser pobre é ver-se privado da capacidade de produzir a cesta básica ou de acessar a ela.

A Teologia da Libertação e a Igreja que lhe subjaz nasceram a partir de um acurado estudo da pobreza, que é lida como opressão. Seu oposto não é a riqueza, mas a justiça social e a libertação. A opção dos pobres contra a pobreza é a marca registrada dessa teologia.

HÁ TRÊS TIPOS – Distinguíamos três tipos de pobreza. A primeira é aquela dos que não têm acesso à cesta básica e aos serviços sanitários mínimos. A estratégia tradicional era fazer com que os que têm ajudem aqueles que não têm. Daí nasceu uma vasta rede de assistencialismo e paternalismo. Ajuda pontualmente os pobres, mas os mantém na dependência dos outros.

A segunda afirmava que o pobre possui inteligência e capacidade de profissionalizar-se. Com isso é inserido no mercado de trabalho e arranja sua vida. Essa estratégia é correta, mas politicamente não se dá conta do caráter conflitivo da relação social.

A terceira interpretação parte de que o pobre, quando conscientizado dos mecanismos que o fazem pobre, organiza-se e projeta um sonho novo de sociedade mais justa e igualitária; transforma-se numa força histórica, capaz de, junto com outros, dar um novo rumo à sociedade. Dessa perspectiva nasceram os principais movimentos sociais, sindicais e outros grupos conscientizados da sociedade e das igrejas. Desses, podem-se esperar transformações sociais.

IMAGEM DE DEUS – Por fim, para uma percepção da fé bíblica, o pobre sempre será a imagem desfigurada de Deus, a presença do pobre de Nazaré, crucificado que deve ser baixado da cruz.

E por fim, no entardecer da história universal, os pobres serão os juízes de todos porque, famintos, nus e aprisionados, não foram reconhecidos como a presença anônima do próprio Juiz Supremo, face ao qual, um dia, todos comparecerão.

Há sempre alguém que espera Godot, como o irmãozinho Foucauld

Resultado de imagem para IRMAOZINHOS DE FOUCAULDLeonardo Boff
O Tempo

Conheci um homem que fez de tudo na vida. Dizem que foi ateu e marxista e que chegou a ser mercenário da Legião Estrangeira francesa, tendo atirado com arma de fogo contra muita gente. De repente, converteu-se. Fez-se monge sem sair do mundo. Foi trabalhar como estivador, mas todo o tempo livre dedicava-o à oração e à meditação. Estranhamente, tinha um jeito próprio de rezar. Pensava: se Deus se fez gente em Jesus, então foi como nós: chorava pedindo o peito, fazia bico com as coisas que o incomodavam.

Ao fazer-se monge, decidiu pelos que fazem do mundo sua cela e que vivem a pobreza com os pobres: os Irmãozinhos de Foucauld. Criou uma pequena comunidade na pior favela da cidade. A vida era muito dura: trabalhar com os pobres e meditar.

SEMPRE AMEAÇADO – Viveu em vários países, mas foi sempre ameaçado de morte pelos regimes militares e tinha que se esconder e fugir, mas se sentia na palma da mão de Deus, por isso vivia despreocupado.

Indispunha-se também com a Igreja institucional, do cristianismo apenas devocional e sem compromisso com a justiça dos pobres. Finalmente, conseguiu agregar-se a uma paróquia que fazia trabalho popular. Trabalhava com os sem-terra, com os sem-teto e com um grupo de mulheres. Acolhia prostitutas que vinham chorar suas mágoas com ele. E saíam consoladas.

Corajoso, organizava manifestações públicas em frente à prefeitura e puxava ocupações de terrenos baldios. E, quando os sem-terra e sem-teto conseguiam se estabelecer, fazia belas celebrações ecumênicas com muitos símbolos, as chamadas “místicas”.

NA IGREJA ESCURA – Mas todos os dias ficava enfurnado, por longo tempo, na igreja escura. Apenas a lamparina lançava lampejos titubeantes de luz, transformando as estátuas mortas em fantasmas vivos e as colunas eretas, em estranhas bruxas. E lá se quedava, impassível, olhos fixos no tabernáculo, até que viesse o sacristão para fechar a igreja.

Um dia, fui procurá-lo na igreja. Perguntei-lhe de chofre: “Meu irmãozinho, você sente Deus quando, depois dos trabalhos, se mete a meditar aqui, na igreja? Ele lhe diz alguma coisa?”

Como quem acorda de um sono profundo, olhou-me e apenas disse: “Eu não sinto nada. Há muito tempo que não escuto a voz do Amigo (assim chamava Deus). Já senti um dia. Era fascinante. Enchia meus dias de música. Hoje não escuto mais nada. Talvez o Amigo não me falará nunca mais”.

ESTAR DISPONÍVEL – Retruquei eu: “Por que continua, todas as noites, aí, na escuridão sagrada da igreja?”. “Eu continuo”, respondeu, “porque quero estar disponível; se o Amigo quiser chegar, sair de seu silêncio e falar, eu estou aqui para escutar. Imagine se Ele quiser falar e eu não estiver aqui? Pois ele, cada vez, vem apenas uma única vez. Que seria de mim, infiel amigo do Amigo?”

Sim, ele continua sempre “esperando Godot”. “E não se move”, como na peça de Samuel Beckett. Deixei-o em sua plena disponibilidade. Saí maravilhado e meditativo. É por causa desses que o mundo é poupado e Deus continua a manter sua misericórdia sobre aqueles que o esquecem ou o consideram morto, conforme disse um filósofo que ficou louco. Mas há os que vigiam e esperam e, contra toda a esperança, esperam Godot. Essa espera fará que, cada dia, tudo seja novo e cheio de jovialidade.

Um dia, o sacristão o encontrou inclinado sobre o banco da Igreja. Pensou que dormia. Percebeu que o corpo estava frio e enrijecido.  Como o Amigo não veio, ele foi ao encontro dele. Agora não precisa mais esperar Godot e seu advento. Estará com o Amigo, celebrando uma amizade, no maior entretenimento, pelos tempos sem fim.

Boff diz que não fez críticas, apenas republicou um artigo que critica Lula e o PT

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Leonardo Boff agora diz que não foi bem assim…

Leonardo Boff 

Correm pelas redes sociais críticas queeu  teria feito a Lula. Elas são falsas. Pessoalmente não fiz nenhuma crítica. O que fiz foi publicar no meu blog (leonardoboff.wordpress.com) um artigo de Carla Jiménez no jornal espanhol El Pais que leva como o título:”Uma elite amoral e mesquinha se revela nas delações da Odebrecht”. Considerei o artigo bem informado sobre a corrupção que tomou conta das empreiteiras. Estas corromperam e beneficiaram a quase todos os grandes partidos com caixa 2 ou com propinas. Um olhar de fora é sempre instrutivo, pois quando alguém escreve algo semelhante, aqui dentro do país, frequentemente é desqualificado como partidista, oportunista e mesmo falso.

No referido artigo Carla Jiménez, no final, faz críticas ao Lula o que considero, dentro da democracia, legítimo, embora não concorde. https://leonardoboff.wordpress.com/2017/04/24/nao-fiz-as-criticas-a-lula-que-falsamente-me-atribuem/

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG – O que o teólogo escreveu e foi republicado na Tribuna da Internet foi o seguinte texto: “Seguramente a grande maioria concorda com o conteúdo e os termos desta catilinária contra corruptos e corruptores que tem caracterizado nos últimos tempos o Brasil. Formou-se entre nós, praticamente, uma sociedade de ladrões e de bandidos que assaltaram o país, deixando milhões de vítimas, gente humilde de povo, sem saúde, sem escola, sem casa, sem trabalho e sem espaços de encontro e lazer. E o pior, sem esperança de que esse rumo possa facilmente ser mudado. Mas tem que mudar e vai mudar. É crime demasiado. Nenhuma sociedade minimamente humana e honesta pode sobreviver com semelhante câncer que vai corroendo as forças vitais de um nação”. Acrescenta que se enganaram os que partiram da ideia de que ele fosse um defensor do PT. “Enganam-se aqueles que eu, pelo fato de defender as políticas sociais que beneficiaram milhões de excluidos, realizadas pelos dois governos anteriores, do PT e de seus aliados, tenha defendido o partido. A mim não interessa o partido mas a causa dos empobrecidos que constituem o eixo fundamental da Teologia da Libertação,  a opção pelos pobres contra a pobreza e pela justiça social, causa essa tão decididamente assumida pelo Papa Francisco”. Bem, se o teólogo Boff não estava se referindo a Lula e ao PT neste texto, deveria ter colocado um aviso, em letras garrafais: “ISSO NÃO VALE EM RELAÇÃO A LULA E AO PT”. (C.N.)

Até o teólogo Leonardo Boff anuncia ter desistido de apoiar Lula e o PT

Boff diz que só apoia a Teologia da Libertação

Fabio Sena

Diário Conquistense

As mais recentes delações premiadas – muitas das quais fragilizaram bastante a defesa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva – acendeu a luz vermelha na esquerda brasileira e muitos teóricos como o teólogo Leonardo Boff, antes ferrenho defensor de Lula, parecem ter sido atingidos no coração pelas revelações de empresários como o ex-presidente da OAS, Léo Pinheiro, e do todo-poderoso Emilio Odebrecht.

Em artigo publicado em sua página oficial, Boff avaliza uma minudente leitura do cenário político nacional, que avalia a Lava Jato, os delatores e dedica um parágrafo especial ao ex-companheiro, valendo-se de artigo da jornalista Carla Jiménez do jornal espanhol El Pais, que diz: “Lula, por outro lado, mais do que os crimes a que responde, feriu de golpe a esquerda no Brasil. Ajudou a segregá-la, a estigmatizar suas bandeiras sociais e contribuiu diretamente para o crescimento do que há de pior na direita brasileira. Se embebedou com o poder. Arvorou-se da defesa dos pobres como álibi para deixar tudo correr solto e deixou-se cegar. Martelou o discurso de ricos contra pobres, mas tinha seu bilionário de estimação. Nada contra essa amizade. Mas com que moral vai falar com seus eleitores?”

CORRUPTOS E CORRUPTORES – Em sua própria avaliação, diz o teólogo: “Seguramente a grande maioria concorda com o conteúdo e os termos desta catilinária contra corruptos e corruptores que tem caracterizado nos últimos tempos o Brasil. Formou-se entre nós, praticamente, uma sociedade de ladrões e de bandidos que assaltaram o país, deixando milhões de vítimas, gente humilde de povo, sem saúde, sem escola, sem casa, sem trabalho e sem espaços de encontro e lazer. E o pior, sem esperança de que esse rumo possa facilmente ser mudado. Mas tem que mudar e vai mudar. É crime demasiado. Nenhuma sociedade minimamente humana e honesta pode sobreviver com semelhante câncer que vai corroendo as forças vitais de um nação”.

Boff acrescenta que está equivocado quem parte da ideia de que ele fosse um defensor do PT.

“Enganam-se aqueles que eu, pelo fato de defender as políticas sociais que beneficiaram milhões de excluídos, realizadas pelos dois governos anteriores, do PT e de seus aliados, tenha defendido o partido. A mim não interessa o partido, mas a causa dos empobrecidos que constituem o eixo fundamental da Teologia da Libertação,  a opção pelos pobres contra a pobreza e pela justiça social, causa essa tão decididamente assumida pelo Papa Francisco”.

(artigo enviado por Mário Assis Causanilhas e Valmor Stédile)

A idade das nações passou: a hora é de resgatar a Terra como um todo

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Ilustração reproduzida do Arquivo Google

Leonardo Boff
O Tempo

Hoje, há uma forte confrontação com a globalização, exacerbada por Donald Trump, que reforçou: “A América em primeiro lugar”, melhor dito, “só a América”. O presidente move uma guerra contra as corporações globalizadas em favor daquelas de dentro dos Estados Unidos. Trata-se de uma luta contra os conglomerados financeiros que controlam grande parte da riqueza mundial, que está na mão de um reduzido número de pessoas. Segundo J. Stiglitz, Nobel de Economia, temos 1% de biliardários, contra 99% das outras pessoas.

Esse tipo de globalização, de natureza econômico-financeira, dinossáurica, no dizer de Edgar Morin, é a fase de ferro do fenômeno. Mas a globalização é mais que a economia. Trata-se de um processo irreversível, uma nova etapa da evolução da Terra, a partir do momento em que a descobrimos, vendo-a de fora, como no-lo testemunharam os astronautas a partir de suas naves espaciais.

AMAR O PLANETA – Impactante é o testemunho do astronauta John W. Young, na quinta viagem à Lua, em 16 de abril de 1972: “Lá embaixo está a Terra, esse planeta azul-branco, belíssimo, resplandecente, nossa pátria humana. Daqui da Lua eu o seguro na palma de minha mão. E dessa perspectiva não há nele brancos ou negros, divisões entre leste e oeste, comunistas e capitalistas, norte e sul. Todos formamos uma única Terra. Temos que aprender a amar esse planeta do qual somos parte”.

A partir dessa experiência ficam proféticas e provocativas as palavras de Pierre Teilhard de Chardin, em 1933: “A idade das nações passou. Se não quisermos morrer, é hora de sacudirmos os velhos preconceitos e construir a Terra. A Terra não se tornará consciente de si mesma por nenhum outro meio senão pela crise de conversão e de transformação”.

Essa crise se instalou em nossas mentes: somos agora responsáveis pela única Casa Comum que temos. E inventamos os meios de nossa própria autodestruição, o que aumenta ainda mais nossa responsabilidade.

GLOBALIZAÇÃO – Se bem repararmos, essa consciência irrompeu em 1521, quando Fernão de Magalhães fez, pela primeira vez, o périplo do globo terrestre, comprovando que a Terra é redonda e podemos alcançá-la a partir de qualquer ponto de onde estivermos.

Inicialmente, a globalização realizou-se na forma de ocidentalização do mundo. A Europa deu início à aventura colonialista e imperialista de dominação das novas terras, que foram postas a serviço dos interesses corporificados na vontade de enriquecimento ilimitado, de imposição da cultura branca, de suas formas políticas e de sua religião cristã. Essa aventura fez-se sob grande violência, com genocídios, etnocídios e ecocídios. Ela significou, para a maior parte dos povos, um trauma e uma tragédia, cujas consequências se fazem sentir até os dias de hoje.

PLANETIZAÇÃO – Temos que resgatar hoje o sentido positivo da “planetização”, palavra melhor que “globalização” com sua conotação econômica. A ONU, em 22 de abril de 2009, oficializou o nome “Mãe Terra” para dar-lhe o sentido de algo vivo que deve ser respeitado, como o fazemos com nossas mães. O papa Francisco divulgou a expressão Casa Comum para mostrar a profunda unidade da espécie humana habitando num mesmo espaço.

Não podemos retroceder e fechar-nos, como pretende Trump. Temos que adequar-nos a esse novo passo que a Terra deu, este superorganismo vivo, segundo a tese de Gaia. Nós somos o momento de consciência e de inteligência da Terra. Por isso, somos a Terra que sente, ama, cuida e venera. Somos os seres da natureza cuja missão ética é cuidar dessa herança sagrada. Não estamos correspondendo a esse chamado da própria Terra. Por isso, temos que despertar e assumir essa nobre missão de construir a planetização.

O princípio da evolução tem mais e mais vida, inclusive fora da Terra

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Ilustração do Duke (O Tempo)

Leonardo Boff
O Tempo

Cientistas da Nasa descobriram uma estrela, Trappist-1, distante 39 anos-luz da Terra, com sete planetas rochosos, três dos quais com possibilidade de ter água e, assim, de vida. Essa descoberta recolocou a questão de eventual vida extraterrestre. Façamos alguns reflexões sobre o tema, fundadas em nomes notáveis na área.

As ciências da Terra e os conhecimentos advindos da nova cosmologia nos habituaram a situar todas as questões no quadro da grande evolução cósmica. Tudo está em processo de gênese, condição para surgir a vida.

Esta é tida como a realidade mais complexa e misteriosa do universo. Há cerca de 3,8 bilhões de anos, num oceano ou num brejo primordial, sob a ação de tempestades de raios e de elementos cósmicos do próprio Sol em interação com a Terra, esta levou até a exaustão a complexidade das formas inanimadas. De repente, ultrapassou-se a barreira: estruturaram-se cerca de 20 aminoácidos e quatro bases fosfatadas. Como num imenso relâmpago que cai sobre o mar ou brejo, irrompeu a primeiro ser vivo.

MILAGRE DA VIDA – Como um salto qualitativo em nosso espaço-tempo curvo, num canto de nossa galáxia média, num sol secundário, num planeta de “quantité négligeable”, na Terra, emergiu a grande novidade: a vida. A Terra passou por 15 grandes dizimações em massa, mas, como se fora uma praga, a vida jamais foi extinta.

Vejamos a lógica interna que permitiu a eclosão da vida. À medida que avançam em seu processo de expansão, a matéria e a energia do universo tendem a tornar-se cada vez mais complexas. Cada sistema se encontra num diálogo permanente com seu meio, retendo informações.

Biólogos e bioquímicos, como Ilya Prigogine, Prêmio Nobel de Química (1977), afirmam que vigora uma continuidade entre os seres vivos e inertes. Não precisamos recorrer a um princípio transcendente e externo para explicar o surgimento da vida, como o fazem, comumente, as religiões e a cosmologia clássica. Basta que o princípio de complexificação, auto-organização e autocriação de tudo, também da vida, o princípio cosmogênico, esteja embrionariamente naquele ponto ínfimo, emerso na Energia de Fundo, que depois explodiu.

PRESENÇA DE DEUS – Um dos mais importantes físicos da atualidade, Amit Goswami, sustenta a tese de que o universo é matematicamente inconsistente sem a existência de um princípio ordenador supremo: Deus. Por isso, para ele, o universo é autoconsciente (“O Universo Autoconsciente”, Rio, 1998).

A Terra não detém o privilégio da vida. Segundo Christiann de Duve, Prêmio Nobel de Biologia (1974): “Há tantos planetas vivos no universo quanto há planetas capazes de gerar e sustentar a vida”.

Presume-se que as mais diversas formas de vida originaram-se todas de uma única bactéria (Wilson, O . E., “A Diversidade da Vida”, São Paulo, 1994). Com os mamíferos, surgiu uma nova qualidade da vida, a sensibilidade emocional e o cuidado. Há cerca de 8 milhões ou 10 milhões de anos, emergiu na África o ser humano, o australopiteco. Por fim apareceu, há 100 mil anos, o Homo sapiens sapiens/demens demens, do qual somos herdeiros imediatos (Reeves, H. e outros, “A Mais Bela História do Mundo”, Petrópolis, 1998).

ACASO E IGNORÂNCIA – A vida não é fruto do acaso (conta Jacques Monod, “O Acaso e a Necessidade”, Petrópolis, 1979). Bioquímicos e biólogos moleculares mostraram a impossibilidade matemática do acaso puro e simples. Para que os aminoácidos e as 2.000 enzimas subjacentes pudessem se aproximar e formar uma célula viva, seriam necessários trilhões e trilhões de anos, mais do que os 13,7 bilhões de anos, a idade do universo.

O assim chamado acaso é expressão de nossa ignorância. Estimamos que a evolução ascendente é produzir mais e mais vida, também extraterrestre.

A morte de Dona Marisa tirou a máscara dos que odeiam Lula e o PT

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O Tempo

Dona Marisa Letícia, esposa do ex-presidente Lula, morreu num contexto político conturbado. Nas palavras do próprio Lula, “morreu triste” e também traumatizada.

Diz-se que todas as instituições funcionam. Mas funcionam mal. Em outras palavras, não funcionam. Se tomarmos como referência a mais alta Corte da nação, o Supremo Tribunal Federal, fica claro que as instituições estão corrompidas, incluindo a Polícia Federal e o Ministério Público. Especialmente o STF é atravessado por interesses políticos. Essa situação é um sinal inequívoco de que estamos numa derrocada política, ética e institucional. O Brasil vai de mal a pior, pois todos os itens sociais e políticos se deterioram. E havia senadores e deputados que propalavam que, com a derrubada do PT, o Brasil entraria em uma nova primavera de progresso.

O que nos parece mais grave é o fato de que se instaurou um real Estado de sítio judicial. A Lava Jato mostrou juízes justiceiros, que usam o direito como instrumento de perseguição. A Polícia Federal entrou casa adentro da família Lula da Silva, carregou o que pôde e levou sob vara, quer dizer, coercitivamente, o ex-presidente Lula para interrogatório numa delegacia do aeroporto.

TRAUMA FAMILIAR – Tal ato de violência física e simbólica traumatizou a ex-primeira-dama. Maior foi o trauma quando foi indiciada como criminosa na operação Lava Jato, junto com o marido. Isso a encheu de medo e alterou seu estado de saúde.

Faço minhas as palavra de Hildegard Angel, pois representam o que posso testemunhar em mais de 30 anos de amizade entranhável com Dona Marisa e Lula: “Foi companheira, foi amiga e leal ao marido o tempo todo. Foi amável e cordial com todos que dela se aproximaram”.

SENTIDO ESTÉTICO – Criticam-na porque, como primeira- dama, não assumiu funções públicas. Mas poucos sabem que restituiu a forma original do palácio do Planalto, resgatando móveis e tapetes que haviam sido doados a ministros e a outros departamentos. Ela possuía elevado sentido estético.

Finalmente, foi ela que introduziu no Torto as festas da cultura popular e a celebração de seus santos de devoção, que são da maioria do povo brasileiro, santo Antônio e são João, para escândalo da burguesia descolada de nossas raízes e envergonhada de nossas tradições.

Ela sofreu um AVC fatal. Visitei-a na UTI, falei-lhe ao ouvido palavras de confiança e de entrega a Deus. Ele a estava esperando para que caísse em seu seio para ser feliz eternamente.

PALAVRAS DE ÓDIO – Ao lado de tanta dor, na internet, houve palavras de ódio e maledicência. Felizes porque ela morria daquele jeito. Aí me dei conta de que não temos apenas pedófilos, mas também necrófilos, aqueles que amam e celebram a morte dos outros. Pertinente é a frase atribuída ao papa Francisco: “Quando você comemora a morte de alguém, o primeiro que morreu foi você mesmo”.

Diante da morte, o momento derradeiro para cada ser humano, devemos nos calar reverentes. Ou proferimos palavras de conforto e solidariedade ou emudecemos respeitosamente.

SEM PIEDADE – Como podemos ser cruéis e sem piedade diante da morte dolorosa de uma pessoa extremamente bondosa, arraigada aos mais pobres, lutadora dos direitos dos trabalhadores e das mulheres e com grande amor ao Brasil? Ao ódio ela respondeu doando generosamente os próprios órgãos para que outros pudessem viver.

Lamentavelmente, o golpe perpetrado contra o povo impôs uma radical agenda que, segundo o jornalista Elio Gaspari, “é uma grande máscara, atrás da qual se escondem os velhos e bons oligarcas. Estes odeiam os pobres como odeiam o PT e Lula e odiaram Dona Marisa Letícia”. Mas a verdade e a justiça possuem uma força intrínseca. A luz brilhará e contemplaremos uma estrela no céu da política brasileira: Dona Marisa Letícia Lula da Silva.

Donald Trump abre uma nova etapa da história da humanidade?

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Ilustração do Duke (O Tempo)

Leonardo Boff
O Tempo

Há anos que já se notava a ascensão de um pensamento conservador e de movimentos que se definiam como de direita. Com isso, sinalizava-se um tipo de sociedade na qual a ordem prevalecia sobre a liberdade, os valores tradicionais se impunham aos modernos e a supremacia da autoridade se sobrepunha à liberdade democrática. Esse fenômeno deriva de muitos fatores, mas, principalmente, da erosão das referências de valor que conferiam coesão a uma sociedade e forneciam um sentido coletivo de convivência.

O predomínio da cultura do capital, com seus propósitos ligados ao individualismo, à acumulação ilimitada de bens materiais e, principalmente, à competição, deixando pequeno o espaço para a cooperação, contaminou praticamente toda a humanidade, gerando confusão ético-espiritual e perda de pertença a uma única humanidade habitando uma casa comum.

NADA É SÓLIDO – Emergiu a sociedade líquida, na linguagem de Bauman, na qual nada é sólido. Face a essa diluição, surgiu seu oposto dialético: a busca de segurança, ordem, autoridade, normas claras e caminhos bem-definidos. Na base do conservadorismo e da direita em política, em ética e em religião, se encontra esse tipo de visão das coisas. Ela está a um passo do fascismo, como se verificou na Alemanha de Hitler e na Itália de Mussolini.

Na Europa, na América Latina e nos Estados Unidos, essas tendências foram ganhando força social e política. No Brasil, foi esse espírito conservador, direitista, que moldou o golpe de classe jurídico-parlamentar que destituiu a então presidente Dilma Rousseff. O que se seguiu foi a implantação de políticas claramente de direita, negadoras de direitos sociais e retrógradas em termos culturais.

Mas essa tendência conservadora alcançou sua dimensão mais expressiva na potência central do sistema-mundo, os Estados Unidos, confirmada pela eleição de Donald Trump à Presidência daquele país.

CONQUISTAS DE OBAMA – Trump, em seus primeiros atos, começou a desmontar as conquistas sociais alcançadas por Barack Obama. Nacionalismo, patriotismo, conservadorismo e isolacionismo são suas características mais claras.

Seu discurso inaugural é aterrador: “De hoje em diante, uma nova visão governará nossa terra. A partir deste momento, só os Estados Unidos serão o primeiro”. O “primeiro” aqui deve ser entendido como “só os EUA vão contar”.

Subjacente a essas palavras, funciona a ideologia do “destino manifesto”, da excepcionalidade dos EUA, sempre presente nos presidentes anteriores, inclusive em Obama. Quer dizer, os EUA possuem uma missão única e divina no mundo: a de levar seus valores de direitos, da propriedade privada e da democracia liberal para o resto da humanidade. Para ele, o mundo não existe. E, se existe, é visto de forma negativa.

PODE-SE ESPERAR TUDO – Da personalidade de Trump se pode esperar tudo. Habituado a negócios tenebrosos como são, de modo geral, os empreendimentos imobiliários nova-iorquinos, sem qualquer experiência política, pode deslanchar crises altamente ameaçadoras para o resto da humanidade, como, por exemplo, uma eventual guerra contra a China ou a Coreia do Norte, onde não se exclui a utilização de armas nucleares.

A frase que nos assusta é esta: “De hoje em diante, uma nova visão governará nossa terra”. Não sei se está pensando apenas nos EUA ou no planeta Terra. Provavelmente, as duas coisas para ele se identificam. Se for verdade, teremos que rezar para que o pior não aconteça para o futuro da civilização.

Governo está secando a seiva da vida intelectual e artística

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Charge do Bruno Galvão (chargesbruno.blogspot.com.br)

Leonardo Boff
O Tempo

Já se disse quase tudo e se fez de tudo em termos de crítica e de manifestações de professores, alunos, artistas e intelectuais no sentido de salvar um dos patrimônios culturais mais caros à cidade do Rio de Janeiro: a Universidade do Rio de Janeiro (UERJ), fundada em 1950. Quero ater-me a um testemunho pessoal dos anos em que fui professor de ética e de filosofia da religião nessa universidade. Mas antes vale recordar uma política exemplar vinda de Cuba.

À dissolução política da União Soviética, que apoiava economicamente Cuba nos quadros de uma política de solidariedade internacional, seguiu-se formidável crise generalizada, pois a nova Rússia não tinha mais condições de ajudar o país. Entregou-o à própria sorte. Tudo foi duramente reduzido e reajustado. Entretanto, dois campos ficaram intocáveis: a saúde e a educação. Ali se mantiveram todos os investimentos necessários. É conhecido o alto nível da educação e da saúde de Cuba. A razão era óbvia: um povo doente e ignorante nunca poderia levar avante qualquer projeto nacional.

Pois não é isso que ocorre no Brasil. Cortou-se na saúde e na educação. Parece que a falta de educação e de saúde obedece à lógica da dominação das classes endinheiradas e do Estado refém de suas estratégias. É mais fácil explorar um povo ignorante e doente que um sadio e educado.

SEM HORIZONTE – Assistir à derrocada da UERJ, uma das melhores universidades do país, é aceitar que se mate a seiva da criatividade e se feche o horizonte de um futuro da atual geração de estudantes e professores. Bem dizia Celso Furtado em seu “O Longo Amanhecer”:

“Uma sociedade só se transforma se tiver capacidade de improvisar, de ter ou não acesso à criatividade: eis a questão” (1999, p. 67). O que caracterizava a UERJ era, e continua sendo, sua criatividade, sua abertura a fronteiras novas, sejam ligadas à pesquisa de ponta em várias áreas técnicas e na saúde, seja sua articulação com as bases populares, com cursos de extensão em formação de lideranças, direito social e educação em direitos humanos em vários municípios, sua atuação corajosa nos conflitos de terras.

Aceitei ser professor nessa universidade sob a condição de que minhas aulas fossem abertas a quem quisesse das comunidades e a outros interessados.

TESES BRILHANTES – Minha preocupação em filosofia era levar os estudantes a pensar com suas próprias cabeças e tomar como temas de tese a realidade brasileira. Não basta saber o que Aristóteles, Heidegger, Habermas, Bergson, Deleuze ou Guatarri sabiam. Importa pensar o que sabemos. Daí nasceram teses brilhantes, como, por exemplo, uma sobre o profeta Gentileza, outra sobre espiritualidade nos tempos modernos no diálogo com a psicologia analítica de C.G. Jung.

Contudo, o que mais me impressionou nessa universidade – da qual trago as melhores lembranças e cujo nome levei a todos os países nos quais dei palestras e cursos, na Rússia, na China e até entre os samis (esquimós), perto do Polo Norte –, foi o ambiente de abertura e de representação do que é o Brasil real, com a presença de estudantes vindos das classes populares da Baixada Fluminense, a coexistência sem qualquer discriminação entre negros e brancos, a orientação social de todo o ensino da instituição, com forte acento na construção de uma nação livre, criativa, soberana e insubmissa às lógicas da dominação. Há que recordar a resistência da UERJ à ditadura militar, com a morte de um estudante pelos órgãos de repressão.

O lema das manifestações é “luto e luta”: luto pela agonia desse centro de excelência e luta para garantir sua existência contra o sucateamento e sua eventual privatização. Salvar a UERJ é garantir a seiva da vida intelectual e artística da cidade e permitir que o Brasil inteiro se beneficie com seus serviços sérios e excelentes.

O Deus que dizem ser brasileiro é um Moloc que devora seus filhos

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Charge do Will (willtirando.com.br)

Leonardo Boff
O Tempo

Diz-se que Deus é brasileiro, não o Deus da ternura dos humildes, mas o Moloc dos amonitas que devora seus filhos. Somos um dos países mais desiguais e violentos do mundo. Teologicamente, vivemos numa situação de pecado social e estrutural, em contradição com o projeto de Deus. Basta considerar o que ocorreu nos presídios de Manaus, Rondônia e Roraima. Pura barbárie!

Estamos assentados sobre estruturas histórico-sociais violentas, oriundas do genocídio indígena, do colonialismo humilhante e do escravagismo desumano. Não há como superar essas estruturas sem antes superar essa tradição nefasta.

Entretanto, esse é um desafio que demanda uma transformação de nossas relações sociais. Vejo ser possível a condição de seguirmos dois caminhos: a gestação de um povo e a instauração de uma democracia social de base popular.

NÃO ERA UMA NAÇÃO – A gestação de um povo: os que nos colonizaram não vinham para criar uma nação, mas para fundar uma empresa comercial e regressar a Portugal para desfrutar da riqueza acumulada. Submeteram primeiro os índios e, depois, introduziram os negros africanos como mão de obra escrava. Criou-se aqui uma massa humana dominada pelas elites, humilhada e desprezada até os dias atuais.

Abstraindo as revoltas anteriores, a partir dos anos 30 houve uma virada histórica. Surgiram os sindicatos e os mais variados movimentos sociais. Em seu seio, foram surgindo atores sociais conscientes e dotados de vontade para modificar a realidade social. A articulação dessas associações gerou o movimento popular brasileiro.

A criação de uma democracia social, de base popular: possuímos uma democracia representativa de baixíssima intensidade, cheia de vícios políticos e corrupta, com representantes eleitos, em geral, pelas grandes empresas, cujos interesses representam. Em contrapartida, como fruto da organização popular, se produziram partidos populares ou segmentos de partidos progressistas e até liberal-burgueses ou tradicionalmente de esquerda.

QUATRO PÉS – Essa democracia participativa se baseia, fundamentalmente, em quatro pés, como os de uma mesa: a participação mais ampla possível de todos; a igualdade, que resulta dos graus de participação; o respeito às diferenças de toda ordem; e a valorização da subjetividade humana.

Essa mesa, entretanto, está assentada sobre uma base sem a qual ela não se sustenta: uma nova relação para com a natureza e para com a Terra, nossa Casa Comum, como enfatiza a encíclica ecológica do papa Francisco. Em outras palavras, essa democracia deverá incorporar o momento ecológico, fundado num outro paradigma.

O vigente, centrado no poder e na dominação em função da acumulação ilimitada, encontrou uma fronteira insuperável: os limites da Terra e seus bens e serviços não renováveis. Uma Terra limitada não suporta um projeto ilimitado de crescimento. Por forçar esses limites, assistimos ao aquecimento global e aos eventos extremos vividos neste ano de 2017, com neves em toda a Europa que não ocorriam havia cem anos.

NOVO PARADIGMA – Essa consciência dos limites, que cresce mais e mais, nos obriga a pensar num novo paradigma de produção, de consumo e de repartição dos recursos escassos entre os humanos e também com a comunidade de vida. Aqui entram os valores do cuidado, da corresponsabilidade e da solidariedade de todos com todos, sem os quais o projeto jamais prosperará.

A partir dessas premissas podemos pensar na superação de nossas estruturas sociais violentas. O resto é tapeação de mudança para que nada mude.