Uma receita para enfrentar o fundamentalismo no mundo

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Ilustração do Duke (O Tempo),

Leonardo Boff
O Tempo

Atualmente, em todo o mundo, se verifica aumento do conservadorismo e de fenômenos fundamentalistas que se expressam por homofobia, xenofobia, antifeminismo, racismo e toda sorte de discriminações.

O fundamentalista está convencido de que sua verdade é a única e que todos os demais são ou desviantes, ou fora da verdade. Isso é recorrente nos programas televisivos das várias igrejas pentecostais, incluindo setores da Igreja Católica. Mas também no pensamento único de setores políticos. Pensam que só a verdade tem direito, a deles. O erro deve ser combatido. Eis a origem dos conflitos religiosos e políticos. O fascismo começa com esse modo fechado de ver as coisas.

Como vamos enfrentar esse tipo de radicalismo? Além de muitas outras formas, creio que uma delas consiste no resgate do conceito bom do relativismo, palavra que muitos nem querem ouvir. Mas nele há muita verdade.

RELATIVISMO –Este conceito deve ser pensado em duas direções. Em primeiro lugar, o relativo quer expressar o fato de que todos estão, de alguma forma, relacionados. Na esteira da física quântica, insiste a encíclica do papa Francisco sobre como cuidar da Casa Comum: “Tudo está intimamente relacionado; todas as criaturas existem na dependência umas das outras”. Por essa interrelação, todos são portadores da mesma humanidade. Somos uma espécie entre tantas, uma família.

Em segundo lugar, importa compreender que cada um é diferente e tem um valor em si mesmo. Mas está sempre em relação com outros e seus modos de ser. Daí ser importante relativizar todos os modos de ser; nenhum deles é absoluto a ponto de invalidar os demais; impõe-se também a atitude de respeito e de acolhida da diferença porque, pelo simples fato de estar aí, goza de direito de existir e de coexistir.

Quer dizer, nosso modo de ser, de habitar o mundo, de pensar, de valorar e de comer não é absoluto. Há mil outras formas de sermos humanos, desde a forma dos esquimós siberianos, passando pelos ianomâmis do Brasil, até chegarmos aos moradores das comunidades da periferia e aos de sofisticados Alphavilles. O mesmo vale para as diferenças de cultura, língua, religião, ética e lazer. Todas essas manifestações humanas são portadoras de valor e de verdade. Mas são um valor e uma verdade relativos, vale dizer, relacionados uns aos outros, sendo que nenhum deles, tomado em si, é absoluto.

VALE TUDO? – Então, não há verdade absoluta? Vale o “everything goes” de alguns pós-modernos? Traduzindo: “vale tudo”? Não há o vale-tudo. Tudo vale na medida em que mantém relação com os outros, respeitando-os em suas diferenças, e não prejudicando-os.

Cada um é portador de verdade, mas ninguém pode ter o monopólio dela, nem uma religião, nem uma filosofia, nem um partido político, nem uma ciência. Bem dizia o poeta espanhol António Machado: “Não a tua verdade. A verdade. Vem comigo buscá-la. A tua, guarda-a”. Se a buscarmos juntos e no diálogo, então mais e mais desaparece minha verdade para dar lugar a nossa verdade. A ilusão do Ocidente é imaginar que a única janela que dá acesso à verdade e ao saber crítico é seu modo de ver e de viver.

Pensando assim, condena-se a um fundamentalismo visceral responsável por massacres ao se impor sua religião na América Latina e na África. Hoje se fazem guerras com milhares de vítimas civis para impor a democracia no Iraque, no Afeganistão, na Síria e em todo o Norte da África. Aqui se dá também o fundamentalismo ocidental. Devemos fazer o bom uso do relativismo.

Os Jogos Olímpicos são uma metáfora da humanidade humanizada

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Ilustração do Duke (dukechargista.com.br)

Leonardo Boff
O Tempo

As Olimpíadas de 2016 deixarão um legado inesquecível para a população carioca por causa da implantação de uma imensa infraestrutura de arenas, estádios, novas avenidas e túneis. Tradicionalmente, a abertura e o encerramento constituem ocasiões de grandes celebrações, nas quais o país-hóspede tenta mostrar o melhor de sua arte e singularidade. A abertura foi de um esplendor inigualável. O ponto alto foi o desfile das delegações de 206 países, número maior que os representados na ONU, que são 193. Cada delegação desfilou em trajes típicos.

Sabemos que em todas as relações sociais subjazem interesses de poder. Nos Jogos Olímpicos, se existiram, ficaram praticamente invisíveis. Predominou o espírito esportivo e olímpico acima de diferenças nacionais, ideológicas e religiosas. Até um grupo de refugiados desfilou.

Talvez esse evento seja um dos poucos espaços nos quais a humanidade se encontra consigo mesma, como única família, antecipando uma humanização sempre buscada, mas nunca sustentada definitivamente, porque não avançamos ainda em consciência de que somos uma espécie, a humana, e que temos um único destino comum junto com a Casa Comum, a Terra.

Esta seja talvez a mensagem simbólica mais importante que um evento como este envia para todos. Para além dos conflitos, diferenças e problemas, podemos viver antecipadamente e, por um momento, a humanidade que se humanizou e encontrou seu ritmo em consonância com o ritmo do próprio universo.

REFLEXÕES – Os Jogos Olímpicos nos dão o ensejo de refletirmos sobre a importância antropológica e social do jogo. Não penso no jogo que virou profissão e grande comércio internacional. O jogo, como dimensão humana, se revela melhor nos meios populares, nas peladas de rua ou na praia, em algum espaço gramado ou arenoso. Esse tipo de jogo não tem finalidade prática nenhuma. Em si mesmo carrega um profundo sentido como expressão de alegria de divertir-se juntos.

Nas Olimpíadas impera outra lógica, diferente daquela cotidiana de nossa cultura capitalista, cujo eixo articulador é a competição excludente: o mais forte triunfa e, no mercado, se puder, engole seu concorrente. Aqui há competição, mas ela é includente, pois todos participam. A competição é para o melhor, apreciando e respeitando as qualidades e virtuosidades do outro.

JOGO DE DEUS – A tradição cristã desenvolveu toda uma reflexão sobre o significado transcendente do jogo. Sobre ela quero me concentrar um pouco. As duas igrejas irmãs, a latina e a grega, se referem ao “Deus ludens”, ao “homo ludens” e até à “ecclesia ludens” (o Deus, o homem e a igreja lúdicos).

Eles viam a criação como um grande jogo do Deus lúdico: para um lado, jogou as estrelas, para outro, o sol, mais abaixo jogou os planetas e, com carinho, jogou a Terra, equidistante do Sol, para que pudesse ter vida. A criação expressa a alegria transbordante de Deus, uma espécie de teatro no qual todos os seres desfilam e mostram sua beleza. Falava-se, então, da criação como um “theatrum gloriae Dei” (um teatro da glória de Deus).

Não precisamos temer. O que nos tolhe a liberdade e a criatividade é o medo. O oposto à fé não é tanto o ateísmo, mas o medo, especialmente o medo da solidão. Ter fé, mais que aderir a um feixe de verdades, é poder dizer, na esteira de Nietzsche, “sim e amém a toda a realidade”. Em seu profundo, ela não é traiçoeira e má, mas boa e bela, alegre, acolhedora. Alegrar-se por participar dela o expressamos pelo jogo e, de forma universal, pelos Jogos Olímpicos.

Leonardo Boff alerta sobre o projeto de bases militares dos EUA na Argentina

Boff diz que os EUA querem recolonizar a América Latina

O Tempo
(Agência France-Presse)

O ex-padre brasileiro Leonardo Boff, um dos fundadores da Teologia da Libertação, alertou para a possível instalação de duas bases militares americanas na Argentina e denunciou “um projeto para recolonizar a América Latina”, em uma entrevista publicada nesta segunda-feira (15).

“Assusta-nos muito que os Estados Unidos negociem com (o presidente da Argentina) Mauricio Macri duas bases militares, uma na Patagônia e outra na fronteira entre Brasil, Paraguai e Argentina, perto do maior aquífero do mundo”, declarou Boff ao jornal Página/12.

Em maio passado, o presidente Mauricio Macri enviou uma missão do ministério da Defesa para Washington para retomar o diálogo bilateral na área militar, virtualmente paralisado durante o governo de Cristina Kirchner (2007/2015). Na ocasião, o vice-ministro da Defesa, Angel Tello, admitiu o interesse que a cidade de Ushuaia (3.200 km ao sul de Buenos Aires) “se torne uma base logística para apoiar o trabalho científico na Antártida”, disse ele.

DENÚNCIA – Na semana passada, a deputada de oposição Alcira Argumendo (Projeto Sul, centro-esquerda) denunciou o plano de instalar as bases militares dos Estados Unidos em Misiones, nordeste da Argentina, na chamada Tríplice Fronteira, e Ushuaia, no extremo sul do país. “Não é por acaso que se pretende instalar uma base militar no norte, onde está o aquífero subterrâneo Guarani, a terceira maior reserva de água doce do mundo, e no sul é uma maneira de controlar a Antártida, porque existe outra grande reserva de água doce, mas congelada”, disse a legisladora.

Leonardo Boff, que foi padre franciscano até 1992, disse que “há um projeto para recolonizar a América Latina a fazer dela uma zona de exportação de commodities sem produtos de valor agregado. A América Latina forneceria os bens que não há em outros lugares”, acrescentou.

A questão das bases militares não foi abordada durante a recente visita a Buenos Aires do secretário de Estado americano, John Kerry, indicaram, sem excluir a existência do projeto, diplomatas de ambos os países consultados pela AFP.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOGOs Estados Unidos já têm bases na Colômbia. Agora, querem instalar novas unidades na Argentina, inclusive na chamada tríplice fronteira (Brasil-Argentina- Paraguai).  Uma jogada muito esquisita, no mínimo, que merece repúdio total. (C.N.)

De tempos em tempos a plutocracia brasileira tenta um golpe

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Ilustração do Duke (O Tempo)

Leonardo Boff
O Tempo

A plutocracia brasileira (os 71.440 miliardários, segundo o Ipea) possui pouca fantasia. Usa os mesmos métodos, a mesma linguagem, o mesmo recurso farisaico do moralismo e do combate à corrupção para ocultar a própria corrupção e dar um golpe na democracia e, assim, salvaguardar seus privilégios. Sempre que emerge uma democracia com abertura ao social, enchem-se de medo. Organizam um conluio de forças que envolve setores da política, do Judiciário, do MPF, da PF e, principalmente, da imprensa conservadora e até reacionária. Assim fizeram com Vargas, com Jango e, agora, com Lula e Dilma. A sessão de 4.8.2016 no Senado mostrou a farsa montada pela oligarquia, que usou os senadores como os soldados civis previamente bem-instruídos, para aplicar um funesto golpe contra a razão sensata.

Numa entrevista à “Folha de S.Paulo” (24.4.2016) escreveu acertadamente Jessé Souza, autor de um livro que merece ser lido, também com certa crítica, “A Tolice da Inteligência Brasileira”: “Nossa elite do dinheiro nunca sentiu compromisso com os destinos do país. O Brasil é palco de uma disputa entre estes dois projetos: o sonho de um país grande e pujante para a maioria e a realidade de uma elite da rapina que quer drenar o trabalho de todos e saquear as riquezas do país para o bolso de meia dúzia”. A elite do dinheiro manda pelo simples fato de poder “comprar” todas as outras elites.

No atual processo de impeachment de Dilma contam com um aliado poderoso: o complexo jurídico-policial do Estado, que substitui as baionetas. O vice-presidente usurpou o título de presidente e montou um ministério com vários ministros corruptos reduzindo pastas.

PAPA E SABATELLA – Por trás do golpe parlamentar estão as forças citadas por Jessé Souza. Bem disse o papa Francisco a Letícia Sabatella, com quem, junto com uma famosa jurista, teve, há dois meses, um encontro em Roma, relatando a ameaça que corre a democracia brasileira. O papa comentou: “Esse golpe vem dos capitalistas”.

Ninguém sabe para onde estamos indo. Algo parece ficar claro: o design social, montado a partir do colonialismo com as castas de endinheirados que se firmaram no poder, está chegando a seu fim.

Em momentos de obscuridade como os atuais, precisamos de uma grelha teórica mínima que nos traga luz e esperança. Para mim serve como orientação Arnold Toynbee, último historiador inglês a escrever dez volumes sobre a história das civilizações. Para explicar o nascimento, o desenvolvimento, a maturação e a decadência de uma civilização, usa uma chave extremamente simples, mas esclarecedora: “o desafio e a resposta” (“challenge and response”).

DESAFIOS E RESPOSTAS – Diz Toynbee: sempre há crises fundamentais no interior das civilizações. São desafios que exigem resposta. Se o desafio for maior do que a capacidade de resposta, a civilização entra num processo de colapso. Se a resposta é excessiva face ao desafio, surgem a arrogância e o uso abusivo do poder. O ideal é encontrar uma equação de equilíbrio entre o desafio e a resposta de forma que a sociedade mantenha sua coesão, enfrente novos desafios e prospere.

Voltando ao caso do Brasil: os grupos do dinheiro e do poder não conseguem dar uma resposta ao desafio que vem das bases, que cresceram enormemente em consciência e em reclamos de direitos. Por mais que manipulem dados, eles sabem que dificilmente voltarão ao poder pela via da eleição. Daí a razão do golpe. Desmoralizados, não têm nada a oferecer ao novo Brasil.

Uma saída viável para a crise mundial: a renda mínima cidadã

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ilustração do Duke (O Tempo)

Leonardo Boff
O Tempo

A crise econômico-financeira de 2007/2008 estremeceu os fundamentos da economia capitalista e do neoliberalismo. A tese básica era dar primazia ao mercado, à livre iniciativa, à acumulação privada, à lógica da competição em detrimento da lógica da cooperação e a um Estado mínimo. Quem olha numa perspectiva minimamente ética já poderia saber que um sistema montado sobre um vício (a cobiça), e não sobre uma virtude (o bem comum), jamais poderia dar certo.

A implosão começou com a falência de um dos maiores bancos norte-americanos, o Lehman Brothers, levando todo o sistema bancário e financeiro a uma incomensurável crise. Em poucos dias, pulverizaram-se trilhões de dólares.

Curiosamente, os que desprezavam o Estado, reduzindo-o ao mínimo, tiveram que recorrer a ele, de joelhos e mãos juntas. Os bancos centrais dos Estados tiveram que despejar trilhões de dólares para salvar as instituições financeiras falidas. A máquina de fazer dinheiro rodava em máxima velocidade.

MUITAS FALÊNCIAS – Houve como consequência da crise, até hoje ainda não superada também entre nós, a quebra de milhares de empresas e até de países, como a Grécia, com altíssimo grau de desemprego. Destruíram-se fortunas, mas, mais que tudo, criou-se um mar de sofrimento humano.

Piamente se acredita ainda que esse sistema continua bom e válido, a despeito da devastação ecológica que produz, pondo em risco as bases que sustentam a vida. Ele é bom e válido para os especuladores que estão acumulando uma riqueza absurda.

A despeito de todas as reuniões para buscar alternativas, a política econômico-financeira continua a mesma: fazer mais do mesmo. Isso está desestruturando os países e poderá levar a uma revolta popular mundial, com consequências funestas.

INJEÇÃO DE RECURSOS – Duas estratégias foram usadas. A primeira foi a injeção de trilhões de dólares por parte dos Estados para impedir a falência total do sistema. Ocorre que esse dinheiro novo, em vez de ser investido na produção e na criação de empregos, foi jogado na corrente especulativa das finanças mundiais, na qual se ganha muito mais rapidamente do que num investimento produtivo. Dessa forma, os ganhos vão para os já bilionários, sem solucionar a crise, ao contrário, agravando-a.

O outro expediente foram as políticas de ajustes, vindas sob o nome de “austeridade”. Para garantir os ganhos dos capitais, organizou-se um ataque sistemático aos direitos sociais, aos serviços públicos de saúde e de educação, ao sistema de previdência e às aposentadorias. Isso se inaugurou primeiro na zona do euro e agora, na mesma lógica, no Brasil. Fragilizou-se a já frágil democracia, e a diminuição do gasto público está provocando recessão e desemprego.

UMA ALTERNATIVA – Se tivesse havido pensamento e um mínimo de senso humanitário, uma possível saída poderia ter sido aquilo que incansavelmente vem propondo há muitos anos o ex-senador Eduardo Suplicy: a renda mínima cidadã. Pelo fato de alguém ser humano, tem direito a uma renda cidadã que lhe garanta uma vida digna, embora frugal. Esse dinheiro circularia no consumo, nos benefícios públicos e superaria o grave padecimento humano pelo desemprego e pela fome.

Essa seria uma solução viável, mais ética e mais humana. Ela pode ser ainda realizada. Quem sabe, com o agravamento da crise mundial, não seremos obrigados a essa solução verdadeiramente salvadora.

A falta de vergonha e a ausência de culpa na corrupção brasileira

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Ilustração do Duke, reprodução de O Tempo

Leonardo Boff
O Tempo

Depois que surgiram a psicanálise e o estruturalismo, não podemos mais nos restringir ao consciente e aos ditames da razão na análise dos fenômenos humanos, pessoais e coletivos. Há universos pré-consciente, subconsciente e inconsciente (pessoal e coletivo), subjacentes a nossas práticas, a serem considerados. Quero me ater apenas a duas vertentes que influenciam nossos comportamentos. São legados das duas principais culturas ancestrais que subjazem em nosso inconsciente coletivo e nos ajudam a entender fenômenos atuais, como a corrupção que atravessa o corpo social brasileiro: as culturas grega e judaico-cristã.

Da cultura grega herdamos o sentimento de vergonha. O conceito correlato é o de herói. Ter vergonha, para os gregos, consistia em se frustrar em qualquer empreendimento, como na guerra e na convivência social. Triunfar e ser bem-sucedido preenchia os requisitos do herói.

Hoje, essa categoria está presente em nossa sociedade. É um herói o jogador que conseguiu o gol da vitória do time de nossa predileção. Vergonha coletiva é o Brasil perder de 7 a 1 na Copa do Mundo. A vergonha tem a ver com a imagem que projetamos socialmente. Ela tem que causar admiração e respeito. Caso contrário, faz as pessoas se envergonharem.

A outra vertente é constituída pela tradição judaico-cristã. A categoria central é a culpa. Geralmente, colocamos a culpa nos outros. Se fracassamos num negócio, é por culpa da crise econômica. Se o matrimônio se desfez, é por culpa de um dos parceiros. A culpa atinge a interioridade e afeta a consciência. A repercussão não é tanto diante dos outros, que talvez nem saibam de nosso malfeito, mas diante do tribunal da consciência, que nos remete logo a Deus.

JUSTO E RETO – O oposto à culpa é o sentimento de ser justo e reto, dois conceitos definidores de uma pessoa “justa” (santa) no sentido bíblico. Sentir vergonha e dar-se conta da culpa constitui as bases de uma consciência ética. Não precisar se envergonhar diante dos outros e não se sentir culpado diante da consciência e de Deus são sinais de retidão de vida e de uma atitude ética correta.

Qual é nosso problema concernente à escandalosa corrupção ativa e passiva no Brasil? É a acabada falta de vergonha e a completa ausência de culpa dos corruptos e corruptores diante de seus malfeitos. Mesmo surpreendidos no ato de corrupção, ouvimos sempre: “Não sou culpado de nada”. E trata-se de pessoas notória e comprovadamente corruptas. Perderam a noção total de culpa e não dão nenhuma importância à vergonha pública de seus atos.

Raramente, ouve-se a indignação ética da sociedade: os corruptos nem se incomodam e continuam em seu desfrute.

VERGONHA E RUBOR – Aristóteles estabelecia a vergonha e o rubor do rosto como um indicativo da presença de uma consciência ética. Sem essa vergonha, a pessoa era realmente sem-vergonha, mau-caráter, sem sentido dos valores. Essa falta de vergonha e de sentimento de culpa se transformou, entre nós, no Brasil, numa espécie de segunda natureza, tornada uma prática usual. Por isso, quase todo o tecido social é contaminado pelo vírus da corrupção. Ela chegou nos dias atuais a níveis tão escandalosos que não podem mais ser tolerados.

A corrupção como prática pessoal e social, sem sermos moralistas e utópicos, tem que ser banida e reduzida a níveis compatíveis com a condição humana decaída e corruptível. Há que se resgatar o sentimento de vergonha e de culpa, sem o que nossos esforços serão inócuos.

A escandalosa falta de ética de hoje remonta à era da escravidão

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Ilustração do Duke, reprodução de O Tempo

Leonardo Boff
O Tempo

O país, sob qualquer ângulo que o considerarmos, é contaminado por uma espantosa falta de ética. O bem só é bom quando é um bem para mim e para os outros; não é um valor buscado e vivido, mas o que predomina é a esperteza, o jeitinho e a Lei de Gérson. Os vários escândalos que se deram a conhecer revelam uma falta de consciência ética alarmante. Diria, sem exagero, que o corpo social brasileiro está de tal maneira putrefato que, onde quer que aconteça um pequeno arranhão, já mostra sua purulência.

A falta de ética se revela nas mínimas coisas, desde as mentirinhas ditas em casa aos pais, a cola na escola ou nos concursos, o suborno de agentes da polícia quando alguém é surpreendido numa infração de trânsito e até em fazer pipi na rua.

Essa falta generalizada de ética deita raízes em nossa pré-história. É uma consequência perversa da colonização. Ela impôs ao colonizado a submissão, a total dependência à vontade do outro e a renúncia a ter sua própria vida. Estava entregue ao arbítrio do invasor. Para escapar da punição, se obriga a mentir, a esconder intenções e a fingir. Isso leva à corrupção da mente. A submissão e o medo levam fatalmente a uma ruptura com a ética.

A VONTADE DO SENHOR – O colonizado se obrigou, como forma de sobrevivência, a mentir e a encontrar um jeitinho de burlar a vontade do senhor. A casa-grande e a senzala são um nicho produtor de falta de ética pela relação desigual de senhor e de escravo. O ethos do senhor é profundamente antiético: ele pode dispor do outro como quiser, abusar sexualmente das escravas e vender filhos pequenos delas para que não tivessem apego a eles. Esse tipo de ética desumana cria hábitos e práticas que, de uma forma ou de outra, continuam no inconsciente coletivo de nossa sociedade.

A abolição da escravatura ocasionou uma maldade ética inimaginável: deu-se liberdade aos escravos, mas sem fornecer-lhes um pedaço de terra, uma casa e um instrumento de trabalho. Foram lançados diretamente na favela. E hoje, por causa de sua cor e de sua pobreza, são discriminados, humilhados e as primeiras vítimas da violência policial e social.

NADA MUDOU – A situação, em sua estrutura, não mudou com a República. Os antigos senhores coloniais foram substituídos pelos coronéis e senhores de grandes fazendas e capitães da indústria.

As relações de produção capitalista que se introduziram no Brasil pelo processo de industrialização e modernização foram selvagens. Nosso capitalismo nunca foi civilizado: guardou sua voracidade de acumulação como em suas origens nos séculos XVIII e XIX.

Para superarmos a crise da ética, não bastam apelos, mas uma transformação da sociedade. Antes de ser ética, a questão é política, pois esta é estruturada em relações profundamente antiéticas.

FORMAR A FAMÍLIA – Tudo deve começar na família. Criar caráter nos filhos, formá-los na busca do bem e da verdade, não se deixar seduzir pela Lei de Gérson e evitar, sistematicamente, o jeitinho. Princípio básico: tratar sempre humanamente o outro. Oriente-se pelos dez mandamentos, que são universais. Traduzidos para hoje: o “não matar” significa venere a vida, cultive uma cultura da não violência. O “não roubar”: aja com justiça e correção e lute por uma ordem econômica justa. O “não cometer adultério”: amem-se, respeitem-se e obriguem-se a uma cultura da igualdade e parceria entre o homem e a mulher.

Isso é o mínimo que podemos fazer para arejar a atmosfera ética de nosso país. Repetindo o grande Aristóteles: “Não refletimos para saber o que seja a ética, mas para tornarmo-nos pessoas éticas”.

Afinal, que país e que democracia desejam os brasileiros?

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Ilustração do Duke (O Tempo)

Leonardo Boff
O Tempo

Quando há uma crise generalizada, como a que estamos vivendo, não temos alternativa senão voltar à fonte do poder político, expressão da soberania de um povo. Temos que resgatar todo o valor do primeiro artigo da Constituição, parágrafo único: “Todo poder emana do povo”. O povo é, pois, o sujeito último do poder. Em momentos em que uma nação se encontra num voo cego e perdeu o rumo de seu destino, esse povo deve ser convocado para dizer que tipo de país quer e que tipo de democracia deseja.

Urge avançar mais: precisamos dar forma política ao nível de consciência que cresceu em todos os estratos sociais, mostrando vontade de participação nos destinos do país. No fundo, volta a questão básica: vamos nos alinhar aos que detêm o poder mundial ou vamos construir nosso caminho autônomo, soberano e aberto à nova fase planetizada da humanidade?

SUBALTERNOS – O primeiro projeto prolonga a história ocorrida até os dias de hoje: desde a Colônia, passando pelo Império e pela República, sempre fomos mantidos subalternos. Os ibéricos não vieram para fundar aqui uma sociedade, mas para montar uma grande empresa internacional privada. Essa lógica perdura até os dias atuais: tentar transformar nosso eventual futuro em nosso conhecido passado.

Ao Brasil cabe ser o grande fornecedor de commodities, com parca ou nenhuma tecnologia e valor agregado, num processo de recolonização. Lamentavelmente, esse é o intento do atual governo interino.

POTÊNCIA TROPICAL – O projeto alternativo finca suas raízes na cultura brasileira e no aproveitamento de nossa imensa riqueza, que nos pode sustentar como nação independente, soberana e aberta a todos os demais países. Seríamos uma grande potência, não militarista, nos trópicos, com uma economia entre as maiores do mundo.

Curiosamente, as jornadas de junho de 2013 e posteriores mostraram que o povo percebeu os limites da formação social para os negócios. Quer ser sociedade, quer outras prioridades sociais, quer outra forma de ser Brasil. Tal propósito implica refundar o Brasil sobre outras bases. Mas quem escutou o clamor das ruas, especialmente dos jovens? Efetivamente, ninguém, pois tudo ficou como antes.

O que, na verdade, faltou em nossa história foi uma verdadeira revolução, como houve na França, na Itália e em outros países. A história nunca é uma continuidade. Ela é feita de descontinuidades e rupturas radicais, que derrubam uma ordem e instauram uma nova. No Brasil, nunca tivemos essa ruptura. O que predominou em todo o tempo é a política de conciliação entre os poderosos. O povo sempre ficou de fora, como sujeito incômodo, dos acertos feitos por cima e contra ele.

IMPEACHMENT – O que está ocorrendo agora com a tentativa de impeachment da presidente Dilma Rousseff, legitimamente eleita, é dar continuidade a essa política de conciliação das elites, do capital rentista e financeiro, daqueles 10%, segundo o IBGE de 2013, que controlam 42% da renda nacional. Jessé Souza, do Ipea, os enumera: são 71.440 super-ricos que manejam o Estado e os rumos da economia. Não lhes importa a perversa desigualdade social, uma das maiores do mundo, que se traduz em favelização de nossas cidades, violência absurda, geração de humilhação, preconceito e degradação social por falta de infraestrutura, saúde, escola e transporte.

Se o Brasil foi fundado como empresa, é hora de se refundar como sociedade de cidadãos criativos e conscientes de seus valores.

Meu sonho é que a atual crise não seja em vão. Que se busque viabilizar o que prescreve a Constituição em seu terceiro artigo: “Promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação”.

Os impasses da atual crise e de onde poderá vir uma saída

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Charge do Duke (dukechargista. com.br)

Leonardo Boff
O Tempo

A atual crise brasileira, talvez a mais profunda de nossa história, está pondo em xeque o sentido de nosso futuro e o tipo de Brasil que queremos construir. Efetivamente, aqui se formou um bloco coeso, fortemente solidificado, constituído por um capitalismo que nunca foi civilizado (manteve a voracidade manchesteriana das origens), financeiro e rentista, associado ao empresariado conservador e antissocial e ao latifúndio voraz que não teme avançar sobre as terras dos donos originários de nosso país, os indígenas, e, de acréscimo, dos quilombolas.

Eles sempre frustraram qualquer reforma política e agrária, de sorte que, hoje, 83% da população vive nas cidades (bem dizendo, nas periferias miseráveis), pois sentia-se deslocada e expulsa do campo. E essas elites altamente endinheiradas se associaram a poucas famílias que controlam os meios de comunicação ou são donos deles.

Esse bloco histórico será difícil de ser desmontado, uma vez que o tempo das revoluções já passou. As poucas mudanças de orientação popular e social introduzidas pelos governos do PT estão sendo bombardeadas com os canhões mais poderosos.

CASA-GRANDE – Os herdeiros da casa-grande e o grupo do privilégio estão voltando e impondo seu projeto de Brasil. Para sermos sucintos e irmos logo ao ponto central, trata-se do enfrentamento de duas visões de Brasil.

A primeira: nos submetemos à lógica imperial, que nos quer sócios incorporados e subalternos, numa espécie de intencionada recolonização, obrigando-nos a ser apenas fornecedores dos produtos in natura que eles pouco possuem e dos quais precisam urgentemente.

A segunda: continuamos teimosamente com a vontade de reinventar o Brasil com um projeto sobre bases novas, sustentado por nossa rica cultura e nossas riquezas naturais, capaz de aportar elementos importantes para o devenir futuro da humanidade globalizada.

UM SONHO MAIOR – Essa segunda alternativa realizaria o sonho maior dos que pensaram um Brasil verdadeiramente independente. A primeira opção, que agora volta triunfante sob o presidente interino Michel Temer e seu ministro das Relações Exteriores, José Serra, prevê um Brasil que se rende resignadamente ao mais forte, bem dentro da lógica hegeliana do senhor e do servo. Em troca, recebe imensas vantagens, beneficiando especialmente os endinheirados e seus controlados.

Estes nunca se interessaram pelas grandes maiorias de negros e pobres que eles desprezam, considerando-os peso morto de nossa história. Nunca apoiaram seus movimentos. E, quando podem, os rebaixam, difamam suas práticas e, com o apoio do Estado elitista por eles controlado, os criminalizam.

Eles contam com o apoio dos Estados Unidos, como nosso maior analista de política internacional, Moniz Bandeira, em sucessivas entrevistas, tem chamado a atenção, pois não aceitam a emergência de uma potência nos trópicos.

E A SAÍDA? – De onde nos poderá vir uma saída? De cima não poderá vir nada verdadeiramente transformador. Estou convencido de que ela só poderá vir de baixo, dos movimentos sociais articulados, de outros movimentos interessados em mudanças estruturais, de setores de partidos vinculados à causa popular. O dia em que as comunidades favelizadas se conscientizarem e projetarem outro destino para si e para o Brasil, haverá a grande transformação, palavra que hoje substitui “revolução”. As cidades estremecerão.

Aí, sim, poderão os poderosos ser alijados de seus tronos, como dizem as Escrituras, o povo ganhará centralidade e o Brasil terá sua merecida independência.

O Brasil tem jeito? Para cada problema, sempre há uma solução.

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Ilustração do Duke (O Tempo)

Leonardo Boff
O Tempo

Quem olha a cena político-social-econômica atual se pergunta sinceramente: o Brasil tem jeito? Um bando de ladrões, travestidos de senadores-juízes, tenta, contra todos os argumentos em contrário, condenar uma mulher inocente, a presidente Dilma Rousseff, contra a qual não há nenhuma acusação de apropriação de bem público ou de corrupção pessoal.

Com as recentes delações premiadas, ficou claro que o problema não é a presidente, é a Lava Jato, que, para além das acusações seletivas contra o PT, está chegando à maioria dos líderes da oposição. Todos, de uma forma ou outra, se beneficiaram das propinas da Petrobras.

Ninguém aliena nada de seus bens para financiar uma campanha. Nem precisa: existe a mina do caixa 2, abastecida pelas empresas corruptoras, que cria corruptos a troco de vantagens posteriores em termos de grandes projetos, geralmente superfaturados.

VOO CEGO – Estamos efetivamente num voo cego. Ninguém sabe para onde vai esta nação, a sétima economia do mundo, com jazidas de petróleo e gás das maiores do mundo e com uma riqueza ecológica sem comparação, base da futura economia. Assim como se delineia a correlação de forças, não vamos a lugar nenhum, senão a um eventual conflito social.

O pobre, a maioria da população, se acostumou a sofrer e a encontrar saídas como pode. Mas chega um ponto em que o sofrimento se torna insuportável. Então, diz: “Assim não pode ser; temos que nos rebelar”.

Isso me faz lembrar um bispo franciscano do século XIII, da Escócia, que, recusando os altos impostos cobrados pelo papa, respondeu: “Não aceito, me recuso e me rebelo”. E o pontífice retrocedeu. Não poderá ocorrer algo semelhante entre nós?

REALIDADE PÉSSIMA – Quando, nas palestras, fazendo um esforço imenso para deixar um laivo de esperança, me dizem que sou pessimista, respondo com Saramago: “Não sou pessimista; a realidade é que é péssima”. Efetivamente, a realidade está sendo péssima para todos, menos para as elites endinheiradas.

O grave é que estamos faltos de lideranças. Abstraindo o ex-presidente Lula, cujo carisma é inconteste, apontam dois, Ciro Gomes e Roberto Requião, para mim as únicas lideranças fortes que têm a coragem de dizer a verdade e pensam no Brasil mais do que nas disputas partidárias.

Essa crise tem um pano de fundo nunca resolvido em nossa história. Somos herdeiros de séculos de colonialismo, que nos deixou a marca de “vira-latas”, sempre dependendo dos outros. Pior ainda é a herança secular do escravismo, que fez com que os herdeiros da casa-grande se sintam senhores da vida e da morte dos negros e pobres. Não basta lançá-los nas periferias; há que desprezá-los e humilhá-los. E a classe média, que imita os de cima, tolamente se deixa manipular e inocentemente se faz cúmplice da horrorosa desigualdade social.

GOLPISTAS E REACIONÁRIOS – Essas elites conquistaram os meios de comunicação de massa golpistas e reacionários, que funcionam como azeite para sua maquinaria de dominação. Essas elites nunca quiseram a democracia, apenas aquela de baixíssima intensidade, que podem comprar e manipular; preferem os golpes e a ditadura. Hoje, já não é mais possível pelas baionetas. Excogitou-se outro expediente: o golpe vem por uma artificiosa articulação entre políticos corruptos, o Judiciário politizado e a repressão policial.

Direi como Martin Heidegger: “Só um Deus nos poderá salvar?” Marx talvez seja mais modesto e verdadeiro: “Para cada problema, há sempre uma solução”. Deverá surgir uma para nós.

A bomba atômica de Hiroshima e os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro

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Ilustração do Duke (O Tempo)

Leonardo Boff
O Tempo

No dia 6 de agosto de 2016, às 20h, se inaugurarão os Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro. No mesmo dia será recordada em Hiroshima, no Japão, a nefasta data do lançamento da bomba atômica sobre a cidade que vitimou 242.437 pessoas. O imperador Hirohito reconheceu, no texto de rendição, publicado em 14 de agosto de 1945, que se tratava de “uma arma que levaria à total extinção da civilização humana”. Dias após, ao aduzir, numa declaração ao povo, as razões da rendição, a principal delas era que a bomba atômica “provocaria a morte de todo o povo japonês”. Em sua sabedoria ancestral, tinha razão.

A humanidade estremeceu. De repente deu-se conta de que criamos para nós próprios o princípio de autodestruição. Mas, com efeito, de pouco valeu o estarrecimento, pois continuaram a desenvolver armas nucleares mais potentes ainda, capazes de erradicar toda a vida do planeta e pôr um fim à espécie humana.

POTÊNCIAS NUCLEARES – Atualmente, há nove países detentores de armas nucleares que, conjuntamente, somam mais ou menos 17 mil unidades. E sabemos que nenhuma segurança é total. Os desastres de Tree Islands, nos Estados Unidos, de Chernobyl, na Ucrânia, e de Fukushima, no Japão, nos dão uma amostra convincente.

Há dias, pela primeira vez, um presidente norte-americano visitou Hiroshima. Obama apenas lamentou o fato e disse: “A morte caiu do céu, e o mundo mudou. Começou nosso despertar moral”. Mas não teve a coragem de pedir perdão ao povo japonês pelas cenas apocalípticas que lá ocorreram.

Vigora uma vasta discussão mundial sobre como avaliar tal gesto bélico. Muitos, pragmaticamente, afirmam que foi a forma encontrada de levar o Japão à rendição e poupar milhares de vidas de ambos os lados. Outros consideram o uso dessa arma letal, na versão oficial japonesa, como “um ato ilegal de hostilidade consoante às regras do direito internacional”. Outros vão mais longe e afirmam tratar-se de um “crime de guerra” e até de “um terrorismo de Estado”.

ATO ANTIVIDA – Hoje, estamos inclinados a dizer que foi um ato criminoso antivida, de nenhuma forma justificável, pois, pensando em termos ecológicos, a bomba matou, muito mais do que pessoas, todas as formas de vida vegetal, animal e orgânica, além de bens culturais. Tratou-se de uma “totaler krieg” (guerra total) no estilo nazista de matar tudo o que se move e dizimar as bases físico-químicas que sustentam a vida.

Ao lado de outras ameaças letais que pesam sobre o sistema vida e o sistema Terra, a nuclear continua sendo uma das mais amedrontadoras, verdadeira espada de Dâmocles colocada sobre a cabeça da humanidade. Quem poderá conter a irracionalidade da Coreia do Norte de deslanchar um ataque nuclear avassalador?

NA OLIMPÍADA – Há uma proposta profundamente humanitária que nos vem da Associação dos Sobreviventes de Hiroshima e Nagasaki, de São Paulo, animada pelo militante contra a energia nuclear Chico Whitaker: que no dia 6 de agosto, no momento da abertura da Rio-16, faça-se um minuto de silêncio pensando nas vítimas de Hiroshima. Mas não só, mas também voltando nossas mentes para a violência contra mulheres, refugiados, negros e pobres, enfim, todas as vítimas da voracidade de nosso sistema de acumulação.

O prefeito de Hiroshima, nesse sentido, já encaminhou carta ao Comitê Organizador dos Jogos no Rio de Janeiro. Esperamos que este se sensibilize e promova esse grito silencioso contra as guerras de todo tipo e pela paz entre todos os povos.

A corrupção no Brasil: naturalizada e, finalmente, agora desmascarada

Charge do Duke (dukechargista.com.br)

Leonardo Boff
O Tempo

É estarrecedora a corrupção que se constatou no Brasil nos últimos tempos, especialmente aquela do petrolão. Os números são sempre pelos milhões de dólares – escandalizam e vão além de qualquer bom senso. Os organismos norte-americanos de vigilância que espionaram a presidente Dilma Rousseff o fizeram também com a Petrobras, devido ao fato de deter uma das maiores jazidas de gás e petróleo do mundo, o pré-sal.

Encontraram uma teia imensa de corruptores e corruptos que envolvia grandes empreiteiras, altos funcionários da Petrobras, gente do próprio governo, doleiros e não ausentes setores do Judiciário. Beneficiados foram, especialmente, políticos de quase todos os partidos, que financiavam suas custosas campanhas eleitorais com esse dinheiro da corrupção, sob a forma de propinas milionárias.

INVESTIGAÇÕES VICIADAS

Desde o início, as investigações que envolveram os principais órgãos da Justiça e da polícia foram viciadas por um componente político. Os vazamentos, problemáticos em termos legais, praticamente se concentraram no PT, relevando e até ocultando o envolvimento de outros partidos, máxime da oposição.

A partir daí se criou praticamente uma generalização de que corrupção era coisa do PT. Importa reconhecer que o partido se beneficiou dos esquemas de corrupção e até foi um dos principais articuladores, mas seria injusto considerar que detinha o monopólio da corrupção. Essa é endêmica na vida política e social do país, perpassa partidos e empresas e inclui muitíssimos cidadãos ricos.

EMPREITEIROS PRESOS

Raramente, em nossa história recente, temos assistido a grandes empresários sendo presos, interrogados, condenados e encarcerados. A corrupção, que se havia naturalizado nos mais altos estratos dos negócios e na política, começou a ser desmascarada e posta sob os rigores da lei. Tal fato constitui um dado de altíssima relevância e um avanço no sentido da moralidade pública.

Não se pode ocultar o fato de que o sistema do capital, com sua cultura, é, em sua lógica, também corrupto, embora aceito socialmente. Ele simplesmente impõe a dominação do capital sobre o trabalho, gerando riqueza sob a forma de exploração do trabalhador e devastação dos escassos bens e serviços da natureza. Produz uma dupla injustiça, social e ecológica.

RAÍZES HISTÓRICAS

Nossas formas de corrupção têm raízes históricas no colonialismo e no escravagismo. Há também uma base política no arraigado patrimonialismo, que não distingue o público do privado e leva as elites a tratar a coisa pública como se fosse sua e a montar um tipo de Estado que lhes garante privilégios. Tudo isso gerou uma cultura da corrupção, como algo natural e intrínseco à vida social e política. Os corruptos são vistos como espertos, e não como criminosos, o que de fato são.

Filosoficamente pensando, qual é a raiz última da corrupção? Talvez o católico Lord Acton (1843-1902), que era historiador e pensador, nos ajude. Diz ele:

“A corrupção reside fundamentalmente no poder. A tradição filosófica e psicanalítica nos tem persuadido de que, em todos os seres humanos, há sede de poder e que o poder não se garante senão buscando ainda mais poder. E o poder se materializa no dinheiro. Para consegui-lo, não vale só o trabalho honesto, mas perversamente todas as formas que permitem multiplicar o dinheiro”.

PRETENSÃO ILUSÓRIA

A história mostra a ilusão dessa pretensão. De repente, pode-se perder tudo e ficar na miséria. Se não tivermos controlado nossa sede de poder e de acumulação, nos sentiremos perdidos. O antídoto a essa sede de poder e de dinheiro é a honestidade, a transparência e a salvaguarda do valor sagrado da autodignidade.

Será que saberemos tirar essas lições da corrupção naturalizada no Brasil, que, finalmente, foi desmascarada?

Pedido de demissão do ministro livrou Temer de ser alvo de impeachment

Dirigentes e servidores da extinga CGU estão revoltados com Temer

Jorge Béja

Um artigo, necessariamente, não precisa ser longo para se tornar útil e informativo. Em certos casos, numa só linha, ou em duas, três e outras poucas mais, é o suficiente para se dar o recado. E aqui vai um, para o conhecimento e meditação dos leitores da Tribuna da Internet. Se o advogado Fabiano Silveira não tivesse pedido demissão do Ministério da Transparência e Fiscalização e Controle, agora à noite, o presidente Michel Temer poderia se tornar alvo de um processo de impeachment da parte de qualquer cidadão brasileiro.

Isto porque Temer é o presidente do Brasil. Interino, mas é. E presidente da República que atente com a probidade na administração pode e deve sofrer o impeachment. É o que está previsto no artigo 4º, item V, da Lei nº 1079 de 1950.

“São crimes de responsabilidade os atos do Presidente da República que atentarem contra a Constituição Federal, e, especialmente contra (…) V – a probidade na administração”.

ERRO DE TEMER

Temer atentou contra a probidade na administração ao nomear para ser ministro uma pessoa que não desfruta da idoneidade que o cargo exige. Todos os diretores e funcionários da antiga Controladoria-Geral da União não queriam Fabiano Silveira como ministro da pasta e estão exigindo o restabelecimento da CGU, que Temer acabou com ela para criar este novo ministério.  Até a entidade Transparência Internacional pedia o afastamento de Fabiano.

Temer precisava agir rápido e exonerar Fabiano Silveira, mas não o fez. Se um pedido de impeachment de Temer, por esta desastrada nomeação, chegasse logo  às mãos do presidente da Câmara e este decidisse pelo recebimento da denúncia, aí não adiantaria Temer exonerar Fabiano. Seria tarde demais.

Isto porque teria exonerado depois que o pedido de impechment deu entrada no protocolo da Câmara dos Deputados, e seus efeitos são “ex tunc”. Ou seja, retroagem para alcançar o ato de improbidade que persiste, mesmo depois da exoneração.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
No jornalismo, antigamente chamávamos de “suelto” esses pequenos artigos mencionados por Jorge Béja, que é incontestavelmente um dos maiores juristas brasileiros. Tudo o que ele escreve, até mesmo uma pequena nota, é sempre de grande importância. Devo até desculpas a Béja, porque outro dia ele escreveu um artigo e eu, ao fazer a revisão, notei que o programa do computador assinara erro numa mesóclise por ele introduzida no texto, e na pressa eu atendi ao computador e tentei corrigir o texto do verbo. Depois, ao reler no dia seguinte, percebi que o computador errara, porque não entende que o idioma é dinâmico e vive em constante evolução. Como sempre, Béja estava certo, e o computador e eu estávamos errados. E com a elegância de sempre, Béja fingiu que não percebeu a nossa mancada. (C.N.)

Quadro golpista preparou a volta da classe do privilégio

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Ilustração de Duke (dukechargista.com.br)

Leonardo Boff
O Tempo

O principal problema brasileiro que atravessa toda nossa história é a monumental desigualdade social que reduz grande parte da população à condição de ralé. Os dados são estarrecedores. Segundo Marcio Pochman e Jessé Souza, que substituiu o primeiro na presidência do Ipea, são apenas 71 mil pessoas (ou 1% da população) os multibilionários brasileiros que controlam nossas riquezas, nossas finanças e o jogo político. Essa classe dos endinheirados, que Jessé Souza chama de “classe do privilégio”, além de perversa socialmente, é extremamente hábil, pois se articula nacional e internacionalmente de tal forma que sempre consegue manobrar o poder do Estado em seu benefício.

Seu maior feito atual foi vergar a orientação da política dos governos Lula-Dilma na direção de seus interesses econômicos e sociais, apesar das intenções originais do governo de praticar uma política alternativa, própria de um filho da pobreza e do caos social.

A pretexto de garantir a governabilidade e de evitar o caos sistêmico, essa classe do privilégio conseguiu impor o que a interessava: a manutenção inalterável da lógica acumuladora do capital. Os projetos sociais do governo não a obrigavam a renunciar a nada; antes, eram funcionais aos propósitos dela.

DÍVIDA PÚBLICA

Essa classe de endinheirados coagia o governo a pagar a dívida pública antes de atender as demandas históricas da população. Assim quitava-se a dívida monetária com sacrifício da dívida social, que era o preço para poder fazer as políticas sociais. Essas, nunca havidas antes, foram robustas e incluíram cerca de 40 milhões de pobres no consumo.

Tudo indicava que, com quatro eleições ganhas, apesar dos constrangimentos sistêmicos, se consolidava outro sujeito de poder, vindo de baixo, das maiorias oriundas da senzala e dos movimentos sociais. Essas começaram a ocupar os lugares e usar os meios antes reservados à classe média e aos da classe do privilégio que, no fundo, nunca aceitou Lula e nunca se reconciliou com o povo.

Foi aí que os antigos donos do poder despertaram raivosamente, pois poderiam, pela via do voto, nunca mais chegar ao poder. Instaurada uma crise político-econômica no governo Dilma, cujos contornos são globais, a classe do privilégio aproveitou a oportunidade para agravar a situação e, pela porta dos fundos, chegar ao Planalto.

VELHA ARTICULAÇÃO

Criou-se uma articulação nada nova, já ensaiada contra Vargas, Jango e JK, assentada sobre o tema moralista do combate à corrupção. Para isso, era necessário suscitar a tropa de choque que são os partidos da macroeconomia capitalista (PSDB, PMDB e outros), apoiados pela imprensa empresarial que foi o braço estendido das forças mais conservadores e reacionárias de nossa história.

A narrativa é antiga, pois sataniza o Estado como o antro da corrupção e magnifica o mercado como o lugar das virtudes econômicas e da inteireza dos negócios. Nada mais falso. A corrupção é mais selvagem no mercado, pois sua lógica não se rege pela cooperação, mas pela competição. Mas essa narrativa conquistou a classe média. Para garantir sucesso nessa empreitada perversa, criou-se uma articulação que envolve grandes bancos, a Fiesp, o MP, a PF e alguns setores do Judiciário.

IMPEACHMENT

O atual processo de impeachment à presidente Dilma se inscreve dentro desse quadro golpista, pois trata-se de tirá-la do poder não por via eleitoral, mas pela exacerbação de práticas administrativas consideradas crime de responsabilidade. A injustiça é o que mais fere a dignidade de uma pessoa. Dilma não merece essa dor, que é pior do que aquela sofrida nas mãos dos torturadores.

O desafio de fazer o encontro do Brasil real com o Brasil virtual

Charge do Oliveira, reprodução do blog do Chacrinha

Leonardo Boff
O Tempo

Há dois Brasis que correm paralelos e que possuem lógicas e dinâmicas diferentes.  Há o Brasil dominante, profundamente desigual e, por isso, injusto, reproduzindo uma sociedade malvada, que não tem compaixão nem misericórdia para com as grandes maiorias. Segundo o IPEA, são 71 bilionários, ou 5 mil famílias extensas, que detêm grande parte da riqueza nacional e mostram parco sentido social, insensíveis à desgraça de milhões que vivem nas centenas de favelas que circundam quase todas as nossas cidades. Desses se originam, em grande parte, o ódio e a discriminação que tributam aos pobres e aos filhos da escravidão que se verifica ainda nos dias atuais.

Distancio-me decisivamente do pessimismo de Paulo Prado em seu ironizado livro de 1928, “Retrato do Brasil: Ensaio sobre a Tristeza Brasileira”, para quem a tristeza, a preguiça, a luxúria e a cobiça constituem os traços marcantes do brasileiro. Ao lado dessas distorções, vigora outro lado do mesmo Brasil, dos pobres que lutam bravamente para sobreviver e que, no meio da miséria, deixam transparecer uma alegria que vem de dentro: dançam e veneram seus santos e não têm necessidade de crer em Deus, porque o sentem na pele e em cada passo de sua vida.

É o Brasil dos menosprezados pelos setores conservadores que se orientam pelo PIB e pelo consumo, considerados imprestáveis para o sistema porque produzem pouco e consomem ainda menos.

UM PAÍS DIVIDIDO

Esse Brasil cindido, com lados contrapostos, constitui uma contradição viva e escandalosa. Tem uma herança sombria que nos vem do etnocídio indígena que ainda persiste, do colonialismo que nos deixou o complexo de vira-latas e que penetrou, em forma de arquétipo psicológico, a estrutura da casa-grande e da senzala; ela se manifesta pelo fosso que cinde o país de cima a baixo e nos faz herdeiros de uma República com uma democracia que é mais farsa que realidade, pois é composta, em sua grande maioria, por corruptos que se beneficiam do bem público para realizar o bem privado.

O povo brasileiro, feito da amálgama de representantes de 60 países diferentes que para cá vieram, não acabou de nascer ainda. Está em processo de fazimento. Apesar das contradições, aponta para uma mestiçagem bem-sucedida que poderá configurar um rosto singular do país, como uma potência nos trópicos. O Brasil descrito acima me parece ser o real, repleto de injustiças e contradições.

Mas há outro Brasil ainda. É o Brasil do imaginário, que está nos sonhos do povo, a pátria amada, abençoada por Deus, o Brasil da humanidade cálida, da música popular e dos ritmos africanos, do futebol, do Carnaval, das praias e de gente bonita. Ele move os sentimentos do povo.

UTOPIA BRASIL

É a utopia Brasil, como nos ensinou o mestre Celso Furtado, “fruto de dimensões secretas da realidade, um afloramento de energias contidas que antecipa a ampliação do horizonte de possibilidades aberto a uma sociedade”, que queremos justa, fraterna e feliz (cf. “Em Busca de Novo Modelo: Reflexões sobre a Crise Contemporânea”, 2002, p. 37).

Esse Brasil só existe em sonho, mas está em estado nascente. O sonho e a utopia pertencem à realidade em seu caráter potencial e virtual. O dado é feito e não esgota as virtualidades do real. São essas virtualidades que antevemos como realidades futuras, que nos mantêm na jovialidade e nos alimentam a esperança de que os corruptos de hoje não triunfarão. Serão apagados da memória coletiva. Estigmatizados, cinza e pó cobrirão seus nomes.

Nosso desafio é fazer o encontro do Brasil real com o Brasil virtual.

O impeachment da presidente Dilma é uma antirrevolução da direita

Leonardo Boff
O Tempo

Sou um dos poucos que têm dito e repetido que a ascensão do PT e de seus aliados ao poder central tem significado a verdadeira revolução pacífica brasileira. Florestan Fernandes escreveu que “A Revolução Burguesa no Brasil” (1974) representou a absorção pelo empreendedorismo pós-colonial de um padrão de organização da economia, da sociedade e da cultura, com a universalização do trabalho assalariado, uma ordem social competitiva e uma economia de mercado de bases monetárias e capitalistas.

Se bem repararmos, não ocorreu propriamente uma revolução, mas uma modernização conservadora que alavancou o desenvolvimento brasileiro, mas não promoveu uma mudança do sujeito de poder. Os que sempre estiveram no poder, sob várias formas, continuaram e aprofundaram seu poder. Não houve uma mudança de sujeito do poder como agora.

OS SEM-PODER

É isso que, a meu ver, ocorreu com o advento do PT e de aliados com a eleição de Lula presidente. O sujeito não é mais formado pelos detentores tradicionais de poder, mas pelos sem-poder: os vindos da senzala, das periferias e dos fundões de nosso país, do novo sindicalismo, dos intelectuais de esquerda, da Igreja da libertação.

Todos esses, num longo e penoso processo de organização e articulação, conseguiram transformar o poder social que haviam acumulado num poder político-partidário. Via PT, operaram analiticamente uma autêntica revolução.

Conferiu-se novo rumo ao país. Lula presidente teve que fazer concessões à macroeconomia neoliberal para assegurar a mudança de rumo, abrindo-se ao mundo dos pobres e marginalizados. Conseguiu montar políticas sociais, algumas inauguradas anteriormente de forma apenas inicial, mas agora oficiais, como políticas de Estado. Elas “atenderam as necessidades mais gerais e profundas que não haviam sido antes devidamente atendidas” (Caio Prado Jr.).

MUITOS PROGRAMAS

Enumeremos algumas, como Bolsa Família, Minha Casa, Minha Vida e Luz para Todos, as inúmeras universidades e escolas técnicas, o Fies e os diversos regimes de cotas para acesso à universidade. Ninguém pode negar que a paisagem social do Brasil mudou. Todos, também os banqueiros e os endinheirados, saíram ganhando.

Logicamente, herdeiros que somos de uma tradição perversa de exclusão e desigualdades gritantes, muita coisa resta ainda por fazer, particularmente no campo da saúde e da educação. Mas houve uma revolução social.

ANTIRREVOLUÇÃO

Por que nos referimos a todo esse processo? Porque está em curso no Brasil uma antirrevolução. As velhas elites oligárquicas nunca aceitaram um operário como presidente. Relacionada à crise econômico-política (que devasta a ordem capitalista mundial), uma direita conservadora e rancorosa, aliada a bancos e ao sistema financeiro, a investidores nacionais e internacionais, à imprensa empresarial hostil, a partidos conservadores, a setores do Judiciário, da Polícia Federal e do Ministério Público – sem excluir a influência da política externa norte-americana, que não aceita uma potência no Atlântico Sul ligada aos Brics –, essa direita está promovendo a antirrevolução.

IMPEACHMENT

O impeachment da presidente Dilma é um capítulo dessa negação. Querem voltar ao estado anterior, à democracia patrimonialista e de costas para o povo, pela qual se enriquecem como no passado.

Além de defender a democracia e desmascarar o impeachment como golpe parlamentar contra a presidente Dilma, importa assegurar a revolução brasileira, pela qual esperamos há séculos. Repito o que escrevi e vi num tuíte: “Se os pobres soubessem o que estão armando contra eles, as ruas do Brasil seriam insuficientes para conter o número de manifestantes”.

O golpe da volta da religião, da família e de Deus contra a corrupção

Charge do Pataxó (pataxocartoons.blogspot.com)

Leonardo Boff
O Tempo

O comportamento dos parlamentares nos três dias em que discutiram a admissibilidade do impedimento da presidente Dilma Rousseff parecia o de criançolas se divertindo num jardim de infância: gritarias por todo canto, coros recitando seus mantras contra ou a favor do impedimento, pessoas vestidas com a bandeira nacional, placas com seus slogans repetitivos… Enfim, um espetáculo indigno de pessoas decentes, de quem se esperaria um mínimo de seriedade. Chegou-se a fazer até um bolão de apostas, como se fosse um jogo do bicho ou de futebol.

Mas o que mais causou estranheza foi a figura do presidente da Câmara, que conduziu a sessão, o deputado Eduardo Cunha. Ele vem sendo acusado de muitos crimes e é réu no Supremo Tribunal Federal, mas julga uma mulher decente contra a qual ninguém ousou atribuir qualquer crime. Precisamos questionar a responsabilidade do STF por ter permitido esse ato que nos envergonhou nacional e internacionalmente. Que interesse secreto alimenta a Suprema Corte face a tão escandalosa omissão?

PEDALADAS ESQUECIDAS

Ocorreu na declaração de voto algo absolutamente desviante. Tratava-se de julgar se a presidente havia cometido crime de responsabilidade fiscal junto com outros manejos administrativos das finanças, base jurídica para um processo político de impedimento. Grande parte dos deputados nem sequer se referiu a essa base jurídica, as famosas pedaladas fiscais. Em vez de se aterem juridicamente ao eventual crime, deram asas à politização da insatisfação generalizada que ocorre na sociedade em razão da crise econômica, do desemprego e da corrupção na Petrobras.

A grande maioria se concentrou na corrupção e nos efeitos negativos da crise. Apostrofaram hipocritamente o governo de corrupto, quando sabemos que um grande número de deputados está indiciado em crimes de corrupção. Generalizando, com honrosas exceções, os deputados não representam os interesses coletivos, mas aqueles das empresas que lhes financiaram as campanhas.

COMO UM ESPANTALHO…

Importa notar um fato preocupante: emergiu novamente, como um espantalho, a velha campanha que reforçou o golpe militar de 1964: as marchas da religião, da família, de Deus e contra a corrupção. Dezenas de parlamentares da bancada evangélica claramente fizeram discursos de tom religioso, invocando o nome de Deus. E todos, sem exceção, votaram pelo impedimento. Poucas vezes se ofendeu tanto o segundo mandamento da Lei de Deus, que proíbe usar seu santo nome em vão.

Grande parte dos parlamentares, de forma pueril, dedicou seu voto à família, à esposa, à avó, aos filhos e aos netos, citando seus nomes, numa espetacularização da política de reles banalidade. Ao contrário, aqueles contra o impedimento argumentavam e mostravam um comportamento decente.

GOLPE PARLAMENTAR

Fez-se um julgamento apenas político, sem embasamento jurídico convincente, o que fere o preceito constitucional. O que ocorreu foi um golpe parlamentar inaceitável.

Os votos contra o impedimento não foram suficientes. Todos saímos diminuídos como nação e envergonhados dos representantes do povo que, na verdade, não o representam nem pretendem mudar as regras do jogo político.

Agora nos resta esperar a racionalidade do Senado, que irá analisar a validade ou não dos argumentos jurídicos, base para um julgamento político acerca de um eventual crime de responsabilidade, negado por notáveis juristas do país.

Talvez não tenhamos ainda amadurecido como povo para poder realizar uma democracia digna desse nome: a tradução para o campo da política da soberania popular.

O impeachment de Dilma é uma repetição da tragédia brasileira

As elites conspiram contra Dilma, para concretizar o golpe

Leonardo Boff
O Tempo

A cordialidade brasileira, em sua face sombria, fornece o húmus de onde pode se precipitar novamente a tragédia do Brasil. Em que consiste essa tragédia? Sempre que o povo, os pobres, seus movimentos e seus líderes carismáticos irrompem no cenário político, surgem as velhas elites, que carregam dentro de si a estrutura da casa-grande, para negar-lhes direitos, conspirar contra eles, difamar e criminalizar suas lideranças, empurrá-los para as periferias de onde nunca deveriam ter saído. Aos negros, aos índios, aos quilombolas, aos pobres e a outros discriminados se lhes negam reconhecimento e dignidade.

É o que está ocorrendo atualmente no Brasil. Face a todos esses, as oligarquias, em geral, os conservadores e até os reacionários mostram-se cruéis e sem piedade, apoiados por uma imprensa malvada.

O que é intolerável para a classe dominante é o fato de um operário de pouca escolaridade ter-se tornado presidente do país.

MAIS INTELIGENTE

O que mais os irrita é dar-se conta de que Luiz Inácio Lula da Silva é muito mais inteligente que a maioria deles, tem uma liderança carismática que impressionou o mundo, e seu governo fez mais transformações que eles em todo o tempo em que estiveram no poder. A atual conflagração política, que atingiu níveis vergonhosos de expressão, nasce dessa mudança operada no andar de baixo, negada pelos do andar de cima, que escandalizam o mundo por sua riqueza e por seu poder.

Jessé de Souza, presidente do Ipea, revelou, recentemente, que o topo da pirâmide social brasileira é composto por cerca de 71 mil bilionários, representando apenas 0,05% da população adulta do país. Esses endinheirados têm sua expressão política nos partidos conservadores e têm síndrome de vira-latas, porque não conseguem ser aquilo que gostariam de ser: sócios, ainda que meros agregados, do projeto-mundo hegemonizado pelos Estados Unidos.

Eles não negam a democracia, pois seria vergonhoso demais, mas querem um Estado democrático não de direito, mas de privilégio, que lhes permita o enriquecimento, ocupando altas funções de governo e controlando órgãos reguladores, pelos quais garantem seus interesses corporativos.

ANTIPOPULAR

O grosso do PSDB e do PMDB (graças a Deus há neles pessoas honradas que pensam no Brasil, e não só nas próprias vantagens), sem citar outros partidos menores, se inscreve dentro desse arco político de uma modernidade conservadora e antipopular.

Ao contrário, os grupos progressistas, que ganharam corpo no PT e em seus aliados, postulam um Brasil autônomo, com projeto nacional próprio, que resgate a multidão dos injustamente deserdados com as políticas sociais consistentes, apontando para uma completa emancipação.

PRIMEIRO SE CONDENA…

Dois meses após a vitória de Dilma, em 2014, o PSDB já conclamava nas ruas o impedimento da presidente, sem apontar as condições constitucionais que permitissem tal ato extremo. Primeiro se condena, depois se procura algum eventual crime. Não é de se admirar que esse partido arrogante, cuja base social é a classe média conservadora, esteja se diluindo internamente por não manter ligação orgânica com o povo e seus movimentos, e por sustentar um projeto neocolonialista.

Com outros, articula um golpe parlamentar que renova a tragédia política brasileira, como foi com Vargas e com Jango, culminando com a ditadura militar. No lugar dos tanques e das baionetas, funcionam as tramoias. Querem ocupar o Estado para realizar seu projeto privatista e antinacional. Se ocorrer uma convulsão social, os golpistas serão seus principais responsáveis. Não podemos permitir que a tragédia novamente se consuma.

Qual o Brasil que queremos: um país justo ou apenas rico?

Charge do Kemp, reprodução do Humortadela

Leonardo Boff
O Tempo

A exaltação dos ânimos nos partidos e na sociedade nos dificulta discernir o que está, efetivamente, em jogo: que Brasil queremos? Um país justo ou um país rico? Logicamente, o ideal seria termos um país justo e simultaneamente rico, mas os caminhos que escolhemos para esse propósito são diferentes. Uns o impedem, outros o possibilitam. Se quisermos que seja justo, devemos optar pelo caminho da democracia republicana. A consequência é que haverá mais políticas sociais que atendam os mais vulneráveis, diminuindo, assim, nossa perversa desigualdade social.

Se quisermos um país rico, optamos pela democracia liberal dentro do modo de produção capitalista ou neoliberal. O neoliberalismo coloca o bem privado acima do bem comum. Em função disso, prefere fazer investimentos em grandes projetos e dar facilidades às indústrias eficientes para que consigam conquistar consumidores para seus produtos. Os pobres não são esquecidos, mas apenas recebem políticas pobres.

Thomas Piketty mostrou, em seu livro “O Capitalismo no Século XXI”, que o melhor caminho jamais excogitado para se alcançar a riqueza é o capitalismo. Mas reconhece que, onde ele se instala, logo se introduz a desigualdade, pois ele é montado para a acumulação privada, e não para a distribuição da renda. Predomina a concorrência, e não a solidariedade. O mercado comanda a política, pratica-se a privatização de bens públicos; o Estado mínimo não deve intervir, cabendo-lhe a segurança e a garantia dos serviços básicos.

BENS NATURAIS

E mais: a busca desenfreada da riqueza de alguns implica a exploração dos bens e dos serviços naturais, hoje quase exauridos, a ponto de termos tocado os limites físicos da Terra. Um planeta limitado não suporta um crescimento ilimitado. Precisamos de quase uma Terra e meia para atendermos as demandas humanas, o que a torna insustentável, inviabilizando a própria reprodução do sistema do capital. A ordem capitalista está conhecendo o seu limite.

Qual é o pomo de discórdia na política atual no Brasil? A oposição optou pela macroeconomia neoliberal. Líderes da oposição proclamam que os salários são altos demais, que toda a Petrobras, bem como o Banco do Brasil, a Caixa e os Correios, deveria ser privatizada. Já conhecemos essa fórmula. Ela é cruel para os pobres e danosa para os trabalhadores, pois favorece a acumulação e, assim, as desigualdades sociais. O capitalismo é bom para os capitalistas, mas ruim para a maior parte da população.

O PT, os partidos e os grupos progressistas querem o caminho da democracia republicana e participativa. Visam garantir as conquistas sociais e alargá-las. Não é nada seguro que a vitória do neoliberalismo vá mantê-las, pois obedece a outra lógica, a da maximização dos lucros.

BASE ECOLÓGICA

O atual governo busca um caminho próprio na economia e na política internacional, com a consciência de que, dentro de pouco, a economia mundial será de base ecológica. Aí emergiremos como uma potência, capaz de ser a mesa posta para as fomes e as sedes do mundo inteiro. Esse dado não pode ser desconsiderado.

A oposição ferrenha aos governos de Lula e Dilma tem como motor propulsor a liquidação desse projeto republicano, pois lhe custa aceitar a ascensão dos pobres e sua participação na vida social. Mas é esse projeto que responde à angústia que devorava Celso Furtado: “Por que o Brasil, sendo tão rico, é pobre, e, com tantas virtualidades, continua atrasado?” A resposta dada por Lula e Dilma mitiga a queixa de Celso Furtado, boa não só para os pobres, mas para todos.

A crise política brasileira: nem chorar, nem rir, mas entender

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Ilustração do chargista Duke

Leonardo Boff
O Tempo

Há uma dilaceração na sociedade brasileira que não pode continuar, pois comprometerá a nossa frágil democracia e a convivência minimamente pacífica. Tal fato se deriva da onda de ódio, intolerância e abuso por parte do Judiciário, que perdeu seu centro – a imparcialidade – e, em alguns casos, revela traços inegáveis de perseguição.

A campanha eleitoral de 2014 deslanchou um processo de rejeição e de inconformismo. Houve erros em ambos os lados. Todos, de alguma forma, foram vítimas de marqueteiros, que inventam, quando não distorcem, em favor de seus candidatos, que lhes pagam milhões para fazer um trabalho ambíguo e, não raro, sujo.

As eleições foram democráticas, mas dentro desse quadro maldoso. No entanto, num regime democrático, ganha quem tem a maioria dos votos válidos. Normalmente, quem perde, mostra elegância: vem a público, até por respeito aos eleitores, felicitar o vencedor e lhe desejar bons votos. Isso não ocorreu. O candidato da oposição não reconheceu a derrota. Ao contrário: tentou a recontagem dos votos e foi vencido; tentou impedir a diplomação e foi rejeitado; tentou impedir a tomada de posse e não conseguiu; continuou com um processo de impeachment que ainda corre, e não é líquido que prospere.

IMPOSSÍVEL GOVERNAR

Com isso, deu-se início a uma estratégia oposicionista de tornar impossível governar o país. Coincidentemente, estourou a corrupção da Petrobras, em que grande parte dos partidos estava comprometida. Mas aqui tornou a vigorar a politização da Justiça. Todo o peso das acusações caiu, praticamente, sobre o PT.

Os milhões da corrupção por parte do PT são tão escandalosos que suscitam, com razão, a indignação de qualquer pessoa sensata. Tal fato criou desalento por parte dos membros do partido e revolta e vontade de propor um impeachment contra a presidente por certos setores da população. De repente, todo o Partido dos Trabalhadores era e é corrupto, o que não é verdade. Ao arrepio do direito, bastavam suspeitas para o juiz mandar prender os suspeitos, antes mesmo de ouvi-los ou confirmar a objetividade das delações. Assim, assistimos, estarrecidos, ao excesso judicial de levar sob vara o ex-presidente Lula a interrogatório, quando a sensatez aconselhava fazer como se fez com outro ex-presidente, FHC, que foi ouvido em casa. A culminância chegou às raias da evidente insensatez e da falta da percepção das consequências sociais violentas quando um juiz e três jovens procuradores, parcos de experiência e mais ainda de cultura, decretarem a prisão preventiva de Lula.

UM OPERÁRIO NO PODER

Nessa atmosfera acirrada, cabe pedir moderação para salvaguardar a democracia e não favorecer comportamentos fascistas. Mas faz-se mister tomar em conta um dado esclarecedor. A oposição, cuja base social é constituída pelas elites econômicas e intelectuais, nunca aceitou que um metalúrgico assumisse o mais alto cargo da nação. Com o PT triunfou um projeto que conseguiu o que nunca ocorrera antes: incluir milhões na cidadania, permitir a milhares chegar à universidade, dar-lhes dignidade em sua casinha com luz elétrica.

O conflito de raiz é este: os estratos tradicionais e poderosos não aceitam essa inflexão na história do Brasil em favor dos humilhados e ofendidos. Querem-nos como seus serviçais baratos, exército de reserva.

Nunca pertenci ao PT, mas sempre apoiei sua causa. O essencial da Teologia da Libertação é a opção pelos pobres contra sua pobreza e em favor da justiça social. Por isso, apoiei e continuo a apoiar o PT, porque o vejo como um instrumento para realizar esse sonho maior.