Quatro sombras afligem a realidade brasileira atual

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Ilustração do Duke

Leonardo Boff
O Tempo

Em momentos de crise, assomam quatro sombras que estigmatizam nossa história, cujos efeitos perduram até hoje. A primeira sombra é nosso passado colonial. Todo processo colonialista é violento. A consequência no inconsciente coletivo do povo dominado é sempre baixar a cabeça e pensar que somente o que é estrangeiro é bom. A segunda sombra foi o genocídio indígena. Eram mais de 4 milhões. A consequência é termos dificuldade de conviver com o diferente, entendendo-o como desigual. O índio não é ainda considerado plenamente “gente”, por isso suas terras são tomadas, muitos são assassinados, e outros, para não morrerem, se suicidam. Há uma tradição de intolerância. A terceira sombra, a mais nefasta de todas, foi a escravidão. Entre 4 e 5 milhões de escravos foram trazidos da África como peças a serem negociadas no mercado para servirem nos engenhos ou nas cidades como escravos. Negamos-lhes humanidade, e seus lamentos, sob a chibata, chegam ainda hoje ao céu. Criou-se a instituição da casa-grande e da senzala. Consequência: não precisamos respeitar o outro. Se lhe pagamos salário, é caridade, e não direito. Predominou o autoritarismo; o privilégio substituiu o direito, e criou-se um estado para servir aos interesses dos poderosos, e não ao bem de todos.

Raymundo Faoro (autor de “Os Donos do Poder”) e o historiador e acadêmico José Honório Rodrigues (“Conciliação e Reforma no Brasil”) nos têm narrado a violência com que o povo foi tratado para estabelecer o Estado nacional. Assim surgiu uma nação profundamente dividida entre poucos ricos e grandes maiorias pobres – um dos países mais desiguais do mundo, violento e cheio de injustiças sociais.

INJUSTIÇA SOCIAL

Uma sociedade montada sobre a injustiça social nunca criará uma coesão interna que lhe permitirá um salto rumo a formas mais civilizadas de convivência. Aqui imperou sempre um capitalismo selvagem que nunca se logrou civilizá-lo. Mas, depois de muitas dificuldades e derrotas, conseguiu-se um avanço: a irrupção de todo tipo de movimentos sociais que se articularam entre si. Nasceu uma força social poderosa que desembocou numa força político-partidária. O Partido dos Trabalhadores e outros afins nasceram desse esforço titânico, sempre vigiados, satanizados, perseguidos.

A coligação de partidos hegemonizados pelo PT conseguiu chegar ao poder central. Fez-se o que nunca foi pensado e feito antes: conferir centralidade ao pobre e ao marginalizado. Em função deles se organizaram, como cunhas no sistema dominante, políticas sociais que permitiram a milhões sair da miséria e ter os benefícios mínimos da cidadania e da dignidade.

A QUARTA SOMBRA…

Mas uma quarta sombra escurece uma realidade que parecia tão promissora: a corrupção. Setores importantes do PT se deixaram morder pela mosca azul do poder e se corromperam. Isso jamais poderia ter acontecido, dados os propósitos iniciais do partido. Devem ser julgados e punidos.

A Justiça focou-se quase só neles e mostrou-se muitas vezes parcial e com clara vontade persecutória. Os vazamentos ilegais forneceram munição à imprensa oposicionista e aos grupos que sempre dominaram a cena política e que agora querem voltar ao poder com um projeto “velhista”, neoliberal e insensível à injustiça social. Conseguiram mobilizar multidões, conclamando o impedimento de Dilma, mesmo sem suficiente fundamento legal.

Nunca fui filiado ao PT, mas, apesar de seus erros, a causa que defende será sempre válida: fazer uma política integradora dos excluídos e humanizar nossas relações sociais para tornar menos malvada a nossa sociedade.

O resgate da utopia no contexto sombrio do Brasil e do mundo

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Ilustração de Duke (O Tempo)

Leonardo Boff
O Tempo

Face ao desamparo que grassa no Brasil e na humanidade atual, faz-se urgente resgatar o sentido libertador da utopia. Na verdade, vivemos no olho de uma crise da ordem política e do tipo de democracia que temos. Mais ainda, uma crise civilizacional de proporções planetárias.

Toda crise oferece chances de transformação, bem como riscos de fracasso. Na crise, medo e esperança, expressões de raiva e de violência real ou simbólica se mesclam, especialmente nesse momento crítico da sociedade.

Precisamos de esperança. Ela se expressa na linguagem das utopias. Estas, por sua natureza, nunca vão se realizar totalmente, mas nos mantêm caminhando.

Acertadamente, observou o poeta Mário Quintana: “Se as coisas são inatingíveis… Ora!/ Não é motivo para não querê-las/ Que tristes os caminhos se não fora/ A mágica presença das estrelas”.

ALGO EM POTENCIAL

A utopia não se opõe à realidade, antes pertence a ela, porque não é feita apenas por aquilo que é dado, mas por aquilo que é potencial e que pode um dia se transformar em dado. A utopia nasce desse “transfundo” de virtualidades presentes na história, na sociedade e em cada pessoa.

O filósofo Ernst Bloch cunhou a expressão “princípio-esperança”, que entende o inesgotável potencial da existência humana e da história, que permite dizer “não” a qualquer realidade concreta, às limitações espaço-temporais, aos modelos políticos e às barreiras que cerceiam o viver, o saber, o querer e o amar.

O ser humano diz “não” porque primeiro disse “sim”: sim à vida, ao sentido, a uma sociedade com menos corrupção e mais justa, aos sonhos e à plenitude ansiada. Embora realisticamente não entreveja a total plenitude no horizonte das concretizações históricas, nem por isso ele deixa de ansiar por ela com uma esperança jamais arrefecida.

PARAÍSO NA TERRA

Jó, quase nas vascas da morte, podia gritar a Deus: “Mesmo que Tu me mates, ainda assim espero em Ti”. O paraíso terrenal narrado no Gênesis 2-3 é um texto de esperança. Não se trata do relato de um passado perdido e do qual guardamos saudades, mas é antes uma promessa, uma esperança de futuro ao encontro do qual estamos caminhando. Como comentava Bloch: “O verdadeiro Gênese não está no começo, mas no fim”. Só no termo do processo da evolução serão verdadeiras as palavras das Escrituras: “E Deus viu que tudo era bom”. Enquanto evoluímos, nem tudo é bom, só perfectível.

O essencial do cristianismo não reside em afirmar a encarnação de Deus. Outras religiões também o fizeram. Mas é afirmar que a utopia virou eutopia (um lugar bom). Em alguém, não apenas a morte foi vencida, o que seria muito, mas ocorreu algo maior: todas as virtualidades escondidas no ser humano explodiram e implodiram. Jesus é o “Adão novíssimo” na expressão de são Paulo, o homem abscôndito agora revelado. Mas é apenas o primeiro dentre muitos; nós seguiremos a ele.

CRISE PURIFICADORA

Anunciar tal esperança no sombrio contexto atual do Brasil e do mundo não é irrelevante. Transforma a eventual tragédia da política, da Terra e da humanidade devido à dissolução social e às ameaças sociais e ecológicas numa crise purificadora.

Vamos fazer uma travessia perigosa, mas a vida será garantida, e o Brasil, bem como o planeta, ainda se regenerará e encontrará um caminho que nos abra um futuro “esperançador”.

Para os cristãos, a grama não cresceu sobre a sepultura de Jesus. A partir da crise da sexta-feira da crucificação, a vida triunfou. Por isso a tragédia não pode escrever o último capítulo da história, nem do Brasil, nem da Mãe Terra. Aquele o escreverá a vida em seu esplendor solar.

Derrotados nas urnas querem ganhar pela força, não pelo direito

Charge do Jota A., reprodução do Portal O Dia

Leonardo Boff
O Tempo

No emaranhado das discussões atuais relativas à corrupção, importa desocultar o que está oculto e que passa despercebido aos olhos pouco críticos: a vontade persistente dos grupos dominantes, que não aceitam a ascensão das massas populares aos bens mínimos da cidadania e que querem mantê-las onde sempre foram mantidas, à margem. A investigação jurídico-policial dos crimes na Petrobras envolve muitos outros partidos além do PT, como o PPS, o PMDB e o PSDB, beneficiados com subsídios e propinas para suas campanhas. Por que ela é conduzida de forma a se centrar unicamente nos membros petistas? O objetivo principal parece não ser a condenação dos malfeitos, que obviamente devem ser investigados, julgados e punidos.

Mas o PT não está sozinho nesse imbróglio. A maioria dos grandes partidos está metida nele. Por que o Ministério Público, a Polícia Federal e o juiz Sérgio Moro não os investigam, já que pretendem limpar o país?

É ingênuo e enganador pensar que essas instâncias, inclusive os vários níveis da Justiça nos seus mais altos escalões, não venham imbuídas de intenções e ideologia. É próprio do discurso ocultador dos golpistas enfatizar a completa independência dessas instâncias e seu caráter imparcial. A realidade do passado e do presente revela outra coisa.

VONTADE PERVERSA

Por que a tentativa sistemática de desmontar a figura de Lula, levado sob vara para depor na PF, depois de tê-lo feito antes por três vezes? É a vontade perversa de destruí-lo como referência para todos aqueles que veem nele o político vindo dos fundões de nosso país, sobrevivente da fome que, finalmente, com seu carisma, galgou o centro do poder. Ele conferiu a coisa mais importante para uma pessoa: dignidade. A conciliação entre as classes sempre foi para aplainar o caminho dos grupos poderosos e negar benefícios ao povo. Com o PT, houve uma inflexão nessa lógica excludente.

Agora vem à tona o mesmo propósito das classes que não aceitaram, um dia, terem sido apeadas do poder. Querem voltar a qualquer custo. Dão-se conta de que pela via eleitoral não o conseguirão, por causa da mediocridade de seus líderes e por falta de qualquer projeto que devolva esperança ao povo, súcubos que são do poder imperial globalizado. Querem consegui-lo manipulando as leis, suscitando ódio e intolerância. É luta de classes. Basta ver o que se diz nas mídias sociais.

A política não é feita de confronto de ideias, projetos políticos e leituras diferentes de nossa situação de crise. É algo mais perverso: é a vontade de destruir Lula, de liquidar o PT e colocá-lo contra o povo. Temem que Lula volte para completar as políticas que foram boas para as maiorias e que lhe deram consciência e dignidade. O que os donos do poder mais temem é um povo que pensa. Querem-no ignorante para poder dominá-lo ideológica e politicamente e, assim, se garantir no privilégio.

NÃO PASSARÃO

Mas não o conseguirão. São tão obtusos e faltos de criatividade em sua fome de poder que usam as mesmas táticas de 1954, contra Vargas, ou de 1964, contra Jango. Trata-se sempre de deter os reclamos do povo por mais direitos, o que implica a redução dos privilégios e uma melhora da democracia.

Mas os tempos são outros. Não vão prosperar, pois já há um acúmulo de consciência e de pressão popular que os levará à irrisão, não obstante seus porta-vozes midiáticos continuem a mentir, a distorcer, a inventar cenários dramáticos para desfalcar a esperança popular e, assim, alcançar seu retorno pela força, e não pelo direito democrático. Porém, não passarão.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
O escritor Leonardo Boff cometeu um ato falho no texto, ao incluir o PPS no mensalão. Certamente ele queria se referir ao PP, este sim, mais sujo do que pau de galinheiro, como se diz no interior. (C.N.)

O pedido de perdão do papa Francisco aos povos indígenas

No México, o Papa pediu respeito às tradições indígenas

Leonardo Boff
O Tempo

Foi memorável a data de 15 de fevereiro de 2016, quando o papa Francisco esteve na cidade colonial de San Cristóbal de las Casas, capital do Estado mais pobre do México, Chiapas. Encontrou-se com os povos originários, maias, quichés e outros. Diante de 100 mil pessoas, celebrou uma missa utilizando as línguas deles.

Foi uma visita de dupla reparação. Primeiro, aos povos originários, pedindo perdão pelos séculos de dominação e sofrimento. Ecoam ainda nos nossos ouvidos as palavras comovedoras do profeta maia Chilam Balam de Chumayel: “Ai, entristeçamo-nos, porque chegaram. Vieram fazer nossas flores murcharem para que somente a sua flor vivesse; entre nós se introduziu a tristeza, veio o cristianismo; este foi o princípio de nossa miséria, o princípio de nossa escravidão”.

O impacto da invasão dos espanhóis foi tão violento que, dos 22 milhões de astecas existentes em 1519, quando Hernán Cortés penetrou no México, restaram apenas 1 milhão de pessoas em 1600. Morreram em guerras e por doenças dos europeus contra as quais não tinham imunidade. Foi um dos maiores genocídios da história humana. Na linguagem de um indígena do século XVI, os espanhóis, cristãos, “foram o anticristo na Terra, o tigre dos povos, o sugador do índio”.

UMA SEGUNDA REPARAÇÃO

Agora vem um papa da América Latina que não escamoteia, como sempre fizeram a Igreja oficial e a Espanha, essa devastação de nações inteiras. Reconhece os pecados e os abusos e pede perdão.

Fez uma segunda reparação: o resgate do bispo dom Samuel Ruiz García, incompreendido pela hierarquia mexicana, em grande parte conservadora, e perseguido pelo Vaticano por introduzir diáconos indígenas e colocar as bases de uma “Igreja indígena”, que combinava elementos do catolicismo e da cultura autóctone. O papa reconheceu as três línguas principais como línguas litúrgicas: chol, tzotzil e tzeltal. Deteve-se diante do túmulo de dom Samuel Ruiz e rezou longamente.

Mais ainda. O papa reconhece a grande contribuição que podem dar ao mundo pela forma como tratam a Pacha Mama, com respeito, veneração e harmonia. Retoma o discurso da encíclica sobre o “Cuidado da Casa Comum” e diz, enfaticamente: “Não podemos permanecer indiferentes perante uma das maiores crises ambientais da história. Nisso, vós tendes muito a ensinar-nos. Os vossos povos sabem relacionar-se harmoniosamente com a natureza, que respeitam como fonte de alimento, casa comum e altar do compartilhar humano”. Acrescentou ainda: “Entre os pobres mais abandonados e maltratados está o nosso oprimido e devastado planeta. Não podemos fazer-nos surdos face a uma das maiores crises ambientais da história”.

DOIS FENÔMENOS

De minhas andanças pelos vários países latino-americanos, constato dois fenômenos visíveis: o resgate biológico dos povos originários – que estão crescendo em número e refazendo sua população – e a reconquista de sua cultura, com suas religiões e sua sabedoria ancestral. É uma experiência inolvidável participar de suas celebrações, dirigidas por sacerdotes, sacerdotisas e sábios.

Eles não são filhos da modernidade secularizada. Guardam a sagrada veneração por todas as coisas. Sentem-se filhos das estrelas e em profunda comunhão com os ancestrais. Estes são invisíveis, mas estão presentes, acompanhando o povo com seus conselhos transmitidos pelos anciãos e pelos sábios.

Devemos revistar essas culturas ancestrais. Nelas estão vivos princípios e valores que nos poderão inspirar formas de superar a nossa crise de civilização e garantir o nosso futuro.

Nossa cultura conferiu valor absoluto ao espírito científico

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Ilustração de Duke (O Tempo)

Leonardo Boff
O Tempo

A nossa cultura, a partir do chamado Século das Luzes (1715-1789), aplicou de forma rigorosa a compreensão de René Descartes (1596-1650) de que o ser humano é “senhor e mestre” da natureza, podendo dispor dela ao seu bel-prazer. Conferiu um valor absoluto à razão e ao espírito científico. Com isso, se fecharam muitas janelas do espírito que permitem também um conhecimento, sem necessariamente passar pelos cânones racionais. O que mais foi marginalizado e até difamado foi o coração, órgão da sensibilidade e do universo das emoções, sob o pretexto de que ele atrapalharia “as ideias claras e distintas” (Descartes) do olhar científico. Assim surgiu um saber sem coração, mas funcional ao projeto da modernidade, que era – e continua sendo – o de fazer do saber um poder como forma de dominação da natureza, dos povos e das culturas.

Curiosamente, toda a epistemologia moderna, que incorpora a mecânica quântica, a nova antropologia, a filosofia fenomenológica e a psicologia analítica, tem mostrado que todo conhecimento vem impregnado das emoções do sujeito e que sujeito e objeto estão indissoluvelmente vinculados, às vezes por interesses escusos (J. Habermas).

Foi a partir de tais constatações e com a experiência desapiedada das guerras modernas que se pensou no resgate do coração. Finalmente, é nele que reside o amor, a simpatia, a compaixão, o sentido de respeito, base da dignidade humana e dos direitos inalienáveis.

CULTURA MAIA

Isso que nos parece novo e uma conquista – os direitos do coração – era o eixo da grandiosa cultura maia na América Central, particularmente na Guatemala. Como não passaram pela circuncisão da razão moderna, guardaram fielmente suas tradições, que provêm dos avós, ao largo das gerações.

Participei várias vezes de celebrações maias, sempre ao redor do fogo. Começam invocando o coração dos ventos, das montanhas, das águas, das árvores e dos ancestrais. Fazem suas invocações no meio de um incenso nativo perfumado e produtor de muita fumaça.

Ouvindo-os falar das energias da natureza e do universo, parecia-me que sua cosmovisão era muito afim, guardadas as diferenças de linguagem, da física quântica. Tudo para eles é energia e movimento entre a formação e a desintegração que conferem dinamismo ao universo. Eram exímios matemáticos e haviam inventado o número zero. Seus cálculos do curso das estrelas se aproximam em muito aos que alcançamos com os modernos telescópios.

DOIS CORAÇÕES

Dizem que tudo o que existe nasceu do encontro amoroso de dois corações, o do céu e o da Terra, que é um ser vivo que sente, intui, vibra e inspira os seres humanos. Estes são os “filhos ilustres, indagadores e buscadores da existência”, afirmações que nos lembram Martin Heidegger.

A essência do ser humano é o coração, que deve ser cuidado para ser afável, compreensivo e amoroso. Toda a educação que se prolonga ao largo da vida é para cultivar a dimensão do coração. Os irmãos de La Salle mantêm, na capital guatemalteca, um imenso colégio, onde jovens maias vivem na forma de internato bilíngue, no qual se recupera e sistematiza a cosmovisão maia, ao mesmo tempo em que assimilam e combinam saberes ancestrais com os modernos saberes, especialmente os ligados à agricultura e a relações respeitosas com a natureza.

Apraz-me concluir com um texto que uma mulher sábia me repassou no fim de um encontro com indígenas maias. “Quando tens que escolher entre dois caminhos, pergunta-te qual deles tem coração. Quem escolhe o caminho do coração, jamais se equivocará” (Popol Vuh).

Os equívocos do PT ao embarcar no presidencialismo de coalizão

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Ilustração de Duke (O Tempo)

Leonardo Boff
O Tempo

Durante quatro a cinco décadas houve vigorosa movimentação das bases populares da sociedade discutindo “que Brasil queremos”, diferentemente daquele que herdamos. Ele deveria nascer de baixo para cima e de dentro para fora, democrático, participativo e libertário. Mas consideremos um pouco os antecedentes histórico-sociais para entender por que esse projeto não conseguiu prosperar.

É do conhecimento dos historiadores, mas muito pouco da população, como foi cruenta a nossa história tanto na Colônia e na Independência como no reinado de dom Pedro I, sob a Regência e nos inícios do reinado de dom Pedro II. Sempre vigorou espantoso divórcio entre o poder e a sociedade. O que predominou foi a política de conciliação entre os partidos e as oligarquias, sempre sem o povo. No entanto, pela primeira vez, uma coligação de forças progressistas e populares, hegemonizadas pelo PT, vindo de baixo, chegou ao poder central. Ninguém pode negar o fato de que se conseguiu a inclusão de milhões que sempre foram postos à margem.

Um governo governa sustentado por uma sólida base parlamentar ou assentado no poder social dos movimentos populares organizados. Lula optou pelo Parlamento, no ilusório pressuposto de que seria o atalho mais curto para as reformas que pretendia. Assumiu o presidencialismo de coalizão. Líderes de movimentos sociais foram chamados a ocupar cargos no governo, enfraquecendo, em parte, a força popular.

À BASE DE INTERESSES

Lula, mesmo mantendo ligação com os movimentos de onde veio, não via neles o sustentáculo de seu poder, mas sim a coalizão pluriforme de partidos. Se tivesse observado um pouco a história, teria sabido do risco.

A coalizão se faz à base de interesses. A maioria dos parlamentares não representa o povo, mas os interesses dos grupos que lhes financiam as campanhas. Na prática, tratam da defesa dos bens particulares e corporativos. Por isso, em seus oito anos, Lula não conseguiu fazer passar nenhuma reforma. Não havia base.

A “Carta aos Brasileiros”, que, na verdade, era uma carta aos banqueiros, obrigou Lula a alinhar-se aos ditames da macroeconomia mundial e deixou pouco espaço para as políticas sociais. Uma parte da cúpula do PT, metida nessa coalizão, perdeu o contato orgânico com as bases. Nessa economia, o mercado dita as normas e tudo tem seu preço. Assim, parte do PT perdeu o contato orgânico com as bases, contato esse sempre terapêutico contra a corrupção. Boa parte do PT traiu sua bandeira principal, a ética e a transparência. E, o pior, traiu as esperanças de 500 anos do povo.

E nós, que tanta confiança depositávamos no novo, com as milhares de comunidades de base, as pastorais sociais e os grupos emergentes… Elas aprenderam a articular fé e política. A mensagem originária de Jesus de um reino de justiça e de fraternidade apontava de que lado deveríamos estar: dos oprimidos. A política seria uma mediação para alcançar tais bens para todos.

EQUÍVOCO FATAL

O partido cometeu um equívoco fatal: aceitou, sem mais, a opção de Lula pelo problemático presidencialismo de coalizão. Deixou de se articular com as bases, de formar politicamente seus membros e de suscitar novas lideranças. E aí veio a corrupção do mensalão. O petrolão, pelos números altíssimos da corrupção, desmoralizou parte do PT e das lideranças, atingindo o coração do partido.

O PT deve ao povo uma autocrítica nunca feita integralmente. Para se transformar numa fênix que ressurge das cinzas, deverá voltar às bases e, junto com o povo, reaprender a lição de uma nova democracia participativa, popular e justa, que poderá resgatar a dívida histórica que os milhões de oprimidos ainda esperam desde a Colônia e a escravidão.

A persistência da discriminação e do ódio na sociedade brasileira

Leonardo Boff
O Tempo

É fato inegável: há muito ódio, muita raiva, muito rancor, muita discriminação e muita repulsa na sociedade brasileira. Isso sempre existiu de alguma forma, ou alguém acha que os milhões de escravos e as mulheres à disposição da volúpia sexual dos patrões e de seus filhos não provocavam surdo rancor e profundo ódio? E o ódio dos patrões que castigavam seus escravos desobedientes no pelourinho?

O ódio pertence à zona do mistério. A própria Bíblia não sabe explicá-lo e o vê presente desde o começo no jardim do Éden. O primeiro crime ocorreu com Caim, que matou seu irmão Abel.

Mas eis que vem Jesus e reverte a lógica do ódio: “Amai vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem” (Mt 5, 44). Ele mesmo sucumbiu ao ódio de seus inimigos, mas “venceu a morte pela morte” e assim derrubou “o muro da inimizade que dividia a humanidade” (Ef 2,14-16). Inaugurou, assim, uma nova etapa de nossa humanização, mas esse ideal nunca se transformou em cultura nos países cristianizados.

No Brasil, a raiva e o rancor históricos foram acrescidos depois das eleições de 2014. Houve quem não aceitou a derrota e deslanchou uma torrente de raiva e ódio que contaminou não apenas o partido vencedor, mas toda a sociedade. Inegavelmente, criou-se um consenso político-ideológico em alguns meios de comunicação que, com total desfaçatez, difundem esse sentimento.

PERSEGUIÇÃO A LULA

A verdadeira perseguição judicial que Lula está sofrendo é movida não tanto pela fome e sede de justiça, mas pela vontade de punir, de desfigurar seu carisma e liquidar sua liderança. Grassa um maniqueísmo avassalador que amargura toda a vida social. Bem dizia Bernard Shaw: “O ódio é a vingança dos covardes”.

Entretanto, tentando ir um pouco mais a fundo na questão do ódio, precisamos reconhecer que ele se enraíza em nossa própria condição humana num feixe de contradições. Somos, por natureza, e não por desvio de construção, seres contraditórios, compostos de ódios e de amores, de abraços e de rejeições. Mesmo escolhendo o amor, o ódio nos acompanha como uma sombra sinistra.

Encontramos esse realismo na Bíblia, mas também num pensador como Bertrand Russell, que observou com acerto: “O coração humano, tal como a civilização moderna o modelou, está mais inclinado para o ódio do que para a fraternidade”. Lógico, se ela colocou como eixo estruturador a concorrência e não a colaboração, e a luta de todos contra todos em vista da acumulação privada, entende-se que predomine a tensão, a raiva, a inveja, a ponto de o lema de Wall Street ser “greed is good”, ou “a cobiça é boa”.

CITANDO ENGELS

Mas há um ponto que precisa ser referido, observado por F. Engels quando escreveu uma introdução ao livro de Marx sobre a luta de classes na França: “Se houver alguma possibilidade de as massas trabalhadoras chegarem ao poder, a burguesia não admitirá a democracia, sendo até capaz de golpeá-la”. Ora, por meio de Lula, o PT e seus aliados, vindo das massas trabalhadoras, chegaram ao poder. Isso é inadmissível para os “donos do poder”, que procuram inviabilizar o governo de cunho popular, desconsiderando o bem comum.

Aqui valem as palavras sábias do velho do Restelo, de Camões: “Ó glória de mandar, ó vã cobiça/ Desta vaidade a quem chamamos fama./ Ó fraudulento gosto, que se atiça/ Com uma aura popular que honra se chama” (Cântico IV, versos 94-95). Por trás da busca da glória de mandar e do poder, revestido de raiva e de ódio, se esconde, atualmente, a vontade daqueles que sempre o detiveram e que agora o perderam, e fazem de tudo para recuperá-lo por todos os meios possíveis.

O mito de Héstia, que representa nosso centro – o do lar e o da Terra

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Ilustração de Duke

Leonardo Boff
O Tempo

Atualmente, há toda uma nova forma de interpretar os velhos mitos gregos e de outros povos. Em vez de considerar os deuses e as deusas entidades subsistentes, agora cresce a hermenêutica, especialmente após os estudos do psicanalista Jung e de seus discípulos Hillman, Neumann, Paris e outros, segundo a qual conceitos abstratos não conseguem expressá-los.

Um desses mitos é o da deusa Héstia, filha de Cronos (o deus do tempo e da idade de ouro) e de Reia, a grande mãe, geradora de todos os seres. Héstia representa nosso centro pessoal, o centro do lar e o centro da Terra, nossa Casa Comum. É virgem, não por desprezar a companhia do homem, mas para poder, com maior liberdade, cuidar de todos os que se encontram no lar.

Héstia significa, em grego, a “lareira com fogo aceso”: aquele lugar ao redor do qual todos se agrupam para se aquecerem e conviverem. Portanto, é o coração da casa, o lugar da intimidade familiar, longe do tumulto da rua. Héstia protege, dá segurança e aconchego. Além disso, a ela cabem a ordem da casa e a chave da despensa, para que sempre esteja bem fornida para familiares e hóspedes.

Nas casas gregas e romanas, mantinha-se sempre um fogo aceso para expressar a presença protetora de Héstia. Se o fogo se apagasse, era presságio de alguma desgraça. Também não se começava a refeição sem fazer um brinde a ela.

CADA UM TEM SEU LUGAR

Héstia significava, também, aquele canto para onde alguém se recolhe para estar só, ler seu jornal ou um livro e fazer uma meditação. Cada um tem o seu “lugarzinho” ou sua cadeira preferida. Para saber onde se encontra a nossa Héstia, devemos nos perguntar quando estamos fora de casa: qual é a imagem que melhor lembra o nosso canto? Aí está o centro existencial da casa. Sem a Héstia, a casa se transforma num dormitório ou numa espécie de pensão gratuita, sem vida. Com a Héstia há afeição, bem-estar e o sentimento de estar “finalmente em casa”.

Héstia era por todos venerada e, no Olimpo, a primeira a ser reverenciada. Júpiter sempre defendeu sua virgindade contra o assédio sexual de alguns deuses mais assanhados.

A nossa cultura patriarcal e a masculinização das relações sociais tornaram Héstia grandemente enfraquecida. As mulheres fizeram bem em sair de casa, desenvolver sua dimensão de “animus” (capacidade de organizar e dirigir). Mas tiveram que sacrificar, em parte, a sua dimensão de Héstia. Levaram para o mundo do trabalho as virtudes principais do feminino: o espírito de cooperação e o cuidado que tornaram as relações menos rígidas. Mas chega o momento de voltar para casa e de resgatar Héstia.

Ai da casa desleixada e desordenada! Aí emerge a vontade de que Héstia se faça presente para garantir a atmosfera boa, íntima e familiar. Esta não é apenas tarefa da mulher, mas também do homem. Por isso, em todo homem e em toda mulher, deve-se equilibrar o momento de Hermes, o estar fora de casa para trabalhar, com o momento de Héstia, o de voltar ao centro e ter seu refúgio e aconchego.

DOSAGEM VITAL

Hoje, por mais feministas que sejam as mulheres, elas estão resgatando essa fina dosagem vital.

Héstia também designava o centro da Terra, onde está o fogo primordial. Se a Terra não é mais o centro físico do universo, ela continua sendo o centro psicológico e emocional. Aqui vivemos, nos alegramos, sofremos e morremos. Mesmo viajando aos espaços exteriores, os astronautas sempre revelavam ter saudades da Mãe Terra, onde tudo o que é significativo e sagrado está aqui.

Temos que resgatar Héstia, protetora da Casa Comum, manter seu fogo vivo e conferir-lhe sustentabilidade. Não estamos lhe rendendo as honras que merece, e ela nos envia seus lamentos com o aquecimento global e as calamidades naturais.

A sociedade do cansaço e do abatimento social

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Ilustração de Duke (O Tempo)

Leonardo Boff
O Tempo

Há uma discussão pelo mundo sobre a “sociedade do cansaço”. Seu formulador principal é um coreano que ensina filosofia em Berlim, Byung-Chul Han. O pensamento nem sempre é claro e é, por vezes, discutível, como quando afirma que o “cansaço fundamental” é dotado de uma capacidade especial de “inspirar e fazer surgir o espírito”.

Independentemente das teorizações, vivemos numa sociedade do cansaço. No Brasil, além de cansaço, sofremos um desânimo e um abatimento atroz.

A aceleração do processo histórico e a multiplicação de sons e mensagens, o exagero de estímulos e comunicações, especialmente pelo marketing comercial, pelos celulares com todos os seus aplicativos, e a superinformação que nos chega pelas mídias sociais nos causam depressão, dificuldade de atenção e uma síndrome de hiperatividade. Chegamos ao fim do dia estressados e desvitalizados.

Acresce-se ainda o ritmo do produtivismo neoliberal imposto aos trabalhadores no mundo inteiro. Cobra-se de todos o melhor desempenho possível, o que desequilibra emocionalmente as pessoas, gerando irritabilidade e ansiedade. O número de suicídios é assustador. Ressuscitou-se o dito da revolução de 68 do século passado. Então se dizia: “metrô, trabalho, cama”. Agora se diz: “metrô, trabalho, túmulo”. Quer dizer: doenças letais, perda do sentido da vida e verdadeiros infartos psíquicos.

DESALENTO GENERALIZADO

Entre nós, nos últimos meses, grassa um desalento generalizado. A campanha eleitoral turbinada com grande virulência verbal, acusações, deformações e reais mentiras, além do fato de a vitória do PT não ter sido aceita, suscitou ânimos de vindita. Bandeiras sagradas do PT foram traídas pela corrupção em altíssimo grau, gerando decepção profunda, o que fez perder costumes civilizados. A linguagem se canibalizou. Saíram do armário o preconceito contra os nordestinos e a desqualificação da população negra. Como disse Sergio Buarque de Holanda: podemos agir a partir do coração cheio de raiva, de ódio e de preconceitos.

Os interesses das classes abastadas são antagônicos aos das classes empobrecidas. Aquelas, historicamente hegemônicas, temem a inclusão dos pobres e a ascensão de outros setores da sociedade, a lugares antes reservados apenas para elas. Somos um dos países mais desiguais do mundo, onde mais campeiam injustiças sociais, violência banalizada e assassinatos que equivalem em número à guerra do Iraque. Temos trabalhadores vivendo sob condição equivalente à da escravidão.

Como sair desse inferno humano? A nossa democracia é apenas de voto; não representa o povo, mas os interesses dos que financiaram as campanhas, por isso é de fachada.

ALTERNATIVA DE SOCIEDADE

Vejo uma saída possível por parte da sociedade organizada e dos movimentos sociais, que possuem outro ethos e outro sonho de Brasil e de mundo. Mas eles precisam estudar, se organizar, pressionar as classes dominantes e o Estado patrimonialista, se preparar para propor uma alternativa de sociedade que possua raízes naqueles que, no passado, lutaram por outro Brasil com projeto próprio. Um povo doente e ignorante nunca fundará uma nova e possível biocivilização nos trópicos.

Tal sonho pode nos tirar do cansaço e do desamparo social e nos devolver o ânimo necessário para enfrentar os entraves dos conservadores e suscitar a esperança bem fundada de que nada está totalmente perdido, mas que temos uma tarefa histórica a cumprir. Utopia? Como dizia Oscar Wilde, “se no nosso mapa não constar a utopia, nem olhemos para ele, porque nos está escondendo o principal”. Do caos presente deverá sair algo bom. Em vez da cultura do cansaço e do abatimento, teremos uma cultura da esperança e da alegria.

O biorregionalismo como alternativa para viver melhor

Papa Francisco, um grande defensor da ecologia

Leonardo Boff
O Tempo

O modelo ainda dominante nas discussões ecológicas privilegia em escala o Estado e o mundo; em economia, a exploração da natureza, o crescimento/desenvolvimento ilimitado em nível mundial e a competição; em política, prevalecem a centralização, a hierarquização, o controle e o governo da maioria; na cultura, o quantitativo sobre o qualitativo, a uniformização dos costumes, o consumismo, o individualismo e o pensamento tecnocrático.

Esse paradigma subjaz, em grande parte, à atual crise da Terra, pois considera esta um todo uniforme sem valorizar a singularidade de seus ecossistemas e a diversidade das culturas. Por isso, gera desequilíbrios no sistema da vida e na dinâmica natural da Terra viva.

Hoje, está se impondo outra vertente mais amiga da natureza e com possibilidades de nos tirar da crise atual: o biorregionalismo. A biorregião se circunscreve numa área, normalmente definida pelos rios e pelo maciço de montanhas. Possui certo tipo de vegetação, geografia do terreno, de fauna e de flora e mostra uma cultura local própria, com seus hábitos, tradições, valores, religião e história feita no local.

VALORIZANDO A REGIÃO

Em termos de escala, centra-se na região e na comunidade; em economia, na conservação, na adaptação, na autossuficiência e na cooperação; em política, na descentralização, na subsidiariedade, na participação e na busca do consenso; na cultura favorece a simbiose, a diversidade e o crescimento qualitativo e inclusivo.

Sua tarefa básica é fazer os habitantes entenderem e valorizarem o lugar onde vivem. Faz-se mister inserir as pessoas na cultura local, nas estruturas sociais, urbanas e rurais, no aprendizado das figuras exemplares da história local. Finalmente, sentir-se filho e filha da Terra.

É na biorregião que a sustentabilidade se faz real, e não retórica a serviço do marketing; pode se transformar num processo dinâmico, que se aproveita racionalmente das capacidades oferecidas pelo ecossistema local, criando mais igualdade, diminuindo a pobreza, facilitando a participação das comunidades no estabelecimento dos projetos e das prioridades.

UNIDADES SISTÊMICAS

Mesmo sendo a comunidade local a unidade básica, isso não invalida as unidades sistêmicas maiores que afetam a todos (por exemplo, o aquecimento global). A ideia do “glocal”, vale dizer, pensar e agir local e globalmente, nos ajuda a articular as duas dimensões. Sempre é necessário informar-se sobre as experiências de outras regiões e como está o estado geral do planeta Terra.

O biorregionalismo possibilita que as mercadorias circulem no local, evitando as grandes distâncias; favorece o surgimento de cooperativas comunitárias; persiste a economia de mercado, mas composta primariamente, embora não exclusivamente, de empresas familiares, iniciativas cujos proprietários são os próprios trabalhadores, numa cooperação aberta entre bairros e municípios, como ocorre entre várias cidades do vale do rio Itajaí, em Santa Catarina, e em outras regiões.

O biorregionalismo permite deixar para trás o objetivo de “viver melhor” para dar lugar ao “bem viver e conviver” dos andinos, que implica sempre o bem-estar para toda a comunidade, entrando em harmonia com a Mãe Terra, com os solos, as águas e os demais elementos que garantem nossa vida junto com os demais seres vivos do ecossistema.

Esse é um caminho que está sendo trilhado em muitos lugares no mundo. Ele configura uma semente de esperança no meio da falta de alternativas dos dias atuais.

Eticamente desqualificado, manda a julgamento mulher íntegra e ética

Charge de Nani (reprodução de nanihumor.com)

Leonardo Boff
O Tempo

O presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, é acusado de graves atos delituosos: de beneficiário da Lava Jato, contas não declaradas na Suíça e mentiras deslavadas, como, numa entrevista coletiva, ao declarar que o deputado André Moura fora levado pelo chefe da Casa Civil, Jaques Wagner, a falar com a presidente Dilma Rousseff para barganhar a aprovação da CPMF em troca da rejeição da admissibilidade de um processo contra ele no Conselho de Ética. Repetidamente, afirmou que Dilma mentiu à nação ao afirmar que jamais se submeteria a alguma barganha política.

Quem mentiu foi não a presidente, mas Eduardo Cunha. Seu incondicional aliado, o deputado André Moura, não esteve barganhando com Dilma, como o testemunhou o ministro Jaques Wagner. Imitando Fernando Pessoa, diria: ele mente tão perfeitamente que não parecem mentira as mentiras que repete sempre.

É mentira que seu julgamento foi estritamente técnico. Pode ser técnico em seu texto, mas é mentiroso em seu contexto. O técnico nunca existe isolado, sem estar ligado a um tempo e a um interesse. É o que nos ensinam os filósofos críticos. Ele deslanchou o processo de impeachment contra a presidente exatamente no momento em que, apesar de todas as pressões e chantagens sobre o Conselho de Ética, soube que perderia na votação, pois os três representantes do PT acolheriam a aceitação de um processo contra ele. O que fez foi um ato de vindita reles de quem perdeu a noção da gravidade e das consequências de seu ato rancoroso.

VERGONHOSO

É vergonhoso que a Câmara seja presidida por uma pessoa sem qualquer vinculação com a verdade e com o que é reto e decente. Manipula, pressiona deputados, cria obstáculos para o Conselho de Ética. Mais vergonhoso ainda é ele, cinicamente, presidir uma sessão na qual se decide a aceitação do impedimento de uma pessoa corretíssima e irreprochável como é a presidente Dilma Rousseff.

Se Kant ensinava que a boa vontade é o único valor sem nenhum defeito, porque, se tivesse um defeito, ela não seria boa, então Eduardo Cunha encarna o contrário, a má vontade como o pior dos vícios, porque contamina todos os demais atos, arquitetados para tirar vantagens pessoais ou prejudicar os outros.

Seu ato irresponsável pode lançar a nação em um grave retrocesso, abalando a jovem democracia que, com vítimas e sangue, foi duramente conquistada. Não podemos aceitar que um delinquente político, destituído de sentido democrático e de apreço ao povo brasileiro, nos imponha mais esse sacrifício.

UM APELO

Faço um apelo explícito ao procurador geral da República, o dr. Rodrigo Janot, e a todo o Supremo Tribunal Federal: pesem, sotopesem e considerem as muitas acusações pendentes contra Eduardo Cunha nas áreas da Justiça. Estimo que há suficientes razões para afastá-lo da presidência da Câmara e que venha a responder judicialmente por seus atos. A missão da mais alta instância da República, assim estimo, não se restringe à salvaguarda da Constituição e à correta interpretação de seus artigos, mas, junto a isso, zelar pela moralidade pública, quando esta, gravemente ferida, pode constituir uma ameaça à ordem democrática e, eventualmente, levar o país a um golpe.

Mais que outros cidadãos, são Suas Excelências os principais cuidadores da sanidade da política e da salvaguarda da ordem democrática num Estado de direito, sem a qual mergulharíamos num caos com consequências políticas imprevisíveis. O Brasil clama pela atuação corajosa e decidida de Suas Excelências, como ultimamente têm demonstrado exemplarmente.

Impasse do Clima é o mundo fazer a “conversão ecológica”

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llustração de Duke (O Tempo)

Leonardo Boff
O Tempo

Entre os dias 30 de novembro e 11 de dezembro de 2015 se celebra mais uma Convenção das Mudanças Climáticas (COP21), em Paris. Todas as realizadas até hoje chegaram a convergências pífias, muito distantes das exigências que o problema global exige. Há uma razão intrínseca ao atual sistema socioeconômico mundializado que impede de alcançar objetivos comuns e adequados. É semelhante a um trem sobre os trilhos. Ele está condicionado ao rumo que os trilhos traçam, sem alternativa.

As sociedades mundiais continuam obcecadas pelo ideal do crescimento ilimitado, medido pelo PIB. Falam em desenvolvimento, mas, na verdade, o que se busca é o crescimento material. O crescimento pertence aos processos vitais. Uma árvore não cresce ilimitadamente para cima nem nós crescemos fisicamente de forma indefinida. Um planeta limitado e escasso de bens e serviços não tolera um crescimento ilimitado.

A questão central não está, como viu o papa Francisco em sua encíclica sobre o cuidado da Casa Comum, na relação entre crescimento e natureza, mas entre ser humano e natureza. Este não se sente parte dela, mas seu dono. Não cuida dela nem se responsabiliza pelos danos da voracidade de um crescimento infinito com o consumo ilimitado que o acompanha. Assim, caminha célere rumo a um abismo, pois a Terra não suporta mais tanta exploração e devastação.

AQUECIMENTO

Entre as muitas consequências dessa lógica perversa está o aquecimento global, que não cessa de crescer. O aquecimento é inequívoco, não dá para negá-lo. Basta olhar em volta e constatar os eventos extremos que ocorrem em todo o planeta. Para além da geofísica da própria Terra, que conhece fases de aquecimento e de esfriamento, este aquecimento é antrópico, resultado da ininterrupta intervenção humana nos processos naturais. O aquecimento que seria normal vem fortemente intensificado, especialmente pelos gases do efeito estufa, que seguram o calor aqui embaixo, impedindo que se disperse para o alto, aquecendo, em consequência, o planeta.

Toda luta é nos limitar a 2º C, o que permitiria um gerenciamento razoável da adaptação e da mitigação. Para nos mantermos nesses limites, dizem os cientistas, deveríamos reduzir a emissão dos gases em 80% até 2050. A maioria acha isso impossível. Se no entanto, por descuido humano, a temperatura chegar entre 4º C e 6º C por volta daquela data, a vida que conhecemos corre risco de desaparecer e atingir grande parte da espécie humana.

O secretário geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-moon, advertiu recentemente: “As tendências atuais estão nos levando cada vez mais para perto de potenciais pontos de ruptura, que reduziriam de maneira catastrófica a capacidade dos ecossistemas de prestar seus serviços essenciais”.

MUDAR DE RUMO

Temos que mudar de rumo ou conheceremos a escuridão. Há que se estabelecer uma nova relação para com a Terra, respeitar seus ciclos e limites, nos sentirmos parte dela, cuidar dela com processos de produção e consumo que atendam nossas necessidades, sem exaurir sua biocapacidade.

Deveremos aprender a ser mais com menos e a assumir uma sobriedade compartida em comunhão com toda a comunidade de vida, que também precisa da vitalidade da Mãe Terra para viver e se reproduzir. Ou faremos essa “conversão ecológica” (como diz o papa Francisco), ou estará comprometida nossa trajetória sobre este pequeno e belo planeta.

O Ocidente escolheu o pior caminho, que é o da guerra

A mortandade no Oriente Médio parece que nunca vai acabar

Leonardo Boff
O Tempo

Seguramente, são abomináveis os atentados terroristas perpetrados no último dia 13, em Paris, por grupos terroristas de extração islâmica. Tais fatos nefastos não caem do céu. Possuem uma história de raiva, humilhação e desejo de vingança. Estudos acadêmicos feitos nos Estados Unidos evidenciaram que as persistentes intervenções militares do Ocidente, com sua geopolítica para a região e a fim de garantir o suprimento do sangue do sistema mundial, que é o petróleo, rico no Oriente Médio, acrescido ainda pelo fato do apoio irrestrito dado pelos norte-americanos a Israel com sua notória violência brutal contra os palestinos, constituem a principal motivação do terrorismo islâmico contra o Ocidente e contra os EUA.

A resposta que o Ocidente tem dado, a começar com George W. Bush, agora retomado vigorosamente por François Hollande e aliados europeus, mais a Rússia e os EUA, é o caminho da guerra implacável contra o terrorismo. Mas esse é o pior dos caminhos, como criticou Edgar Morin, pois guerras não se combatem com outras guerras, nem o fundamentalismo com outro fundamentalismo (o da cultura ocidental). A resposta da guerra se insere ainda no velho paradigma da pré-globalização, sem se dar conta de que a história mudou e tornou coletivo o destino da espécie humana e da vida sobre o planeta Terra. O caminho da guerra nunca trouxe paz, no máximo alguma pacificação.

DESTINO DO MUNDO     

O paradigma velho respondia a guerra com a guerra. O novo, da fase planetária da Terra e da humanidade, responde com o paradigma da compreensão, da hospitalidade de todos com todos, do diálogo sem barreiras, das trocas sem fronteiras, do ganha-ganha e das alianças entre todos. Caso contrário, ao generalizar as guerras, poderemos pôr fim a nossa espécie ou tornar a Casa Comum inabitável.

Quem nos garante que os terroristas não se apropriam de tecnologias sofisticadas e começam a usar armas químicas e biológicas? Sabemos que estão se habilitando para montar ataques cibernéticos e telemáticos que podem afetar todo o serviço de energia de uma grande cidade. A opção pela guerra pode levar a esses extremos.

Devemos tomar a sério o que sábios nos alertaram, como Eric Hobsbawm, em “A Era dos Extremos: O Breve Século XX”: “O mundo corre o risco de explosão e implosão”. Ou, então, o eminente historiador Arnold Toynbee, depois de escrever dez tomos sobre as grandes civilizações históricas: “Vivi para ver o fim da história humana tornar-se uma possibilidade intra-histórica, capaz de ser traduzida em fato por um ato não de Deus, mas do próprio homem”.

GUERRA SEM TRÉGUA

O Ocidente optou pela guerra sem trégua, mas nunca mais terá paz e viverá cheio de medo e refém de possíveis atentados, que são a vingança dos islâmicos. Oxalá não se realize o cenário descrito por Jacques Attali em seu “Uma Breve História do Futuro”: guerras regionais cada vez mais destrutivas a ponto de ameaçarem a espécie humana. O que se impõe, assim nos parece, é reconhecer a existência, de fato, de um Estado Islâmico e, em seguida, formular uma coligação pluralista de nações e de meios diplomáticos e de paz para criar as condições de um diálogo para pensar o destino comum da Terra e da humanidade.

Receio que a arrogância típica do Ocidente, com sua visão imperial, ao se julgar em tudo melhor, não acolha esse percurso pacificador, mas prefira a guerra. Não devemos ingenuamente esperar a intervenção divina, pois o nosso destino está entregue a nossa responsabilidade. Seremos o que decidirmos: uma espécie que preferiu se autoexterminar a renunciar a sua vontade absurda de poder sobre todos e tudo ou poderemos forjar as bases para uma paz perpétua que nos conceda viver diferentes e unidos.

Só a ecologia integral resolverá os graves problemas do mundo

Leonardo Boff
O Tempo

Uma das afirmações básicas do novo paradigma científico e civilizatório é o reconhecimento da relação de todos com todos, constituindo a grande rede terrena e cósmica da realidade. Coerentemente, a Carta da Terra, um dos documentos fundamentais dessa visão das coisas, afirma: “Nossos desafios ambientais, econômicos, políticos, sociais e espirituais estão interligados, e, juntos, podemos forjar soluções includentes”. O papa Francisco, em sua encíclica sobre o cuidado da Casa Comum, se associa a essa leitura e sustenta que se imponha uma reflexão sobre a ecologia integral, pois só ela dá conta dos problemas da atual situação do mundo.

O tempo urge e corre contra nós. Por isso, todos os saberes devem ser ecologizados, postos em relação entre si e orientados para o bem da comunidade de vida. Igualmente, todas as tradições espirituais e religiosas são convocadas a despertar a consciência da humanidade para a sua missão de ser a cuidadora dessa herança sagrada recebida do universo e do Criador que é a Terra viva, a única Casa que temos para morar.

O papa cita o comovente final da Carta da Terra, que resume bem a esperança que deposita em Deus e no empenho dos seres humanos: “Que nosso tempo seja lembrado pelo despertar de um nova reverência face à vida, pelo compromisso firme de alcançar a sustentabilidade, pela intensificação da luta pela justiça e pela paz e pela alegre celebração da vida”.

DIZIA JUNG…

Outra notável contribuição nos vem do conhecido psicanalista Carl Gustav Jung (1875-1961), que, em sua psicologia analítica, deu grande importância à sensibilidade e submeteu a duras críticas o cientificismo moderno. Para ele, a psicologia não possuía fronteiras entre cosmos e vida, entre corpo e mente etc. A psicologia tinha a ver com a vida em sua totalidade, em suas dimensões racional e irracional.

Sabia articular todos saberes disponíveis, descobrindo conexões ocultas que revelavam dimensões surpreendentes da realidade. Conhecido foi o diálogo que Jung manteve com um indígena da tribo Pueblo, nos Estados Unidos. Esse indígena achava que os brancos eram loucos. Jung lhe perguntou por que, ao que o indígena respondeu: “Eles dizem que pensam com a cabeça, nós pensamos aqui”, e apontou para o coração. Esse fato transformou o pensamento de Jung, que entendeu que o homem moderno havia conquistado o mundo com a cabeça, mas havia perdido a capacidade de pensar e sentir com o coração e de viver por meio da alma.

Logicamente, não se trata de abdicar da razão – o que seria uma perda para todos –, mas de recusar o estreitamento da capacidade de compreender. É preciso considerar o sensível e o cordial elementos centrais no ato de conhecimento. Eles permitem captar valores e sentidos presentes na profundidade do senso comum.

EM MEIO AO TODO

Em suas memórias, Jung diz: “Há tantas coisas que me preenchem: as plantas, os animais, as nuvens, o dia, a noite e o eterno presente nos homens. Quanto mais me sinto incerto sobre mim mesmo, mais cresce em mim o sentimento de meu parentesco com o todo”.

O drama do homem atual é ter perdido a capacidade de viver um sentimento de pertença, coisa que as religiões sempre garantiam. O que se opõe à religião não é o ateísmo ou a negação da divindade, mas a incapacidade de ligar-se e religar-se com todas as coisas. Se não resgatarmos a razão sensível, uma dimensão essencial da alma, dificilmente nos moveremos para respeitar o valor intrínseco de cada ser, amar a Mãe Terra com todos os seus ecossistemas e viver a compaixão com os sofredores da natureza e da humanidade

As religiões podem fazer o bem melhor e o mal pior

Leonardo Boff
O Tempo

Tudo o que é sadio pode ficar doente, também as religiões e as igrejas. Hoje, particularmente, assistimos à doença do fundamentalismo contaminando setores importantes de quase todas as religiões e igrejas, inclusive da Igreja Católica. Há, às vezes, verdadeira guerra religiosa, cuja maior expressão é representada pelo Estado Islâmico, que faz da violência e do assassinato dos diferentes a expressão de sua identidade.

Mas há outro vício religioso, muito presente nos meios de comunicação de massa, especialmente na televisão e no rádio: o uso da religião para arrebanhar gente, pregar o evangelho da prosperidade material, arrancar dinheiro dos fregueses e enriquecer seus pastores e autoproclamados bispos. Têm a ver com religiões de mercado, que obedecem à lógica da concorrência e do arrebanhamento do maior número possível de pessoas com a mais eficaz acumulação de dinheiro líquido possível.

Se bem repararmos, para a maioria dessas igrejas midiáticas, o Novo Testamento raramente é referido. O que vigora mesmo é o Antigo Testamento. Entende-se o porquê. O Antigo Testamento, exceto os profetas e outros textos, enfatiza especialmente o bem-estar material como expressão do agrado divino. A riqueza ganha centralidade. O Novo Testamento exalta os pobres, prega a misericórdia, o perdão, o amor ao inimigo e a irrestrita solidariedade para com os pobres e os caídos na estrada.

REVERÊNCIA E DEVOÇÃO

Fala-se demais de Jesus e de Deus, como se fossem realidades disponíveis no mercado. Tais realidades sagradas, por sua natureza, exigem reverência e devoção. O pecado que mais ocorre é contra o segundo mandamento: “Não usar o santo nome de Deus em vão”. Esse nome está colado nos vidros dos carros e na própria carteira de dinheiro, como se Deus não estivesse em todos os lugares.

O que mais dói e verdadeiramente escandaliza é usar os nomes de Deus e de Jesus para fins estritamente comerciais. Pior, para encobrir falcatruas, roubo de dinheiro público e lavagem de dinheiro. Há quem possua uma empresa cujo título é “Jesus”. Em nome de “Jesus” se amealharam milhões em propinas, escondidas em bancos estrangeiros e outras corrupções envolvendo bens públicos. E isso é feito no maior descaramento.

Por esses desvios de uma realidade sagrada, perdemos a herança humanizadora das escrituras judaico-cristãs, especialmente o caráter libertador e humano da mensagem e da prática de Jesus. A religião pode fazer o bem melhor, mas também pode fazer o mal pior.

A INTENÇÃO DE JESUS

Sabemos que a intenção originária de Jesus não era criar uma nova religião. Havia muitas no tempo. E ele nem pensava em reformar o judaísmo vigente. Ele quis nos ensinar a viver, orientado pelos valores presentes em seu sonho maior, o Reino de Deus, feito de amor incondicional, misericórdia, perdão e entrega confiante a um Deus com características de mãe de infinita bondade.

Como o livro dos Atos dos Apóstolos mostra, o cristianismo inicialmente era mais movimento que instituição. Chamava-se o “caminho de Jesus”, realidade aberta aos valores fundamentais que ele pregou e viveu. Mas, à medida que o movimento foi crescendo, fatalmente se transformou numa instituição, com regras, ritos e doutrinas. E aí o poder sagrado se constitui em eixo organizador de toda a instituição, agora chamada “Igreja”.

Da história aprendemos que, onde prevalece o poder, desaparece o amor e se esvai a misericórdia. Foi o que infelizmente aconteceu.

Albert Schweitzer e o respeito ao valor intrínseco de cada ser

Leonardo Boff
O Tempo

Albert Schweitzer e o respeito ao valor intrínseco de cada ser

A esplêndida encíclica do papa Francisco “sobre o cuidado da Casa Comum” insiste continuamente que cada ser, por menor que seja, possui valor intrínseco e tem algo a nos dizer, ademais de estar sempre interconectado com todos os demais seres.

Essas reflexões nos remetem ao pensador que melhor analisou o ilimitado respeito a tudo o que existe e vive no Ocidente: o médico suíço Albert Schweitzer (1875-1965). Ele se tornou famoso exegeta bíblico, com vasta obra especialmente sobre questões ligadas à possibilidade ou não de se fazer uma biografia científica de Jesus.

Em consequência de seus estudos sobre a mensagem de Cristo, especialmente do “Sermão da Montanha”, com sua centralidade no pobre e no oprimido, Schweitzer resolveu abandonar tudo e estudar medicina. Em 1913, foi para a África como médico em Lambarene, no atual Gabão, estabelecendo-se exatamente naquelas regiões que foram dominadas e exploradas furiosamente pelos colonizadores europeus. Disse explicitamente, numa carta, que “o que precisamos não é enviar para lá missionários que queiram converter os africanos, mas pessoas que se disponham a fazer para os pobres o que deve ser feito. Se o cristianismo não realizar isso, perdeu seu sentido”. E continua: “Minha vida não é nem a ciência, nem a arte, mas tornar-me um simples ser humano que, no espírito de Jesus, faz alguma coisa, por pequena que seja”.

REFLEXÕES

Em seu hospital no interior da floresta tropical, entre um atendimento e outro de doentes, tinha tempo para refletir sobre os destinos da cultura e da humanidade. Considerava a falta de uma ética humanitária a crise maior da cultura moderna. Tudo em sua ética gira ao redor do respeito, da veneração, da compaixão, da responsabilidade e do cuidado para com todos os seres, especialmente aqueles que mais sofrem.

À vontade de poder de Nietzsche, Schweitzer contrapõe a vontade de viver. “A ideia-chave do bem consiste em conservar a vida, desenvolvê-la e elevá-la ao seu máximo valor; o mal consiste em destruir a vida, prejudicá-la e impedi-la de se desenvolver. Esse é o princípio necessário, universal e absoluto da ética”.

Para Schweitzer, as éticas vigentes são incompletas porque tratam apenas dos comportamentos dos seres humanos face a outros seres humanos e se esquecem de incluir todas as formas de vida que se nos apresentam. O papa, em sua encíclica, faz uma rigorosa crítica a esse antropocentrismo. O respeito que devemos à vida “engloba tudo o que significa amor, doação, compaixão, solidariedade e partilha”.

OUTRAS VIDAS

Como a nossa vida é vida com outras vidas, a ética do respeito à vida deverá ser sempre um conviver e um “consofrer” com os outros. Numa formulação sucinta, afirma: “Tu deves viver convivendo e conservando a vida, esse é o maior dos mandamentos na sua forma mais elementar”. Daí derivam comportamentos de grande compaixão e cuidado.

A ética do respeito e do cuidado de Albert Schweitzer une inteligências emocional, cordial e racional, num esforço de tornar a ética um caminho de salvaguarda de todas as coisas e de resgate do valor que elas possuem em si mesmas. O maior inimigo dessa ética é o embotamento da sensibilidade, a inconsciência e a ignorância, que fazem perder de vista o dom da existência e a excelência da vida em todas as suas formas.

O ser humano é chamado a ser o guardião de cada ser vivo. Ao realizar essa missão, ele alcançará o grau maior de sua humanidade e se sentirá pertencendo a um todo maior, superando a falta de enraizamento e a solidão dos filhos da modernidade.

A hospitalidade, direito de todos e dever para todos

Leonardo Boff
O Tempo

A questão mundial dos refugiados nos recoloca sempre o imperativo ético da hospitalidade. São milhões que buscam novas pátrias para sobreviver ou simplesmente para fugir das guerras e encontrar um mínimo de paz.

A hospitalidade é um direito de todos e um dever para todos. Immanuel Kant (1724-1804) viu claramente a imbricação entre direitos e deveres humanos e a hospitalidade para a construção daquilo que ele chama de “paz perpétua”.

Antecipando-se ao seu tempo, Kant propõe a República mundial, ou o Estado dos povos, fundada no direito da cidadania mundial, que tem como primeira característica a “hospitalidade geral”. Por que exatamente a hospitalidade? O próprio filósofo responde:

“Porque todos os seres humanos estão sobre o planeta Terra e todos, sem exceção, têm o direito de estar nele e visitar seus lugares e os povos que o habitam”.

FIM DOS EXÉRCITOS

Essa cidadania materializada pela hospitalidade geral se rege pelo direito, e jamais pela violência. Kant postula a desmontagem de todos os aparatos bélicos e a supressão de todos os exércitos, assim como o faz modernamente a Carta da Terra, pois, enquanto existirem tais meios de violência, continuam as ameaças dos fortes sobre os fracos e as tensões entre os Estados.

O império do direito e a difusão da hospitalidade generalizada devem criar uma cultura dos direitos que penetre as mentes e os corações de todos os cidadãos, gerando de fato a “comunidade dos povos”, que pode crescer tanto em sua consciência que a violação de um direito num lugar é sentida em todos os lugares.

Se queremos uma paz perene, e não apenas uma trégua ou uma pacificação momentânea, devemos viver a hospitalidade universal e respeitar os direitos universais. A paz, segundo Kant, resulta da vigência do direito, da cooperação juridicamente ordenada e institucionalizada entre todos os Estados e povos.

BOA VONTADE

Nos tempos atuais, foi Jacques Derrida que retomou a questão da hospitalidade, conferindo-lhe o caráter incondicional para todos. Mas foi ainda Kant que lhe deu a melhor fundamentação. Sua base é a boa vontade, que, para ele, é a única virtude que não tem defeito nenhum. Na sua fundamentação para uma metafísica dos costumes (1785), faz uma afirmação de grandes consequências: a boa vontade é o único bem que é somente bom e ao qual não cabe nenhuma restrição. Ela supõe total abertura do outro ao outro e a confiança incondicional. Isso é factível para os seres humanos.

A boa vontade é a última tábua de salvação que nos resta. A situação mundial é uma calamidade. Vivemos em permanente estado de sítio ou de guerra civil mundial. Não há ninguém (nem as duas santidades, o papa Francisco e o dalai-lama, nem as elites intelectuais e morais, nem a tecnociência) que forneça uma chave de encaminhamento global. Na verdade, dependemos unicamente da nossa boa vontade.

EM MINIATURA

O Brasil reproduz em miniatura a dramaticidade mundial. A chaga social produzida em 500 anos de descaso com a coisa do povo significa uma sangria desatada. Grande parte de nossas elites nunca pensou uma solução para o Brasil como um todo, mas somente para si. Estão mais empenhadas em defender seus privilégios que garantir direitos para todos. Por mil manobras políticas, até com ameaças de impeachment, conseguem manipular os governos democraticamente eleitos para que assumam a agenda que lhes interessa e para impossibilitar ou protelar as transformações sociais necessárias.

Se a boa vontade é assim tão decisiva, então urge suscitá-la em todos. Todos têm o dever de hospedar e o direito de ser hospedado porque vivemos na mesma casa comum.

O mito da hospitalidade e os refugiados de hoje

Leonardo Boff
O Tempo

Os milhares de refugiados que estão fugindo da guerra na Síria e do Norte da África e buscam simplesmente a paz nos países europeus nos fazem lembrar um dos mais belos mitos da cultura grega: o de Báucis e Filêmon, transmitido por Ovídio em suas “Metamorfoses”.

Certa vez, Júpiter, criador do céu e da terra, e seu filho Hermes, princípio de toda comunicação, resolveram disfarçar-se de pobres e vir ao reino dos mortais para ver como ia a criação que haviam posto em marcha. Ambos se desfizeram de sua glória. Pareciam realmente pobres e andarilhos. Pediam ajuda a uns e a outros, e ninguém lhes estendia a mão. Depois de tanto peregrinar e de se sentirem alijados por todos, o que mais queriam era encontrar alguém que lhes desse uma mínima hospitalidade.

Até que um dia chegaram à Frígia, província das mais longínquas e inóspitas do Império Romano. Ali vivia um casal muito pobre, Filêmon (em grego, “aquele capaz de amar”) e Báucis (“delicada e terna”). Sobre uma pequena elevação construíram sua choupana, rústica, porém muito limpa. Foi lá que, ainda jovens, uniram seus corações. Viviam em grande paz e harmonia.

POBRES MORTAIS

Eis que chegaram Júpiter e Hermes, disfarçados de pobres mortais. Qual não foi a sua surpresa quando o bom velhinho Filêmon, sorridente, apareceu à porta e, sem muito reparar, foi logo dizendo: “Forasteiros, vocês devem estar muito cansados e com fome. Venham, entrem na casa. É pobre, mas está aberta a hospedá-los”. Báucis logo se apressou em lhes oferecer dois tamboretes de madeira para se sentarem. Antes que os deuses manifestassem qualquer desejo, o casal começou a reanimar o fogo para aquecer a água e aliviar os pés dos dois hóspedes. Filêmon foi à horta atrás da choupana e colheu algumas folhas e legumes, enquanto Báucis tirava da vara o último pedaço de toucinho. De repente, tudo estava sobre a mesa em pratos quentes.

“Queridos hóspedes, vamos comer, pois vocês merecem se alimentar depois de tantas canseiras. Perdoem a simplicidade e a pobreza da cozinha”.

A PRÓPRIA CAMA…

Os imortais comeram à saciedade. Muito comovidos ficaram quando os dois velhinhos ofereceram a própria cama para que eles dormissem.

Quando Júpiter e Hermes estavam se preparando para dormir, eis que sobreveio grande e inesperada tempestade. Raios e trovões ribombavam pelo vale afora. Ocorreu uma inundação, vitimando pessoas e animais. Báucis e Filêmon se desculparam aos imortais e, apressados, preparavam-se para ajudar os flagelados, mas Júpiter freou a devastadora tempestade. Foi então que aconteceu a grande revelação. Júpiter e Hermes mostraram toda a sua glória.

DE JOELHOS

O casal caiu em si. Os dois puseram-se de joelhos, inclinando a cabeça até o chão, para venerar os deuses presentes. Júpiter, depois, bondosamente, disse: “Façam um pedido, que eu, em agradecimento, vou atender”. Como se tivessem previamente combinado, disseram unissonamente: “O nosso desejo é servir a Deus nesse templo por todo o tempo que nos resta de vida”.

Hermes acrescentou: “Eu também quero que façam um pedido para eu o realizar”. E eles, novamente, como se tivessem combinado, sussurraram conjuntamente: “Depois de tão longo amor e de tanta concórdia, gostaríamos de morrer juntos”.

UNIDOS PARA SEMPRE

Seus votos foram ouvidos e cumpridos. Filêmon foi transformado num enorme carvalho, e Báucis, numa frondosa tília. Em cima, as copas e os galhos se entrelaçaram. E assim, abraçados, ficaram unidos para sempre.

Quem passar por aquela região da Frígia, atualmente a Turquia, ainda hoje ouvirá essa fantástica história. Os mais velhos repetem sempre a lição: quem acolhe um pobre faminto hospeda anonimamente Deus.

Qual a proposta para o Brasil: recolonização ou projeto próprio?

10Leonardo Boff
O Tempo

Há uma indagação que se realiza no Brasil, mas também no exterior, expressa por esta pergunta: qual o destino da sétima economia mundial e qual o futuro de sua incomensurável riqueza de bens naturais? Analistas dos cenários mundiais do talante de Noam Chomsky ou de Jacques Attali nos advertem: a potência imperial norte-americana segue este lema, elaborado nos salões dos estrategistas do Pentágono: “Um só mundo e um só império”. Não se toleram países, em qualquer parte do planeta, que possam pôr em xeque seus interesses globais e sua hegemonia universal. Curiosamente, o papa Francisco propõe: “Um só mundo e um só projeto coletivo”.

No Brasil, esse debate se dá principalmente no campo da macroeconomia: o país se alinhará às estratégias político-social-econômico-ideológicas impostas pelos EUA e, com isso, terá vantagens significativas em todos os campos, mas aceitando ser sócio menor e agregado; ou o Brasil procurará um caminho próprio, consciente de suas vantagens ecológicas, do peso de seu mercado interno com uma população de mais de 200 milhões de pessoas e da criatividade de seu povo.

RECOLONIZAR

Há um propósito dos países centrais, que dispõem de várias formas de poder, especialmente o militar, de recolonizar toda a América Latina para ser uma reserva de bens e serviços naturais. Ela deve servir principalmente aos países ricos, já que em seus territórios quase se esgotaram tais bondades da natureza.

Estimamos que, em um futuro não muito distante, a economia mundial será de base ecológica. Não nos alimentamos de computadores e máquinas, mas de água, grãos e tudo o que a vida humana e a comunidade de vida demandam. Daí a importância de manter a América Latina, especialmente o Brasil, no estágio mais natural possível.

Seu lugar deve ser aquele que foi pensado desde o início da colonização: uma grande empresa colonial que sustenta o projeto dos povos opulentos do Norte para continuarem sua dominação, que vem desde o século XVI.

VALOR ECONÔMICO

Em razão dessa estratégia global, as políticas ambientais dominantes reduzem o sentido da biodiversidade e da natureza a um valor econômico. A tão propalada “economia verde” serve a esse propósito econômico e menos à preservação e ao resgate de áreas devastadas. Mesmo quando isso ocorre, se destina à macroeconomia de acumulação, e não à busca de outro tipo de relação para com a natureza.

O que cabe constatar é o fato de que o Brasil não está só. As experiências recentes dos movimentos populares socioambientais se recusam a assumir simplesmente a dominação da razão econômica, instrumental e utilitarista, que tudo uniformiza. Por todas as partes estão irrompendo outras modalidades de habitar a Terra com base em identidades culturais diferentes.

NOVA CONSCIÊNCIA

Os conhecimentos tradicionais, oprimidos e marginalizados pelo pensamento único técnico-científico, estão ganhando força na medida em que mostram que podemos nos relacionar com a natureza e cuidar do planeta de uma forma mais benevolente e atenciosa.

Exemplo disso é o “bien vivier y convivir” dos andinos, paradigma de um modo de produção de vida em harmonia com o todo, em que funciona a racionalidade cordial e sensível, que enriquece e, ao mesmo tempo, impõe limites à voracidade da fria razão instrumental-analítica.

Trata-se de uma nova compreensão do mundo e da missão do ser humano nele, como seu guardador e cuidador. Oxalá esse seja o caminho a ser trilhado pela humanidade e pelo Brasil.

Outra forma de resolver os conflitos sem ser pela violência

Leonardo Boff
O Tempo

Sempre houve na humanidade, especialmente sob o patriarcado, conflitos de toda ordem. A forma predominante de resolvê-los sempre foi, e é, a utilização da violência. Esse é o pior dos caminhos, pois deixa-nos vencidos um rastro de amargura, humilhação e vontade de vingança. Será essa a única forma de os seres humanos resolverem suas contendas?

Tomemos exemplos da prática de Francisco de Assis. Sua saudação usual era desejar a todos “paz e bem”. Consideremos a sua estratégia face à violência.

OS LADRÕES E O LOBO

Tomemos duas legendas que guardam o espírito melhor que a letra dos fatos: os ladrões do Borgo Sansepolcro e o lobo de Gubbio.

Um bando de ladrões se escondia nos bosques e saqueava a redondeza e os transeuntes. Movidos pela fome, foram ao eremitério dos frades para pedir comida. Foram atendidos, mas não sem remorsos: “Não é justo que demos esmola a essa casta de ladrões, que tanto mal faz neste mundo”. Apresentaram a questão a Francisco. Esse sugeriu a seguinte estratégia:

“Levem ao bosque pão e vinho e gritem-lhes: ‘Irmãos ladrões, vinde cá! Somos irmãos e lhes trouxemos pão e vinho’. Felizes, comerão e beberão. Em seguida, falem-lhes de Deus, mas não lhes peçam que abandonem a vida que levam, porque seria pedir demais; apenas peçam que, ao assaltar, não façam mal às pessoas. Numa outra vez, levem coisa melhor: queijo e ovos. Mais felizes ainda, os ladrões se refestelarão e ouvirão a exortação dos frades: ‘Larguem essa vida de fome e sofrimento; deixem de roubar; convertam-se ao trabalho, que o bom Deus vai providenciar o necessário para o corpo e para a alma’. Os ladrões, comovidos por tanta bondade, deixarão aquela vida, e alguns até se farão frades”.

O LADRÃO E O FRADE

Na verdade, em cada um se escondem um possível ladrão e um possível frade. Com terno afeto se pode resgatar o frade escondido dentro do ladrão.

Claramente, aparece essa estratégia da renúncia da violência na legenda do lobo de Gubbio, que atacava a população da pequena cidade. Supera-se de novo a esquematização: de um lado, o “lobo grandíssimo, terrível e feroz”; do outro, o povo bom, cheio de medo e armado. A estratégia de Francisco não é buscar uma trégua ou um equilíbrio de forças sob a égide do medo nem tomar partido de um lado ou de outro. Ninguém se pergunta se dentro de cada um não pode se esconder um lobo mau e, ao mesmo tempo, um bom cidadão?

IDEIA DE FRANCISCO

O caminho de Francisco é desocultar essa união dos opostos e aproximar ambos, para que possam fazer um pacto de paz. Vai ao lobo e lhe diz: “Irmão lobo, és homicida péssimo e mereces a forca; mas também reconheço que é pela fome que fazes tanto mal. Vamos fazer um pacto: a população vai te alimentar, e tu deixarás de ameaçá-la”. Em seguida, se dirige à população e lhes prega: “Voltem-se para Deus, deixem de pecar. Garantam alimento suficiente ao lobo, e, assim, Deus os livrará dos castigos eternos e do lobo mau”. Diz a legenda que a cidadezinha mudou de hábitos, decidiu alimentar o lobo, e este passeava entre todos, como se fosse um manso cidadão.

Houve intérpretes que leram essa legenda como uma metáfora da luta de classes. Pode ser. O fato é que a paz conseguida não foi a vitória de um dos lados, mas a superação dos lados e dos partidos. Cada um cedeu, verificou-se o ganha-ganha, e irrompeu a paz que não existe em si, mas que é fruto de uma construção coletiva entre os cidadãos e o lobo.

HUMANIZAÇÃO

Francisco não acirrou as contradições nem remexeu a dimensão sombria em que se acoitam os ódios. Confiou na capacidade humanizadora da bondade, do diálogo e da mútua confiança. Não foi um ingênuo, mas não se resignou a essa situação decadente. Intuía que, para além da amargura, vigora no fundo de cada criatura uma bondade ignorada a ser resgatada. E o foi.