Em busca de um conceito de povo: de ator secundário a protagonista

Povo brasileiro

O povo brasileiro, na visão de Tarsila do Amaral

Leonardo Boff

Há poucas palavras mais usadas por distintas retóricas do que “povo”. Seu sentido é tão flutuante que as ciências sociais dão-lhe pouco apreço, preferindo falar em “sociedade” ou “classes sociais”. Mas, como nos ensinava L. Wittgenstein, “o significado de uma palavra depende de seu uso”.
Entre nós, quem mais usa positivamente a palavra “povo” são aqueles que se interessam pela sorte das classes subalternas, ou povo. Vamos tentar fazer um esforço teórico para conferir um conteúdo analítico para que o uso do termo sirva àqueles se sentem excluídos.

O primeiro sentido filosófico-social deita suas raízes no pensamento clássico da Antiguidade. Cícero, santo Agostinho e Tomás de Aquino afirmavam que “povo não é qualquer reunião de homens de qualquer modo, mas é a reunião de uma multidão ao redor do consenso do direito e dos interesses comuns”. Cabe ao Estado harmonizar os vários interesses.

OUTROS SENTIDOS

Um segundo sentido de “povo” nos vem da antropologia cultural: é a população que pertence à mesma cultura, habitando determinado território. Esse sentido é legítimo porque distingue um povo do outro. Mas esse conceito oculta as diferenças e até contradições internas: tanto pertencem ao povo um fazendeiro do agronegócio como o peão pobre que vive em sua fazenda. Mas no Estado moderno o poder só se legitima se estiver enraizado no povo. Por isso, a Constituição reza que “todo poder emana do povo e em seu nome deve ser exercido”.

Um terceiro sentido é chave para a política, que é a busca comum do bem comum ou a atividade que busca o poder de Estado para, a partir dele, administrar a sociedade. Na boca dos políticos profissionais, “povo” apresenta grande ambiguidade. Por um lado, expressa o conjunto indiferenciado dos membros de uma sociedade determinada, por outro, significa a gente pobre e com parca instrução, marginalizada. Quando os políticos dizem que “vão ao povo, falam ao povo e agem em benefício do povo”, pensam nas maiorias pobres. Aqui emerge uma dicotomia: entre as maiorias e seus dirigentes ou entre a massa e as elites.

Há um quarto sentido de “povo” que deriva-se da sociologia. Aqui, se impõe certo rigor do conceito para não cairmos no populismo. Inicialmente, possui um sentido político-ideológico na medida em que oculta os conflitos internos do conjunto de pessoas com suas culturas diferentes, status social e projetos distintos. Esse sentido possui parco valor analítico, pois é globalizador demais.

Sociologicamente, “povo” aparece também como uma categoria histórica que se situa entre massa e elites. Numa sociedade que foi colonizada e constituída em classes, aponta clara a figura da elite: os que detêm o ter, o poder e o saber. O “povo” é cooptado como ator secundário de um projeto formulado pelas elites e para as elites.

POVO-MASSA

Mas sempre há rachaduras no processo de hegemonia ou dominação de classe: lentamente, da massa, surgem lideranças carismáticas que organizam movimentos sociais com visão própria. Deixam de ser “povo-massa” e começam a ser cidadãos ativos e relativamente autônomos. Já não dependem das elites. “Povo”, portanto, nasce e é resultado da articulação dos movimentos e das comunidades ativas. Esse é o fato novo no Brasil e na América Latina dos últimos decênios que culminou hoje com as novas democracias de cunho popular e republicano.

Agora podemos falar com certo rigor conceitual: aqui há um “povo” emergente enquanto tem consciência e projeto próprio para o país. Possui também uma dimensão axiológica: todos são chamados a ser povo, deixar de haver dominados e dominadores, mas cidadãos-atores de uma sociedade na qual todos podem participar.

A intolerância que se manifesta no Brasil e no mundo moderno

Leonardo Boff

O assassinato dos chargistas do “Charlie Hebdo” e a última eleição presidencial no Brasil trouxeram à luz um dado latente no mundo e na cultura brasileira: a intolerância. A intolerância no Brasil é parte daquilo que Sérgio Buarque de Holanda chama de “cordial”, no sentido de ódio e preconceito que vêm do coração, como a hospitalidade e a simpatia. Em vez de cordial, eu preferiria dizer que o brasileiro é passional. O que se mostrou na última campanha eleitoral foi o “cordial passional”, tanto como ódio de classe (desprezo do pobre) quanto como discriminação racial (nordestino e negro). Ser pobre, negro e nordestino implicava uma pecha negativa, e aí o desejo absurdo de alguns de dividir o Brasil entre o Sul “rico” e o Nordeste “pobre”.

Esse ódio de classe deriva do arquétipo “casa grande e senzala” introjetado em certos setores sociais e bem expresso por uma madame rica de Salvador: “Os pobres, não contentes com receber a Bolsa Família, querem ainda ter direitos”. Isso supõe a ideia de que, se um dia foram escravos, deveriam continuar a fazer tudo de graça, como se não tivesse havido a Abolição da Escravatura e não valessem os direitos. Os homoafetivos e outros da LGBT foram hostilizados até nos debates oficiais entre os candidatos, revelando uma intolerância “intolerável”.

Para entender um pouco mais profundamente a intolerância, importa ir um pouco mais a fundo na questão. A realidade, assim como se apresenta, é contraditória; complexa, pois é convergência dos mais variados fatores; nela, há caos originário e cosmos (ordem), há luzes e sombras, há o sim-bólico e o dia-bólico. Em si, não são defeitos de construção, mas a condição real de “implenitude” de tudo que existe no universo. Isso obriga todos a conviverem com as diferenças e as imperfeições. E nos obriga a ser tolerantes com os que não pensam e agem como nós.

VERDADES ABSOLUTAS

O risco permanente é a intolerância. Ela reduz a realidade, pois assume apenas um polo e nega o outro. Coage todos a assumirem o seu polo e anula o outro, como o fazem de forma criminosa o Estado Islâmico e a Al Qaeda. O fundamentalismo e o dogmatismo tornam absoluta a sua verdade. Assim, eles se condenam à intolerância e passam a não reconhecer e respeitar a verdade do outro. O primeiro que fazem é suprimir a liberdade de opinião, o pluralismo, e impor o pensamento único. Os atentados como o de Paris têm por base essa intolerância.

É imperioso evitar a tolerância passiva, aquela atitude de quem aceita a existência com o outro não porque o deseje e veja algum valor nisso, mas porque não o consegue evitar.

Essa é a grande dificuldade das sociedades europeias: a não aceitação do outro, seja árabe, muçulmano ou turco; e, na sociedade brasileira, do afrodescendente, do nordestino e do indígena. Há que se incentivar a tolerância ativa, que consiste na coexistência, na atitude de quem positivamente convive com o outro porque tem respeito por ele e consegue ver os valores da diferença e, assim, pode se enriquecer.

EXIGÊNCIA ÉTICA

A tolerância é, antes de mais nada, uma exigência ética. Ela representa o direito que cada pessoa possui de ser aquilo que é e de continuar a sê-lo. Esse direito foi expresso universalmente na regra de ouro “Não faças ao outro o que não queres que te façam a ti”. Ou, formulado positivamente: “Faça ao outro o que queres que te façam a ti”.

Cada pessoa tem direito de viver e de conviver no planeta Terra. A natureza nos oferece a melhor lição: por mais diversos que sejam os seres, todos convivem, se interconectam e formam a complexidade do real e a esplêndida diversidade da vida.

Para entender o terrorismo contra o jornal “Charlie Hebdo” em Paris

Leonardo Boff

Uma coisa é se indignar contra o ato terrorista que dizimou os melhores chargistas franceses. Trata-se de ato abominável e criminoso, impossível de ser apoiado por quem quer que seja. Outra coisa é procurar analiticamente entender por que tais eventos acontecem. Eles não caem do céu azul. Atrás deles há um céu escuro, feito de matanças, humilhações e discriminações, quando não de guerras, como as do Iraque e Afeganistão.Os Estados Unidos e os países europeus estavam nessas guerras. Na França, vivem milhões de muçulmanos, a maioria em condições precárias nas periferias. Mesmo os nascidos na França são discriminados, a ponto de haver uma verdadeira islamofobia.

Paradigmático foi o atentado terrorista de 11 de setembro de 2001 contra os EUA. A reação do presidente Bush foi declarar uma “guerra infinita” contra o terror e instituir o Ato Patriótico, que viola direitos fundamentais dos cidadãos.

O que os EUA e seus aliados ocidentais fizeram no Iraque e no Afeganistão foi uma guerra moderna, com mortandade de civis. Se nesses países houvesse somente a plantação de tâmaras e figos, nada disso ocorreria. Mas lá há petróleo. Tal violência deixou um rastro de ódio e vingança em muitos muçulmanos vivendo em seus países ou pelo mundo afora.

RESULTADO DA VIOLÊNCIA

A partir desse transfundo, pode-se entender que o atentado em Paris é resultado dessa violência primeira, e não a causa originária. Nem por isso se justifica.

O efeito desse atentado é instalar um medo generalizado. Esse efeito é buscado pelo terrorismo: ocupar as mentes das pessoas e mantê-las reféns do medo. O significado principal do terrorismo não é ocupar territórios, mas ocupar as mentes.

A profecia do autor intelectual dos atentados de 11 de Setembro, Osama bin Laden, feita no dia 8 de outubro de 2001, infelizmente, se realizou: “Os EUA nunca mais terão segurança, nunca mais terão paz”. Ocupar as mentes das pessoas, mantê-las desestabilizadas emocionalmente, obrigá-las a desconfiar de qualquer gesto ou pessoas estranhas, eis o objetivo essencial do terrorismo.

DOMINAÇÃO DAS MENTES

Para alcançar seu objetivo de dominação das mentes, o terrorismo persegue a seguinte estratégia: (1) os atos de terror têm de ser espetaculares, caso contrário, não causam comoção generalizada; (2) apesar de odiados, devem provocar admiração pela sagacidade empregada; (3) devem sugerir que foram minuciosamente preparados; (4) devem ser imprevistos para dar a impressão de serem incontroláveis; (5) devem ficar no anonimato dos autores, que usam máscaras, porque, quanto mais suspeitos, maior é o medo; (6) devem provocar medo permanente; e (7) devem distorcer a percepção da realidade (qualquer coisa diferente pode configurar o terror; basta ver alguns rolezinhos entrando nos shoppings e já se projeta a imagem de um assaltante potencial).

Formalizemos um conceito do terrorismo: é toda violência espetacular, praticada com o propósito de ocupar as mentes das pessoas com o medo e o pavor. O importante não é a violência em si, mas seu caráter de espetáculo, capaz de dominar as mentes de todos.

Um dos efeitos mais lamentáveis do terrorismo foi ter suscitado o Estado terrorista, como são hoje os EUA. Noam Chomsky cita um funcionário dos órgãos de segurança norte-americano que confessou: “Os EUA são um Estado terrorista, e nos orgulhamos disso”.

oxalá não predomine no mundo, especialmente no Ocidente, esse espírito. Aí, sim, iremos ao encontro do pior. Somente meios pacíficos têm a força secreta de vencer a violência e as guerras. Essa é a lição da história e o conselho de sábios como Gandhi, Martin Luther King Jr., Francisco de Assis e Francisco de Roma.

A busca de um novo começo para a sobrevivência da Terra

Leonardo Boff

No artigo anterior, abordamos o lado objetivo da questão ecológica, tentando superar o mero ambientalismo a partir de uma nova visão do planeta, da natureza e do ser humano como a porção pensante da Terra. Mas essa consideração é insuficiente se não for completada por uma visão subjetiva. Não basta ver e pensar diferente. Temos também que agir diferente.

Inspira-nos a Carta da Terra, de cuja redação tive a honra de participar. Insatisfeito com os resultados finais da Rio+20, um grupo decidiu fazer uma consulta nas bases da humanidade para levantar princípios e valores em vista de uma nova relação para com a Terra e a nossa convivência sobre ela: “Como nunca antes da história, o destino comum nos conclama a buscar um novo começo… Isso requer uma mudança na mente e no coração. Requer um novo sentido de interdependência global e de responsabilidade universal”. E conclui a Carta: “Devemos desenvolver e aplicar com imaginação a perspectiva de um modo de vida sustentável”.

Note-se que se fala de um novo começo, e não apenas de alguma reforma. Duas dimensões são imprescindíveis: uma mudança na mente e no coração. A mudança na mente já foi abordada no artigo anterior: a nova visão sistêmica, envolvendo Terra e humanidade como uma única entidade.

DIREITOS DO CORAÇÃO

Agora, cabe aprofundar a mudança do coração. Para mim, aqui está um dos nós essenciais do problema ecológico, que deve ser desatado se quisermos mesmo fazer a grande travessia para o novo paradigma.

Trata-se do resgate dos direitos do coração. Toda a nossa cultura moderna exacerbou a inteligência racional até o ponto de torná-la irracional com a criação dos instrumentos de nossa autodestruição e da devastação do sistema Terra. Essa exacerbação difamou e recalcou a inteligência sensível, a pretexto de que atrapalhava o olhar objetivista da razão. Hoje sabemos que todo saber, por mais objetivo que seja, vem impregnado de emoção e de interesses.

Temos que enriquecer a inteligência intelectual e instrumental, da qual não podemos prescindir se quisermos dar conta dos problemas humanos. Mas sozinha ela se transforma em fundamentalismo da razão, que é sua loucura. Diz o filósofo Patrick Viveret: “Só podemos utilizar a face positiva da racionalidade moderna se a utilizarmos amalgamada com a sensibilidade do coração” (“Por uma Sobriedade Feliz”, 2012, p. 41).

Sem o casamento da razão com o coração, nunca nos moveremos para amar de verdade a Mãe Terra, reconhecer o valor intrínseco de cada ser e respeitá-lo, e nos empenhar em salvar nossa civilização. Bem dizia o papa Francisco: nossa civilização é cínica, pois perdeu a capacidade de sentir a dor do outro.

ÉTICA E CULTURA

A categoria central dessa visão é o cuidado como ética e cultura humanística. Se não cuidarmos da vida, da Terra e de nós mesmos, tudo adoece, e acabamos por não garantir a sustentabilidade nem resgatar o que E. Wilson chama de “biofilia” – o amor à vida. Tudo o que cuidamos, também amamos. Tudo o que amamos, também cuidamos.

Para mim, o núcleo da razão instrumental analítica que nos deu a tecnociência, com seus benefícios e também com suas ameaças, deve ser impregnado pelo núcleo da razão cordial e sensível.

Então, seremos plenamente humanos. Sentir-nos-emos parte da natureza e verdadeiramente a própria Terra, que pensa, ama e cuida. Então poderemos crer e esperar que ainda podemos nos salvar sem precisar pensar como Martin Heidegger: “Somente um Deus nos poderá salvar”. Yes, we can.

Como compreender o perverso processo criminoso da corrupção

Leonardo Boff
 Pelas mídias sociais, fui atacado ferozmente por ter apoiado o projeto político do PT e da presidente Dilma Rousseff, sempre com o mesmo argumento: “Por que não reconhece e escreve contra a corrupção?”

Segundo a Transparência Internacional, o Brasil é um dos países mais corruptos do mundo. Em 91 analisados, ocupa o 69º lugar. Só esse dado denuncia a gravidade do crime contra a sociedade que a corrupção representa. Todos os dias, mais e mais fatos são denunciados, como agora com a corrupção na Petrobras. Como compreender esse perverso processo criminoso?

Comecemos com a palavra “corrupção”. Ela tem origem na teologia. Antes de se falar em pecado original, a tradição cristã dizia que o ser humano vive numa situação de corrupção. Santo Agostinho explica a etimologia: corrupção é ter um coração (cor) rompido (ruptus). Em outras palavras: há uma força em nós que nos incita aos desvios, e a corrupção é um deles.

Como se explica a corrupção no Brasil? Identifico três razões básicas entre outras: a histórica, a política e a cultural.

HERANÇA COLONIAL

A histórica: somos herdeiros de uma perversa herança colonial e escravocrata que marcou nossos hábitos. A colonização e a escravatura são instituições objetivamente violentas e injustas. Então, as pessoas, para sobreviver e resguardar um mínimo de liberdade, eram levadas a corromper. Essa prática deu origem ao jeitinho brasileiro.

A política: a base da corrupção política reside no patrimonialismo e no capitalismo sem regras. No patrimonialismo, não se distingue a esfera pública da privada. Os que estão no poder tratam a coisa pública como se fosse sua.

Devemos dizer que o capitalismo aqui e no mundo é, em sua lógica, corrupto, embora aceito socialmente. Ele simplesmente impõe a dominação do capital sobre o trabalho, criando riqueza com a exploração do trabalhador e com a devastação da natureza. Gera desigualdades sociais que, eticamente, são injustiças, o que origina permanentes conflitos de classes.

Cultural: a cultura dita regras socialmente reconhecidas. Os corruptos são vistos como espertos, e não como os criminosos que de fato são. Via de regra, podemos dizer: quanto mais desigual e injusta é uma sociedade, mais se cria um caldo cultural que permite e tolera a corrupção.

O PODER CORROMPE

Especialmente nos portadores de poder se manifesta a tendência à corrupção. Bem dizia o católico lorde Acton (1843-1902): “O poder tem a tendência a se corromper, e o absoluto poder corrompe absolutamente”. E acrescentava: “Meu dogma é a maldade dos homens portadores de autoridade; são os que mais se corrompem”. Por que isso? Hobbes, no seu “Leviatã” (1651), nos acena uma resposta plausível: “A razão disso reside no fato de que não se pode garantir o poder senão buscando ainda mais poder”.

Lamentavelmente, foi o que ocorreu com setores do PT e seus aliados. Levantaram a bandeira da ética e das transformações sociais, mas preferiram o caminho curto das alianças e dos acordos com o corrupto poder dominante. Garantiram a governabilidade ao preço de mercantilizar as relações políticas e abandonar a bandeira da ética.

Como combater a corrupção? Pela transparência total, pelo aumento de auditores confiáveis que atacam antecipadamente a corrupção. Como nos informa o World Economic Forum, a Dinamarca e a Holanda possuem cem auditores por 100 mil habitantes; o Brasil tem apenas 12,8 mil, quando precisaríamos pelo menos de 160 mil. Precisamos lutar por uma democracia mais participativa, que se faça vigilante e cobre inteireza ética de seus representantes.

Os sentimentos de amor e ódio na campanha eleitoral

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Leonardo Boff

Dizer que o brasileiro é um “homem cordial” vem do escritor Ribeiro Couto, expressão generalizada por Sérgio Buarque de Holanda em seu conhecido livro “Raízes do Brasil”. Ele entendia a cordialidade no sentido estritamente etimológico: vem de “coração”. O brasileiro se orienta muito mais pelo coração do que pela razão. Do coração podem provir o amor e o ódio.

Escrevo isso para entender os sentimentos cordiais que irromperam na campanha presidencial de 2014. Houve declarações de entusiasmo e de amor para os dois candidatos do segundo turno e de ódio profundo de ambas as partes do eleitorado.

Talvez em nenhuma campanha anterior tenham-se expressado os gestos cordiais dos brasileiros no sentido de amor e ódio contidos nessa palavra. Quem seguiu as redes sociais se deu conta dos níveis baixíssimos de polidez, de desrespeito mútuo e até falta de sentido democrático como convivência com as diferenças. Essa falta de respeito repercutiu também nos debates entre os candidatos, transmitidos pela TV.

Para entender melhor essa nossa cordialidade, cabe referir duas heranças que oneram nossa cidadania: a colonização e a escravidão. A colonização produziu em nós o sentimento de submissão. Em consequência, criaram-se a casa-grande e a senzala. Elas foram internalizadas na forma de um dualismo perverso: de um lado, os senhores que tudo possuem, e, do outro, o servo que pouco tem. Essa estrutura subsiste na cabeça das pessoas e se tornou um código de interpretação da realidade.

ESCRAVIDÃO

Outra tradição muito perversa foi a escravidão. Houve uma época em que mais da metade do Brasil era composta de escravos. Hoje, cerca de 60% da população possui algo em seu sangue de escravos afrodescendentes. A escravidão foi internalizada na forma de discriminação e preconceito contra o negro.

As consequências dessas duas tradições estão no inconsciente coletivo brasileiro em termos de status social. Diz-se que o negro é preguiçoso, quando sabemos que foi ele quem construiu quase tudo que temos em nossas cidades. O nordestino é ignorante porque vive no semiárido sob pesados constrangimentos ambientais, quando é um povo altamente criativo, desperto e trabalhador. Do Nordeste nos vêm grandes escritores, poetas e atores. No Brasil de hoje, é a região que mais cresce economicamente, acima da média nacional. Mas os preconceitos os castigam à inferioridade.

Todas essas contradições de nossa cordialidade apareceram nas redes sociais. Somos seres contraditórios em demasia.

AMBIGUIDADE

Acrescento ainda um argumento de ordem antropológica para compreender a irrupção dos amores e ódios nessa campanha eleitoral. Trata-se da ambiguidade frontal da condição humana. Cada um possui a sua dimensão de luz e de sombra, de simbólica (que une) e de diabólica (que divide). Cada um deve saber equilibrar essas duas forças.

Esses meses de campanha eleitoral mostraram quem somos por dentro, cordiais no duplo sentido: cheios de raiva e de indignação e, ao mesmo tempo, de exaltação positiva e de militância séria.

Devemos procurar entender e buscar formas civilizadas de cordialidade nas quais predomine a vontade de cooperação em vista do bem comum, se respeite o legítimo espaço de uma oposição inteligente e se acolham as diferentes opções políticas. O Brasil precisa se unir para que todos juntos enfrentemos os graves problemas internos e externos, num projeto por todos assumido, para que se transforme o país na “terra da boa esperança” (Ignacy Sachs).

A vitória de Dilma e o que ela representa para os pobres

Leonardo Boff

Nessas eleições presidenciais, os brasileiros se confrontaram com uma cena bíblica: tinham que escolher entre dois caminhos.

Criaram-se todas as condições para uma tempestade perfeita, com distorções e difamações, difundidas na grande imprensa e nas redes sociais. Face a essas adversidades, a presidente Dilma Rousseff, por ter passado pelas torturas nos porões dos órgãos de repressão da ditadura militar, fortaleceu sua identidade, cresceu em determinação e acumulou energias para enfrentar qualquer embate. Mostrou-se como é: uma mulher corajosa e valente. Ela transmite confiança, virtude fundamental para um político. Isso gera no eleitor ou eleitora a sensação de “sentir firmeza”.

Sua vitória se deve em grande parte à militância que saiu às ruas e organizou manifestações. O povo mostrou que amadureceu na sua consciência política e soube escolher o caminho que lhe parecia mais acertado, votando em Dilma.

O eleitor já conhecia os dois caminhos. Um, ensaiado por oito anos, fez crescer economicamente o Brasil, mas transferiu a maior parte dos benefícios aos já contemplados, à custa do arrocho salarial, do desemprego e da pobreza das grandes maiorias. Fazia políticas ricas para os ricos e pobres para os pobres. O Brasil fez-se um sócio menor e subalterno ao grande projeto global. Esse não era o projeto de um país soberano.

O povo percorreu também o outro caminho, o do acerto e da felicidade possível. Nesse, ele teve centralidade. Um de seus filhos, Lula, conseguiu, com políticas públicas voltadas aos humilhados e ofendidos, que uma Argentina inteira fosse incluída na sociedade moderna. Dilma Rousseff levou avante, aprofundou e expandiu essas políticas.

ACESSO AOS BENS DA VIDA

A questão de fundo de nosso país está sendo equacionada: garantir a todos, mas principalmente aos pobres, o acesso aos bens da vida, superar a espantosa desigualdade e criar, mediante a educação, oportunidades aos pequenos para que possam crescer, se desenvolver e se humanizar como cidadãos ativos.

Esse projeto despertou o senso de soberania do Brasil, projetou-o no cenário mundial com uma posição independente, cobrando uma nova ordem mundial, na qual a humanidade se descobrisse como humanidade.

O desafio para a presidente Dilma não é só consolidar o que já deu certo e corrigir defeitos, mas inaugurar um novo ciclo de exercício do poder que signifique um salto de qualidade em todas as esferas da vida social.

Pouco se conseguirá se não houver uma reforma política que elimine de vez as bases da corrupção e que permita um avanço da democracia representativa, com a incorporação da democracia participativa. É urgente uma reforma tributária para que haja mais equidade e ajude a suplantar a abissal desigualdade social. Dilma, nos debates, apresentou um leque significativo de transformações a que se propôs. Pela seriedade e sentido de eficácia que sempre mostrou, podemos confiar que acontecerão.

REFORMA AGRÁRIA MODERNA

Há questões que mal foram acenadas nos debates: a importância da reforma agrária moderna que fixa o camponês no campo com todas as vantagens que a ciência propicia. Importa ainda demarcar e homologar as terras indígenas, muitas ameaçadas pelo avanço do agronegócio.

Por último, e talvez o maior dos desafios, vem o campo da ecologia. Severas ameaças pairam sobre o futuro da vida e de nossa civilização. O Brasil, por sua riqueza ecológica, é fundamental para o equilíbrio do planeta crucificado. Um novo governo Dilma não poderá obviar a essa questão que é de vida ou morte para a nossa espécie humana.

Que o espírito de sabedoria e de cuidado oriente as decisões difíceis que a presidente Dilma Rousseff deverá tomar.

A atual eleição presidencial à luz da história antipovo do país

Leonardo Boff

Nada melhor do que ler as atuais eleições à luz da história brasileira – na tensão entre as elites e o povo.

Como nos ensina Caio Prado Júnior, nossa formação social desigual repousa sobre quatro pilares difíceis de ser movidos: a grande propriedade da terra concentrada nas mãos de poucos; o predomínio da monocultura; a produção voltada para o mercado externo; e o regime de trabalho escravo.

A independência de Portugal não alterou nenhum desses pilares. Os que naquela época sonharam com um Brasil diferente propunham a troca da grande pela pequena propriedade nas mãos de quem trabalhava; da monocultura para a policultura; da produção para o mercado internacional por outra voltada para o autoconsumo e para o abastecimento do mercado interno; do trabalho escravo pelo trabalho familiar livre.

Houve geral oposição dos grandes proprietários escravistas a qualquer dessas medidas, e foram combatidos a ferro e fogo levantes populares que apontavam para qualquer medida democratizante na economia, na política e, sobretudo, nas relações de trabalho. Basta rememorar algumas dessas revoltas: a Balaiada, no Maranhão; a Cabanagem, na Amazônia; a Praieira, em Pernambuco; e a Farroupilha, no Sul.

A ERA VARGAS 

A Revolução de 1930, com seu viés nacionalista, mesmo que parcialmente, deslocou o eixo do país do mercado externo para o interno; do modelo agrário exportador para o de substituição de importações; do domínio das elites exportadoras do café do pacto Minas-São Paulo para novas lideranças das zonas de produção para o mercado interno; do voto censitário para o voto universal (menos para os analfabetos); das relações de trabalho ditadas apenas pelo poder dos patrões para a sua regulação, pelo menos na esfera industrial, com a criação do Ministério do Trabalho e das leis trabalhistas voltadas para a classe operária.

Getúlio Vargas implantou uma política corporativista de apaziguamento entre as classes e de cooperação entre capital e trabalho, entre operários e capitães da indústria em torno de um projeto de industrialização e defesa dos interesses nacionais.

Nesta campanha eleitoral, certos meios criaram o lema “Fora PT”. Busca-se acabar com a “ditadura” do PT para instaurar a “ditadura” do mercado financeiro. O que realmente incomoda? A corrupção e o mensalão?

MEDIDAS DEMOCRATIZANTES

A meu ver, o que incomoda, em que pesem todos seus limites, são as medidas democratizantes, como o Prouni e as cotas nas universidades para os estudantes vindos da escola pública e para aqueles cujos avós vieram dos porões da escravidão; a reforma agrária; a demarcação e homologação em área contínua da terra ianomâmi contra meia dúzia de arrozeiros, assim como todos os programas sociais.

Os que sobem o tom, dizendo que tudo no país está errado, em que pesem a melhoria do salário mínimo, a criação de milhões de empregos, a ampliação das políticas sociais em direção aos mais pobres, a criação do Mais Médicos etc., posicionam-se contra as políticas que visam assegurar direitos cidadãos, ampliar a democratização da sociedade, combater privilégios e, sobretudo, colocar um pouco de freio (insuficiente, a meu ver) à ganância e à ditadura do capital financeiro e do mercado.

São essas as razões do meu voto para outro projeto de país que atende as demandas sempre negadas às grandes maiorias. É por isso que votei em Dilma Rousseff no primeiro turno e o farei no segundo, respeitando outras escolhas.

O sentido de uma bioeconomia ou de um ecodesenvolvimento

Leonardo Boff

As eleições presidenciais trouxeram à tona novamente a questão do desenvolvimento, tema clássico da macroeconomia mundializada. Temas de absoluta gravidade, como as ameaças que pesam sobre a vida e a nossa civilização, nem sequer foram aventados, seja por ignorância, seja porque os candidatos se dariam conta de que teriam que mudar tudo. Ninguém tem esse tipo de ousadia, nem mesmo Marina Silva, que suscitou o paradigma da sustentabilidade. O que podemos dizer com certeza: assim como está, não podemos continuar. O preço de nossa sobrevivência é a mudança radical na forma de habitar a Terra. A proposta de um ecodesenvolvimento ou de uma bioeconomia nos anima a caminhar nessa direção.
Um dos primeiros a verem a relação intrínseca entre economia e biologia foi o matemático e economista romeno Nicholas Georgescu Roegen (1906-1994). Contra o pensamento dominante, ele chamava a atenção para a insustentabilidade do crescimento devido aos limites dos bens e serviços da Terra. Começou-se a falar de “decrescimento econômico para a sustentabilidade ambiental e a equidade social”. Esse decrescimento significa reduzir o crescimento quantitativo para dar mais importância ao qualitativo, no sentido de preservar os bens e serviços que serão necessários às futuras gerações.

A bioeconomia é, na verdade, um subsistema do sistema da natureza, sempre limitada, e, por isso, objeto de permanente cuidado por parte do ser humano. A economia deve acompanhar e obedecer aos níveis de preservação e regeneração da natureza.

ECODESENVOLVIMENTO

Modelo semelhante, chamado de “ecodesenvolvimento e bioeconomia”, vem sendo proposto, entre outros, pelo professor de economia da PUC-SP Ladislau Dowbor, que pensa na linha de outro economista, Ignacy Sachs. Este é um polonês naturalizado francês e brasileiro por amor. A partir de 1980, despertou para a questão ecológica e, possivelmente, foi o primeiro a fazer suas reflexões no contexto do antropoceno, que inauguraria uma nova era geológica que teria o ser humano como fator de risco global.

As análises de Dowbor e de Sachs combinam economia, ecologia, justiça e inclusão social. Daí nasce um conceito de sustentabilidade possível, ainda dentro dos constrangimentos impostos pela predominância do modo de produção industrialista, consumista, individualista, predador e poluidor.

Ambos estão convencidos de que não se alcançará uma sustentabilidade aceitável se não houver uma sensível diminuição das desigualdades sociais, a incorporação da cidadania como participação popular no jogo democrático, respeito às diferenças culturais e a introdução de valores éticos de respeito a toda vida e um cuidado permanente com o meio ambiente.

A sustentabilidade exige certa equidade social. Assim, por exemplo, os países mais pobres têm direito de expandir mais sua pegada ecológica para atender suas demandas, enquanto os mais ricos devem reduzi-la ou controlá-la. Enfaticamente, repetem Dowbor e Sachs que a solidariedade é um dado essencial ao fenômeno humano, e o individualismo cruel a que estamos assistindo nos dias de hoje significa uma excrescência que destrói os laços da convivência e, assim, torna a sociedade fatalmente insustentável.

É deles a bela expressão “biocivilização”, uma civilização que dá centralidade à vida, à Terra, aos ecossistemas e a cada pessoa.

BIOCIVILIZAÇÃO

Essa proposta nos parece uma das mais sensatas e responsáveis face aos riscos que correm o planeta e o futuro da espécie humana. A proposta de Dowbor e de Sachs merece ser considerada, pois mostra grande funcionalidade e viabilidade.

A política entre a utopia e a realidade do seu exercício

Leonardo Boff

Antes de abordarmos, sucintamente, a questão complexa da política, faz-se mister distinguir, como já fizemos em artigo anterior, a Política com P maiúsculo, que é a busca comum do bem comum, da política com p minúsculo, que consiste na política partidária, que, como a palavra sugere, é parte, e não o todo.

Importa ainda conscientizar o fato de que a política, mais que qualquer outra realidade, participa da ambiguidade inerente à condição humana que nos faz simultaneamente dementes e sapientes. Por isso, por um lado, dizem os papas, a política é a mais alta forma do amor e, por outro, contém deformações lamentáveis, como o patrimonialismo e a corrupção. Daí viver a política em permanente crise. A nossa é de baixa intensidade, pois o povo não se sente representado pelos parlamentares. Mas ela pode sempre melhorar e transformar-se. O ideal é que cheguemos a uma democracia sem fim, um projeto sempre inacabado porque sempre perfectível.

Não secundamos um pragmatismo preguiçoso, sem sonhos e destituído de vontade de aperfeiçoamento. Infelizmente, essa é a tendência dominante, particularmente no quadro da pós-modernidade. E está contaminando os jovens.

É PRECISO SONHAR

Entretanto, uma pessoa ou uma sociedade que já não sonham e que não se orientam por utopias escolheram o caminho de sua decadência e de seu desaparecimento. Sem utopia não se alimenta a esperança, e o desfecho fatal é a autodestruição. A utopia nos faz andar. Jamais alcançaremos as estrelas. Mas que seriam nossas noites sem elas? Porque temos estrelas, não tememos a escuridão.

Precisamos, portanto, de uma utopia para a política, para que desempenhe as funções pelas quais existe: organizar a sociedade, montar um Estado, distribuir os poderes e realizar a busca comum do bem comum para todos, sem privilégios e discriminações. Isso vale tanto para a Política com P maiúsculo quanto para a política com p minúsculo. Ambas precisam incorporar a ética do bem comum, da responsabilidade coletiva, da transparência e da retidão em todos os negócios em que estão envolvidos os poderes públicos.

Quando confrontamos a política realmente existente com a utopia da política, notamos imensas contradições. Há um constrangimento poderoso que pesa sobre a política: o fato de a política hoje estar submetida à economia e ao mercado, que se regem por uma feroz competição, deixando totalmente à margem a cooperação e os valores da solidariedade. Isso faz com que os valores não materiais ocupem um lugar irrelevante quando não são feitos também mercadorias.

Ora, desses valores altamente positivos vive fundamentalmente a política que se entende como prática da ética social.

REFORMA POLÍTICA

A Igreja Católica ajuda a criar uma ética pessoal, de retidão e integridade. Há políticos que incorporam essa ética (ética na política), mas ela não elaborou suficientemente uma ética social e política que trabalhe as instituições, os braços longos do poder (que devem ser transparentes) e um serviço público. É nesse campo que ocorrem as perversões da política. Especialmente grave é o financiamento privado das eleições, que se traduz por troca de favores e implica alta corrupção.

No Brasil, com tradição patrimonialista, o político facilmente considera seu o bem público e se apropria dele sem maiores escrúpulos. É roubo do pão que falta na mesa do pobre, é livro que o estudante não tem, é remédio inacessível ao enfermo necessitado.

A desejada reforma política reintroduziria a ética na política. Para Aristóteles, política e ética eram sinônimos.

Dilma dá continuidade à invenção do novo Brasil

Leonardo Boff

É notório que a direita brasileira, especialmente aquela de forças elitistas que sempre ocuparam o poder de Estado e o trataram como propriedade privada, apoiadas pela mídia privada e familiar, está se aproveitando da crise – que é mundial, e não, apenas, nacional (e temos a vantagem de manter um mínimo de crescimento e o emprego dos trabalhadores, coisa que não acontece na Europa nem nos Estados Unidos) – para fazer sangrar a presidente Dilma Rousseff e desmoralizar o Partido dos Trabalhadores, e assim criar uma atmosfera que lhe permita voltar ao lugar que por via democrática perdeu.

Celso Furtado, em “A Construção Interrompida” (1993), escreveu com acerto: “O tempo histórico se acelera, e a contagem desse tempo se faz contra nós. Trata-se de saber se temos um futuro como nação que conta na construção do devenir humano. Ou se prevalecerão as forças que se empenham em interromper o nosso processo histórico de formação de um Estado-nação” (Paz e Terra, Rio da Janeiro, 1993, pág. 35).

Aqui reside a verdadeira questão: queremos prolongar a dependência àquelas forças nacionais e mundiais que sempre nos mantiverem alinhados e sócios menores de seu projeto, ou queremos completar a invenção do Brasil como nação soberana que tem muito que contribuir para a solução da atual crise ecológico-social do mundo?

Se, por um lado, não podemos nos privar de algumas críticas ao governo do PT, por outro, seria faltar à verdade se não reconhecêssemos os avanços significativos sob os governos desse partido. A inclusão social realizada e as políticas sociais benéficas para aqueles milhões que sempre estiveram à margem possuem uma magnitude histórica cujo significado ainda não acabamos de avaliar.

ÓDIO CONTRA O PT

Surgiu um estranho ódio contra o PT em muitos âmbitos da sociedade. Suspeito que esse ódio seja porque as políticas públicas permitiram aos pobres usar o avião e visitar seus parentes no Nordeste; também conseguiram adquirir seu carro e comprar em shopping centers. O lugar deles não seria no avião, mas na periferia, pois esse é seu lugar. Mas eles foram integrados à sociedade e a seus benefícios.

Devemos aproveitar as oportunidades que os países centrais, em profunda crise, nos propiciam: reafirmar nossa independência, garantindo nosso futuro autônomo, mas relacionado com a totalidade do mundo, ou desperdiçá-la, vivendo atrelados ao destino que é sempre decidido por eles, que nos querem condenar a ser apenas os fornecedores dos produtos “in natura” que lhes faltam, voltando assim a nos colonizar.

Não podemos aceitar essa estranha divisão internacional do trabalho. Temos que retomar o sonho de alguns de nossos melhores analistas, do quilate de Darcy Ribeiro e Celso Furtado, entre outros, que propuseram uma reinvenção ou refundação do Brasil sobre bases nossas, gestadas pelo nosso ensaio civilizatório tão enaltecido mundialmente.

Esse é o desafio lançado aos candidatos à mais alta instância de poder no país. Não vejo figura melhor para seguir nessa reconstrução, a partir de baixo, com uma democracia participativa, com seus conselhos e movimentos populares opinando e ajudando a formular caminhos que nos levem para a frente e para o alto, do que a atual presidente, Dilma Rousseff.

A situação é urgente, pois, como advertia pesaroso Celso Furtado: “Tudo aponta para a inviabilização do país como projeto nacional” (op. cit. 35). Nós não queremos aceitar como fatal essa severa advertência. Não devemos reconhecer as derrotas sem antes participar das batalhas, como nos ensinava dom Quixote, em sua gaia sabedoria.

Que os bons espíritos guiem os rumos de nosso país.

A propósito das eleições, a relação entre fé e política

Antes de mais nada, há que se distinguir uma política escrita com P maiúsculo e outra com p minúsculo. Ou então a política social e a política partidária. A política social diz respeito ao bem comum da sociedade. Por exemplo, a organização da saúde, a rede escolar, os transportes, os salários têm a ver com a política social. Lutar para conseguir um posto de saúde no bairro e se unir para trazer a linha de ônibus até o alto do morro é fazer política social.

Essa política significa a busca do bem comum. Nesse nível, todos os cidadãos e todos os cristãos católicos ou evangélicos podem e devem participar.

A política partidária representa a luta pelo poder de Estado, para conquistar o governo municipal, estadual e federal. Os partidos políticos existem em função do objetivo de se chegar ao poder, seja para mudá-lo (processo libertador), seja para exercê-lo assim como se encontra constituído (governar o Estado que existe). O partido, como a palavra já o diz, é parte e parcela da sociedade. Cada partido tem por trás interesses de grupos ou de classes sociais que elaboram um projeto. Se chegarem ao poder, vão comandar as políticas públicas conforme seu programa e sua visão partidária.

QUAL É O PROGRAMA?

Com referência à política partidária, é importante considerar os seguintes pontos: ver qual é o programa do partido; como o povo entra nesse programa: se foi discutido nas bases; se atende aos reclamos históricos do povo; se prevê a participação do povo, mediante seus movimentos e organismos, na sua concepção, implementação e controle; quem são os candidatos que representam o programa: que biografia têm, se estão na lista da ficha suja, se sempre mantiveram uma ligação orgânica com as bases, se são verdadeiramente aliados e representantes das causas da justiça e da mudança social ou se querem manter as relações sociais assim como são, com as contradições e até injustiças que encerram.

Esse último modo de poder político foi exercido historicamente por nossas elites a fim de se beneficiar dele, esquecendo o sujeito de todo o poder, que é o povo.

Como entra a fé nisso tudo? A fé diretamente tem a ver com Deus e seu desígnio sobre a humanidade. Mas ela está dentro da sociedade e é uma das criadoras de opinião e de decisão. Ela funciona como uma bicicleta.

Possui duas rodas, mediante as quais se torna efetiva na sociedade: a roda da religião e a roda da política. A roda da religião se concretiza pela oração, pelas celebrações, pelas pregações e pela leitura das Escrituras. Pela roda da política, a fé se expressa pela prática da justiça e da solidariedade. Como se vê, política é sinônimo de ética. Temos que aprender a nos equilibrar em duas rodas para andar corretamente.

FÉ E POLÍTICA

A Bíblia considera a roda da política como ética mais importante que a roda da religião como culto. Sem a ética, a fé fica inoperante. São as práticas que contam para Deus. Melhor que proclamar “Senhor, Senhor” é fazer a vontade do Pai.

Concretamente, fé e política se encontram juntas na vida das pessoas. A fé inclui a política, quer dizer, um cristão deve se empenhar pela justiça e pelo bem-estar social; deve optar por programas que se aproximem daquilo que entendeu ser o projeto de Jesus e de Deus.

A Carta da Terra e as promessas de transformação da sociedade

Leonardo Boff

Para pormos em curso um tipo de grande transformação que nos devolva a sociedade com mercado e elimine a deletéria sociedade unicamente de mercado, precisamos fazer algumas travessias impostergáveis.

Importa passar do paradigma “império”, vigente há séculos, para o paradigma “comunidade da Terra”; de uma sociedade industrialista, que depreda os bens naturais e tensiona as relações sociais, para uma sociedade de sustentação de toda a vida; da Terra tida como meio de produção e balcão de recursos sujeitos à venda e à exploração para a Terra como um ente vivo, chamado “Gaia”, “Pacha Mama” ou “Mãe Terra”; da era tecnozoica, que devastou grande parte da biosfera, para a era ecozoica, pela qual todos os saberes e atividades se ecologizam e juntos cooperam na salvaguarda da vida; da lógica da competição, que se rege pelo ganha-perde e que opõe as pessoas, para a lógica da cooperação e do ganha-ganha, que congrega e fortalece a solidariedade entre todos; do capital material, sempre limitado e exaurível, para os capitais espiritual e humano ilimitados, feitos de amor, solidariedade, respeito, compaixão e da confraternização com todos os seres da comunidade de vida; e de uma sociedade antropocêntrica, separada da natureza, para uma sociedade biocentrada, que se sente parte da natureza e busca ajustar seu comportamento à lógica do processo cosmogênico, que se caracteriza pela sinergia, pela interdependência de todos com todos e pela cooperação.

CONSCIÊNCIA

Se é perigosa a grande transformação da sociedade de mercado, mais promissora ainda é a grande transformação da consciência. Triunfa aquele conjunto de visões, valores e princípios que mais congregam pessoas e melhor projetam um horizonte de esperança para todos. Essa, seguramente, é a grande transformação das mentes e dos corações a que se refere a Carta da Terra. Esperamos que se consolide, ganhe mais e mais espaços de consciência com práticas alternativas até assumir a hegemonia da nossa história.

A Carta da Terra é fruto de uma vasta consulta aos mais distintos setores da sociedade mundial, desde os povos originários das tradições religiosas e espirituais até notáveis centros de pesquisa. Foi animada especialmente por Mikhail Gorbachev. Depois de oito anos de intensos trabalhos e de encontros frequentes nos vários continentes, surgiu um documento pequeno, mas denso, que incorpora o melhor da nova visão nascida das ciências da Terra e da vida, especialmente da cosmologia contemporânea. Aí se traçam princípios e se elaboram valores no arco de uma visão holística da ecologia que podem efetivamente apontar um caminho promissor para a humanidade presente e futura. Aprovado em 2001, foi assumido oficialmente em 2003 pela Unesco como um dos materiais educativos mais inspiradores do novo milênio.

NO LAGO DE ITAIPU

A hidrelétrica Itaipu Binacional, a segunda maior do mundo, tomou a sério as propostas da Carta da Terra, e dois diretores seus, Jorge Samek e Nelton Friedrich, conseguiram envolver 29 municípios que bordejam o grande lago, onde vivem cerca de 1 milhão de pessoas. Deram início de fato a uma grande transformação. Lá se realiza efetivamente a sustentabilidade e se aplicam o cuidado e a responsabilidade coletiva, mostrando que, mesmo dentro da velha ordem, se pode gestar o novo, porque as pessoas vivem já agora o que querem para os outros.

Se concretizarmos o sonho da Terra, essa não será mais condenada a ser, para a maioria da humanidade, um vale de lágrimas e uma via-sacra de padecimentos. Ela pode ser transformada numa montanha de bem-aventuranças possíveis à nossa sofrida existência e uma pequena antecipação da transfiguração do Tabor.

Para que isso ocorra, não basta sonhar, mas importa praticar.

 

Elogio do pé, que sustenta a paixão pela Copa do Mundo

Leonardo Boff

Em tempos de Copa do Mundo, o pé é o que conta de verdade, pois é com o pé que se ganham ou se perdem partidas de futebol e, eventualmente, a Copa.

Entretanto, se algum extraterrestre viesse à Terra e reparasse como os humanos tratam os pés, suspeito que ficariam escandalizados. Parece que os consideram a parte menos nobre do corpo, pois os escondem. Pior, tentam sufocá-los com um pedaço de pano, chamado de meia. Depois, estrangulam-nos com algo mais duro, de couro, os sapatos. E, não contentes, amarram-nos com finas cordas, os cadarços, para se assegurar de que não vão se libertar. Por fim, colocam todo o peso do corpo em cima dos pés, obrigando-os a cheirar o pó dos caminhos, a sofrer a dureza das pedras, a sentir o mau cheiro de tanto lixo jogado no chão.

Mas essa interpretação dos alienígenas é exterior e equivocada. O que fazemos aos pés é cuidar deles, pois constituem nosso meio natural de transporte. Mais ainda, os pés são o sinal mais convincente de nossa hominização. Deixamos para trás o reino animal quando nossos ancestrais antropoides se ergueram sobre os pés e começaram a andar eretos, a ver longe, permitindo o desenvolvimento do cérebro.

MILAGRE ANATÔMICO

Anatomicamente, são um milagre, com dorso adaptado para aparar os atritos e planta consistente para defender-se das asperezas do solo. Uma rede de pequenos tendões garante as articulações, que conferem equilíbrio aos movimentos. O que não fazem os dançarinos com os pés!?

O pé é tão importante que foi escolhido por muitos povos antigos e modernos, como os anglo-saxões, como unidade de medida. Um pé equivale a 12 polegadas, o que corresponde a 30,48 cm. A poesia, a forma mais nobre da literatura, tem que ter pés certos para ser harmoniosa.

Sem os pés, não teríamos o futebol, para o qual os pés são tudo. É o esporte mais criativo, diverso e mobilizador que existe. É uma metáfora do que melhor podemos apresentar: a combinação feliz do desempenho do indivíduo com a cooperação do grupo. Pode ser uma verdadeira escola de virtudes: autodomínio, tranquilidade, gentileza e capacidade de perdão ao não retrucar pontapé com pontapé. Porque somos humanos, às vezes tal coisa pode acontecer. Mas não é permitida. O jogador é advertido, punido com cartão amarelo ou vermelho e pode até ser expulso.

COM UM PÉ ATRÁS

Se consultarmos o dicionário Aurélio, encontramos ali mais de uma dezena de significações ligadas ao pé, em sua grande maioria positivas. Com o pé em algumas dessas significações, vamos fazer o elogio do pé, pé que sustenta a paixão pela Copa do Mundo. Num mundo politicamente sem pé nem cabeça, com chefes de Estado metendo os pés pelas mãos em conflitos na Síria, no Afeganistão e na Palestina, e sempre em pé de guerra contra o terrorismo, encontramos no futebol um pé para pensarmos uma sociedade mundial que dê pé para formas de convivência amigável e até fraternal que encontram pé de apoio no entusiasmo das torcidas em todos os países.

Por um lado, devemos estar com o pé atrás diante dos utopismos; por outro, não devemos arredar pé na busca de formas civilizadas de convivência global. Logicamente, esse mundo não chega nem aos pés do sonho de Jesus, mas ele tem pé na esperança humana. Podemos começar com o pé direito já agora, ficando ao pé das vítimas, mesmo que tenhamos que fazer pé atrás às pressões dos poderosos. Mas vamos bater pé nessa causa sagrada, sabendo que ela não se alcança com o pé nas costas. Jamais vamos dar no pé.

Oxalá nossos jogadores, alguns pé de ouro, não nos deixem a pé, para não termos que sofrer que nem pé de cego.

 

Cada um tem seu tempo; depois, entra no silêncio do mistério

Leonardo Boff

Há um livro curioso do Primeiro Testamento, o Eclesiastes (em hebraico, Coélet), que não menciona a eleição do povo de Deus, nem a aliança divina, nem sequer a relação pessoal com Deus. Representa a fé judaica inculturada na visão grega da vida. Há uma passagem assaz conhecida que fala do tempo: “Há tempo de nascer e tempo de morrer, tempo de plantar e tempo de colher, tempo de rir e tempo de chorar, tempo de amar e tempo de odiar, tempo de guerra e tempo de paz”; e por aí vai (c. 3,2-8).

Há muitas formas de tempo. Precisamos nos libertar de um tipo de tempo dominante, aquele dos relógios. Hoje ninguém anda sem algum tipo de relógio mecânico, que mede o tempo a partir das rotações da Terra ao redor do Sol. Mas essa visão mecânica do tempo do relógio estreitou nossa percepção dos muitos tempos que existem. Foram os cosmólogos modernos que nos despertaram para os vários tempos. Tudo, no processo da evolução, possui o seu timing.

Assim, por exemplo, imediatamente após a primeira singularidade, o Big Bang, ocorreu a primeira expressão do tempo. Se a força gravitacional, aquela que faz expandir e ao mesmo tempo segurar as energias e as partículas originárias, fosse por milionésimos de segundo mais forte do que se apresentou, retrairia tudo para si e causaria explosões sobre explosões, tornando o universo impossível.

EXPANSÃO E CONTENÇÃO

Mas ocorreu aquele tempo necessário para o equilíbrio entre a expansão e a contenção que acabou abrindo um tempo para surgir tudo o que veio posteriormente. Se esse tempo exato fosse desperdiçado, nada mais teria acontecido.Num exatíssimo momento de alta complexidade da evolução do universo, irrompeu a vida. Tudo apontava para a irrupção da vida lá na frente.

Há, pois, tempos e tempos, e não apenas o tempo escravizante e mecânico do relógio. A Igreja guardou o sentido da diversidade dos tempos. Para cada tempo do ano, seja Natal, Quaresma ou Páscoa, há a sua cor específica.

Geralmente, vivemos os tempos das quatro estações, com as transformações que ocorrem na natureza. Na nossa infância interiorana, os tempos eram bem-definidos: janeiro a abril – tempo das uvas, dos figos, das melancias; maio – o plantio do trigo; e outubro e novembro – tempo de sua colheita.

DOIS TEMPOS…

Nós, crianças, esperávamos com ansiedade dois tempos sociais nos quais a vila toda se reunia para uma grande confraternização: a festa da polenta e a dos passarinhos. Como as matas eram virgens, abundava todo tipo de pássaros, que eram caçados especialmente para a festa. A outra era a buchada, comida com pão e vinho, em longas mesas, seguida de cucas e geleias.

Esses tempos e outros conferiam distintos sentidos para a vida. Havia a espera do tempo, sua vivência e sua recordação.

O universo inteiro tem o seu tempo, que se concretiza em dois movimentos que se dão também em nós: nossos pulmões e nossos corações se expandem e se contraem. O mesmo faz o universo mediante a gravidade: ao mesmo tempo em que se dilata, ele é segurado. Quando perde esse equilíbrio, é sinal de que prepara um salto para a frente e para cima, rumo a uma nova ordem que também se expande e se contrai.

Cada um de nós tem seu tempo biológico, determinado não pelo relógio mecânico, mas pelo equilíbrio de nossas energias. Quando chegamos ao seu clímax, se fecha o nosso ciclo e entramos no silêncio do mistério. Dizem que é aí que habita Deus, nos esperando com os braços abertos, como um pai e uma mãe cheios de saudades.

 

A própria Terra está tomando consciência de sua enfermidade

Leonardo Boff

Inegavelmente, vivemos uma crise dos fundamentos que sustentam nossa forma de habitar e organizar o planeta Terra e de tratar os bens e serviços da natureza. Na perspectiva atual, eles são totalmente equivocados, perigosos e ameaçadores do sistema vida e do sistema Terra. Temos que ir além.

Dois pais fundadores de nosso modo de ver o mundo, René Descartes e Francis Bacon, são seus principais formuladores. Viam a matéria como algo totalmente passivo e inerte. A mente existia exclusivamente nos seres humanos.

Logicamente, essa compreensão criou a ocasião para que se tratasse a Terra, a natureza e os seres vivos como coisas de que podíamos dispor ao bel-prazer. Na base do processo industrialista selvagem está essa compreensão que persiste ainda nos dias de hoje.

As coisas, no entanto, não são bem assim. Tudo mudou quando Einstein mostrou que a matéria é um campo densíssimo de interações; mais ainda, ela, de fato, nem existe no sentido comum da palavra: é energia altamente condensada.

OUTRAS GALÁXIAS

Em 1924, Edwin Hubble, com seu telescópio no monte Wilson, no sul da Califórnia, descobriu que não há apenas a nossa galáxia, a Via Láctea, mas centenas delas. Notou, curiosamente, que elas estão se expandindo e se afastando uma das outras com velocidades inimagináveis. Tal verificação levou os cientistas a imaginarem que o universo observável era muito menor; um eco ínfimo do Big Bang pode ser ainda identificado, permitindo a datação do evento, ocorrido há 13,7 bilhões de anos.

Mas uma das maiores contribuições que vêm desmantelando o velho olhar sobre a Terra e a natureza vem do prêmio Nobel de química Ilya Prigogine. Ele deixou para trás a concepção da matéria como algo inerte e passivo e demonstrou, experimentalmente, que elementos químicos, colocados sob certas condições, podem organizar-se a si próprios sob complexos padrões que requerem a coordenação de trilhões de moléculas. Nem sequer existem códigos genéticos que guiem suas ações. A dinâmica de sua auto-organização é intrínseca, como aquela do universo, e articula todas as interações.

UNIVERSO AUTOCRIATIVO

O universo é penetrado por um dinamismo autocriativo e auto-organizativo que estrutura as galáxias, as estrelas e os planetas. De tempos em tempos, ocorrem emergências de novas complexidades que fazem aparecer, por exemplo, a vida consciente e humana.

Toda essa dinâmica cósmica tem seus tempos próprios. Especialmente os organismos vivos têm seus tempos biológicos próprios, um para os micro-organismos, outro para as florestas, outro para os animais, outro para os oceanos e, por fim, outro para cada ser humano. Completado seu tempo, ele parte.

Que fizemos nós modernamente para gestar a crise atual? Inventamos o tempo mecânico e sempre igual dos relógios. Ele comanda a vida e todo o processo produtivo, não tomando em conta os demais tempos.

Ao não concedermos um sábado, biblicamente falando, para a Terra descansar, nós a extenuamos, a mutilamos e a deixamos adoecer quase mortalmente, destruindo as condições de nossa própria subsistência.

Neste momento, estamos vivendo um tempo em que a própria Terra está tomando consciência de sua enfermidade. O aquecimento global sinaliza que ela vai entrar em outro tempo. Se continuarmos a feri-la e não a ajudarmos a se estabilizar em outro tempo, podemos começar a contar as décadas que inaugurarão a tribulação da desolação.

 

O ser humano é a porção inteligente e consciente da Terra

Leonardo Boff

O ser humano consciente não deve ser considerado à parte do processo da evolução. Ele representa um momento especialíssimo da complexidade das energias, das informações e da matéria da Mãe Terra.

Em outras palavras, nós não estamos fora nem acima da Terra viva. Somos parte dela, junto com os demais seres que ela também gerou. Não podemos viver sem a Terra, embora ela possa continuar sua trajetória sem nós.

Por causa da consciência e da inteligência, somos seres com uma característica especial: a nós foram confiadas a guarda e o cuidado da Casa Comum. Melhor ainda: a nós cabe viver e continuamente refazer o contrato natural entre Terra e humanidade, pois é de sua observância que se garantirá a sustentabilidade do todo.

INTELIGÊNCIA EMOCIONAL

Essa mutualidade Terra-humanidade é mais bem-assegurada se articularmos a razão intelectual com a razão sensível. Damo-nos conta, mais e mais, de que somos seres impregnados de afeto e de capacidade de sentir, de afetar e de ser afetados. Essa dimensão, também chamada de “inteligência emocional”, foi recalcada na modernidade em nome de uma pretensa objetividade da análise racional. Hoje sabemos que todos os conceitos, ideias e visões do mundo vêm impregnados de afeto e de sensibilidade (M. Maffesoli, “Elogio da Razão Sensível”, Vozes, Petrópolis, 1998).

A inclusão consciente e indispensável da inteligência emocional com a razão intelectual nos move mais facilmente ao cuidado e ao respeito da Mãe Terra e de seus seres.

Junto às inteligências intelectual e emocional, existe no ser humano também a inteligência espiritual. O espírito e a consciência têm o seu lugar dentro do processo cosmogênico. Podemos dizer que eles estão, primeiro, no universo e, depois, na Terra e no ser humano. A distinção entre o espírito da Terra e do universo e o nosso espírito não é de princípio, mas de grau.

Esse espírito está em ação desde o primeiríssimo momento após o Big Bang. Ele é aquela capacidade que o universo mostra de fazer de todas as relações e interdependências uma unidade sinfônica. Sua obra é realizar aquilo que alguns físicos quânticos chamam de “holismo relacional”: articular todos os fatores, fazer convergir todas as energias, coordenar todas as informações e todos os impulsos para cima e para a frente, de forma que se forme um Todo e o cosmo apareça de fato como cosmo, e não simplesmente a justaposição de entidades ou o caos.

UNIVERSO AUTOCONSCIENTE

É nesse sentido que não poucos cientistas falam do universo autoconsciente e de um propósito que é perseguido pelo conjunto das energias em ação. Não há como negar esse percurso: das energias primordiais passamos à matéria, da matéria à complexidade, da complexidade à vida, e da vida à consciência, que nos seres humanos se realiza como autoconsciência individual, e da autoconsciência passamos à noosfera, pela qual nos sentimos uma mente coletiva.

Todos os seres participam de alguma forma do espírito. Eles também estão envolvidos numa incontável rede de relações que são a manifestação do espírito.

Essa compreensão desperta em nós um sentimento de pertencimento a esse todo, de parentesco com os demais seres da criação, de apreço por seu valor intrínseco, pelo simples fato de existirem e revelarem algo do mistério do universo.

Ao falarmos de sustentabilidade em seu sentido mais global, precisamos incorporar esse momento de espiritualidade cósmica, terrenal e humana, para ser completa, integral, e potenciar sua força de sustentação.

 

A desigualdade que é produzida pelo 1% de abastados no mundo

Leonardo Boff

Está causando furor, entre leitores e economistas, e pânico, principalmente entre os muito ricos, um livro de investigação cobrindo 250 anos de história, escrito por um dos mais jovens e brilhantes economistas franceses, Thomas Piketty. O livro se intitula “O Capital no Século XXI” (Seuil, Paris, 2013). Ele aborda fundamentalmente a relação de desigualdade social produzida por heranças, rendas e pelo processo de acumulação capitalista, tendo como material de análise particularmente a Europa e os Estados Unidos.

A tese de base que sustenta é: a desigualdade não é acidental, mas é o traço característico do capitalismo. Se a desigualdade persistir e aumentar, a ordem democrática estará fortemente ameaçada. Essa tese, sempre sustentada pelos melhores analistas sociais e repetida muitas vezes pelo autor destas linhas, se confirma: democracia e capitalismo não convivem. E se ela se instaura dentro da ordem capitalista, assume formas distorcidas e até traços de força. Onde ela entra, estabelece imediatamente relações de desigualdade que, no dialeto da ética, significa relações de exploração e de injustiça.

A democracia tem por pressuposto básico a igualdade de direitos dos cidadãos e o combate aos privilégios. Quando a desigualdade é ferida, abre-se espaço para o conflito de classes, a criação de elites, a subordinação de grupos inteiros e a corrupção – fenômenos visíveis em nossas democracias de baixíssima intensidade.

PAÍSES DESIGUAIS

Piketty vê nos EUA e na Grã-Bretanha, onde o capitalismo é triunfante, os países mais desiguais, o que é atestado também por um dos maiores especialistas em desigualdade, Richard Wilkinson. Nos EUA, executivos ganham 331 vezes mais que um trabalhador médio.

O discurso ideológico aventado por esses plutocratas é que tal riqueza é fruto de ativos, de heranças e da meritocracia; as fortunas são conquistas merecidas, como recompensa pelos bons serviços prestados. Ofendem-se quando são apontados como o 1% de ricos contra os 99% dos demais cidadãos, pois se imaginam os grandes geradores de emprego.

Como é possível estabelecer relações mínimas de equidade, de participação, de cooperação e de democracia real quando se revelam essas excrescências humanas que se fazem surdas aos gritos que sobem da Terra e cegas sobre as chagas de milhões de cossemelhantes?

Voltemos à situação da desigualdade no Brasil. Orienta-nos o nosso melhor especialista na área, Márcio Pochmann: 20 mil famílias vivem da aplicação de suas riquezas no circuito da “financeirização”; portanto, ganham por meio da especulação. Continua Pochmann: os 10% mais ricos da população impõem, historicamente, a ditadura da concentração, pois chegam a responder por quase 75% de toda riqueza nacional. Enquanto os 90% mais pobres ficam com apenas 25%” (“Le Monde Diplomatique”, outubro de 2007.

E O BRASIL?

Segundo dados de organismos econômicos da ONU, em 2005 o Brasil era o oitavo país mais desigual do mundo. Mas graças às políticas sociais dos últimos dois governos, diga-se honrosamente, o índice de Geni (que mede as desigualdades) passou de 0,58 para 0,52. Em outras palavras, a desigualdade, que continua enorme, caiu 17%.

Piketty não vê caminho mais curto para diminuir as desigualdades do que a severa intervenção do Estado e da taxação progressiva da riqueza até 80%, o que apavora os super-ricos. Sábias são as palavras de Eric Hobsbawn: “O objetivo da economia não é o ganho, mas sim o bem-estar de toda a população; o crescimento econômico não é um fim em si mesmo, mas um meio para dar vida a sociedades boas, humanas e justas”.

E, como um “grand finale”, a frase de Robert F. Kennedy: “O PIB inclui tudo, exceto o que faz a vida valer a pena”.

 

O tempo é das utopias mínimas

Leonardo Boff

Não é verdade que vivemos tempos pós-utópicos. Aceitar essa afirmação é mostrar uma representação reducionista do ser humano. Ele não é apenas um dado que está aí fechado ao lado de outros seres. Ele é também um ser virtual. Esconde dentro de si virtualidades ilimitadas, que podem irromper e concretizar-se. No fundo, é um projeto infinito, à procura de um objeto que lhe seja adequado.

É desse transfundo virtual que nascem os sonhos, os projetos e as utopias. Sem elas, o ser humano não veria sentido em sua vida. Uma sociedade sem uma utopia deixaria de ser sociedade, não teria um rumo.

Os últimos séculos foram dominados por utopias maximalistas. A utopia iluminista, que universalizaria o império da razão contra todos os tradicionalismos e autoritarismos; a utopia industrialista, de transformar as sociedades com produtos tirados da natureza e das invenções técnicas; a utopia capitalista, de levar progresso e riqueza para todo mundo; a utopia socialista, de gerar sociedades igualitárias e sem classes; as utopias nacionalistas, sob a forma do nazifascismo; a utopia de um único mundo globalizado sob a égide da economia de mercado e da democracia liberal; a utopia de ambientalistas radicais, que sonham com uma Terra virgem e o ser humano totalmente integrado a ela; etc.

Essas são as utopias maximalistas. Propunham o máximo. Muitas delas foram impostas com violência ou geraram violência contra seus opositores. Temos hoje distância temporal suficiente para confirmar que essas utopias maximalistas frustraram o ser humano. Entraram em crise e perderam seu fascínio. Daí falarmos de tempos pós-utópicos. Mas o “pós” se refere a esse tipo de utopia maximalista.

ÂNIMO HUMANO

Mas a utopia permanece porque pertence ao ânimo humano. Hoje, a busca se orienta pelas utopias minimalistas, aquelas que, no dizer de Paulo Freire, realizam o “possível viável” e fazem a sociedade “menos malvada e tornam menos difícil o amor”.

Não pode continuar a absurda acumulação de riqueza como jamais houve na história. Há que se pôr um freio à ferocidade produtivista que assalta os bens e serviços da natureza em vista da acumulação e que produz gases de efeito estufa que alimentam o aquecimento global, que, ao não ser detido, poderá produzir um armagedon ecológico.

As utopias minimalistas, a bem da verdade, são aquelas que vêm sendo implementadas pelo governo atual do PT e seus aliados com base popular: garantir que o povo coma duas ou três vezes ao dia, pois o primeiro dever de um Estado é garantir a vida dos cidadãos. São os projetos Minha Casa, Minha Vida e Luz para Todos, o aumento significativo do salário mínimo, o Prouni, os “pontos de cultura” e outros projetos populares que não cabe aqui elencar.

UTOPIAS VIÁVEIS

No nível das grandes maiorias, são verdadeiras utopias mínimas viáveis: receber um salário que atenda as necessidades da família, ter acesso à saúde, mandar os filhos à escola, conseguir um transporte coletivo que não lhe tire tanto tempo, contar com serviços sanitários básicos, dispor de lugares de lazer e de cultura e uma aposentadoria digna para enfrentar os achaques da velhice.

A consecução dessas utopias minimalistas cria a base para utopias mais altas: aspirar a que os povos se abracem na fraternidade e que se unam todos para preservar este pequeno e belo planeta Terra, sem o qual nenhuma utopia maximalista ou minimalista pode ser projetada. O primeiro ofício do ser humano é viver livre de necessidades, gozando um pouco do reino da liberdade e, por fim, poder dizer “valeu a pena”.

 

Quão humana é a nossa sociedade com a solidariedade aos haitianos?

 Leonardo Boff

O drama das centenas de haitianos, vítimas de devastador terremoto, que buscam hospitalidade no Brasil representa um teste de quanto humana é ou não é a nossa sociedade. Não queremos nos restringir somente aos haitianos, mas aos tantos que são expulsos ou desalojados de suas terras, posseiros, indígenas, quilombolas e outros, pelo avanço do agronegócio.

Organismos da ONU nos dão conta de que existem no mundo mais de 100 milhões de refugiados, seja por guerras, por fome ou por fatores climáticos e outras causas semelhantes.

A hospitalidade é um direito e um dever de todos, pois todos somos filhos e filhas da mesma Terra. Basta lembrar os refugiados da África que chegaram à ilha italiana de Lampedusa e receberam a solidariedade do papa Francisco, ocasião em que fez as mais duras críticas à nossa civilização por ser insensível e perder a capacidade de chorar pela desgraça de seus semelhantes. Todos esses padecem sob a falta de hospitalidade e de solidariedade.

DESUMANIDADE

Nos jornais brasileiros, mas especialmente na mídias sociais, deslanchou acirrada polêmica sobre como tratar os haitianos desesperados e depauperados que estão chegando ao Brasil. O governador Tião Viana, do Acre, mostrou profunda sensibilidade e hospitalidade acolhendo-os, a ponto de, com os meios parcos de um Estado pobre, não dar conta da situação. Teve que pedir socorro ao governo central. Mas foi, de forma desavergonhada, injuriado por muitos nas redes sociais. Aí nos damos conta de quão desumanos e sem piedade alguns podem ser. Nem respeitam a regra de ouro universal de não desejar ser tratado dessa forma caso um dia se encontrem em semelhante situação.

Segundo o notável biólogo Humberto Maturana, tais pessoas retrocedem a um estágio pré-humano, ao nível em que se encontram hoje os chimpanzés, que são societários, mas autoritários, nem sempre praticando a mutualidade.

É neste contexto que a virtude da hospitalidade ganha especial relevância. A hospitalidade – disse-o o filósofo Kant em seu último livro, “A Paz Perpétua” (1795) – é a primeira virtude de uma República mundial. É um direito e um dever de todos, pois todos somos filhos e filhas da mesma Terra. Temos o direito de circular por ela, de receber e de oferecer hospitalidade.

A hospitalidade exige uma boa vontade incondicional para acolher o necessitado e o que se encontra sob grande sofrimento. Ela exige também escutar atentamente o outro, mais com o coração do que com os ouvidos, para captar a sua angústia e a sua esperança.

Ela exige, outrossim, uma acolhida generosa, sem preconceitos de cor, de religião e de condição social. Exige evitar tudo o que fizer o outro sentir-se um indesejado e um estranho.

HOSPITALIDADE

Importa dialogar abertamente para captar sua história de vida, os riscos que passou e como chegou até aqui. Responsabilizar-se conscientemente, junto com outros para que encontre um lugar onde morar e um trabalho para ganhar a vida.

A hospitalidade é um dos critérios básicos do humanismo de uma civilização. A nossa vem marcada lamentavelmente por preconceitos de larga tradição, por nacionalismos, pela xenofobia e pelos vários fundamentalismos. Todos esses batem as portas aos imigrados, ao invés de abri-las e, compassivos, compartilharem de sua dor.

É nesse espírito que a hospitalidade para com nossos irmãos e irmãs haitianos deve ser vivida e testemunhada. Aqui se mostra se somos verdadeiramente um povo da cordialidade e da acolhida aberta a todos, o quanto temos crescido em nossa humanidade e melhorado nossa civilização.