O terrorismo, o Ocidente e a semeadura do caos

Mauro Santayana

Quando os EUA, com suas “primaveras” – que não dão flores, mas são fecundas em crimes e cadáveres – não conseguem colocar no poder um governo alinhado com seus interesses, como na Ucrânia e no Egito, jogam irmão contra irmão e equipam com armas, explosivos, munições, terroristas, bandidos e assassinos para derrubar quem estiver no comando do país.

O objetivo é destruir a unidade nacional, a identidade local, o Estado e as instituições, para que essas nações não possam, pelo menos durante longo período, voltar a organizar-se, a ponto de tentar desafiar, mesmo que em pequena escala, os interesses norte-americanos.

Foi assim que ocorreu com a intervenção dos EUA e de aliados europeus como a Itália e a França no Iraque, na Líbia e na Síria – contra a recomendação de Brasil, Rússia, Índia e China, no Conselho de Segurança da ONU.

Durante décadas, esses países – com quem o Brasil tinha, desde os anos 1970, boas relações – viveram sob relativa estabilidade, com a economia funcionando, crianças indo para a escola, e diferentes etnias, religiões e culturas, dividindo, com eventuais disputas, o mesmo território.

EM DESENVOLVIMENTO

Estradas, rodovias, sistemas de irrigação, foram construídos – também com a ajuda de técnicos, operários e engenheiros brasileiros – com os recursos do petróleo, e países como o Iraque chegavam a importar automóveis, como no caso de milhares de Volkswagens Passat fabricados no Brasil, para vender aos seus cidadãos de forma subsidiada.

Na Líbia de Muammar Kadafi, segundo o próprio World Factbook da CIA, 95% da população era alfabetizada, a expectativa de vida chegava, para os homens, segundo dados da ONU, a 73 anos, e a renda per capita e o IDH estavam entre os maiores do Terceiro Mundo, mas esses dados nunca foram divulgados normalmente pela imprensa “ocidental”.

Pode-se perguntar a milhares de brasileiros que estiveram no Iraque, que hoje têm entre 50 e 70 anos de idade, se, naquela época, sunitas e xiitas se matavam aos tiros pelas ruas, bombas explodiam em Basra e Bagdá todos os dias, como explodem hoje, a qualquer momento, também em Trípoli ou Damasco, ou milhares de órfãos tentavam atravessar montanhas e rios sozinhos, pisando nos restos de outras crianças, mortas em conflitos incentivados por “potências” estrangeiras, ou tentavam sobreviver caçando, a pedradas, ratos por entre escombros das casas e hospitais em que nasceram.

ANTES, NÃO ERAM INIMIGOS

São inimigos os curdos, xiitas, sunitas, drusos, armênios, cristãos maronitas? Antes, trabalhavam nos mesmos escritórios, viviam nas mesmas ruas, seus filhos frequentavam as mesmas salas de aula, mesmo que eles não tivessem escolhido, no início, viver como vizinhos.

Assim como no caso de hutus e tutsis em Ruanda, e em inúmeras ex-colônias asiáticas e africanas, as fronteiras dos países do Oriente Médio foram desenhadas, na ponta do lápis, ao sabor da vontade do Ocidente, quando da partilha do continente africano por europeus, obedecendo não apenas ao resultado de Conferências como a de Berlim, em 1884, mas também à máxima de que sempre se deve “dividir para comandar”, mantendo, de preferência, etnias de religiões e idiomas diferentes dentro de um mesmo território ocupado pelo colonizador.

Eram Saddam Hussein e Muammar Kadafi, ditadores? É Bashar Al Assad, um déspota sanguinário?

Quando eles estavam no poder, não havia atentados terroristas em seus países.

E OS OUTROS PAÍSES ÁRABES?

E qual é a diferença deles e de seus regimes, para os líderes e regimes fundamentalistas islâmicos comandados por xeques e emires, na mesma região, em que as mulheres – ao contrário dos governos seculares de Saddam, Kadafi e Assad – são obrigadas a usar a burka, não podem sair de casa sem a companhia do irmão ou do marido, se arriscam a ser apedrejadas até a morte ou chicoteadas em caso de adultério, e não há eleições, a não ser o fato de que esses regimes são dóceis aliados do “ocidente” e dos EUA?

Se os líderes ocidentais viam Kadafi como inimigo, bandido, estuprador e assassino, por que ele recebeu a visita do primeiro-ministro britânico Tony Blair, em 2004; do Presidente francês Nicolas Sarkozy – a quem, ao que tudo indica, emprestou 50 milhões de euros para sua campanha de reeleição – em 2007; da Secretária de Estado dos EUA, Condoleeza Rice, em 2008; e do primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi em 2009?

Por que, apenas dois anos depois, em março de 2011 – depois de Kadafi anunciar sua intenção de nacionalizar as companhias estrangeiras de petróleo que operavam, ou estavam se preparando para entrar na Líbia (Shell, ConocoPhillips, ExxonMobil, Marathon Oil Corporation, Hess Company) esses mesmos países e os EUA, atacaram, com a desculpa de criar uma Zona de Exclusão Aérea sobre o país, com 110 mísseis de cruzeiro, apenas nas primeiras horas, Trípoli, a capital líbia, e instalações do governo, e armaram milhares de bandidos – praticamente qualquer um que declarasse ser adversário de Kadafi – para que o derrubassem, o capturassem e finalmente o espancassem, a murros e pontapés, até a morte?

ESTADO ISLÂMICO

Ora, são esses mesmos bandidos, que, depois de transformar, com armas e veículos fornecidos por estrangeiros, a Líbia em terra de ninguém, invadiram o Iraque e, agora, a Síria, e se uniram para formar o Estado Islâmico, que pretende erigir uma grande nação terrorista juntando o território desses três países, não por acaso os que foram mais devastados e destruídos pela política de intervenção do “ocidente” na região, nos últimos anos.

Foram os EUA e a Europa que geraram e engordaram a cobra que ameaça agora devorar a metade do Oriente Médio, e seus filhotes, que também armam rápidos botes no velho continente. Serpentes que, por incompetência e imprevisibilidade, depois da intervenção na Líbia, a OTAN e os EUA não conseguiram manter sob controle.

Os Estados Unidos podem, pelo arbítrio da força a eles concedida por suas armas e as de aliados – quando não são impedidos pelos BRICS ou pela comunidade internacional – se empenhar em destruir e inviabilizar pequenas nações – que ainda há menos de cem anos lutavam desesperadamente por sua independência – para tentar estabelecer seu controle sobre elas, seu povo e seus recursos, objetivo que, mesmo assim, nunca conseguiram alcançar militarmente.

Mas não podem cometer esses crimes e esses equívocos, diplomáticos e de inteligência, e dizer, cinicamente, que o fizeram em nome da defesa da Liberdade e da Democracia.

TERRORISMO

Assim como não deveriam armar bandidos sanguinários e assassinos para combater governos que querem derrubar, e depois dizer que são contra o terrorismo que eles mesmos ajudaram a fomentar, quando esses mesmos terroristas, além de explodir bombas e matar pessoas em Bagdá, Damasco ou Trípoli, todos os dias, passam a fazer o mesmo nas ruas das cidades da Europa ou dos próprios Estados Unidos.

O “terrorismo” islâmico não nasceu agora.

Mas antes da balela mortífera da Primavera Árabe, e da Guerra do Iraque, que levou à destruição do país, com a mentirosa desculpa da posse, por Saddam Hussein, de armas de destruição em massa que nunca foram encontradas – tão falsa quanto o pretexto do envolvimento de Bagdá no ataque às Torres Gêmeas, executado por cidadãos sauditas, e não líbios, sírios ou iraquianos – não havia bandos armados à solta, sequestrando, matando e explodindo bombas nesses 3 países.

Hoje, como resultado da desastrada e criminosa intervenção ocidental, o terror do Estado Islâmico, o ISIS, controla boa parte dos territórios e da sofrida população síria, iraquiana e líbia, e, a partir deles, está unindo suas conquistas em torno da construção de uma nação maior, mais poderosa, e extremamente mais radical do ponto de vista da violência e do fundamentalismo, do que qualquer um desses países jamais o foi no passado.

CHARLIE HEBDO

Os ataques terroristas à redação e instalações do semanário francês Charlie Hebdo e do Mercado Kosher, em Vincennes, Paris, foram crimes brutais e estúpidos.

Mas não menos brutais, e estúpidos, do que os atentados cometidos, todos os dias, contra civis inocentes, entre muitos outros lugares, como a Síria, o Iraque, a Líbia, o Afeganistão.

Quem quiser encontrar as sementes do caos que também atingiram, em forma de balas, os corpos dos mortos do Charlie Hebdo poderá procurá-las no racismo de um continente que acostumou-se a pensar que é o centro do mundo, e que discrimina, persegue e despreza, historicamente, o estrangeiro, seja ele árabe, africano ou latino-americano; e no fundamentalismo branco, cristão e rançoso da direita e da extrema direita norte-americanas, cujos membros acreditam piamente que o Deus vingador da Bíblia deu à “América” do Norte o “Destino Manifesto” de dirigir o mundo.

Em nome dessa ilusão, contaminada pela vaidade e a loucura, países que se opuserem a isso, e milhões de seres humanos, devem ser destruídos, mesmo que não haja nada para colocar em seu lugar, a não ser mais caos e mais violência, em uma espiral de destruição e de morte, que ameaça a sobrevivência da própria espécie e explode em ódio, estupidez e sangue, como agora, em Paris, neste começo de ano.

O Brasil e os refugiados

Mauro Santayana
Hoje em Dia

O Ministério da Justiça informa que em 2014 aumentou em três vezes a concessão de refúgio pelo Brasil, para 2.320 estrangeiros beneficiados, com relação ao ano anterior. A maior parte dos refúgios foi concedida para sírios, seguidos de libaneses, devido à caótica situação vivida pelo Oriente Médio e o Norte da África, depois a esparrela da “Primavera Árabe”, que só gerou golpes, destruição e morte na região.

Historicamente, depois, agora, da Síria, o segundo país com mais refugiados no Brasil, é a Colômbia, e o terceiro, Angola.

No caso de países árabes que se encontram assolados por guerras civis promovidas direta e indiretamente pela Europa e os Estados Unidos, como o Iraque, a Líbia e a própria Síria, com milhões de refugiados tentando sobreviver em campos improvisados em territórios de países vizinhos e muitas vezes, hostis, a questão da concessão de refúgio por nosso país é fundamental, urgente e humanitária.

Com relação à América Latina, há alguns países em que conflitos com a guerrilha e a reação a ela por parte de milícias paramilitares, também colocam em risco, centenas, senão, milhares de pessoas, mas, nesse caso, em muitos países, como a Colômbia, que é membro do Mercosul, basta ao cidadão solicitar residência provisória no Brasil, assim como, por reciprocidade, qualquer cidadão brasileiro pode fazer o mesmo, se quiser residir permanentemente em países como o Chile, o Uruguai e a Argentina.

EMIGRANTES ECONÔMICOS

Outra é a situação de países como o Haiti, que já enviou, ilegalmente, nos últimos anos, mais de 30 mil emigrantes “econômicos” para o Brasil, que, depois de pagar pequenas fortunas a “coyotes” para cruzar o Equador e o Peru, e atravessar a fronteira, recebem automaticamente autorização de residência e de trabalho, e de Angola, por exemplo.

A Guerra Civil angolana, que opôs o MPLA – Movimento Popular para a Libertação de Angola (no poder), à UNITA (União Nacional para a Independência Total de Angola), hoje o principal partido de oposição, terminou em 2002. Dois anos antes, em 2000, já havia sido firmado um acordo de paz com a FLEC – Frente de Libertação do Enclave de Cabinda, que defende a independência da região da qual sai a maior parte da produção angolana de petróleo. Perto da atual situação vivida pela Síria, pelo Iraque e pela Líbia, Angola é, com todos seus eventuais problemas, um paraíso, que não vive mais uma situação de conflito, conta com eleições e partidos de oposição regulares, e cresce a uma média de cerca de 7% ao ano.

Em nossa história, plena de golpes e ditaduras, muitos brasileiros encontraram refúgio em outros países, escapando da morte, da tortura e da perseguição. Nos alegra saber que, hoje, podemos retribuir essa generosidade, recebendo homens, mulheres e crianças do mundo inteiro, e também de países árabes e africanos que há muito já fazem parte da alma brasileira.

O Nazismo ainda vivo entre nós

Mauro Santayana
Hoje em Dia

Nos últimos tempos fez fama na internet a imagem de uma suástica no fundo de uma piscina, no quintal de uma casa de Pomerode. Seu proprietário foi identificado, posteriormente, como o professor Wandercy Pugliese, que dá aulas em “cursinhos” na região, e já teve vasta coleção de objetos de inspiração nazista apreendidos pela polícia em sua casa, na década de 1990.

Agora, surge a informação de que um Comandante do Batalhão de Choque da Polícia Militar do Rio de Janeiro foi exonerado de seu cargo pelo Secretário de Segurança José Beltrame, por trocar mensagens de cunho nazista com outros oficiais e subordinados pelo What’ s Up e defender, jocosamente, o assassinato de manifestantes.

Resgatando o Sigma, símbolo do Integralismo, existe uma página, no Facebook, do “Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Brasileiros”, tradução literal do “Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei,” o Partido Nazista alemão de Adolf Hitler.

O mesmo Sigma pode ser encontrado em sites integralistas, como o do Movimento Integralista e Linearista Brasileiro, ou da SENE – Sociedade de Estudos do Nacionalismo Espiritualista, e no peito do Galo Tupã, “mascote” da doutrina, pisando o verme “comunista-liberal” que ameaça o Brasil.

INTEGRALISMO

Filhote do fascismo e semelhante ao nazismo, a Ação Integralista Brasileira, chefiada por Plínio Salgado, a exemplo das doutrinas que a inspiraram, não se dizia, malandramente, nem como de “direita”, nem de “esquerda”.

Com “Deus, Pátria, Família”, como slogan, ela chegou a contar com dezenas de milhares de simpatizantes no Brasil, até uma frustrada tentativa de golpe contra Getúlio Vargas, em 10 de maio de 1938, quando foi proibida e colocada na clandestinidade.

Hoje, os integralistas tentam reviver, a partir da internet, por meio da FIB – Frente Integralista Brasileira, que organiza congressos e palestras, e também de outros grupos, sites e fóruns como os que já citamos antes.

O nazismo tupiniquim, tão ridículo quanto absurdo, quando defendido e praticado em uma das nações mais miscigenadas e universais do mundo, está presente também nos bandos de skinheads que agridem verbal e fisicamente, judeus, nordestinos, negros e homossexuais, principalmente em São Paulo e na Região Sul do país.

OVOS DA SERPENTE

Em tempos de ressurreição do discurso anticomunista, que insiste em colocar comunismo e nazismo no mesmo saco, embora o primeiro nunca tenha construído câmaras de gás e fornos crematórios, ou perseguido alguém por critérios raciais, e tenha combatido e derrotado implacavelmente o segundo, da memorável Batalha de Stalingrado até o suicídio de Hitler em seu bunker, para não ser capturado e julgado pelos soviéticos em 1945, nunca é demais lembrar que o nazismo deve ser combatido sempre que apontar a cabeça para fora do esgoto da História.

Mesmo quando apenas simbólicos, os ovos da serpente devem ser esmagados ainda no ninho, para que não possam germinar nem eclodir.

O Brasil, o “Petrolão” e o Triângulo das Bermudas

Mauro Santayana
Revista do Brasil

Nas ultimas semanas, o Brasil tem vivido sob o impacto das notícias da “Operação lava-Jato”, que, em busca de associar ao Mensalão, muitos chamam de Petrolão, esquecendo-se de que, enquanto se eleva esse novo escândalo ao posto de “o maior da história”, outros parecem ter se escafedido em um imenso Triângulo das Bermudas, como se tivessem sido reduzidos a pedacinhos pelas lâminas de Freddy Krueger, ou abduzidos por alienígenas.

Esse é o caso, por exemplo, do “Mensalão do PSDB” – perpetrado, de forma pioneira, com a ajuda do mesmo Marcos Valério, durante o governo do Sr. Eduardo Azeredo, em Minas Gerais.

Esse é o caso do “Escândalo do Banestado”, de desvio de mais de 100 bilhões de reais para o exterior, no qual foram indiciados vários personagens ligados ao governo FHC, incluído o Sr. Ricardo Sérgio de Oliveira, “arrecadador” de recursos de campanhas do PSDB, perpetrado, entre 1996 e 2002, também no Paraná, com a ajuda do mesmíssimo “doleiro” Alberto Youssef, do atual escândalo da Petrobras.

Esse parece ser também o caso, do Trensalão do PSDB de São Paulo, que, apesar de ter tido mais de 600 milhões de reais das empresas envolvidas bloqueados pela justiça no dia 13 de dezembro, parece ter sido coberto por um Manto da Invisibilidade digno de Harry Potter, do ponto de vista de sua repercussão.

BONZINHOS E MALVADOS

Seria ótimo se – hipocrisias à parte – o problema do Brasil se resumisse apenas a uma briga entre “bonzinhos” e “malvados”.

Está claro que temos aqui, como ocorre em muitíssimos países, bandidos recebendo propinas no desvio de verbas públicas, atuando como “operadores” e facilitadores no trabalho de tráfico de influência, no superfaturamento e na “lavagem” de dinheiro e no envio de recursos para o exterior.

E também empresários que se acostumaram, com o tempo, a pagar ou a ser extorquidos, a cada obra, a cada licitação, a cada aditivo de contrato, pelos “intermediários” e oportunistas de sempre, e que já sofrem sucessivas paralisações, atrasos e adiamentos nas grandes obras que executam, que ocorrem devido a razões que muitas vezes escondem interesses políticos que nem sempre correspondem aos do próprio país e da população.

E padecemos, finalmente, ainda, da falta de coordenação e entendimento, entre os Três Poderes da República, em torno dos grandes problemas nacionais.

SEM PLANEJAMENTO

Leis, projetos e obras que são essenciais para o futuro do País, não são discutidas previamente entre Executivo, Legislativo e Judiciário, antes de serem encaminhadas para aprovação e execução, o que acaba levando, nos dois primeiros casos, a relações de pressão e contrapressão que acabam descambando no fisiologismo e na chantagem e que afetam, historicamente, a própria governabilidade.

Na contramão do que imagina a maioria das pessoas, com algumas exceções, ao contrário dos corruptos e dos “atravessadores”, os homens públicos – incluindo aqueles que trabalham abnegadamente pelo bem comum – estão muito mais preocupados com o poder, para executar suas teses, ideias e projetos, ou apenas exercê-lo, simplesmente , do que com o dinheiro.

No embate político, ter recursos – que às vezes chegam de origem nem sempre claramente identificada, pelas mãos de “atravessadores” que se oferecem para “ajudar” – é essencial, para conquistar o poder, na disputa eleitoral, e nele manter-se, depois, ao longo do tempo.

REFORMA POLÍTICA

Esse é o elemento mais importante da equação. Mas ele só começará a ser resolvido se houver uma reforma política que proíba, definitivamente, a doação de dinheiro privado a agremiações políticas e candidatos a cargos eletivos, promova a cassação automática de quem usar Caixa 2 e aumente a fiscalização do uso dos recursos partidários ainda durante o período de campanha.

Por mais que sejam importantes, e impactantes, as prisões dos corruptos envolvidos no escândalo da Petrobras e a recuperação dos recursos desviados, se não for feita uma reforma política, de fato, elas não impedirão que mais escândalos ocorram, no financiamento de novas campanhas, já nas próximas eleições.

O bebê e a bacia

Mauro Santayana
(Hoje em Dia)

O senhor Robson Andrade, presidente da CNI, afirmou nesta semana que as denúncias que envolvem algumas das maiores construtoras do Brasil são pontuais e que a investigação e eventual punição desses atos não pode inviabilizar a continuidade de sua atuação em benefício do país.

Grandes empresas são estratégicas para qualquer nação. Se não fosse o trabalho de construtoras como a Mendes Júnior, na década de 1970, em países como o Iraque e a Mauritânia, com a ida para lá de milhares de técnicos e operários brasileiros, para construir ferrovias, rodovias e obras de irrigação, o Brasil não teria conseguido, naquela ocasião, enfrentar a crise do petróleo.

Não existe grande nação que não tenha grandes empresas e grandes bancos para apoiá-las, dentro e fora de seu território, na disputa com empresas e bancos de outros países.

A Suíça e a Nestlé e os seus bancos; os EUA e a IBM, a Boeing, a Northrop, a Microsoft ou a Monsanto; a Alemanha e a Bayer, a Basf, a Siemens, a Volkswagen; a Itália e a Fiat , a ENI, a Benetton e a Beretta; a Espanha e a Repsol, o Santander e a Telefónica. Nem uns existiriam sem os outros, nem nenhum deles são santos.

AJUDA MÚTUA

A diplomacia e a estrutura pública desses países e suas grandes empresas sempre se ajudaram mutuamente, para a conquista do mundo. No Brasil ocorre o contrário.

Independentemente das investigações em curso, nos últimos anos parece que é pecado, ou proibido, que nossos bancos públicos, como o BNDES, a exemplo do que fazem os Eximbanks dos EUA e da Coreia do Sul; o Deustche Bank da Alemanha; a JFC e o JBIC do Japão, financiem e apoiem a expansão de empresas como a JBS-Friboi, a BRF, a Vale, a Totus, a Gerdau, e construtoras como a Odebrecht – que atua em dezenas de países do mundo – dentro e fora do Brasil.

Houve corrupção na Petrobras? Que corruptos e corruptores sejam punidos. O que não se pode é paralisar e quebrar algumas das maiores empresas de capital nacional, porque, nessa hipótese, quem mais perderá será o Brasil.

COMPETITIVIDADE

Arrebentar com a competitividade do país na área de infraestrutura e construção pesada, destruindo alguns dos principais instrumentos estratégicos que temos para aumentar nosso poder e projeção no exterior, e mais particularmente, na África e América Latina – nosso espaço imediato de influência – é o mesmo que jogar pela janela a água suja da bacia, junto com o bebê que estava tomando banho, ou amputar os dois pés para combater uma infecção de unha.

Todos os grandes países do mundo combatem a corrupção de suas empresas. E – não sejamos hipócritas – muito mais a corrupção interna, realizada em seu próprio território, do que a externa, em território alheio.

Mas nenhum desses países deixou de apoiá-las com negociações e financiamento lá fora. Ou de exportar produtos, serviços e mão de obra por meio delas. Ou de usá-las, principalmente dentro e fora de suas fronteiras, para defender sua estratégia e seus interesses. Senador Aécio Neves acaba de obter, na Justiça de São Paulo, importantíssima e histórica vitória, que não é apenas dele, como cidadão, mas da democracia, de modo geral, em nosso país.

“Vim”

“VIM”
Mauro Santayana

Alados seres murmuraram meu nome,
e um brilho tênue anunciou-me antes,
entre milhões de outros,
na noite coalhada de cometas
e estrelas,
estendida como um manto
sobre o vento e a areia.

Vim,
como muitos
antes de mim.

Para admirar-me
com as nuvens
e o correr do Sol e dos rios,
os lagartos e os peixes,
as serpentes e os escorpiões,
os trovões e os lagos,
e o egoísmo,
a violência e a injustiça
dos corações humanos.

Vim
para falar daqueles
que pisam sobre os outros,
dos que acumulam
riquezas e certezas
e se regozijam sobre fartas mesas,
enquanto seus escravos
quase nada comem.

Vim
para contar de golpes
e de faces.
De moedas, agulhas,
e camelos.
De peixes,  redes,
tempestades.
Da morte,
do medo e da vontade.
De demônios e imperadores,
e reinos nunca vistos antes.

Se és daqueles que matas,
discriminas,
calunias,
desprezas,
torturas,
mentes,
enganas
e roubas
em meu nome,
minha mão te espera,
ensanguentada e em chagas,
e não escaparás dela,
por mais que tenhas
vestes e templos,
lanças e armaduras,
incenso ou ouro.

Se és daqueles
que se satisfaz,
quando assaltas e tiras a vida,
e espancas teus irmãos e tuas irmãs,
e teu bastão
se abate contra os indefesos,
e teu chicote
corta a carne dos mais fracos,
em porões e prisões
como aquela em que estive um dia,
minha mão te espera,
ensanguentada e em chagas,
e será pesada,
por mais que carregues
escudos,
correntes e espadas.

Se afirmarem que minhas ideias
estão mortas, estarei vivo.

Se disserem  que estou fraco,
estarei mais forte.

Se falarem que ando
com príncipes e ricos,
me encontrarão entre os desprezados,
no meio dos loucos e dos leprosos,
dos rebeldes e dos pobres.

Se és cruel,
hipócrita e injusto,
cuida e teme.

Do alto da cruz,
meus olhos te contemplam.
E a alma em meu peito ainda geme,
suspira e luta,
enquanto meu coração,
indignado,
treme.

A política errada e a ameaça das superbactérias

Mauro Santayana
(Hoje em Dia)

Quando alguém se declara “apolítico”, ou diz que “odeia a política”, nos lembramos de que a palavra política deriva de Politeía, vocábulo relativo a tudo que acontecia nas antigas Polis, cidades-estado gregas, e da velha constatação aristotélica de que “o homem é um animal político”.

Querendo ou não, todo ser humano participa, no convívio, no aprendizado e no debate com outros seres humanos, da atividade política, mesmo quando não exerce nenhum cargo público, se assume “apolítico” e declara o seu “ódio” à política.

A política, como ocorre com Deus, para a maioria das religiões, está em todas as coisas, das maiores às que são aparentemente mais ínfimas.

Um estudo que acaba de ser divulgado pelo governo britânico, alerta que as superbactérias matarão, em poucos anos, mais que o câncer, e que o custo de seu tratamento chegará a 100 trilhões de dólares nas próximas décadas.

ECONOMIA ERRADA

Foi a economia no combate à infecção hospitalar e a ausência de fiscalização rigorosa em hospitais públicos e privados, assim como o incentivo, durante anos, do uso indiscriminado e desnecessário de antibióticos em diversos países do mundo, incluído o Brasil, que deu origem à transformação destes organismos.

E é a mesma ausência de fiscalização e controle que está fazendo com que novas gerações de bactérias resistentes mesmo aos mais modernos medicamentos estejam ultrapassando os limites dos hospitais e postos de saúde, ameaçando transformar-se em uma pandemia, atingindo diretamente a população.

NAS PRAIAS

A Fiocruz, que já havia detectado, antes, por duas ocasiões, superbactérias no esgoto lançado clandestinamente, no Rio Carioca, no Rio de Janeiro, acaba de anunciar que detectou sua presença também na água do mar, nas praias do Flamengo e de Botafogo, com possibilidade de que se multipliquem e acabem chegando ao Leblon, Copacabana e Ipanema.

Que turistas e banhistas deixem de frequentar o Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro, que as crianças não possam mais se sentar na areia, ali ou no vizinho bairro de Botafogo, que a Cidade Maravilhosa possa transformar-se, de chamariz, em ameaça para milhões de turistas que a visitam, é um absurdo.

A poluição de nossos rios e lagos, com a diminuição da oferta de água potável à população, e agora da orla marítima da segunda cidade do país, é uma questão ambiental, mas, como muitas outras mazelas de nosso país, também uma questão política, e tem que ser enfrentada com determinação e rapidez.

A população carioca deve mobilizar-se e exigir que os responsáveis sejam punidos e que o esgoto hospitalar seja tratado totalmente nos próprios locais em que é produzido.

Não se trata apenas de uma questão de saúde. Se houver uma epidemia, milhares de empregos e empresas estarão em risco, assim como as Olimpíadas de 2016.

Golpismo, “comunismo”, hipocrisia e reforma política

Mauro Santayana
(Revista do Brasil)

Nas últimas semanas, insatisfeitos com o resultado das eleições, golpistas que nos últimos anos praticavam seu ódio à democracia e às instituições pela internet têm convocado caminhadas pelo país, pedindo o impeachment da presidente Dilma Rousseff ou intervenção militar.

Para tentar derrubar o governo, os novos golpistas fazem como fizeram os que os antecederam na história brasileira, que praticamente mataram Getúlio em 1954, tentaram inviabilizar Juscelino Kubitschek em 1955 e derrubaram João Goulart em 1964.

Apelam para o tosco, velho e surrado discurso anticomunista da época da Guerra Fria, que justificou crimes como os milhares de civis mortos e torturados no Chile, na Argentina, na Indonésia, e em conflitos prolongados e estéreis como a Guerra do Vietnã.

Dizer que é comunista um país em que o sistema financeiro lucra bilhões, em que as multinacionais fazem o mesmo e remetem fortunas para o exterior, em que qualquer cidadão pode montar um negócio a qualquer momento, com ajuda do governo e de instituições, como o Sebrae, e em que nossos armamentos são produzidos em estreita cooperação com empresas inglesas, norte-americanas, francesas, suecas, israelenses, é tremenda hipocrisia.

RESPONSABILIDADE

À oposição institucional cabe também agir com responsabilidade. Caso fosse adiante um pedido de impeachment, ou caso viesse a ser impedida por outras manobras a diplomação de Dilma Rousseff, a ascensão do vice Michel Temer à Presidência da República corroeria, em vez de ajudar, as chances de Aécio Neves de chegar ao Palácio do Planalto em 2019. E na remotíssima possibilidade de os golpistas terem sucesso por outros meios, jamais entregariam o poder ao ex-governador mineiro. Os mais radicais o desprezam e desconfiam de seu discurso antipetista.

O problema do Brasil não é comunismo, como apregoam essa minoria extremista e alguns golpistas de plantão, em seus comentários nos portais e redes sociais. O que põe a opinião pública em estado de perplexidade é a corrupção. Esse mal nasce de uma acumulação histórica de defeitos no universo político, como o clientelismo e o fisiologismo, que vêm desde o Brasil Colonial. Sua raiz está na busca permanente do poder, por partidos e candidatos, e da necessidade de fontes de financiamento para suas campanhas. No caso da Petrobras, o próprio Ministério Público declarou que o esquema funciona desde 1999 – logo, ainda antes da chegada do PT ao poder.

PROTESTOS DE 2013

Quando das manifestações de junho de 2013, Dilma lembrou a necessidade de reformas que tirassem o país da dependência desse quadro de relações incestuosas entre o governo e o Congresso, e de se criarem mecanismos que permitissem maior espaço para a população manifestar seus anseios e interesses. Suas teses, no entanto, não prosperaram no Legislativo. Agora, que a reforma política volta à tona, o que importa é saber se teremos uma de fato, ou se uma reforma de faz de conta, comandada pelos grupelhos de sempre, com mudanças cosméticas para enganar a população.

O caixa dois não é mais do que uma extensão do financiamento eleitoral privado, e legal. O menos citado caixa um, que poderia ser suprimido por meio do financiamento público de campanhas, como prevê a proposta de reforma política defendida por entidades como a Ordem dos Advogados do Brasil, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil e tantas outras entidades e movimentos com representação em amplos setores sociais.

No meio desse processo estão pilantras que aparecem para viabilizar “negócios” e “acertos”, extorquem recursos de empresas e irrigam, com parte dos recursos auferidos, candidatos e partidos. Eles não agem em nome do interesse público ou partidário, não são “azuis” ou “vermelhos”, nem “golpistas” nem “comunistas”. Se existisse um termo exclusivo para defini-los, seria simplesmente “corruptistas”, ladrões que se aproveitam das distorções históricas do atual sistema político.

Um dos homens mais ricos do mundo multiplica sua compra de ações da Petrobras

Soros aposta na Petrobras

Mauro Santayana

Enquanto, no Brasil, aplicadores correm da Petrobras, grandes investidores estrangeiros, confiantes em fatos como a inauguração da Refinaria Abreu e Lima, com capacidade para processar 230.000 barris de combustíveis e derivados por dia, já no primeiro trimestre de 2015; e a constante expansão da produção do pre-sal, estão aproveitando os baixos preços das ações da empresa, para fazer compras maciças que poderão lhes render bilhões de dólares em ganhos no futuro.

George Soros, um dos homens mais ricos do mundo, aumentou em 84% a compra de ações da Petrobras, de junho para cá.

Será que ele, com uma fortuna pessoal de mais de 24 bilhões de dólares, está errado ao apostar na Petrobras?

Na época da campanha para a última eleição, espertos fizeram fortunas, da noite para o dia, “jogando” com o sobe e desce das bolsas, ao ritmo da divulgação das pesquisas e das notícias dos jornais, enquanto incautos se desfaziam de ações de primeira linha, deixando de usar a cabeça, para se deixar influenciar pelo comportamento de “manada” e pela desinformação.

Ao contrário do que muita gente acha, a campanha contra a Petrobras que está em curso – que não pode ser confundida com as investigações de corrupção na empresa – não vai quebrar a maior companhia brasileira nem tirar o atual governo do poder.

Ela irá, apenas, aumentar a participação de estrangeiros na Petrobras, aproveitando a queda de preço das ações, já que eles não se deixam contaminar pelo “clima” reinante em alguns segmentos da opinião pública.

CONTRADIÇÕES

Como exemplo dessa contradição entre alguns investidores brasileiros e estrangeiros do ponto de vista da confiança no Brasil, vale lembrar a recente decisão da Jaguar e da Land Rover, de instalarem suas primeiras fábricas fora da Inglaterra por aqui; ou a da Nestlé Mundial de construir a sua primeira indústria de cápsulas de café das Américas em Montes Claros, Minas Gerais.

Se as perspectivas no mercado brasileiro estão tão ruins, por que não foram para a Colômbia, por exemplo, que oficialmente está crescendo muito mais neste ano, e é membro do conhecido “factoide” Aliança do Pacífico?

Por falar em AP, nos oito primeiros meses deste ano, segundo a CEPAL, o Investimento Estrangeiro Direto caiu em 18%, no México, para pouco mais de 9 bilhões de dólares, enquanto aumentou 8%, para quase 50 bilhões de dólares, no Brasil.

Pesquisa divulgada essa semana pela FIRJAN – Federação das Indústrias do Rio de Janeiro mostra que 47% dos empresários entrevistados vão manter seus investimentos em 2015, e que 41% deles pretende aumentá-los no ano que vem.

Investidor estrangeiro segue apostando firme no Brasil

Mauro Santayana

Enquanto, aqui dentro, refém da síndrome da “crise” e do “fim do Brasil”, muita gente está com medo de fazer negócios ou adiando investimentos, os estrangeiros, menos afeitos à imprensa local e aos comentários nos portais da internet, continuam apostando firme na segunda economia das Américas e  sétima maior do mundo.

A Comissão Econômica para a América Latina, informa que, até setembro, o IED – Investimento Estrangeiro Direto, caiu em cerca de 28%, em média, no continente, com destaque negativo para o México (- 18%), tido como o “queridinho” dos mercados. Enquanto isso, ainda segundo a CEPAL, o Brasil foi o único país em que cresceu o Investimento Estrangeiro Direto – acima de 8% – que deverá se manter em um patamar superior aos 60 bilhões de dólares até dezembro, sem queda expressiva com relação aos últimos anos.

Segundo informa o “Valor Econômico”, as estatísticas do Banco Central mostram que os investidores nacionais e estrangeiros reagiram de forma bem distinta quanto a  um segundo mandato para  Dilma Roussef.

MAIS DE US$ 11 BILHÕES

Se o investidor local, no período eleitoral e pós eleitoral, tirou dinheiro do país, os estrangeiros –  certamente motivados pelo fato de o Brasil ter voltado a ter superávit primário no mês passado, ainda ter reservas acima de 375 bilhões de dólares, com uma dívida líquida pública de apenas 33% do PIB, e por recomendações de compra de ações como as da Petrobras, feita pelo Deutsche Bank, há alguns dias – apresentaram forte aporte em IED e na compra de títulos públicos e ações, com ingresso conjunto, no país, de mais de 11 bilhões de dólares em outubro.

O cabo do Google

Mauro Santayana
(Hoje em Dia)

Com a demora da decisão sobre o BRICS Cable, provocada, entre outras razões, pela crise da Ucrânia, neste ano, os concorrentes passaram à frente e o Google, a estatal uruguaia Antel, a Angola Cables e a Algar, brasileira, resolveram fazer um novo cabo de fibra ótica, destinado a aumentar a capacidade de tráfego entre o Brasil e os EUA. Como não dá para controlar o fluxo de informações na internet, uma maior parte dos dados brasileiros dirigidos a outros destinos, como a Europa e a Ásia, passarão por território norte-americano, facilitando ainda mais o trabalho da NSA, e de outras agências de inteligência dos Estados Unidos.

Em novembro de 2013, ou há menos de um ano, o jornal The Washington Post publicou, com o uso de dados e cópias de slides da própria NSA, matérias explicando como a Agência Nacional de Segurança  intercepta a comunicação entre servidores do próprio Google e os de outras companhias como o Yahoo, e como essa agência também tem acesso a dados estocados em “nuvem” por companhias privadas de TI dos Estados Unidos.

Para diminuir a preocupação dos usuários, o Google e outras companhias como a Apple, têm aumentado o grau de privacidade de seus novos produtos e serviços, principalmente sistemas operacionais para celular.

PROTEGIDOS PELA SENHA

A Apple anunciou que no IOS-8 todos os dados pessoais do utilizador, como fotos, mensagens ou e-mails, ficarão protegidos pela senha do usuário, tornando impossível o acesso aos seus dados, mesmo que sejam solicitados judicialmente.

O Google também anunciou que o novo Android Lillipop vai encriptar automática e obrigatoriamente os dados do usuário que tenha seu tablet ou smartphone protegido por senha.

Como não chamou a Telebras para entrar no consórcio – parece que é proibido pensar em fortalecer a Telebras no Brasil, embora nada se faça para impedir o monopólio espanhol sobre nosso mercado,  com a compra da GVT pela Telefónica, dona da Vivo e da antiga Telesp – o governo precisa cobrar, da Algar, única empresa nacional participante, que medidas de segurança serão adotadas para proteger as informações originadas em nosso território, e fazer o mesmo com o Google.

Naturalmente, o governo norte-americano reagiu contra essas decisões. O diretor do FBI, James Comey, disse que as empresas “estão indo longe demais” na preocupação com a privacidade dos usuários e pediu mais poderes para as autoridades, que, na sua opinião, foram gravemente afetados  no que chamou de “era pós-Snowden”.

DE QUEM É O NEGÓCIO?

No caso do cabo ótico do Google, ainda assim é preciso saber quem dominará o negócio, se a empresa norte-americana,  ou os uruguaios, angolanos e brasileiros envolvidos.

Não porque isso vá  fazer, eventualmente, muita diferença, considerando-se que os dados e informações poderão ser interceptados pela NSA em sua chegada, ou ao passar pelos EUA, mas, pelo menos, para deixar claro que estamos atentos ao assunto.

O que mata mais: as drogas ou a tentativa de reprimi-las?

Mauro Santayana
(Revista do Brasil)

Para a juventude, fazer o que não é permitido, afrontar as regras impostas pelos adultos e pelas “autoridades”, não deixa de se confundir, também, com certo tipo de ritual de passagem. Da mesma forma que o menino, na adolescência, questiona a autoridade do pai, e com ele compete, até certo ponto, na formação e afirmação de sua própria personalidade – e essa conquista de um espaço próprio independe de sexo –, tentar quebrar os limites impostos pelas gerações anteriores tem sido parte, há séculos, da própria evolução da humanidade. Isso talvez explique parte da popularidade das drogas nos últimos 100 anos.

Até serem proibidas, a maconha e a cocaína, antes restritas aos consultórios psiquiátricos e gabinetes dentários, como relaxantes e analgésicos, nunca foram vistas como uma forma de transgressão social. Foi justamente a partir da Lei Seca, nos Estados Unidos, que elas começaram a adquirir um caráter mais contestatório.

Na década de 1970, a maconha era a droga da contestação, o LSD, a da criação e do esoterismo, a heroína, a da autodestruição, e a cocaína, ainda, principalmente a das festas e da burguesia. Por um lado, o sistema aumentou a repressão ao seu consumo, como parte de sua reação a uma geração que contestava a Guerra do Vietnã e o complexo industrial-militar nos Estados Unidos, e tomava as ruas e as universidades em países como a França, o México e o Brasil.

UMA ESPÉCIE DE FUGA

Para quem ocupava o poder, era interessante associar a utopia e a luta por um mundo melhor a uma espécie de fuga, de negação ao equilíbrio e à responsabilidade, favorecida pelo consumo de entorpecentes. Por outro lado, apertar a repressão aumentava também a demanda e o preço dessas substâncias, criando um mercado de bilhões de dólares, que favorecia, paradoxalmente, o enriquecimento fácil de parte do próprio sistema. Surgiram os cartéis de produção, transporte e comercialização, a partir da Bolívia, do Peru, da Colômbia e do México, que se transformou em corredor para o acesso ao mercado norte-americano, o maior do mundo.

E, como ocorreu na época da Lei Seca, o lobby do proibicionismo como única resposta da sociedade às drogas ilícitas criou, nos países produtores e consumidores, uma rede de milhares de advogados, jornalistas sensacionalistas, deputados e senadores que se elegem sob a égide do “combate à violência”, ONGs de todo o tipo e policiais corruptos, que sobrevivem, direta ou indiretamente, da repressão vigente.

Hoje, no Brasil, a situação chegou a tal ponto que a pergunta que deveríamos nos fazer é a seguinte: o que mata mais, as drogas ou a estrutura do aparato de repressão a elas?

600 MIL HOMICIDIOS

Tivemos, em nosso país, mais de 600 mil homicídios nos últimos dez anos. A população carcerária aumentou exponencialmente, e o número de crimes continua crescendo. Em nome do combate às drogas, morrem, todos os anos, policiais e traficantes, “aviões” e moradores, inocentes, da periferia. As prisões estão se enchendo, dia a dia, de pessoas que, muitas vezes, misturam substâncias químicas em casa, e que disputam o direito de vender essas substâncias – basicamente anfetaminas – como se fossem derivadas da cocaína.

Milhares de brasileiros têm sido assassinados ou roubados, dentro de suas casas, para que viciados possam comprar sua próxima pedra. Esse verdadeiro beco sem saída tem levado países como o Uruguai e alguns estados norte-americanos a mudar, paulatinamente, a forma de se tratar a questão das drogas ilícitas, começando pela maconha, cuja produção e consumo, inclusive para fins medicinais, têm sido progressivamente liberados.

As drogas – incluindo o álcool e o tabaco – são um problema de saúde pública e não de polícia. No Congresso, na imprensa, na sociedade, precisamos entender que a repressão, como único caminho, só vai levar a mais mortes, e a cada vez mais violência.

A Lista de Schindler e a Lista de Gaza

Mauro Santayana
(Hoje em Dia)

Há poucos dias, foi demitido, do Colégio Andrews, no Rio, um professor que propôs aos seus alunos que refletissem e respondessem sobre a existência de eventual relação entre o comportamento do governo israelense em Gaza e o sofrimento infringido aos judeus pelos nazistas na Segunda Guerra Mundial.

Pode-se discutir se existe alguma ligação entre uma coisa e outra. Isso irá depender da visão de cada um. O que não se pode impedir ou proibir é que se faça esse tipo de perguntas. Há poucas semanas, por exemplo, um manifesto de 327 judeus, sobreviventes do holocausto, foi publicado nos EUA, chamando o que ocorreu em Gaza de genocídio, e judeus, inclusive ortodoxos, tem se manifestado, no mundo inteiro, contra política de agressão israelense. O texto dos sobreviventes judeus respondia a outro, divulgado pelo Prêmio Nobel da Paz Elie Wiesel, que acusava os palestinos de estarem matando suas próprias crianças.

 

Wiesel faz parte de uma constelação de escritores que emigraram para os EUA no pós-guerra, e abraçando a nacionalidade norte-americana, fizeram de sua condição de judeus um passaporte para o sucesso em uma nova vida e um novo mundo.

Outros escritores judeus sobreviventes, como Primo Levi, preferiram se suicidar, anos depois do fim da II Guerra, por não suportar, entre outras coisas, viver em um planeta em que seus algozes das SS foram deixados livres pelos EUA, para servir como linha de frente de um eventual conflito contra os mesmos soldados russos que o  libertaram de Auschwitz, assim como teriam libertado também Wiesel, se este não tivesse sido transferido antes para Buchenwald.

LISTA DE SCHINDLER

No filme “A lista de Schindler”, o diretor Steven Spielberg narra saga de um empresário de sangue alemão nascido na Morávia, antiga Tchecoslováquia, em sua luta para salvar, corrompendo oficiais nazistas, cerca de mil prisioneiros judeus que trabalhavam para ele, em uma fábrica instalada dentro do campo de Plaszow, na Polônia.

Quando de sua libertação, os “judeus de Schindler”, escolhem uma frase para honrar a escolha de seu benfeitor, de tê-los livrado da morte nos campos de extermínio: “Quem salva uma vida, salva o mundo inteiro.”

Gostaria de pensar que os judeus da “Lista de Gaza” que assinaram o manifesto nos EUA, foram escolhidos por Deus para sobreviver porque sua coragem os fez enfrentar de cabeça erguida o nazismo e os campos de extermínio, da mesma forma que agora enfrentam o sionismo, em defesa da dignidade e da liberdade humanas.

O judeu universal que enriqueceu com sua combatividade e talento a caminhada da história, não faz distinção entre o judeu e o não judeu. Para ele, assim como para os “judeus de Schindler”, cada ser humano, judeu, palestino, brasileiro, é a humanidade inteira.

Na lista de Schindler, não dá para incluir mais ninguém.

Na “lista de Gaza”, eu colocaria, para honrá-lo, mais um nome: o do professor João Monteiro, do Colégio Andrews, que tentou, com algumas perguntas, ensinar seus alunos a pensar, e foi demitido por isto.

O Brasil e os próximos anos

Mauro Santayana
(Jornal do Brasil) 

À medida que estamos mais perto da eleição, se evidencia também a necessidade de avaliar as opções estratégicas que aguardam o Brasil nos próximos anos.

Hoje, muita gente acha que se nos aproximarmos muito do mundo em desenvolvimento, como a América do Sul, África e as potências emergentes às quais estamos unidos no BRICS – Rússia, Índia, China, África do Sul – estaremos nos afastando cada vez mais da Europa e dos EUA.

Há, entre certos tipos de brasileiros, os que continuam cultuando apenas o que existe em Nova Iorque, Miami ou Paris, como se não existisse mais nada neste mundo, e os arranha-céus mais altos do planeta não estivessem sendo construídos – para ficar apenas no símbolo de modernidade e pujança das “skylines” que fizeram a fama dos EUA – em cidades como Moscou, Dubai, ou Xangai.

Ataca-se a China por censurar o Google, mas não se atacam os EUA por usarem a internet para espionarem e chantagearem milhões de pessoas em todo o mundo, incluindo nações de quem se dizem “aliados” como é o caso do Brasil e da Alemanha.

Atacam-se os países do MERCOSUL por nos impor barreiras comerciais, mas não a Europa e os Estados Unidos por terem feito conosco exatamente o mesmo, nos últimos 200 anos, bloqueando – sempre que puderam – o desenvolvimento de tecnologia em nosso continente e absorvendo, antes e depois de nossa independência, basicamente matérias-primas.

MERCOSUL

Muitos esquecem que o MERCOSUL, com todas suas barreiras, continua o maior, e, às vezes, o único destino para nossas manufaturas. Que só para países como a Venezuela temos aumentado nossas exportações nos últimos anos.

Isso, enquanto têm diminuído nossas vendas e nossos ganhos – e os do resto do mundo – com a Europa e os EUA, no esteio das consequências de uma crise que já dura vários anos e que teve sua origem na desorganização e irresponsabilidade de do sistema financeiro que está sediado ao norte da linha do Equador.

A pergunta que cabe que nos façamos nos próximos anos é a seguinte: a que mundo pertencemos?

Ao da Europa e dos EUA, que sempre nos trataram como colônia e cidadãos de segunda classe a ponto de termos tido milhares de brasileiros expulsos de seus aeroportos há pouquíssimo tempo?

Ou ao mundo em desenvolvimento, onde a cooperação e a necessidade de agregar centenas de milhões de pessoas a uma vida mais digna abre a porta para a oportunidade da realização de acordos e negócios que podem influenciar e melhorar também nosso futuro?

ÁREA DA DEFESA

Assim como ocorre na área comercial e diplomática, o Brasil precisa melhorar sua condição de negociação com os EUA e a Europa na área de defesa, usando, para isso, a perspectiva e a ameaça, sempre presentes, de nos aproximarmos, também nessa área, cada vez mais dos BRICS.

Os Estados Unidos e a Europa sempre se mostraram refratários a transferir tecnologia sensível ao Brasil e a outras nações latino-americanas.

Os avanços conseguidos nesse campo pelos governos militares foram feitos a fórceps, como ocorreu nas áreas bélica e aeroespacial, depois do rompimento, pelo Governo Geisel, dos acordos de cooperação com os EUA na área militar, e a aproximação com a Alemanha no campo da utilização pacífica da energia atômica.

Os países “ocidentais” só aceitam transferir um mínimo de tecnologia bélica para países como o Brasil, quando a isso se veem obrigados pelas circunstâncias.

Isso ocorre no caso em que estejamos prestes a alcançar certos avanços sozinhos – e aí eles se aproximam para “monitorar” e “medir” nossos avanços- ou se tivermos outros parceiros, como China ou Rússia – dispostos a transferir para nossas empresas, técnicos ou cientistas, esse conhecimento.

REARMAMENTO

Depois do tímido esforço de rearmamento iniciado na última década, virou moda, nos portais mais conservadores, se perguntar contra quem estamos nos armando, se vamos invadir nossos vizinhos, ou, ridiculamente combater os Estados Unidos.

Muitos se esquecem, no campo da transferência de tecnologia na área de defesa, que sempre fomos tratados pelos Estados Unidos como um inimigo ao qual não se deve ajudar, em hipótese alguma, a não ser vendendo armas obsoletas ou de segunda mão.

No programa FX, de compra de caças para a Força Aérea, a BOEING norte-americana só concordou em transferir tecnologia para a Embraer – acordo que teria, antes de concretizado, de ser aprovado pelo congresso norte-americano – depois que os franceses, com o RAFALE, e os suecos, com o GRIPPEN NG BR, já tinham concordado em fazer o mesmo. E isso quando vários oficiais da Força Aérea Brasileira se manifestavam nos fóruns, torcendo abertamente pelo SUKHOI S-35 russo.

O melhor exemplo do que pode ocorrer, em caso de conflito, principalmente com algum país ocidental, se dependermos da Europa ou dos EUA para nos defendermos, é o argentino.

Na Guerra das Malvinas, as mesmas empresas que, antes, forneciam armas e munição para que o Regime Militar massacrasse a população civil, em nome da “guerra interna”, das “fronteiras ideológicas” e do “anticomunismo”, deixaram de fornecer armas e peças de reposição às forças armadas daquele país, para que não fossem usadas contra a Inglaterra.

SOB CONDIÇÕES

Os Estados Unidos só concordariam em fornecer armamento avançado ao Brasil, mas nunca no nível do deles, caso aceitássemos nos transformar em seus cães de guarda na América do Sul, como o faz Israel no Oriente Médio; ajudássemos a criar uma OTAN no hemisfério sul; ou concordássemos, como é o caso da Itália ou a Espanha, em participar em “intervenções” como as feitas por Washington em países como a Líbia, o Iraque e o Afeganistão, correndo o risco de indispor-nos com milhões de brasileiros de origem árabe e de virar, de um dia para o outro, alvo de ataques, em nosso próprio território, de organizações radicais islâmicas.

Nos últimos anos, conseguimos desenvolver uma nova família de armas individuais 100% nacional, as carabinas e fuzis IA-2, da IMBEL; uma nova família de blindados leves, a Guarani, dos quais 2.050 estão sendo construídos também em Minas Gerais; desenvolvemos o novo jato militar cargueiro KC-390, da Embraer, capaz de carregar dezenas de soldados, tanques ligeiros ou peças de artilharia; voltamos a fortalecer a AVIBRAS, com a compra do novo sistema ASTROS 2020, e o desenvolvimento de mísseis de cruzeiro com o alcance de 300 quilômetros; estamos construindo no Brasil cinco novos submarinos, um deles a propulsão nuclear e reator nacional, com a França, um estaleiro e uma nova base para eles; desenvolvemos a família de radares SABER; foi fechada, com transferência de tecnologia e desenvolvimento conjunto com a Suécia, a construção em território brasileiro de 36 caças GRIPPEN NG-BR (foto); conseguimos fazer, no Brasil, a “remotorização” de mísseis marítimos EXOCET; foi fechada a transferência de tecnologia e está sendo desenvolvido, com a África do Sul, o novo míssil ar-ar A-DARTER; foram comprados novos navios de patrulha oceânica ingleses; helicópteros e baterias antiaéreas russas; e aumentou-se a aquisição e a fabricação de helicópteros militares montados na fábrica da HELIBRAS.

CONTINUIDADE

Esses projetos, que envolvem bilhões de dólares, não podem, como já ocorreu no passado, ser interrompidos, descontinuados ou abandonados, nos próximos anos, pelo governo que assumir o poder a partir de janeiro de 2015.

Vivemos em um planeta cada vez mais multipolar, no qual os Estados Unidos e a Europa continuarão existindo e seguirão tentando lutando para se manter à tona contra uma lógica – e inexorável – tendência à decadência econômica, militar e geopolítica.

Nesse contexto, os EUA e a Europa têm que ser olhados por nós como potências que estão no mesmo plano, militar ou político, que a China, a Rússia, a Índia ou o próprio Brasil.

Como quinto maior país em população e extensão territorial, o Brasil tem a obrigação de negociar, e entrar no jogo, com todas essas potências, de igual para igual, e, nunca mais de forma subalterna. Sob a pena de perder o lugar que nos cabe neste novo mundo e neste novo século.

A imprensa ocidental e o gueto de Gaza

Mauro Santayana
(Revista do Brasil)

Nas últimas semanas tem chamado a atenção, mais uma vez, a diferença de tratamento entre dois temas e dois países: a Rússia, no âmbito da crise ucraniana, e ­Israel, no contexto de seu confronto com o Hamas e a destruição física e humana da Faixa de Gaza. Moscou – cujo governo pode ter, naturalmente, seus defeitos – tem sido acusada de agir como potência agressora no país vizinho, quando, na verdade, está defendendo o último espaço teoricamente neutro que lhe restou após a queda do muro de Berlim. Quando do fim da União Soviética, e do próprio desarme nuclear da Ucrânia, os Estados Unidos comprometeram-se a não atrair os países do antigo Pacto de Varsóvia para a órbita da Otan, e, assim, não cercar, com tropas hostis, o território russo.

De lá para cá, em menos de 20 anos, várias nações, entre elas a República Tcheca, a Hungria e a Polônia, abdicaram de qualquer neutralidade e se agregaram à aliança ocidental, envolvendo a Rússia com um anel de aço. Nele, não existem apenas soldados inimigos, mas também podem ser colocados mísseis com capacidade de atingir as principais cidades do país em poucos minutos, e em menos da metade do tempo do que levariam suas armas nucleares para chegar ao território dos Estados Unidos.

Quando da “independência” da Ucrânia, em 1989, ficaram dentro de seu território milhões de russos étnicos que haviam compartilhado durante anos, com os ucranianos, a cidadania soviética. Esses cidadãos não aceitam se aliar ao “ocidente” para combater sua própria gente, sua própria história, sua própria cultura, que estão também nos territórios russos que existem do outro lado da fronteira.

GÁS SUBSIDIADO

Antes da queda do governo que estava no poder até fevereiro, os russos subsidiavam o gás vendido à Ucrânia, e procuravam estabelecer com ela maiores laços econômicos, para que o país não caísse totalmente sob a influência dos Estados Unidos e da União Europeia. Manobras ocidentais romperam o precário equilíbrio existente dentro da sociedade ucraniana, levaram à queda de Yanukovich e à ascensão, pela primeira vez depois da Segunda Guerra Mundial, de membros de partidos neonazistas a um governo de um país europeu. A isso, se seguiu a ocupação, por Putin, da mais russa das regiões ucranianas, a Crimeia. Por mais que a imprensa dos Estados Unidos diga o contrário, no mundo real nem o governo ucraniano nem o atual governo israelense podem ser “vitimizados”.

O magnata Petro Poroshenko chegou ao poder no rescaldo da derrubada de um governo eleito, sob um pretexto que até hoje é colocado em dúvida: a morte de civis na etapa final das manifestações da Praça­ Maidan, por policiais ligados ao regime anterior, quando, na verdade, há fortes indícios de que os tiros foram disparados por franco-atiradores neonazistas, interessados em criar um fato que servisse de “ponto de virada” na situação ucraniana.

No caso da derrubada, não do governo Yanukovich, mas do avião malaio que caiu no leste da Ucrânia, é preciso perguntar: a quem interessava o crime?

QUEDA DO AVIÃO

Com vários aviões de guerra abatidos nas últimas semanas, e impossibilitado de retomar, pelas armas, grandes cidades como Donetsk e Karkhov, o governo ucraniano encontra na queda de um avião civil, com grande número de passageiros ocidentais a bordo, um excelente “ponto de virada” para tentar impedir que os independentistas de etnia russa continuassem a derrubar suas aeronaves, e colocar Putin contra a parede, obrigando-o, por sua vez, a pressioná-los.

Afinal, o presidente russo acabara de marcar importantes pontos em seu jogo de xadrez contra os Estados Unidos, retornando de vitoriosa viagem à América Latina, na qual participara da criação do Banco e do Fundo de Reservas do Brics, e mostrara que tem suficiente jogo de cintura para se furtar às tentativas “ocidentais” de isolá-lo internacionalmente.

E o que teria ocorrido, caso – como disseram fontes russas – tivesse sido atingido o avião de Vladimir Putin, que cruzou a mesma rota do voo da Malaysia Airlines? Os ucranianos não teriam da mesma forma – com a ajuda da imprensa “ocidental” e como fizeram com o avião malaio – acusado os rebeldes de ter derrubado o avião presidencial russo, por engano? Em todo caso, os últimos interessados e os que tinham mais a perder com a explosão do avião da Malaysia Airlines teriam sido exatamente os russos e os rebeldes ucranianos.

IMPRENSA OCIDENTAL

Enquanto a imprensa ocidental acusa os rebeldes e, eventualmente, o próprio Kremlin,­ de ter derrubado o avião de passageiros, Obama afirma que Israel – que acusa sem confirmação o Hamas de sequestro e assassinato de três adolescentes – “está apenas se defendendo”, na Faixa de Gaza, e é acompanhado, nisso, pelos mesmos “analistas” e editorialistas que atacam o comportamento da Rússia na Ucrânia.

Há pouca diferença dessas campanhas com outras, como a que afirmou, durante anos, sem nenhuma prova, que havia armas de destruição no Iraque. A imprensa nazista passou anos recorrendo ao mesmo tipo de gente, de “analistas” raciais a “entendidos” em geopolítica, para explicar e contextualizar os perigos do judaísmo para o mundo, e a sua vinculação com os bolcheviques comunistas.

Quando a Alemanha de Hitler dominava a Europa, os nazistas costumavam matar dez reféns para cada soldado alemão que sofria um atentado. Na ofensiva de Tel-Aviv em Gaza, a mídia “ocidental” parece achar normal que a proporção de civis mortos e feridos, seja de mais de 20 palestinos para cada israelense atingido em combate ou pelos foguetes artesanais do Hamas, e que boa parte do território – com mais de 4 mil habitantes por quilômetro quadrado – já tenha sido destruída, deixando mais de 100 mil desabrigados.

GERANDO ÓDIO

Ao bombardear mulheres e velhos, meninos e meninas, apartamentos e ruas de Gaza, Israel implantou, regou e alimentou, com ossos e sangue – como faziam os nazistas com suas experiências com repolhos no campo de extermínio de Maidanek – um ódio profundo e incomensurável em nova geração de palestinos, da mesma forma que, ao destruir o Iraque, os Estados Unidos abriram caminho para Bagdá e Mossul para os terroristas da Al Qaeda.

Quando se tornar impossível a sobrevivência e a permanência, dentro das estreitas fronteiras de sua gaiola de escombros, cercada por muros e arame farpado, dos quase 2 milhões de palestinos que vivem em Gaza, será que os israelenses se inspirarão em seus algozes de um outro gueto, o de Varsóvia? Lá, judeus de toda a Europa foram amontoados, sem água, luz, comida ou aquecimento, durante meses a fio, para morrer de tifo e outras doenças contagiosas. Finalmente, foram levados para campos – como Israel pode fazer com os palestinos – se quiser, teoricamente, assisti-los “humanitariamente”.

A outra opção é entrar – como fizeram os SS do Brigadeführer Jürgen Stroop há exatamente 71 anos – com tanques e lança-chamas no meio das ruínas, no Gueto de Varsóvia, e caçar, um por um, os sobreviventes, até o último homem, mulher ou criança, como se fossem ratos.

As ações do governo israelense são muito contestadas por parte da oposição israelense e também por integrantes da comunidade judaica espalhados pelo mundo. Mas a julgar pelo noticiário da imprensa “ocidental”, essas vozes dissonantes tampouco existem.

 

O chocalho e a serpente

Mauro Santayana
(Hoje em Dia)

Cascavel é o quinto município mais populoso do Paraná, e o nome dado às cobras dos gêneros Crotalus e Sistrulus, que possuem um chocalho característico na cauda.

Em Cascavel, há um presídio, no qual eclodiu, há três dias, uma rebelião. Presos ligados ao PCC denunciaram as más condições do presídio, exigiram e obtiveram a transferência de detentos para outras unidades e executaram vários reféns, decapitando um deles, e jogando outros de cima do telhado.

Com cimento, ferro e pedra, comprados pelo governo ou doados pela iniciativa privada, milhares de presos condenados, mantidos, hoje, em situação animalesca, poderiam trabalhar na construção de novas celas para o cumprimento de suas penas em condições mais dignas.

Milhares de vagas poderiam ser abertas, também, com assistência jurídica aos 40% da população carcerária que se encontram atrás das grades sem acusação formal, advogado, ou julgamento.

PEQUENOS CRIMES

Enquanto pequenos “traficantes” continuam a ser presos, às dezenas, todos os dias, com 20 ou 30 pinos de ácido bórico misturado com bicarbonato e menos de 100 reais em dinheiro no bolso, transformando-se, nas prisões, em aprendizes e “soldados” de organizações criminosas, não existe sequer uma lei que proíba fumar em parques públicos, para evitar que crianças e adolescentes sejam apresentados à merla e ao crack, quando estão matando aula da escola de segundo grau da esquina.

O sistema, se quisesse, poderia ter evitado a morte dos reféns assassinados no telhado do presídio de Cascavel, jogando bombas de gás lacrimogêneo, ou atingindo, de forma não letal, com o uso de “snipers” e balas de borracha, os detentos escolhidos para o papel de executores, garantindo, assim, a sobrevivência das vítimas, que – não importa o crime que tenham cometido – se encontravam sob custódia do estado. Mas não o fez.

Às vezes, é melhor deixar que os assassinatos e as decapitações ocorram, ao alcance das câmeras de televisão, por seu efeito “didático”.

DESUMANIZAÇÃO

Cenas como essas contribuem para a desumanização dos presos aos olhos da sociedade, e para que muitos justifiquem a tortura de detentos e a ocorrência de massacres como o do Carandiru. Não importa que, para isso, a Nação passe vergonha, e se evidencie, para o resto do mundo, as condições medievais que imperam em nosso país, na área prisional e de segurança, em pleno século XXI.

O que vimos em Cascavel esta semana poderia ter ocorrido, mais uma vez, em Pedrinhas, no Maranhão, ou em outras prisões em que se multiplicaram episódios semelhantes nos últimos anos.

É um símbolo da venenosa sopa que estamos cozinhando, dentro das prisões, com a mistura de preconceito, ignorância e incompetência, no trato da questão das drogas em nosso país.

É preciso saber ouvir – e interpretar – o som do chocalho da serpente, e mudar de rumo.

Paulo Bernardo, o BNDES e o leilão de 4-G

Mauro Santayana
(Jornal do Brasil)

A Justiça Federal de Brasília determinou que o BNDES divulgue, em seu site, informações detalhadas sobre todos os empréstimos a empresas públicas ou privadas feitos nos últimos dez anos, e, de forma atualizada, a partir de agora. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social recorreu, alegando sigilo bancário.

Para obrigar o banco a divulgar as informações, a justiça afirma que a instituição está sujeita à Lei de Acesso a Informações Públicas.

A primeira questão que se coloca, nesse caso, é a da isonomia. Ao exigir do BNDES que libere essas informações, em um mercado no qual compete com instituições nacionais e estrangeiras, a justiça prejudica a competição, e o país, dando injustificável vantagem à iniciativa privada, que teria acesso a informações, hoje, sigilosas, sobre a política de crédito do banco, sem necesitar – apenas pelo fato de pertencer a acionistas e controladores particulares – fazer o mesmo.

O segundo problema é de caráter estratégico. O BNDES tem, entre outras atribuições, a de financiar a exportação de serviços e equipamentos nacionais para o exterior, e, nisso, compete com instituições similares de outras nações, que, como ele, também se dedicam a apoiar empresas de seus respectivos países nos mercados internacionais.

SIGILO

Esses bancos estrangeiros, como o Eximbank norte-americano, o JBIC japonês, ou o BCE, que repassa recursos para diversas instituições europeias de fomento, tem suas respectivas estratégias de apoio a setores exportadores de ponta e também não tornam públicas suas informações, principalmente quando em fase de negociação de contratos.

Em alguns casos, como a exportação de armamentos e outros equipamentos estratégicos, as informações só podem ser divulgadas depois de dezenas de anos.

Se alguém acha que os EUA, a Europa, o Japão, a China, sobreviveriam nos mercados internacionais sem esse tipo de instrumento ou instituição, é ingênuo ou está mal informado.

Seria ótimo que, no cumprimento de sua missão de apoiar o desenvolvimento e o empresariado brasileiro, o BNDES só emprestasse dinheiro para empresas autenticamente nacionais, e não para multinacionais estrangeiras, que tem sido beneficiadas, nos últimos anos, com volumosos recursos públicos a baixo custo, até mesmo na hora de adquirir empresas brasileiras, como ocorreu, muitas vezes, nas privatizações dos anos 1990.

TELEFONIA

Esse é o caso, agora, da intenção do Ministro Paulo Bernardo, de pedir ao BNDES que financie o pagamento, por operadoras de capital estrangeiro, da outorga do serviço de telefonia celular 4G, em um valor aproximado de 8 bilhões de reais.

Normalmente, o BNDES não oferece financiamento para o pagamento de outorgas por empresas ao governo federal, mas sim – teoricamente – apenas para investimentos.

É preciso definir o que é e o que não é capital estrangeiro no Brasil.

Se a empresa é estrangeira, se ela envia, todos os anos, como fazem as operadoras de telefonia espanholas, mexicanas, italianas, bilhões de dólares para o exterior, se elas já pegam – como ocorreu com a Vivo, centenas de milhões de reais para financiar, a custo subsidiado, a expansão de sua rede e de suas atividades no mercado nacional – o mínimo que se espera é que tragam de fora, de suas matrizes, os recursos a serem pagos por outorgas que aumentarão extraordináriamente seus lucros, e o envio de mais dinheiro auferido dos consumidores brasileiros, para o exterior, nos próximos anos.

USAR O BNDES

O que não podemos é continuar a usar recursos do tesouro, ou do BNDES, para financiar empresários estrangeiros, em áreas como a de serviços de telefonia, onde a maioria dos equipamentos são importados e a maior parte dos empregos gerados pertencem ao âmbito do que se convencionou chamar de “telemarketing”.

Entendemos, de telefonia celular, a mesma coisa que entendiam os mexicanos, portugueses e italianos – longínquos descendentes de Marconi – que aqui aportaram no final do século passado, para se assenhorear da maior parte de nosso mercado de telecomunicações – rigorosamente nada.

Mas se for para não colocar um centavo e nos financiar com dinheiro do BNDES, também estaríamos dispostos a entrar nessa disputa do leilão de 4G.

Querendo dar a entender que é rigoroso com as operadoras, o Ministro das Comunicações (na foto, ao lado do risonho ex-vice presidente da ANATEL e atual presidente do grupo espanhol Telefónica do Brasil (Vivo) Antônio Carlos Valente) , afirmou que não irá postergar a realização do leilão, marcado para o próximo mês – como queriam a própria Telefónica e a Telecom Itália, que no momento estão se engalfinhando para tentar ficar com o controle da GVT.

“O governo não tem nada com isso”, afirmou. A mesma lógica deveria valer para o financiamento do pagamento das outorgas por empresas, que, em sua maioria, sequer são daqui. As multinacionais que se financiem com os recursos de suas matrizes. O BNDES não tem nada com isso, e muito menos o Brasil.

As sanções russas, a União Europeia e o acordo com o Mercosul

Mauro Santayana

Com dificuldades para fechar sua proposta comercial para o Mercosul, devido à resistência de seus próprios agricultores, a União Europeia está para  arranjar uma excelente desculpa para suspender as negociações.

O processo seria suspenso devido à disposição dos países do grupo, principalmente Brasil, Argentina e Uruguai, de substituir a Europa no fornecimento de comida à Rússia, após o embargo de Moscou à importação de alimentos da Polônia.

O discurso, para consumo interno, seria o seguinte: mais uma vez, nossa aproximação com o BRICS e o Mercosul, estaria “atrapalhando” nossa inserção no mercado dos EUA e da União Europeia, e fazendo com que estejamos perdendo espaço, no comércio internacional, para a Aliança do Pacífico.

Enquanto isso, no mundo real, nosso maior parceiro comercial não é nem os EUA nem a União Europeia, é a China, os maiores destinos para nossas manufaturas e bens de consumo são Argentina e Venezuela, nossos maiores superávits são com Pequim e Caracas, o salário mínimo mexicano equivale a 10.99 reais por dia e a “avançadíssima” Aliança do Pacífico só tem uma universidade entre as 200 melhores do mundo, a UNAM, enquanto o Brasil tem seis, e a USP, entre as primeiras 150, está à frente de qualquer universidade espanhola ou mexicana.

Destino, política e democracia

Mauro Santayana
(Hoje em Dia)

A trágica morte de Eduardo Campos, nos faz refletir, mais uma vez, sobre a implacável influência do destino na história dos povos e das Nações.

Para o homem público ou o eleitor engajado, a política tende a ser construção estratégica, que leva uma liderança ou grupo ao poder, como instrumento de mudança da realidade social e econômica de um país.Há, também, os que incluem nessa construção, a busca do consenso para o enfrentamento das grandes questões que afetam as sociedades em um determinado momento de sua história.

Esse entendimento, essa negociação, que nem sempre se dá apenas no Parlamento, é especialmente frequente nos meses que precedem a disputa de cargos eletivos, e vai da conversa entre  eleitores no bar da esquina, à disputa pelo município, pelo Estado e pelo País, dependendo do tipo de pleito que estiver em pauta.

Ao raciocinar sobre os fatos, analistas políticos, candidatos, eleitores, tendemos a observar a realidade à nossa volta, a tecer nossas conjecturas, e a amadurecer nossas opiniões, estabelecendo, com  maior ou menor convicção, nossas conclusões. Mas, também nos esquecemos, muitas vezes, que, além de todos e de tudo, existem outros fatores, entre eles, o imponderável.

Um ator que pode ser definitivo, dependendo da maneira como opera, corta, muda, influencia, o desenvolvimento dos acontecimentos.

TRÁGICOS EXEMPLOS

A história brasileira está cheia de trágicos exemplos dessa intervenção do destino, alguns, fruto da própria história, como o suicídio de Getúlio Vargas, que a isso foi levado pela odiosa campanha movida contra ele por Lacerda, os militares golpistas, e a imprensa anti-nacional que existia na época.

Desse rol faz parte, também, a renúncia de Jânio, tão premeditada quanto desastrada em suas consequências.

Outro é o caso em que o inesperado surge e se impõe independente de qualquer interferência humana provável, como foi a doença de Tancredo, ou, agora, da morte de Eduardo Campos, que ocorreu, por triste coincidência, no mesmo dia do falecimento de seu avô, Miguel Arraes.

Jovem, inteligente, cativante, Eduardo Campos deixou numerosa família, que nos inspira os melhores sentimentos de respeito e solidaridade.

INFLUÊNCIA NO PROCESSO

Seu desaparecimento, no entanto, da forma como se deu, interrompeu  não apenas sua própria vida e a de quem o acompanhava, mas o próprio curso político, e terá profunda influência no processo eleitoral.

Em outras épocas, uma tragédia dessa magnitude poderia trazer trágicas consequências para o país, as liberdades individuais e o estado de direito.

No Brasil de 2014, as reações à sua perda, de todo o espectro político, mostram que estamos, como sociedade, cada vez mais equilibrados, maduros e preparados, para conviver com as diferenças, em um ambiente de solidez das instituições e da própria democracia, pela qual lutaram, tantos brasileiros, incluindo aqueles que, hoje, ocupam as primeiras posições na disputa pela Presidência da República.

A conta de Gaza

Mauro Santayana
(Hoje em Dia)

Confrontado com a tragédia humanitária em Gaza, o Secretário-geral da Organização das Nações Unidas, Ban Ki-moon, declarou que o conflito entre Israel e o Hamas precisa ter fim, e que a ONU está disposta, “pela última vez”, a ajudar na reconstrução da área.

Na região, as coisas funcionam assim: Israel destrói o que quer, quando quer, e depois o mundo paga a conta, até o próximo ciclo de destruição/reconstrução/destruição.

A conta em sangue de Gaza, que chegava, anteontem, a mais de 1.900 palestinos mortos, sendo 1.380 não combatentes, entre eles 423 crianças, e a milhares de feridos, é incalculavelmente cara, e, como outros massacres históricos contra a população civil, jamais poderá ser resgatada.

Além do preço em vidas, dor, assistência médica de emergência, cuidados com pessoas que ficarão paraplégicas, tetraplégicas, e que precisarão de atenção pelo resto de suas vidas, há, ainda, o custo da reconstrução física do que está sendo arrasado pelas armas e bombas israelenses.

12 MI RESIDÊNCIAS DESTRUIDAS

Há uma semana, a ONU calculava que cerca de 12.000 casas e apartamentos já tinham sido destruídos, com um prejuízo de 4.5 bilhões de dólares, mas avaliações palestinas, que incluem estradas, escolas, hospitais e  outras instalações, chegam a 6 bilhões de dólares.

Segundo Mahir Al-Tabaa, Presidente da Câmara Comercial e Industrial de Gaza, 350 indústrias teriam sido bombardeadas, incluindo 50 fábricas essenciais para a sobrevivência da população.

Israel recebe todos os anos, bilhões de dólares em ajuda norte-americana. Se fossem condenados a devolver à Organização das Nações Unidas – e o Brasil, como país membro, e contribuinte, poderia trabalhar nesse sentido – o dinheiro que a ONU irá gastar para reerguer o que destruíram, talvez, embora seja improvável, os dirigentes israelenses viessem a pensar duas vezes antes realizar novos ataques.

SENTINDO NO BOLSO…

Mesmo contando com o apoio dos EUA, Israel sentiria, digamos, ao menos, no bolso,  a dimensão da destruição que está promovendo em Gaza.

E caso se recusasse a devolver esses recursos – como têm feito, desrespeitando, historicamente, as resoluções da ONU, organização que possibilitou-lhe a existência – a conta poderia ser apresentada aos EUA, que está armando Tel Aviv permanentemente, mesmo depois de iniciado o conflito.

Caso isso ainda não fosse possível, poderiam ser adotadas sanções e retaliações comerciais. Em último caso, o Israel seria, ao menos, moralmente, mais uma vez, condenado, por seus atos, pela maioria da humanidade.

Enquanto nos indagamos quem pagará a conta de Gaza, o que muitos palestinos se perguntam, nas tréguas intermitentes, seguidas da retomada da violência –  e depois de três agressões sionistas nos últimos seis anos – não é se poderão reconstruir suas casas, mas se seus filhos conseguirão, agora ou nos próximos anos, sobreviver à próxima bomba, ou a uma nova invasão  israelense.