Ao lado da Embaixada do Brasil, era preservada a misteriosa vida do Papa Inocêncio X

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Papa Inocêncio X, retratado pelo mestre Velázquez

Sebastião Nery

No dia em que se fizer o inventário completo das injustiças cometidas pelo golpe de 1964, é preciso contar a ignominia que foi a alegação para a cassação do embaixador do Brasil em Roma, Hugo Gouthier.

O simpático e civilizado Gouthier (que conheci embaixador do Brasil no Irã, no governo do Xá da Pérsia, antes de Khomeinni) foi cassado porque, no governo de Juscelino, comprou, para a sede da embaixada do Brasil em Roma, o Palácio Pamphilli. A UDN alegou que foi “uma negociata”. Não conheço negócio melhor para o país, feito por qualquer governo.

PALÁCIO INVADIDO – Os herdeiros da família Pamphilli não sabiam o que fazer do velho palácio barroco, ocupado desde a guerra por mais de 200 famílias, que viviam nos apartamentos dos fundos, impedindo a liberação dos magníficos salões com afrescos de Pietro da Cortona, toda uma galeria de Borromini e a belíssima arquitetura da Piazza Navona.

Gouthier comprou o “palazzo” com quatro promissórias e aos poucos foi tirando os moradores e desocupando tudo. Quando deixou a embaixada, o Brasil era dono da mais valiosa sede de embaixada em Roma (por 2 milhões, pagos em vários anos). Só as obras de arte que estão lá valem dezenas de vezes o que ele gastou. Qualquer multinacional daria hoje milhões de dólares para ter uma sede como aquela.

O palácio Pamphili vai da esquina da Piazza Navona até a Igreja de Santa Inês, em frente da qual fica a magnífica “Fonte dos Quatro Rios”, de Bernini, o mesmo que fez a colunata da Praça de São Pedro: Ganges, Nilo, Danúbio e Prata, até então os quatro maiores do mundo, pois ainda não conheciam o Amazonas.

Quando vendeu o palácio, a família Pamphili não quis vender também “o apartamento do Papa”, a parte que liga o palácio à Igreja de Santa Inês, da mesma altura do palácio, com os mesmos quatro andares, um anexo estreito, como se fosse uma casa de quatro andares.

RECANTO DO PAPA – Ali o Papa Inocêncio X (Cardeal Giovanni Battista Pamphili), que construiu o palácio para a cunhada Olímpia Maidalchini, depois de 1600, ficava hospedado quando ia passar os fins de semana com ela. Até hoje estão lá, originais, a cama, os móveis, os objetos todos.

Essa mulher era uma megera, cobrava impostos sobre pão e água que o povo consumia. Conta a lenda romana que o Papa não dormia apenas lá. Dormia também com a cunhada viúva. E até hoje há quem diga que, nas noites sem lua, se ouve a carruagem de Dona Olímpia fazendo barulho na praça e nos apartamentos da embaixada. (Quando Adido Cultural do Brasil morei lá, na embaixada, um punhado de tempo, e dona Olímpia não me deu a graça de vê-la nem de ouvi-la).

No contrato de compra do palácio, Gouthier pôs um item deixando para o Brasil a opção de compra do “apartamento do Papa”. Quando a família resolveu vender, foi no governo Figueiredo. Não sei quem era o embaixador do Brasil. Devia ser um cabeça de bagre. Pediram 800 mil dólares. O Brasil, que tinha direito de compra, não quis comprar. Continuaram achando que era “a negociata de Gouthier”.

GRANDE NEGÓCIO – O Brasil não quis, Berlusconi (o Roberto Marinho de Roma, dono de televisões, revistas e jornais, depois deputado e primeiro-ministro) comprou por 10 milhões de dólares (só o apartamento, menos de 10% do edifício todo, que o Brasil comprou por 2 milhões, em vários anos).

Depois, Berlusconi vendeu “o apartamento do Papa”. Por 15 milhões de dólares.

E pensar que uma das razões da cassação de Juscelino por Castelo Branco foi ter autorizado a compra do Palácio Pamphili para a embaixada do Brasil. E a de Gouthier também.

A demissão de Said Farhat e a morte de Petrônio Portela, os “operários da abertura”

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Said Farhat exigiu de João Figueiredo a redemocratização do país

Sebastião Nery

Jornalismo é o fato. A notícia, a informação. Depois é que vem a análise. O ideal é quando o jornalista pode dar a notícia em cima do fato. Mas, muitas vezes, a maioria das vezes, só decorrido algum tempo é que temos o fato em todos os seus dados, Como a lua, a informação não nasce de vez. Ela se vai corporificando aos poucos, através da costura de numerosos elementos dispersos.

Essas histórias que conto hoje não poderia ter contado no primeiro instante. Primeiro, para não expor as fontes de informação. Mas, principalmente, porque só agora a versão surge clara, redonda, luminosa. Como uma lua, cheia de consequências políticas.

FARHAT SE DEMITE – Logo depois dos incidentes de Florianópolis, o ministro Said Farhat, da Comunicação Social, entrou cedo no gabinete do Presidente Figueiredo.

Não podia continuar no governo e por isso apresentava seu pedido de demissão, que pedia ao Presidente para aceitar. Desde o primeiro instante, ele deixara claro que ia para o governo ajudar o Presidente em seu projeto de abertura política, único caminho viável para o Brasil transformar-se numa nação socialmente equilibrada e economicamente poderosa.

Figueiredo atalhou logo dizendo que aquele era, é e continuaria sendo o objetivo de seu Governo. Por isso, não estava entendendo o gesto do ministro e amigo.

Farhat pôs o dedo na ferida. Disse ao Presidente que dentro do Planalto não havia essa unanimidade que ele imaginava em torno do projeto de abertura, ao menos em torno do ritmo, da velocidade do projeto. Alguns tinham, dentro de si, um projeto diferente e sempre agiam em função disso. Com os episódios de Florianópolis, haviam chegado a um nível intolerável as disfarçadas ou indisfarçadas hostilidades a ele, Farhat. Por isso, achava que devia sair para que o Presidente pudesse montar uma equipe realmente unida.

Figueiredo cortou a conversa textualmente: – “Nós dois viemos para cá realizar juntos um projeto de Governo. Só sairemos juntos. Não aceito a demissão de maneira nenhuma”.

MORTE DE PETRÔNIO – Um jornal de manchetes sensacionalistas poderia ter noticiado assim a morte do ex-ministro da Justiça – “Petrônio Assassinado pelo Planalto”. A Bíblia ensinou que ao homem não é dado discutir os desígnios da Providência. Mas, a notícia humana, exata, da morte do “operário da abertura” (a inteligente manchete do Correio Braziliense), mostra que a candidatura de Petrônio à Presidência da República em 1984 é que foi a responsável por todos os equívocos médicos que deixaram um ministro da Justiça morrer com uma assistência médica tão minguada.

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Petrônio Portela era o candidato civil à Presidência

Primeiro, ele já tinha passado muito mal na noite de quinta para sexta-feira durante uma viagem de Florianópolis para Laguna onde foi representar o presidente. Volta de helicóptero para Florianópolis. Chega a Laguna, faz o eletrocardiograma, acusa o enfarte. Não aceitou ficar internado.

Petrônio exigiu dos médicos levarem-no para Brasília. Na Casa de Saúde Santa Lucia, o eletro acusa o enfarte em Santa Catarina mas Petrônio não aceita ficar internado. Em casa teve o segundo enfarte e não resistiu.

UM OBSTINADO – Como exigiu, sempre falavam em distúrbio gástrico, que era consequência e não causa. “Eu sempre fui obstinado”, ele me dizia na entrevista que o Correio Braziliense publicou. No fim de todo seu longo projeto de abertura estava, já mais ou menos pacífica, sua candidatura civil (a única até então aceita pelo sistema) para a sucessão de Figueiredo.

Petrônio sabia que, com um pulmão só, na hora em que entrasse em um CTI enfartado, temporariamente afastado do Ministério, os adversários de sua candidatura teriam o argumento definitivo: “É um doente, não pode”.

Ele se obstinou para derrotar a morte e ganhar o poder. Não conseguiu. E deixou a Nação perplexa e com medo da abertura sem seu operário.

O ‘Pathê’, que se recusou a ser Pateta, fez um tremendo sucesso em Moscou

Resultado de imagem para José FayermannSebastião Nery

Chamava-se Pathê, José Fayermann Pathê, e Fayermann dos pais judeus, Pathê de uma bola na cara. Goleiro do time do grupo escolar, tomou uma bolada no rosto que o levou ao hospital. Voltou com o apelido: Pateta. Fez um acordo com os colegas:

– “Pateta não. Então fica Pathê”.

Ficou. Encontrei-o como Pathê no Festival Mundial de Juventude em Moscou, 1957, aluno da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo e membro da nossa numerosa delegação brasileira, chefiada pelo saudoso socialista paulista Rogê Ferreira.

ERA A ALEGRIA – Alto, magrelo, narigudo, avermelhado, desengonçado, muito feio, Pathê era a própria alegria. E, com um violão que desafinava, ele cantava pelas varandas e corredores do Hotel Zariá, perto da Universidade, elevando e conquistando garotas de outros países com sua voz forte, poderosa, como um Aznavour do Braz. Mas só sabia três músicas: “Conceição”, “Trem das Onze” e “Aquarela do Brasil”.

Um dia, fomos levados para um festival artístico na Associação Soviética de Escritores. Um salão enorme, como um ginásio, apinhado, centenas de pessoas. Cada país subia no palco e ia apresentando suas coisas: balé, circo, música clássica, danças folclóricas, grupos musicais. E de repente demos conta de que a delegação brasileira não tinha sido avisada e não ia apresentar nada. Ia ser uma humilhação, um vexame.

Tive uma ideia maluca: só o Pathê. Levamos o Pathê para uma sala e uma comissão o enquadrou no centralismo democrático da sagrada solidariedade e amizade dos povos. Ele tinha que salvar o Brasil. Tinha que cantar. Pathê tremia, quase chorava, apavorado. Arranjamos um violão com os colombianos, comandados pelo jovem Gabriel Garcia Marquez, enfiamos na mão de Pathê e o anunciamos:

– “Agora, o jovem e consagrado cantor-revelação do Brasil, Pathê”.

SALTOS E MURROS – Pathê enlouqueceu. Sentado atrás, tremendo e xingando, de repente se levanta transtornado e transformado, suspende o violão sobre a cabeça, com a mão esquerda, e atravessa a longa passarela até o palco dando saltos e murros no ar com a mão direita, como um enlouquecido. O auditório, até então muito barulhento, ficou em absoluto silêncio.

Pathê puxou uma cadeira, pôs um pé em cima, bateu forte no violão e começou:

– “Conceição, estava no morro a sonhar”…

A cara vermelha parecia uma placa de sangue e o vozeirão explodiu:

– “Se subiu, ninguém sabe, ninguém viu”.

Começaram os aplausos, Pathê andava furioso pelo palco, arrastando o microfone, sacudindo o violão, acabou “Conceição” e emendou com “Aquarela do Brasil”. Um delírio. Aqueles milhares de jovens do mundo inteiro batendo palmas ritmadas e os pés no chão e Pathê, aos pulos, ao fim de cada estrofe, gritava:

“Moscou de pé aplaude, Pathê, Pathê, Pathê!

E o auditório, já também endoidado, repetia:

– “Pathê,Pathê, Pathê”!

Naquela tarde, em Moscou, não sobrou nada para o circo dos chineses, as valsas dos austríacos, as piruetas dos cossacos, para ninguém. Como um Elvis Presley dos trópicos, Pathê tomou conta da festa.

Santorini, a ilha vulcão da Grécia, recebe mais turistas do que o Brasil

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Meca do turismo, Santorini é considerada a mais bela ilha grega

Sebastião Nery

Ela vem voando, leve, linda, longe, toda branca. Como uma flecha de Deus. Vai chegando perto, cada vez mais perto, o bico estirado, as asas presas, os pés retos. A um metro. Vejo-lhe, perfeitamente, os olhos úmidos, miúdos, infinitos. Jogo um pedaço de pão, ela pega, passa. E faz uma doce, graciosa, sensual curva sobre o mar. É a gaivota. Um “claro” do Mar Egeu.

Outras vezes as vi, aqui, na primavera, no verão. É surpreendente que sejam as mesmas no outono e no inverno. O mundo inteiro tem gaivotas, as bailarinas do mar. Gostam de seguir os barcos, os navios. São inesquecíveis as de Rotterdam, Liverpool, Hamburgo, Nápoles. São marinheiras dos céus. Vivem sobretudo nos portos, nos golfos, atrás do que resta dos barcos no mar.

ESQUADRILHAS – Mas, como as daqui da Grécia, os “claros”, jamais vi. Milhares e milhares, incansáveis, esquadrilhas voando baixo, rente ao navio, dando mergulhos nas águas balançadas ou sobre o convés. E são democráticas. Não invadem as ilhas e os portos das outras. Seguem os navios até certo ponto e voltam.

Daí a pouco, quando começa a aparecer outro porto, outra cidade, outra ilha, lá vêm outras gaivotas, outros “claros”, não mais as que ficaram atrás, mas as dali. E o balé sobre o navio e o mar começa de novo.

De avião, de carro com “ferry-boats” ou de navio, se vê a Grécia e suas ilhas encantadas. A vantagem do navio começa pelas gaivotas.

ATLÂNTIDA – A lenda é a primeira doida da história. É ela quem diz que aqui em Santorini foi a Atlântida, de que falavam os papiros egípcios e sobre a qual escreveu Platão (no “Timeon” e no “Criton”): “Um grande e admirável Estado, soberano de outras ilhas, duas, uma maior e outra menor” (a maior era Creta e a menor Santorini).

Em 1625 antes de Cristo, o coração da ilha explodiu, o mar invadiu, formou uma grande baia, uma caldeira, de 10 quilômetros de comprimento e 7 de largura e as águas profundas de 400 metros.

É uma das mais belas e extravagantes paisagens do universo. Lá embaixo o mar muito azul, cercado de escarpas pretas, marrons, rosas, brancas e verde claro, que passam de 300 metros de altura e sobre elas as casas brancas, como de bonecas. Os gregos têm razão de dizer que é a mais bonita das ilhas do país.

SEM ÁGUA – O centro é a velha cidadezinha de “Thera”, anterior ao Império romano, hoje Fira. Toda ilha não tem água nenhuma, nem rio nem lago. É só água de cisterna e de chuva. E o vulcão ainda é ativo. De quando em quando acorda de mau humor e cospe fogo. O solo vulcânico tem sua serventia: 36 variedades de uvas. A maior produção da ilha é vinho (“tinto, forte, levemente doce, que vem ganhando sucesso internacional”). Um dos vinhos é muito bom, ao menos o nome: “Nery”. É daqui o “Boutari”, o mais conhecido dos vinhos gregos.

O “Mosteiro de Profitis Elis” (profeta Elias), no alto da montanha, é um orgulho nacional: fundado em 1711, durante séculos, quando os turcos invadiram, ocuparam e devastaram a Grécia, foi uma escola secreta, ensinando a língua e a cultura grega.

Uma ilhazinha tão pequena (embora tão fantástica) recebe tantos turistas quanto o Brasil inteiro.

Uma viagem com Jorge Amado e Zélia Gattai, até os mistérios da Sicília

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Ele não queria ir de avião. Preferia o trem, de Roma até o sul da Itália e de lá para a Sicília. Zélia Gattai, a mulher, e Paloma, a filha, achavam demorado. Acabou se convencendo e voamos direto para Palermo. Jorge Amado passou em Roma em 1990, deu entrevistas como sempre, participou como jurado da entrega do “Prêmio Internacional União Latina de Literatura” e fez um debate no “Centro de Estudos Brasileiros”, na embaixada brasileira, ali na magnífica Piazza Navona, onde eu era adido cultural.

Ele ia receber em Palermo, capital da Sicília, o “Prêmio Mediterrâneo”, mais importante da Sicília.

EMBAIXADOR – Jorge foi, durante décadas, o embaixador da cultura brasileira no mundo e o autor brasileiro mais lido em todos os países. Zélia Gattai fez muito bem em eternizá-lo, fazendo da casa do Rio Vermelho o “Memorial Jorge Amado”.

Nas ruas de Roma, nas esquinas da Sicília, era inacreditável a alegria do casal Hilda e Geangaspare Ferro em Palermo, ela brasileira, numa feijoada perfeita, estavam quatro casais que se conheceram por causa dos livros dele.

Eram italianos ou italianas que descobriram o Brasil, a Bahia, o Rio, nos livros dele, vieram conhecer o país, aqui encontraram brasileiras ou brasileiros, conheceram-se, casaram e foram agradecer a Jorge, santo casamenteiro. E algumas belas Gabrielas nascidas do romance de 1958.

MISCIGENAÇÃO – Na Faculdade de Línguas e Literatura de Palermo, com os muros cobertos de slogans da esquerda, Jorge dez, durante horas, um debate com os estudantes. O que eles mais queriam saber era como o Brasil conseguiu misturar suas raças e a Europa vive cada dia mais envolvida no brutal conflito entre suas populações nativas e os imigrantes. Jorge ensinou sua sabedoria:

“Racismo só acaba na cama. Quando o primeiro português amou a primeira índia, começava no Brasil o mistério da nossa língua e nossa Nação”.

À noite, na entrega do prêmio, no Parlamento lotado, lá estava a Sicília oficial: o governador da província, o presidente do Parlamento regional, o pomposo cardeal Salvatore Pappalardo, escritores, professores, jornalistas.

AVÓ MAFIOSA – O grego Homero a chamou “Ilha do Sol”. Mas quem a definiu foi Goethe: “Sem ver a Sicília, não se pode fazer uma ideia da Itália. É na Sicília que se encontra a chave de tudo”. Tomasi di Lampedusa, escritor siciliano, disse no clássico “Il Gattopardo”.

– “Somos velhos, velhíssimos. Há 25 séculos, ao menos, carregamos mas costas o peso de magníficas civilizações heterogêneas, todas vindas de fora, nenhuma germinada aqui. Somos tão brancos quanto a rainha da Inglaterra. No entanto, há 2 mil anos somos colônia”.

A Sicília não é filha da Itália. É mãe. Não veio do Império Romano. É anterior. A civilização grega, antes de chegar a Roma, já estava na Sicília. Roma é a mãe da Europa. A Sicília é a avó. Uma vovó mafiosa, mas vovó.

PALERMO – Os fenícios, já instalados no norte da África, em Cartago, chegaram à Sicília e criaram sua primeira cidade, Panormo, hoje Palermo matriz fenícia e grega, depois romana, da Europa. Só no século III antes de Cristo, Roma chega à Sicília, com Pirro, para ajudar os gregos contra os fenícios. Roma derrota Cartago, expulsa os gregos e fica dona da ilha.

Durante séculos a Sicília foi o mais importante centro da civilização ocidental: desde o ano 1000 antes de Cristo, com os fenícios; depois, nos anos 500 antes de Cristo, com os gregos; antes de Roma foi o centro do Império Romano, com os romanos; e com os normandos, quando o Império Romano desabou, até 1250, quando morreu Frederico II e os franceses e espanhóis, protegidos pelos Papas, puseram a Sicília em séculos de opressão.

Primeira universidade do mundo e primeiro parlamento do mundo, em Palermo, em 1130, a Sicília surpreendeu Jorge Amado. Na catedral, flores frescas, do dia, no tumulo de Frederico II, “o rei sábio”, enterrado lá. Até hoje o povo enfeita sua morte, uma espantosa ternura por quem viveu até 1250.

No folclore político, Golbery explicava a diferença entre “informe” e “informação”

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Golbery era uma espécie de Rasputin brasileiro

Sebastião Nery

Para preencher cargos-chave do governo, havia norma de consultar o SNI (Serviço Nacional de Informações), para saber os antecedentes da pessoa. Logo que o governador Paulo Egídio assumiu o ministério (Industria e Comercio, do governo Castelo), Golbery explicou: “A diferença entre um informe e uma informação é a seguinte: o informe é “ouvi dizer”, é para ser verificado, é um primeiro boato. A informação é um fato que está comprovado. Quando você receber uma informação com um visto meu, é para cumprir”.

Um dia recebeu uma informação com o visto do Golbery, dizendo que um alto funcionário do Ministério era um pederasta que mantinha relações com contínuos no gabinete dele. Pedia que o demitisse.

NÃO DEMITIU – Começou a levantar a vida do tal rapaz. Como não constatou nada, não assinou nenhum decreto. Golbery cobrou:

– Ministro, lamento muito mas não constatei aquelas informações.

– Paulo eu não disse a você que uma informação com o meu visto era para ser cumprida?

– O senhor disse, mas acontece que caberia a mim a responsabilidade de exonerá-lo. Não constatei nada. Não cumpri.

– Mas isso é muito grave. Precisa ser cumprido.

– Então ponha outro ministro no meu lugar, porque não vou cumprir.

Na saída de uma outra reunião, Golbery deu-lhe um tapinha nas costas:

– Paulo, você se lembra daquele caso? Você tinha razão. Era um homônimo. Assunto encerrado”.

AUMENTO PROIBIDO – “Castelo tinha assinado um decreto, publicado no Diário Oficial, proibindo o aumento de salário dos procuradores públicos. Leônidas Bório, considerando o IBC (Instituto Brasileiro do Café) uma autarquia, concedeu um aumento aos procuradores do Instituto. O presidente interpelou Bório diretamente:

– O senhor não comunicou ao seu ministro. Como explica isso?

– Sou presidente de uma autarquia e considero que cabe a mim.

– O senhor não está entendendo a política de meu governo. Não está entendendo coisa alguma. Vai ter que revogar isso de qualquer maneira.

O presidente bateu na mesa, ficou transtornado. Foi uma cena muito desagradável.

Bório recuou, foi até o fim do governo como presidente do IBC.

EM LIMOEIRO… – O coronel Chico Heráclio, de Limoeiro, o mais poderoso do Nordeste, jogou tudo em 1950 na campanha de Agamenon Magalhães contra João Cleófas, para governador de Pernambuco. Deu-lhe mais de 70% dos votos de sua região. Depois da eleição, foi ao palácio. Agamenon eufórico:

– Chico, use e abuse de meu governo.

– Muito obrigado, governador. A secretaria da Fazenda e a de Segurança o senhor não dá a ninguém. As outras não valem nada. Só peço para colocar água em Limoeiro e pelos meus amigos, quando for preciso.

Um dia, voltou ao palácio para pedir a Agamenon a aposentadoria de um amigo, juiz com poucos anos de função. Agamenon não podia atender:

– Mas, Chico, isso é muito difícil.

– Se fosse fácil, eu não vinha lhe pedir. Governo existe para fazer as coisas difíceis. As fáceis a gente mesmo faz.

O CARROCEIRO – Zé Pequeno era o líder dos carroceiros de João Pessoa. Comandava desfiles de carroças em homenagem ao interventor Argemiro Figueiredo e ao prefeito Fernando Nóbrega, na ditadura de Getulio Vargas.

De repente, Argemiro caiu, Nóbrega também. Zé Pequeno guardou sua carroça, plantou-se dentro de casa. Um dia, dois, ninguém o viu mais. No terceiro dia, engraxou os sapatos, vestiu a roupa de domingo, pôs a gravata e passou pela casa de Fernando Nóbrega:

– Chefe, vou ao palácio apoiar o novo interventor, Rui Carneiro.

– Por que tanta pressa, Zé Pequeno?

– Ah, doutor, três dias longe do governo é demais. Se eu ainda fosse um Zé Grande, mas sou apenas o Zé Pequeno…

Os gols de Dutra na vitória do Brasil na Copa de 1958 e as incertezas da seleção de Tite

Sebastião Nery

Em 1958, o Brasil jogava com a Suécia na Copa. Os radialistas Rubens Amaral e Luís Brunini e o deputado Augusto de Gregório sofriam o começo do jogo em um apartamento na rua Redentor, em Ipanema, no Rio. Brasil perdendo de 1 a 0, nada de fazer gol.

Toca a campainha. Era o ex-presidente Dutra, que morava ao lado. Dutra entra na sala. O locutor grita: – “Goooool! O Brasil empatou.

Dutra comemora, conversa um pouco, sai. Nada de o Brasil desempatar. Toca novamente a campainha. Era Dutra de volta. O locutor grita: – “Goooool”! O Brasil desempatou.

Só deixaram o velho sair depois do jogo. O Brasil derrotou a Suécia por 5 a 2 e ganhou a Copa de 58. Tite devia invocar socorro a Dutra.

DEMISSÃO DE JANGO – João Goulart assumiu o Ministério do Trabalho, no segundo governo de Getúlio Vargas (1953).Os militares da UDN começaram a conspiração que acabou no Manifesto dos Coronéis, redigido pelos coronéis do Exército Bizarria Mamede e Golbery do Couto e Silva, e assinado em primeiro lugar pelo coronel Amauri Kruel (por força da ordem alfabética), exigindo a derrubada de Jango, que Getúlio afinal aceitou.

Murilo Melo Filho, colunista político da revista “Manchete”, telefonou a Anísio Rocha, amigo do marechal Dutra, e foram os dois à rua Redentor, em Ipanema, para o calado ex-presidente dizer alguma coisa:

– Presidente, o que o senhor achou do Manifesto dos Coronéis?

– Não sei de nada, meu filho. Li nos jornais, mas não achei nada. Não vou falar, não. Não ajuda. Aliás, nem li os jornais direito, porque esta noite entrou aqui em casa um ladrão e me atrapalhou a manhã.

HISTÓRIA DO LADRÃO – Murilo Melo Filho insistiu, pedindo que Dutra então contasse a tal história do ladrão.

– Mas, meu filho, uma revista tão importante ficar preocupada com história de ladrão? Não foi nada demais. Ele entrou, pegou algumas coisas e foi embora. Só isso. Não teve importância.

– Então, presidente, voltemos ao manifesto. O senhor acha que os coronéis vão derrubar o Jango do Ministério do Trabalho?

Dutra ficou calado, pensou um pouco, sorriu:

– Olha, Murilo, é melhor falar do ladrão.

E falou.

VICTORINO FREIRE – De manhã bem cedo, em 1969, a brutal Junta Militar no poder, eu deputado cassado mas trabalhando em jornal e TV, toca o telefone de minha casa, aqui no Rio. Era o colega e amigo jornalista Tarcisio Holanda:

– Nery, saia agora, não fale com ninguém e vá urgente para o Palácio do Monroe, na Cinelândia. O senador Victorino Freire espera você lá.

Encontrei Victorino já entrando no carro para sair:

– Sebastião, me espere no gabinete do senador Dinarte Mariz. Tranque-se lá dentro e não abra para ninguém, nem para ele. Volto já.

Obedeci, o coração aos pulos. Duas horas depois, chega Victorino:

– Pode ir. Não vai mais ser preso. Mas nunca mais conte histórias contra o general Dutra. Depois de Caxias, o sinônimo do Exército brasileiro é ele. A floresta tem tanto bicho, para que mexer logo com o leão?

“IXTO” E “AXIM” – Em minha coluna na “Tribuna da Imprensa”, naquele dia, eu contava algumas historias engraçadas do marechal Dutra, que puxava muito no “X” (“isto era “”ixto”, “assim” era “axim”) e sobre o governo dele.

Dois oficiais saíram cedo do comando do Exército atrás de mim em minha casa e no jornal. Victorino soube, avisou a Tarcísio e foi a Ipanema, à casa de Dutra, que telefonou para o comando do Primeiro Exército:

– O “Laxerda” e o David “Naxer” me criticaram todos os dias de meu governo e eu nunca os mandei prender. O Victorino está me dizendo que vocês vão prender o Sebastião Nery pelo que escreveu hoje. Não “faxam” “ixo” não. Eu até gosto do que ele escreve.

O melhor de nós acaba de ir aos 80 anos, em Salvador – o padre Carlos Formigli

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Padre Carlos Formigli era muito conhecido na Bahia

Sebastião Nery

Éramos onze. Hoje já somos dois. Morreu em Salvador o melhor de todos nós: Padre Carlos Formigli. Estudou Filosofia em Salvador, 1950/52; na Pontifícia Academia Romana de Santo Tomas de Aquino e na Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, 1953/55. Teologia na Pontifícia Universidade Gregoriana – Roma – Itália, 1952/56. Pos-Graduação em Ciências Humanas e Sociais – Monografia: Le Tiers-Monde Sous le Signe de la Transformation – Faculdades Católicas de Lilli – França – 1970/72. Professor de latim e grego, presidente da Fundação da Criança e do Adolescente, FUNDAC, 1991/2007 – Salvador.

Estávamos entre os primeiros alunos do Seminário da Imaculada Conceição de Amargosa, na Bahia. A prefeitura ia inaugurar a “Biblioteca Pedro Calmon”, filho mais ilustre da cidade. Estavam lá o homenageado, professor, escritor, acadêmico e orgulho da terra. O prefeito, vereadores, o bispo Dom Florêncio Sisínio Vieira, os professores do seminário e os locais, e um jovem estudante de Direito também nascido lá, Waldir Pires.

DIÁLOGO EM LATIM – Padre Correia escreveu um texto em latim, um diálogo, como se fosse teatro, para Carlos Formigli e eu dizermos. Lembro bem de duas coisas: o medo de começar e a alegria de terminar debaixo de palmas, Não erramos nada. Carlos aparecia de repente, de surpresa e eu, ali ao lado, o interrogava em latim:

“Eus, Carole, quo vadis”? (Alô, Carlos, para onde vais?)

E Carlos respondia que ia para a inauguração da biblioteca. Falávamos sobre a importância da biblioteca, a justa homenagem a Pedro Calmon e uma saudação à cidade.

Tudo em latim. Em um latim perfeito, clássico, claro, que pronunciamos com segurança, até porque o autor estava ali e, se errássemos, era capaz de nos matar. E foi o primeiro a aplaudir.

CARTA DE CARLOS

Tenho aqui em mãos, a carta que o Carlos me fez quando completei 80 anos:

“Caro Sebastião, eis que estamos chegando aos oitenta anos. Uma longa caminhada pontilhada de muitas coisas boas. Basta um olhar para o passado e certamente nos surpreenderemos com as vitórias conquistadas, as dificuldades vencidas, os serviços prestados. Com certeza, não fomos inúteis e, nem tão pouco, mais um na história do mundo, caminhando ao sabor dos ventos. Conheço sua história (a NUVEM não deixa dúvidas) e você sabe por onde andei, tentando realizar a minha missão de sacerdote e educador. Aos oitenta anos, se não optamos pelo repouso, já sentimos que a idade nos alerta para a necessidade de desacelerar e caminhar com mais prudência.

Você, meu caro, tem uma história rica de momentos empolgantes e não duvido em afirmar que os dias de “prisão” contribuíram, e muito, para fazer do Nery, o cara destemido, o jornalista polêmico, o cidadão consciente dos direitos e dos deveres decorrentes de sua cidadania.

Parabéns, Sebastião, pelo seu aniversário, pela sua vida, pela sua história, pelo que você fez em defesa dos direitos da pessoa humana e da democracia.

Com você, agradeço a Deus o dom de nossas vidas e as oportunidades que tivemos de semear a boa semente.”

Em Alagoas, quem mandava na política eram os três irmãos que eram seis

Silvestre Péricles, ex-governador,um dos generais de sua família

Sebastião Nery

Pedro, general, ex-ministro da Guerra, senador do PSD, telegrafou ao presidente da Assembleia Legislativa de Alagoas: – “Ciente senador Ismar (irmão de Pedro e Silvestre e também general, do PSD e ex interventor) e seus asseclas têm em vista provocações ocasião comparecimento governador (Silvestre, igualmente militar e do PSD e irmão dos outros dois), aconselhei a este a não ir”.

“Silvestre mandou expor o telegrama no Largo do Relógio, centro da cidade. Ismar se dirigiu para o local onde estava a copia do telegrama do general Góis e a rompeu, rasgando-a à vista de muitos. Ao saber do gesto ousado, o governador Silvestre vai pessoalmente ao Largo do Relógio Oficial, para onde fizera se deslocar um contingente de policiais armados e, em espalhafatosa exibição, deu ordem até de fuzilamento. Se tentassem rasgar o telegrama fuzilassem e, se fosse o senador Ismar, que o prendessem, o amarrassem e levassem para o quartel”.

No dia seguinte, os jornais publicavam a resposta do senador Ismar: – “O governador sabe, e se não sabe fique sabendo, que nunca deixarei de honrar meu mandato. Se o governador duvidar, que tente, vindo pessoalmente comandar a diligência, já que não respeita o cargo que ocupa”

GATO E CACHORRO – Eram assim, como gato e cachorro, os três irmãos militares de Alagoas, entre 1945 e 50: dois generais e um auditor de Guerra, dois senadores e um governador. Eles eram meia dúzia. Ainda houve mais três: Cícero, que morreu no levante paulista de 1932; Manuel, senador de 1935 a 37; e Edgar, interventor do Estado depois da queda de Getulio em 1945.

 É caso único na historia do Brasil, de seis irmãos políticos atuando ao mesmo tempo.

1 – Logo depois da proclamação da Independência, os irmãos José Bonifacio Andrada, Antonio Carlos e Martim Francisco foram constituintes de 1823. Dom Pedro I fechou para impor sua Constituição de 1824.

 2 – Os irmãos Mangabeira, baianos : Otavio, João e Carlos. Em outubro de 1934, Otavio e João elegeram-se deputados pela Bahia. Carlos, farmacêutico e prefeito de Bagé, no Rio Grande do Sul, também foi eleito deputado federal pelo Rio Grande. No golpe de 1937, cassados os três.

3 – Na década de 90, Alagoas teve três irmãos no Congresso ao mesmo tempo: Renan e Olavo Calheiros, eleitos por Alagoas, e Renildo Calheiros, eleito por Pernambuco: depois prefeito de Olinda, pelo PC do B. Democracia é no voto e não na bala.

ELEIÇÕES DE 1950 – O general-governador Silvestre Góis Monteiro levou o maior susto quando começaram a ser contados os votos das eleições de 3 de outubro de 1950. Depois de quatro anos de ameaças diárias, espancamentos e assassinatos, ele tinha absoluta certeza de que o eleitorado de Alagoas não teria coragem de votar contra seus candidatos a governador, Campos Teixeira, e a senador, seu irmão o poderoso general Aurélio Góis Monteiro.

E teve. Abertas as primeiras urnas, o candidato da oposição (UDN), o jovem jornalista alagoano Arnon de Mello, que morava no Rio e topou desafiá-lo, disparou. O candidato a senador, Jerônimo da Rocha, também. Silvestre enlouqueceu. Dizia abertamente que não passaria o governo.

No comando do 20º Batalhão de Caçadores do Exército, em Alagoas, um major inteligente, tranquilo e com senso da história, anotava tudo, que, depois, reformado, reuniu em surpreendente livro: “Sururu Apimentado”, de Mario de Carvalho Lima, editado pela Universidade Federal de Alagoas. E a história foi assim.

José Aparecido, o múltiplo embaixador que uniu os países de língua portuguesa

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O múltiplo embaixador José Aparecido estaria hoje com 90 anos

Sebastião Nery

O Embaixador José Aparecido de Oliveira era um lusófilo incorrigível. Mais ainda do que o mestre do lusotropicalismo Gilberto Freyre. Portugal, para ele, era como as pedras seculares das ruas de sua Conceição do Mato Dentro, nas montanhas do Serro do Frio de Minas. Doem nos pés, mas é preciso ter paciência. Perdoando e gostando.

Aparecido teve com Portugal um crédito político histórico. Foi ele, como Ministro da Cultura, que coordenou em São Luís do Maranhão, em 3 de novembro de 1989, o “1º Encontro dos Países da Língua Portuguesa”, surgindo daí a criação do Instituto Internacional da Língua Portuguesa.

PRIMEIRO ENCONTRO – Ali aconteceu o primeiro encontro depois da libertação das antigas colônias de Portugal na África com a primeira reunião dos presidentes das ex-colônias de Portugal, o Presidente do Brasil, José Sarney, com Mário Soares, de Portugal, Joaquim Chissano, de Moçambique, Manuel Pinto da Costa, então presidente de São Tomé e Príncipe, Aristides Pereira de Cabo Verde, João Bernardo Vieira, Nino, da Guiné Bissau, e Lopo do Nascimento, de Angola, representando o presidente José Eduardo Santos, que não saiu de Luanda porque estava vivendo fatos dramáticos com a capital cercada pelas tropas da UNITA de Jonas Savimbi.

Uma noite, em Brasília, um grupo de jornalistas na casa do então governador Aparecido, jantávamos com o presidente da Guiné Bissau, Vieira Nino. Um jornalista comentou:

Ele tem olhar estranho. Tem olho de fera.

E era Vieira Nino. Companheiro de Amilcar Cabral, passou onze anos dentro da selva, lutando contra Portugal. Espiando dia e noite o perigo entre os galhos da floresta, acabou com olho de fera.

AS EX-COLÔNIAS – Aparecido não conhecia só Portugal. Era amigo dos olhos de fera das ex-colônias. Mário Palmério, romancista dos infinitos “Confins” de Minas, também ele ex-embaixador do Brasil no Paraguai, diz que na história do Itamarati só três diplomatas conheceram bem as cinco ex-colônias de Portugal: ele, Wladimir Murtinho e Aparecido. Aparecido foi lá. Duas vezes.

O inesquecível Carlos Heitor Cony, já havia percebido e escrito antes: “Esta é, basicamente, a ideia de José Aparecido de Oliveira. A língua portuguesa é a terceira mais falada do mundo. Atinge quatro continentes e engloba uma população de mais de 230 milhões. O primeiro fruto da Comunidade de Povos Lusófonos será estritamente política e cultural, o que já é muita coisa. Evidente que os povos que falam o português são em geral, atavicamente grudados no chamado Terceiro Mundo. O isolamento geográfico não tem impedido a formação de blocos regionais que apresentam a unidade espiritual da mesma língua. Esse bloco de milhões de pessoas que falam o português tem dois curingas bem situados no tabuleiro internacional. Numa ponta o Brasil como seu potencial-que-não-verás-criança-nenhuma-igual-a-ele. Na outra ponta Portugal, estado-membro da Comunidade Europeia, matriz da civilização comum. Basta um pouco de imaginação para se obter a projeção do que pode representar, a curto, médio e longo prazos, a formação de um bloco de nações reunidas sob um núcleo de tal amplitude. Essa imaginação não faltou ao único embaixador que não é dos quadros do Itamarati, pois foi convocado pessoalmente pelo presidente Itamar Franco.”

HOMENAGEM – Não por acaso, a Academia Brasileira de Letras acaba de prestar homenagem aos 90 anos de José Aparecido. Seus amigos acadêmicos Alberto da Costa e Silva e Geraldo Carneiro organizaram o Seminário “José Aparecido de Oliveira, o embaixador da Língua Portuguesa”, realizado no Teatro Raimundo Magalhães Junior, na sede da Academia Brasileira de Letras – Rio de Janeiro. Nada mais justo.

Entenda por que a Turquia concentra grande parte da História da Humanidade

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A importância histórica da Turquia é realmente incomparável

Sebastião Nery

A Turquia não é um país. É uma salada de frutas. A Macedônia também já foi. Tantos povos moraram e mandavam lá, que na Itália a salada de frutas se chama “macedônia”. Pois a Turquia é muito mais. É o único país do mundo que já teve 12 capitais.

Primeiro, Troia, capital dos Hatitas (3.500 anos antes de Cristo). Depois, Hattusa, capital dos Hititas (do século 18 ao século 17 antes de Cristo). E vieram Xanthos, capital da Lícia (de 600 a 200 antes de Cristo); Sardes, capital da Lidia; Pérgamo, capital do reino de Pérgamo, (de 283 a 133 antes de Cristo); Amaseia, capital do reino do Pontus; Bizâncio, fundada pelo grego Bizas, que virou Constantinopla, em 330 depois de Cristo, quando Constantino criou o Império Otomano, antes de os otomanos tomarem Constantinopla; Edirne, segunda capital do Império Otomano, também antes da tomada de Constantinopla; Istambul, que denominou a antiga Constantinopla; Niceia, quando a IV Cruzada cristã tomou Istambul, de 1204 a 1261 (depois de Cristo). E Ancara, a capital hoje.

HERANÇA DE TODOS – Os povos que vieram e construíram têm nomes estranhos e belos, vieram desde o começo dos tempos, neste pequeno e fantástico país de 780 mil quilômetros quadrados e 75 milhões de habitantes.

Os turcos são herança de todos eles, de civilizações superpostas, desde o início dos tempos. Há marcas de presença humana 100 mil anos antes de Cristo. Esta é sua grandeza mas também sua tragédia.

Os turcos dizem que a Turquia é o “maior museu a céu aberto do mundo”. E é por causa de sua fantástica história. Cada cidade tem um pedaço de eternidade. Em cada canto um resto de civilização que se perdeu nas dobras da história e no sopro dos ventos, cobrindo de terra e tempo cidades e civilizações.

BELIGERÂNCIA – Como manter tudo isso na mais beligerante encruzilhada da historia humana, a ligação da Europa com a Ásia, do Mediterrâneo com o Mar Negro, da civilização ocidental com a civilização islâmica, dos projetos de dominação mundial dos Estados Unidos com a muralha que é a União Europeia?

Toda a história antiga girou em torno de eternas batalhas pela conquista de ligações de terras e mares, de estreitos: Gibraltar, Peloponeso, Dardanelos, Bósforo. Hoje, entre a Europa e a Ásia, há um novo estreito, feito de terra e chão, a Turquia. É por causa dele que os Estados Unidos e a Europa ameaçam fazer da Turquia uma nova Palestina, uma nova Bósnia.

UM PATRIMÔNIO – A Turquia, como a Grécia, Roma, Jerusalém, Paris, China, tantos outros, é um Patrimônio Histórico e Cultural da Humanidade. Talvez nenhum outro espaço tão pequeno, nem mesmo na sagrada Grécia e na Roma divina, haja, tão numerosa e diversa, a presença da humanidade através da história.

Aqui, a Grécia esteve durante séculos, o Império Romano deixou sua marca e suas garras, a Mesopotâmia virou Europa. Aqui, o cristianismo viveu seus três primeiros séculos de perseguições e exílio. E viveu seus três primeiros séculos de poder oficial. Aqui, a Alemanha perdeu uma guerra e Hitler outra. Aqui, a humanidade acendeu fogueiras eternas de cultura e sabedoria:

1 – Aqui nasceram Homero, o poeta, São Paulo, o jornalista, Tales de Mileto, Pitagoras, Anaximenes, Anaximandro, sábios. Aqui ensinaram Platão e Apelokon. Aqui Hipodromos criou o urbanismo. Aqui se fez a primeira Escola de Escultura. Aqui Cleopatra e Marco Antonio se amaram.

2 – Quando Noé ancorou sua arca, foi aqui, no monte Ararat (5.165 metros) O Tigre e Eufrates, dois dos três mais importantes rios da antiguidade, são daqui. O templo de Artemisa e o Mausoléu de Halicarnasso, duas das sete maravilhas do mundo, estão (estavam) aqui.

3 – Para se asilarem, Nossa Senhora e São João fugiram para cá e aqui morreram. São Pedro falou aqui, pela primeira vez, a palavra cristão. A gruta do patriarca Abraão, padroeiro dos judeus, era em Urfa, aqui. E o manto, as espadas, uma carta, o estandarte, os pelos da barba, o dente e as pegadas de Maomé também estão aqui.

4 – A primeira moeda foi cunhada aqui, em Pérgamo, aqui, se descobriu o pergaminho e houve uma biblioteca de 200 mil volumes antes de Cristo, a mais importante do Império Romano. A primeira cereja que chegou a Europa saiu daqui.

5 – Aqui, a história troca de roupa: os gregos construíam o templo, os romanos trocavam o deus grego por um romano, os cristãos transformavam o templo em igreja, os otomanos faziam delas mesquitas, os ingleses, franceses, italianos, austríacos, alemães, arrancavam deuses, altares, minaretes, colunas e monumentos inteiros e levavam para seus museus maravilhosos.

Mesmo assim, a Turquia continua a ser o imenso museu do homem.

Folclore político de FHC, Jânio Quadros, Miguel Arraes, Djalma Falcão e Chagas Freitas

Resultado de imagem para folclore politicoSebastião Nery

Fernando Henrique Cardoso tinha 29 anos, era professor na Universidade de São Paulo, sociólogo. Fez a campanha de Lott para presidente da República, contra Jânio, em 1960. Mas um grupo de amigos dele fez a campanha de Jânio: Pedroso Horta, José Aparecido, Roberto Gusmão, Fernando Pedreira, Antonio Angarita. Quando Jânio assumiu, havia uma vaga para o Conselho Nacional de Economia, muito importante na época. Fernando Henrique não era economista, mas não precisava ser. Aparecido, Gusmão, Oscar e outros indicaram a Jânio o nome de Fernando Henrique. Jânio mandou Aparecido convidá-lo.

Fernando Henrique não aceitou. Primeiro, porque não havia votado em Jânio (embora Jânio tivesse dito que isso não tinha importância). Depois, porque havia feito um projeto de vida e precisava completar sua carreira acadêmica, na Universidade.

Jânio recebeu a resposta e disse a Aparecido: “Esse rapaz vai longe. Quem rejeita uma posição dessas aos 30 anos é porque planeja outras muito mais altas aos 60”.

GROSSO E MAL EDUCADO – Miguel Arraes era governador de Pernambuco, Djalma Falcão (presidente do MDB e do PMDB de Alagoas) prefeito de Maceió. Djalma foi a uma reunião da Sudene, em Recife, sentou-se ao lado do chefe da Casa Civil de Arraes. No dia seguinte, recebeu um convite:

“O governador quer ver você hoje, às 12 horas. Mandou convidá-lo para uma conversa no Palácio.”

Djalma ficou contente. Arraes sempre fora um de seus gurus, líder da esquerda nordestina. Ao meio-dia, estava lá, foi levado à ante sala do governador. Esperou. Esperou. Uma da tarde, abre-se a porta, aparece Arraes. Em um sofá, um casal. Arraes recebe Djalma de pé, à porta:

– Djalma, infelizmente não vamos poder conversar. Chegou este casal amigo e vamos almoçar.

Djalma olhou seco para Arraes:

– Governador, não lhe pedi audiência, não solicitei que me recebesse. O senhor é que mandou convidar-me, pelo seu chefe da Casa Civil, para vir aqui. Se soubesse que o senhor era tão grosso e mal educado não teria vindo.

Virou-lhe as costas e foi embora.

AMIGO DE CHAGAS – Em 1966, Djalma Falcão chegou à Câmara Federal, muito jovem, eleito pelo MDB de Alagoas, Ficou amigo de Chagas Freitas, do MDB do Rio de Janeiro. Chagas foi escolhido pelos militares para ser o governador da Guanabara. Procurou Djalma:

– Preciso de um grande favor seu. Você é presidente do MDB de Alagoas. O Aurélio Viana, alagoano, é senador do MDB do Rio, mas não tem condições de reeleição. Quero eleger três: Nelson, Danton e Farah. O Aurélio tem vaga cativa na chapa. É preciso tirá-lo do Rio e levá-lo para Alagoas. Convença-o a disputar por lá. Arranjo 5 milhões para a campanha dele.

– Chagas, se você falar em dinheiro com o Aurélio, ele não vai. Deixe que eu converso com ele.

Djalma convenceu Aurélio, que saiu do Rio e perdeu as eleições em Alagoas.

Um dia, um amigo de Djalma tinha um filho, médico do Estado, doente no Rio. Queria transferi-lo para se tratar em Maceió. Foi ao Rio com o amigo, pediu audiência a Chagas, que marcou. Passou um dia inteiro no Palácio e Chagas não o recebeu.

Na Quinta das Lágrimas, onde Inês de Castro chorou tanto, antes de ser morta

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Este é o túmulo de Inês de Castro, coroada rainha após a morte

Sebastião Nery

Na Arcada da Capela, o belo restaurante do hotel Quinta das Lágrimas, em Coimbra, Portugal, à beira do camoniano Rio Mondego, sob as bênçãos da milenar Universidade de Dom Diniz, a mineira família Gorgulho-Juca escolheu para rever amigos portugueses.

O lugar perfeito. Desde a idade média (a partir de 1350), a Quinta das Lágrimas, que já foi da Universidade e de uma ordem religiosa, cercada de matas e jardins cheios de araucárias e palmeiras, plátanos e figueiras, sequoias e agapantos, é o oásis de paz da cidade das tensas cátedras, das rebeliões e dos abismos políticos de Portugal.

INSPIRAÇÃO – Esta é uma casa de punhaladas, um símbolo universal das intrigas, brutalidades, violências e assassinatos a serviço da loucura humana.

Por isso a Quinta das Lágrimas se fez tema e inspiração da literatura mundial. Voltaire, Victor Hugo, Stendhal, Ezra Pound, tantos já escreveram sobre ela. Mas nenhum com a força e a genialidade de Luiz de Camões, que no Canto III dos Lusíadas celebrou o amor e o martírio de Inês de Castro, ibérica e trágica Julieta (“Estavas, linda Inês, posta em sossego”), que “depois de morta foi rainha” e cujo amor impossível está eternizado em pedra e água na Fonte das Lágrimas.

“As filhas do Mondego a morte escura/ Longo tempo chorando memoraram/ E por memoria eterna em fonte pura/ As lágrimas choradas transformaram,/ O nome lhe puseram que ainda dura/ Dos amores de Inês que ali passaram,/ Vede que fresca fonte rega as flores/ Que as lágrimas são água e o nome amores.”

Maior e mais fantástica do que a poesia de Camões é o milagre de sua vida. Soldado, doca e náufrago, com um poema fundou uma nação.

INÊS DE CASTRO – Como todas as eternas novelas maravilhosas, a de Inês de Castro tinha de tudo. Dom Afonso era rei de Portugal, dom Pedro, filho dele, era príncipe. E andava pela corte uma “galega” magnífica, filha bastarda de um dos homens mais poderosos da Espanha, neto do rei Sancho, de Castela, que o príncipe dom Pedro também era. Pedro e Inês eram primos. E se apaixonaram.

Começou o maior tititi na corte, porque o príncipe Dom Pedro, que morava na Quinta, era casado com dona Constança, também prima dos dois. Inês vivia no Convento de Santa Clara, a meio quilômetro da Quinta, e Dom Pedro lhe mandava cartas em barquinhos de madeira que saiam da Quinta e chegavam até o convento por um córrego que, em um cano, passa até hoje.

Dom Pedro acabou levando Inês para a Quinta e tiveram filhos. Dom Afonso, o rei pai, não queria aquilo e, um dia em que Dom Pedro estava nas matas, caçando, mandou três homens matarem Inês de Castro a facadas.

FONTE DAS LÁGRIMAS – Ela chorou tanto, pedindo para não morrer, que fez nascer a Fonte das Lágrimas, onde há quem veja, ainda hoje, gravada na rocha, a mancha vermelha do sangue de Inês. Não sei o que é, mas tem cor de sangue.

O príncipe Dom Pedro se rebelou, organizou um pequeno exército e assolou o país, tentando derrubar o pai. Não conseguiu, mas logo depois o pai morreu, Dom Pedro assumiu o trono, prendeu dois dos assassinos, arrancou-lhes os corações a facadas, anunciou que havia casado secretamente com Inês antes de ela morrer e mandou construir o monumental túmulo de Alcobaça.

O rei fez uma marcha fúnebre de Coimbra ate Alcobaça e obrigou toda a nobreza a acompanhar, beijando a mão da morta. E pôs o corpo dela no túmulo, onde também o dele está. Por isso, Inês “depois de morta foi rainha”.

Este bucólico recanto do romantismo universal, é sobretudo um testemunho secular do ódio e da violência política. O poder mata mais do que dengue e febre amarela. E mata a facadas.

O vice exemplar deixou de ser presidente na hora de José Sarney fazer xixi…

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O vice Marco Maciel, esquálido, ganhou o apelido de “Mapa do Chile”

Sebastião Nery

Era um rapaz magricela, calva longa e olhar triste de seminarista de castigo, as mãos soltas na ponta dos punhos, como balões vazios, e um pescoço longo, muito longo entre Modigliani e o gogó da ema da praia de Pajuçara em Maceió. Duas vezes vi Marco Maciel, presidente da Câmara, em pânico, na crise de abril de 1977. Quando Francelino Pereira chegou ao Planalto dizendo que a situação era gravíssima, foi ao gabinete dele, trancaram-se. Lá de fora, pela vidraça, vi Marco Maciel bater as mãos na mesa, esmurrar os joelhos, pular na cadeira como numa sela de potro bravo. Depois, foi na volta do encontro com o presidente, quando lhe foi comunicado o recesso do Congresso, estava pálido, lívido, o rosto como cera, e o suor correndo fino pelas têmporas. Quando Célio Borja, sibilino e cortês, lhe passou a presidência da Câmara, abraçou-o:

– Eu quero que Deus o proteja. Marco.

– E tem protegido!

GRANDE EVENTO – Mendes de Barros, ex-deputado, candidato do MDB ao Senado em 1970 e Richelieu da oposição de Alagoas, organizou na Assembleia Legislativa um Círculo de Estudos Políticos com Teotônio Vilela, Marco Maciel, Divaldo Suruagy, Marcos Freire, Carlos Castelo Branco, Carlos Chagas e outros.

No dia em que Marco Maciel chegou a Maceió, Mendes de Barros estava doente. Guilherme Palmeira, candidato da Arena ao Governo e amigo dos dois, levou Marco para visitar Mendes. Tocam a campainha, o filho de Mendes, Antonio, vê Marco com seus quase dois metros de magreza e finura, corre até o quarto:

– Painho, o mapa do Chile está aí com o Guilherme.

FRENTE LIBERAL – Marco Maciel, Guilherme Palmeira e Jorge Bornhausen, senadores do PDS, começaram a reunir-se, em 1984, para organizar a Frente Liberal, uma dissidência do PDS destinada a apoiar a candidatura de Tancredo Neves a presidente da República, contra Paulo Maluf.

Aureliano Chaves, vice-presidente de Figueiredo, logo assumiu a liderança do grupo. Um dia, marcaram uma reunião com Ulysses Guimarães para discutirem a formação da Ação Democrática, a aliança do PMDB com a Frente Liberal. Quando Ulysses chegou, tomou um susto. Aureliano tinha levado um gravador e posto sobre a mesa, ligado. Era o Juruna mineiro.

VICE DE TANCREDO – Mais no fim do ano, antes de o Colégio Eleitoral reunir-se, em janeiro, a Frente Liberal, já formada, fez uma reunião para acertar quem iriam propor a Tancredo como vice-presidente e quais ministérios iriam reivindicar.

Marco Maciel, o primeiro sugerido pelo grupo, dizia que não queria ser vice. Não convencia muito, Sarney, o segundo, também dizia, mas não convencia nada. Resolveram tratar antes dos ministérios. Marco Maciel propôs pedirem primeiro o da Educação. Sarney foi contra. Era um “abacaxi”, cheio de armadilhas, professores reivindicando e estudantes fazendo greves.

Preferia o da Previdência, que “tinha recursos e bandeiras sociais”. Marco não concordava, o debate continuava.

NA HORA DO XIXI – De repente, Sarney saiu para ir ao banheiro. Guilherme Palmeira foi atrás. Enquanto Sarney fazia xixi, Palmeira encostado na porta, catequizava:

– Sarney, o Marco quer a Educação para ele, é o sonho dele. E é a única maneira de você ser o vice.

Sarney voltou rápido e defendeu o ministério da Educação. Para Marco Maciel. E a vice caiu sobre a cabeça de Sarney como uma tonsura. Sarney saiu para vice, Marco Maciel para a Educação e Aureliano para Minas e Energia. Sarney foi feito vice-presidente em um xixi do PFL.

Orgulho mineiro de não pedir nada ao adversário, nem mesmo demissão do cargo

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Augusto de Lima Júnior, historiador e filho de avenida em Belo Horizonte (o pai foi um dos patriarcas mineiros), criou a Medalha da Inconfidência, e Juscelino o nomeou Chanceler perpétuo. O governador só dava a medalha a quem Liminha aprovava.

Bias Fortes chegou ao governo, queria dar a Medalha de Tiradentes à sogra. Augusto de Lima Júnior protestou, não adiantou nada. Bias assinou o ato, Liminha pediu demissão e no dia seguinte O Estado de Minas publicava longa carta do chanceler demissionário, com o seguinte título: “Parir mulher de governador não dá direito a medalha”.

INDIGNAÇÃO – Morreu a mulher de Augusto de Lima Júnior. Alkmin não foi ao enterro, não telefonou, não telegrafou, não foi à missa de sétimo dia, não deu sinal de vida. E eram amigos íntimo de longa data. Liminha ficou indignado, nunca mais procurou Alkmin.

Uma tarde, encontram-se em Belo Horizonte, rua da Bahia, na Livraria Itatiaia.

– Como vai, meu caríssimo Lima?

– Vou bem. Até logo.

– Por que a pressa? Noto que você está triste. O que é que significa essa gravata preta? Morreu alguém próximo?

– Morreu sim, Alkmin. Morreu minha mulher.

– Não me diga. Eu não sabia. Meus pêsames.

– Ela deixou essa vida com nojo dos homens, cada dia mais canalhas. Cada dia mais canalhas, Alkmin, até logo.

– É isso mesmo, Lima. A vida não está mais para gente como

nós. A vida hoje é só mesmo para os canalhas. Gente como nós já não tem por que viver.

E abraçou Liminha, lágrimas nos olhos.

O ORADOR – Augusto de Lima Júnior gostava muito de fazer discurso. Em 40, Getúlio o nomeou ministro Plenipotenciário do Brasil durante as solenidades de mais um centenário da independência de Portugal. Liminha chegou lá de discurso no bolso, feliz com a história e a retórica.

No dia seguinte, chega João Neves da Fontoura, ministro do Exterior, acompanhado de ilustre comitiva, e anuncia que vai falar em nome do Brasil. Liminha enlouqueceu. À noite, poucos instantes antes da solenidade, telefona para o hotel, diz a João Neves que chegou à embaixada um telegrama urgente do Brasil para ele.

João Neves corre para lá, tranca-se numa sala com Liminha para ler o telegrama, não havia telegrama nenhum. Quando João Neves começa a reclamar da brincadeira, Liminha sai, fecha a sala por fora. Os funcionários haviam saído, João Neves fica preso. Liminha vai à solenidade, lê seu discurso, tranquilo e orgulhoso.

Mal acaba, chega João Neves, suado, zangado, indignado, e, por cima, mentindo, pedindo desculpas às autoridades portuguesas pelo equívoco quanto ao horário, que o fez atrasar-se.

Voltou ao Rio, foi queixar-se a Getúlio. Getúlio caiu na gargalhada:

– E você não sabia que o Liminha é maluco?

FRASE CLÁSSICA –  Artur Bernardes, que governou Minas e sitiou o País durante quatro anos, cunhou a frase clássica: “Para os correligionários, tudo. Para os adversários, a lei, quando possível”.

Em 1918, Bernardes assumiu o governo mineiro e começou a demitir o outro lado. Era diretor da Imprensa Oficial o velho Augusto de Lima, adversário de Bernardes. Bernardes não quis demiti-lo logo e mandou um amigo conversar, para que ele pedisse demissão. O homem chegou lá sem jeito:

– Augusto de Lima, como o senhor sabe, o Dr. Artur Bernardes…

– Já sei, já sei.

– Vou falar logo, Dr. Augusto de Lima. O Dr. Artur Bernardes mandou sugerir que o senhor peça demissão.

– Alto lá. Ao adversário, não peço nada. Nem demissão.

No dia seguinte, Bernardes demitiu Augusto de Lima.

Jimmy Carter em Recife, sem saber que ia ser presidente dos Estados Unidos

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Rosalynn e Jimmy Carter, ao embarcarem de volta aos EUA

Sebastião Nery

Quando Jimmy Carter esteve no Brasil, em 1972, passou alguns dias em Recife com a mulher, em casa do casal Camilo Steiner, na praia da Piedade. A mulher de Steiner, americana da Georgia, foi colega de colégio da mulher de Carter, Rosalynn, e continuaram amigas pela vida a fora. O filho de Steiner estudou nos EUA, morando na casa de Carter.

Em Recife, o governador Eraldo Gueiros ofereceu um almoço a Jimmy Carter, no Palácio. Saudou-o o vice-governador Barreto Guimarães, gordo e barroco, lançando a candidatura de Carter à Presidência dos Estados Unidos:

– Vossa Excelência, senhor governador da Georgia, tem a marca do estadista e estamos certos de que será o próximo ocupante da Casa Branca.

Carter apenas sorriu. No dia seguinte, Camilo Steiner convidou alguns jornalistas pernambucanos para uma peixada e uma conversa com Carter. Anchieta Hélcias, secretario de Industria e Comércio de Pernambuco, perguntou a Carter se ele tinha condições de sair candidato pelo Partido Democrata em 1976. Carter respondeu com outra pergunta:

– Qual é o estado mais pobre do Brasil?

– O Piauí.

– Pois a Georgia é o Piauí de lá. O senhor acha que o governador do Piauí tem condições de ser Presidente do Brasil?

Anchieta também achava que não. Acontece que o povo americano achava que sim.

CANDIDATO DOIDO – George Pires Chaves, advogado e cônsul do Piauí no Rio de Janeiro, voltou a Teresina para visitar um cliente, Miguel Faria. Encontrou-o louco, internado no Sanatório Meduna, dirigido pelo psiquiatra, ex-presidente do IPASE e deputado cassado Clidenor de Freitas.

Miguel recebeu doutor George em sua tranquila e chestertoneana loucura. Mas não queria saber nada de negócios. Só de política:

– George, o Piauí precisa de sua ajuda. Nós estamos cansados de eleger governadores sãos. Nenhum deles prestou. Agora queremos um doido para o governo do Estado.

– E quem é o candidato, Miguel?

– É aqui o nosso colega doutor Clidenor.

OUTRA DE LOUCO – Mão Cheinha era louco no Ceará. Levaram-no para o Sanatório Meduna, de Clidenor de Freitas, em Teresina. Com o tempo, Mão Cheinha virou louco-chefe. Tomava conta dos outros. Há sempre um louco cuidando dos bons.

No sanatório, havia uma mangueira que nunca dava manga. Mão Cheinha não entendia aquilo. Um dia, chamou oito loucos:

– Olha, minha gente, vocês são mangas maduras. Vão lá para cima. Quando eu gritar, as mangas caem, porque manga madura cai. Uma a uma.

Os oito subiram. Mão Cheinha, cá de baixo, gritou:

– Manga um!

Poff. E um louco se esborrachou no chão.

– Manga dois! Manga três! Manga quatro!

E eles iam se largando lá de cima e arrebentando-se cá embaixo.

Mão Cheinha gritou: – Manga sete!

O sete respondeu: – Mão Cheinha, chama a Manga oito, que eu ainda estou verde.

Almoçando com um gênio antigo e imortal, que se chamava Agripino Grieco

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Agripino Grieco criticava a literatura e tudo o mais

Sebastião Nery

Saí do almoço, fui direto à enciclopédia ver a definição de águia: – “Ave de soberbo voo, garras potentes e tarsos plumosos, nidifica e habita nas montanhas”. Era ele. Nunca ninguém me dera tão forte a ideia de ave, de uma ave soberba. Cara de ave, nariz de ave, longos dedos de ave, finos e saltitantes olhos de ave, apesar de tudo não voava nem cantava. Era um homem. Um homem excepcional, como a águia é uma ave excepcional.

Milton Reis, deputado cassado, poeta, me telefonou convidando para almoçar em sua casa com Agripino Grieco. Fui pensando nos 85 anos do velho mestre que de tão longe me abriu as cancelas da literatura, nos primeiros anos do seminário, através de seus livros que me encantaram pela limpidez, pela autenticidade, pela coragem de dizer que A era A e Z era Z mesmo, pela agressiva competência com que exerceu a crítica literária acima de todas as corriolas da chamada vida literária, furando sem piedade a pança inflada de muito Sancho, com seu estilo de espada em punho de Dom Quixote.

AOS 85 ANOS – Carcaças Gloriosas, Zeros à Esquerda, Amigos e Inimigos do Brasil, O Boletim de Ariel, o rodapé em O Jornal, eu lera tudo há tanto tempo que fui imaginando encontrar os restos de um homem comido pela exaustão de setenta anos de contínua atividade intelectual.

Pois não era nada disso. Da porta, a voz entrou sala adentro, tinindo, retumbante, como de um jovem. E passou três horas falando, contando histórias, opinando, discutindo, citando trechos e trechos, prosa e verso, como torcedor de futebol cita escalação de time, com a naturalidade e o vigor de quem fez das ideias o pão de cada dia.

A memória era inimaginável, inesgotável. Sabia e lembrava tudo da literatura universal e nacional, autores, livros, personagens, datas, dias, meses, anos, minúcias, detalhes, como se fosse a vida dos filhos.

PALAVRA EXATA – E numa linguagem forte, enxuta, precisa, a palavra exata como fio de navalha, as frases saltando da boca, tonada, semicantadas, troantes, irrepreensíveis. E, sobretudo, vivas, vivíssimas, surpreendentemente acordadas e ensolaradas em um homem de oitenta e cinco anos.

As três horas de conversa dariam meio livro. Guardei um pouco apenas do que ele disse entre o aperitivo, o excelente almoço e a sobremesa. Milton Reis, Geraldo Mascarenhas, Aurélio Ferreira Guimarães foram testemunhas de que não vai aqui nem um terço do que ele lampejou, como diria com propriedade um jornalista de seu tempo. Quer dizer, de seu primeiro tempo, porque ele foi um homem de todos os tempos.

1 – Tenho memória trágica, recordo tudo. Se houvesse fosfato para diminuir memória, tomava. Às vezes ela dói.

2 – Elegeram-me presidente de honra da Academia de Letras de Caxias. Agora, sou duas vezes imortal: tomei posse e voltei.

3 – O Jorge Amado trocou a Gabriela pela Tereza Batista. É o lenocínio literário.

4 – Mineiro dá bom dia porque bom dia volta logo. É a terra onde olho vê, mão tira e pé corre. Por isso dá tanto banqueiro lá. O que é o batedor de carteira senão um banqueiro apressado?

5 – O primeiro artigo sobre o Gilberto Freyre quem escreveu fui eu. Casa Grande e Senzala é um livro bem pensado e mal escrito. Pensado da casa grande e escrito na senzala.

6 – Há sujeitos muito burros que às vezes conseguem fazer uma coisa boa. É a faísca da ferradura na calçada.

7 – Em 1906, eu era funcionário do Ministério da Viação e ia ser promovido. O decreto estava lavrado. Fiz um discurso para o Aarão Reis, meu chefe, e não me contive. Disse que ele era “o primeiro de nossos engenheiros, em ordem alfabética”. Ganhei a frase e perdi o cargo.

8 – O Eça de Queirós estava hospedado em hotel de Évora. Chamaram-no. Saiu parecendo um sudário com aquele caco de vidro no olho. Queriam um adjetivo original, exótico, para uma placa em homenagem a um advogado. Respondeu: – “Honesto”.

9 – O Carneiro Leão entrou na Academia. Estranhei: – Até agora os animais tinham entrado de um a um. Dois de uma vez é demais.

10 – Alguém me pergunta se deixei a Academia em paz. (Até hoje ninguém criticou tanto os imortais da Presidente Wilson como o gênio irônico do Méier).

Os bodes pretos que definiram a política no antigo Estado da Guanabara

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Chagas Freitas (com Cartola) gostava de se vestir de branco

Sebastião Nery

Quando o Senado e a Câmara Federal reabriram em março de 1970, senadores e deputados governistas foram ao Alvorada para uma visita sabuja de cortesia ao novo ditador, o general Médici. Chagas Freitas, então deputado, foi apresentado pela primeira vez ao presidente, que lhe disse: “Preciso falar com o senhor”.

Chagas ficou como uma vela de óculos. Puxou pelo braço o deputado Rubem Medina, da Guanabara, e um deputado da Arena de São Paulo, que tinha ouvido a conversa, e lhes perguntou, todo perturbado:

– Vocês imaginam o que seja?

– A sucessão carioca, evidentemente – disse Medina.

Mas o deputado paulista resolveu fazer uma brincadeira:

– Não é nada disso, e eu estou bem informado. Sua situação não está boa. Não quer dizer que você vai ser cassado. A Arena do Rio já foi avisada de que em hipótese alguma o governador será você. Problemas de organização do diretório, excessivo controle do partido. O presidente não quer uma solução do tipo PSP (o ex-partido de Ademar) para a Guanabara.

EM PÂNICO – Chagas saiu do Alvorada em pânico. No dia seguinte, voltou para o Rio e chamou seu staff para uma reunião em casa: Erasmo Martins Pedro, Miro Teixeira, Rossini Lopes, presidente da Assembleia, e outros. Contou a história e suspirou, olhando para o teto, por cima do aro dos óculos:

– Preciso tomar providência urgente. Já tinham me avisado que, se eu não fizer trabalhos seguros, o azar superará as possibilidades. Só uma força superior para enfrentar os “serviços” que estão fazendo contra mim.

Erasmo, evangélico, sorriu mole, não disse nada. Rossini resolveu:

– Sou “cambono” (acólito, ajudante de sessões de Umbanda) de “Seu 7 da Lira”. Dona Cacilda sabe de tudo e tem força para desmanchar.

Tocaram para o Terreiro de “Seu 7”, em Santíssimo. A comitiva tinha oito carros, um oficial, os demais particulares.

Chegaram exatamente à meia-noite, no meio da sessão. Chagas ficou no carro, Rossini entrou sozinho, falou com dona Cacilda. Ela interrompeu a sessão, recebeu Chagas reservadamente, para ele não ser visto pela gente toda que estava lá. “Seu 7” fez uma cara de horror:

– A situação é negra. Há muita gente convocando espíritos maus contra o senhor. Preciso fazer, e fazer logo, um trabalho pesado com 3 bodes pretos. Nem cabra nem carneiro servem. Só bode.

NA ESTRADA – Onde encontrar, naquela hora, 3 bodes pretos? Os 9 carros saíram em direção a Campo Grande. Pararam à beira da estrada, cabra tinha muita, mas bode nenhum. Chagas ficou com Erasmo dentro do Galaxie oficial e Rossini saiu comandando o pelotão dos caçadores de bode preto, todos agachados dentro do mato.

De repente, dentro da noite, vinda lá do matagal, ouviu-se a voz de comando de Rossini, gritando como um possesso:

– Vamos berrar que eles aparecem! Todo mundo berrando! E começaram todos a berrar:

– Béééé! Béééé! Béééé!

CHAGAS SUAVA… – Pelo berro ou pela sorte, às 4 da manhã três bodes pretos tinham sido capturados entre Santíssimo e Campo Grande, subúrbios do Rio. Chagas, aflito, suava como um cão de caça. E Erasmo, todo encabulado, pensava certamente na palavra de Deus, sagrada na Bíblia, que desde o Antigo Testamento proibiu adorar bodes e bezerros, mesmo quando de ouro.

Voltaram. “Seu 7” abriu os três bodes a facão, pegou as vísceras e passou, ensanguentadas, no corpo inteiro de Chagas, da cabeça aos pés. A roupa branca de Chagas parecia véu de Verônica. Foi um banho de sangue.

Um ano depois, Chagas tomava posse no governo da Guanabara. Nunca mais sobrou bode preto entre Santíssimo e Campo Grande.

Haja bode preto.

Alberto Silva hoje é visto como um estadista em busca do impossível

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Alberto Silva foi um dos maiores políticos do Nordeste

Sebastião Nery

“O difícil a gente faz hoje. O impossível faz-se amanhã”. Esta frase, lapidar, é a abertura do livro “Alberto Silva Uma Biografia” do brilhante jornalista piauiense Zózimo Tavares. “Nenhum político piauiense mexeu tanto com o imaginário de uma geração, na segunda metade do século 20, quanto o engenheiro Alberto Silva. Ao governar o Piauí pela primeira vez, entre 1971 e 1975, consagrou um etilo de gestão que o transformaria em um mito da política estadual.

Com engenhosidade e capacidade incomuns de construir sonhos, tornou-se o político piauiense mais popular de sua época. Em sua longa e intensa trajetória política, venceu e perdeu eleições; nunca, porém, perdeu a compostura.

SEM DESTEMPERO – Mesmo nos momentos mais críticos e mais tensos das campanhas eleitorais, ou nas crises mais agudas da administração, portou-se com altivez e manteve a determinação para enfrentar e resolver os problemas.

Alberto Silva foi um dos mais impiedosamente atacados da história do Piauí, contudo, ninguém jamais ouviu dele um destempero verbal. Fora do governo, amargou o ostracismo e a censura do poder, sem direito sequer de responder aos ataques desferidos pelos adversários, por meio da imprensa.

Um otimista por natureza. Para alguns, um megalomaníaco, com ideias mirabolantes e sonhos irrealizáveis. O tempo, senhor de todas as verdades, mostrou que seus sonhos de fazer um Piauí diferente não eram devaneios. Eram, antes de tudo, necessários.

GRANDIOSIDADE – O tempo também calou seus críticos, fazendo-os reconhecer a grandiosidade de suas ideias. Embora de um jeito meio disfarçado, deram o braço a torcer: Alberto era governante para um Estado como São Paulo, dono de condições econômico-financeiras e estruturais que permitem a realização de coisas grandiosas; não para o Piauí, pobre, atrasado e miseravelmente dependente da boa vontade de Brasília.

A importância de Alberto Silva para o Piauí está de tal forma gravada na cabeça do piauiense que, quando alguém quer demonstrar, do modo mais simples, a magnitude de sua obra, observa, apenas: “Tire as obras que Alberto Silva fez no Piauí e veja o que sobra”.

PÁGINAS AMARELAS – Ele foi o único governador do Piauí a ser entrevistado nas “Páginas Amarelas” da Revista Veja, que se impressionou com as proezas de sua gestão! Só outros dois piauienses ocupariam o mesmo e prestigiado espaço, ainda assim porque exerciam destacadas posições no plano nacional: Petrônio Portella, como presidente do Congresso (1971/1973 e 1977/1979), Reis Velloso, como ministro do Planejamento (1969/1979).

Pouco, muito pouco, se escreveu sobre Alberto Silva sem objetivos e interesses políticos imediatos. Chega a ser curioso que uma figura pública tão expressiva e múltipla não tenha chamado a atenção dos historiadores e pesquisadores.

Em livros, existem poucas obras sobre ele. O jornalista Tomaz Teixeira, seu fiel escudeiro, lançou A Outra Face da Oligarquia do Piauí, em 1979; e Alberto Silva – O Mito e o Político, em 2010. São dois depoimentos sobre o ídolo político e o seu tempo.

DOUTORADO – Na academia, a obra mais consistente – e talvez a única – sobre Alberto Silva foi produzida pela professora Cláudia Cristina da Silva Fontineles, da Universidade Federal do Piauí (UFPI). Trata-se de O Recito do Elogio e da Crítica – Maneiras de Durar de Alberto Silva na Memória e na História do Piauí. A obra é fruto de sua tese de Doutorado em História. Foi publicada em 2015, pela Editora da UFPI, e lançada na Academia Piauiense de Letras (APL). É uma densa e criteriosa pesquisa sobre o político Alberto Silva, seu objeto de estudo, à luz de um vasto aporte teórico e metodológico.

Este livro não esgota o rico manancial sobre a vasta contribuição política e administrativa de Alberto Silva. No máximo, procura assimilar o essencial do homem público que ele foi, e de sua obra, para que sua história seja conhecida também por novas e futuras gerações.

O professor e acadêmico M. Paulo Nunes, um dos luminares da Academia Piauiense de Letras, costuma repetir que se dizia do educador Anísio Teixeira que ele era um homem que sonhava com as mãos. Isto é, um homem que pensava e realizava. O mesmo se pode dizer de Alberto Silva – um homem que pensava grande e realizava, igualmente, obras grandiosas.”

Futebol e política, numa sucessão de chutes certeiros e boas defesas

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Sergio Porto, nosso saudoso Stanislaw, dizia que “no futebol a cabeça é o terceiro pé”. Os bretões o inventaram achando que aquilo era só uma brincadeira sem pé nem cabeça. E no entanto metade da humanidade continua em frente a uma TV.

Até macacos jogam. É clássica, e já contei aqui, a historia do Adalardo de Alegrete, no Rio Grande do Sul. A cidade estava em festa. O Cruzeiro de Porto Alegre tinha chegado para jogar contra o Alegrete Esporte Clube. Banda de música, bombacha e chimarrão. Um furor cívico.

O GOLEIRO – Na hora do jogo, a tragédia. O goleiro tinha tomado um porre de vinho e roncava no canto do vestiário. O primeiro reserva caíra do cavalo, quebrou a perna. O outro reserva fugira na véspera com a sobrinha.

A solução era o circo. Foram buscar o “Adalardo”, o macaco prodígio, que pegava coco jogado dos quatro cantos do picadeiro.

Adalardo não negou fogo. Camisa número um, piscando o olho e coçando a cabeça debaixo da trave, pegou tudo quanto foi bola. E ainda cuspia no centroavante. Foi um delírio. Acostumado aos aplausos, fazia pontes e defesas sensacionais. Alegrete cantava a trave fechada e a vitória.

Mas houve um pênalti contra o Alegrete. Adalardo achou que tinha havido uma sujeira. A cidade inteira olhava para ele calada. Por que não batiam palmas? Por que não aplaudiam? A culpa era certamente daquele homem todo de preto que tinha botado a bola ali na frente dele e mandara outro chutar. Antes do chute do pênalti, Adalardo enlouqueceu.

Saiu da trave aos pinotes, deu urros no meio do campo, avançou no juiz e lhe mordeu o dedo, quase arrancando. O jogo acabou empatado.

ZICO – O deputado Antonio Moraes, do MDB do Ceará, professor, radialista, arranjou uma maneira de aproveitar uma Copa do Mundo para continuar a campanha contra a Arena. Ia para o rádio, pegava o microfone, começava a irradiar uma hipotética partida de futebol:

– O Coronel Virgílio passa para o coronel Bezerra, o coronel Bezerra passa para o coronel César Cals, o coronel Cals avança, dribla, chuta ….. “Gooolll. Goooollll contra o Ceará”!

E pedia voto para o senador Mauro Benevides,“o Zico de Iracema”.

OSORIO – Osório Vilas-Boas, vereador, presidente da Câmara Municipal de Salvador, candidato a prefeito, deputado do MDB, acabou cassado pelo AI-5 em 1969. Em maio de 64, era presidente do Esporte Clube Bahia, o maior do Estado. Ia embarcar para os EUA com seu time para um torneio em Nova York, recebeu ofício do consulado americano:

“Consulado Americano, Salvador, Bahia, Brasil, 19 de maio de 64.

Ilmo. Sr. Osório Vilas-Boas, Rua Aurelino Leal, 36, nesta.

Prezado Senhor: este escritório lamenta informar que está impossibilitado de dar o visto a V.Sa., porque se verificou que V. Sa. é inelegível (sic) para visto, sob a seguinte seção da “Lei de Imigração e Nacionalidade”:

 “Seção 212 (a) (28) (3), a qual proíbe a concessão de vistos a qualquer pessoa que advogue, ou pertença ou seja filiada a grupos que advoguem a doutrina do comunismo mundial. No entanto, poderemos dar maiores considerações ao seu requerimento para visto se V. Sa. Obtiver e apresentar a este escritório os seguintes documentos: atestado assinado pela polícia e pelas autoridades militares em como V. Sa. não advogou ou foi filiado a grupos que advogam a doutrina do comunismo mundial.

“Atenciosamente, pelo cônsul, Roberto E. Service – vice-cônsul”.

Osório acabou indo e o Bahia se vingou do consulado idiota.

VINGANÇA – Osório Vilas Boas, presidente do clube Bahia por longos anos, era deputado talentoso e bom orador. Na AssemblEia, o deputado Durval Gama, médico, não tinha condições de discutir com ele, apelou:

– V. Exa. é um analfabeto, não pode transformar esta casa em uma Assembleia de terceira categoria.

– Sou quase analfabeto, sim, mas tenho vivência. Conheço o mundo inteiro viajando com o Bahia. V. Exa. sabe qual é a capital da Escócia?

– Não sei não.

– Pois eu sei. Glasgow. E estive lá.

Durval Gama desistiu.

NEGRÃO – No bar de Ipanema, no Rio, um grupo de rapazes bebia e papeava. Um deles começou a desancar o Negrão:

– Nosso mal é esse Negrão. Vocês vão ver, vamos nos enterrar por causa dele. Não tem mais jeito. O Negrão está velho, cansado, preguiçoso. Não é mais aquele. Por que insistir nele? O negócio era tirar e mandar descansar. Tem muita gente melhor para o lugar do Negrão.

Do lado, um policial ouvia e esperava. Quando o garoto parou para tomar fôlego, estava seguro:

– Vamos, está preso. Está aí pregando a derrubada do governador.

– O senhor está é maluco. Será que neste país a gente não pode mais falar mal nem do Pelé?

Ele estava falando mal era mesmo do Negrão de Lima, governador da Guanabara. Mas Pelé, o outro Negrão, salvou mais uma jogada.