Fazendo justiça a Calabar, um patriota que foi desonrado, como tantos outros

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Assim como Tiradentes, Calabra foi morto e esquartejado

Sebastião Nery

A mãe era índia da tribo Tupi, tinha nome bonito, Ângela Álvares, e “possuía fartos haveres”. O pai, ninguém nunca soube. Certamente um padre. “Caboclinho mestiço, mulato, não tinha boa presença e possuía feições grosseiras”. Educado pelos jesuítas de Olinda, “dominava outras línguas. Culto, ambicioso, inteligente, prospero senhor de engenho, possuía três grandes engenhos cobertos de cana de açúcar”.

Domingos Fernandes Calabar, jovem, valente, “primeiro herói brasileiro” (nasceu em 1600 e morreu em 1635), entrou para a História do Brasil pela porta dos fundos. Como traidor. Uma brutal mentira da História oficial. Napoleão já dizia que a História é a crônica dos vencedores.

FAZENDO JUSTIÇA – Mas sua terra começou a lhe fazer justiça. O prefeito Carlos Eurico Leão e Lima oficializou o orgulho dos conterrâneos, na entrada da cidade: – “Porto Calvo, terra de Calabar”.

Os poetas sabiam. José Bonifácio, o Moço (1827-1886), tinha avisado: – “Oh, não vendeu-se, não! / Ele era escravo / do jugo português. / Queria a vingança. / Abriu sua alma às ambições de um bravo”.

O também alagoano Jorge de Lima (1895-1953) confirmou: – “Domingos Fernandes Calabar / eu te perdôo! / Tu não sabias / decerto o que fazias, / filho cafuz / de Sinhá Ângela do Arraial do Bom Jesus. / Combateu. Pelejou. Entre a batalha / viu essas vidas que no pó se somem. / Enrolou-se da Pátria na mortalha, / ergueu-se – inda era um homem”!

ELOGIO DA TRAIÇÃO – E, apesar da censura da ditadura, que vetou a peça “Calabar, O Elogio da Traição”, as músicas e versos de Chico Buarque e Ruy Guerra continuam ai, belíssimos, imortais, em um dos mais fortes instantes da música e do teatro do país.

Subir os 20 quilômetros de rio que ligam o mar de Alagoas, em Porto de Pedras, a Porto Calvo, define a loucura das nações, com a Holanda invadindo e Portugal e Espanha, que chegaram antes, defendendo um mundo, vasto mundo, que era só mato e índio, mas com ricas terras para cana de açúcar.

CERCO A SALVADOR – Em abril de 1624, “26 navios com 3.500 holandeses cercam e invadem Salvador, na Bahia, encontram apenas o governador Diogo de Mendonça Furtado e familiares, mas não foram alem dos muros da cidade, encurralados pelos guerrilheiros do arraial do Rio Vermelho, sob a chefia do bispo Dom Marcos Teixeira. O almirante Willekens voltou à Holanda, o coronel Van Dorth morreu vitima de emboscada, o comandante Schouten faleceu por excesso de bebida, substituído pelo irmão Willem, igualmente dado à embriaguez. Em abril de 1625, poderosa armada luso-espanhola reconquistou a Bahia. Em fevereiro de 1630, os holandeses voltaram com 67 navios e 7 mil homens, mas para Olinda e Recife. O governador Matias de Albuquerque não pôde resistir, construiu o Arraial do Bom Jesus, onde, recorrendo a guerrilhas, ficou até 1635 e se retirou para as Alagoas” (EB).

MELHORAR A TERRA – Calabar durante anos foi um comandado de Matias Albuquerque. Quando o general espanhol Bagnuolo veio inesperadamente da Espanha para substituir Matias de Albuquerque, Calabar mandou uma carta para Matias de Albuquerque, voltou para Porto Calvo e se aliou aos holandeses “sem querer recompensa nem coisa alguma, mas para melhorar minha terra, que não tem liberdade de espécie alguma, e com a mesma sinceridade e o mesmo ardor com que me bati pela vossa bandeira, me baterei pela bandeira da liberdade do Brasil, que agora é a holandesa; tomo Deus por testemunha de que meu procedimento é o da minha consciência de verdadeiro patriota; como homem tenho o direito de derramar meu sangue pelo ideal que quiser escolher”.

ESCOLAS E TEATRO – “Porto Calvo na época possuía até escolas e teatro. Os holandeses já haviam ocupado o povoado, subindo o rio por Porto de Pedras, com 25 navios e 4 mil homens. Em julho de 1635, chegaram os espanhóis e portugueses e, na batalha de Porto Calvo, derrotaram os holandeses, tomaram o forte do Alto da Força, enforcaram Calabar, esquartejaram-no, colocaram seus pedaços nas arvores das principais ruas do centro do povoado e foram embora. Os holandeses voltaram por Barra Grande, em Maragogi, recolheram os pedaços de Calabar, o enterraram na Igreja Nova, hoje Matriz de Nossa Senhora da Apresentação e obrigaram a população a lavar as ruas por onde ele passou”.

Mas não só Calabar orgulha esta histórica cidade. Aqui nasceu e lutou, ao lado dos portugueses e espanhóis, a primeira Anita Garibaldi, Clara Camarão, que aos 16 anos se casou com o guerrilheiro Felipe Camarão, nascido no Rio Grande do Norte, sempre montada no seu cavalo branco.

ZUMBI DOS PALMARES – Também aqui nasceu Zumbi, o herói negro de Palmares, para onde fugiu à frente de 40 escravos negros vindos da Guiné. Como Calabar, criado por um padre, entre a casa paroquial e a sacristia.

E acabou vivendo no quilombo com Maria, que se acredita filha de uma irmã do fundador da cidade, capitão Cristóvão, com o padre Gurgel, pároco de Porto Calvo.

É a História do Brasil que não se conhece.

A orelha mordida na hora do casamento e as histórias de D. João VI no Brasil

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D. Joao Vi e Carlota Joaquina fizeram a diferença no Brasil colonial

Sebastião Nery

“Na hora do casamento, num incidente que daria o tom dos quarenta anos seguintes, dona Carlota deu uma mordida violenta na orelha de Dom João. No cerne dos problemas da família real portuguesa, estava um casamento tão desastroso que, em alguns momentos, suas consequências transbordariam para o domínio público.

Dona Carlota (Joaquina, infanta espanhola, filha do príncipe das Astúrias, futuro rei Carlos IV) fora convocada para desposar Dom João (príncipe  de Portugal), então com 18 anos, em 1785, quando contava apenas 10 anos (o casamento só se consumou em 1790, quando ela fez 15 anos). Selada por razões de Estado, a união deu continuidade a uma tradição de casamentos entre as cortes espanhola e portuguesa. O casal teve nove filhos”

NA PRAÇA XV – E foi assim, de uma mordida na orelha do noivo na hora do casamento, da demência da rainha-mãe louca e fugindo de Napoleão que invadia Portugal, que o “príncipe do Brasil”, Dom João (a partir de 1815, Dom João VI), desembarcou na Praça XV, no Rio de Janeiro, em 8 de março de 1808, e o Rio se transformou na capital do Império Português.

Foi uma aventura para humilhar qualquer Manoel Carlos ou Gloria Perez. Essa história “recheada de personagens extravagantes” é contada, dia a dia, “com notável maestria”, pelo jornalista australiano, radicado em Londres, Patrick Wilcken, que se baseou em documentos brasileiros e portugueses, além de pesquisas no ministério de relações exteriores britânico: “Empire Adrift – The Portuguese Court in Rio de Janeiro – 1808-1821” (“Império à Deriva – A Corte Portuguesa no Rio de Janeiro – 1808-1821”).

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ALGUNS TRECHOS DA OBRA DE WILCKEN

– “A família real dividiu-se entre quatro navios. O “Alfonso de Albuquerque” trouxe dona Carlota e quatro de suas seis filhas. As duas filhas do meio viajaram no “Rainha de Portugal”, enquanto os membros inferiores do cortejo real – a tia e a cunhada idosas de Dom João, ficaram a bordo do “Príncipe do Brasil”. Na nau capitânea, a “Príncipe Real”, embarcaram Dom João, a Rainha Maria Iª, a Louca, e os herdeiros varões Pedro e Miguel”.

– “Dona Carlota era minúscula, baixa, menos de um metro e meio, de feições andaluzas morenas e usando um curioso turbante para cobrir a cabeça raspada. Dom João, um homem baixo e corpulento, de cabeça grande e braços e pernas troncudos. A família real passou um mês descansando em Salvador. Em 8 de março, desembarcaram no Rio. Durante um curto período, dom João e Dona Carlota dormiam em quartos situados no mesmo corredor, um em frente ao outro. Mas esse arranjo não durou muito. Os dois não tardaram a morar em extremos opostos da cidade, com os familiares divididos entre eles”.

– “O Rio era menor do que Salvador: 60 mil habitantes na chegada da família real. O vice-rei invocou uma lei impopular que dava à coroa o direito de confiscar casas particulares. Funcionários percorriam a cidade, escolhendo arbitrariamente as residências adequadas e escrevendo a giz, em suas portas de entrada : “PR” (“Príncipe Regente”). O sinal indicava que os moradores deveriam desocupar prontamente as propriedades. Essas iniciais tornaram-se popularmente conhecidas pelos cariocas exasperados como “Ponha-se na Rua”.

– “Dom João saia com um cortejo de autoridades. Com pouco tempo, passou a cumprimentar muitos súditos pelo nome. Criou um sistema de concessão de honrarias, do qual nasceu a nobreza brasileira: fazendeiros, senhores de escravos e comerciantes ricos receberam títulos de marquês, conde, barão e cavaleiro, o que consolidou ainda mais a popularidade de Dom João. 

– O príncipe regente era venerado. Dona Carlota galopava pela zona rural. As excentricidades de dona Carlota viraram temas de mexerico na cidade: o habito pouco feminino de montar como um cavaleiro, com um rifle pendurado no ombro, suas expedições de caça pelas montanhas e o obvio afastamento do marido chocaram a sociedade colonial conservadora”.

– “Joaquim José de Azevedo, o funcionário da corte que havia supervisionado o embarque da família real, enriqueceu tanto no Brasil que acabou por se tornar o banqueiro da corte”. (E nasceu o Banco Central).

O que Dom João VI fez, administrativa e politicamente, ficou na História. Não foi um gordinho glutão e alienado, comedor de frangos. Foi um estadista.

Afinal, o que é a verdade, quando se sabe que a poesia é o Genesis da Humanidade?

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Pôncio Pilatos perguntou a Jesus: “O que é a verdade?”

Sebastião Nery

A Grécia é filha de Homero. Nasceu do ventre da Ilíada e da Odisséia. Sócrates, Platão, Aristóteles germinaram a filosofia. Ésquilo, Sófocles, Eurípides sangraram a tragédia. Mas foi a poesia de Homero que gerou e plasmou a alma eterna da Grécia.

Roma foi de César, de Augusto, de Adriano. Mas sem a Eneida de Virgilio, as Odes de Horácio, as Metamorfoses de Ovídio, Roma teria sido um Império mas não teria sido uma Civilização.

A Itália é Dante e o depois dele. A Inglaterra é Shakespeare e o sempre. Como a Alemanha é sobretudo Goethe; Portugal Camões.

Por que? Porque a poesia é o Genesis. “In principio erat verbum”. No princípio era a palavra. No início era a poesia. E “o poeta é um pequeno Deus”.

O QUE ELES DIZIAM – Platão sabia disso : – “O poeta é um ser alado, sagrado, todo leveza, e somente capaz de criar quando saturado de Deus”.

Shakespeare também: – “O olhar do poeta, girando em delírio, vai do céu para a terra, da terra para o céu. Quando a imaginação toma corpo, captura a essência das coisas”.

E Goethe: – “Poetas não podem calar-se. Quem vai confessar-se em prosa? Abrimo-nos como rosa, no calmo bosque das musas”.

E Victor Hugo: – “Um poeta é o mundo dentro de um homem”.

A VERDADE POÉTICA – Impalpável, intangível, só ela, a poesia, é a verdade. Etérea. A verdade alada de Platão, a verdade ensanguentada do Cristo.

Pontius Pilatus ganhou de Tiberius, imperador de Roma, o governo da Judeia e da Samaria, quando exilou Arquelau, filho de Herodes, o Grande, e irmão de Herodes, o antipático Antipas, que deu a Salomé o pescoço de João Batista.

Philo Judaeus e Josephus, historiadores judeus, contemporâneos de Pilatus, disseram que ele era “ríspido e intratável”. Mas não queria matar Jesus. Quando aquele homem de olhos mansos, coberto de sangue, chegou preso ao palácio, trazendo na cabeça a coroa sarcástica – “Jesus Nazarenus Rex Judeorum” –, Pilatos lhe perguntou quem ele era :

– “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”.

O QUE É A VERDADE? – O caminho Pilatos sabia o que era. A vida, também. Mas a verdade, não. Pilatos outra vez lhe perguntou:

– O que é a verdade?

Jesus não respondeu. E foi levado para morrer.

Beletristas medievais, monges e poetas, diziam que Jesus não respondeu porque a resposta já estava na pergunta, em latim:

– “Quid est veritas”? (O que é a verdade?).

Com as mesmas 14 letras da pergunta, escreve-se a resposta :

– “Est vir qui adest”. (É o homem que está aqui).

É INDEFINÍVEL – Nem a verdade disse o que é a verdade, porque indefinível. Como a poesia. Ninguém a definirá. Sentida, vivida, sofrida ou gargalhada, mas indizível. Nasce e morre no mistério. Como as gaivotas, levita e mergulha. Aflora e submerge. É feita de luz e sombra, flor e cacto, carne e sangue. A poesia é o mágico encontro entre a beleza e a pedra, o sonho e a dor, a vida e a morte.

Na impossível busca da verdade, só a poesia é a verdade. Um pequeno, belo, talvez anônimo poema traduz magnificamente o que vai pela alma dos homens em cada Natal, cada virar de Ano Novo, cada começo de novo ano.

Consta, embora jamais comprovado, que é de Che Guevara. No Natal de 1966, em Nancahuazu, na Bolívia, nas derradeiras trincheiras da inviável guerrilha, cercado de solidão e da certeza do sonho perdido, ele o teria escrito:

“Cristo, te amo!
Não porque desceste de uma estrela,
Mas porque me revelaste
Que o homem tem lágrimas, angústias
E chaves para abrir as portas fechadas da luz.

Tu me ensinaste que o homem é deus,
Um pobre deus crucificado como tu.
E aquele que está à tua direita no Gólgota,
O bom ladrão, também é um deus”.

Banqueiro de Deus e do Diabo pegou 19 anos na Operação Mãos Limpas

Conde Ortolani perdeu o passaporte brasileiro e foi preso

Sebastião Nery

O carrão preto, com motorista de libré, parava na porta da embaixada do Brasil em Roma, na mítica Piazza Navona. Descia um senhor baixo, 80 anos, terno escuro, colete cinza, camisa branca e gravata preta, bigodes à francesa e brilhantina no cabelo, um dos homens mais poderosos da Itália. Conde do Papa, ia buscar-me quando eu era adido cultural, para almoçar.

Íamos aos mais discretos e refinados restaurantes de Roma, com os melhores vinhos da Itália. Às vezes, o almoço foi no palacete dele, na Via Archimede, no alto do Gianícolo, ou, em um domingo de sol, na sua casa na serra, em Grottaferrata. Simpático, Umberto Ortolani era uma figura ambígua, misteriosa. Mal falava, só perguntava. A cada duas frases, uma pergunta.

QUERIA O BRASIL – Dele sabia que era conde da Santa Sé, “Gentiluomo di Sua Santitá”, banqueiro do Vaticano. Eu o tinha conhecido em uma exposição no Masp, em São Paulo, apresentado pelo jornalista José Nêumanne, do “Estado de S. Paulo”

O que ele queria de mim? Queria o Brasil. Queria que eu convencesse o embaixador Carlos Alberto Leite Barbosa a convencer o Itamaraty a lhe entregar um novo passaporte, pois tinha cidadania brasileira dada pela ditadura militar, e os dois que tinha, o italiano e o brasileiro, o governo italiano tomara ao descer em Roma, depois de vários anos asilado no Brasil.

Impossível. Quem tomou o passaporte foi o governo italiano. O Brasil nada tinha a fazer. Logo de começo lhe comuniquei a opinião do embaixador e do Itamaraty. Mas ele acreditava que, insistindo, talvez conseguisse, sobretudo depois daqueles irresistíveis Brunellos di Montalcino. Queria fugir de novo.

EM CIMA DA BULGARI – Levou-me a seu histórico escritório na Via Candotti, 9, sobre a bela loja Bulgari: “Desta sala saíram sete primeiros-ministros, Andreotti, Craxi, todos”.

O conde Ortolani é uma historia exemplar do satânico poder dos banqueiros, mesmo quando, como ele, um banqueiro do Papa, vice-presidente do Banco Ambrosiano, do Vaticano. Um livro imperdível, “Poteri Forti” (“Fortes Poderes, o Escândalo do Banco Ambrosiano”, Editora Futuro Passato), do jornalista Ferruccio Pinotti, abriu as entranhas do poder de corrupção do sistema financeiro, de braços dados com governos, partidos, empresários, máfia, maçonaria, cardeais, grupos religiosos, Opus Dei, etc.

1 – Em junho de 1982, foi encontrado estrangulado em Londres, embaixo da Blackfriars Bridge, a “Ponte dos Irmãos Negros”, o banqueiro italiano Roberto Calvi, presidente do Banco Ambrosiano, que acabava de quebrar e tinha como vice-presidente o cardeal Marcinkus e diretores o conde Ortolani e o chefe da P2 italiana (maçonaria), Licio Gelli.

2 – Gelli foi logo apontado como “mandante”. Nos dias seguintes, na Itália e na Inglaterra, apareceram assassinados vários outros ligados a Calvi (não é só na Santo André do PT paulista que testemunhas de crimes morrem em serie). E no meio da confusão, Ortolani, um dos cavaleiros do Apocalipse.

3 – Ortolani começou trabalhando com Bill Mazocco, agente da CIA na Itália depois da guerra, que “controlava a política e os sindicatos italianos”. Logo Ortolani criou uma Agencia de Imprensa, tornou-se um “traço de união” entre o Vaticano e a Maçonaria e diretor do poderoso “Corriere de la Sera”.

4 – Entrou para o Ambrosiano, um pequeno banco de padres que, tendo atrás o IOR (Instituto para as Obras da Religião), o banco oficial do Vaticano, dirigido pelo cardeal americano Marcinkus, logo fica poderoso e se instala em toda a América Latina: México, Nicarágua, Panamá, Venezuela, Brasil, Chile, Argentina, Uruguai, de braços dados com as ditaduras civis e militares: Perón e o chefe de seu Esquadrão da Morte Lopes Rega e generais sulamericanos.

5 – Tornou-se intimo dos mais poderosos cardeais. Quando João XXIII morreu, ele reuniu em sua casa de campo, lá na bela Grotaferrata onde almocei, um punhado de cardeais com o cardeal Montini, que dali saiu candidato e virou Papa Paulo VI, que depois o fez conde da Santa Sé.

6 – Ortolani também criou no Uruguai seu banco: o Bafisud (Banco Financeiro Sul Americano) e se instalou em São Paulo, onde se ligou aos governos militares, ficou intimo dos Mesquita do “Estadão”, continuou atuando junto à CIA e ganhou cidadania brasileira, com passaporte e tudo.

7 – Estourado o Ambrosiano, assassinado o presidente Calvi, preso o Gelli da P2 e o cardeal Marcinkus fugido nos Estados Unidos, a Itália pediu ao Brasil a extradição de Ortolani, mas, em 25 de setembro de 84, o Supremo Tribunal negou. Tempos depois, voltou à Itália para defender-se.

8 –  A “Operação Mãos Limpas” apertou o cerco, ele decidiu sair mas era tarde. Não tinha os passaportes. Em abril de 1992, Ortolani foi condenado a 19 anos, Gelli a 18 e outros 20 envolvidos pegaram de 5 a 15 anos. Em 1998, o Tribunal diminuiu as penas. Em 17 de janeiro de 2002, aos 90 anos, morreu em Roma meu amigo conde.

Quando baixaram o AI-5, a Polícia prendeu o líder estudantil errado no Recife

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Base eleitoral de Barreto era Cajazeiras 

Sebastião Nery

Às 20 horas de 13 de dezembro de 1968, em Recife, no auditório da Universidade Católica, o estudante de Direito Bosco Barreto (João Bosco Braga Barreto), paraibano, orador da turma, começava o discurso de formatura fazendo comovida e entusiástica saudação ao “grande comandante revolucionário Ernesto Che Guevara”, que morrera um ano antes.

Muito azar. Naquele exato momento, em todas as rádios e TVs, Costa e Silva apavorava o pais, lançando o AI-5 (Ato Institucional nº 5), jogando a nação no mais fundo porão da ditadura. De manhã cedo, o Exercito mandou buscar em casa “o Bosco da PUC”. Erraram de Bosco. Em vez do Bosco Barreto, o orador da turma de Direito, levaram o Bosco Tenório, também “Bosco da PUC”, aluno da PUC, jovem vereador recém-eleito de Recife.

INTERROGATÓRIO – No quartel, foi recebido pelo major Raimundo Sá Peixoto. Desafiante, com o discurso na mão, o major lia uma frase e interrogava:

– Senhor Bosco, o senhor confirma este elogio desbragado a Che Guevara que o senhor fez ontem no seu discurso?

– Não confirmo não, major.

– Como não confirma? O senhor está louco? O senhor falou ontem à noite e hoje de manhã já não confirma? E este trecho aqui, o senhor confirma?

E o major Peixoto leu mais um longo pedaço do discurso e perguntou:

– E isso, confirma ou não confirma? Não sustenta o que disse ontem?

– Major, eu até concordo com o discurso que o senhor está lendo. Mas não confirmo nem sustento, porque não fui eu que disse isso. Quem falou foi o orador da formatura. Como é que eu podia ser orador de formatura, se não me formei e ainda sou estudante? Esse Bosco aí é outro Bosco, major.

O major quase esganou o Bosco Barreto, o número 2. Quanto ao Bosco Tenório, valente vereador do MDB de Recife, hoje advogado, foi cassado em outubro de 1969.

DE VOLTA À CASA – O Bosco Barreto, formado, voltou para sua terra, Cajazeiras, na Paraíba. Advogado dos camponeses fugidos da seca e do povão das periferias, ganhou enorme popularidade. Em 1972, saiu candidato a prefeito pelo MDB, quase ganhou. Logo em seguida, organizou uma romaria a Juazeiro do Norte para agradecer os votos ao Padre Cícero. 30 mil romeiros atrás dele, todos a pé.

Em 1974, Bosco Barreto se elegeu deputado estadual pelo MDB, com 9.326 votos, quase todos em Cajazeiras. Mas havia alguém muito importante que não gostava nada dele, e que ele também detestava e se combatiam: era o bispo de Cajazeiras por 40 anos, dom Zacarias Rolim de Moura.

BISPO CONSERVADOR – Culto, dedicado ao ensino, diretor de colégios e do seminário, criador da Faculdade de Filosofia, Dom Zacarias era um poço de conservadorismo e reacionarismo, inimigo da Teologia da Libertação, crÍtico de dom Helder Câmara e dom José Maria Pires, o dom Pelé, arcebispo de João Pessoa.

De repente, em 2 de julho de 75, às 21 horas, durante a exibição do filme “Sublime Renúncia”, que contava a historia de um assalto a banco com bomba-relógio, uma bomba poderosa explodiu no cinema de Cajazeiras, abalando a cidade de 30 mil habitantes, matando duas pessoas, ferindo muitos.

Escândalo nacional, em plena ditadura. A bomba explodiu exatamente ao lado da cadeira cativa do bispo, apaixonado por cinema, que escolhia os filmes em Recife e levava para lá. Naquela noite, por sorte, estava em Recife.

MAIOR SUSPEITO – “Atentado terrorista”, gritaram os jornais. O primeiro “suspeito” de organizar o atentado tinha que ser ele, o “subversivo” deputado Bosco Barreto.

Outros suspeitos foram a linha-dura militar, para desestabilizar a “abertura” do general Geisel, como mais tarde fizeram no Riocentro e na OAB, no Rio.

Dez anos depois, já morando em Brasília, como advogado do CNPq e suplente de senador, Bosco Braga tentou reabrir o caso, mas nada se apurou.

VIROU LIVRO– Essa historia está toda em um livro muito bem documentado sobre a política da Paraíba e do Nordeste (“Do Bico de Pena à Urna Eletrônica” – Editora Bagaço, Recife, 2006), de Francisco Cartaxo Rolim, paraibano de Cajazeiras, advogado, economista, escritor, secretario de Planejamento do Estado, chefe de gabinete da Sudene e parente de Dom Zacarias Rolim.

A metralhadora do embaixador Gilberto Amado e a insistência do professor em Minas

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Gilberto Amado, gênio da raça, foi embaixador do Brasil no Chile. Houve uma crise diplomática, ele voltou, ficou no Rio em disponibilidade. O ministro do Exterior, Macedo Soares, não o indicava para novo posto. Gilberto Amado perdeu a paciência, avisou:

– Qualquer dia desses, entro no Itamaraty com uma metralhadora embaixo do braço, vou ao gabinete do ministro e disparo: “tatatatatatatatatatá”: Macedo para um lado, Soares para o outro.

DONOS DO LUGAR – Desde o Império, os Andradas e os Bias Fortes foram donos de Barbacena, em Minas Gerias. Mandavam e desmandavam. Às vezes, desmandavam mais do que mandavam. Séculos de poder político.

Até que chegou a Barbacena, por concurso público, um professor de Matemática, para ensinar na histórica Escola Preparatória de Cadetes do Ar, da Aeronáutica. Vinha de longe, de Bananeiras, perto de Campina Grande, na Paraíba, nas fraldas da Serra da Borborema, que o saudoso José Américo jurava que produz os melhores abacaxis do mundo.

O professor até que era amigo dos Andradas e dos Bias, mais dos Bias do que dos Andradas, mas achava que era Andradas e Bias demais para séculos demais. E decidiu pegar a metralhadora do voto do povo e “tatatatatatatatatá”, jogar os Andradas para um lado e os Bias para o outro. E foi o que fez.

PARTICIPATIVO – Tinha o saber camoneano de experiência feito. Chegado da Paraíba em 1951, como eu da Bahia, em 52, fez vestibular para Matemática na FAFI (Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras) da Universidade Federal, como também fiz para Filosofia. E fizemos o que um estudante consciente (e nordestinos, imaginem!) faz numa Universidade, em um pais em tempos de crise política. Participamos de tudo.

Ele foi diretor do jornal do Diretório Acadêmico (“Filosofia”), tesoureiro do DCE (Diretório Central dos Estudantes), membro do Parlamento dos Estudantes Mineiros, nosso representante junto à UEE (União Estadual dos Estudantes) e à UNE (União Nacional dos Estudantes).

Até que veio o golpe de 64 e encontrou o professor ensinando matemática no Colégio da Aeronáutica de Barbacena. Foi logo preso e logo solto. Continuou ensinando. Preso de novo, solto de novo. Continuou ensinando. Em 66, ajudou a fundar em Minas o MDB, partido da oposição.

SEM GRAVAÇÃO… – Um dia, o professor saia da aula e encontrou no corredor o sargento José Morais, do Departamento de Ensino da Escola de Cadetes:

– Fui bem hoje, sargento?

– Hoje eu não estava gravando.

O sargento, além de outras tarefas no Departamento de Ensino, comandava o sistema de gravação das aulas de todos os professores. Anos mais tarde, era da Casa Militar de Itamar Franco, no governo de Minas.

Em Barbacena, os Andradas e os Bias, acocorados compulsoriamente no ninho da Arena, foram obrigados a unir-se. A cada eleição, municipal ou estadual, em 70, 72, 74, 78, o professor lançava um candidato ou se candidatava ele mesmo. Ganhava mas não levava, porque os Andradas e os Bias somavam as sublegendas e ficavam com a vitória.

Mas veio e 1982 e “tatatatatatatatatá”, foi Andradas para um lado e Bias para o outro. O MDB (já PMDB) do professor Manoel Conegundes ganhou todas em Barbacena: elegeu o prefeito Lídio Nusca, fez maioria na Câmara, Conegundes se elegeu deputado estadual com uma grande votação e deu mais de 20 mil votos a José Aparecido para deputado federal.

Era a primeira vez, em séculos, que os Andradas e os Bias perdiam.

A TELEVISÃO – Nessa campanha de 82, Aparecido, sábio e diabólico, e Conegundes, sábio e santo, candidatos a federal e estadual, andavam em dobradinha pelo interior, visitando amigos e correligionários. Em Carandaí, lá pelas bandas de Barbacena, foram visitar Jamerson Rodrigues Pereira, mais de 70 anos, velho aliado dos Andradas e curtido de finórias malícias. Recebeu-os na sala modesta, encantado com a visita:

– Estou muito satisfeito de ter os doutores em minha casa. Vejo que são dois nomes muito bons para representarem Minas. Mas quero dizer aos senhores que o líder maior da oposição, em todo o Brasil, não está nos partidos, nem na Câmara e no Senado. Está ali, atrás dos senhores. É aquela coisa quadradinha ali, a televisão. Ela, o líder maior da oposição. É só ligar que vem notícia de aumento. E aumento é voto contra o governo.

ACM, o político que conseguiu mandar mais na Bahia do que Juracy Magalhães

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O caudilho ACM, quando brigava, era mesmo para valer

Sebastião Nery

Em 1952, Antonio Carlos Magalhães, médico sem medicina, funcionário sem função da Assembleia Legislativa da Bahia (“redator de debates”) e repórter político do jornal “O Estado da Bahia” na Assembleia, ficou furioso com um discurso do líder do PSD criticando o ex-interventor e líder da UDN no Estado, Juracy Magalhães, e gritou: – Cala a boca, idiota!

Perdeu o emprego e ganhou a proteção de Juracy, amigo de seu pai, o médico e ex-deputado Francisco Magalhães, e de seu padrinho, o reitor da Universidade Federal Edgard Santos. Em 1954, Juracy o pôs na chapa para deputado estadual. Não se elegeu, ficou como primeiro suplente.

SUPLEMENTAR – Mas naquele tempo havia “eleição suplementar” sempre que, por algum motivo, o pleito não se realizava em algum município. Antonio Balbino (o governador eleito pelo PTB, a UDN e uma dissidência do PSD) forçou a barra e garantiu a eleição de Antonio Carlos na “eleição suplementar”.

Antonio Carlos chegou à Assembleia e virou “líder da oposição” de mentirinha ao governo de Balbino. O líder do governo era Waldir Pires, do PTB-PSD. Em 1958, Antonio Carlos e Waldir se elegeram deputados federais. Antonio Carlos pela UDN, Waldir pelo PSD. Waldir eleito por Balbino. Antonio Carlos por Juracy e por Balbino, a quem sempre chamou de “patrão”.

AMIGO DE JK – Na Câmara, embora da bancada da UDN, liderada por Carlos Lacerda, que agressivamente combatia Juscelino, logo Antonio Carlos se tornou amigo de infância de JK, com direito a poderes federais na Bahia. Lacerda cobrou:

– Soube que você esteve ontem em segredo com o Juscelino.

– Estive com ele, sim, às 11 horas. E o Magalhães Pinto esteve às 7:30.

Outra passagem: em 1961, na Câmara, o deputado Tenório Cavalcanti, seu colega da UDN do Rio, atacava o ex-ministro da Educação de Dutra e ministro da Fazenda de Jânio, o baiano Clemente Mariani, dono do Banco da Bahia. ACM o aparteou:

– V. Excia pode dizer o que quiser, mas na verdade o que V. Excia é mesmo é um protetor do jogo e do lenocínio, porque é um ladrão.

Tenório sacou um revolver:

– Vai morrer agora mesmo!

– Atira!

Nem Tenório atirou nem Antonio Carlos morreu.

BANCO DA BAHIA – Dez anos depois, em 1972, Antonio Carlos, governador nomeado da Bahia, soube que o banqueiro Clemente Mariani, pressionado por Delfim Neto, ia vender o Banco da Bahia ao Bradesco. Chamou Mariani ao palácio:

– Doutor Mariani, isso é ruim para a Bahia. Se o senhor quer vender o banco, o Estado compra pelo preço que o senhor vai vender.

– Não, Antonio Carlos. Não vou vender. Você acha que eu teria condições de vender o Banco da Bahia e me enterrar na Bahia?

DESAPROPRIAÇÃO – No dia 2 de julho de 1973, Antonio Carlos voltava da parada da Independência da Bahia, o advogado Prisco Paraíso lhe telefonou do Rio comunicando que o Banco da Bahia tinha sido vendido ao Bradesco. O governador chegou ao palácio, fez um decreto desapropriando a casa de Clemente Mariani e transformando-a numa escola para excepcionais.

Não era uma casa qualquer. Era um belo latifúndio urbano, no alto do morro da Barra, por cima da praia da Barra. O mundo quase veio abaixo. Mariani era o dono da Bahia. Recorreu à justiça, que manteve a desapropriação, “por interesse e utilidade pública”.

PREFEITO DE SALVADOR – Em 1967, presidente estadual da Arena, Antonio Carlos foi nomeado prefeito de Salvador. Eu, cassado, encontrei-o no hotel Califórnia, no Rio:

– Antonio Carlos, você é jovem (40 anos), não cometa o erro de Juracy, que quis fazer da Bahia uma Capitania Hereditária e não fez nem o sucessor.

– Pois vou fazer mais do que ele fez. Juracy mandou 30 anos na Bahia, de 1932 a 1962. Vou mandar 40 anos. (Mandou de 1967 a 2007).

Se o nível do mar sobe e Veneza afunda, como salvar a histórica cidade?

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Veneza acaba de sofrer a pior inundação dos últimos 50 anos

Sebastião Nery

No dia 3 de novembro de 1966, Veneza acordou debaixo d’água. Uma violenta “mareggiata” (ressaca com ventos fortes), vinda do Adriático, caiu sobre a cidade, jogando em seu labirinto de canais uma quantidade de água dois metros acima do nível do mar. A água invadiu tudo, destruiu a rede elétrica, encheu os canais de lixo, ratos e pombos mortos.

O desastre pôs dramaticamente a nu uma dolorosa realidade: a frágil cidade estava lenta mas inexoravelmente afundando nas águas da própria lagoa que a fez nascer e a mantinha viva. Era uma gôndola afogada. E todos se lembraram do belo e profético poema de Byron, que nela morou:

DIZIA BYRON – “Veneza, oh, Veneza!, quando teus muros de mármore forem cobertos pelas águas, levantar-se-á um lamento das nações sobre tuas praças submersas, um alto lamento longo como o mar devastador”.

Veneza não é bem uma cidade. É um museu universal, cercado de água por todos os lados, todas as praças, todas as casas. São 18 ilhas, 400 pontes, 117 canais. Não por acaso, no século 18 ela transformou-se no maior centro de diversões da Europa, com um carnaval que humilhava o da Bahia: 6 meses.

O primeiro grande teatro fechado do mundo está aqui: o Grande Teatro Fenice, de 1792. O palácio dos Doges, em estilo gótico renascentista, tem mestres da pintura como Carpaccio, Veronese, Tintoretto. A basilica de São Marcos, com suas peças em dourado, seus mosaicos e cúpulas, no mais puro estilo bizantino, não parece com nenhuma igreja ocidental. Todo ano, em junho, eles têm a Bienal de Artes e em setembro o Festival de Cinema.

CRAVADA NA HISTÓRIA – A Republica de Veneza é uma das mais curiosas, surpreendentes e duradouras experiências políticas da história humana. Durou de 697 a 1797. Mil e cem anos. O historiador Antonio Carlos de Amaral Azevedo conta:

– “Os Doges eram eleitos. E havia uma “Assembleia Popular”, um “Conselho de Sábios”, o “Grande Conselho”. Do século 7 ao 12, esses magistrados foram os verdadeiros dirigentes da sociedade, da economia e da política, dotados de plenos poderes. Suas tentativas visando a hereditariedade do cargo ocasionaram mudanças no sentido de ser limitada a sua autoridade”.

“A partir do século 12, a aristocracia veneziana criou órgãos constitucionais que se encarregaram de algumas funções administrativas antes centralizadas nas mãos do doge. Este, porém, continuaria a ser escolhido entre as famílias mais influentes da cidade, ocupando o posto até a morte. A ele competia solucionar todas as divergências internas, bem como proteger a cidade contra qualquer ameaça externa”, diz o historiador.

SALVAR VENEZA – As centenas de milhares de turistas do mundo inteiro, espremendo-se pelas praças e passeando nos barcos e gondolas, nem desconfiam como esta maravilha está ameaçada. Mas o mundo vai acordando: é preciso salvar Veneza. Se os gelos polares derreterem, os tornados e nevascas se despejarem, as águas se rebelarem, os mares enlouquecerem, Veneza será a primeira grande vítima.

Depois de 66, muita coisa foi feita. Mas os cientistas estão com medo e com pressa. A “The Venice in Peril Fund” (Fundação Veneza em Perigo”), da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, publicou estudo magnífico de 130 cientistas de todo o mundo, advertindo e apresentando soluções, que estão no livro “La Scienza per Venezia”,de Caroline Fletcher e Jane da Mosto.

DIAS CONTADOS – Os cientistas avisam: “16 milhões de pessoas que todo ano vêm a Veneza vêem as restaurações sendo feitas. Mas a realidade é menos rósea do que parece. A cidade mais bela do mundo tem os dias contados. A frequência da “água alta” aumenta e hoje Veneza não está em condições de defender-se de uma catástrofe maior do que o grande aluvião que sofreu em 66”.

 “O alarmismo dos ecologistas tem fundamento. Veneza não poderá ser salva sem investir tanto nas “barreiras móveis” como na lagoa. As mudanças climáticas provocadas pelo homem ameaçam Veneza: em 2100, o nível do mar pode estar aumentado de 12 para 72 centímetros”.

“A lagoa de Veneza é geralmente pouco profunda : o nível médio da água é de um metro. Nos fundos da lagoa, foram escavados canais de navegação, alguns com até 20 metros de profundidade. Cerca de 60% da lagoa é perenemente submersa. 25% emergem periodicamente com as baixas marés. O resto (15%) é constituído de ilhas teoricamente sempre elevadas (acima do nível do mar), mas hoje ameaçadas pela “água alta”.

AFUNDANDO –  “A cidade desce, o mar sobe. Veneza abaixa 0,5 milimetros por ano. Estudos arqueológicos, sobretudo na basílica de São Marcos, calculam uma perda de altitude de 1 a 1,5 milimetros todo ano, prevendo uma redução da diferença altimétrica, entre a terra e o mar, de 14 centimetros cada século”.

– “Em menos de 50 anos, dos anos 20 aos anos 70, Veneza afundou 10 centÍmetros mais do que Trieste (ali ao lado, também no mar Adriático).

E no dia 12 de novembro de 2019, há menos de um mês, Veneza acordou assustada com uma histórica “acqua alta”.

Convidada por Itamar, dona Sarah voltou ao Palácio da Alvorada 32 anos depois

Márcia e dona Sarah, com Itamar e Silvestre Gorgulho

Sebastião Nery

Delicadeza, simplicidade e espontaneidade eram marcas do Presidente Itamar Franco. Quem convivia com ele pode comprovar, como o jornalista Silvestre Gorgulho, autor deste relato:

Passava das 18 horas do dia 8 de junho de 1993. Uma terça-feira. Acabara de fechar minha coluna no jornal Correio Braziliense, quando a secretária da redação me chama:

– Silvestre Gorgulho, é do Palácio do Planalto.

Atendi. Era um velho amigo dos tempos da Embrapa, o advogado Mauro Durante, então secretário-geral da Presidência da República. Foi logo me perguntando se dona Sarah Kubitschek estava em Brasília. Disse que sim. Tinha estado com ela na casa da filha Márcia na véspera.

– Ótimo! Então aguarde um pouquinho que o Presidente quer lhe pedir um favor.

ITAMAR NA LINHA – Foram dois ou três longuíssimos segundos. Um favor? Pensei comigo. Para o Presidente da República? Uma nota no jornal? O que será, meu Deus? Entra o Presidente na linha e depois de um afetuoso cumprimento e lembranças passadas, diz:

– Silvestre, tomei uma decisão. Estou morando aqui numa casa da Península dos Ministros, mas o Henrique (Hargreaves), a Ruth (Hargreaves) e o pessoal da segurança, todos estão pressionando muito para eu me mudar para o Palácio da Alvorada. O que você acha?

– Presidente…

– Presidente não! Itamar.

– Sim, sim Presidente Itamar… Acho uma sábia decisão. O senhor já devia ter feito isso há mais tempo. Lá é a residência oficial do Presidente da República. Vai lhe dar mais tranquilidade…

– É o que todos falam. Mas eu só vou numa condição. Não quero ser intruso. Preciso de energias positivas. Aquela foi a residência de um homem de bem, de um grande brasileiro e fico assim meio sem jeito de chegar lá no Alvorada assim sem mais nem menos.

ARGUMENTO– Como sem mais ou menos, Presidente… Itamar! O Palácio é a residência oficial…

– Eu sei. Mas isto tudo para mim tem um ar de mistério. A áurea do Presidente Juscelino domina o Palácio da Alvorada. Não que eu seja supersticioso. Dizem, mesmo, que no Alvorada até o piano toca sozinho à noite.

Sem saber onde ia dar esta conversa, eu falava imaginando mil coisas. Lembrei-me da primeira frase de Mauro Durante: “A dona Sarah está em Brasília?”

– Presidente… Itamar. O que o senhor acha se eu conversar com Dona Sarah e contar desta sua intenção de ir para o Alvorada? Vou pedir para ela ligar para o senhor.

– Fale com ela. Se ela quiser me ligar é um prazer. Você sabe de minha admiração pelo Presidente Juscelino e por dona Sarah. JK me ajudou muito na eleição para o Senado em 1974. Quem sabe ela e Márcia passam toda a manhã comigo lá no Alvorada.

COM DONA SARAH – Em vez de ligar, fui ao Memorial JK. Encontrei dona Sarah com o coronel Affonso Heliodoro e a Cirlene. Contei-lhes toda história. Muito feliz e um pouco surpresa, dona Sarah foi logo dizendo que fazia o que Presidente Itamar quisesse. Era muito importante ele ir para o Palácio da Alvorada. Depois de alguns outros comentários, concluiu:

– Silvestre, conheço bem o presidente Itamar Franco. Ele é uma pessoa simples, mas muito atento aos simbolismos. Ele não quer chegar ao Alvorada sozinho. Vamos fazer o seguinte, vou lá recebê-lo com “honras de Chefe de Estado e espírito de Minas Gerais”.

Diante da aprovação e incentivo do Cel. Heliodoro, liguei para Mauro Durante ali mesmo do Memorial:

– Ministro, estou aqui no Memorial com dona Sarah Kubitschek e ela ficou muito feliz com a decisão do Presidente Itamar em se mudar para o Alvorada. Ela vai lhe falar.

Conversaram e acertaram dia e hora para ela e Márcia irem ao Palácio da Alvorada receber o Presidente Itamar.

NO ALVORADA – Assim, dia 10 de junho de 1993, uma quinta-feira, seis meses depois de ser efetivado Presidente da República, Itamar Franco se muda para o Palácio da Alvorada. Além de receber “as Honras de Estado e o espírito de Minas”, Itamar proporcionou uma das maiores emoções à dona Sarah: a eterna Primeira-Dama do Brasil havia deixado o Palácio da Alvorada pela última vez em 30 de janeiro de 1961. Há 32 anos ela não voltava à sua primeira residência em Brasília.

Numa entrevista coletiva, Itamar e dona Sarah falam para o jornalistas. Lembro-me da primeira pergunta de uma repórter de tevê:

– Dona Sarah, é verdade que aqui no Palácio da Alvorada o piano toca sozinho?

– Olha, minha filha – respondeu dona Sarah – este Palácio traz energias extras aos presidentes. Se à noite o piano toca sozinho, está provado o alto astral do Palácio da Alvorada. Há coisa melhor do que uma boa música neste ermo encantado do Cerrado?

Aplausos! E antes de se despedir de Itamar, dona Sarah agradeceu:

– Vivi um sonho, Presidente. São 32 anos sem contemplar as colunas de Niemeyer, sem entrar na Capelinha do Alvorada e sem colher uma flor deste jardim abençoado.

A verdadeira história de Jânio Quadros e seu famoso “Fi-lo porque qui-lo”

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Charge do Otelo (Arquivo O Globo)

Sebastião Nery

Em 1958, Juracy Magalhães, presidente da UDN, Carlos Lacerda, líder na Câmara, e Jânio Quadros, governador de São Paulo, prepararam a convenção nacional da UDN para fazer Herbert Levy o sucessor de Juracy. Magalhães Pinto chegou lá na véspera com José Aparecido, entrou na convenção, derrotou Herbert Levy. Jânio ficou Furioso.

No dia seguinte, Magalhães chamou Aparecido e foram os dois fazer uma visita de cortesia a Jânio. Anunciados, foram levados ao gabinete. Jânio estava sentado, cabeça baixa, escrevendo. Nem levantou os olhos. Os dois, de pé, esperando. Jânio escrevendo. De repente, levanta-se, estende a mão para Magalhães:

– Como vai o senhor, doutor Bilac Pinto?

– Muito bem, doutor Adhemar.

Jânio deu uma gargalhada, Magalhães sorriu. Ficaram amigos.

ATRÁS DO POVO – Candidato a presidente, Jânio foi a Caxias, no Rio Grande do Sul. A convite do padre Giordani, vereador do PDC e coordenador da campanha na cidade. O padre tinha convidado o povo para saudar Jânio nas ruas, quando chegasse, às 6 da tarde, e para o comício à noite.

No aeroporto, um carro aberto esperava o candidato para um desfile triunfal pela cidade. Jânio chamou o padre:

– Nada disso. Quero um carro fechado, bem fechado. Vou direto para o hotel e por ruas ínvias, sem passar pelo centro. Tu-do mui-to rá-pi-do.

– E o povo, presidente?

– O povo? Quem conhece o povo sou eu, senhor padre. Conheço nas faces e na alma. O povo quer mais me ver do que me ouvir. Pois se quiser me ver que vá também me ouvir no comício. Ver-me-á e ouvir-me-á.

Às 8 da noite, Caxias estava toda na Praça. Vendo e ouvindo Jânio.

Confinado em Corumbá, Mato Grosso, em julho de 1968, por causa de uma declaração contra Costa e Silva (responsável por sua cassação: – “Esse zarolho é meu”, e escreveu a mão o nome de Jânio no alto do primeiro listão), Jânio soube que um amigo chegara para visitá-lo. Ligou para a portaria, pediu o número do apartamento, foi lá. Desceu furioso para a recepção:

– Meus queridos, que estúpidos, que parvos são vocês. Deram-me o número errado. Toco a campainha. Aparece alguém, que não é o meu amigo, e nu, inteiramente nu. Saibam, não tenho nada contra homem nu. Mas nu e de óculos? Pelado, sim. Mas de óculos?

FI-LO PORQUE QUI-LO – A verdadeira história do fi-lo porque qui-lo é esta. Como Presidente, Jânio instituiu reuniões mensais, presididas por ele, entre as autoridades federais e os governadores das várias regiões do pais. No sul, Jânio estava reunido com os governadores Leonel Brizola, do Rio Grande, Ney Braga, do Paraná, e Celso Ramos, de Santa Catarina. E anunciou algumas reformas educacionais.

O ministro da Educação, Brígido Tinoco, pego de surpresa, ficou uma fera. Depois do almoço, procurou Jânio:

– Presidente, permita-me dizer-lhe que discordo de algumas dessas propostas. E nem fui avisado. Fê-lo por que?

– Ministro, fi-lo por algumas razões que me parecem relevantes. Primeiro, fi-lo porque estou convencido de que é a melhor solução. Segundo, fi-lo porque esta nação tem pressa. Terceiro, fi-lo porque sou presidente. Como vê, senhor ministro, fi-lo porque qui-lo.

E papo encerrado. Papo e pronomes.

Jânio não quis acordo com Amador Aguiar, do Bradesco, e perdeu a eleição de 1962

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Charge do Nássara, na eleição de 1962 em São Paulo

Sebastião Nery

Voltando de Londres, depois da renúncia à Presidência da República em agosto de 1961, Jânio surpreendeu mais uma vez o país lançando-se candidato ao governo de São Paulo contra Adhemar de Barros e José Bonifácio Nogueira, candidato de Carvalho Pinto.

Jânio saiu numa campanha forte, responsabilizando as “forças terríveis” que haviam levantado um muro diante de seu plano de governo. O slogan do publicitário João Dória, depois deputado, era a síntese do esquema da campanha: “A renúncia foi uma denuncia”.

MUDOU O TOM – Adhemar, contido a duras penas pela sua assessoria política e publicitária, mudou o velho tom, bonachão mas duro. Não atacava Jânio, não falava na renúncia, pregava a paz e a tranquilidade para um Estado ainda traumatizado pelo gesto do ex-presidente, que deixara o país e sobretudo São Paulo deserdados pela renúncia.

A campanha ia chegando ao fim. Jânio crescendo nas prévias eleitorais, Adhemar impaciente, mas obedecendo ao staff. No comício de encerramento, em São Carlos, explodiu. Deixou de lado os conselhos e o projeto de discurso discutido com a assessoria e voltou ao velho tom, direto, irreverente, aberto, cara a cara com o povo. Foi um sucesso: “Povo de São Paulo, eu não aguento mais. Esse homem é maluco. Ele vai botar o professor Carvalho Pinto na cadeia. Ele vai me botar na cadeia. Outra vez! Meu Deus, lá vou eu de novo para a Bolívia!”

Estava em lágrimas. Ganhou por 30 mil votos. Com aquele discurso.

No meio dessa campanha de 1962, em que se candidatou pela segunda vez ao governo de São Paulo contra Adhemar, o vice de Jânio era o brigadeiro Faria Lima. Laudo Natel saiu candidato sozinho, em faixa própria. Parecia clara a vitória de Jânio e de Faria Lima.

LAUDO NATEL – Amador Aguiar, o homem do Bradesco, telefonou para o ex-presidente e marcou encontro na casa de um funcionário do banco. Queria que Jânio retirasse a candidatura Faria Lima para apoiar Laudo Natel, diretor do Bradesco e presidente do São Paulo Futebol Clube:

“Dr. Jânio, sei que sua campanha está com muitas dificuldades financeiras. Poderíamos resolver o assunto e assim seriam eleitos o senhor e o Laudo, que eu trouxe comigo para o senhor conhecer pessoalmente”.

“ Meu caro, já estou eleito. O povo já manifestou sua preferência. Mais uma vez, Dr. Amador. Vou ganhar em São Paulo e em todas as grandes cidades. Nem vou mais às pequenas, porque não precisa. Está na hora de ver quem é ou não é meu amigo, para não haver queixas depois”, replicou Jânio.

AMADOR INSISTE – Mas, presidente, o Laudo está mais forte do que o Faria Lima. Juntos, daremos uma surra no Ademar.

“Não posso, meu caro. Não posso trair o Faria, que é meu amigo dileto. Di-le-to, entendido?”

Na ponta da mesa, baixinho, caladinho, ao lado de José Aparecido, Laudo não tugia nem mugia. Jânio chamou-o para sentar-se mais perto: “Doutor Laudo, o senhor já foi candidato antes a alguma coisa?”

“Não, presidente. Não gosto de política. Foi seu Amador que mandou. Abaixo de Deus, é o pai que eu conheci”.

JÂNIO PERDEU – “Mas de futebol o senhor gosta”, insistiu Jânio, acrescentando: “É presidente do São Paulo”.

“Também não gosto de futebol, presidente. Foi seu Amador que mandou. Abaixo de Deus, foi o pai que conheci. O senhor não imagina o homem bom que ele é”.

O acordo não foi feito. Jânio perdeu por 30 mil votos (das pequenas cidades que não visitou). Laudo (quer dizer, seu Amador, o pai que ele conheceu) ganhou para vice. E Adhemar se elegeu governador.

De repente, querem mudar a História sobre 1955 e o revólver do almirante…

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O ridículo da História parece estar querendo se repetir

Sebastião Nery

Alto, desengonçado, mal ajeitado, um dos melhores repórteres da história da imprensa mineira, Felipe Henriot Drummond chegou à porta da suíte presidencial do Hotel Financial, em Belo Horizonte. Dois seguranças de preto e mal encarados pediram os documentos. Felipe mostrou a carteira do “Estado de Minas”. Aprovada. Tocou a campainha.

A porta abriu e lá de dentro uma voz esganiçada gritou: – Entre!

Felipe entrou. Não viu ninguém. Atrás da porta, um homem baixinho, fardado, apontava um revolver para as costas dele:

– Sente-se ali. Por que chegou antes, se a entrevista é às 12 horas?

Felipe não sabia se dava uma risada ou ia embora. Daí a pouco, fomos chegando nós, outros jornalistas, para a entrevista coletiva do almirante Penna Botto, presidente da Cruzada Brasileira Anticomunista, que foi a Minas fazer campanha contra a posse de Juscelino e João Goulart na presidência da República, eleitos dias antes, em 3 de outubro de 55.

PALHAÇADA – Logo no dia 5, Penna Boto tinha dado entrevista ao “Globo”: – “É indispensável impedir que Juscelino e Goulart tomem posse dos cargos para que foram indevidamente eleitos”.

A entrevista a nós foi uma palhaçada. O atarracado almirante queria nos convencer de que o Partido Comunista estava criando um “Soviet” no Triangulo Mineiro, que iria instalar-se logo que JK tomasse posse.

Não houve “soviet” mas por pouco não houve a posse. Nas redações, passávamos madrugadas agarrados às rádios do Rio, que transmitiam a crise ininterruptamente. Até que o presidente Café Filho teve (ou fingiu) um infarto, passou o governo para o presidente da Câmara, Carlos Luz, víbora gorda do PSD mineiro que, no dia 10 de novembro, demitiu do ministério da Guerra o marechal Lott, vermelhão, olho azul, mais Caxias do que Caxias, e o substituiu pelo general udenista-golpista Fiúza de Castro, numa ação articulada para impedir a posse de Juscelino e Jango.

TANQUES NA RUA – De madrugada, Lott e Denis, comandante do Iº Exercito, fizeram o “11 de novembro” (terça-feira faz 53 anos), “retorno aos quadros constitucionais vigentes”: puseram os tanques na rua, a Câmara votou o impeachment de Carlos Luz e entregou o governo ao presidente do Senado, Nereu Ramos.

Em Minas, quando a notícia chegou ao amanhecer, corremos para o palácio da Liberdade. Juscelino, presidente eleito, já estava lá, trancado com seu vice, o governador Clovis Salgado, e o comandante da região, general Jaime de Almeida. Os dois tentaram de todo jeito segurar Juscelino, mas ele resolveu ir de qualquer forma para o Rio. Abre-se a porta e ele sai:

– Bom dia, vocês já aqui? Vou agora mesmo para o Rio.

UMA PERGUNTA… – “Mas, presidente, há notícias de que a Aeronáutica está ao lado de Carlos Luz, que foi para Santos com Lacerda no “Tamandaré”, comandado pelo Penna Boto, e o brigadeiro Eduardo Gomes já chegou lá para tentar a resistência com a cobertura do governador Jânio Quadros. Como é que o senhor vai descer no Santos Dumont ou no Galeão? Derrubam o avião…”

– Já discutimos tudo, eu, o governador e o general. Eles estão contra, mas a decisão é minha e já a tomei. Vou a qualquer risco.

Entrou em um carro e disparou para o aeroporto. Fomos atrás, repórteres e fotógrafos. Lá, uma cena dramática. Juscelino dava ordens, aos gritos, a João Milton Prates e outro piloto, queridos amigos seus, para levantarem voo em um pequeno avião particular. Mas havia uma ordem definitiva da Aeronáutica: ninguém podia decolar.

CHORO DA AUDÁCIA – Impedido, encostou os dois cotovelos no balcão do aeroporto, cobriu o rosto com as mãos trêmulas e chorou de sacudir. Era o choro da audácia impotente: – “Meu Deus, isso não pode acontecer. Preciso assumir”!

Foi no dia seguinte. Em 31 de janeiro, o presidente era JK. Assumiu, mas só depois de Café Filho sumir, também impichado. O cruzador “Tamandaré”, comandado pelo pequenininho Penna Boto, levou três tiros de festim do Forte de Copacabana e seguiu para São Paulo, onde Jânio não quis nada com eles e voltou de rabo (popa e proa) entre as pernas.

Lacerda foi direto para a embaixada de Cuba, asilado pelo ditador Fulgêncio Batista.

GOLPE ADIADO – A tentativa de golpe não conseguira apagar os milhões de votos de Juscelino. Mais uma vez o golpe de 50, 54 e 55 fora adiado para 64.

Há alguns dias, “O Globo” informava que “o Instituto Histórico e Geográfico homenageou (sic) o almirante Penna Boto pelos 53 anos do bombardeio (sic) sofrido pelo cruzador Tamandaré, em 55, ao tentar sair da baia da Guanabara”…

Ao que parece, querem mudar a história.

A Bahia canta sua santa, a Santa  Dulce dos pobrezinhos de São Salvador

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A Bahia sempre foi múltipla. Mas desta vez se superou. De um jantar no Hotel Fasano em Salvador, onde estavam Durval Lelys, Lícia Fábio, Nizan Guanaes e outros produtores musicais, nasceu a ideia de gravar uma canção em homenagem à Irmã Dulce cujo processo de canonização o Vaticano acaba de consagrar.

A música é excelente, a letra criativa. Começa como se fosse adotar um tom marcial e no entanto é uma doçura do princípio ao fim:

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A BAHIA CANTA A SUA SANTA

A Bahia inteira canta
Para celebrar nossa santa
Que cuidou de nós

Tocam sinos e atabaques
De um povo que viu seus milagres
Foste a voz daqueles que não tem voz

Pequena e tão gigante
Mãe desses Filhos de Gandhy
Que entram em Roma
Soltando as pombas
Pombas da paz

Ouve teu povo cantando
Nas portas do Vaticano
Ele tem fé, ele tem axé
Ele veio a pé

É a Bahia que canta
Santa Dulce, a nossa santa
Que está no céu
Cuidando da gente
Diariamente

Pequena e tão gigante
Ouve teu povo cantando

TODOS UNIDOS – Cantores baianos ligaram as suas trombetas: Margareth Meneses, Preta Gil, Léo Santana, Márcia Freire, Vanesca Pinheiro, Vina Calmon, Eber Lima e Miguel, Will Carvalho, Átila Lima e a luminosa Ivete Sangalo.

Às sete da manhã ela passava lá, toda magrinha, seguindo para sua jornada, suas obras de caridade. Durante anos pegou caronas de amigos. Ninguém acreditava que chegaria ao fim da tarde. Sempre chegou, com seus olhinhos miúdos, em qualquer canto da cidade baixa de Salvador, como se fosse uma pomba ferida. E era. Era a pomba da paz da Bahia.

Faz bem Salvador celebrá-la e cantá-la. Neste mundo de doideiras, ainda bem que a Bahia dá esta lição de ternura, de bondade. Sabe bem seu parceiro de tantos anos, doutor Taciano Campos.

Santa Dulce dos Pobres da Bahia.

Já cansado de “governar”, o porteiro entregou as chaves do palácio a Aluízio Alves

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Em Natal, Aluizio Alves foi “empossado” pelo porteiro

Sebastião Nery

Cabeça chata, inteligente, brilhante, rábula, advogado de estivadores, pescadores, tecelões e todo tipo de trabalhadores, jornalista, conspirador, prisioneiro, nascido em Natal (em 3 de fevereiro de 1899, há 110 anos), Café Filho fez uma biografia política contínua: de vereador e várias vezes deputado a vice-presidente e Presidente. Fundou até um partido: PSN (Partido Social Nacionalista) e por ele se elegeu.

Assumiu a Presidência com o suicídio de Vargas e logo trocou de lado, para os braços golpistas da UDN (mas essa é outra historia).

RUBEM BRAGA – Presidente, Café Filho mandou chamar imediatamente seu amigo, o sábio urso de Cachoeiro de Itapemirim, Rubem Braga:

– Rubem, preciso de você.

– De mim? Você está é louco. Olhe, Café, há um equÍvoco nisso. Quem precisa de você sou eu. Você virou presidente da RepÚblica, está bem empregado, a vida arrumada. Eu estou duro, desempregado, precisando trabalhar, quero um serviço qualquer.

Um mês depois, embarcou, como Adido Cultural, para o Chile, de onde, graças a Café, escreveu algumas das melhores coisas daqueles Andes.

ÓDIO AO POTIGUAR – No segundo ano da escola primária, lá em minha Jaguaquara, na Bahia, fiquei com ódio do Rio Grande do Norte. A professora Sisinia abriu um enorme mapa do Brasil no quadro negro, me pôs de pé e começou a perguntar, de baixo para cima,como se chamavam os habitantes dos Estados

Tinha estudado, estava abafando. Fui dizendo um a um. De gaúcho para acima, ia acertando todos. Até capixaba, que achava um nome muito feio. A professora deixou o Rio Grande do Norte para último. Empaquei. Não me lembrei do “potiguar” de jeito nenhum. Perdi meu 10. Durante anos, tive ódio dos “potiguares: isso é lá nome”? E é um nome tão bonito.

Aprendi que “potiguar” quer dizer “comedor de camarão” (vem do tupi guarani “poti = camarão” e “war” = “o que come”). Há coisa melhor?

GRANDE LÍDER – José Augusto Bezerra de Medeiros foi sinônimo do Rio Grande do Norte como Ruy Barbosa da Bahia. Deputado estadual em 1913, federal em 15, governador em 24, senador em 29, de novo federal em 35, constituinte em 46, vice-presidente da Câmara em 47, federal até 55, presidente da Associação Comercial do Rio de Janeiro de 59 a 61. Em 37, na ditadura de Vargas, ficou na resistência e escreveu livros de direito, política e educação.

Quando presidente da Associação Comercial do Rio, alguém começou a desancar os políticos. Todos os males nacionais eram da corrupção e da incompetência dos políticos. O velho José Augusto interrompeu:

– Um momento. Passei 50 anos na vida pública e vi muita coisa. Mas nesses seis meses aqui já vi muito mais.

Mudaram logo de assunto.

DE PARAQUEDAS – Kerginaldo Cavalcanti (RN) era senador e nacionalista. Assis Chateaubriand chegou ao Senado e começou a dar show. E o chamava de “senador tupiniquim”. Kerginaldo não lhe dava trégua. Uma tarde, Marcondes Filho (SP), líder do governo, procurou Kerginaldo:

– Deixe o doutor Assis em paz. Afinal de contas, ele é um grande jornalista e você não o deixa falar sossegado.

– Ora, Marcondes, o Chateaubriand tem jornais, tem rádios, tem televisões. Quando ele fala, no outro dia o discurso sai na integra, com aparte e tudo. Eu não tenho jornal, não tenho radio, não tenho TV. Minha jogada é descer de paraquedas nos discursos dele.

O PORTEIRO – Dinarte Mariz foi governador de 56 a 61. Em 60, seu candidato, Djalma Marinho (UDN), foi derrotado por Aluizio Alves (PSD). Dinarte, como o general Figueiredo fez com Sarney, disse que não passava o cargo.

No dia da posse, Dinarte saiu cedo do palácio, entregou as chaves ao porteiro. O porteiro, todo importante, vestiu a melhor roupa, paletó e gravata, sapato engraxado, foi para a frente do palácio e ficou de pé no alto da escadaria. Esperou uma hora, duas, três, o novo governador não chegava.

A mulher mandou chamá-lo para o almoço, não foi. Ele ali de pé, cumprindo patrioticamente seu dever cívico. De repente, à frente da multidão, apareceu Aluizio Alves na esquina. O porteiro suspirou aliviado:

– Ainda bem que ele chegou. Não aguentava mais governar esta porcaria.

Entregou as chaves e o fugaz poder.

Histórias políticas de Minas Gerais, que são sempre cheias de folclore

Benedito Valadares era um dos mas folclóricos

Sebastião Nery

No dia 5 de setembro de 1933, ele apareceu morto dentro da banheira do palácio da Liberdade, em Belo Horizonte. “Era celibatário” (78 anos, nasceu em 1855), diz o Dicionário Biográfico de Minas Gerais, edição da Universidade Federal e da Assembleia Legislativa de Minas.

Olegário Maciel é o patrono dos vices. Dos vices que dão certo. Deputado de 1880 a 1911, abandonou a política e voltou a ser fazendeiro. Em 1922, foi chamado para vice-presidente do Estado, com o “presidente” (governador) Raul Soares. Raul Soares adoeceu de 1923 a 1924, ele assumiu. Raul Soares morreu em 1924, ele assumiu de novo.

Fernando de Mello Viana foi eleito para completar o quatriênio, mas foi escolhido vice de Washington Luiz e Maciel cumpriu o resto do mandato. Em 30, torna-se “presidente” (governador) de Minas, vem a “revolução” de 30, Getúlio o confirma interventor e ele morre na banheira, em 33.

O SUCESSOR – Gustavo Capanema, poderoso secretário do Interior, achava que ia ser o sucessor. Virgílio de Melo Franco também. Getúlio deu uma rasteira nos dois e nomeou o jovem Benedito Valadares, que chamou Juscelino Kubitschek para chefe de gabinete.

Foram inaugurar um retrato de Maciel. Acabada a solenidade, saíram no mesmo carro Benedito, Juscelino e Capanema. Capanema, intelectual, culto, vaidoso, irado por não ter sido nomeado, começou a agredir Benedito com uma aula de como governar:

– Olha, Benedito, governo é cultura. Você tem que esquecer Pará de Minas e ver que agora você é o chefe político de Minas. Tem que cercar-se de intelectuais, ler, estudar, para poder estar à altura de governar Minas.

Benedito foi ficando vermelho, furioso, perdeu a paciência:

– Olha, Capanema, nada disso. Se suas lições prestassem, você é quem teria sido nomeado pelo presidente Vargas. Governar não é nada disso que você disse. Esse negócio de cultura é para intelectual. Governar é ação, é trabalho. E é isso o que vou fazer. Não vou ler nem estudar coisa nenhuma. Aliás, tenho lá em casa uns cinco ou seis livros e vou jogar tudo fora.

GARGALHADAS – Anos depois, Juscelino relembrava essa história para seu oficial de gabinete na Presidência, Antônio Carlos Sá, e dava gargalhadas. Aliás, Benedito fez exatamente o que Capanema recomendou: cercou-se da maioria das melhores cabeças de Minas (Orosimbo Nonato, Mario Casassanta, Cristiano Martins, Ciro dos Anjos, outros) e até deixou alguns bons livros : “Esperidião”, “A Lua Caiu”, “Tempos Idos e Vividos”.

E mandou em Minas exatamente doze anos: de 33 a 45.

O DISCURSO – Benedito chegou a Curvelo, Minas Gerais, para visitar a exposição de gado do município. Na hora do discurso, atrapalhou-se:

– Quero dizer aos fazendeiros aqui reunidos que já determinei à Caixa Econômica e aos bancos do Estado a concessão de empréstimo agrícolas a prazos curtos e juros longos.

Lá do povo, alguém corrigiu:

– É o contrário, governador!

– Desde que o dinheiro venha, os pronomes não têm importância.

E continuou. Estava conversando com Ciro dos Anjos, deu sono:

– Ciro, vou dormir. Vou entregar-me aos braços de Orfeu.

– Faltou um M, doutor Benedito.

– Não faltou, não, Ciro, Orfeom é um instrumento musical. Eu estou é com sono mesmo.

E foi dormir.

ÚLTIMO VAGÃO – Pesquisa ferroviária em Minas, na antiga Rede Mineira de Viação, apurou que o vagão mais atingido nos desastres era sempre o último. Benedito, interventor, recebeu o estudo, leu, chamou Ciro dos Anjos:

– Prepare um decreto suprimindo o último vagão.

Gustavo Capanema, ministro da Educação d Getúlio, encontra-se com Benedito Valadares, interventor de Minas, na ante sala do gabinete do presidente. Benedito estava com os olhos inflamados:

– O que é isso, Benedito, nos seus olhos?

– O médico me disse que é conjuntivite na vista.

– Conjuntivite na vista não, Benedito. Isso é pleonasmo.

Getúlio chamou, Benedito entrou:

– O que é isso nos seus olhos, governador?

Agora estou na dúvida, presidente. O médico, lá em Belo Horizonte, tinha dito que era conjuntivite na vista. Mas o Capanema, que é muito inteligente, acaba de me dizer, aí fora, que não é não; que é pleonasmo.

JORNALISMO – Cada tempo tem suas histórias, cheias de sutilezas e lições. O competente jornalista e professor Rosental Calmon Alves, dizia em um seminário no Globo sobre o futuro do jornalismo:

– “Agora, o jornal não vai mais ser apenas jornal. Pode se expandir para outras formas de comunicação com o leitor, desde que perceba que seu negocio é contar historias. Sempre fomos contadores de histórias. Só que agora, com a internet e os blogs, podemos fazer isso de forma mais ampla”.

Leitores sempre me perguntam porque conto tantas histórias. Exatamente pela razão do que Rosental falou: ligar o passado ao presente.

Assim caminha a humanidade, em meio ao politicamente incorreto

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Meneses Pimentel, professor de Direito Romano e Filosofia do Direito, governador (1935 a 37), interventor (37 a 45), deputado (51 a 55), ministro da Justiça (55 a 56), senador (59 a 71), foi tudo no Ceará.

Era interventor, chegou ao palácio do Catete a notícia de que tinha sido baleado em Fortaleza. Lourival Fontes, Chefe da Casa Civil de Getulio, telegrafou a Brasil Pinheiro, chefe da Casa Civil de Pimentel:

– Informe urgente se governador Meneses Pimentel foi alvejado.

Brasil Pinheiro informou urgente:

– Não. Continua preto.

Meneses Pimentel era mulato retinto.

NOME DE ARTISTA – Ageu de Castro, coronel de muitas terras e importâncias, era deputado estadual pela região de Sousa, na Paraíba. O coronel era inteligente e rude, grosso e racista. Em João Pessoa, foi ao palácio falar com o governador Pedro Gondim. O oficial de gabinete, negro, não o conhecia, perguntou qual era o assunto. O coronel explodiu:

– Como é sua graça?

– Marilake Toscano.

– Negro, Marilake é nome de artista de cinema. De hoje em diante seu nome é Benedito. Be-ne-di-to, ouviu?

Meteu a mão na porta e entrou.

NEGRÃO DE LIMA – O poeta português Julio Dantas (“A Ceia dos Cardeais”) veio ao Brasil, foi a Belo Horizonte. O prefeito (1947 a 1951) era Otacílio Negrão de Lima, irmão de Francisco Negrão de Lima. Estavam lá as autoridades. Não conhecia ninguém. Sabia apenas o nome do prefeito, doutor Negrão.

Olhou para um lado, olhou para o outro, abriu os braços e foi em direção ao cordão das autoridades:

– Doutor Negrão, meu abraço.

E abraçou o senador Melo Viana, mulato queimado, quase negro.

DISCURSO RACISTA – Milton Santos, o saudoso jornalista, professor, poderoso intelectual (ganhou o Nobel de Geografia), morava no mesmo edifício e andar em que eu morava (o Napoli,na Barra, em Salvador).No golpe de 64, fomos presos.

Editorialista de “A Tarde”, o jornal mandou o veterano e respeitado secretario da redação ao quartel. O coronel, de pé, fez um discurso racista:

– Além de subversivo, é um negro importador de putas francesas.

Abriu uma gaveta, puxou uma foto:

– Olhe ele aqui, jantando com duas putas francesas importadas.

Uma das louras era a mulher do Milton. A outra era a mulher do secretario do jornal, que reagiu aos berros. O coronel quase leva um tabefe. O jantar tinha sido na casa do secretario, no aniversario dele.

Mesmo assim, Milton continuou preso. Só foi solto e exilado por interferência do general De Gaulle, presidente da França, junto a Castelo Branco, porque o Milton era professor da Universidade de Estrasburgo.

NOS STATES  – Há meio século, em 1960, acompanhando a campanha de Nixon e Kennedy nos Estados Unidos, eu não compreendia como, em pleno século XX,na maior potência econômica e militar do mundo,os negros não podiam sentar junto dos brancos no metrô, ônibus, trens, restaurantes, até nos bares.

Na minha Bahia, e no Brasil todo, negros e brancos nos sentávamos juntos nos mesmos bancos dos bondes, ônibus, trens, bares e restaurantes.

Também me chocaram os principais argumentos contra John Kennedy: era “católico, liberal e mulherengo”. Ganhou por menos de 1%.

Nos mesmos Estados Unidos, o negro Barack Obama, filho de africano muçulmano do Quênia, criado por um muçulmano, casado com uma negra, com duas filhas negras, candidato do partido de Kennedy, foi eleito presidente dos Estados Unidos de 2009 a 2017, sendo o primeiro afro-americano a ocupar o cargo.

É um acontecimento extraordinário na historia da humanidade. Jamais o bicho homem caminhou tanto em tão pouco tempo. A Idade Média e a Inquisição da Igreja Católica duraram mil anos. A escravidão, milhares de anos, desde a China e o Egito. O racismo ainda ronda por aí, mas envergonhado e cada dia mais desmoralizado e rejeitado.

AMIGO CAYMMI -Todo mundo já contou uma do inesquecível Caymmi. Também vou contar a minha. Helio Fernandes lembrou que ele nasceu no mesmo dia, mês e ano de Carlos Lacerda: 30 de abril de 1914. A mesma genialidade.

Numa tarde de 1990, em Agrigento, na Sicília, diante do céu azul e do mar azul do Mediterrâneo, Jorge Amado começou a lembrar-se da Bahia e me contou uma historia dele, de Caymmi e Lacerda, muito interessante.

Muito amigos nos anos 30, depois que Caymmi e Jorge chegaram ao Rio, foram passar um domingo em Paquetá. Com seu inseparável violão, Caymmi começou a dedilhar uma nova musica. Lacerda pegou um papel e escreveu dois versos. Jorge também escreveu mais uns. E pararam aí.

Caymmi concluiu depois. Creio que foi “É Doce Morrer no Mar”.

A Amazônia devastada não começou agora, tem 500 anos e chamava-se Mata Atlântica

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Primeiro bem explorado na colônia foi o pau brasil

Sebastião Nery

O Brasil começou 8 anos antes de Cabral em 1500, com Cristóvão Colombo e Américo Vespúcio. Cristóforo, italiano de Genova, era marinheiro. O barco naufragou, foi esbarrar em Portugal, onde casou com a rica Felipa, estudou os mares, mas ninguém acreditava nele. Foi para a Espanha, conquistou os reis Fernando e Isabel, de Castela, e em 1492 chegou à América, virou “o almirante de todos os mares”, e está lá, de pé, todo majestoso, no alto da torre, diante do porto de Barcelona.

Logo, a América devia chamar-se Colômbia e não América. Colombo foi literalmente roubado pelo bancário depois banqueiro italiano Américo Vespúcio. Esses banqueiros!

SUBGERENTE – Américo Vespúcio, de Florença, trabalhava no banco dos Médicis e foi transferido para Sevilha, na Espanha. Era o subgerente. O gerente ajudou a financiar a primeira viagem de Colombo, em 1492. Morreu o gerente, Américo assumiu e continuou financiando Colombo na segunda viagem de 1493 a 96, na terceira de 98 a 1500; e na quarta de 1502 a 1506.

Mas Américo Vespúcio já tinha percebido que a América existia mesmo e dava dinheiro. Virou também navegador. Em 1501, já o Brasil descoberto, saiu de Lisboa, passou pelo cabo de Santo Agostinho, em Pernambuco, e foi até o Rio de Janeiro, aonde chegou em 1502.

Em 1503, passou por Fernando de Noronha e pela Bahia e foi até Cabo Frio. Voltou à Europa, foi à Alemanha, pagou e pôs o continente em seu nome, América e não Colômbia, no mapa de Strasburgo em 1506. Passado para trás, Colombo morreu de desgosto em 1506.

VEIO O PEREIRA – Depois do Vespúcio, em 1503 e de Caramuru em 1510, foi o Pereira, 25 anos depois. Em 1534, Portugal dividiu a costa do pais em capitanias hereditárias, em 15 lotes, cada um medindo 50 léguas, cerca de 300 quilômetros. O rei doou a da Bahia a um fidalgo português, Francisco Pereira Coutinho, vindo das Índias, velho e doente, rico e durão,o Rusticão.

Ele reuniu 120 pessoas e veio assumir suas terras, em 1536. Ficou encantado e gabou muito. Mandou dizer ao rei que havia “bons ares”, “boas águas”, “os algodões são os mais excelentes do mundo” e “o açúcar se dará quanto quiserem e a terra dará tudo que lhe deitarem”.

Instalou-se na Barra, onde hoje está o farol da Barra. Subindo para a Vitoria, fez um povoado com umas 30 casas, cercou de pau a pique e levantou uma torre de dois andares, garantida por quatro canhões. Era a Vila do Pereira. Caramuru estava ali perto há 30 anos, com a Paraguaçu

OS TUPINAMBÁS – O Pereira não se meteu com Caramuru, mas começou a distribuir terras em volta para sua gente, que veio com ele. Mas aquelas terras tinham donos : 5 ou 6 mil Tupinambás, “homens de peleja”, que começaram a ser escravizados, para trabalharem nas plantações de cana.

Em 1540, a guerra estourou. Pereira perdeu o apoio de Caramuru. Duarte Coelho, donatário de Pernambuco (até hoje) queixou-se ao rei : – “Ele é mole para resistir às doidices e desmandos dos doidos e mal ensinados”. Durante cinco anos a briga com os Tupinambás levou fome, sede e morte para a Vila do Pereira. Acabaram “encurralados entre o mar e a muralha que protegia a vila”, como brilhantemente conta o historiador Eduardo Bueno:

– “Eram uns 100 colonos cercados por mais de mil Tupinambás brandindo tacapes, lançando flechas incendiarias, produzindo nuvens tóxicas com a combustão de pimenta e ervas venenosas”. (Bush teria logo mandado bombardear pelo uso de armas químicas).

PORTO SEGURO – Pereira fugiu para Porto Seguro e os índios tomaram conta da Vila do Pereira, destruíram a torre e as casas, saquearam os armazéns. Caramuru, solidário, foi a Porto Seguro e trouxe o Pereira em seu barco, que naufragou na ponta de Itaparica. Deve ter sido coisa do cacique João Ubaldo. Quem não morreu foi preso pelos índios, inclusive o Pereira, “morto ritualmente” por um garoto de 5 anos, cujo irmão tinha matado.

Caramuru evidentemente foi poupado. Era o sinal, para Portugal, de que as capitanias não resolviam o problema. E o Pereira mudava a historia.

Ou Portugal agia rápido ou perdia o Brasil para os franceses. Esses foram os primeiros grandes inimigos, durante mais de meio século, de 1500, no Descobrimento, a 1567, quando foram expulsos do Rio.

SAQUEANDO – Seus navios piratas cortavam a costa de norte a sul, do Maranhão a São Vicente, trocando, comprando, roubando, levando sobretudo pau-Brasil. Também já havia o comercio de escravos e cana de açúcar, mas começando. O grande negocio da época era o pau-Brasil.

Se você quer conhecer uma das mais belas cidadezinhas do mundo, vá a Honfleur, de apenas 8 mil habitantes, a 200 quilômetros de Paris, na foz do Senna, norte da França, entre Trouville e Havre.

Aquela jóia universal é tão francesa quanto brasileira. Com seu porto profundo, diante do grande porto do Havre, durante dezenas de anos os navios franceses despejaram o pau-Brasil negociado, tomado, roubado dos índios e de traficantes portugueses. A entrada da bela baia de Todos os Santos, hoje Farol da Barra,para os franceses era o “Point de Carammorou”. A Amazônia devastada, saqueada, não começou agora. Tem 500 anos. Chamava-se Mata Atlântica, com seu pau-brasil.

Na hora de matar Lacerda, o pistoleiro errou o tiro e mudou a História

Lacerda é carregado por PMs após o suposto atentado

Lacerda levou um tiro no pé e engessou a perna

Sebastião Nery

Morto Lampião em 1938, Ângelo Roque, o “Labareda”, companheiro de cangaço, entregou-se às autoridades de Jeremoabo, no sertão da Bahia. Foi levado a júri. Tarcílo Vieira de Melo, futuro líder de Juscelino na Câmara, jovem promotor mas já com sua poderosa oratória, acusou-o fortemente. Oliveira Brito, juiz, também depois deputado e ministro de João Goulart, chamou-o de “desordeiro”. “Labareda” levantou-se indignado:

– Desordeiro, não, seu juiz! Os senhores me respeitem. Não sou um desordeiro, sou um cangaceiro. Não fui pegado no mato. Cheguei aqui de armas na mão e me entreguei, confiando na palavra dos homens do sertão.

Vieira me disse que, a partir dali, condenaram-no, mas sem atacá-lo.

NA RUA TONELERO – No dia 5 de agosto, fez 65 anos que um pistoleiro errou o tiro e despachou a encomenda errada. E detonou uma das mais graves crises da história do pais. Gregório, chefe da Guarda de Getúlio Vargas, encarregou Climério, subordinado e compadre, de providenciar a morte de Carlos Lacerda.

Climério pediu a Soares, também protegido de Gregório na Guarda, que arranjasse alguém para fazer o serviço. Soares contratou o pistoleiro nordestino Alcino. Os três pegaram o táxi de Raimundo, que fazia ponto perto do Catete, e foram para a rua Tonelero, 180, onde Lacerda morava.

Mas houve um erro de luz. Alcino estava acostumado a fazer tocaia no sol do sertão, naquele mundão aberto e claro, onde se vê tudo o tempo todo.

ILUMINAÇÃO FRACA – No depoimento ao coronel Adil de Oliveira, chefe do Inquérito Policial-Militar instalado no Galeão, Alcino confessou que “enfrentou problemas com a fraca iluminação na porta da garagem e atravessou a rua para atirar de um ângulo mais próximo”. E acabou matando o major-aviador da Aeronáutica Rubens Florentino Vaz, amigo e segurança de Lacerda.

Lacerda levou apenas um tiro no pé. O anjo da guarda de Lacerda funcionou magnificamente. O pistoleiro fez tudo errado. E tudo o de errado que Lacerda fez acabou dando certo para ele e o salvando. Presos todos, primeiro o motorista Raimundo, que “abriu o bico”, depois Climério, Soares, Alcino e Gregório, a história pôde ser fielmente reconstituída e contada.

Alguns livros são bem detalhados: “A Era Vargas” (José Augusto Ribeiro), “Carlos Lacerda, a Vida de um Lutador” (John Foster Dulles), “Depoimento” (Lacerda), “Uma Crise de Agosto : o Atentado da Rua Tonelero” (Cláudio Lacerda),“Quem Matou Vargas?” (Carlos Heitor Cony).

BANG-BANG – Foi um faroeste urbano. Após um compromisso político, Lacerda e o filho Sergio, de 15 anos, chegavam em casa pouco depois da meia-noite, levados em um pequeno carro pelo major Rubens Vaz, integrante de um grupo de oficiais da Aeronáutica que lhe dava proteção. O da escala, naquela noite, era o major Gustavo Borges, futuro secretário de Segurança de Lacerda no governo da Guanabara. Mas não pôde ir e foi o Rubens Vaz. Para a morte.

Na porta do edifício onde morava Lacerda, ainda conversaram um pouco e Lacerda saltou com Sergio, em direção à entrada principal iluminada do prédio. Mas Lacerda tinha esquecido as chaves e foi até a garagem pedir ao garagista para abrir a porta. Saiu do claro para a meia-luz. Com uma 45 na mão, Alcino atravessou a rua para atirar mais de perto.

Quando passava por trás do carro, o valente major Vaz saiu sem pegar seu revolver que estava no porta-luvas e se atracou com o pistoleiro, tentando tomar-lhe o revolver. Mas Alcino lhe deu dois tiros e ele morreu na hora.

TIRO NO PÉ – Ao ouvir os tiros, Lacerda, com seu revolver na mão, quis sair para a rua, mas o filho se agarrou com ele e não deixou. Mesmo assim, da porta da garagem, Lacerda deu alguns tiros, que não atingiram ninguém. E do outro lado da rua também houve outros tiros, um dos quais acertou Lacerda no pé.

O major Vaz, já morto, e Lacerda, foram levados para o hospital Miguel Couto. Lacerda fez uma radiografia do pé e extraiu a bala de um 38.

Esse tiro no pé criou muitas lendas. Uns diziam que o próprio Lacerda atirou no próprio pé, pois seu revolver era um 38 e o do Alcino uma 45. Outros garantiam que não houve tiro nenhum no pé, que foi só engessado, tanto que no hospital não ficou registro algum. Mas algumas testemunhas viram Lacerda chegar ao hospital capengando, com o pé ensanguentado.

DISSE O BRIGADEIRO – Ao sair do hospital, Lacerda foi para casa em um taxi, com Armando Falcão (deputado do Ceará, depois ministro da Justiça de Juscelino e Geisel):

– “Acho que vou enlouquecer. Foi uma enorme desgraça. Talvez eu tenha matado o Vaz. Dei uns tiros a esmo, já sem óculos, e tenho a impressão de que ele estava à minha frente. Que horror”!

Quando chegou em casa, já muita gente estava lá, jornalistas e políticos. Entra o brigadeiro Eduardo Gomes e faz uma frase para a história:

– Pela honra da Nação, esse crime não ficará impune.

E fez outra para o folclore político:

– Carlos, o melhor remédio para esse seu pé é filé mignon. Mande buscar um filé cru, sangrando, e ponha no ferimento. Vai ficar logo bom.

Em pleno voo, a caminho da Grécia, de repente a dúvida: “Há uma bomba no avião?”

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Desde o embarque, já se sentia o medo da bomba

Sebastião Nery

Na frente, um árabe com seu turbante. Atrás, um africano com seu camisolão. No meio, eu e minha namorada, com nosso medo. Impossível não ter medo. Os aeroportos internacionais da Europa tinham virado campos humanos minados. Todo mundo desconfiava de todo mundo. Sobretudo voos em direção ao Oriente. Cada um ficava imaginando onde o outro tinha escondido a bomba, a granada, o revólver que daí a pouco explodiria lá no céu, o avião e todos juntos. Estávamos no aeroporto de Roma, para pegar o voo da Alitalia para a Grécia.

Na fila ao lado, para Damasco, na Síria, homens com turbantes, barba cerrada e cara fechada, mulheres de longos vestidos negros e negros véus na cabeça. A fila deles começava a andar, todos ficavam olhando, calados.

A CENTOPEIA DO MEDO – O pensamento coletivo boiava indisfarçado, no ar. Quantos iranianos havia ali? E se um fosse terrorista? A centopeia do medo vai andando devagar, seguindo desaparece. Agora é nossa vez. O policial do controle pegou o passaporte do árabe do turbante que estava a nossa frente, olha, esmiúça, confere, visivelmente, constrangedoramente desconfiado. Vai ao computador, dedilha, espera, nada consta, deixa passar.

Os nossos passaportes ele mal olhou. Pergunta: – “Brasile”? E carimba. O africano do camisolão, atrás de nós, empaca. O mesmo ritual da desconfiança. Viraram o passaporte de cabeça para baixo, conferiram tudo, digitaram o computador, nada consta, mesmo assim não se conformaram, olharam agressivamente para o rosto negro, árido, meio escalavrado, do africano tenso, mandam sair da fila, chamam um chefe, sai. E a fila se arrastando medrosa.

OUTRO OBSTÁCULO – Depois do passaporte, outro obstáculo: o controle de bagagens, bolsas, objetos pessoais e o próprio corpo. Vem a pequena passarela com detector de metais, que apita quando flagra. O árabe do turbante passou tranquilo. Não havia um ninho de metralhadora escondido ali dentro. O africano no camisolão ficou.

Vem o apito fino, estirado, estridente: -“piiii”. Todo mundo olha. É ela, a terrorista. E bem disfarçada. Alta, elegante, cara de italiana, chapéu vermelho de italiana, óculos italianos, botas italianas. Uma terrorista italiana. Logo aparecem três policiais femininas, levam-na ao lado, como se estivessem perguntando: – “Abra logo o jogo, e arma”? Não era. Apenas o isqueiro. Deixou o isqueiro, voltou, atravessou de novo a passarela metálica, sem apito nenhum. Se fosse um árabe ou africano, mesmo sem o segundo apito, a devassa ia continuar. O medo do terrorismo estava virando racismo.

ERA ELA, A BOMBA – Afinal, estávamos na sala de espera. Chamam nova fila. A metade passa, pedem para a outra metade esperar, porque vamos de ônibus para o avião. Pelo vidro, vimos o ônibus encher e seguir até o “Airbus” da Alitália, lá longe, no campo úmido, na manhã de 10 graus.

O ônibus para, mas ninguém salta, ninguém entra. Os funcionários da Alitália, atenciosos e perplexos, comunicam que “houve um pequeno problema”, mandam-nos sair para esperar nova chamada. E os outros, dentro do ônibus, junto ao avião.

Não havia dúvida. Era ela, a bomba. Estariam tentando desativar. E voltam os que haviam ido. O voo vai atrasar. Era para sair ao meio-dia, deu uma hora, duas horas, nada. Às 15 horas, afinal, embarcamos. Um leve, lindo, macio voo sobre o azulado Mar Adriático.

É PROIBIDO FUMAR – A aeromoça, bela, com seus imensos óculos redondos, servia o vinho para o almoço já atrasado, quando o comandante pede atenção:

-“Desculpem, mas a partir deste instante é proibido fumar. Apaguem seus cigarros e os mantenham apagados até que o sinal de proibição também se apague. É uma pequena emergência. Espero que dentro de 15 minutos já voltemos à normalidade.”

Durou uma hora a proibição. Não havia realmente mais dúvida alguma. Era ela, a bomba. A bomba terrorista, afinal flagrada a bordo. Acender o cigarro era acender a bomba. E voar tudo pelos ares. Ela estava, certamente, descoberta e acuada pelos comissários, como uma onça enlouquecida.

NADA ACONTECEU – O murmúrio foi crescendo, ninguém sabia o que estava acontecendo, também não foi dito. E nada, absolutamente nada aconteceu. A aeromoça de óculos enormes atendeu a meu pedido, deixou comigo uma tranquilizadora garrafa de vinho tinto e logo comecei a ver as escarpadas colinas da Grécia lá embaixo, como o céu crespo do céu.

Para o brasileiro, Grécia é Sócrates, Platão, Aristóteles e Onassis. No máximo, a Jaqueline, viúva de Kennedy, viúva de Onassis. O teatro, o alfabeto, os oradores, a cultura, a civilização grega estão dentro de nós, desde a escola primária, qualquer que seja o nível educacional do brasileiro, como a nossa mais forte referência cultural. Mas tudo coisa de séculos atrás. Dois para três mil anos.

QUASE A ETERNIDADE – Grécia é o passado, a antiguidade, quase a eternidade. A língua, morta. A geografia, perdida ali entre o Mediterrâneo, os Balcãs, o fim do Ocidente, o começo do Oriente. Grécia é coisa distante. Grego, sinônimo de total desconhecimento: – “Isto para mim é grego.”

E no entanto a Grécia está sempre junto de cada um de nós, em grande parte da língua que falamos, e, principalmente, na poderosa herança cultural, ela que foi a mãe da civilização latina, portanto, avó de nossa civilização.

Ao lado da Embaixada do Brasil, era preservada a misteriosa vida do Papa Inocêncio X

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Papa Inocêncio X, retratado pelo mestre Velázquez

Sebastião Nery

No dia em que se fizer o inventário completo das injustiças cometidas pelo golpe de 1964, é preciso contar a ignominia que foi a alegação para a cassação do embaixador do Brasil em Roma, Hugo Gouthier.

O simpático e civilizado Gouthier (que conheci embaixador do Brasil no Irã, no governo do Xá da Pérsia, antes de Khomeinni) foi cassado porque, no governo de Juscelino, comprou, para a sede da embaixada do Brasil em Roma, o Palácio Pamphilli. A UDN alegou que foi “uma negociata”. Não conheço negócio melhor para o país, feito por qualquer governo.

PALÁCIO INVADIDO – Os herdeiros da família Pamphilli não sabiam o que fazer do velho palácio barroco, ocupado desde a guerra por mais de 200 famílias, que viviam nos apartamentos dos fundos, impedindo a liberação dos magníficos salões com afrescos de Pietro da Cortona, toda uma galeria de Borromini e a belíssima arquitetura da Piazza Navona.

Gouthier comprou o “palazzo” com quatro promissórias e aos poucos foi tirando os moradores e desocupando tudo. Quando deixou a embaixada, o Brasil era dono da mais valiosa sede de embaixada em Roma (por 2 milhões, pagos em vários anos). Só as obras de arte que estão lá valem dezenas de vezes o que ele gastou. Qualquer multinacional daria hoje milhões de dólares para ter uma sede como aquela.

O palácio Pamphili vai da esquina da Piazza Navona até a Igreja de Santa Inês, em frente da qual fica a magnífica “Fonte dos Quatro Rios”, de Bernini, o mesmo que fez a colunata da Praça de São Pedro: Ganges, Nilo, Danúbio e Prata, até então os quatro maiores do mundo, pois ainda não conheciam o Amazonas.

Quando vendeu o palácio, a família Pamphili não quis vender também “o apartamento do Papa”, a parte que liga o palácio à Igreja de Santa Inês, da mesma altura do palácio, com os mesmos quatro andares, um anexo estreito, como se fosse uma casa de quatro andares.

RECANTO DO PAPA – Ali o Papa Inocêncio X (Cardeal Giovanni Battista Pamphili), que construiu o palácio para a cunhada Olímpia Maidalchini, depois de 1600, ficava hospedado quando ia passar os fins de semana com ela. Até hoje estão lá, originais, a cama, os móveis, os objetos todos.

Essa mulher era uma megera, cobrava impostos sobre pão e água que o povo consumia. Conta a lenda romana que o Papa não dormia apenas lá. Dormia também com a cunhada viúva. E até hoje há quem diga que, nas noites sem lua, se ouve a carruagem de Dona Olímpia fazendo barulho na praça e nos apartamentos da embaixada. (Quando Adido Cultural do Brasil morei lá, na embaixada, um punhado de tempo, e dona Olímpia não me deu a graça de vê-la nem de ouvi-la).

No contrato de compra do palácio, Gouthier pôs um item deixando para o Brasil a opção de compra do “apartamento do Papa”. Quando a família resolveu vender, foi no governo Figueiredo. Não sei quem era o embaixador do Brasil. Devia ser um cabeça de bagre. Pediram 800 mil dólares. O Brasil, que tinha direito de compra, não quis comprar. Continuaram achando que era “a negociata de Gouthier”.

GRANDE NEGÓCIO – O Brasil não quis, Berlusconi (o Roberto Marinho de Roma, dono de televisões, revistas e jornais, depois deputado e primeiro-ministro) comprou por 10 milhões de dólares (só o apartamento, menos de 10% do edifício todo, que o Brasil comprou por 2 milhões, em vários anos).

Depois, Berlusconi vendeu “o apartamento do Papa”. Por 15 milhões de dólares.

E pensar que uma das razões da cassação de Juscelino por Castelo Branco foi ter autorizado a compra do Palácio Pamphili para a embaixada do Brasil. E a de Gouthier também.