O melhor de nós acaba de ir aos 80 anos, em Salvador – o padre Carlos Formigli

Resultado de imagem para

Padre Carlos Formigli era muito conhecido na Bahia

Sebastião Nery

Éramos onze. Hoje já somos dois. Morreu em Salvador o melhor de todos nós: Padre Carlos Formigli. Estudou Filosofia em Salvador, 1950/52; na Pontifícia Academia Romana de Santo Tomas de Aquino e na Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, 1953/55. Teologia na Pontifícia Universidade Gregoriana – Roma – Itália, 1952/56. Pos-Graduação em Ciências Humanas e Sociais – Monografia: Le Tiers-Monde Sous le Signe de la Transformation – Faculdades Católicas de Lilli – França – 1970/72. Professor de latim e grego, presidente da Fundação da Criança e do Adolescente, FUNDAC, 1991/2007 – Salvador.

Estávamos entre os primeiros alunos do Seminário da Imaculada Conceição de Amargosa, na Bahia. A prefeitura ia inaugurar a “Biblioteca Pedro Calmon”, filho mais ilustre da cidade. Estavam lá o homenageado, professor, escritor, acadêmico e orgulho da terra. O prefeito, vereadores, o bispo Dom Florêncio Sisínio Vieira, os professores do seminário e os locais, e um jovem estudante de Direito também nascido lá, Waldir Pires.

DIÁLOGO EM LATIM – Padre Correia escreveu um texto em latim, um diálogo, como se fosse teatro, para Carlos Formigli e eu dizermos. Lembro bem de duas coisas: o medo de começar e a alegria de terminar debaixo de palmas, Não erramos nada. Carlos aparecia de repente, de surpresa e eu, ali ao lado, o interrogava em latim:

“Eus, Carole, quo vadis”? (Alô, Carlos, para onde vais?)

E Carlos respondia que ia para a inauguração da biblioteca. Falávamos sobre a importância da biblioteca, a justa homenagem a Pedro Calmon e uma saudação à cidade.

Tudo em latim. Em um latim perfeito, clássico, claro, que pronunciamos com segurança, até porque o autor estava ali e, se errássemos, era capaz de nos matar. E foi o primeiro a aplaudir.

CARTA DE CARLOS

Tenho aqui em mãos, a carta que o Carlos me fez quando completei 80 anos:

“Caro Sebastião, eis que estamos chegando aos oitenta anos. Uma longa caminhada pontilhada de muitas coisas boas. Basta um olhar para o passado e certamente nos surpreenderemos com as vitórias conquistadas, as dificuldades vencidas, os serviços prestados. Com certeza, não fomos inúteis e, nem tão pouco, mais um na história do mundo, caminhando ao sabor dos ventos. Conheço sua história (a NUVEM não deixa dúvidas) e você sabe por onde andei, tentando realizar a minha missão de sacerdote e educador. Aos oitenta anos, se não optamos pelo repouso, já sentimos que a idade nos alerta para a necessidade de desacelerar e caminhar com mais prudência.

Você, meu caro, tem uma história rica de momentos empolgantes e não duvido em afirmar que os dias de “prisão” contribuíram, e muito, para fazer do Nery, o cara destemido, o jornalista polêmico, o cidadão consciente dos direitos e dos deveres decorrentes de sua cidadania.

Parabéns, Sebastião, pelo seu aniversário, pela sua vida, pela sua história, pelo que você fez em defesa dos direitos da pessoa humana e da democracia.

Com você, agradeço a Deus o dom de nossas vidas e as oportunidades que tivemos de semear a boa semente.”

Em Alagoas, quem mandava na política eram os três irmãos que eram seis

Silvestre Péricles, ex-governador,um dos generais de sua família

Sebastião Nery

Pedro, general, ex-ministro da Guerra, senador do PSD, telegrafou ao presidente da Assembleia Legislativa de Alagoas: – “Ciente senador Ismar (irmão de Pedro e Silvestre e também general, do PSD e ex interventor) e seus asseclas têm em vista provocações ocasião comparecimento governador (Silvestre, igualmente militar e do PSD e irmão dos outros dois), aconselhei a este a não ir”.

“Silvestre mandou expor o telegrama no Largo do Relógio, centro da cidade. Ismar se dirigiu para o local onde estava a copia do telegrama do general Góis e a rompeu, rasgando-a à vista de muitos. Ao saber do gesto ousado, o governador Silvestre vai pessoalmente ao Largo do Relógio Oficial, para onde fizera se deslocar um contingente de policiais armados e, em espalhafatosa exibição, deu ordem até de fuzilamento. Se tentassem rasgar o telegrama fuzilassem e, se fosse o senador Ismar, que o prendessem, o amarrassem e levassem para o quartel”.

No dia seguinte, os jornais publicavam a resposta do senador Ismar: – “O governador sabe, e se não sabe fique sabendo, que nunca deixarei de honrar meu mandato. Se o governador duvidar, que tente, vindo pessoalmente comandar a diligência, já que não respeita o cargo que ocupa”

GATO E CACHORRO – Eram assim, como gato e cachorro, os três irmãos militares de Alagoas, entre 1945 e 50: dois generais e um auditor de Guerra, dois senadores e um governador. Eles eram meia dúzia. Ainda houve mais três: Cícero, que morreu no levante paulista de 1932; Manuel, senador de 1935 a 37; e Edgar, interventor do Estado depois da queda de Getulio em 1945.

 É caso único na historia do Brasil, de seis irmãos políticos atuando ao mesmo tempo.

1 – Logo depois da proclamação da Independência, os irmãos José Bonifacio Andrada, Antonio Carlos e Martim Francisco foram constituintes de 1823. Dom Pedro I fechou para impor sua Constituição de 1824.

 2 – Os irmãos Mangabeira, baianos : Otavio, João e Carlos. Em outubro de 1934, Otavio e João elegeram-se deputados pela Bahia. Carlos, farmacêutico e prefeito de Bagé, no Rio Grande do Sul, também foi eleito deputado federal pelo Rio Grande. No golpe de 1937, cassados os três.

3 – Na década de 90, Alagoas teve três irmãos no Congresso ao mesmo tempo: Renan e Olavo Calheiros, eleitos por Alagoas, e Renildo Calheiros, eleito por Pernambuco: depois prefeito de Olinda, pelo PC do B. Democracia é no voto e não na bala.

ELEIÇÕES DE 1950 – O general-governador Silvestre Góis Monteiro levou o maior susto quando começaram a ser contados os votos das eleições de 3 de outubro de 1950. Depois de quatro anos de ameaças diárias, espancamentos e assassinatos, ele tinha absoluta certeza de que o eleitorado de Alagoas não teria coragem de votar contra seus candidatos a governador, Campos Teixeira, e a senador, seu irmão o poderoso general Aurélio Góis Monteiro.

E teve. Abertas as primeiras urnas, o candidato da oposição (UDN), o jovem jornalista alagoano Arnon de Mello, que morava no Rio e topou desafiá-lo, disparou. O candidato a senador, Jerônimo da Rocha, também. Silvestre enlouqueceu. Dizia abertamente que não passaria o governo.

No comando do 20º Batalhão de Caçadores do Exército, em Alagoas, um major inteligente, tranquilo e com senso da história, anotava tudo, que, depois, reformado, reuniu em surpreendente livro: “Sururu Apimentado”, de Mario de Carvalho Lima, editado pela Universidade Federal de Alagoas. E a história foi assim.

José Aparecido, o múltiplo embaixador que uniu os países de língua portuguesa

Resultado de imagem para josé aparecido de oliveira

O múltiplo embaixador José Aparecido estaria hoje com 90 anos

Sebastião Nery

O Embaixador José Aparecido de Oliveira era um lusófilo incorrigível. Mais ainda do que o mestre do lusotropicalismo Gilberto Freyre. Portugal, para ele, era como as pedras seculares das ruas de sua Conceição do Mato Dentro, nas montanhas do Serro do Frio de Minas. Doem nos pés, mas é preciso ter paciência. Perdoando e gostando.

Aparecido teve com Portugal um crédito político histórico. Foi ele, como Ministro da Cultura, que coordenou em São Luís do Maranhão, em 3 de novembro de 1989, o “1º Encontro dos Países da Língua Portuguesa”, surgindo daí a criação do Instituto Internacional da Língua Portuguesa.

PRIMEIRO ENCONTRO – Ali aconteceu o primeiro encontro depois da libertação das antigas colônias de Portugal na África com a primeira reunião dos presidentes das ex-colônias de Portugal, o Presidente do Brasil, José Sarney, com Mário Soares, de Portugal, Joaquim Chissano, de Moçambique, Manuel Pinto da Costa, então presidente de São Tomé e Príncipe, Aristides Pereira de Cabo Verde, João Bernardo Vieira, Nino, da Guiné Bissau, e Lopo do Nascimento, de Angola, representando o presidente José Eduardo Santos, que não saiu de Luanda porque estava vivendo fatos dramáticos com a capital cercada pelas tropas da UNITA de Jonas Savimbi.

Uma noite, em Brasília, um grupo de jornalistas na casa do então governador Aparecido, jantávamos com o presidente da Guiné Bissau, Vieira Nino. Um jornalista comentou:

Ele tem olhar estranho. Tem olho de fera.

E era Vieira Nino. Companheiro de Amilcar Cabral, passou onze anos dentro da selva, lutando contra Portugal. Espiando dia e noite o perigo entre os galhos da floresta, acabou com olho de fera.

AS EX-COLÔNIAS – Aparecido não conhecia só Portugal. Era amigo dos olhos de fera das ex-colônias. Mário Palmério, romancista dos infinitos “Confins” de Minas, também ele ex-embaixador do Brasil no Paraguai, diz que na história do Itamarati só três diplomatas conheceram bem as cinco ex-colônias de Portugal: ele, Wladimir Murtinho e Aparecido. Aparecido foi lá. Duas vezes.

O inesquecível Carlos Heitor Cony, já havia percebido e escrito antes: “Esta é, basicamente, a ideia de José Aparecido de Oliveira. A língua portuguesa é a terceira mais falada do mundo. Atinge quatro continentes e engloba uma população de mais de 230 milhões. O primeiro fruto da Comunidade de Povos Lusófonos será estritamente política e cultural, o que já é muita coisa. Evidente que os povos que falam o português são em geral, atavicamente grudados no chamado Terceiro Mundo. O isolamento geográfico não tem impedido a formação de blocos regionais que apresentam a unidade espiritual da mesma língua. Esse bloco de milhões de pessoas que falam o português tem dois curingas bem situados no tabuleiro internacional. Numa ponta o Brasil como seu potencial-que-não-verás-criança-nenhuma-igual-a-ele. Na outra ponta Portugal, estado-membro da Comunidade Europeia, matriz da civilização comum. Basta um pouco de imaginação para se obter a projeção do que pode representar, a curto, médio e longo prazos, a formação de um bloco de nações reunidas sob um núcleo de tal amplitude. Essa imaginação não faltou ao único embaixador que não é dos quadros do Itamarati, pois foi convocado pessoalmente pelo presidente Itamar Franco.”

HOMENAGEM – Não por acaso, a Academia Brasileira de Letras acaba de prestar homenagem aos 90 anos de José Aparecido. Seus amigos acadêmicos Alberto da Costa e Silva e Geraldo Carneiro organizaram o Seminário “José Aparecido de Oliveira, o embaixador da Língua Portuguesa”, realizado no Teatro Raimundo Magalhães Junior, na sede da Academia Brasileira de Letras – Rio de Janeiro. Nada mais justo.

Entenda por que a Turquia concentra grande parte da História da Humanidade

Resultado de imagem para istambul

A importância histórica da Turquia é realmente incomparável

Sebastião Nery

A Turquia não é um país. É uma salada de frutas. A Macedônia também já foi. Tantos povos moraram e mandavam lá, que na Itália a salada de frutas se chama “macedônia”. Pois a Turquia é muito mais. É o único país do mundo que já teve 12 capitais.

Primeiro, Troia, capital dos Hatitas (3.500 anos antes de Cristo). Depois, Hattusa, capital dos Hititas (do século 18 ao século 17 antes de Cristo). E vieram Xanthos, capital da Lícia (de 600 a 200 antes de Cristo); Sardes, capital da Lidia; Pérgamo, capital do reino de Pérgamo, (de 283 a 133 antes de Cristo); Amaseia, capital do reino do Pontus; Bizâncio, fundada pelo grego Bizas, que virou Constantinopla, em 330 depois de Cristo, quando Constantino criou o Império Otomano, antes de os otomanos tomarem Constantinopla; Edirne, segunda capital do Império Otomano, também antes da tomada de Constantinopla; Istambul, que denominou a antiga Constantinopla; Niceia, quando a IV Cruzada cristã tomou Istambul, de 1204 a 1261 (depois de Cristo). E Ancara, a capital hoje.

HERANÇA DE TODOS – Os povos que vieram e construíram têm nomes estranhos e belos, vieram desde o começo dos tempos, neste pequeno e fantástico país de 780 mil quilômetros quadrados e 75 milhões de habitantes.

Os turcos são herança de todos eles, de civilizações superpostas, desde o início dos tempos. Há marcas de presença humana 100 mil anos antes de Cristo. Esta é sua grandeza mas também sua tragédia.

Os turcos dizem que a Turquia é o “maior museu a céu aberto do mundo”. E é por causa de sua fantástica história. Cada cidade tem um pedaço de eternidade. Em cada canto um resto de civilização que se perdeu nas dobras da história e no sopro dos ventos, cobrindo de terra e tempo cidades e civilizações.

BELIGERÂNCIA – Como manter tudo isso na mais beligerante encruzilhada da historia humana, a ligação da Europa com a Ásia, do Mediterrâneo com o Mar Negro, da civilização ocidental com a civilização islâmica, dos projetos de dominação mundial dos Estados Unidos com a muralha que é a União Europeia?

Toda a história antiga girou em torno de eternas batalhas pela conquista de ligações de terras e mares, de estreitos: Gibraltar, Peloponeso, Dardanelos, Bósforo. Hoje, entre a Europa e a Ásia, há um novo estreito, feito de terra e chão, a Turquia. É por causa dele que os Estados Unidos e a Europa ameaçam fazer da Turquia uma nova Palestina, uma nova Bósnia.

UM PATRIMÔNIO – A Turquia, como a Grécia, Roma, Jerusalém, Paris, China, tantos outros, é um Patrimônio Histórico e Cultural da Humanidade. Talvez nenhum outro espaço tão pequeno, nem mesmo na sagrada Grécia e na Roma divina, haja, tão numerosa e diversa, a presença da humanidade através da história.

Aqui, a Grécia esteve durante séculos, o Império Romano deixou sua marca e suas garras, a Mesopotâmia virou Europa. Aqui, o cristianismo viveu seus três primeiros séculos de perseguições e exílio. E viveu seus três primeiros séculos de poder oficial. Aqui, a Alemanha perdeu uma guerra e Hitler outra. Aqui, a humanidade acendeu fogueiras eternas de cultura e sabedoria:

1 – Aqui nasceram Homero, o poeta, São Paulo, o jornalista, Tales de Mileto, Pitagoras, Anaximenes, Anaximandro, sábios. Aqui ensinaram Platão e Apelokon. Aqui Hipodromos criou o urbanismo. Aqui se fez a primeira Escola de Escultura. Aqui Cleopatra e Marco Antonio se amaram.

2 – Quando Noé ancorou sua arca, foi aqui, no monte Ararat (5.165 metros) O Tigre e Eufrates, dois dos três mais importantes rios da antiguidade, são daqui. O templo de Artemisa e o Mausoléu de Halicarnasso, duas das sete maravilhas do mundo, estão (estavam) aqui.

3 – Para se asilarem, Nossa Senhora e São João fugiram para cá e aqui morreram. São Pedro falou aqui, pela primeira vez, a palavra cristão. A gruta do patriarca Abraão, padroeiro dos judeus, era em Urfa, aqui. E o manto, as espadas, uma carta, o estandarte, os pelos da barba, o dente e as pegadas de Maomé também estão aqui.

4 – A primeira moeda foi cunhada aqui, em Pérgamo, aqui, se descobriu o pergaminho e houve uma biblioteca de 200 mil volumes antes de Cristo, a mais importante do Império Romano. A primeira cereja que chegou a Europa saiu daqui.

5 – Aqui, a história troca de roupa: os gregos construíam o templo, os romanos trocavam o deus grego por um romano, os cristãos transformavam o templo em igreja, os otomanos faziam delas mesquitas, os ingleses, franceses, italianos, austríacos, alemães, arrancavam deuses, altares, minaretes, colunas e monumentos inteiros e levavam para seus museus maravilhosos.

Mesmo assim, a Turquia continua a ser o imenso museu do homem.

Folclore político de FHC, Jânio Quadros, Miguel Arraes, Djalma Falcão e Chagas Freitas

Resultado de imagem para folclore politicoSebastião Nery

Fernando Henrique Cardoso tinha 29 anos, era professor na Universidade de São Paulo, sociólogo. Fez a campanha de Lott para presidente da República, contra Jânio, em 1960. Mas um grupo de amigos dele fez a campanha de Jânio: Pedroso Horta, José Aparecido, Roberto Gusmão, Fernando Pedreira, Antonio Angarita. Quando Jânio assumiu, havia uma vaga para o Conselho Nacional de Economia, muito importante na época. Fernando Henrique não era economista, mas não precisava ser. Aparecido, Gusmão, Oscar e outros indicaram a Jânio o nome de Fernando Henrique. Jânio mandou Aparecido convidá-lo.

Fernando Henrique não aceitou. Primeiro, porque não havia votado em Jânio (embora Jânio tivesse dito que isso não tinha importância). Depois, porque havia feito um projeto de vida e precisava completar sua carreira acadêmica, na Universidade.

Jânio recebeu a resposta e disse a Aparecido: “Esse rapaz vai longe. Quem rejeita uma posição dessas aos 30 anos é porque planeja outras muito mais altas aos 60”.

GROSSO E MAL EDUCADO – Miguel Arraes era governador de Pernambuco, Djalma Falcão (presidente do MDB e do PMDB de Alagoas) prefeito de Maceió. Djalma foi a uma reunião da Sudene, em Recife, sentou-se ao lado do chefe da Casa Civil de Arraes. No dia seguinte, recebeu um convite:

“O governador quer ver você hoje, às 12 horas. Mandou convidá-lo para uma conversa no Palácio.”

Djalma ficou contente. Arraes sempre fora um de seus gurus, líder da esquerda nordestina. Ao meio-dia, estava lá, foi levado à ante sala do governador. Esperou. Esperou. Uma da tarde, abre-se a porta, aparece Arraes. Em um sofá, um casal. Arraes recebe Djalma de pé, à porta:

– Djalma, infelizmente não vamos poder conversar. Chegou este casal amigo e vamos almoçar.

Djalma olhou seco para Arraes:

– Governador, não lhe pedi audiência, não solicitei que me recebesse. O senhor é que mandou convidar-me, pelo seu chefe da Casa Civil, para vir aqui. Se soubesse que o senhor era tão grosso e mal educado não teria vindo.

Virou-lhe as costas e foi embora.

AMIGO DE CHAGAS – Em 1966, Djalma Falcão chegou à Câmara Federal, muito jovem, eleito pelo MDB de Alagoas, Ficou amigo de Chagas Freitas, do MDB do Rio de Janeiro. Chagas foi escolhido pelos militares para ser o governador da Guanabara. Procurou Djalma:

– Preciso de um grande favor seu. Você é presidente do MDB de Alagoas. O Aurélio Viana, alagoano, é senador do MDB do Rio, mas não tem condições de reeleição. Quero eleger três: Nelson, Danton e Farah. O Aurélio tem vaga cativa na chapa. É preciso tirá-lo do Rio e levá-lo para Alagoas. Convença-o a disputar por lá. Arranjo 5 milhões para a campanha dele.

– Chagas, se você falar em dinheiro com o Aurélio, ele não vai. Deixe que eu converso com ele.

Djalma convenceu Aurélio, que saiu do Rio e perdeu as eleições em Alagoas.

Um dia, um amigo de Djalma tinha um filho, médico do Estado, doente no Rio. Queria transferi-lo para se tratar em Maceió. Foi ao Rio com o amigo, pediu audiência a Chagas, que marcou. Passou um dia inteiro no Palácio e Chagas não o recebeu.

Na Quinta das Lágrimas, onde Inês de Castro chorou tanto, antes de ser morta

Resultado de imagem para Inês de castro

Este é o túmulo de Inês de Castro, coroada rainha após a morte

Sebastião Nery

Na Arcada da Capela, o belo restaurante do hotel Quinta das Lágrimas, em Coimbra, Portugal, à beira do camoniano Rio Mondego, sob as bênçãos da milenar Universidade de Dom Diniz, a mineira família Gorgulho-Juca escolheu para rever amigos portugueses.

O lugar perfeito. Desde a idade média (a partir de 1350), a Quinta das Lágrimas, que já foi da Universidade e de uma ordem religiosa, cercada de matas e jardins cheios de araucárias e palmeiras, plátanos e figueiras, sequoias e agapantos, é o oásis de paz da cidade das tensas cátedras, das rebeliões e dos abismos políticos de Portugal.

INSPIRAÇÃO – Esta é uma casa de punhaladas, um símbolo universal das intrigas, brutalidades, violências e assassinatos a serviço da loucura humana.

Por isso a Quinta das Lágrimas se fez tema e inspiração da literatura mundial. Voltaire, Victor Hugo, Stendhal, Ezra Pound, tantos já escreveram sobre ela. Mas nenhum com a força e a genialidade de Luiz de Camões, que no Canto III dos Lusíadas celebrou o amor e o martírio de Inês de Castro, ibérica e trágica Julieta (“Estavas, linda Inês, posta em sossego”), que “depois de morta foi rainha” e cujo amor impossível está eternizado em pedra e água na Fonte das Lágrimas.

“As filhas do Mondego a morte escura/ Longo tempo chorando memoraram/ E por memoria eterna em fonte pura/ As lágrimas choradas transformaram,/ O nome lhe puseram que ainda dura/ Dos amores de Inês que ali passaram,/ Vede que fresca fonte rega as flores/ Que as lágrimas são água e o nome amores.”

Maior e mais fantástica do que a poesia de Camões é o milagre de sua vida. Soldado, doca e náufrago, com um poema fundou uma nação.

INÊS DE CASTRO – Como todas as eternas novelas maravilhosas, a de Inês de Castro tinha de tudo. Dom Afonso era rei de Portugal, dom Pedro, filho dele, era príncipe. E andava pela corte uma “galega” magnífica, filha bastarda de um dos homens mais poderosos da Espanha, neto do rei Sancho, de Castela, que o príncipe dom Pedro também era. Pedro e Inês eram primos. E se apaixonaram.

Começou o maior tititi na corte, porque o príncipe Dom Pedro, que morava na Quinta, era casado com dona Constança, também prima dos dois. Inês vivia no Convento de Santa Clara, a meio quilômetro da Quinta, e Dom Pedro lhe mandava cartas em barquinhos de madeira que saiam da Quinta e chegavam até o convento por um córrego que, em um cano, passa até hoje.

Dom Pedro acabou levando Inês para a Quinta e tiveram filhos. Dom Afonso, o rei pai, não queria aquilo e, um dia em que Dom Pedro estava nas matas, caçando, mandou três homens matarem Inês de Castro a facadas.

FONTE DAS LÁGRIMAS – Ela chorou tanto, pedindo para não morrer, que fez nascer a Fonte das Lágrimas, onde há quem veja, ainda hoje, gravada na rocha, a mancha vermelha do sangue de Inês. Não sei o que é, mas tem cor de sangue.

O príncipe Dom Pedro se rebelou, organizou um pequeno exército e assolou o país, tentando derrubar o pai. Não conseguiu, mas logo depois o pai morreu, Dom Pedro assumiu o trono, prendeu dois dos assassinos, arrancou-lhes os corações a facadas, anunciou que havia casado secretamente com Inês antes de ela morrer e mandou construir o monumental túmulo de Alcobaça.

O rei fez uma marcha fúnebre de Coimbra ate Alcobaça e obrigou toda a nobreza a acompanhar, beijando a mão da morta. E pôs o corpo dela no túmulo, onde também o dele está. Por isso, Inês “depois de morta foi rainha”.

Este bucólico recanto do romantismo universal, é sobretudo um testemunho secular do ódio e da violência política. O poder mata mais do que dengue e febre amarela. E mata a facadas.

O vice exemplar deixou de ser presidente na hora de José Sarney fazer xixi…

Resultado de imagem para marco maciel

O vice Marco Maciel, esquálido, ganhou o apelido de “Mapa do Chile”

Sebastião Nery

Era um rapaz magricela, calva longa e olhar triste de seminarista de castigo, as mãos soltas na ponta dos punhos, como balões vazios, e um pescoço longo, muito longo entre Modigliani e o gogó da ema da praia de Pajuçara em Maceió. Duas vezes vi Marco Maciel, presidente da Câmara, em pânico, na crise de abril de 1977. Quando Francelino Pereira chegou ao Planalto dizendo que a situação era gravíssima, foi ao gabinete dele, trancaram-se. Lá de fora, pela vidraça, vi Marco Maciel bater as mãos na mesa, esmurrar os joelhos, pular na cadeira como numa sela de potro bravo. Depois, foi na volta do encontro com o presidente, quando lhe foi comunicado o recesso do Congresso, estava pálido, lívido, o rosto como cera, e o suor correndo fino pelas têmporas. Quando Célio Borja, sibilino e cortês, lhe passou a presidência da Câmara, abraçou-o:

– Eu quero que Deus o proteja. Marco.

– E tem protegido!

GRANDE EVENTO – Mendes de Barros, ex-deputado, candidato do MDB ao Senado em 1970 e Richelieu da oposição de Alagoas, organizou na Assembleia Legislativa um Círculo de Estudos Políticos com Teotônio Vilela, Marco Maciel, Divaldo Suruagy, Marcos Freire, Carlos Castelo Branco, Carlos Chagas e outros.

No dia em que Marco Maciel chegou a Maceió, Mendes de Barros estava doente. Guilherme Palmeira, candidato da Arena ao Governo e amigo dos dois, levou Marco para visitar Mendes. Tocam a campainha, o filho de Mendes, Antonio, vê Marco com seus quase dois metros de magreza e finura, corre até o quarto:

– Painho, o mapa do Chile está aí com o Guilherme.

FRENTE LIBERAL – Marco Maciel, Guilherme Palmeira e Jorge Bornhausen, senadores do PDS, começaram a reunir-se, em 1984, para organizar a Frente Liberal, uma dissidência do PDS destinada a apoiar a candidatura de Tancredo Neves a presidente da República, contra Paulo Maluf.

Aureliano Chaves, vice-presidente de Figueiredo, logo assumiu a liderança do grupo. Um dia, marcaram uma reunião com Ulysses Guimarães para discutirem a formação da Ação Democrática, a aliança do PMDB com a Frente Liberal. Quando Ulysses chegou, tomou um susto. Aureliano tinha levado um gravador e posto sobre a mesa, ligado. Era o Juruna mineiro.

VICE DE TANCREDO – Mais no fim do ano, antes de o Colégio Eleitoral reunir-se, em janeiro, a Frente Liberal, já formada, fez uma reunião para acertar quem iriam propor a Tancredo como vice-presidente e quais ministérios iriam reivindicar.

Marco Maciel, o primeiro sugerido pelo grupo, dizia que não queria ser vice. Não convencia muito, Sarney, o segundo, também dizia, mas não convencia nada. Resolveram tratar antes dos ministérios. Marco Maciel propôs pedirem primeiro o da Educação. Sarney foi contra. Era um “abacaxi”, cheio de armadilhas, professores reivindicando e estudantes fazendo greves.

Preferia o da Previdência, que “tinha recursos e bandeiras sociais”. Marco não concordava, o debate continuava.

NA HORA DO XIXI – De repente, Sarney saiu para ir ao banheiro. Guilherme Palmeira foi atrás. Enquanto Sarney fazia xixi, Palmeira encostado na porta, catequizava:

– Sarney, o Marco quer a Educação para ele, é o sonho dele. E é a única maneira de você ser o vice.

Sarney voltou rápido e defendeu o ministério da Educação. Para Marco Maciel. E a vice caiu sobre a cabeça de Sarney como uma tonsura. Sarney saiu para vice, Marco Maciel para a Educação e Aureliano para Minas e Energia. Sarney foi feito vice-presidente em um xixi do PFL.

Orgulho mineiro de não pedir nada ao adversário, nem mesmo demissão do cargo

Resultado de imagem para Augusto de lima juniorSebastião Nery

Augusto de Lima Júnior, historiador e filho de avenida em Belo Horizonte (o pai foi um dos patriarcas mineiros), criou a Medalha da Inconfidência, e Juscelino o nomeou Chanceler perpétuo. O governador só dava a medalha a quem Liminha aprovava.

Bias Fortes chegou ao governo, queria dar a Medalha de Tiradentes à sogra. Augusto de Lima Júnior protestou, não adiantou nada. Bias assinou o ato, Liminha pediu demissão e no dia seguinte O Estado de Minas publicava longa carta do chanceler demissionário, com o seguinte título: “Parir mulher de governador não dá direito a medalha”.

INDIGNAÇÃO – Morreu a mulher de Augusto de Lima Júnior. Alkmin não foi ao enterro, não telefonou, não telegrafou, não foi à missa de sétimo dia, não deu sinal de vida. E eram amigos íntimo de longa data. Liminha ficou indignado, nunca mais procurou Alkmin.

Uma tarde, encontram-se em Belo Horizonte, rua da Bahia, na Livraria Itatiaia.

– Como vai, meu caríssimo Lima?

– Vou bem. Até logo.

– Por que a pressa? Noto que você está triste. O que é que significa essa gravata preta? Morreu alguém próximo?

– Morreu sim, Alkmin. Morreu minha mulher.

– Não me diga. Eu não sabia. Meus pêsames.

– Ela deixou essa vida com nojo dos homens, cada dia mais canalhas. Cada dia mais canalhas, Alkmin, até logo.

– É isso mesmo, Lima. A vida não está mais para gente como

nós. A vida hoje é só mesmo para os canalhas. Gente como nós já não tem por que viver.

E abraçou Liminha, lágrimas nos olhos.

O ORADOR – Augusto de Lima Júnior gostava muito de fazer discurso. Em 40, Getúlio o nomeou ministro Plenipotenciário do Brasil durante as solenidades de mais um centenário da independência de Portugal. Liminha chegou lá de discurso no bolso, feliz com a história e a retórica.

No dia seguinte, chega João Neves da Fontoura, ministro do Exterior, acompanhado de ilustre comitiva, e anuncia que vai falar em nome do Brasil. Liminha enlouqueceu. À noite, poucos instantes antes da solenidade, telefona para o hotel, diz a João Neves que chegou à embaixada um telegrama urgente do Brasil para ele.

João Neves corre para lá, tranca-se numa sala com Liminha para ler o telegrama, não havia telegrama nenhum. Quando João Neves começa a reclamar da brincadeira, Liminha sai, fecha a sala por fora. Os funcionários haviam saído, João Neves fica preso. Liminha vai à solenidade, lê seu discurso, tranquilo e orgulhoso.

Mal acaba, chega João Neves, suado, zangado, indignado, e, por cima, mentindo, pedindo desculpas às autoridades portuguesas pelo equívoco quanto ao horário, que o fez atrasar-se.

Voltou ao Rio, foi queixar-se a Getúlio. Getúlio caiu na gargalhada:

– E você não sabia que o Liminha é maluco?

FRASE CLÁSSICA –  Artur Bernardes, que governou Minas e sitiou o País durante quatro anos, cunhou a frase clássica: “Para os correligionários, tudo. Para os adversários, a lei, quando possível”.

Em 1918, Bernardes assumiu o governo mineiro e começou a demitir o outro lado. Era diretor da Imprensa Oficial o velho Augusto de Lima, adversário de Bernardes. Bernardes não quis demiti-lo logo e mandou um amigo conversar, para que ele pedisse demissão. O homem chegou lá sem jeito:

– Augusto de Lima, como o senhor sabe, o Dr. Artur Bernardes…

– Já sei, já sei.

– Vou falar logo, Dr. Augusto de Lima. O Dr. Artur Bernardes mandou sugerir que o senhor peça demissão.

– Alto lá. Ao adversário, não peço nada. Nem demissão.

No dia seguinte, Bernardes demitiu Augusto de Lima.

Jimmy Carter em Recife, sem saber que ia ser presidente dos Estados Unidos

Resultado de imagem para jimmy carter em recife

Rosalynn e Jimmy Carter, ao embarcarem de volta aos EUA

Sebastião Nery

Quando Jimmy Carter esteve no Brasil, em 1972, passou alguns dias em Recife com a mulher, em casa do casal Camilo Steiner, na praia da Piedade. A mulher de Steiner, americana da Georgia, foi colega de colégio da mulher de Carter, Rosalynn, e continuaram amigas pela vida a fora. O filho de Steiner estudou nos EUA, morando na casa de Carter.

Em Recife, o governador Eraldo Gueiros ofereceu um almoço a Jimmy Carter, no Palácio. Saudou-o o vice-governador Barreto Guimarães, gordo e barroco, lançando a candidatura de Carter à Presidência dos Estados Unidos:

– Vossa Excelência, senhor governador da Georgia, tem a marca do estadista e estamos certos de que será o próximo ocupante da Casa Branca.

Carter apenas sorriu. No dia seguinte, Camilo Steiner convidou alguns jornalistas pernambucanos para uma peixada e uma conversa com Carter. Anchieta Hélcias, secretario de Industria e Comércio de Pernambuco, perguntou a Carter se ele tinha condições de sair candidato pelo Partido Democrata em 1976. Carter respondeu com outra pergunta:

– Qual é o estado mais pobre do Brasil?

– O Piauí.

– Pois a Georgia é o Piauí de lá. O senhor acha que o governador do Piauí tem condições de ser Presidente do Brasil?

Anchieta também achava que não. Acontece que o povo americano achava que sim.

CANDIDATO DOIDO – George Pires Chaves, advogado e cônsul do Piauí no Rio de Janeiro, voltou a Teresina para visitar um cliente, Miguel Faria. Encontrou-o louco, internado no Sanatório Meduna, dirigido pelo psiquiatra, ex-presidente do IPASE e deputado cassado Clidenor de Freitas.

Miguel recebeu doutor George em sua tranquila e chestertoneana loucura. Mas não queria saber nada de negócios. Só de política:

– George, o Piauí precisa de sua ajuda. Nós estamos cansados de eleger governadores sãos. Nenhum deles prestou. Agora queremos um doido para o governo do Estado.

– E quem é o candidato, Miguel?

– É aqui o nosso colega doutor Clidenor.

OUTRA DE LOUCO – Mão Cheinha era louco no Ceará. Levaram-no para o Sanatório Meduna, de Clidenor de Freitas, em Teresina. Com o tempo, Mão Cheinha virou louco-chefe. Tomava conta dos outros. Há sempre um louco cuidando dos bons.

No sanatório, havia uma mangueira que nunca dava manga. Mão Cheinha não entendia aquilo. Um dia, chamou oito loucos:

– Olha, minha gente, vocês são mangas maduras. Vão lá para cima. Quando eu gritar, as mangas caem, porque manga madura cai. Uma a uma.

Os oito subiram. Mão Cheinha, cá de baixo, gritou:

– Manga um!

Poff. E um louco se esborrachou no chão.

– Manga dois! Manga três! Manga quatro!

E eles iam se largando lá de cima e arrebentando-se cá embaixo.

Mão Cheinha gritou: – Manga sete!

O sete respondeu: – Mão Cheinha, chama a Manga oito, que eu ainda estou verde.

Almoçando com um gênio antigo e imortal, que se chamava Agripino Grieco

Resultado de imagem para agripino grieco

Agripino Grieco criticava a literatura e tudo o mais

Sebastião Nery

Saí do almoço, fui direto à enciclopédia ver a definição de águia: – “Ave de soberbo voo, garras potentes e tarsos plumosos, nidifica e habita nas montanhas”. Era ele. Nunca ninguém me dera tão forte a ideia de ave, de uma ave soberba. Cara de ave, nariz de ave, longos dedos de ave, finos e saltitantes olhos de ave, apesar de tudo não voava nem cantava. Era um homem. Um homem excepcional, como a águia é uma ave excepcional.

Milton Reis, deputado cassado, poeta, me telefonou convidando para almoçar em sua casa com Agripino Grieco. Fui pensando nos 85 anos do velho mestre que de tão longe me abriu as cancelas da literatura, nos primeiros anos do seminário, através de seus livros que me encantaram pela limpidez, pela autenticidade, pela coragem de dizer que A era A e Z era Z mesmo, pela agressiva competência com que exerceu a crítica literária acima de todas as corriolas da chamada vida literária, furando sem piedade a pança inflada de muito Sancho, com seu estilo de espada em punho de Dom Quixote.

AOS 85 ANOS – Carcaças Gloriosas, Zeros à Esquerda, Amigos e Inimigos do Brasil, O Boletim de Ariel, o rodapé em O Jornal, eu lera tudo há tanto tempo que fui imaginando encontrar os restos de um homem comido pela exaustão de setenta anos de contínua atividade intelectual.

Pois não era nada disso. Da porta, a voz entrou sala adentro, tinindo, retumbante, como de um jovem. E passou três horas falando, contando histórias, opinando, discutindo, citando trechos e trechos, prosa e verso, como torcedor de futebol cita escalação de time, com a naturalidade e o vigor de quem fez das ideias o pão de cada dia.

A memória era inimaginável, inesgotável. Sabia e lembrava tudo da literatura universal e nacional, autores, livros, personagens, datas, dias, meses, anos, minúcias, detalhes, como se fosse a vida dos filhos.

PALAVRA EXATA – E numa linguagem forte, enxuta, precisa, a palavra exata como fio de navalha, as frases saltando da boca, tonada, semicantadas, troantes, irrepreensíveis. E, sobretudo, vivas, vivíssimas, surpreendentemente acordadas e ensolaradas em um homem de oitenta e cinco anos.

As três horas de conversa dariam meio livro. Guardei um pouco apenas do que ele disse entre o aperitivo, o excelente almoço e a sobremesa. Milton Reis, Geraldo Mascarenhas, Aurélio Ferreira Guimarães foram testemunhas de que não vai aqui nem um terço do que ele lampejou, como diria com propriedade um jornalista de seu tempo. Quer dizer, de seu primeiro tempo, porque ele foi um homem de todos os tempos.

1 – Tenho memória trágica, recordo tudo. Se houvesse fosfato para diminuir memória, tomava. Às vezes ela dói.

2 – Elegeram-me presidente de honra da Academia de Letras de Caxias. Agora, sou duas vezes imortal: tomei posse e voltei.

3 – O Jorge Amado trocou a Gabriela pela Tereza Batista. É o lenocínio literário.

4 – Mineiro dá bom dia porque bom dia volta logo. É a terra onde olho vê, mão tira e pé corre. Por isso dá tanto banqueiro lá. O que é o batedor de carteira senão um banqueiro apressado?

5 – O primeiro artigo sobre o Gilberto Freyre quem escreveu fui eu. Casa Grande e Senzala é um livro bem pensado e mal escrito. Pensado da casa grande e escrito na senzala.

6 – Há sujeitos muito burros que às vezes conseguem fazer uma coisa boa. É a faísca da ferradura na calçada.

7 – Em 1906, eu era funcionário do Ministério da Viação e ia ser promovido. O decreto estava lavrado. Fiz um discurso para o Aarão Reis, meu chefe, e não me contive. Disse que ele era “o primeiro de nossos engenheiros, em ordem alfabética”. Ganhei a frase e perdi o cargo.

8 – O Eça de Queirós estava hospedado em hotel de Évora. Chamaram-no. Saiu parecendo um sudário com aquele caco de vidro no olho. Queriam um adjetivo original, exótico, para uma placa em homenagem a um advogado. Respondeu: – “Honesto”.

9 – O Carneiro Leão entrou na Academia. Estranhei: – Até agora os animais tinham entrado de um a um. Dois de uma vez é demais.

10 – Alguém me pergunta se deixei a Academia em paz. (Até hoje ninguém criticou tanto os imortais da Presidente Wilson como o gênio irônico do Méier).

Os bodes pretos que definiram a política no antigo Estado da Guanabara

Resultado de imagem para CHAGAS FREITAS GOVERNADOR

Chagas Freitas (com Cartola) gostava de se vestir de branco

Sebastião Nery

Quando o Senado e a Câmara Federal reabriram em março de 1970, senadores e deputados governistas foram ao Alvorada para uma visita sabuja de cortesia ao novo ditador, o general Médici. Chagas Freitas, então deputado, foi apresentado pela primeira vez ao presidente, que lhe disse: “Preciso falar com o senhor”.

Chagas ficou como uma vela de óculos. Puxou pelo braço o deputado Rubem Medina, da Guanabara, e um deputado da Arena de São Paulo, que tinha ouvido a conversa, e lhes perguntou, todo perturbado:

– Vocês imaginam o que seja?

– A sucessão carioca, evidentemente – disse Medina.

Mas o deputado paulista resolveu fazer uma brincadeira:

– Não é nada disso, e eu estou bem informado. Sua situação não está boa. Não quer dizer que você vai ser cassado. A Arena do Rio já foi avisada de que em hipótese alguma o governador será você. Problemas de organização do diretório, excessivo controle do partido. O presidente não quer uma solução do tipo PSP (o ex-partido de Ademar) para a Guanabara.

EM PÂNICO – Chagas saiu do Alvorada em pânico. No dia seguinte, voltou para o Rio e chamou seu staff para uma reunião em casa: Erasmo Martins Pedro, Miro Teixeira, Rossini Lopes, presidente da Assembleia, e outros. Contou a história e suspirou, olhando para o teto, por cima do aro dos óculos:

– Preciso tomar providência urgente. Já tinham me avisado que, se eu não fizer trabalhos seguros, o azar superará as possibilidades. Só uma força superior para enfrentar os “serviços” que estão fazendo contra mim.

Erasmo, evangélico, sorriu mole, não disse nada. Rossini resolveu:

– Sou “cambono” (acólito, ajudante de sessões de Umbanda) de “Seu 7 da Lira”. Dona Cacilda sabe de tudo e tem força para desmanchar.

Tocaram para o Terreiro de “Seu 7”, em Santíssimo. A comitiva tinha oito carros, um oficial, os demais particulares.

Chegaram exatamente à meia-noite, no meio da sessão. Chagas ficou no carro, Rossini entrou sozinho, falou com dona Cacilda. Ela interrompeu a sessão, recebeu Chagas reservadamente, para ele não ser visto pela gente toda que estava lá. “Seu 7” fez uma cara de horror:

– A situação é negra. Há muita gente convocando espíritos maus contra o senhor. Preciso fazer, e fazer logo, um trabalho pesado com 3 bodes pretos. Nem cabra nem carneiro servem. Só bode.

NA ESTRADA – Onde encontrar, naquela hora, 3 bodes pretos? Os 9 carros saíram em direção a Campo Grande. Pararam à beira da estrada, cabra tinha muita, mas bode nenhum. Chagas ficou com Erasmo dentro do Galaxie oficial e Rossini saiu comandando o pelotão dos caçadores de bode preto, todos agachados dentro do mato.

De repente, dentro da noite, vinda lá do matagal, ouviu-se a voz de comando de Rossini, gritando como um possesso:

– Vamos berrar que eles aparecem! Todo mundo berrando! E começaram todos a berrar:

– Béééé! Béééé! Béééé!

CHAGAS SUAVA… – Pelo berro ou pela sorte, às 4 da manhã três bodes pretos tinham sido capturados entre Santíssimo e Campo Grande, subúrbios do Rio. Chagas, aflito, suava como um cão de caça. E Erasmo, todo encabulado, pensava certamente na palavra de Deus, sagrada na Bíblia, que desde o Antigo Testamento proibiu adorar bodes e bezerros, mesmo quando de ouro.

Voltaram. “Seu 7” abriu os três bodes a facão, pegou as vísceras e passou, ensanguentadas, no corpo inteiro de Chagas, da cabeça aos pés. A roupa branca de Chagas parecia véu de Verônica. Foi um banho de sangue.

Um ano depois, Chagas tomava posse no governo da Guanabara. Nunca mais sobrou bode preto entre Santíssimo e Campo Grande.

Haja bode preto.

Alberto Silva hoje é visto como um estadista em busca do impossível

Resultado de imagem para alberto silva

Alberto Silva foi um dos maiores políticos do Nordeste

Sebastião Nery

“O difícil a gente faz hoje. O impossível faz-se amanhã”. Esta frase, lapidar, é a abertura do livro “Alberto Silva Uma Biografia” do brilhante jornalista piauiense Zózimo Tavares. “Nenhum político piauiense mexeu tanto com o imaginário de uma geração, na segunda metade do século 20, quanto o engenheiro Alberto Silva. Ao governar o Piauí pela primeira vez, entre 1971 e 1975, consagrou um etilo de gestão que o transformaria em um mito da política estadual.

Com engenhosidade e capacidade incomuns de construir sonhos, tornou-se o político piauiense mais popular de sua época. Em sua longa e intensa trajetória política, venceu e perdeu eleições; nunca, porém, perdeu a compostura.

SEM DESTEMPERO – Mesmo nos momentos mais críticos e mais tensos das campanhas eleitorais, ou nas crises mais agudas da administração, portou-se com altivez e manteve a determinação para enfrentar e resolver os problemas.

Alberto Silva foi um dos mais impiedosamente atacados da história do Piauí, contudo, ninguém jamais ouviu dele um destempero verbal. Fora do governo, amargou o ostracismo e a censura do poder, sem direito sequer de responder aos ataques desferidos pelos adversários, por meio da imprensa.

Um otimista por natureza. Para alguns, um megalomaníaco, com ideias mirabolantes e sonhos irrealizáveis. O tempo, senhor de todas as verdades, mostrou que seus sonhos de fazer um Piauí diferente não eram devaneios. Eram, antes de tudo, necessários.

GRANDIOSIDADE – O tempo também calou seus críticos, fazendo-os reconhecer a grandiosidade de suas ideias. Embora de um jeito meio disfarçado, deram o braço a torcer: Alberto era governante para um Estado como São Paulo, dono de condições econômico-financeiras e estruturais que permitem a realização de coisas grandiosas; não para o Piauí, pobre, atrasado e miseravelmente dependente da boa vontade de Brasília.

A importância de Alberto Silva para o Piauí está de tal forma gravada na cabeça do piauiense que, quando alguém quer demonstrar, do modo mais simples, a magnitude de sua obra, observa, apenas: “Tire as obras que Alberto Silva fez no Piauí e veja o que sobra”.

PÁGINAS AMARELAS – Ele foi o único governador do Piauí a ser entrevistado nas “Páginas Amarelas” da Revista Veja, que se impressionou com as proezas de sua gestão! Só outros dois piauienses ocupariam o mesmo e prestigiado espaço, ainda assim porque exerciam destacadas posições no plano nacional: Petrônio Portella, como presidente do Congresso (1971/1973 e 1977/1979), Reis Velloso, como ministro do Planejamento (1969/1979).

Pouco, muito pouco, se escreveu sobre Alberto Silva sem objetivos e interesses políticos imediatos. Chega a ser curioso que uma figura pública tão expressiva e múltipla não tenha chamado a atenção dos historiadores e pesquisadores.

Em livros, existem poucas obras sobre ele. O jornalista Tomaz Teixeira, seu fiel escudeiro, lançou A Outra Face da Oligarquia do Piauí, em 1979; e Alberto Silva – O Mito e o Político, em 2010. São dois depoimentos sobre o ídolo político e o seu tempo.

DOUTORADO – Na academia, a obra mais consistente – e talvez a única – sobre Alberto Silva foi produzida pela professora Cláudia Cristina da Silva Fontineles, da Universidade Federal do Piauí (UFPI). Trata-se de O Recito do Elogio e da Crítica – Maneiras de Durar de Alberto Silva na Memória e na História do Piauí. A obra é fruto de sua tese de Doutorado em História. Foi publicada em 2015, pela Editora da UFPI, e lançada na Academia Piauiense de Letras (APL). É uma densa e criteriosa pesquisa sobre o político Alberto Silva, seu objeto de estudo, à luz de um vasto aporte teórico e metodológico.

Este livro não esgota o rico manancial sobre a vasta contribuição política e administrativa de Alberto Silva. No máximo, procura assimilar o essencial do homem público que ele foi, e de sua obra, para que sua história seja conhecida também por novas e futuras gerações.

O professor e acadêmico M. Paulo Nunes, um dos luminares da Academia Piauiense de Letras, costuma repetir que se dizia do educador Anísio Teixeira que ele era um homem que sonhava com as mãos. Isto é, um homem que pensava e realizava. O mesmo se pode dizer de Alberto Silva – um homem que pensava grande e realizava, igualmente, obras grandiosas.”

Futebol e política, numa sucessão de chutes certeiros e boas defesas

Resultado de imagem para futebol e política chargesSebastião Nery

Sergio Porto, nosso saudoso Stanislaw, dizia que “no futebol a cabeça é o terceiro pé”. Os bretões o inventaram achando que aquilo era só uma brincadeira sem pé nem cabeça. E no entanto metade da humanidade continua em frente a uma TV.

Até macacos jogam. É clássica, e já contei aqui, a historia do Adalardo de Alegrete, no Rio Grande do Sul. A cidade estava em festa. O Cruzeiro de Porto Alegre tinha chegado para jogar contra o Alegrete Esporte Clube. Banda de música, bombacha e chimarrão. Um furor cívico.

O GOLEIRO – Na hora do jogo, a tragédia. O goleiro tinha tomado um porre de vinho e roncava no canto do vestiário. O primeiro reserva caíra do cavalo, quebrou a perna. O outro reserva fugira na véspera com a sobrinha.

A solução era o circo. Foram buscar o “Adalardo”, o macaco prodígio, que pegava coco jogado dos quatro cantos do picadeiro.

Adalardo não negou fogo. Camisa número um, piscando o olho e coçando a cabeça debaixo da trave, pegou tudo quanto foi bola. E ainda cuspia no centroavante. Foi um delírio. Acostumado aos aplausos, fazia pontes e defesas sensacionais. Alegrete cantava a trave fechada e a vitória.

Mas houve um pênalti contra o Alegrete. Adalardo achou que tinha havido uma sujeira. A cidade inteira olhava para ele calada. Por que não batiam palmas? Por que não aplaudiam? A culpa era certamente daquele homem todo de preto que tinha botado a bola ali na frente dele e mandara outro chutar. Antes do chute do pênalti, Adalardo enlouqueceu.

Saiu da trave aos pinotes, deu urros no meio do campo, avançou no juiz e lhe mordeu o dedo, quase arrancando. O jogo acabou empatado.

ZICO – O deputado Antonio Moraes, do MDB do Ceará, professor, radialista, arranjou uma maneira de aproveitar uma Copa do Mundo para continuar a campanha contra a Arena. Ia para o rádio, pegava o microfone, começava a irradiar uma hipotética partida de futebol:

– O Coronel Virgílio passa para o coronel Bezerra, o coronel Bezerra passa para o coronel César Cals, o coronel Cals avança, dribla, chuta ….. “Gooolll. Goooollll contra o Ceará”!

E pedia voto para o senador Mauro Benevides,“o Zico de Iracema”.

OSORIO – Osório Vilas-Boas, vereador, presidente da Câmara Municipal de Salvador, candidato a prefeito, deputado do MDB, acabou cassado pelo AI-5 em 1969. Em maio de 64, era presidente do Esporte Clube Bahia, o maior do Estado. Ia embarcar para os EUA com seu time para um torneio em Nova York, recebeu ofício do consulado americano:

“Consulado Americano, Salvador, Bahia, Brasil, 19 de maio de 64.

Ilmo. Sr. Osório Vilas-Boas, Rua Aurelino Leal, 36, nesta.

Prezado Senhor: este escritório lamenta informar que está impossibilitado de dar o visto a V.Sa., porque se verificou que V. Sa. é inelegível (sic) para visto, sob a seguinte seção da “Lei de Imigração e Nacionalidade”:

 “Seção 212 (a) (28) (3), a qual proíbe a concessão de vistos a qualquer pessoa que advogue, ou pertença ou seja filiada a grupos que advoguem a doutrina do comunismo mundial. No entanto, poderemos dar maiores considerações ao seu requerimento para visto se V. Sa. Obtiver e apresentar a este escritório os seguintes documentos: atestado assinado pela polícia e pelas autoridades militares em como V. Sa. não advogou ou foi filiado a grupos que advogam a doutrina do comunismo mundial.

“Atenciosamente, pelo cônsul, Roberto E. Service – vice-cônsul”.

Osório acabou indo e o Bahia se vingou do consulado idiota.

VINGANÇA – Osório Vilas Boas, presidente do clube Bahia por longos anos, era deputado talentoso e bom orador. Na AssemblEia, o deputado Durval Gama, médico, não tinha condições de discutir com ele, apelou:

– V. Exa. é um analfabeto, não pode transformar esta casa em uma Assembleia de terceira categoria.

– Sou quase analfabeto, sim, mas tenho vivência. Conheço o mundo inteiro viajando com o Bahia. V. Exa. sabe qual é a capital da Escócia?

– Não sei não.

– Pois eu sei. Glasgow. E estive lá.

Durval Gama desistiu.

NEGRÃO – No bar de Ipanema, no Rio, um grupo de rapazes bebia e papeava. Um deles começou a desancar o Negrão:

– Nosso mal é esse Negrão. Vocês vão ver, vamos nos enterrar por causa dele. Não tem mais jeito. O Negrão está velho, cansado, preguiçoso. Não é mais aquele. Por que insistir nele? O negócio era tirar e mandar descansar. Tem muita gente melhor para o lugar do Negrão.

Do lado, um policial ouvia e esperava. Quando o garoto parou para tomar fôlego, estava seguro:

– Vamos, está preso. Está aí pregando a derrubada do governador.

– O senhor está é maluco. Será que neste país a gente não pode mais falar mal nem do Pelé?

Ele estava falando mal era mesmo do Negrão de Lima, governador da Guanabara. Mas Pelé, o outro Negrão, salvou mais uma jogada.

Faroeste em família, na sangrenta política dos irmãos Góis Monteiro

Resultado de imagem para silvestre pericles

Silvestre Péricles de Gois Monteiro se sentia o dono de Alagoas

Sebastião Nery

“Se me aborrecerem o pau canta e não pára mais”; “O governador é quem manda em Alagoas e o que ele faz há de ser respeitado, custe o que custar, haja o que houver”; “O governador me perguntou (a um deputado da oposição, preso) se eu estava armado. Respondi-lhe que não era habituado a usar armas. Sacou então de um punhal ou faca e me ofereceu para que o matasse. Repeli. Tirou da cintura um revólver e me ofereceu para que eu o matasse”.

E mais: “A Assembléia está cheia de ladrões públicos. Eu vos afirmo com a responsabilidade de primeiro magistrado das Alagoas que haveremos de esmagar esses canalhas a pontapés e bofetões”; “Aqui quem resolve sou eu. Você acha que eu vá deixar alguém meter o bedelho em Alagoas? Tenho a faca e o queijo na mão. O meu sucessor tem que sair dessa cachola. Aqui em Alagoas quem manda sou eu”.

E mais ainda: “Um repórter me perguntou se eu ia indicar o futuro governador. Ora, se eu sou o dono de Alagoas, como é que eu ia aceitar essa coisa de indicar? Quem vai fazer o governador que me sucederá sou eu. Se o general Góis me der apoio, terei 90% dos votos. Se ficar neutro, terei 70% ou 80%. Mas se o general ficar contra, pode escrever que ele apanha”; “A Policia Militar está pronta para cumprir e fazer cumprir a lei e até viola-la para que não seja embaraçado o programa do governo. As fraquezas do regime não podem beneficiar os inimigos”.

SILVESTRE PÉRICLES – Isso aí não era conversa de Herodes, de nenhum sátrapa do mundo antigo ou qualquer sultão enlouquecido. Eram entrevistas de um general brasileiro, Silvestre Péricles de Goes Monteiro, governador de Alagoas entre 1947 e 1950, aos jornais do Estado, à ”Agência Meridional” dos “Diários Associados de Assis Chateaubriand, à “Folha da Manhã” (de São Paulo), ao “Correio da Manhã”, à “Tribuna da Imprensa”.

O espanto nacional era tanto que seu irmão, também militar, o senador Ismar Góis Monteiro, do PSD, ex-interventor de Alagoas, reagiu: “Alagoas está vivendo sob o regime do crer ou morrer. Já esperava a saída do PSD do governador Silvestre Péricles. O seu partido é o do ego e qualquer rótulo serve. O demônio anda solto em Alagoas. Não pára, não cansa, enlutando lares, ceifando vidas. Não sai o cheiro de enxofre, mas o cheio da pólvora homicida, o odor do sangue de suas vítimas”.

IMPEACHMENT – Na Assembleia, a oposição pediu impeachment ou intervenção:

“Já disse que impeachment é palavra inglesa. E intervenção é um termo empregado em cirurgia. Se houvesse impeachment ou intervenção em Alagoas, quem poderia aplicá-las era exatamente eu, porque tenho autoridade moral e patriótica para fazê-lo. Assassinos e roubadores estão a zombar. Aqui há muitas lagoas para afogá-los”

“Estou aqui eleito pelo povo,não existe força capaz de abalar-me. Repito a frase de Floriano Peixoto : “Desta cadeira, só a lei ou a morte me tiram”. E se existe alguma duvida sobre a minha ação, que se apressem no processo de impeachment ou intervenção, para sentir as consequências”.

GOIS MONTEIRO – O general Aurélio Góis Monteiro, também senador do PSD, declarou: “Não me envolverei mais na política partidária de Alagoas, tradicionalmente dissolvente, e, sob certos aspectos, sórdida”.

Mas deu entrevista solidário com o irmão (e contra os outros dois): “Ou acabo com o PSD alagoano ou o PSD acaba comigo. Lutei durante um ano para obter um entendimento. Edgard (mais um Góis, irmão deles) tudo fez para acalmar os ânimos. Não há ameaças de massacre aos deputados. Ainda (sic) não há necessidade disso. Se isso vier a ser necessário, quem comandará o massacre sou eu em pessoa”.

Um político exemplar, chamado Paes de Andrade

Imagem relacionada

Câmara lança um livro sobre a trajetória de Paes de Andrade

Sebastião Nery

Paes de Andrade, sempre que retornava a Fortaleza, reunia em sua casa os amigos para um convescote. Chegávamos – uns vinte – para o almoço de carneiro e para todas aquelas relembranças da história política do Ceará, em que o Filho de Mombaça havia sido personagem marcante por mais de meio século.

O carneiro do Paes, preparado pelas mãos competentes da cozinheira Francinete e apresentado em várias modalidades culinárias, fazia o regalo dos convidados e a inveja posterior dos que, por viagem ou distração, haviam se ausentado daquela mesa farta de sabor sertanejo e prosaica convivência.

HOMENAGEM – Quando o nosso líder morreu, naquele malfadado 17 de junho de 2015, em Brasília, resolvemos, na semana seguinte, reunir em Fortaleza, naquele mesmo endereço da Praia de Iracema, os frequentadores do almoço do Paes para a última carneirada.

Nesse dia todos compareceram. Eram uns trinta. Dona Zildinha, ainda muito abalada, não veio, mas ficou, de Brasília, acompanhando em tempo real toda a reunião. Estavam ali muitos familiares, filhas, genros e netos. Antigos companheiros das jornadas políticas e várias gerações de admiradores reprisavam passagens épicas ou simplesmente hilárias daquele cavaleiro andante, que por décadas exercera mandatos legislativos e missões públicas com desenvoltura lhaneza e afilada competência.

UM RETRATO – Eu havia pintado um retrato do ilustre personagem, que, belamente emoldurado por providência de Carlos Castelo, deveria ser solenemente entronizado naquela sala em que ele costumeiramente nos recebia.

Houve discursos e relatos memoriais. E, quando foi descerrado o pano, declamei o poema composto de madrugada, sob forte impacto emocional e justificada dor: Cantiga de Saudade para Paes de Andrade.

Juarez Leitão, poeta, historiador, membro da academia Cearense de Letras e do Instituto do Ceará, com o brilho dos poetas relembrou Paes de Andrade.

RESPEITO – Em Roma e Paris, como Adido Cultural, fui testemunha e participante do respeito com que era recebido pelas lideranças políticas e culturais, como o professor da Universidade de Coimbra, José Joaquim Gomes Canotilho, professor Diamantino Durão, Reitor da Universidade Lusíada de Lisboa, a direção da Mason da l’Amérique Latine e tantos outros.

O livro “Paes de Andrade, o político, o jurídico, o militante democrático” – editado pela Câmara dos Deputados – é o caloroso depoimento sobre uma época.

Nas histórias de ministros da Agricultura, Severo Gomes piando feito macuco

Resultado de imagem para severo gomes

Severo Gomes entendia muito de cachaça e de macuco

Sebastião Nery

Nereu Ramos assumiu a presidência da República em 1955, para garantir a posse de Juscelino, e pediu a Antonio Balbino, governador da Bahia, um nome para o Ministério da Agricultura. Balbino mandou chamar o deputado baiano Eduardo Catalão, fazendeiro de cacau, elegante e britânico, depois seu suplente no Senado:

– Catalão, indiquei seu nome para representar a Bahia no Ministério. Já dei seu nome ao presidente Nereu, que quer conversar com você hoje.

– Não, Balbino, de maneira alguma. Não posso aceitar. A Bahia tem homens experientes e mais bem preparados para a função do que eu. Não é justo que seja eu o ministro. E você sabe que não tenho ambições políticas.

– Não é nada disso, Catalão. Você está é com medo da situação nacional. Você sabe que este é um governo eventual, de crise. Se fosse em período normal, um governo tranquilo, você aceitaria. Mas como poderá sair do gabinete ministerial para ser fuzilado em praça pública, não aceita.

Catalão levantou-se, inteiramente surpreendido com a veemência do amigo, bateu a mão na mesa e encerrou a conversa:

– Pois se é para ser fuzilado, aceito.

Foi ministro da Agricultura. Não foi fuzilado.

GOVERNO CASTELO – Oscar Thompson era secretário da Agricultura do governo de Adhemar de Barros em São Paulo, em 1964. Depois do golpe militar, o presidente Castelo Branco mandou Adhemar indicar o ministro da Agricultura. Adhemar fez uma vasta lista. Castello vetou todos. Até que aceitou Oscar Thompson, formado pela Escola Agrícola Luiz de Queiróz, em Piracicaba.

Assumiu em 14 de abril. Em 16 de junho, Castello lhe telefonou mandando fazer uma demissão no ministério. Oscar Thompson respondeu:

– Tudo bem, Presidente. Mas antes vou comunicar ao governador.

– Quer dizer que o senhor vai comunicar antes ao Adhemar? Pois não vai ter tempo de comunicar nada. Já está demitido.

Bateu o telefone e o substituiu por Hugo Leme, diretor da Escola Agrícola Luiz de Queiroz de Piracicaba. Só durou seis meses, até o AI-2 de outubro de 1965, porque Castelo precisou do cargo para dar a Ney Braga, que deixava com sucesso o governo do Paraná.

COSTA E SILVA – Em 15 se março de 1967, o general Costa e Silva assumiu a presidência da República. Ivo Arzua, ex-prefeito de Curitiba, foi indicado para presidente do BNH (Banco Nacional de Habitação), mas Mário Trindade, o então presidente, não queria sair e conseguiu ficar. O jeito foi Costa e Silva convidar Ivo Arzua para Agricultura.

Mas Ivo Arzua não distinguia um morango de um mamão. Desesperado, internou-se 30 dias na Copamar (Cooperativa Agrícola de Maringá), onde fez um curso concentrado de agricultura. E assumiu.

SEVERO GOMES – No governo Castelo Branco, o saudoso Severo Gomes era ministro da Agricultura. Em Feira de Santana, na Bahia, presidiu uma solenidade. Depois, pediu uma cachacinha. Trouxeram sem rótulo, com o desafio:

– Queremos ver se o senhor diz de onde ela é.

Severo provou, gostou, arriscou: – Esta cachaça é de Januária.

Era. Ao lado, sorriso mole e olhos vidrados, escarrapachado numa cadeirinha de vime, um puxa-saco gordo, muito gordo, não se conteve:  – Vá entender de agricultura na puta que o pariu.

IGUAL A MACUCO – Ministro da Industria e Comercio de Geisel, Severo foi caçar macuco, um fim de semana, em sua fazenda perto de Parati. Macuco se caça piando, para chamar. O ministro estava piando mato adentro, veio um puxa-saco:

– Dr. Severo, o senhor pia macuco melhor do que muito macuco.

Começo de ano é tempo de festa e de relembrar algumas poesias

Resultado de imagem para paulo mendes camposSebastião Nery

Há séculos os irlandeses nos ensinam esta lição. Nosso eterno poeta, o Paulo Mendes Campos, traduziu em versos de luz:

###
UMA VELHA BENÇÃO IRLANDESA

Que a benção da luz
seja contigo, a luz exterior e a luz interior.

A Santa luz do Sol
brilhe sobre ti e aqueça teu coração
até que ele resplandeça
como um grande fogo de turfa,
e assim o forasteiro possa vir e nele se aquecer,
como também o amigo.

A luz brilhe de dentro de teus olhos,
como a candeia colocada na janela de uma casa,
oferecendo ao peregrino um refúgio à tormenta.

E a benção da chuva,
a chuva suave e boa, seja contigo.
Que ela tombe sobre tua alma
para que as pequenas flores
todas possam surgir e derramar suavidade na brisa.

A benção das grandes chuvas seja contigo,
caindo em tua alma para lavá-la bem lavada,
e nela deixando muitas poças reluzentes,
onde o azul do céu possa brilhar,
e às vezes uma estrela.

E a benção da terra,
a grande terra redonda, seja contigo;
sempre tenhas uma saudação amiga
aos que passam por ti ao longo dos caminhos.
A terra seja macia debaixo de ti
quando nela repousares, cansado ao fim do dia,
e leve ela descanse sobre ti,
quando no fim te deitares debaixo dela.

Tão leve ela descanse sobre ti,
que a tua alma cedo se liberte de seu peso,
livre e leve, no caminho de Deus.

E agora o Senhor te abençoe,
com toda a bondade te abençoe.”

*******************************

MEUS VERSOS TRISTES – Mas também há instantes de dor. O “Anjo Azul” foi um bar de Salvador por onde passaram gerações de poetas ou de boêmios. No golpe militar de 1964, há meio século, alguém não gostou de um pequeno poema meu pendurado na parede. Sua ira explodiu em um tiro que perturbou a madrugada. Eram apenas versos tristes de um sonolento jornalista:

###
NO ANJO AZUL
Sebastião Nery

Há um hálito de dor nestas paredes.
Há arcanjos ensanguentados arrastando sombras neste chão.
Aqui o teto escuro escancara a boca em vigas tortas
E vai pingando, babando, gotas de solidão em minha’alma.

Aqui meus fracassos, como cobras,
Escorregam mágoas no cimento cansado
E mulheres de olhos mortos choram crianças que eu não fui.

Aqui a vida explode,
O tempo não anda,
A morte não mata.

Você não é o meu amor.

Rubens Paiva e Eunice, um casal a ser eternamente lembrado

Resultado de imagem para rubens paiva e eunice

Eunice e Rubens Paiva, antes do golpe militar de 64

Sebastião Nery

Era 20 de janeiro de 1971, feriado, dia de São Sebastião, padroeiro do Rio e meu. Antes das dez da manhã, a caminho da praia, parei o carro em frente à casa do deputado do PTB paulista, cassado, Rubens Paiva, na Avenida Delfim Moreira, Leblon, Rio. Minha filha, colega da filha dele, desceu para pegar a amiga. Mandei um recado:

– Diga ao Rubens que não entramos porque estamos todos com roupa de praia. Quando voltarmos, passaremos aqui para dar-lhe um abraço.

Ela subiu, demorou um pouco, desceu com a Malu e me perguntou:

– Você brigou com o tio Rubens?  Ele estava no quarto, calçando o sapato, com três homens de paletó e gravata.

Fiquei calado. Vi quatro suspeitas kombis brancas em torno da casa, com varias pessoas dentro, olhando estranhamente para nós. Quando chegamos à praia, disse à minha mulher :

– Estão prendendo o Rubens. Aquelas kombis estão sem placas.

ERA A AERONÁUTICA – Não fiquei tranquilo. Apressamos o banho de mar e na volta já ninguém chegava mais perto da casa cercada, com a avenida fechada. Parei mais adiante e o porteiro de um prédio próximo me contou:

– É a Aeronáutica prendendo um cara daquela casa.

Voltei rápido e aflito. Era preciso espalhar urgente a notícia. Mal entramos em casa, ali perto, na Marquês de São Vicente, toca o telefone:

– Minha filha está com vocês?

– Está, sim. O que aconteceu?

– Cuidem dela.

E desligou. Era Eunice, mulher do Rubens, que seria presa a seguir.

ZÉ APARECIDO – Peguei o carro, fui correndo à casa do José Aparecido. Na véspera, havíamos jantado lá com o Rubens. Entre outros, lá estava o Bocaiúva Cunha, também cassado e sócio de Rubens numa empresa de engenharia. Na saída do jantar, Rubens pegou um cartão (“Rubens Paiva, engenheiro civil”), escreveu dois números de telefone (“223.1512  e  227.5362”), me entregou (guardo até hoje):

– Você anda sumido, acompanho pela “Tribuna” e o “Politika”. Vamos conversar. Passe lá amanhã para um uísque. É dia de seu padroeiro.

Eu o conhecia desde 1953. Em 1962, nos elegemos, ele deputado federal por São Paulo, eu estadual pela Bahia. E nos encontrávamos nas lutas do governo Jango. Ele foi diretor do “Jornal de Debates” e cassado na primeira lista do golpe militar de 1964, por ter feito parte da CPI do IBAD, que denunciou inclusive o farsante do Lincoln Gordon, embaixador dos Estados Unidos no Brasil. Em 1965, Rubens assumiu a direção da “Ultima Hora” de São Paulo, onde vivi um ano clandestino e trabalhei escrevendo anonimamente.

AVISAR OS AMIGOS – Foi uma noite desesperadora. Com Aparecido, tomando todos os cuidados, fomos à casa de Bocaiúva e também à de Waldir Pires. Ninguém devia falar ao telefone, naqueles sinistros anos do governo Médici. Mas era preciso avisar aos amigos, sobretudo de São Paulo e Brasília, fazer um cerco antes do pior.

Não adiantou. No dia 21, soubemos que fora levado para o notório Brigadeiro Bournier, da Aeronáutica, e de lá entregue ao DOI-CODI do Exercito, na Barão de Mesquita.

Já no dia 23, a certeza de que tinha sido assassinado. O jornal “O Dia”, do Chagas Freitas, em manchete fraudada, com a foto de um carro queimado, dizia que “o carro que o transportava do comando da 3ª Zona Aérea da Aeronáutica para o DOI-CODI do Exercito tinha sido interceptado por desconhecidos, que o teriam sequestrado”.

Eunice Paiva, presa com uma filha e incomunicável durante 15 dias, quando saiu lutou como uma leoa. Morreu na semana passada.

Como entender o fracasso da educação pública num país como o Brasil

Resultado de imagem para educação charges

Charge do Junião (junião.com.br)

Sebastião Nery

A educação de qualidade é o fator determinante para o crescimento da economia e, por consequência, do desenvolvimento. Sua ausência determina baixíssima qualificação da mão de obra resultando na baixa produtividade. Educação e economia estão integradas na ordem direta de um país responsável que almeje pela elevação da renda à inclusão social. Sem priorizar a educação torna-se impossível a construção de uma nação desenvolvida. Buscar um padrão educacional moderno a exemplo de países como a Finlândia, Coréia do Sul, Japão e vários outros que construíram modelos educacionais que mudaram a realidade do seu povo deve ser o grande objetivo de um ministro da Educação comprometido com a modernização.

Segundo o excelente analista Rolf Kuntz, em “O Estado de S.Paulo” (25-11-2018), qualquer candidato a cuidar da educação brasileira deveria estar preparado para enfrentar pelo menos as seguintes questões:

1) Por que os alunos brasileiros vão tão mal no Pisa, o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes?

2) Como melhorar os níveis fundamental e médio do ensino brasileiro, obviamente em condições muito más?

3) Como adaptar o ensino às condições impostas (sim, impostas) pela chamada revolução 4.0?

4) Como preparar professores para formar alunos capazes de atuar com sucesso na economia do século 21?

5) Que experiências bem sucedidas no exterior poderiam proporcionar elementos a um programa de modernização educacional?”

INEFICIÊNCIA – Rolf Kuntz destaca que padrões ideológicos ou religiosos não podem prevalecer na condução da educação brasileira. A ineficiência da educação brasileira tem várias causas e uma delas não é decorrente de o Brasil investir pouco na formação educacional. A baixíssima qualidade da educação nacional não tem como responsável a insuficiência de recursos.

Sua origem está na inexistência de uma política educacional séria, competente e realista. Educação é política de Estado e pauta suprapartidária. A incompetência e irresponsabilidade na gestão dos recursos públicos pela União, Estados e Municípios alimentam e agravam o caos educacional.

O economista, engenheiro eletrônico pelo Instituto Tecnológico da Aeronáutica e professor Ricardo Paes de Barros, ante essa realidade indaga: “Como você coloca 6% do PIB na educação e eles dizem que não sabem como garantir resultados?”

SEM PRIORIDADE – Em 2017, o governo da União aplicou R$ 117,2 bilhões em educação. Sendo R$ 75,4 bilhões no ensino superior e R$ 34,6 bilhões na educação básica. O governo federal nos ensinos básicos e fundamental tem papel supletivo em relação aos Estados e Municípios. A diferença do montante de recursos exemplifica o porquê de o ensino básico e fundamental sofre de déficit educacional histórico. Exatamente as áreas que deveriam ter prioridade maior no recebimento de recursos públicos.

A síntese disso tudo pode ser resumida em uma estrutura educacional viciada, envolvendo União, Estados e Municípios. Prioridades erradas na administração dos recursos destinados à formação das novas gerações é realidade inquestionável. A deficiência no aprendizado, fruto de uma educação sofrível no ensino básico, é agravada pela elevada evasão no ensino médio, travando a construção do futuro de novas gerações e aprofundando a desigualdade da renda e a pobreza para milhões de brasileiros. Todos vítimas de uma péssima educação, como mostra o professor universitário Hélio Duque, autor de vários livros sobre economia brasileira e três vezes deputado federal pelo Paraná.

Novos governadores estão condenados a administrar situações de pré-falência

Resultado de imagem para estados falidos charges

Charge do Nani (nanihumor.com)

Sebastião Nery

Ao ignorar o limite para as despesas de pessoal, os Estados brasileiros geraram a falta de liquidez do crescimento da dívida pública, bloqueando investimentos e atingindo a população na prestação de serviços públicos. Os novos governadores vão receber uma herança maldita: a crise fiscal, buscando urgência no ajuste das contas públicas. Adiar essa questão levará à insolvência muitas unidades federativas.

É gravíssima a situação fiscal na maioria dos Estados. Os governadores que assumirão o poder herdarão a falta de prudência das administrações passadas, elevação de despesas sem a contrapartida na capacidade de arrecadação.

REFORMAS PROFUNDAS – A carência de investimentos dos Estados está se refletindo na ausência de recursos nas áreas de educação, saúde, segurança pública e infraestrutura. O descumprimento da Lei de Responsabilidade Fiscal gerou a dramática realidade. A alternativa é buscar disciplinada política fiscal, e reformas profundas.

Vai exigir coragem de estadistas, não temendo a impopularidade momentânea, implantando corajosa reforma no aparelho estatal para evitar o colapso dos serviços públicos. Um exemplo é a extrapolação das despesas com salários e aposentadorias que vem estourando o limite de gastos com pessoal.

Recente relatório do Tesouro Nacional atesta que essa questão vem se agravando, e 16 Estados podem vir a ser declarados insolventes. É um grande desafio para os novos governadores. Muitos dos seus antecessores desrespeitaram a Lei de Responsabilidade Fiscal que fixa o teto máximo de 60% da Receita Corrente Líquida para a folha de pessoal.

ACIMA DO LIMITE – O Tesouro Nacional constatou que em cinco Estados, o gasto com pessoal ultrapassou 75% da receita corrente líquida: Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Rio Grande do Norte, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul. Acima de 60% da receita estão: Distrito Federal, Piauí, Tocantins, Mato Grosso, Acre, Sergipe, Paraíba, Roraima, Alagoas, Bahia, Paraná e Santa Catarina.

O alerta de Ana Carla Abrão Costa, ex-secretária da Fazenda de Goiás é oportuno: “Todos os Estados estão na mesma correnteza, com uma grande queda à frente na qual alguns já foram tragados. É trajetória insustentável. Se os Estados não fizerem ajustes, as despesas com pessoal vão consumir toda a receita, determinando o colapso dos serviços públicos”. O economista Raul Velloso na mesma direção lembra que a principal fonte de desequilíbrio está na folha de pagamento dos aposentados e inativos.

PREVIDÊNCIA – O Anuário Estatístico da Previdência Social traduz em números essa realidade: em Minas Gerais os servidores ativos são 217.034; os inativos e pensionistas, 319.043. No Rio Grande do Sul, os ativos são 117.934 e os inativos e pensionistas, 205.835. No Rio de Janeiro são ativos 215.265 contra 253.009 inativos e pensionistas. Em Santa Catarina, são ativos 65.112 e 66.557 inativos e pensionistas. Nos demais Estados, o número de servidores ativos ainda é maior com diferenças mínimas, mas tendente ao crescimento de inativos e pensionistas ao longo dos próximos anos.

Alguns governos estaduais esconderam a fragilidade das contas públicas pela maquiagem contábil. A finalidade era demonstrar que estavam nos limites fixados pela Lei de Responsabilidade Fiscal, para a política de gastos com pessoal. A artificialidade fiscal agora cobra o preço da falsificação dos números. Desequilíbrio orçamentário é caminho seguro para o insucesso de qualquer administração.