A Bahia canta sua santa, a Santa  Dulce dos pobrezinhos de São Salvador

Resultado de imagem para santa dulceSebastião Nery

A Bahia sempre foi múltipla. Mas desta vez se superou. De um jantar no Hotel Fasano em Salvador, onde estavam Durval Lelys, Lícia Fábio, Nizan Guanaes e outros produtores musicais, nasceu a ideia de gravar uma canção em homenagem à Irmã Dulce cujo processo de canonização o Vaticano acaba de consagrar.

A música é excelente, a letra criativa. Começa como se fosse adotar um tom marcial e no entanto é uma doçura do princípio ao fim:

###
A BAHIA CANTA A SUA SANTA

A Bahia inteira canta
Para celebrar nossa santa
Que cuidou de nós

Tocam sinos e atabaques
De um povo que viu seus milagres
Foste a voz daqueles que não tem voz

Pequena e tão gigante
Mãe desses Filhos de Gandhy
Que entram em Roma
Soltando as pombas
Pombas da paz

Ouve teu povo cantando
Nas portas do Vaticano
Ele tem fé, ele tem axé
Ele veio a pé

É a Bahia que canta
Santa Dulce, a nossa santa
Que está no céu
Cuidando da gente
Diariamente

Pequena e tão gigante
Ouve teu povo cantando

TODOS UNIDOS – Cantores baianos ligaram as suas trombetas: Margareth Meneses, Preta Gil, Léo Santana, Márcia Freire, Vanesca Pinheiro, Vina Calmon, Eber Lima e Miguel, Will Carvalho, Átila Lima e a luminosa Ivete Sangalo.

Às sete da manhã ela passava lá, toda magrinha, seguindo para sua jornada, suas obras de caridade. Durante anos pegou caronas de amigos. Ninguém acreditava que chegaria ao fim da tarde. Sempre chegou, com seus olhinhos miúdos, em qualquer canto da cidade baixa de Salvador, como se fosse uma pomba ferida. E era. Era a pomba da paz da Bahia.

Faz bem Salvador celebrá-la e cantá-la. Neste mundo de doideiras, ainda bem que a Bahia dá esta lição de ternura, de bondade. Sabe bem seu parceiro de tantos anos, doutor Taciano Campos.

Santa Dulce dos Pobres da Bahia.

Já cansado de “governar”, o porteiro entregou as chaves do palácio a Aluízio Alves

Imagem relacionada

Em Natal, Aluizio Alves foi “empossado” pelo porteiro

Sebastião Nery

Cabeça chata, inteligente, brilhante, rábula, advogado de estivadores, pescadores, tecelões e todo tipo de trabalhadores, jornalista, conspirador, prisioneiro, nascido em Natal (em 3 de fevereiro de 1899, há 110 anos), Café Filho fez uma biografia política contínua: de vereador e várias vezes deputado a vice-presidente e Presidente. Fundou até um partido: PSN (Partido Social Nacionalista) e por ele se elegeu.

Assumiu a Presidência com o suicídio de Vargas e logo trocou de lado, para os braços golpistas da UDN (mas essa é outra historia).

RUBEM BRAGA – Presidente, Café Filho mandou chamar imediatamente seu amigo, o sábio urso de Cachoeiro de Itapemirim, Rubem Braga:

– Rubem, preciso de você.

– De mim? Você está é louco. Olhe, Café, há um equÍvoco nisso. Quem precisa de você sou eu. Você virou presidente da RepÚblica, está bem empregado, a vida arrumada. Eu estou duro, desempregado, precisando trabalhar, quero um serviço qualquer.

Um mês depois, embarcou, como Adido Cultural, para o Chile, de onde, graças a Café, escreveu algumas das melhores coisas daqueles Andes.

ÓDIO AO POTIGUAR – No segundo ano da escola primária, lá em minha Jaguaquara, na Bahia, fiquei com ódio do Rio Grande do Norte. A professora Sisinia abriu um enorme mapa do Brasil no quadro negro, me pôs de pé e começou a perguntar, de baixo para cima,como se chamavam os habitantes dos Estados

Tinha estudado, estava abafando. Fui dizendo um a um. De gaúcho para acima, ia acertando todos. Até capixaba, que achava um nome muito feio. A professora deixou o Rio Grande do Norte para último. Empaquei. Não me lembrei do “potiguar” de jeito nenhum. Perdi meu 10. Durante anos, tive ódio dos “potiguares: isso é lá nome”? E é um nome tão bonito.

Aprendi que “potiguar” quer dizer “comedor de camarão” (vem do tupi guarani “poti = camarão” e “war” = “o que come”). Há coisa melhor?

GRANDE LÍDER – José Augusto Bezerra de Medeiros foi sinônimo do Rio Grande do Norte como Ruy Barbosa da Bahia. Deputado estadual em 1913, federal em 15, governador em 24, senador em 29, de novo federal em 35, constituinte em 46, vice-presidente da Câmara em 47, federal até 55, presidente da Associação Comercial do Rio de Janeiro de 59 a 61. Em 37, na ditadura de Vargas, ficou na resistência e escreveu livros de direito, política e educação.

Quando presidente da Associação Comercial do Rio, alguém começou a desancar os políticos. Todos os males nacionais eram da corrupção e da incompetência dos políticos. O velho José Augusto interrompeu:

– Um momento. Passei 50 anos na vida pública e vi muita coisa. Mas nesses seis meses aqui já vi muito mais.

Mudaram logo de assunto.

DE PARAQUEDAS – Kerginaldo Cavalcanti (RN) era senador e nacionalista. Assis Chateaubriand chegou ao Senado e começou a dar show. E o chamava de “senador tupiniquim”. Kerginaldo não lhe dava trégua. Uma tarde, Marcondes Filho (SP), líder do governo, procurou Kerginaldo:

– Deixe o doutor Assis em paz. Afinal de contas, ele é um grande jornalista e você não o deixa falar sossegado.

– Ora, Marcondes, o Chateaubriand tem jornais, tem rádios, tem televisões. Quando ele fala, no outro dia o discurso sai na integra, com aparte e tudo. Eu não tenho jornal, não tenho radio, não tenho TV. Minha jogada é descer de paraquedas nos discursos dele.

O PORTEIRO – Dinarte Mariz foi governador de 56 a 61. Em 60, seu candidato, Djalma Marinho (UDN), foi derrotado por Aluizio Alves (PSD). Dinarte, como o general Figueiredo fez com Sarney, disse que não passava o cargo.

No dia da posse, Dinarte saiu cedo do palácio, entregou as chaves ao porteiro. O porteiro, todo importante, vestiu a melhor roupa, paletó e gravata, sapato engraxado, foi para a frente do palácio e ficou de pé no alto da escadaria. Esperou uma hora, duas, três, o novo governador não chegava.

A mulher mandou chamá-lo para o almoço, não foi. Ele ali de pé, cumprindo patrioticamente seu dever cívico. De repente, à frente da multidão, apareceu Aluizio Alves na esquina. O porteiro suspirou aliviado:

– Ainda bem que ele chegou. Não aguentava mais governar esta porcaria.

Entregou as chaves e o fugaz poder.

Histórias políticas de Minas Gerais, que são sempre cheias de folclore

Benedito Valadares era um dos mas folclóricos

Sebastião Nery

No dia 5 de setembro de 1933, ele apareceu morto dentro da banheira do palácio da Liberdade, em Belo Horizonte. “Era celibatário” (78 anos, nasceu em 1855), diz o Dicionário Biográfico de Minas Gerais, edição da Universidade Federal e da Assembleia Legislativa de Minas.

Olegário Maciel é o patrono dos vices. Dos vices que dão certo. Deputado de 1880 a 1911, abandonou a política e voltou a ser fazendeiro. Em 1922, foi chamado para vice-presidente do Estado, com o “presidente” (governador) Raul Soares. Raul Soares adoeceu de 1923 a 1924, ele assumiu. Raul Soares morreu em 1924, ele assumiu de novo.

Fernando de Mello Viana foi eleito para completar o quatriênio, mas foi escolhido vice de Washington Luiz e Maciel cumpriu o resto do mandato. Em 30, torna-se “presidente” (governador) de Minas, vem a “revolução” de 30, Getúlio o confirma interventor e ele morre na banheira, em 33.

O SUCESSOR – Gustavo Capanema, poderoso secretário do Interior, achava que ia ser o sucessor. Virgílio de Melo Franco também. Getúlio deu uma rasteira nos dois e nomeou o jovem Benedito Valadares, que chamou Juscelino Kubitschek para chefe de gabinete.

Foram inaugurar um retrato de Maciel. Acabada a solenidade, saíram no mesmo carro Benedito, Juscelino e Capanema. Capanema, intelectual, culto, vaidoso, irado por não ter sido nomeado, começou a agredir Benedito com uma aula de como governar:

– Olha, Benedito, governo é cultura. Você tem que esquecer Pará de Minas e ver que agora você é o chefe político de Minas. Tem que cercar-se de intelectuais, ler, estudar, para poder estar à altura de governar Minas.

Benedito foi ficando vermelho, furioso, perdeu a paciência:

– Olha, Capanema, nada disso. Se suas lições prestassem, você é quem teria sido nomeado pelo presidente Vargas. Governar não é nada disso que você disse. Esse negócio de cultura é para intelectual. Governar é ação, é trabalho. E é isso o que vou fazer. Não vou ler nem estudar coisa nenhuma. Aliás, tenho lá em casa uns cinco ou seis livros e vou jogar tudo fora.

GARGALHADAS – Anos depois, Juscelino relembrava essa história para seu oficial de gabinete na Presidência, Antônio Carlos Sá, e dava gargalhadas. Aliás, Benedito fez exatamente o que Capanema recomendou: cercou-se da maioria das melhores cabeças de Minas (Orosimbo Nonato, Mario Casassanta, Cristiano Martins, Ciro dos Anjos, outros) e até deixou alguns bons livros : “Esperidião”, “A Lua Caiu”, “Tempos Idos e Vividos”.

E mandou em Minas exatamente doze anos: de 33 a 45.

O DISCURSO – Benedito chegou a Curvelo, Minas Gerais, para visitar a exposição de gado do município. Na hora do discurso, atrapalhou-se:

– Quero dizer aos fazendeiros aqui reunidos que já determinei à Caixa Econômica e aos bancos do Estado a concessão de empréstimo agrícolas a prazos curtos e juros longos.

Lá do povo, alguém corrigiu:

– É o contrário, governador!

– Desde que o dinheiro venha, os pronomes não têm importância.

E continuou. Estava conversando com Ciro dos Anjos, deu sono:

– Ciro, vou dormir. Vou entregar-me aos braços de Orfeu.

– Faltou um M, doutor Benedito.

– Não faltou, não, Ciro, Orfeom é um instrumento musical. Eu estou é com sono mesmo.

E foi dormir.

ÚLTIMO VAGÃO – Pesquisa ferroviária em Minas, na antiga Rede Mineira de Viação, apurou que o vagão mais atingido nos desastres era sempre o último. Benedito, interventor, recebeu o estudo, leu, chamou Ciro dos Anjos:

– Prepare um decreto suprimindo o último vagão.

Gustavo Capanema, ministro da Educação d Getúlio, encontra-se com Benedito Valadares, interventor de Minas, na ante sala do gabinete do presidente. Benedito estava com os olhos inflamados:

– O que é isso, Benedito, nos seus olhos?

– O médico me disse que é conjuntivite na vista.

– Conjuntivite na vista não, Benedito. Isso é pleonasmo.

Getúlio chamou, Benedito entrou:

– O que é isso nos seus olhos, governador?

Agora estou na dúvida, presidente. O médico, lá em Belo Horizonte, tinha dito que era conjuntivite na vista. Mas o Capanema, que é muito inteligente, acaba de me dizer, aí fora, que não é não; que é pleonasmo.

JORNALISMO – Cada tempo tem suas histórias, cheias de sutilezas e lições. O competente jornalista e professor Rosental Calmon Alves, dizia em um seminário no Globo sobre o futuro do jornalismo:

– “Agora, o jornal não vai mais ser apenas jornal. Pode se expandir para outras formas de comunicação com o leitor, desde que perceba que seu negocio é contar historias. Sempre fomos contadores de histórias. Só que agora, com a internet e os blogs, podemos fazer isso de forma mais ampla”.

Leitores sempre me perguntam porque conto tantas histórias. Exatamente pela razão do que Rosental falou: ligar o passado ao presente.

Assim caminha a humanidade, em meio ao politicamente incorreto

Resultado de imagem para milton santosSebastião Nery

Meneses Pimentel, professor de Direito Romano e Filosofia do Direito, governador (1935 a 37), interventor (37 a 45), deputado (51 a 55), ministro da Justiça (55 a 56), senador (59 a 71), foi tudo no Ceará.

Era interventor, chegou ao palácio do Catete a notícia de que tinha sido baleado em Fortaleza. Lourival Fontes, Chefe da Casa Civil de Getulio, telegrafou a Brasil Pinheiro, chefe da Casa Civil de Pimentel:

– Informe urgente se governador Meneses Pimentel foi alvejado.

Brasil Pinheiro informou urgente:

– Não. Continua preto.

Meneses Pimentel era mulato retinto.

NOME DE ARTISTA – Ageu de Castro, coronel de muitas terras e importâncias, era deputado estadual pela região de Sousa, na Paraíba. O coronel era inteligente e rude, grosso e racista. Em João Pessoa, foi ao palácio falar com o governador Pedro Gondim. O oficial de gabinete, negro, não o conhecia, perguntou qual era o assunto. O coronel explodiu:

– Como é sua graça?

– Marilake Toscano.

– Negro, Marilake é nome de artista de cinema. De hoje em diante seu nome é Benedito. Be-ne-di-to, ouviu?

Meteu a mão na porta e entrou.

NEGRÃO DE LIMA – O poeta português Julio Dantas (“A Ceia dos Cardeais”) veio ao Brasil, foi a Belo Horizonte. O prefeito (1947 a 1951) era Otacílio Negrão de Lima, irmão de Francisco Negrão de Lima. Estavam lá as autoridades. Não conhecia ninguém. Sabia apenas o nome do prefeito, doutor Negrão.

Olhou para um lado, olhou para o outro, abriu os braços e foi em direção ao cordão das autoridades:

– Doutor Negrão, meu abraço.

E abraçou o senador Melo Viana, mulato queimado, quase negro.

DISCURSO RACISTA – Milton Santos, o saudoso jornalista, professor, poderoso intelectual (ganhou o Nobel de Geografia), morava no mesmo edifício e andar em que eu morava (o Napoli,na Barra, em Salvador).No golpe de 64, fomos presos.

Editorialista de “A Tarde”, o jornal mandou o veterano e respeitado secretario da redação ao quartel. O coronel, de pé, fez um discurso racista:

– Além de subversivo, é um negro importador de putas francesas.

Abriu uma gaveta, puxou uma foto:

– Olhe ele aqui, jantando com duas putas francesas importadas.

Uma das louras era a mulher do Milton. A outra era a mulher do secretario do jornal, que reagiu aos berros. O coronel quase leva um tabefe. O jantar tinha sido na casa do secretario, no aniversario dele.

Mesmo assim, Milton continuou preso. Só foi solto e exilado por interferência do general De Gaulle, presidente da França, junto a Castelo Branco, porque o Milton era professor da Universidade de Estrasburgo.

NOS STATES  – Há meio século, em 1960, acompanhando a campanha de Nixon e Kennedy nos Estados Unidos, eu não compreendia como, em pleno século XX,na maior potência econômica e militar do mundo,os negros não podiam sentar junto dos brancos no metrô, ônibus, trens, restaurantes, até nos bares.

Na minha Bahia, e no Brasil todo, negros e brancos nos sentávamos juntos nos mesmos bancos dos bondes, ônibus, trens, bares e restaurantes.

Também me chocaram os principais argumentos contra John Kennedy: era “católico, liberal e mulherengo”. Ganhou por menos de 1%.

Nos mesmos Estados Unidos, o negro Barack Obama, filho de africano muçulmano do Quênia, criado por um muçulmano, casado com uma negra, com duas filhas negras, candidato do partido de Kennedy, foi eleito presidente dos Estados Unidos de 2009 a 2017, sendo o primeiro afro-americano a ocupar o cargo.

É um acontecimento extraordinário na historia da humanidade. Jamais o bicho homem caminhou tanto em tão pouco tempo. A Idade Média e a Inquisição da Igreja Católica duraram mil anos. A escravidão, milhares de anos, desde a China e o Egito. O racismo ainda ronda por aí, mas envergonhado e cada dia mais desmoralizado e rejeitado.

AMIGO CAYMMI -Todo mundo já contou uma do inesquecível Caymmi. Também vou contar a minha. Helio Fernandes lembrou que ele nasceu no mesmo dia, mês e ano de Carlos Lacerda: 30 de abril de 1914. A mesma genialidade.

Numa tarde de 1990, em Agrigento, na Sicília, diante do céu azul e do mar azul do Mediterrâneo, Jorge Amado começou a lembrar-se da Bahia e me contou uma historia dele, de Caymmi e Lacerda, muito interessante.

Muito amigos nos anos 30, depois que Caymmi e Jorge chegaram ao Rio, foram passar um domingo em Paquetá. Com seu inseparável violão, Caymmi começou a dedilhar uma nova musica. Lacerda pegou um papel e escreveu dois versos. Jorge também escreveu mais uns. E pararam aí.

Caymmi concluiu depois. Creio que foi “É Doce Morrer no Mar”.

A Amazônia devastada não começou agora, tem 500 anos e chamava-se Mata Atlântica

Resultado de imagem para arvores cortadas

Primeiro bem explorado na colônia foi o pau brasil

Sebastião Nery

O Brasil começou 8 anos antes de Cabral em 1500, com Cristóvão Colombo e Américo Vespúcio. Cristóforo, italiano de Genova, era marinheiro. O barco naufragou, foi esbarrar em Portugal, onde casou com a rica Felipa, estudou os mares, mas ninguém acreditava nele. Foi para a Espanha, conquistou os reis Fernando e Isabel, de Castela, e em 1492 chegou à América, virou “o almirante de todos os mares”, e está lá, de pé, todo majestoso, no alto da torre, diante do porto de Barcelona.

Logo, a América devia chamar-se Colômbia e não América. Colombo foi literalmente roubado pelo bancário depois banqueiro italiano Américo Vespúcio. Esses banqueiros!

SUBGERENTE – Américo Vespúcio, de Florença, trabalhava no banco dos Médicis e foi transferido para Sevilha, na Espanha. Era o subgerente. O gerente ajudou a financiar a primeira viagem de Colombo, em 1492. Morreu o gerente, Américo assumiu e continuou financiando Colombo na segunda viagem de 1493 a 96, na terceira de 98 a 1500; e na quarta de 1502 a 1506.

Mas Américo Vespúcio já tinha percebido que a América existia mesmo e dava dinheiro. Virou também navegador. Em 1501, já o Brasil descoberto, saiu de Lisboa, passou pelo cabo de Santo Agostinho, em Pernambuco, e foi até o Rio de Janeiro, aonde chegou em 1502.

Em 1503, passou por Fernando de Noronha e pela Bahia e foi até Cabo Frio. Voltou à Europa, foi à Alemanha, pagou e pôs o continente em seu nome, América e não Colômbia, no mapa de Strasburgo em 1506. Passado para trás, Colombo morreu de desgosto em 1506.

VEIO O PEREIRA – Depois do Vespúcio, em 1503 e de Caramuru em 1510, foi o Pereira, 25 anos depois. Em 1534, Portugal dividiu a costa do pais em capitanias hereditárias, em 15 lotes, cada um medindo 50 léguas, cerca de 300 quilômetros. O rei doou a da Bahia a um fidalgo português, Francisco Pereira Coutinho, vindo das Índias, velho e doente, rico e durão,o Rusticão.

Ele reuniu 120 pessoas e veio assumir suas terras, em 1536. Ficou encantado e gabou muito. Mandou dizer ao rei que havia “bons ares”, “boas águas”, “os algodões são os mais excelentes do mundo” e “o açúcar se dará quanto quiserem e a terra dará tudo que lhe deitarem”.

Instalou-se na Barra, onde hoje está o farol da Barra. Subindo para a Vitoria, fez um povoado com umas 30 casas, cercou de pau a pique e levantou uma torre de dois andares, garantida por quatro canhões. Era a Vila do Pereira. Caramuru estava ali perto há 30 anos, com a Paraguaçu

OS TUPINAMBÁS – O Pereira não se meteu com Caramuru, mas começou a distribuir terras em volta para sua gente, que veio com ele. Mas aquelas terras tinham donos : 5 ou 6 mil Tupinambás, “homens de peleja”, que começaram a ser escravizados, para trabalharem nas plantações de cana.

Em 1540, a guerra estourou. Pereira perdeu o apoio de Caramuru. Duarte Coelho, donatário de Pernambuco (até hoje) queixou-se ao rei : – “Ele é mole para resistir às doidices e desmandos dos doidos e mal ensinados”. Durante cinco anos a briga com os Tupinambás levou fome, sede e morte para a Vila do Pereira. Acabaram “encurralados entre o mar e a muralha que protegia a vila”, como brilhantemente conta o historiador Eduardo Bueno:

– “Eram uns 100 colonos cercados por mais de mil Tupinambás brandindo tacapes, lançando flechas incendiarias, produzindo nuvens tóxicas com a combustão de pimenta e ervas venenosas”. (Bush teria logo mandado bombardear pelo uso de armas químicas).

PORTO SEGURO – Pereira fugiu para Porto Seguro e os índios tomaram conta da Vila do Pereira, destruíram a torre e as casas, saquearam os armazéns. Caramuru, solidário, foi a Porto Seguro e trouxe o Pereira em seu barco, que naufragou na ponta de Itaparica. Deve ter sido coisa do cacique João Ubaldo. Quem não morreu foi preso pelos índios, inclusive o Pereira, “morto ritualmente” por um garoto de 5 anos, cujo irmão tinha matado.

Caramuru evidentemente foi poupado. Era o sinal, para Portugal, de que as capitanias não resolviam o problema. E o Pereira mudava a historia.

Ou Portugal agia rápido ou perdia o Brasil para os franceses. Esses foram os primeiros grandes inimigos, durante mais de meio século, de 1500, no Descobrimento, a 1567, quando foram expulsos do Rio.

SAQUEANDO – Seus navios piratas cortavam a costa de norte a sul, do Maranhão a São Vicente, trocando, comprando, roubando, levando sobretudo pau-Brasil. Também já havia o comercio de escravos e cana de açúcar, mas começando. O grande negocio da época era o pau-Brasil.

Se você quer conhecer uma das mais belas cidadezinhas do mundo, vá a Honfleur, de apenas 8 mil habitantes, a 200 quilômetros de Paris, na foz do Senna, norte da França, entre Trouville e Havre.

Aquela jóia universal é tão francesa quanto brasileira. Com seu porto profundo, diante do grande porto do Havre, durante dezenas de anos os navios franceses despejaram o pau-Brasil negociado, tomado, roubado dos índios e de traficantes portugueses. A entrada da bela baia de Todos os Santos, hoje Farol da Barra,para os franceses era o “Point de Carammorou”. A Amazônia devastada, saqueada, não começou agora. Tem 500 anos. Chamava-se Mata Atlântica, com seu pau-brasil.

Na hora de matar Lacerda, o pistoleiro errou o tiro e mudou a História

Lacerda é carregado por PMs após o suposto atentado

Lacerda levou um tiro no pé e engessou a perna

Sebastião Nery

Morto Lampião em 1938, Ângelo Roque, o “Labareda”, companheiro de cangaço, entregou-se às autoridades de Jeremoabo, no sertão da Bahia. Foi levado a júri. Tarcílo Vieira de Melo, futuro líder de Juscelino na Câmara, jovem promotor mas já com sua poderosa oratória, acusou-o fortemente. Oliveira Brito, juiz, também depois deputado e ministro de João Goulart, chamou-o de “desordeiro”. “Labareda” levantou-se indignado:

– Desordeiro, não, seu juiz! Os senhores me respeitem. Não sou um desordeiro, sou um cangaceiro. Não fui pegado no mato. Cheguei aqui de armas na mão e me entreguei, confiando na palavra dos homens do sertão.

Vieira me disse que, a partir dali, condenaram-no, mas sem atacá-lo.

NA RUA TONELERO – No dia 5 de agosto, fez 65 anos que um pistoleiro errou o tiro e despachou a encomenda errada. E detonou uma das mais graves crises da história do pais. Gregório, chefe da Guarda de Getúlio Vargas, encarregou Climério, subordinado e compadre, de providenciar a morte de Carlos Lacerda.

Climério pediu a Soares, também protegido de Gregório na Guarda, que arranjasse alguém para fazer o serviço. Soares contratou o pistoleiro nordestino Alcino. Os três pegaram o táxi de Raimundo, que fazia ponto perto do Catete, e foram para a rua Tonelero, 180, onde Lacerda morava.

Mas houve um erro de luz. Alcino estava acostumado a fazer tocaia no sol do sertão, naquele mundão aberto e claro, onde se vê tudo o tempo todo.

ILUMINAÇÃO FRACA – No depoimento ao coronel Adil de Oliveira, chefe do Inquérito Policial-Militar instalado no Galeão, Alcino confessou que “enfrentou problemas com a fraca iluminação na porta da garagem e atravessou a rua para atirar de um ângulo mais próximo”. E acabou matando o major-aviador da Aeronáutica Rubens Florentino Vaz, amigo e segurança de Lacerda.

Lacerda levou apenas um tiro no pé. O anjo da guarda de Lacerda funcionou magnificamente. O pistoleiro fez tudo errado. E tudo o de errado que Lacerda fez acabou dando certo para ele e o salvando. Presos todos, primeiro o motorista Raimundo, que “abriu o bico”, depois Climério, Soares, Alcino e Gregório, a história pôde ser fielmente reconstituída e contada.

Alguns livros são bem detalhados: “A Era Vargas” (José Augusto Ribeiro), “Carlos Lacerda, a Vida de um Lutador” (John Foster Dulles), “Depoimento” (Lacerda), “Uma Crise de Agosto : o Atentado da Rua Tonelero” (Cláudio Lacerda),“Quem Matou Vargas?” (Carlos Heitor Cony).

BANG-BANG – Foi um faroeste urbano. Após um compromisso político, Lacerda e o filho Sergio, de 15 anos, chegavam em casa pouco depois da meia-noite, levados em um pequeno carro pelo major Rubens Vaz, integrante de um grupo de oficiais da Aeronáutica que lhe dava proteção. O da escala, naquela noite, era o major Gustavo Borges, futuro secretário de Segurança de Lacerda no governo da Guanabara. Mas não pôde ir e foi o Rubens Vaz. Para a morte.

Na porta do edifício onde morava Lacerda, ainda conversaram um pouco e Lacerda saltou com Sergio, em direção à entrada principal iluminada do prédio. Mas Lacerda tinha esquecido as chaves e foi até a garagem pedir ao garagista para abrir a porta. Saiu do claro para a meia-luz. Com uma 45 na mão, Alcino atravessou a rua para atirar mais de perto.

Quando passava por trás do carro, o valente major Vaz saiu sem pegar seu revolver que estava no porta-luvas e se atracou com o pistoleiro, tentando tomar-lhe o revolver. Mas Alcino lhe deu dois tiros e ele morreu na hora.

TIRO NO PÉ – Ao ouvir os tiros, Lacerda, com seu revolver na mão, quis sair para a rua, mas o filho se agarrou com ele e não deixou. Mesmo assim, da porta da garagem, Lacerda deu alguns tiros, que não atingiram ninguém. E do outro lado da rua também houve outros tiros, um dos quais acertou Lacerda no pé.

O major Vaz, já morto, e Lacerda, foram levados para o hospital Miguel Couto. Lacerda fez uma radiografia do pé e extraiu a bala de um 38.

Esse tiro no pé criou muitas lendas. Uns diziam que o próprio Lacerda atirou no próprio pé, pois seu revolver era um 38 e o do Alcino uma 45. Outros garantiam que não houve tiro nenhum no pé, que foi só engessado, tanto que no hospital não ficou registro algum. Mas algumas testemunhas viram Lacerda chegar ao hospital capengando, com o pé ensanguentado.

DISSE O BRIGADEIRO – Ao sair do hospital, Lacerda foi para casa em um taxi, com Armando Falcão (deputado do Ceará, depois ministro da Justiça de Juscelino e Geisel):

– “Acho que vou enlouquecer. Foi uma enorme desgraça. Talvez eu tenha matado o Vaz. Dei uns tiros a esmo, já sem óculos, e tenho a impressão de que ele estava à minha frente. Que horror”!

Quando chegou em casa, já muita gente estava lá, jornalistas e políticos. Entra o brigadeiro Eduardo Gomes e faz uma frase para a história:

– Pela honra da Nação, esse crime não ficará impune.

E fez outra para o folclore político:

– Carlos, o melhor remédio para esse seu pé é filé mignon. Mande buscar um filé cru, sangrando, e ponha no ferimento. Vai ficar logo bom.

Em pleno voo, a caminho da Grécia, de repente a dúvida: “Há uma bomba no avião?”

Resultado de imagem para avião da alitalia decolando

Desde o embarque, já se sentia o medo da bomba

Sebastião Nery

Na frente, um árabe com seu turbante. Atrás, um africano com seu camisolão. No meio, eu e minha namorada, com nosso medo. Impossível não ter medo. Os aeroportos internacionais da Europa tinham virado campos humanos minados. Todo mundo desconfiava de todo mundo. Sobretudo voos em direção ao Oriente. Cada um ficava imaginando onde o outro tinha escondido a bomba, a granada, o revólver que daí a pouco explodiria lá no céu, o avião e todos juntos. Estávamos no aeroporto de Roma, para pegar o voo da Alitalia para a Grécia.

Na fila ao lado, para Damasco, na Síria, homens com turbantes, barba cerrada e cara fechada, mulheres de longos vestidos negros e negros véus na cabeça. A fila deles começava a andar, todos ficavam olhando, calados.

A CENTOPEIA DO MEDO – O pensamento coletivo boiava indisfarçado, no ar. Quantos iranianos havia ali? E se um fosse terrorista? A centopeia do medo vai andando devagar, seguindo desaparece. Agora é nossa vez. O policial do controle pegou o passaporte do árabe do turbante que estava a nossa frente, olha, esmiúça, confere, visivelmente, constrangedoramente desconfiado. Vai ao computador, dedilha, espera, nada consta, deixa passar.

Os nossos passaportes ele mal olhou. Pergunta: – “Brasile”? E carimba. O africano do camisolão, atrás de nós, empaca. O mesmo ritual da desconfiança. Viraram o passaporte de cabeça para baixo, conferiram tudo, digitaram o computador, nada consta, mesmo assim não se conformaram, olharam agressivamente para o rosto negro, árido, meio escalavrado, do africano tenso, mandam sair da fila, chamam um chefe, sai. E a fila se arrastando medrosa.

OUTRO OBSTÁCULO – Depois do passaporte, outro obstáculo: o controle de bagagens, bolsas, objetos pessoais e o próprio corpo. Vem a pequena passarela com detector de metais, que apita quando flagra. O árabe do turbante passou tranquilo. Não havia um ninho de metralhadora escondido ali dentro. O africano no camisolão ficou.

Vem o apito fino, estirado, estridente: -“piiii”. Todo mundo olha. É ela, a terrorista. E bem disfarçada. Alta, elegante, cara de italiana, chapéu vermelho de italiana, óculos italianos, botas italianas. Uma terrorista italiana. Logo aparecem três policiais femininas, levam-na ao lado, como se estivessem perguntando: – “Abra logo o jogo, e arma”? Não era. Apenas o isqueiro. Deixou o isqueiro, voltou, atravessou de novo a passarela metálica, sem apito nenhum. Se fosse um árabe ou africano, mesmo sem o segundo apito, a devassa ia continuar. O medo do terrorismo estava virando racismo.

ERA ELA, A BOMBA – Afinal, estávamos na sala de espera. Chamam nova fila. A metade passa, pedem para a outra metade esperar, porque vamos de ônibus para o avião. Pelo vidro, vimos o ônibus encher e seguir até o “Airbus” da Alitália, lá longe, no campo úmido, na manhã de 10 graus.

O ônibus para, mas ninguém salta, ninguém entra. Os funcionários da Alitália, atenciosos e perplexos, comunicam que “houve um pequeno problema”, mandam-nos sair para esperar nova chamada. E os outros, dentro do ônibus, junto ao avião.

Não havia dúvida. Era ela, a bomba. Estariam tentando desativar. E voltam os que haviam ido. O voo vai atrasar. Era para sair ao meio-dia, deu uma hora, duas horas, nada. Às 15 horas, afinal, embarcamos. Um leve, lindo, macio voo sobre o azulado Mar Adriático.

É PROIBIDO FUMAR – A aeromoça, bela, com seus imensos óculos redondos, servia o vinho para o almoço já atrasado, quando o comandante pede atenção:

-“Desculpem, mas a partir deste instante é proibido fumar. Apaguem seus cigarros e os mantenham apagados até que o sinal de proibição também se apague. É uma pequena emergência. Espero que dentro de 15 minutos já voltemos à normalidade.”

Durou uma hora a proibição. Não havia realmente mais dúvida alguma. Era ela, a bomba. A bomba terrorista, afinal flagrada a bordo. Acender o cigarro era acender a bomba. E voar tudo pelos ares. Ela estava, certamente, descoberta e acuada pelos comissários, como uma onça enlouquecida.

NADA ACONTECEU – O murmúrio foi crescendo, ninguém sabia o que estava acontecendo, também não foi dito. E nada, absolutamente nada aconteceu. A aeromoça de óculos enormes atendeu a meu pedido, deixou comigo uma tranquilizadora garrafa de vinho tinto e logo comecei a ver as escarpadas colinas da Grécia lá embaixo, como o céu crespo do céu.

Para o brasileiro, Grécia é Sócrates, Platão, Aristóteles e Onassis. No máximo, a Jaqueline, viúva de Kennedy, viúva de Onassis. O teatro, o alfabeto, os oradores, a cultura, a civilização grega estão dentro de nós, desde a escola primária, qualquer que seja o nível educacional do brasileiro, como a nossa mais forte referência cultural. Mas tudo coisa de séculos atrás. Dois para três mil anos.

QUASE A ETERNIDADE – Grécia é o passado, a antiguidade, quase a eternidade. A língua, morta. A geografia, perdida ali entre o Mediterrâneo, os Balcãs, o fim do Ocidente, o começo do Oriente. Grécia é coisa distante. Grego, sinônimo de total desconhecimento: – “Isto para mim é grego.”

E no entanto a Grécia está sempre junto de cada um de nós, em grande parte da língua que falamos, e, principalmente, na poderosa herança cultural, ela que foi a mãe da civilização latina, portanto, avó de nossa civilização.

Ao lado da Embaixada do Brasil, era preservada a misteriosa vida do Papa Inocêncio X

Resultado de imagem para papa inocencio x

Papa Inocêncio X, retratado pelo mestre Velázquez

Sebastião Nery

No dia em que se fizer o inventário completo das injustiças cometidas pelo golpe de 1964, é preciso contar a ignominia que foi a alegação para a cassação do embaixador do Brasil em Roma, Hugo Gouthier.

O simpático e civilizado Gouthier (que conheci embaixador do Brasil no Irã, no governo do Xá da Pérsia, antes de Khomeinni) foi cassado porque, no governo de Juscelino, comprou, para a sede da embaixada do Brasil em Roma, o Palácio Pamphilli. A UDN alegou que foi “uma negociata”. Não conheço negócio melhor para o país, feito por qualquer governo.

PALÁCIO INVADIDO – Os herdeiros da família Pamphilli não sabiam o que fazer do velho palácio barroco, ocupado desde a guerra por mais de 200 famílias, que viviam nos apartamentos dos fundos, impedindo a liberação dos magníficos salões com afrescos de Pietro da Cortona, toda uma galeria de Borromini e a belíssima arquitetura da Piazza Navona.

Gouthier comprou o “palazzo” com quatro promissórias e aos poucos foi tirando os moradores e desocupando tudo. Quando deixou a embaixada, o Brasil era dono da mais valiosa sede de embaixada em Roma (por 2 milhões, pagos em vários anos). Só as obras de arte que estão lá valem dezenas de vezes o que ele gastou. Qualquer multinacional daria hoje milhões de dólares para ter uma sede como aquela.

O palácio Pamphili vai da esquina da Piazza Navona até a Igreja de Santa Inês, em frente da qual fica a magnífica “Fonte dos Quatro Rios”, de Bernini, o mesmo que fez a colunata da Praça de São Pedro: Ganges, Nilo, Danúbio e Prata, até então os quatro maiores do mundo, pois ainda não conheciam o Amazonas.

Quando vendeu o palácio, a família Pamphili não quis vender também “o apartamento do Papa”, a parte que liga o palácio à Igreja de Santa Inês, da mesma altura do palácio, com os mesmos quatro andares, um anexo estreito, como se fosse uma casa de quatro andares.

RECANTO DO PAPA – Ali o Papa Inocêncio X (Cardeal Giovanni Battista Pamphili), que construiu o palácio para a cunhada Olímpia Maidalchini, depois de 1600, ficava hospedado quando ia passar os fins de semana com ela. Até hoje estão lá, originais, a cama, os móveis, os objetos todos.

Essa mulher era uma megera, cobrava impostos sobre pão e água que o povo consumia. Conta a lenda romana que o Papa não dormia apenas lá. Dormia também com a cunhada viúva. E até hoje há quem diga que, nas noites sem lua, se ouve a carruagem de Dona Olímpia fazendo barulho na praça e nos apartamentos da embaixada. (Quando Adido Cultural do Brasil morei lá, na embaixada, um punhado de tempo, e dona Olímpia não me deu a graça de vê-la nem de ouvi-la).

No contrato de compra do palácio, Gouthier pôs um item deixando para o Brasil a opção de compra do “apartamento do Papa”. Quando a família resolveu vender, foi no governo Figueiredo. Não sei quem era o embaixador do Brasil. Devia ser um cabeça de bagre. Pediram 800 mil dólares. O Brasil, que tinha direito de compra, não quis comprar. Continuaram achando que era “a negociata de Gouthier”.

GRANDE NEGÓCIO – O Brasil não quis, Berlusconi (o Roberto Marinho de Roma, dono de televisões, revistas e jornais, depois deputado e primeiro-ministro) comprou por 10 milhões de dólares (só o apartamento, menos de 10% do edifício todo, que o Brasil comprou por 2 milhões, em vários anos).

Depois, Berlusconi vendeu “o apartamento do Papa”. Por 15 milhões de dólares.

E pensar que uma das razões da cassação de Juscelino por Castelo Branco foi ter autorizado a compra do Palácio Pamphili para a embaixada do Brasil. E a de Gouthier também.

A demissão de Said Farhat e a morte de Petrônio Portela, os “operários da abertura”

Resultado de imagem para said farhat

Said Farhat exigiu de João Figueiredo a redemocratização do país

Sebastião Nery

Jornalismo é o fato. A notícia, a informação. Depois é que vem a análise. O ideal é quando o jornalista pode dar a notícia em cima do fato. Mas, muitas vezes, a maioria das vezes, só decorrido algum tempo é que temos o fato em todos os seus dados, Como a lua, a informação não nasce de vez. Ela se vai corporificando aos poucos, através da costura de numerosos elementos dispersos.

Essas histórias que conto hoje não poderia ter contado no primeiro instante. Primeiro, para não expor as fontes de informação. Mas, principalmente, porque só agora a versão surge clara, redonda, luminosa. Como uma lua, cheia de consequências políticas.

FARHAT SE DEMITE – Logo depois dos incidentes de Florianópolis, o ministro Said Farhat, da Comunicação Social, entrou cedo no gabinete do Presidente Figueiredo.

Não podia continuar no governo e por isso apresentava seu pedido de demissão, que pedia ao Presidente para aceitar. Desde o primeiro instante, ele deixara claro que ia para o governo ajudar o Presidente em seu projeto de abertura política, único caminho viável para o Brasil transformar-se numa nação socialmente equilibrada e economicamente poderosa.

Figueiredo atalhou logo dizendo que aquele era, é e continuaria sendo o objetivo de seu Governo. Por isso, não estava entendendo o gesto do ministro e amigo.

Farhat pôs o dedo na ferida. Disse ao Presidente que dentro do Planalto não havia essa unanimidade que ele imaginava em torno do projeto de abertura, ao menos em torno do ritmo, da velocidade do projeto. Alguns tinham, dentro de si, um projeto diferente e sempre agiam em função disso. Com os episódios de Florianópolis, haviam chegado a um nível intolerável as disfarçadas ou indisfarçadas hostilidades a ele, Farhat. Por isso, achava que devia sair para que o Presidente pudesse montar uma equipe realmente unida.

Figueiredo cortou a conversa textualmente: – “Nós dois viemos para cá realizar juntos um projeto de Governo. Só sairemos juntos. Não aceito a demissão de maneira nenhuma”.

MORTE DE PETRÔNIO – Um jornal de manchetes sensacionalistas poderia ter noticiado assim a morte do ex-ministro da Justiça – “Petrônio Assassinado pelo Planalto”. A Bíblia ensinou que ao homem não é dado discutir os desígnios da Providência. Mas, a notícia humana, exata, da morte do “operário da abertura” (a inteligente manchete do Correio Braziliense), mostra que a candidatura de Petrônio à Presidência da República em 1984 é que foi a responsável por todos os equívocos médicos que deixaram um ministro da Justiça morrer com uma assistência médica tão minguada.

Resultado de imagem para petronio portela político

Petrônio Portela era o candidato civil à Presidência

Primeiro, ele já tinha passado muito mal na noite de quinta para sexta-feira durante uma viagem de Florianópolis para Laguna onde foi representar o presidente. Volta de helicóptero para Florianópolis. Chega a Laguna, faz o eletrocardiograma, acusa o enfarte. Não aceitou ficar internado.

Petrônio exigiu dos médicos levarem-no para Brasília. Na Casa de Saúde Santa Lucia, o eletro acusa o enfarte em Santa Catarina mas Petrônio não aceita ficar internado. Em casa teve o segundo enfarte e não resistiu.

UM OBSTINADO – Como exigiu, sempre falavam em distúrbio gástrico, que era consequência e não causa. “Eu sempre fui obstinado”, ele me dizia na entrevista que o Correio Braziliense publicou. No fim de todo seu longo projeto de abertura estava, já mais ou menos pacífica, sua candidatura civil (a única até então aceita pelo sistema) para a sucessão de Figueiredo.

Petrônio sabia que, com um pulmão só, na hora em que entrasse em um CTI enfartado, temporariamente afastado do Ministério, os adversários de sua candidatura teriam o argumento definitivo: “É um doente, não pode”.

Ele se obstinou para derrotar a morte e ganhar o poder. Não conseguiu. E deixou a Nação perplexa e com medo da abertura sem seu operário.

O ‘Pathê’, que se recusou a ser Pateta, fez um tremendo sucesso em Moscou

Resultado de imagem para José FayermannSebastião Nery

Chamava-se Pathê, José Fayermann Pathê, e Fayermann dos pais judeus, Pathê de uma bola na cara. Goleiro do time do grupo escolar, tomou uma bolada no rosto que o levou ao hospital. Voltou com o apelido: Pateta. Fez um acordo com os colegas:

– “Pateta não. Então fica Pathê”.

Ficou. Encontrei-o como Pathê no Festival Mundial de Juventude em Moscou, 1957, aluno da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo e membro da nossa numerosa delegação brasileira, chefiada pelo saudoso socialista paulista Rogê Ferreira.

ERA A ALEGRIA – Alto, magrelo, narigudo, avermelhado, desengonçado, muito feio, Pathê era a própria alegria. E, com um violão que desafinava, ele cantava pelas varandas e corredores do Hotel Zariá, perto da Universidade, elevando e conquistando garotas de outros países com sua voz forte, poderosa, como um Aznavour do Braz. Mas só sabia três músicas: “Conceição”, “Trem das Onze” e “Aquarela do Brasil”.

Um dia, fomos levados para um festival artístico na Associação Soviética de Escritores. Um salão enorme, como um ginásio, apinhado, centenas de pessoas. Cada país subia no palco e ia apresentando suas coisas: balé, circo, música clássica, danças folclóricas, grupos musicais. E de repente demos conta de que a delegação brasileira não tinha sido avisada e não ia apresentar nada. Ia ser uma humilhação, um vexame.

Tive uma ideia maluca: só o Pathê. Levamos o Pathê para uma sala e uma comissão o enquadrou no centralismo democrático da sagrada solidariedade e amizade dos povos. Ele tinha que salvar o Brasil. Tinha que cantar. Pathê tremia, quase chorava, apavorado. Arranjamos um violão com os colombianos, comandados pelo jovem Gabriel Garcia Marquez, enfiamos na mão de Pathê e o anunciamos:

– “Agora, o jovem e consagrado cantor-revelação do Brasil, Pathê”.

SALTOS E MURROS – Pathê enlouqueceu. Sentado atrás, tremendo e xingando, de repente se levanta transtornado e transformado, suspende o violão sobre a cabeça, com a mão esquerda, e atravessa a longa passarela até o palco dando saltos e murros no ar com a mão direita, como um enlouquecido. O auditório, até então muito barulhento, ficou em absoluto silêncio.

Pathê puxou uma cadeira, pôs um pé em cima, bateu forte no violão e começou:

– “Conceição, estava no morro a sonhar”…

A cara vermelha parecia uma placa de sangue e o vozeirão explodiu:

– “Se subiu, ninguém sabe, ninguém viu”.

Começaram os aplausos, Pathê andava furioso pelo palco, arrastando o microfone, sacudindo o violão, acabou “Conceição” e emendou com “Aquarela do Brasil”. Um delírio. Aqueles milhares de jovens do mundo inteiro batendo palmas ritmadas e os pés no chão e Pathê, aos pulos, ao fim de cada estrofe, gritava:

“Moscou de pé aplaude, Pathê, Pathê, Pathê!

E o auditório, já também endoidado, repetia:

– “Pathê,Pathê, Pathê”!

Naquela tarde, em Moscou, não sobrou nada para o circo dos chineses, as valsas dos austríacos, as piruetas dos cossacos, para ninguém. Como um Elvis Presley dos trópicos, Pathê tomou conta da festa.

Santorini, a ilha vulcão da Grécia, recebe mais turistas do que o Brasil

Resultado de imagem para santorini grecia

Meca do turismo, Santorini é considerada a mais bela ilha grega

Sebastião Nery

Ela vem voando, leve, linda, longe, toda branca. Como uma flecha de Deus. Vai chegando perto, cada vez mais perto, o bico estirado, as asas presas, os pés retos. A um metro. Vejo-lhe, perfeitamente, os olhos úmidos, miúdos, infinitos. Jogo um pedaço de pão, ela pega, passa. E faz uma doce, graciosa, sensual curva sobre o mar. É a gaivota. Um “claro” do Mar Egeu.

Outras vezes as vi, aqui, na primavera, no verão. É surpreendente que sejam as mesmas no outono e no inverno. O mundo inteiro tem gaivotas, as bailarinas do mar. Gostam de seguir os barcos, os navios. São inesquecíveis as de Rotterdam, Liverpool, Hamburgo, Nápoles. São marinheiras dos céus. Vivem sobretudo nos portos, nos golfos, atrás do que resta dos barcos no mar.

ESQUADRILHAS – Mas, como as daqui da Grécia, os “claros”, jamais vi. Milhares e milhares, incansáveis, esquadrilhas voando baixo, rente ao navio, dando mergulhos nas águas balançadas ou sobre o convés. E são democráticas. Não invadem as ilhas e os portos das outras. Seguem os navios até certo ponto e voltam.

Daí a pouco, quando começa a aparecer outro porto, outra cidade, outra ilha, lá vêm outras gaivotas, outros “claros”, não mais as que ficaram atrás, mas as dali. E o balé sobre o navio e o mar começa de novo.

De avião, de carro com “ferry-boats” ou de navio, se vê a Grécia e suas ilhas encantadas. A vantagem do navio começa pelas gaivotas.

ATLÂNTIDA – A lenda é a primeira doida da história. É ela quem diz que aqui em Santorini foi a Atlântida, de que falavam os papiros egípcios e sobre a qual escreveu Platão (no “Timeon” e no “Criton”): “Um grande e admirável Estado, soberano de outras ilhas, duas, uma maior e outra menor” (a maior era Creta e a menor Santorini).

Em 1625 antes de Cristo, o coração da ilha explodiu, o mar invadiu, formou uma grande baia, uma caldeira, de 10 quilômetros de comprimento e 7 de largura e as águas profundas de 400 metros.

É uma das mais belas e extravagantes paisagens do universo. Lá embaixo o mar muito azul, cercado de escarpas pretas, marrons, rosas, brancas e verde claro, que passam de 300 metros de altura e sobre elas as casas brancas, como de bonecas. Os gregos têm razão de dizer que é a mais bonita das ilhas do país.

SEM ÁGUA – O centro é a velha cidadezinha de “Thera”, anterior ao Império romano, hoje Fira. Toda ilha não tem água nenhuma, nem rio nem lago. É só água de cisterna e de chuva. E o vulcão ainda é ativo. De quando em quando acorda de mau humor e cospe fogo. O solo vulcânico tem sua serventia: 36 variedades de uvas. A maior produção da ilha é vinho (“tinto, forte, levemente doce, que vem ganhando sucesso internacional”). Um dos vinhos é muito bom, ao menos o nome: “Nery”. É daqui o “Boutari”, o mais conhecido dos vinhos gregos.

O “Mosteiro de Profitis Elis” (profeta Elias), no alto da montanha, é um orgulho nacional: fundado em 1711, durante séculos, quando os turcos invadiram, ocuparam e devastaram a Grécia, foi uma escola secreta, ensinando a língua e a cultura grega.

Uma ilhazinha tão pequena (embora tão fantástica) recebe tantos turistas quanto o Brasil inteiro.

Uma viagem com Jorge Amado e Zélia Gattai, até os mistérios da Sicília

Resultado de imagem para jorge amado frasesSebastião Nery

Ele não queria ir de avião. Preferia o trem, de Roma até o sul da Itália e de lá para a Sicília. Zélia Gattai, a mulher, e Paloma, a filha, achavam demorado. Acabou se convencendo e voamos direto para Palermo. Jorge Amado passou em Roma em 1990, deu entrevistas como sempre, participou como jurado da entrega do “Prêmio Internacional União Latina de Literatura” e fez um debate no “Centro de Estudos Brasileiros”, na embaixada brasileira, ali na magnífica Piazza Navona, onde eu era adido cultural.

Ele ia receber em Palermo, capital da Sicília, o “Prêmio Mediterrâneo”, mais importante da Sicília.

EMBAIXADOR – Jorge foi, durante décadas, o embaixador da cultura brasileira no mundo e o autor brasileiro mais lido em todos os países. Zélia Gattai fez muito bem em eternizá-lo, fazendo da casa do Rio Vermelho o “Memorial Jorge Amado”.

Nas ruas de Roma, nas esquinas da Sicília, era inacreditável a alegria do casal Hilda e Geangaspare Ferro em Palermo, ela brasileira, numa feijoada perfeita, estavam quatro casais que se conheceram por causa dos livros dele.

Eram italianos ou italianas que descobriram o Brasil, a Bahia, o Rio, nos livros dele, vieram conhecer o país, aqui encontraram brasileiras ou brasileiros, conheceram-se, casaram e foram agradecer a Jorge, santo casamenteiro. E algumas belas Gabrielas nascidas do romance de 1958.

MISCIGENAÇÃO – Na Faculdade de Línguas e Literatura de Palermo, com os muros cobertos de slogans da esquerda, Jorge dez, durante horas, um debate com os estudantes. O que eles mais queriam saber era como o Brasil conseguiu misturar suas raças e a Europa vive cada dia mais envolvida no brutal conflito entre suas populações nativas e os imigrantes. Jorge ensinou sua sabedoria:

“Racismo só acaba na cama. Quando o primeiro português amou a primeira índia, começava no Brasil o mistério da nossa língua e nossa Nação”.

À noite, na entrega do prêmio, no Parlamento lotado, lá estava a Sicília oficial: o governador da província, o presidente do Parlamento regional, o pomposo cardeal Salvatore Pappalardo, escritores, professores, jornalistas.

AVÓ MAFIOSA – O grego Homero a chamou “Ilha do Sol”. Mas quem a definiu foi Goethe: “Sem ver a Sicília, não se pode fazer uma ideia da Itália. É na Sicília que se encontra a chave de tudo”. Tomasi di Lampedusa, escritor siciliano, disse no clássico “Il Gattopardo”.

– “Somos velhos, velhíssimos. Há 25 séculos, ao menos, carregamos mas costas o peso de magníficas civilizações heterogêneas, todas vindas de fora, nenhuma germinada aqui. Somos tão brancos quanto a rainha da Inglaterra. No entanto, há 2 mil anos somos colônia”.

A Sicília não é filha da Itália. É mãe. Não veio do Império Romano. É anterior. A civilização grega, antes de chegar a Roma, já estava na Sicília. Roma é a mãe da Europa. A Sicília é a avó. Uma vovó mafiosa, mas vovó.

PALERMO – Os fenícios, já instalados no norte da África, em Cartago, chegaram à Sicília e criaram sua primeira cidade, Panormo, hoje Palermo matriz fenícia e grega, depois romana, da Europa. Só no século III antes de Cristo, Roma chega à Sicília, com Pirro, para ajudar os gregos contra os fenícios. Roma derrota Cartago, expulsa os gregos e fica dona da ilha.

Durante séculos a Sicília foi o mais importante centro da civilização ocidental: desde o ano 1000 antes de Cristo, com os fenícios; depois, nos anos 500 antes de Cristo, com os gregos; antes de Roma foi o centro do Império Romano, com os romanos; e com os normandos, quando o Império Romano desabou, até 1250, quando morreu Frederico II e os franceses e espanhóis, protegidos pelos Papas, puseram a Sicília em séculos de opressão.

Primeira universidade do mundo e primeiro parlamento do mundo, em Palermo, em 1130, a Sicília surpreendeu Jorge Amado. Na catedral, flores frescas, do dia, no tumulo de Frederico II, “o rei sábio”, enterrado lá. Até hoje o povo enfeita sua morte, uma espantosa ternura por quem viveu até 1250.

No folclore político, Golbery explicava a diferença entre “informe” e “informação”

Resultado de imagem para golbery

Golbery era uma espécie de Rasputin brasileiro

Sebastião Nery

Para preencher cargos-chave do governo, havia norma de consultar o SNI (Serviço Nacional de Informações), para saber os antecedentes da pessoa. Logo que o governador Paulo Egídio assumiu o ministério (Industria e Comercio, do governo Castelo), Golbery explicou: “A diferença entre um informe e uma informação é a seguinte: o informe é “ouvi dizer”, é para ser verificado, é um primeiro boato. A informação é um fato que está comprovado. Quando você receber uma informação com um visto meu, é para cumprir”.

Um dia recebeu uma informação com o visto do Golbery, dizendo que um alto funcionário do Ministério era um pederasta que mantinha relações com contínuos no gabinete dele. Pedia que o demitisse.

NÃO DEMITIU – Começou a levantar a vida do tal rapaz. Como não constatou nada, não assinou nenhum decreto. Golbery cobrou:

– Ministro, lamento muito mas não constatei aquelas informações.

– Paulo eu não disse a você que uma informação com o meu visto era para ser cumprida?

– O senhor disse, mas acontece que caberia a mim a responsabilidade de exonerá-lo. Não constatei nada. Não cumpri.

– Mas isso é muito grave. Precisa ser cumprido.

– Então ponha outro ministro no meu lugar, porque não vou cumprir.

Na saída de uma outra reunião, Golbery deu-lhe um tapinha nas costas:

– Paulo, você se lembra daquele caso? Você tinha razão. Era um homônimo. Assunto encerrado”.

AUMENTO PROIBIDO – “Castelo tinha assinado um decreto, publicado no Diário Oficial, proibindo o aumento de salário dos procuradores públicos. Leônidas Bório, considerando o IBC (Instituto Brasileiro do Café) uma autarquia, concedeu um aumento aos procuradores do Instituto. O presidente interpelou Bório diretamente:

– O senhor não comunicou ao seu ministro. Como explica isso?

– Sou presidente de uma autarquia e considero que cabe a mim.

– O senhor não está entendendo a política de meu governo. Não está entendendo coisa alguma. Vai ter que revogar isso de qualquer maneira.

O presidente bateu na mesa, ficou transtornado. Foi uma cena muito desagradável.

Bório recuou, foi até o fim do governo como presidente do IBC.

EM LIMOEIRO… – O coronel Chico Heráclio, de Limoeiro, o mais poderoso do Nordeste, jogou tudo em 1950 na campanha de Agamenon Magalhães contra João Cleófas, para governador de Pernambuco. Deu-lhe mais de 70% dos votos de sua região. Depois da eleição, foi ao palácio. Agamenon eufórico:

– Chico, use e abuse de meu governo.

– Muito obrigado, governador. A secretaria da Fazenda e a de Segurança o senhor não dá a ninguém. As outras não valem nada. Só peço para colocar água em Limoeiro e pelos meus amigos, quando for preciso.

Um dia, voltou ao palácio para pedir a Agamenon a aposentadoria de um amigo, juiz com poucos anos de função. Agamenon não podia atender:

– Mas, Chico, isso é muito difícil.

– Se fosse fácil, eu não vinha lhe pedir. Governo existe para fazer as coisas difíceis. As fáceis a gente mesmo faz.

O CARROCEIRO – Zé Pequeno era o líder dos carroceiros de João Pessoa. Comandava desfiles de carroças em homenagem ao interventor Argemiro Figueiredo e ao prefeito Fernando Nóbrega, na ditadura de Getulio Vargas.

De repente, Argemiro caiu, Nóbrega também. Zé Pequeno guardou sua carroça, plantou-se dentro de casa. Um dia, dois, ninguém o viu mais. No terceiro dia, engraxou os sapatos, vestiu a roupa de domingo, pôs a gravata e passou pela casa de Fernando Nóbrega:

– Chefe, vou ao palácio apoiar o novo interventor, Rui Carneiro.

– Por que tanta pressa, Zé Pequeno?

– Ah, doutor, três dias longe do governo é demais. Se eu ainda fosse um Zé Grande, mas sou apenas o Zé Pequeno…

Os gols de Dutra na vitória do Brasil na Copa de 1958 e as incertezas da seleção de Tite

Sebastião Nery

Em 1958, o Brasil jogava com a Suécia na Copa. Os radialistas Rubens Amaral e Luís Brunini e o deputado Augusto de Gregório sofriam o começo do jogo em um apartamento na rua Redentor, em Ipanema, no Rio. Brasil perdendo de 1 a 0, nada de fazer gol.

Toca a campainha. Era o ex-presidente Dutra, que morava ao lado. Dutra entra na sala. O locutor grita: – “Goooool! O Brasil empatou.

Dutra comemora, conversa um pouco, sai. Nada de o Brasil desempatar. Toca novamente a campainha. Era Dutra de volta. O locutor grita: – “Goooool”! O Brasil desempatou.

Só deixaram o velho sair depois do jogo. O Brasil derrotou a Suécia por 5 a 2 e ganhou a Copa de 58. Tite devia invocar socorro a Dutra.

DEMISSÃO DE JANGO – João Goulart assumiu o Ministério do Trabalho, no segundo governo de Getúlio Vargas (1953).Os militares da UDN começaram a conspiração que acabou no Manifesto dos Coronéis, redigido pelos coronéis do Exército Bizarria Mamede e Golbery do Couto e Silva, e assinado em primeiro lugar pelo coronel Amauri Kruel (por força da ordem alfabética), exigindo a derrubada de Jango, que Getúlio afinal aceitou.

Murilo Melo Filho, colunista político da revista “Manchete”, telefonou a Anísio Rocha, amigo do marechal Dutra, e foram os dois à rua Redentor, em Ipanema, para o calado ex-presidente dizer alguma coisa:

– Presidente, o que o senhor achou do Manifesto dos Coronéis?

– Não sei de nada, meu filho. Li nos jornais, mas não achei nada. Não vou falar, não. Não ajuda. Aliás, nem li os jornais direito, porque esta noite entrou aqui em casa um ladrão e me atrapalhou a manhã.

HISTÓRIA DO LADRÃO – Murilo Melo Filho insistiu, pedindo que Dutra então contasse a tal história do ladrão.

– Mas, meu filho, uma revista tão importante ficar preocupada com história de ladrão? Não foi nada demais. Ele entrou, pegou algumas coisas e foi embora. Só isso. Não teve importância.

– Então, presidente, voltemos ao manifesto. O senhor acha que os coronéis vão derrubar o Jango do Ministério do Trabalho?

Dutra ficou calado, pensou um pouco, sorriu:

– Olha, Murilo, é melhor falar do ladrão.

E falou.

VICTORINO FREIRE – De manhã bem cedo, em 1969, a brutal Junta Militar no poder, eu deputado cassado mas trabalhando em jornal e TV, toca o telefone de minha casa, aqui no Rio. Era o colega e amigo jornalista Tarcisio Holanda:

– Nery, saia agora, não fale com ninguém e vá urgente para o Palácio do Monroe, na Cinelândia. O senador Victorino Freire espera você lá.

Encontrei Victorino já entrando no carro para sair:

– Sebastião, me espere no gabinete do senador Dinarte Mariz. Tranque-se lá dentro e não abra para ninguém, nem para ele. Volto já.

Obedeci, o coração aos pulos. Duas horas depois, chega Victorino:

– Pode ir. Não vai mais ser preso. Mas nunca mais conte histórias contra o general Dutra. Depois de Caxias, o sinônimo do Exército brasileiro é ele. A floresta tem tanto bicho, para que mexer logo com o leão?

“IXTO” E “AXIM” – Em minha coluna na “Tribuna da Imprensa”, naquele dia, eu contava algumas historias engraçadas do marechal Dutra, que puxava muito no “X” (“isto era “”ixto”, “assim” era “axim”) e sobre o governo dele.

Dois oficiais saíram cedo do comando do Exército atrás de mim em minha casa e no jornal. Victorino soube, avisou a Tarcísio e foi a Ipanema, à casa de Dutra, que telefonou para o comando do Primeiro Exército:

– O “Laxerda” e o David “Naxer” me criticaram todos os dias de meu governo e eu nunca os mandei prender. O Victorino está me dizendo que vocês vão prender o Sebastião Nery pelo que escreveu hoje. Não “faxam” “ixo” não. Eu até gosto do que ele escreve.

O melhor de nós acaba de ir aos 80 anos, em Salvador – o padre Carlos Formigli

Resultado de imagem para

Padre Carlos Formigli era muito conhecido na Bahia

Sebastião Nery

Éramos onze. Hoje já somos dois. Morreu em Salvador o melhor de todos nós: Padre Carlos Formigli. Estudou Filosofia em Salvador, 1950/52; na Pontifícia Academia Romana de Santo Tomas de Aquino e na Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, 1953/55. Teologia na Pontifícia Universidade Gregoriana – Roma – Itália, 1952/56. Pos-Graduação em Ciências Humanas e Sociais – Monografia: Le Tiers-Monde Sous le Signe de la Transformation – Faculdades Católicas de Lilli – França – 1970/72. Professor de latim e grego, presidente da Fundação da Criança e do Adolescente, FUNDAC, 1991/2007 – Salvador.

Estávamos entre os primeiros alunos do Seminário da Imaculada Conceição de Amargosa, na Bahia. A prefeitura ia inaugurar a “Biblioteca Pedro Calmon”, filho mais ilustre da cidade. Estavam lá o homenageado, professor, escritor, acadêmico e orgulho da terra. O prefeito, vereadores, o bispo Dom Florêncio Sisínio Vieira, os professores do seminário e os locais, e um jovem estudante de Direito também nascido lá, Waldir Pires.

DIÁLOGO EM LATIM – Padre Correia escreveu um texto em latim, um diálogo, como se fosse teatro, para Carlos Formigli e eu dizermos. Lembro bem de duas coisas: o medo de começar e a alegria de terminar debaixo de palmas, Não erramos nada. Carlos aparecia de repente, de surpresa e eu, ali ao lado, o interrogava em latim:

“Eus, Carole, quo vadis”? (Alô, Carlos, para onde vais?)

E Carlos respondia que ia para a inauguração da biblioteca. Falávamos sobre a importância da biblioteca, a justa homenagem a Pedro Calmon e uma saudação à cidade.

Tudo em latim. Em um latim perfeito, clássico, claro, que pronunciamos com segurança, até porque o autor estava ali e, se errássemos, era capaz de nos matar. E foi o primeiro a aplaudir.

CARTA DE CARLOS

Tenho aqui em mãos, a carta que o Carlos me fez quando completei 80 anos:

“Caro Sebastião, eis que estamos chegando aos oitenta anos. Uma longa caminhada pontilhada de muitas coisas boas. Basta um olhar para o passado e certamente nos surpreenderemos com as vitórias conquistadas, as dificuldades vencidas, os serviços prestados. Com certeza, não fomos inúteis e, nem tão pouco, mais um na história do mundo, caminhando ao sabor dos ventos. Conheço sua história (a NUVEM não deixa dúvidas) e você sabe por onde andei, tentando realizar a minha missão de sacerdote e educador. Aos oitenta anos, se não optamos pelo repouso, já sentimos que a idade nos alerta para a necessidade de desacelerar e caminhar com mais prudência.

Você, meu caro, tem uma história rica de momentos empolgantes e não duvido em afirmar que os dias de “prisão” contribuíram, e muito, para fazer do Nery, o cara destemido, o jornalista polêmico, o cidadão consciente dos direitos e dos deveres decorrentes de sua cidadania.

Parabéns, Sebastião, pelo seu aniversário, pela sua vida, pela sua história, pelo que você fez em defesa dos direitos da pessoa humana e da democracia.

Com você, agradeço a Deus o dom de nossas vidas e as oportunidades que tivemos de semear a boa semente.”

Em Alagoas, quem mandava na política eram os três irmãos que eram seis

Silvestre Péricles, ex-governador,um dos generais de sua família

Sebastião Nery

Pedro, general, ex-ministro da Guerra, senador do PSD, telegrafou ao presidente da Assembleia Legislativa de Alagoas: – “Ciente senador Ismar (irmão de Pedro e Silvestre e também general, do PSD e ex interventor) e seus asseclas têm em vista provocações ocasião comparecimento governador (Silvestre, igualmente militar e do PSD e irmão dos outros dois), aconselhei a este a não ir”.

“Silvestre mandou expor o telegrama no Largo do Relógio, centro da cidade. Ismar se dirigiu para o local onde estava a copia do telegrama do general Góis e a rompeu, rasgando-a à vista de muitos. Ao saber do gesto ousado, o governador Silvestre vai pessoalmente ao Largo do Relógio Oficial, para onde fizera se deslocar um contingente de policiais armados e, em espalhafatosa exibição, deu ordem até de fuzilamento. Se tentassem rasgar o telegrama fuzilassem e, se fosse o senador Ismar, que o prendessem, o amarrassem e levassem para o quartel”.

No dia seguinte, os jornais publicavam a resposta do senador Ismar: – “O governador sabe, e se não sabe fique sabendo, que nunca deixarei de honrar meu mandato. Se o governador duvidar, que tente, vindo pessoalmente comandar a diligência, já que não respeita o cargo que ocupa”

GATO E CACHORRO – Eram assim, como gato e cachorro, os três irmãos militares de Alagoas, entre 1945 e 50: dois generais e um auditor de Guerra, dois senadores e um governador. Eles eram meia dúzia. Ainda houve mais três: Cícero, que morreu no levante paulista de 1932; Manuel, senador de 1935 a 37; e Edgar, interventor do Estado depois da queda de Getulio em 1945.

 É caso único na historia do Brasil, de seis irmãos políticos atuando ao mesmo tempo.

1 – Logo depois da proclamação da Independência, os irmãos José Bonifacio Andrada, Antonio Carlos e Martim Francisco foram constituintes de 1823. Dom Pedro I fechou para impor sua Constituição de 1824.

 2 – Os irmãos Mangabeira, baianos : Otavio, João e Carlos. Em outubro de 1934, Otavio e João elegeram-se deputados pela Bahia. Carlos, farmacêutico e prefeito de Bagé, no Rio Grande do Sul, também foi eleito deputado federal pelo Rio Grande. No golpe de 1937, cassados os três.

3 – Na década de 90, Alagoas teve três irmãos no Congresso ao mesmo tempo: Renan e Olavo Calheiros, eleitos por Alagoas, e Renildo Calheiros, eleito por Pernambuco: depois prefeito de Olinda, pelo PC do B. Democracia é no voto e não na bala.

ELEIÇÕES DE 1950 – O general-governador Silvestre Góis Monteiro levou o maior susto quando começaram a ser contados os votos das eleições de 3 de outubro de 1950. Depois de quatro anos de ameaças diárias, espancamentos e assassinatos, ele tinha absoluta certeza de que o eleitorado de Alagoas não teria coragem de votar contra seus candidatos a governador, Campos Teixeira, e a senador, seu irmão o poderoso general Aurélio Góis Monteiro.

E teve. Abertas as primeiras urnas, o candidato da oposição (UDN), o jovem jornalista alagoano Arnon de Mello, que morava no Rio e topou desafiá-lo, disparou. O candidato a senador, Jerônimo da Rocha, também. Silvestre enlouqueceu. Dizia abertamente que não passaria o governo.

No comando do 20º Batalhão de Caçadores do Exército, em Alagoas, um major inteligente, tranquilo e com senso da história, anotava tudo, que, depois, reformado, reuniu em surpreendente livro: “Sururu Apimentado”, de Mario de Carvalho Lima, editado pela Universidade Federal de Alagoas. E a história foi assim.

José Aparecido, o múltiplo embaixador que uniu os países de língua portuguesa

Resultado de imagem para josé aparecido de oliveira

O múltiplo embaixador José Aparecido estaria hoje com 90 anos

Sebastião Nery

O Embaixador José Aparecido de Oliveira era um lusófilo incorrigível. Mais ainda do que o mestre do lusotropicalismo Gilberto Freyre. Portugal, para ele, era como as pedras seculares das ruas de sua Conceição do Mato Dentro, nas montanhas do Serro do Frio de Minas. Doem nos pés, mas é preciso ter paciência. Perdoando e gostando.

Aparecido teve com Portugal um crédito político histórico. Foi ele, como Ministro da Cultura, que coordenou em São Luís do Maranhão, em 3 de novembro de 1989, o “1º Encontro dos Países da Língua Portuguesa”, surgindo daí a criação do Instituto Internacional da Língua Portuguesa.

PRIMEIRO ENCONTRO – Ali aconteceu o primeiro encontro depois da libertação das antigas colônias de Portugal na África com a primeira reunião dos presidentes das ex-colônias de Portugal, o Presidente do Brasil, José Sarney, com Mário Soares, de Portugal, Joaquim Chissano, de Moçambique, Manuel Pinto da Costa, então presidente de São Tomé e Príncipe, Aristides Pereira de Cabo Verde, João Bernardo Vieira, Nino, da Guiné Bissau, e Lopo do Nascimento, de Angola, representando o presidente José Eduardo Santos, que não saiu de Luanda porque estava vivendo fatos dramáticos com a capital cercada pelas tropas da UNITA de Jonas Savimbi.

Uma noite, em Brasília, um grupo de jornalistas na casa do então governador Aparecido, jantávamos com o presidente da Guiné Bissau, Vieira Nino. Um jornalista comentou:

Ele tem olhar estranho. Tem olho de fera.

E era Vieira Nino. Companheiro de Amilcar Cabral, passou onze anos dentro da selva, lutando contra Portugal. Espiando dia e noite o perigo entre os galhos da floresta, acabou com olho de fera.

AS EX-COLÔNIAS – Aparecido não conhecia só Portugal. Era amigo dos olhos de fera das ex-colônias. Mário Palmério, romancista dos infinitos “Confins” de Minas, também ele ex-embaixador do Brasil no Paraguai, diz que na história do Itamarati só três diplomatas conheceram bem as cinco ex-colônias de Portugal: ele, Wladimir Murtinho e Aparecido. Aparecido foi lá. Duas vezes.

O inesquecível Carlos Heitor Cony, já havia percebido e escrito antes: “Esta é, basicamente, a ideia de José Aparecido de Oliveira. A língua portuguesa é a terceira mais falada do mundo. Atinge quatro continentes e engloba uma população de mais de 230 milhões. O primeiro fruto da Comunidade de Povos Lusófonos será estritamente política e cultural, o que já é muita coisa. Evidente que os povos que falam o português são em geral, atavicamente grudados no chamado Terceiro Mundo. O isolamento geográfico não tem impedido a formação de blocos regionais que apresentam a unidade espiritual da mesma língua. Esse bloco de milhões de pessoas que falam o português tem dois curingas bem situados no tabuleiro internacional. Numa ponta o Brasil como seu potencial-que-não-verás-criança-nenhuma-igual-a-ele. Na outra ponta Portugal, estado-membro da Comunidade Europeia, matriz da civilização comum. Basta um pouco de imaginação para se obter a projeção do que pode representar, a curto, médio e longo prazos, a formação de um bloco de nações reunidas sob um núcleo de tal amplitude. Essa imaginação não faltou ao único embaixador que não é dos quadros do Itamarati, pois foi convocado pessoalmente pelo presidente Itamar Franco.”

HOMENAGEM – Não por acaso, a Academia Brasileira de Letras acaba de prestar homenagem aos 90 anos de José Aparecido. Seus amigos acadêmicos Alberto da Costa e Silva e Geraldo Carneiro organizaram o Seminário “José Aparecido de Oliveira, o embaixador da Língua Portuguesa”, realizado no Teatro Raimundo Magalhães Junior, na sede da Academia Brasileira de Letras – Rio de Janeiro. Nada mais justo.

Entenda por que a Turquia concentra grande parte da História da Humanidade

Resultado de imagem para istambul

A importância histórica da Turquia é realmente incomparável

Sebastião Nery

A Turquia não é um país. É uma salada de frutas. A Macedônia também já foi. Tantos povos moraram e mandavam lá, que na Itália a salada de frutas se chama “macedônia”. Pois a Turquia é muito mais. É o único país do mundo que já teve 12 capitais.

Primeiro, Troia, capital dos Hatitas (3.500 anos antes de Cristo). Depois, Hattusa, capital dos Hititas (do século 18 ao século 17 antes de Cristo). E vieram Xanthos, capital da Lícia (de 600 a 200 antes de Cristo); Sardes, capital da Lidia; Pérgamo, capital do reino de Pérgamo, (de 283 a 133 antes de Cristo); Amaseia, capital do reino do Pontus; Bizâncio, fundada pelo grego Bizas, que virou Constantinopla, em 330 depois de Cristo, quando Constantino criou o Império Otomano, antes de os otomanos tomarem Constantinopla; Edirne, segunda capital do Império Otomano, também antes da tomada de Constantinopla; Istambul, que denominou a antiga Constantinopla; Niceia, quando a IV Cruzada cristã tomou Istambul, de 1204 a 1261 (depois de Cristo). E Ancara, a capital hoje.

HERANÇA DE TODOS – Os povos que vieram e construíram têm nomes estranhos e belos, vieram desde o começo dos tempos, neste pequeno e fantástico país de 780 mil quilômetros quadrados e 75 milhões de habitantes.

Os turcos são herança de todos eles, de civilizações superpostas, desde o início dos tempos. Há marcas de presença humana 100 mil anos antes de Cristo. Esta é sua grandeza mas também sua tragédia.

Os turcos dizem que a Turquia é o “maior museu a céu aberto do mundo”. E é por causa de sua fantástica história. Cada cidade tem um pedaço de eternidade. Em cada canto um resto de civilização que se perdeu nas dobras da história e no sopro dos ventos, cobrindo de terra e tempo cidades e civilizações.

BELIGERÂNCIA – Como manter tudo isso na mais beligerante encruzilhada da historia humana, a ligação da Europa com a Ásia, do Mediterrâneo com o Mar Negro, da civilização ocidental com a civilização islâmica, dos projetos de dominação mundial dos Estados Unidos com a muralha que é a União Europeia?

Toda a história antiga girou em torno de eternas batalhas pela conquista de ligações de terras e mares, de estreitos: Gibraltar, Peloponeso, Dardanelos, Bósforo. Hoje, entre a Europa e a Ásia, há um novo estreito, feito de terra e chão, a Turquia. É por causa dele que os Estados Unidos e a Europa ameaçam fazer da Turquia uma nova Palestina, uma nova Bósnia.

UM PATRIMÔNIO – A Turquia, como a Grécia, Roma, Jerusalém, Paris, China, tantos outros, é um Patrimônio Histórico e Cultural da Humanidade. Talvez nenhum outro espaço tão pequeno, nem mesmo na sagrada Grécia e na Roma divina, haja, tão numerosa e diversa, a presença da humanidade através da história.

Aqui, a Grécia esteve durante séculos, o Império Romano deixou sua marca e suas garras, a Mesopotâmia virou Europa. Aqui, o cristianismo viveu seus três primeiros séculos de perseguições e exílio. E viveu seus três primeiros séculos de poder oficial. Aqui, a Alemanha perdeu uma guerra e Hitler outra. Aqui, a humanidade acendeu fogueiras eternas de cultura e sabedoria:

1 – Aqui nasceram Homero, o poeta, São Paulo, o jornalista, Tales de Mileto, Pitagoras, Anaximenes, Anaximandro, sábios. Aqui ensinaram Platão e Apelokon. Aqui Hipodromos criou o urbanismo. Aqui se fez a primeira Escola de Escultura. Aqui Cleopatra e Marco Antonio se amaram.

2 – Quando Noé ancorou sua arca, foi aqui, no monte Ararat (5.165 metros) O Tigre e Eufrates, dois dos três mais importantes rios da antiguidade, são daqui. O templo de Artemisa e o Mausoléu de Halicarnasso, duas das sete maravilhas do mundo, estão (estavam) aqui.

3 – Para se asilarem, Nossa Senhora e São João fugiram para cá e aqui morreram. São Pedro falou aqui, pela primeira vez, a palavra cristão. A gruta do patriarca Abraão, padroeiro dos judeus, era em Urfa, aqui. E o manto, as espadas, uma carta, o estandarte, os pelos da barba, o dente e as pegadas de Maomé também estão aqui.

4 – A primeira moeda foi cunhada aqui, em Pérgamo, aqui, se descobriu o pergaminho e houve uma biblioteca de 200 mil volumes antes de Cristo, a mais importante do Império Romano. A primeira cereja que chegou a Europa saiu daqui.

5 – Aqui, a história troca de roupa: os gregos construíam o templo, os romanos trocavam o deus grego por um romano, os cristãos transformavam o templo em igreja, os otomanos faziam delas mesquitas, os ingleses, franceses, italianos, austríacos, alemães, arrancavam deuses, altares, minaretes, colunas e monumentos inteiros e levavam para seus museus maravilhosos.

Mesmo assim, a Turquia continua a ser o imenso museu do homem.

Folclore político de FHC, Jânio Quadros, Miguel Arraes, Djalma Falcão e Chagas Freitas

Resultado de imagem para folclore politicoSebastião Nery

Fernando Henrique Cardoso tinha 29 anos, era professor na Universidade de São Paulo, sociólogo. Fez a campanha de Lott para presidente da República, contra Jânio, em 1960. Mas um grupo de amigos dele fez a campanha de Jânio: Pedroso Horta, José Aparecido, Roberto Gusmão, Fernando Pedreira, Antonio Angarita. Quando Jânio assumiu, havia uma vaga para o Conselho Nacional de Economia, muito importante na época. Fernando Henrique não era economista, mas não precisava ser. Aparecido, Gusmão, Oscar e outros indicaram a Jânio o nome de Fernando Henrique. Jânio mandou Aparecido convidá-lo.

Fernando Henrique não aceitou. Primeiro, porque não havia votado em Jânio (embora Jânio tivesse dito que isso não tinha importância). Depois, porque havia feito um projeto de vida e precisava completar sua carreira acadêmica, na Universidade.

Jânio recebeu a resposta e disse a Aparecido: “Esse rapaz vai longe. Quem rejeita uma posição dessas aos 30 anos é porque planeja outras muito mais altas aos 60”.

GROSSO E MAL EDUCADO – Miguel Arraes era governador de Pernambuco, Djalma Falcão (presidente do MDB e do PMDB de Alagoas) prefeito de Maceió. Djalma foi a uma reunião da Sudene, em Recife, sentou-se ao lado do chefe da Casa Civil de Arraes. No dia seguinte, recebeu um convite:

“O governador quer ver você hoje, às 12 horas. Mandou convidá-lo para uma conversa no Palácio.”

Djalma ficou contente. Arraes sempre fora um de seus gurus, líder da esquerda nordestina. Ao meio-dia, estava lá, foi levado à ante sala do governador. Esperou. Esperou. Uma da tarde, abre-se a porta, aparece Arraes. Em um sofá, um casal. Arraes recebe Djalma de pé, à porta:

– Djalma, infelizmente não vamos poder conversar. Chegou este casal amigo e vamos almoçar.

Djalma olhou seco para Arraes:

– Governador, não lhe pedi audiência, não solicitei que me recebesse. O senhor é que mandou convidar-me, pelo seu chefe da Casa Civil, para vir aqui. Se soubesse que o senhor era tão grosso e mal educado não teria vindo.

Virou-lhe as costas e foi embora.

AMIGO DE CHAGAS – Em 1966, Djalma Falcão chegou à Câmara Federal, muito jovem, eleito pelo MDB de Alagoas, Ficou amigo de Chagas Freitas, do MDB do Rio de Janeiro. Chagas foi escolhido pelos militares para ser o governador da Guanabara. Procurou Djalma:

– Preciso de um grande favor seu. Você é presidente do MDB de Alagoas. O Aurélio Viana, alagoano, é senador do MDB do Rio, mas não tem condições de reeleição. Quero eleger três: Nelson, Danton e Farah. O Aurélio tem vaga cativa na chapa. É preciso tirá-lo do Rio e levá-lo para Alagoas. Convença-o a disputar por lá. Arranjo 5 milhões para a campanha dele.

– Chagas, se você falar em dinheiro com o Aurélio, ele não vai. Deixe que eu converso com ele.

Djalma convenceu Aurélio, que saiu do Rio e perdeu as eleições em Alagoas.

Um dia, um amigo de Djalma tinha um filho, médico do Estado, doente no Rio. Queria transferi-lo para se tratar em Maceió. Foi ao Rio com o amigo, pediu audiência a Chagas, que marcou. Passou um dia inteiro no Palácio e Chagas não o recebeu.

Na Quinta das Lágrimas, onde Inês de Castro chorou tanto, antes de ser morta

Resultado de imagem para Inês de castro

Este é o túmulo de Inês de Castro, coroada rainha após a morte

Sebastião Nery

Na Arcada da Capela, o belo restaurante do hotel Quinta das Lágrimas, em Coimbra, Portugal, à beira do camoniano Rio Mondego, sob as bênçãos da milenar Universidade de Dom Diniz, a mineira família Gorgulho-Juca escolheu para rever amigos portugueses.

O lugar perfeito. Desde a idade média (a partir de 1350), a Quinta das Lágrimas, que já foi da Universidade e de uma ordem religiosa, cercada de matas e jardins cheios de araucárias e palmeiras, plátanos e figueiras, sequoias e agapantos, é o oásis de paz da cidade das tensas cátedras, das rebeliões e dos abismos políticos de Portugal.

INSPIRAÇÃO – Esta é uma casa de punhaladas, um símbolo universal das intrigas, brutalidades, violências e assassinatos a serviço da loucura humana.

Por isso a Quinta das Lágrimas se fez tema e inspiração da literatura mundial. Voltaire, Victor Hugo, Stendhal, Ezra Pound, tantos já escreveram sobre ela. Mas nenhum com a força e a genialidade de Luiz de Camões, que no Canto III dos Lusíadas celebrou o amor e o martírio de Inês de Castro, ibérica e trágica Julieta (“Estavas, linda Inês, posta em sossego”), que “depois de morta foi rainha” e cujo amor impossível está eternizado em pedra e água na Fonte das Lágrimas.

“As filhas do Mondego a morte escura/ Longo tempo chorando memoraram/ E por memoria eterna em fonte pura/ As lágrimas choradas transformaram,/ O nome lhe puseram que ainda dura/ Dos amores de Inês que ali passaram,/ Vede que fresca fonte rega as flores/ Que as lágrimas são água e o nome amores.”

Maior e mais fantástica do que a poesia de Camões é o milagre de sua vida. Soldado, doca e náufrago, com um poema fundou uma nação.

INÊS DE CASTRO – Como todas as eternas novelas maravilhosas, a de Inês de Castro tinha de tudo. Dom Afonso era rei de Portugal, dom Pedro, filho dele, era príncipe. E andava pela corte uma “galega” magnífica, filha bastarda de um dos homens mais poderosos da Espanha, neto do rei Sancho, de Castela, que o príncipe dom Pedro também era. Pedro e Inês eram primos. E se apaixonaram.

Começou o maior tititi na corte, porque o príncipe Dom Pedro, que morava na Quinta, era casado com dona Constança, também prima dos dois. Inês vivia no Convento de Santa Clara, a meio quilômetro da Quinta, e Dom Pedro lhe mandava cartas em barquinhos de madeira que saiam da Quinta e chegavam até o convento por um córrego que, em um cano, passa até hoje.

Dom Pedro acabou levando Inês para a Quinta e tiveram filhos. Dom Afonso, o rei pai, não queria aquilo e, um dia em que Dom Pedro estava nas matas, caçando, mandou três homens matarem Inês de Castro a facadas.

FONTE DAS LÁGRIMAS – Ela chorou tanto, pedindo para não morrer, que fez nascer a Fonte das Lágrimas, onde há quem veja, ainda hoje, gravada na rocha, a mancha vermelha do sangue de Inês. Não sei o que é, mas tem cor de sangue.

O príncipe Dom Pedro se rebelou, organizou um pequeno exército e assolou o país, tentando derrubar o pai. Não conseguiu, mas logo depois o pai morreu, Dom Pedro assumiu o trono, prendeu dois dos assassinos, arrancou-lhes os corações a facadas, anunciou que havia casado secretamente com Inês antes de ela morrer e mandou construir o monumental túmulo de Alcobaça.

O rei fez uma marcha fúnebre de Coimbra ate Alcobaça e obrigou toda a nobreza a acompanhar, beijando a mão da morta. E pôs o corpo dela no túmulo, onde também o dele está. Por isso, Inês “depois de morta foi rainha”.

Este bucólico recanto do romantismo universal, é sobretudo um testemunho secular do ódio e da violência política. O poder mata mais do que dengue e febre amarela. E mata a facadas.