Jimmy Carter em Recife, sem saber que ia ser presidente dos Estados Unidos

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Rosalynn e Jimmy Carter, ao embarcarem de volta aos EUA

Sebastião Nery

Quando Jimmy Carter esteve no Brasil, em 1972, passou alguns dias em Recife com a mulher, em casa do casal Camilo Steiner, na praia da Piedade. A mulher de Steiner, americana da Georgia, foi colega de colégio da mulher de Carter, Rosalynn, e continuaram amigas pela vida a fora. O filho de Steiner estudou nos EUA, morando na casa de Carter.

Em Recife, o governador Eraldo Gueiros ofereceu um almoço a Jimmy Carter, no Palácio. Saudou-o o vice-governador Barreto Guimarães, gordo e barroco, lançando a candidatura de Carter à Presidência dos Estados Unidos:

– Vossa Excelência, senhor governador da Georgia, tem a marca do estadista e estamos certos de que será o próximo ocupante da Casa Branca.

Carter apenas sorriu. No dia seguinte, Camilo Steiner convidou alguns jornalistas pernambucanos para uma peixada e uma conversa com Carter. Anchieta Hélcias, secretario de Industria e Comércio de Pernambuco, perguntou a Carter se ele tinha condições de sair candidato pelo Partido Democrata em 1976. Carter respondeu com outra pergunta:

– Qual é o estado mais pobre do Brasil?

– O Piauí.

– Pois a Georgia é o Piauí de lá. O senhor acha que o governador do Piauí tem condições de ser Presidente do Brasil?

Anchieta também achava que não. Acontece que o povo americano achava que sim.

CANDIDATO DOIDO – George Pires Chaves, advogado e cônsul do Piauí no Rio de Janeiro, voltou a Teresina para visitar um cliente, Miguel Faria. Encontrou-o louco, internado no Sanatório Meduna, dirigido pelo psiquiatra, ex-presidente do IPASE e deputado cassado Clidenor de Freitas.

Miguel recebeu doutor George em sua tranquila e chestertoneana loucura. Mas não queria saber nada de negócios. Só de política:

– George, o Piauí precisa de sua ajuda. Nós estamos cansados de eleger governadores sãos. Nenhum deles prestou. Agora queremos um doido para o governo do Estado.

– E quem é o candidato, Miguel?

– É aqui o nosso colega doutor Clidenor.

OUTRA DE LOUCO – Mão Cheinha era louco no Ceará. Levaram-no para o Sanatório Meduna, de Clidenor de Freitas, em Teresina. Com o tempo, Mão Cheinha virou louco-chefe. Tomava conta dos outros. Há sempre um louco cuidando dos bons.

No sanatório, havia uma mangueira que nunca dava manga. Mão Cheinha não entendia aquilo. Um dia, chamou oito loucos:

– Olha, minha gente, vocês são mangas maduras. Vão lá para cima. Quando eu gritar, as mangas caem, porque manga madura cai. Uma a uma.

Os oito subiram. Mão Cheinha, cá de baixo, gritou:

– Manga um!

Poff. E um louco se esborrachou no chão.

– Manga dois! Manga três! Manga quatro!

E eles iam se largando lá de cima e arrebentando-se cá embaixo.

Mão Cheinha gritou: – Manga sete!

O sete respondeu: – Mão Cheinha, chama a Manga oito, que eu ainda estou verde.

Almoçando com um gênio antigo e imortal, que se chamava Agripino Grieco

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Agripino Grieco criticava a literatura e tudo o mais

Sebastião Nery

Saí do almoço, fui direto à enciclopédia ver a definição de águia: – “Ave de soberbo voo, garras potentes e tarsos plumosos, nidifica e habita nas montanhas”. Era ele. Nunca ninguém me dera tão forte a ideia de ave, de uma ave soberba. Cara de ave, nariz de ave, longos dedos de ave, finos e saltitantes olhos de ave, apesar de tudo não voava nem cantava. Era um homem. Um homem excepcional, como a águia é uma ave excepcional.

Milton Reis, deputado cassado, poeta, me telefonou convidando para almoçar em sua casa com Agripino Grieco. Fui pensando nos 85 anos do velho mestre que de tão longe me abriu as cancelas da literatura, nos primeiros anos do seminário, através de seus livros que me encantaram pela limpidez, pela autenticidade, pela coragem de dizer que A era A e Z era Z mesmo, pela agressiva competência com que exerceu a crítica literária acima de todas as corriolas da chamada vida literária, furando sem piedade a pança inflada de muito Sancho, com seu estilo de espada em punho de Dom Quixote.

AOS 85 ANOS – Carcaças Gloriosas, Zeros à Esquerda, Amigos e Inimigos do Brasil, O Boletim de Ariel, o rodapé em O Jornal, eu lera tudo há tanto tempo que fui imaginando encontrar os restos de um homem comido pela exaustão de setenta anos de contínua atividade intelectual.

Pois não era nada disso. Da porta, a voz entrou sala adentro, tinindo, retumbante, como de um jovem. E passou três horas falando, contando histórias, opinando, discutindo, citando trechos e trechos, prosa e verso, como torcedor de futebol cita escalação de time, com a naturalidade e o vigor de quem fez das ideias o pão de cada dia.

A memória era inimaginável, inesgotável. Sabia e lembrava tudo da literatura universal e nacional, autores, livros, personagens, datas, dias, meses, anos, minúcias, detalhes, como se fosse a vida dos filhos.

PALAVRA EXATA – E numa linguagem forte, enxuta, precisa, a palavra exata como fio de navalha, as frases saltando da boca, tonada, semicantadas, troantes, irrepreensíveis. E, sobretudo, vivas, vivíssimas, surpreendentemente acordadas e ensolaradas em um homem de oitenta e cinco anos.

As três horas de conversa dariam meio livro. Guardei um pouco apenas do que ele disse entre o aperitivo, o excelente almoço e a sobremesa. Milton Reis, Geraldo Mascarenhas, Aurélio Ferreira Guimarães foram testemunhas de que não vai aqui nem um terço do que ele lampejou, como diria com propriedade um jornalista de seu tempo. Quer dizer, de seu primeiro tempo, porque ele foi um homem de todos os tempos.

1 – Tenho memória trágica, recordo tudo. Se houvesse fosfato para diminuir memória, tomava. Às vezes ela dói.

2 – Elegeram-me presidente de honra da Academia de Letras de Caxias. Agora, sou duas vezes imortal: tomei posse e voltei.

3 – O Jorge Amado trocou a Gabriela pela Tereza Batista. É o lenocínio literário.

4 – Mineiro dá bom dia porque bom dia volta logo. É a terra onde olho vê, mão tira e pé corre. Por isso dá tanto banqueiro lá. O que é o batedor de carteira senão um banqueiro apressado?

5 – O primeiro artigo sobre o Gilberto Freyre quem escreveu fui eu. Casa Grande e Senzala é um livro bem pensado e mal escrito. Pensado da casa grande e escrito na senzala.

6 – Há sujeitos muito burros que às vezes conseguem fazer uma coisa boa. É a faísca da ferradura na calçada.

7 – Em 1906, eu era funcionário do Ministério da Viação e ia ser promovido. O decreto estava lavrado. Fiz um discurso para o Aarão Reis, meu chefe, e não me contive. Disse que ele era “o primeiro de nossos engenheiros, em ordem alfabética”. Ganhei a frase e perdi o cargo.

8 – O Eça de Queirós estava hospedado em hotel de Évora. Chamaram-no. Saiu parecendo um sudário com aquele caco de vidro no olho. Queriam um adjetivo original, exótico, para uma placa em homenagem a um advogado. Respondeu: – “Honesto”.

9 – O Carneiro Leão entrou na Academia. Estranhei: – Até agora os animais tinham entrado de um a um. Dois de uma vez é demais.

10 – Alguém me pergunta se deixei a Academia em paz. (Até hoje ninguém criticou tanto os imortais da Presidente Wilson como o gênio irônico do Méier).

Os bodes pretos que definiram a política no antigo Estado da Guanabara

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Chagas Freitas (com Cartola) gostava de se vestir de branco

Sebastião Nery

Quando o Senado e a Câmara Federal reabriram em março de 1970, senadores e deputados governistas foram ao Alvorada para uma visita sabuja de cortesia ao novo ditador, o general Médici. Chagas Freitas, então deputado, foi apresentado pela primeira vez ao presidente, que lhe disse: “Preciso falar com o senhor”.

Chagas ficou como uma vela de óculos. Puxou pelo braço o deputado Rubem Medina, da Guanabara, e um deputado da Arena de São Paulo, que tinha ouvido a conversa, e lhes perguntou, todo perturbado:

– Vocês imaginam o que seja?

– A sucessão carioca, evidentemente – disse Medina.

Mas o deputado paulista resolveu fazer uma brincadeira:

– Não é nada disso, e eu estou bem informado. Sua situação não está boa. Não quer dizer que você vai ser cassado. A Arena do Rio já foi avisada de que em hipótese alguma o governador será você. Problemas de organização do diretório, excessivo controle do partido. O presidente não quer uma solução do tipo PSP (o ex-partido de Ademar) para a Guanabara.

EM PÂNICO – Chagas saiu do Alvorada em pânico. No dia seguinte, voltou para o Rio e chamou seu staff para uma reunião em casa: Erasmo Martins Pedro, Miro Teixeira, Rossini Lopes, presidente da Assembleia, e outros. Contou a história e suspirou, olhando para o teto, por cima do aro dos óculos:

– Preciso tomar providência urgente. Já tinham me avisado que, se eu não fizer trabalhos seguros, o azar superará as possibilidades. Só uma força superior para enfrentar os “serviços” que estão fazendo contra mim.

Erasmo, evangélico, sorriu mole, não disse nada. Rossini resolveu:

– Sou “cambono” (acólito, ajudante de sessões de Umbanda) de “Seu 7 da Lira”. Dona Cacilda sabe de tudo e tem força para desmanchar.

Tocaram para o Terreiro de “Seu 7”, em Santíssimo. A comitiva tinha oito carros, um oficial, os demais particulares.

Chegaram exatamente à meia-noite, no meio da sessão. Chagas ficou no carro, Rossini entrou sozinho, falou com dona Cacilda. Ela interrompeu a sessão, recebeu Chagas reservadamente, para ele não ser visto pela gente toda que estava lá. “Seu 7” fez uma cara de horror:

– A situação é negra. Há muita gente convocando espíritos maus contra o senhor. Preciso fazer, e fazer logo, um trabalho pesado com 3 bodes pretos. Nem cabra nem carneiro servem. Só bode.

NA ESTRADA – Onde encontrar, naquela hora, 3 bodes pretos? Os 9 carros saíram em direção a Campo Grande. Pararam à beira da estrada, cabra tinha muita, mas bode nenhum. Chagas ficou com Erasmo dentro do Galaxie oficial e Rossini saiu comandando o pelotão dos caçadores de bode preto, todos agachados dentro do mato.

De repente, dentro da noite, vinda lá do matagal, ouviu-se a voz de comando de Rossini, gritando como um possesso:

– Vamos berrar que eles aparecem! Todo mundo berrando! E começaram todos a berrar:

– Béééé! Béééé! Béééé!

CHAGAS SUAVA… – Pelo berro ou pela sorte, às 4 da manhã três bodes pretos tinham sido capturados entre Santíssimo e Campo Grande, subúrbios do Rio. Chagas, aflito, suava como um cão de caça. E Erasmo, todo encabulado, pensava certamente na palavra de Deus, sagrada na Bíblia, que desde o Antigo Testamento proibiu adorar bodes e bezerros, mesmo quando de ouro.

Voltaram. “Seu 7” abriu os três bodes a facão, pegou as vísceras e passou, ensanguentadas, no corpo inteiro de Chagas, da cabeça aos pés. A roupa branca de Chagas parecia véu de Verônica. Foi um banho de sangue.

Um ano depois, Chagas tomava posse no governo da Guanabara. Nunca mais sobrou bode preto entre Santíssimo e Campo Grande.

Haja bode preto.

Alberto Silva hoje é visto como um estadista em busca do impossível

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Alberto Silva foi um dos maiores políticos do Nordeste

Sebastião Nery

“O difícil a gente faz hoje. O impossível faz-se amanhã”. Esta frase, lapidar, é a abertura do livro “Alberto Silva Uma Biografia” do brilhante jornalista piauiense Zózimo Tavares. “Nenhum político piauiense mexeu tanto com o imaginário de uma geração, na segunda metade do século 20, quanto o engenheiro Alberto Silva. Ao governar o Piauí pela primeira vez, entre 1971 e 1975, consagrou um etilo de gestão que o transformaria em um mito da política estadual.

Com engenhosidade e capacidade incomuns de construir sonhos, tornou-se o político piauiense mais popular de sua época. Em sua longa e intensa trajetória política, venceu e perdeu eleições; nunca, porém, perdeu a compostura.

SEM DESTEMPERO – Mesmo nos momentos mais críticos e mais tensos das campanhas eleitorais, ou nas crises mais agudas da administração, portou-se com altivez e manteve a determinação para enfrentar e resolver os problemas.

Alberto Silva foi um dos mais impiedosamente atacados da história do Piauí, contudo, ninguém jamais ouviu dele um destempero verbal. Fora do governo, amargou o ostracismo e a censura do poder, sem direito sequer de responder aos ataques desferidos pelos adversários, por meio da imprensa.

Um otimista por natureza. Para alguns, um megalomaníaco, com ideias mirabolantes e sonhos irrealizáveis. O tempo, senhor de todas as verdades, mostrou que seus sonhos de fazer um Piauí diferente não eram devaneios. Eram, antes de tudo, necessários.

GRANDIOSIDADE – O tempo também calou seus críticos, fazendo-os reconhecer a grandiosidade de suas ideias. Embora de um jeito meio disfarçado, deram o braço a torcer: Alberto era governante para um Estado como São Paulo, dono de condições econômico-financeiras e estruturais que permitem a realização de coisas grandiosas; não para o Piauí, pobre, atrasado e miseravelmente dependente da boa vontade de Brasília.

A importância de Alberto Silva para o Piauí está de tal forma gravada na cabeça do piauiense que, quando alguém quer demonstrar, do modo mais simples, a magnitude de sua obra, observa, apenas: “Tire as obras que Alberto Silva fez no Piauí e veja o que sobra”.

PÁGINAS AMARELAS – Ele foi o único governador do Piauí a ser entrevistado nas “Páginas Amarelas” da Revista Veja, que se impressionou com as proezas de sua gestão! Só outros dois piauienses ocupariam o mesmo e prestigiado espaço, ainda assim porque exerciam destacadas posições no plano nacional: Petrônio Portella, como presidente do Congresso (1971/1973 e 1977/1979), Reis Velloso, como ministro do Planejamento (1969/1979).

Pouco, muito pouco, se escreveu sobre Alberto Silva sem objetivos e interesses políticos imediatos. Chega a ser curioso que uma figura pública tão expressiva e múltipla não tenha chamado a atenção dos historiadores e pesquisadores.

Em livros, existem poucas obras sobre ele. O jornalista Tomaz Teixeira, seu fiel escudeiro, lançou A Outra Face da Oligarquia do Piauí, em 1979; e Alberto Silva – O Mito e o Político, em 2010. São dois depoimentos sobre o ídolo político e o seu tempo.

DOUTORADO – Na academia, a obra mais consistente – e talvez a única – sobre Alberto Silva foi produzida pela professora Cláudia Cristina da Silva Fontineles, da Universidade Federal do Piauí (UFPI). Trata-se de O Recito do Elogio e da Crítica – Maneiras de Durar de Alberto Silva na Memória e na História do Piauí. A obra é fruto de sua tese de Doutorado em História. Foi publicada em 2015, pela Editora da UFPI, e lançada na Academia Piauiense de Letras (APL). É uma densa e criteriosa pesquisa sobre o político Alberto Silva, seu objeto de estudo, à luz de um vasto aporte teórico e metodológico.

Este livro não esgota o rico manancial sobre a vasta contribuição política e administrativa de Alberto Silva. No máximo, procura assimilar o essencial do homem público que ele foi, e de sua obra, para que sua história seja conhecida também por novas e futuras gerações.

O professor e acadêmico M. Paulo Nunes, um dos luminares da Academia Piauiense de Letras, costuma repetir que se dizia do educador Anísio Teixeira que ele era um homem que sonhava com as mãos. Isto é, um homem que pensava e realizava. O mesmo se pode dizer de Alberto Silva – um homem que pensava grande e realizava, igualmente, obras grandiosas.”

Futebol e política, numa sucessão de chutes certeiros e boas defesas

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Sergio Porto, nosso saudoso Stanislaw, dizia que “no futebol a cabeça é o terceiro pé”. Os bretões o inventaram achando que aquilo era só uma brincadeira sem pé nem cabeça. E no entanto metade da humanidade continua em frente a uma TV.

Até macacos jogam. É clássica, e já contei aqui, a historia do Adalardo de Alegrete, no Rio Grande do Sul. A cidade estava em festa. O Cruzeiro de Porto Alegre tinha chegado para jogar contra o Alegrete Esporte Clube. Banda de música, bombacha e chimarrão. Um furor cívico.

O GOLEIRO – Na hora do jogo, a tragédia. O goleiro tinha tomado um porre de vinho e roncava no canto do vestiário. O primeiro reserva caíra do cavalo, quebrou a perna. O outro reserva fugira na véspera com a sobrinha.

A solução era o circo. Foram buscar o “Adalardo”, o macaco prodígio, que pegava coco jogado dos quatro cantos do picadeiro.

Adalardo não negou fogo. Camisa número um, piscando o olho e coçando a cabeça debaixo da trave, pegou tudo quanto foi bola. E ainda cuspia no centroavante. Foi um delírio. Acostumado aos aplausos, fazia pontes e defesas sensacionais. Alegrete cantava a trave fechada e a vitória.

Mas houve um pênalti contra o Alegrete. Adalardo achou que tinha havido uma sujeira. A cidade inteira olhava para ele calada. Por que não batiam palmas? Por que não aplaudiam? A culpa era certamente daquele homem todo de preto que tinha botado a bola ali na frente dele e mandara outro chutar. Antes do chute do pênalti, Adalardo enlouqueceu.

Saiu da trave aos pinotes, deu urros no meio do campo, avançou no juiz e lhe mordeu o dedo, quase arrancando. O jogo acabou empatado.

ZICO – O deputado Antonio Moraes, do MDB do Ceará, professor, radialista, arranjou uma maneira de aproveitar uma Copa do Mundo para continuar a campanha contra a Arena. Ia para o rádio, pegava o microfone, começava a irradiar uma hipotética partida de futebol:

– O Coronel Virgílio passa para o coronel Bezerra, o coronel Bezerra passa para o coronel César Cals, o coronel Cals avança, dribla, chuta ….. “Gooolll. Goooollll contra o Ceará”!

E pedia voto para o senador Mauro Benevides,“o Zico de Iracema”.

OSORIO – Osório Vilas-Boas, vereador, presidente da Câmara Municipal de Salvador, candidato a prefeito, deputado do MDB, acabou cassado pelo AI-5 em 1969. Em maio de 64, era presidente do Esporte Clube Bahia, o maior do Estado. Ia embarcar para os EUA com seu time para um torneio em Nova York, recebeu ofício do consulado americano:

“Consulado Americano, Salvador, Bahia, Brasil, 19 de maio de 64.

Ilmo. Sr. Osório Vilas-Boas, Rua Aurelino Leal, 36, nesta.

Prezado Senhor: este escritório lamenta informar que está impossibilitado de dar o visto a V.Sa., porque se verificou que V. Sa. é inelegível (sic) para visto, sob a seguinte seção da “Lei de Imigração e Nacionalidade”:

 “Seção 212 (a) (28) (3), a qual proíbe a concessão de vistos a qualquer pessoa que advogue, ou pertença ou seja filiada a grupos que advoguem a doutrina do comunismo mundial. No entanto, poderemos dar maiores considerações ao seu requerimento para visto se V. Sa. Obtiver e apresentar a este escritório os seguintes documentos: atestado assinado pela polícia e pelas autoridades militares em como V. Sa. não advogou ou foi filiado a grupos que advogam a doutrina do comunismo mundial.

“Atenciosamente, pelo cônsul, Roberto E. Service – vice-cônsul”.

Osório acabou indo e o Bahia se vingou do consulado idiota.

VINGANÇA – Osório Vilas Boas, presidente do clube Bahia por longos anos, era deputado talentoso e bom orador. Na AssemblEia, o deputado Durval Gama, médico, não tinha condições de discutir com ele, apelou:

– V. Exa. é um analfabeto, não pode transformar esta casa em uma Assembleia de terceira categoria.

– Sou quase analfabeto, sim, mas tenho vivência. Conheço o mundo inteiro viajando com o Bahia. V. Exa. sabe qual é a capital da Escócia?

– Não sei não.

– Pois eu sei. Glasgow. E estive lá.

Durval Gama desistiu.

NEGRÃO – No bar de Ipanema, no Rio, um grupo de rapazes bebia e papeava. Um deles começou a desancar o Negrão:

– Nosso mal é esse Negrão. Vocês vão ver, vamos nos enterrar por causa dele. Não tem mais jeito. O Negrão está velho, cansado, preguiçoso. Não é mais aquele. Por que insistir nele? O negócio era tirar e mandar descansar. Tem muita gente melhor para o lugar do Negrão.

Do lado, um policial ouvia e esperava. Quando o garoto parou para tomar fôlego, estava seguro:

– Vamos, está preso. Está aí pregando a derrubada do governador.

– O senhor está é maluco. Será que neste país a gente não pode mais falar mal nem do Pelé?

Ele estava falando mal era mesmo do Negrão de Lima, governador da Guanabara. Mas Pelé, o outro Negrão, salvou mais uma jogada.

Faroeste em família, na sangrenta política dos irmãos Góis Monteiro

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Silvestre Péricles de Gois Monteiro se sentia o dono de Alagoas

Sebastião Nery

“Se me aborrecerem o pau canta e não pára mais”; “O governador é quem manda em Alagoas e o que ele faz há de ser respeitado, custe o que custar, haja o que houver”; “O governador me perguntou (a um deputado da oposição, preso) se eu estava armado. Respondi-lhe que não era habituado a usar armas. Sacou então de um punhal ou faca e me ofereceu para que o matasse. Repeli. Tirou da cintura um revólver e me ofereceu para que eu o matasse”.

E mais: “A Assembléia está cheia de ladrões públicos. Eu vos afirmo com a responsabilidade de primeiro magistrado das Alagoas que haveremos de esmagar esses canalhas a pontapés e bofetões”; “Aqui quem resolve sou eu. Você acha que eu vá deixar alguém meter o bedelho em Alagoas? Tenho a faca e o queijo na mão. O meu sucessor tem que sair dessa cachola. Aqui em Alagoas quem manda sou eu”.

E mais ainda: “Um repórter me perguntou se eu ia indicar o futuro governador. Ora, se eu sou o dono de Alagoas, como é que eu ia aceitar essa coisa de indicar? Quem vai fazer o governador que me sucederá sou eu. Se o general Góis me der apoio, terei 90% dos votos. Se ficar neutro, terei 70% ou 80%. Mas se o general ficar contra, pode escrever que ele apanha”; “A Policia Militar está pronta para cumprir e fazer cumprir a lei e até viola-la para que não seja embaraçado o programa do governo. As fraquezas do regime não podem beneficiar os inimigos”.

SILVESTRE PÉRICLES – Isso aí não era conversa de Herodes, de nenhum sátrapa do mundo antigo ou qualquer sultão enlouquecido. Eram entrevistas de um general brasileiro, Silvestre Péricles de Goes Monteiro, governador de Alagoas entre 1947 e 1950, aos jornais do Estado, à ”Agência Meridional” dos “Diários Associados de Assis Chateaubriand, à “Folha da Manhã” (de São Paulo), ao “Correio da Manhã”, à “Tribuna da Imprensa”.

O espanto nacional era tanto que seu irmão, também militar, o senador Ismar Góis Monteiro, do PSD, ex-interventor de Alagoas, reagiu: “Alagoas está vivendo sob o regime do crer ou morrer. Já esperava a saída do PSD do governador Silvestre Péricles. O seu partido é o do ego e qualquer rótulo serve. O demônio anda solto em Alagoas. Não pára, não cansa, enlutando lares, ceifando vidas. Não sai o cheiro de enxofre, mas o cheio da pólvora homicida, o odor do sangue de suas vítimas”.

IMPEACHMENT – Na Assembleia, a oposição pediu impeachment ou intervenção:

“Já disse que impeachment é palavra inglesa. E intervenção é um termo empregado em cirurgia. Se houvesse impeachment ou intervenção em Alagoas, quem poderia aplicá-las era exatamente eu, porque tenho autoridade moral e patriótica para fazê-lo. Assassinos e roubadores estão a zombar. Aqui há muitas lagoas para afogá-los”

“Estou aqui eleito pelo povo,não existe força capaz de abalar-me. Repito a frase de Floriano Peixoto : “Desta cadeira, só a lei ou a morte me tiram”. E se existe alguma duvida sobre a minha ação, que se apressem no processo de impeachment ou intervenção, para sentir as consequências”.

GOIS MONTEIRO – O general Aurélio Góis Monteiro, também senador do PSD, declarou: “Não me envolverei mais na política partidária de Alagoas, tradicionalmente dissolvente, e, sob certos aspectos, sórdida”.

Mas deu entrevista solidário com o irmão (e contra os outros dois): “Ou acabo com o PSD alagoano ou o PSD acaba comigo. Lutei durante um ano para obter um entendimento. Edgard (mais um Góis, irmão deles) tudo fez para acalmar os ânimos. Não há ameaças de massacre aos deputados. Ainda (sic) não há necessidade disso. Se isso vier a ser necessário, quem comandará o massacre sou eu em pessoa”.

Um político exemplar, chamado Paes de Andrade

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Câmara lança um livro sobre a trajetória de Paes de Andrade

Sebastião Nery

Paes de Andrade, sempre que retornava a Fortaleza, reunia em sua casa os amigos para um convescote. Chegávamos – uns vinte – para o almoço de carneiro e para todas aquelas relembranças da história política do Ceará, em que o Filho de Mombaça havia sido personagem marcante por mais de meio século.

O carneiro do Paes, preparado pelas mãos competentes da cozinheira Francinete e apresentado em várias modalidades culinárias, fazia o regalo dos convidados e a inveja posterior dos que, por viagem ou distração, haviam se ausentado daquela mesa farta de sabor sertanejo e prosaica convivência.

HOMENAGEM – Quando o nosso líder morreu, naquele malfadado 17 de junho de 2015, em Brasília, resolvemos, na semana seguinte, reunir em Fortaleza, naquele mesmo endereço da Praia de Iracema, os frequentadores do almoço do Paes para a última carneirada.

Nesse dia todos compareceram. Eram uns trinta. Dona Zildinha, ainda muito abalada, não veio, mas ficou, de Brasília, acompanhando em tempo real toda a reunião. Estavam ali muitos familiares, filhas, genros e netos. Antigos companheiros das jornadas políticas e várias gerações de admiradores reprisavam passagens épicas ou simplesmente hilárias daquele cavaleiro andante, que por décadas exercera mandatos legislativos e missões públicas com desenvoltura lhaneza e afilada competência.

UM RETRATO – Eu havia pintado um retrato do ilustre personagem, que, belamente emoldurado por providência de Carlos Castelo, deveria ser solenemente entronizado naquela sala em que ele costumeiramente nos recebia.

Houve discursos e relatos memoriais. E, quando foi descerrado o pano, declamei o poema composto de madrugada, sob forte impacto emocional e justificada dor: Cantiga de Saudade para Paes de Andrade.

Juarez Leitão, poeta, historiador, membro da academia Cearense de Letras e do Instituto do Ceará, com o brilho dos poetas relembrou Paes de Andrade.

RESPEITO – Em Roma e Paris, como Adido Cultural, fui testemunha e participante do respeito com que era recebido pelas lideranças políticas e culturais, como o professor da Universidade de Coimbra, José Joaquim Gomes Canotilho, professor Diamantino Durão, Reitor da Universidade Lusíada de Lisboa, a direção da Mason da l’Amérique Latine e tantos outros.

O livro “Paes de Andrade, o político, o jurídico, o militante democrático” – editado pela Câmara dos Deputados – é o caloroso depoimento sobre uma época.

Nas histórias de ministros da Agricultura, Severo Gomes piando feito macuco

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Severo Gomes entendia muito de cachaça e de macuco

Sebastião Nery

Nereu Ramos assumiu a presidência da República em 1955, para garantir a posse de Juscelino, e pediu a Antonio Balbino, governador da Bahia, um nome para o Ministério da Agricultura. Balbino mandou chamar o deputado baiano Eduardo Catalão, fazendeiro de cacau, elegante e britânico, depois seu suplente no Senado:

– Catalão, indiquei seu nome para representar a Bahia no Ministério. Já dei seu nome ao presidente Nereu, que quer conversar com você hoje.

– Não, Balbino, de maneira alguma. Não posso aceitar. A Bahia tem homens experientes e mais bem preparados para a função do que eu. Não é justo que seja eu o ministro. E você sabe que não tenho ambições políticas.

– Não é nada disso, Catalão. Você está é com medo da situação nacional. Você sabe que este é um governo eventual, de crise. Se fosse em período normal, um governo tranquilo, você aceitaria. Mas como poderá sair do gabinete ministerial para ser fuzilado em praça pública, não aceita.

Catalão levantou-se, inteiramente surpreendido com a veemência do amigo, bateu a mão na mesa e encerrou a conversa:

– Pois se é para ser fuzilado, aceito.

Foi ministro da Agricultura. Não foi fuzilado.

GOVERNO CASTELO – Oscar Thompson era secretário da Agricultura do governo de Adhemar de Barros em São Paulo, em 1964. Depois do golpe militar, o presidente Castelo Branco mandou Adhemar indicar o ministro da Agricultura. Adhemar fez uma vasta lista. Castello vetou todos. Até que aceitou Oscar Thompson, formado pela Escola Agrícola Luiz de Queiróz, em Piracicaba.

Assumiu em 14 de abril. Em 16 de junho, Castello lhe telefonou mandando fazer uma demissão no ministério. Oscar Thompson respondeu:

– Tudo bem, Presidente. Mas antes vou comunicar ao governador.

– Quer dizer que o senhor vai comunicar antes ao Adhemar? Pois não vai ter tempo de comunicar nada. Já está demitido.

Bateu o telefone e o substituiu por Hugo Leme, diretor da Escola Agrícola Luiz de Queiroz de Piracicaba. Só durou seis meses, até o AI-2 de outubro de 1965, porque Castelo precisou do cargo para dar a Ney Braga, que deixava com sucesso o governo do Paraná.

COSTA E SILVA – Em 15 se março de 1967, o general Costa e Silva assumiu a presidência da República. Ivo Arzua, ex-prefeito de Curitiba, foi indicado para presidente do BNH (Banco Nacional de Habitação), mas Mário Trindade, o então presidente, não queria sair e conseguiu ficar. O jeito foi Costa e Silva convidar Ivo Arzua para Agricultura.

Mas Ivo Arzua não distinguia um morango de um mamão. Desesperado, internou-se 30 dias na Copamar (Cooperativa Agrícola de Maringá), onde fez um curso concentrado de agricultura. E assumiu.

SEVERO GOMES – No governo Castelo Branco, o saudoso Severo Gomes era ministro da Agricultura. Em Feira de Santana, na Bahia, presidiu uma solenidade. Depois, pediu uma cachacinha. Trouxeram sem rótulo, com o desafio:

– Queremos ver se o senhor diz de onde ela é.

Severo provou, gostou, arriscou: – Esta cachaça é de Januária.

Era. Ao lado, sorriso mole e olhos vidrados, escarrapachado numa cadeirinha de vime, um puxa-saco gordo, muito gordo, não se conteve:  – Vá entender de agricultura na puta que o pariu.

IGUAL A MACUCO – Ministro da Industria e Comercio de Geisel, Severo foi caçar macuco, um fim de semana, em sua fazenda perto de Parati. Macuco se caça piando, para chamar. O ministro estava piando mato adentro, veio um puxa-saco:

– Dr. Severo, o senhor pia macuco melhor do que muito macuco.

Começo de ano é tempo de festa e de relembrar algumas poesias

Resultado de imagem para paulo mendes camposSebastião Nery

Há séculos os irlandeses nos ensinam esta lição. Nosso eterno poeta, o Paulo Mendes Campos, traduziu em versos de luz:

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UMA VELHA BENÇÃO IRLANDESA

Que a benção da luz
seja contigo, a luz exterior e a luz interior.

A Santa luz do Sol
brilhe sobre ti e aqueça teu coração
até que ele resplandeça
como um grande fogo de turfa,
e assim o forasteiro possa vir e nele se aquecer,
como também o amigo.

A luz brilhe de dentro de teus olhos,
como a candeia colocada na janela de uma casa,
oferecendo ao peregrino um refúgio à tormenta.

E a benção da chuva,
a chuva suave e boa, seja contigo.
Que ela tombe sobre tua alma
para que as pequenas flores
todas possam surgir e derramar suavidade na brisa.

A benção das grandes chuvas seja contigo,
caindo em tua alma para lavá-la bem lavada,
e nela deixando muitas poças reluzentes,
onde o azul do céu possa brilhar,
e às vezes uma estrela.

E a benção da terra,
a grande terra redonda, seja contigo;
sempre tenhas uma saudação amiga
aos que passam por ti ao longo dos caminhos.
A terra seja macia debaixo de ti
quando nela repousares, cansado ao fim do dia,
e leve ela descanse sobre ti,
quando no fim te deitares debaixo dela.

Tão leve ela descanse sobre ti,
que a tua alma cedo se liberte de seu peso,
livre e leve, no caminho de Deus.

E agora o Senhor te abençoe,
com toda a bondade te abençoe.”

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MEUS VERSOS TRISTES – Mas também há instantes de dor. O “Anjo Azul” foi um bar de Salvador por onde passaram gerações de poetas ou de boêmios. No golpe militar de 1964, há meio século, alguém não gostou de um pequeno poema meu pendurado na parede. Sua ira explodiu em um tiro que perturbou a madrugada. Eram apenas versos tristes de um sonolento jornalista:

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NO ANJO AZUL
Sebastião Nery

Há um hálito de dor nestas paredes.
Há arcanjos ensanguentados arrastando sombras neste chão.
Aqui o teto escuro escancara a boca em vigas tortas
E vai pingando, babando, gotas de solidão em minha’alma.

Aqui meus fracassos, como cobras,
Escorregam mágoas no cimento cansado
E mulheres de olhos mortos choram crianças que eu não fui.

Aqui a vida explode,
O tempo não anda,
A morte não mata.

Você não é o meu amor.

Rubens Paiva e Eunice, um casal a ser eternamente lembrado

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Eunice e Rubens Paiva, antes do golpe militar de 64

Sebastião Nery

Era 20 de janeiro de 1971, feriado, dia de São Sebastião, padroeiro do Rio e meu. Antes das dez da manhã, a caminho da praia, parei o carro em frente à casa do deputado do PTB paulista, cassado, Rubens Paiva, na Avenida Delfim Moreira, Leblon, Rio. Minha filha, colega da filha dele, desceu para pegar a amiga. Mandei um recado:

– Diga ao Rubens que não entramos porque estamos todos com roupa de praia. Quando voltarmos, passaremos aqui para dar-lhe um abraço.

Ela subiu, demorou um pouco, desceu com a Malu e me perguntou:

– Você brigou com o tio Rubens?  Ele estava no quarto, calçando o sapato, com três homens de paletó e gravata.

Fiquei calado. Vi quatro suspeitas kombis brancas em torno da casa, com varias pessoas dentro, olhando estranhamente para nós. Quando chegamos à praia, disse à minha mulher :

– Estão prendendo o Rubens. Aquelas kombis estão sem placas.

ERA A AERONÁUTICA – Não fiquei tranquilo. Apressamos o banho de mar e na volta já ninguém chegava mais perto da casa cercada, com a avenida fechada. Parei mais adiante e o porteiro de um prédio próximo me contou:

– É a Aeronáutica prendendo um cara daquela casa.

Voltei rápido e aflito. Era preciso espalhar urgente a notícia. Mal entramos em casa, ali perto, na Marquês de São Vicente, toca o telefone:

– Minha filha está com vocês?

– Está, sim. O que aconteceu?

– Cuidem dela.

E desligou. Era Eunice, mulher do Rubens, que seria presa a seguir.

ZÉ APARECIDO – Peguei o carro, fui correndo à casa do José Aparecido. Na véspera, havíamos jantado lá com o Rubens. Entre outros, lá estava o Bocaiúva Cunha, também cassado e sócio de Rubens numa empresa de engenharia. Na saída do jantar, Rubens pegou um cartão (“Rubens Paiva, engenheiro civil”), escreveu dois números de telefone (“223.1512  e  227.5362”), me entregou (guardo até hoje):

– Você anda sumido, acompanho pela “Tribuna” e o “Politika”. Vamos conversar. Passe lá amanhã para um uísque. É dia de seu padroeiro.

Eu o conhecia desde 1953. Em 1962, nos elegemos, ele deputado federal por São Paulo, eu estadual pela Bahia. E nos encontrávamos nas lutas do governo Jango. Ele foi diretor do “Jornal de Debates” e cassado na primeira lista do golpe militar de 1964, por ter feito parte da CPI do IBAD, que denunciou inclusive o farsante do Lincoln Gordon, embaixador dos Estados Unidos no Brasil. Em 1965, Rubens assumiu a direção da “Ultima Hora” de São Paulo, onde vivi um ano clandestino e trabalhei escrevendo anonimamente.

AVISAR OS AMIGOS – Foi uma noite desesperadora. Com Aparecido, tomando todos os cuidados, fomos à casa de Bocaiúva e também à de Waldir Pires. Ninguém devia falar ao telefone, naqueles sinistros anos do governo Médici. Mas era preciso avisar aos amigos, sobretudo de São Paulo e Brasília, fazer um cerco antes do pior.

Não adiantou. No dia 21, soubemos que fora levado para o notório Brigadeiro Bournier, da Aeronáutica, e de lá entregue ao DOI-CODI do Exercito, na Barão de Mesquita.

Já no dia 23, a certeza de que tinha sido assassinado. O jornal “O Dia”, do Chagas Freitas, em manchete fraudada, com a foto de um carro queimado, dizia que “o carro que o transportava do comando da 3ª Zona Aérea da Aeronáutica para o DOI-CODI do Exercito tinha sido interceptado por desconhecidos, que o teriam sequestrado”.

Eunice Paiva, presa com uma filha e incomunicável durante 15 dias, quando saiu lutou como uma leoa. Morreu na semana passada.

Como entender o fracasso da educação pública num país como o Brasil

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Charge do Junião (junião.com.br)

Sebastião Nery

A educação de qualidade é o fator determinante para o crescimento da economia e, por consequência, do desenvolvimento. Sua ausência determina baixíssima qualificação da mão de obra resultando na baixa produtividade. Educação e economia estão integradas na ordem direta de um país responsável que almeje pela elevação da renda à inclusão social. Sem priorizar a educação torna-se impossível a construção de uma nação desenvolvida. Buscar um padrão educacional moderno a exemplo de países como a Finlândia, Coréia do Sul, Japão e vários outros que construíram modelos educacionais que mudaram a realidade do seu povo deve ser o grande objetivo de um ministro da Educação comprometido com a modernização.

Segundo o excelente analista Rolf Kuntz, em “O Estado de S.Paulo” (25-11-2018), qualquer candidato a cuidar da educação brasileira deveria estar preparado para enfrentar pelo menos as seguintes questões:

1) Por que os alunos brasileiros vão tão mal no Pisa, o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes?

2) Como melhorar os níveis fundamental e médio do ensino brasileiro, obviamente em condições muito más?

3) Como adaptar o ensino às condições impostas (sim, impostas) pela chamada revolução 4.0?

4) Como preparar professores para formar alunos capazes de atuar com sucesso na economia do século 21?

5) Que experiências bem sucedidas no exterior poderiam proporcionar elementos a um programa de modernização educacional?”

INEFICIÊNCIA – Rolf Kuntz destaca que padrões ideológicos ou religiosos não podem prevalecer na condução da educação brasileira. A ineficiência da educação brasileira tem várias causas e uma delas não é decorrente de o Brasil investir pouco na formação educacional. A baixíssima qualidade da educação nacional não tem como responsável a insuficiência de recursos.

Sua origem está na inexistência de uma política educacional séria, competente e realista. Educação é política de Estado e pauta suprapartidária. A incompetência e irresponsabilidade na gestão dos recursos públicos pela União, Estados e Municípios alimentam e agravam o caos educacional.

O economista, engenheiro eletrônico pelo Instituto Tecnológico da Aeronáutica e professor Ricardo Paes de Barros, ante essa realidade indaga: “Como você coloca 6% do PIB na educação e eles dizem que não sabem como garantir resultados?”

SEM PRIORIDADE – Em 2017, o governo da União aplicou R$ 117,2 bilhões em educação. Sendo R$ 75,4 bilhões no ensino superior e R$ 34,6 bilhões na educação básica. O governo federal nos ensinos básicos e fundamental tem papel supletivo em relação aos Estados e Municípios. A diferença do montante de recursos exemplifica o porquê de o ensino básico e fundamental sofre de déficit educacional histórico. Exatamente as áreas que deveriam ter prioridade maior no recebimento de recursos públicos.

A síntese disso tudo pode ser resumida em uma estrutura educacional viciada, envolvendo União, Estados e Municípios. Prioridades erradas na administração dos recursos destinados à formação das novas gerações é realidade inquestionável. A deficiência no aprendizado, fruto de uma educação sofrível no ensino básico, é agravada pela elevada evasão no ensino médio, travando a construção do futuro de novas gerações e aprofundando a desigualdade da renda e a pobreza para milhões de brasileiros. Todos vítimas de uma péssima educação, como mostra o professor universitário Hélio Duque, autor de vários livros sobre economia brasileira e três vezes deputado federal pelo Paraná.

Novos governadores estão condenados a administrar situações de pré-falência

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Charge do Nani (nanihumor.com)

Sebastião Nery

Ao ignorar o limite para as despesas de pessoal, os Estados brasileiros geraram a falta de liquidez do crescimento da dívida pública, bloqueando investimentos e atingindo a população na prestação de serviços públicos. Os novos governadores vão receber uma herança maldita: a crise fiscal, buscando urgência no ajuste das contas públicas. Adiar essa questão levará à insolvência muitas unidades federativas.

É gravíssima a situação fiscal na maioria dos Estados. Os governadores que assumirão o poder herdarão a falta de prudência das administrações passadas, elevação de despesas sem a contrapartida na capacidade de arrecadação.

REFORMAS PROFUNDAS – A carência de investimentos dos Estados está se refletindo na ausência de recursos nas áreas de educação, saúde, segurança pública e infraestrutura. O descumprimento da Lei de Responsabilidade Fiscal gerou a dramática realidade. A alternativa é buscar disciplinada política fiscal, e reformas profundas.

Vai exigir coragem de estadistas, não temendo a impopularidade momentânea, implantando corajosa reforma no aparelho estatal para evitar o colapso dos serviços públicos. Um exemplo é a extrapolação das despesas com salários e aposentadorias que vem estourando o limite de gastos com pessoal.

Recente relatório do Tesouro Nacional atesta que essa questão vem se agravando, e 16 Estados podem vir a ser declarados insolventes. É um grande desafio para os novos governadores. Muitos dos seus antecessores desrespeitaram a Lei de Responsabilidade Fiscal que fixa o teto máximo de 60% da Receita Corrente Líquida para a folha de pessoal.

ACIMA DO LIMITE – O Tesouro Nacional constatou que em cinco Estados, o gasto com pessoal ultrapassou 75% da receita corrente líquida: Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Rio Grande do Norte, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul. Acima de 60% da receita estão: Distrito Federal, Piauí, Tocantins, Mato Grosso, Acre, Sergipe, Paraíba, Roraima, Alagoas, Bahia, Paraná e Santa Catarina.

O alerta de Ana Carla Abrão Costa, ex-secretária da Fazenda de Goiás é oportuno: “Todos os Estados estão na mesma correnteza, com uma grande queda à frente na qual alguns já foram tragados. É trajetória insustentável. Se os Estados não fizerem ajustes, as despesas com pessoal vão consumir toda a receita, determinando o colapso dos serviços públicos”. O economista Raul Velloso na mesma direção lembra que a principal fonte de desequilíbrio está na folha de pagamento dos aposentados e inativos.

PREVIDÊNCIA – O Anuário Estatístico da Previdência Social traduz em números essa realidade: em Minas Gerais os servidores ativos são 217.034; os inativos e pensionistas, 319.043. No Rio Grande do Sul, os ativos são 117.934 e os inativos e pensionistas, 205.835. No Rio de Janeiro são ativos 215.265 contra 253.009 inativos e pensionistas. Em Santa Catarina, são ativos 65.112 e 66.557 inativos e pensionistas. Nos demais Estados, o número de servidores ativos ainda é maior com diferenças mínimas, mas tendente ao crescimento de inativos e pensionistas ao longo dos próximos anos.

Alguns governos estaduais esconderam a fragilidade das contas públicas pela maquiagem contábil. A finalidade era demonstrar que estavam nos limites fixados pela Lei de Responsabilidade Fiscal, para a política de gastos com pessoal. A artificialidade fiscal agora cobra o preço da falsificação dos números. Desequilíbrio orçamentário é caminho seguro para o insucesso de qualquer administração.

Insanidade nas redes sociais significa retrocesso após avanço do iluminismo

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Charge do Edra (Arquivo Google)

Sebastião Nery

Quem é bom não falha. O professor paranaense Hélio Duque continua incansável: “No ciclo evolutivo da humanidade, o iluminismo no século XVIII impôs o predomínio da razão sobre a visão teocêntrica (religiosa) que dominou a Europa por toda a Idade Média. Fundamentava-se no pensamento racional e na evolução do humanismo, daí ser qualificado como o século das luzes. Influenciou a Revolução Francesa com o trinômio Liberdade, Igualdade e Fraternidade. Igualmente a Revolução Americana com a independência das colônias inglesas que originou nos Estados Unidos da América”.

Redigida em 1789, a Declaração dos Direitos Humanos é filha legítima do iluminismo. O francês François-Marie Arouet, adotando o pseudônimo Voltaire, sublimou a sua essência: “Não concordo com uma palavra do que dizes, mas defenderei até o último instante seu direito de dizê-la.”

VALORES A PRESERVAR – Diz Helio Duque que, nesse tempo digital, de internet e redes sociais, é preciso preservar os valores civilizatórios do iluminismo. Poderosa tecnologia, as redes sociais vêm se desenvolvendo com dinamismo incomum, para o bem e para o mal, gerando grandes contribuições na informação instantânea seja nos celulares, facebook, instagram ou whatsapp.

Na outra ponta vem adulterando a realidade derivado da proliferação das chamadas “fakes news.” Introduziram um novo padrão nos modelos tradicionais nas relações pessoais, influenciando a formação da opinião pública, além dos veículos tradicionais de comunicação.

Passou a ser parte integrante do cotidiano das pessoas. Negar a importância das redes sociais nas relações contemporâneas seria desconhecer a realidade.

TERRITÓRIO LIVRE – O ponto crítico é que vêm se tornando força poderosa na disseminação de conflitos pessoais, políticos, étnicos e outras gradações. É o território livre para a expressão de opiniões sobre qualquer assunto, mesmo quando não se conhece o que se debate. Agrega-se que questões pessoais têm aflorado de maneira perigosa. O bom senso e equilíbrio deixam de existir pela agressão gratuita, transformando o oponente em inimigo.

No caso, a mentira e a calúnia são protegidas pela ausência de uma legislação punitiva. Protege o delinquente ante a infâmia proferida. Crimes digitais e chantagens encontram nas redes sociais terreno fértil, exigindo o máximo de cuidado e responsabilidade pela enorme quantidade de notícias falsas veiculados nas redes sociais. Em certo casos estão fazendo aflorar o que o ser humano tem de pior.

UMA SÍNTESE – O jornalista Diego Escosteguy, sintetizou: “Abrir as redes sociais tornou-se um ato de fé e de coragem; a cada esquina digital, esbarra-se na ignorância orgulhosa, na incivilidade boçal, na intolerância odiosa.”

É oportuno o fato do cientista pioneiro de computação e um dos maiores conhecedores da realidade virtual no mundo, o norte americano Jaron Lanier, ter o seu quinto livro lançado no Brasil. A polêmica começa pelo título “Dez argumentos para você deletar agora suas redes sociais”. Fixando o prazo de seis meses para o internauta “retomar a consciência de si próprio”.

DEZ ARGUMENTOS – A jornalista Paula Soprana, especialista em on-line e novas tecnologias influenciadoras de comportamentos da sociedade, fez na Folha de S.Paulo importante entrevista com o autor, destacando os 10 argumentos de Jaron Lanier, sobre a internet:

1 -“Você está perdendo o seu livre-arbítrio; 2- “Largar as redes sociais é a maneira mais certeira de resistir à insanidade dos nossos tempos”; 3-“As redes sociais estão tornando você um babaca”; 4-As redes sociais minam a verdade”; 5-“As redes sociais transformam o que você diz em algo sem sentido”; 6-“As redes sociais destroem sua capacidade de empatia”; 7-“As redes sociais deixam você infeliz”; 8-“As redes sociais não querem que você tenha dignidade econômica”; 9-“As redes sociais tornam a política impossível”; e 10-“As redes sociais odeiam sua alma.”

O polêmico livro de Jaron Lanier, sendo ele pioneiro da realidade virtual mundial, não pode deixar se ser lido pelos internautas responsáveis e adeptos da informação séria e consistente. Certamente a maioria daqueles que frequentam marginalmente as redes sociais, militantes da “guerrilha virtual”, desqualificarão as observações do experiente cientista, ignorando ser ele um dos internautas mais importantes do mundo e fiel defensor dos valores humanistas, recomenda o prof. Helio Duque.

Recomenda-se o novo livro de Ricupero: “A diplomacia na construção do Brasil”

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Ricúpero relembra o que é fazer diplomacia de verdade

Sebastião Nery

Nas relações internacionais a diplomacia exerce papel fundamental na construção e consolidação da visão que o mundo tem sobre o país. O livro “A diplomacia na construção do Brasil: 1750-2016”, do embaixador Rubens Ricupero, é leitura fascinante. Revela 266 anos, desde os tempos coloniais, da luta dos brasileiros para integrar o país com o mundo. Enfatiza, da colônia portuguesa até a contemporaneidade, o objetivo brasileiro de ter presença na comunidade internacional. 

Leitura recomendável para os futuros ocupantes do poder que, a partir de 1º de janeiro de 2019, terão a missão de governar o Brasil. Devem estar conscientes da importância do Ministério das Relações Exteriores na manutenção de relações harmônicas entre Estados soberanos. Fundamentada nos ensinamentos da história, entendendo que a diplomacia busca resolver conflitos sem uso da ofensa ou da violência nas relações internacionais.

POLÍTICA DE ESTADO – Como disse a jornalista Eliane Cantanhêde “política externa é de Estado e não de governo. Em política externa é o interesse do Brasil acima de tudo e de todos”.

Não existe ideologia nas relações econômicas e comerciais. John Foster Dulles, secretário de Estado dos EUA, definiu: “Uma nação não tem amigos, tem interesses”. A defesa dos interesses nacionais é o grande balizador. O governo de Jair Bolsonaro produziu na área externa, antes de assumir o poder, três extravagâncias diplomáticas contra Argentina, China e países árabes.

Em relação à Argentina, foi ignorado o fato de ser o maior mercado na exportação de bens manufaturados. E sólidas relações econômicas e comerciais. A China, desde 2009 é o principal parceiro e mercado mundial para os produtos brasileiros, com “superávits” crescentes na escala de 20 bilhões de dólares, no comércio externo.

VAI CUSTAR CARO – Um alinhamento brasileiro com a política exterior do presidente dos Estados Unidos, em relação aos chineses, como em editorial do jornal “China Daily”, principal porta voz do governo, alertou “pode custar caro ao Brasil”. Os investimentos da China no Brasil são estimados em R$ 124 bilhões. No comércio exterior, as exportações do Brasil, até agosto, atingiram US$ 74 bilhões. Com elevado saldo que nos favorece nas exportações.

O anúncio da mudança da nossa Embaixada de Tel Aviv para Jerusalém, é gratuita hostilidade aos países árabes. Negando o papel histórico do brasileiro Oswaldo Aranha, quando presidente da Assembleia Geral, apoiava a criação do Estado de Israel e defendeu igualmente a criação de um Estado árabe palestino. O Brasil sempre teve posição definida defendendo dois Estados na região. Se mantida a decisão, os reflexos econômicos e comerciais serão claros.

SUPERÁVIT – Em 2017, as exportações brasileiras para o mundo árabe representaram US$ 13,7 bilhões com “superávit” favorável ao Brasil de US$ 7,7 bilhões. Hoje a quarta parceria comercial do Brasil com o mundo, tem nos países árabes mercado em ascensão, destacadamente para os produtos do agronegócio. Os EUA, ao transferir a sua Embaixada para Jerusalém, tem a única companhia de um país periférico, Guatemala, que é presidida pelo pastor evangélico Jimmy Morales, adepto da chamada “verdade bíblica” da eterna Jerusalém.

Por tudo isso, não deve o novo governo brasileiro insistir nas relações internacionais em posições de confronto.

Democracia é respeito ao voto sem veto, para enfim buscar o desenvolvimento

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Charge do Laerte ( laerte.com)

Sebastião Nery

No jogo democrático ganha a eleição quem faz mais votos. Na democracia, a manifestação popular deve ser respeitada e acatada mesmo pelos que não gostem do resultado. Nas sociedades civilizadas os descontentes têm a responsabilidade de aguardar as próximas eleições. Os brasileiros se manifestaram contra a corrupção e pela renovação política. Muitos detentores de mandatos no executivo e no legislativo achavam-se ungidos e herdeiros hereditários. Muitos foram aposentados compulsoriamente pelas urnas. Outros, em menor número, sobreviveram nas províncias menos desenvolvidas.

O clima de crispação, azedando as relações sociais, em muitos casos, teve no discurso do ódio e da intolerância seu núcleo alimentador. É dever do presidente eleito reconhecer que o Estado Democrático de Direito é o principal balizador no impedimento de aventuras autoritárias.

TODOS IGUAIS – Na democracia todos são iguais e têm o mesmo direito de manifestação nos limites que impõe o Estado de Direito. Na ordem democrática a divergência não pode e não deve ser catalogada como ação de adversários da ordem estabelecida. É necessário ter a consciência de que um Presidente da República pode fazer muita coisa, mas não pode tudo. A harmonia dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário é fundamental na garantia do Estado de Direito.

O resultado eleitoral de 28 de outubro traduziu em números essa realidade. O candidato Jair Bolsonaro teve 57,5% milhões de voto. O opositor Fernando Haddad obteve 46,5 milhões de votos. Destacadamente a soma das abstenções, mais votos brancos e nulos, atingiu 42,4 milhões.

O vitorioso Bolsonaro teve 39,2 da totalidade dos eleitores registrados no Tribunal Superior Eleitoral. Numa clara demonstração de vontade da sociedade de ver o clima beligerante e ódio irracional banida do cotidiano dos brasileiros. O mandato conferido ao novo presidente, pelo voto, não admite contestação, reconhecido pelo próprio candidato opositor.

OS DESAFIOS – Infelizmente os grandes problemas econômicos e sociais que atingem diretamente a vida de milhões de brasileiros estiveram ausentea na disputa eleitoral. O grande desafio agora é enxergar um Brasil que precisa retomar a razão e implantar o caminho do reencontro consigo mesmo, buscando o desenvolvimento, após viver a maior recessão econômica da sua história.

Fruto de governos irresponsáveis e incompetentes que dividiram a nação entre “nós” e “eles”. Nesses governos a corrupção se implantou como política de Estado e alargou-se em todas as áreas da administração pública. Nas unidades federativas, o exemplo do governador Sergio Cabral não é fato isolado. A corrupção sistêmica e organizada marcou um tempo que precisa ser sepultado.

O novo governo da República, ao assumir em 1º de janeiro de 2019, encontrará um Brasil que superou, graças a uma equipe econômica competente, a brutal recessão que determinou uma década perdida no desenvolvimento nacional.

AGENDA POSITIVA – A realidade que o espera permitirá que amplie uma agenda positiva. E prestigie nomes como de Ilan Goldfajn, no Banco Central e economistas competentes como Mansueto Almeida, Ana Paula Vescovi, Marcelo Caetano, Jorge Rachid e outros notáveis administradores da máquina pública comprometidos unicamente a servir ao Estado brasileiro.

O futuro governo dará um tiro de largada muito bem servido na estrutura pública. Enxergando o futuro e propondo soluções para a crise estrutural da economia brasileira deve ser o caminho adotado. Enfrentando a corrupção, a violência nos centros urbanos, a falência da saúde pública, a deplorável qualidade da educação e o corporativismo nos três poderes da República.

Uma agenda reformista, confrontando o rombo das contas públicas, privatização de empresas ineficientes, reforma da previdência, são medidas iniciais impopulares, mas fundamentais para recolocar o Brasil na rota segura do desenvolvimento.

Memórias de Bosco Tenorio, caminhando e contando casos mundo afora

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Bosco Tenório, um nome na História

Sebastião Nery

“O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia, / Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia. / Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia” – dizia Fernando Pessoa, assinando como Alberto Caieiro

Em 1958 um rio da história correu pelo Brasil. Juscelino era Presidente e Celso Furtado criava a Sudene com Romulo Almeida. Os dois não sabiam que começava ali um novo capítulo da história nacional.

Getúlio, eleito Presidente em 1950, convocara o economista baiano Romulo Almeida, secretario de Planejamento do governador da Bahia Antonio Balbino, com a missão de construir um novo caminho para a economia nacional, assessorado pelos economistas Roberto Campos, Jesus Soares Pereira, Ottolmy Strauch, Cleantho de Paiva Leite, Juvenal Osório, Roland Corbisier, Hélio Jaguaribe, reunidos no ISEB, (Instituto Superior de Estudos Brasileiros).

DEPOIS, A SUDENE – Dela nasceram o BNDES, o Banco do Nordeste. Dois anos depois, em 1958, Juscelino eleito presidente, o convocado foi Celso Furtado, e criaram a Sudene a partir de uma reunião em Garanhuns. Uma vez por mês, Celso e Romulo se reuniam em Salvador convocando amigos e assessores para ampliarem aliados e liderados. Como assessor do Romulo, acabei criando o Jornal da Semana e me elegendo Deputado na Assembleia da Bahia.

Numa dessas reuniões, conheci em Recife o brilhante líder estudantil João Bosco Tenório Galvão, cassado da Faculdade de Direito de Recife, e eleito vereador. Aos poucos a Sudene ia reunindo em torno de si uma gama enorme de jovens lideranças que lá iam discutir os problemas de Pernambuco e do pais com as mais diversas posições políticas e ideológicas. Por exemplo: o governador Moura Cavalcante e seu chefe de gabinete Júlio Araújo, o líder estudantil de Natal Sileno Ribeiro, os jornalistas Anchieta Hélcias e Ângelo Castelo Branco. A partir daí, logo Bosco Tenorio assumiu uma ativa liderança em toda a Universidade e em vários estados.

SOUBE FAZER A HORA – Este livro é um poderoso depoimento de alguém que soube fazer a hora e não esperou acontecer. Capitulo a capitulo, Bosco vai evocando fatos que viveu e situações do seu tempo. Por exemplo:

“A Primavera de Praga”; “A UNICAP (Universidade Católica de Pernambuco) e 1968”; “Abaixo da Linha do Equador”; “Alegria, Alegria”; “Amizades que Perduram”; “Antonio Correa de Oliveira Andrade Filho”; “Atenas e Jerusalém”; “Azar do México”; “Che Guevara – O Cupido do Caribe”; “Chuva em Amã”.

Leiam esse livro. Não é todo dia que se encontra um texto tão claro e tão interessante.”

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Este é o prefácio que fiz para o livro “Caminhando e Contando casos mundo afora” e será lançado amanhã, dia 7, em Recife.

O Joezil Carvalho já arrebanhou gente de toda nação pernambucana, Olinda e além mar. Por enquanto a festa começa no Recife.

A lição de 1974 e a resposta das urnas nesta eleição de 2018

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Ulysses, Tancredo e Montoro, em defesa da democracia

Sebastião Nery

Quando meu saudoso colega e amigo César Mesquita, diretor da Editora Francisco Alves, me telefonou, no dia 15 de outubro de 1974, intimando-me a escrever um livro sobre as eleições de 15 de novembro, tive medo de mim e do tempo. Ele me disse: – Nery, temos exatamente sessenta dias para colocá-lo nas bancas. Um mês para você escrever até 15 de novembro e um mês para editarmos.

– Mas, Cesar, o Brasil é muito grande. São 22 Estados. E não o farei sem visitar, pesquisar, testemunhar um a um. E ainda publicar o resultado.

– Vire-se. É preciso guardar para a história a nitidez dos acontecimentos ainda não deformados pelo correr do tempo, nem ao sabor das interpretações. Precisamos dar ao país um livro-documento sobre as eleições de 15 de novembro. Tem que sair até 15 de dezembro.

ESCREVENDO – Sai viajando e escrevendo. Conversando e escrevendo. Documentando e escrevendo. O governo, poderoso e soberbo, achava que a Arena ganharia tudo, porque, em 1970, quase havia eliminado a oposição, a ponto de muita gente do MDB achar que a oposição devia desistir e fechar o MDB.

Mas os povos só conquistam o amanhã quando têm líderes que os ensinam a pensar. Os profetas, os sábios do Oriente, os filósofos gregos, os enciclopedistas, os pais da Independência Americana, os estadistas ingleses e franceses, esses é que plantaram a história com as mãos.

Veneza passou sete séculos sem que os doges pudessem transferir o poder para um herdeiro. Foi a mais longa república democrática da história.

REAÇÃO SILENCIOSA – À medida que ia chegando aos maiores Estados fui percebendo que havia uma reação silenciosa na população e o governo podia levar um susto.

E levou. Mais do que um susto, o governo foi literalmente atropelado. Perdeu em 16 Estados e só ganhou em 6, como contei e documentei no livro que fez tanto sucesso : “As 16 Derrotas que Abalaram o Brasil”. Dos seis maiores Estados, perdeu em cinco: São Paulo, Minas, Rio Grande do Sul, Pernambuco e Paraná. E só ganhou em um: Bahia.

No pais, a votação do MDB, somada, foi maior do que a da Arena. Só as vitórias em dez dos onze maiores Estados (São Paulo, Rio Grande do Sul, Guanabara, Minas, Paraná, Pernambuco, Estado do Rio, Goiás, Santa Catarina, Paraíba, menos Bahia) mostraram que, se fosse para a presidência da Republica, a oposição teria feito o Presidente e 16 governadores.

DUPLO SEGREDO – Qual o segredo da campanha e da vitoria? Era duplo. Um, orgulhosa cabeleira grisalha de galã de antigamente. O outro, modestos fiapos de cabelos inteiramente brancos na cabeça nua. Um, mestre da cátedra. O outro, catedrático da política. E aos dois, mais do que a quaisquer outros, o Brasil ficou devendo, em 1974, o reaprender da velha lição, eterna como a humanidade, do poder da palavra.

Ulysses Guimarães e Franco Montoro foram os generais da guerra que a oposição ganhou no país. E brigaram na garganta. Poucas vezes, na história do Brasil, dois homens falaram tanto a tanta gente em tão pouco tempo. Basta pesquisar jornais e revistas do segundo semestre de 1974. Eles estavam lá, dia a dia, indormidos, no plantão da palavra.

NAVEGAR É PRECISO – Desde o magnífico discurso com que, em 1973, navegando com Fernando Pessoa, iniciou sua campanha de anticandidato à presidência da República, Ulysses Guimarães havia continuado o caminho aberto um ano antes pela bravura de Oscar Pedroso Horta, da volta do bom texto à política brasileira. Na sessão do Congresso que elegeu Geisel, Ulysses de novo despertou o país com um pronunciamento exemplarmente bem escrito.

E poderosamente forte. Não parou mais. Nas TVs ou na imprensa, o presidente da oposição fornecia aos candidatos do MDB uma dose maciça e permanente de ideias e frases que logo eram repetidas em milhares de palanques. E quando a vitória chegou, ele a recebeu lúcido como sempre.

O tom de Franco Montoro era mais ameno, didático. Ensinava: “Na vida pública, como na ciência, os erros devem ser investigados e não escondidos. Só a crítica pode corrigir as falhas e promover o progresso.”

SIMPLES COMO A VERDADE – Tudo simples, exato e evidente como a verdade. Por isso seus programas de TV, nos Estados, estouravam índices de audiência:

– Montoro chegou, falou, virou.

Era o poder da palavra que Padre Vieira chamava de sagrado poder.

A oposição, hoje, está perdida como o MDB de 1970. Falta-lhe um Ulysses, um Montoro, que mostre ao pais a verdade escondida nas gavetas dos Mensalões e da corrupção governamental comandada pelo PT. Lula fala com a arrogância e a certeza da impunidade dos generais de 1974.

Grossas grossuras, com Pedro II, Sarney, Senghor e Ademar de Barros

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Ademar de Barros fez uma das maiores grosserias

Sebastião Nery

Uma tarde, no Império, enquanto passeava a cavalo, o Imperador Dom Pedro II caiu do cavalo. O Rio se encheu de boatos. O Imperador estava mal, seria internado e, quem sabe, talvez tivesse que ir tratar-se em Lisboa ou Paris. Ainda não havia Incor, Sírio-Libanês etc.

Os boatos continuaram. O Imperador apareceu na sacada do Paço Imperial apoiado em duas “muletas”. O jornal “Aurora Fluminense”, dirigido por Evaristo da Veiga, nosso bravo patrono, nome da rua onde está hoje o Sindicato dos Jornalistas do Rio, publicou que “o Imperador apareceu na sacada do Paço apoiado em duas “maletas”. No dia seguinte, o “Aurora” consertou:

– “Ontem, por lamentável equívoco, nosso jornal publicou que o Imperador apareceu na sacada do Paço Imperial apoiado em duas “maletas”. Na verdade, o Imperador estava apoiado em duas mulatas”.

A emenda ficou pior do que o soneto.

HOSPITALIZADO – Quando presidente da Republica, Sarney veio ao Rio e foi xingado por um grupo de brizolistas que quebrou as janelas de um ônibus da Presidência onde ele estava. Na TV Manchete, a jornalista Jacyra Lucas se atrapalhou e disse que ele foi “hospitalizado” em vez de “hostilizado”.

Com Sarney não foi nem “muleta”, nem “maleta”, nem “mulata”. Foi mesmo a “maleita” do Poder.

POETA SENGHOR – Negro, alto, elegante, Leopold Senghor (1906-2001) foi o grande herói do Senegal, desde quando colônia francesa. Poeta, teórico da “negritude” e da poesia africana, formado na Sorbonne, professor em Dacar, deputado na Assembleia Nacional da França, em 58 ajudou a fundar o PUA (Partido da Unidade Africana).

Liderou a independência do Senegal, prendeu o ditador Mamadou Dia e em 1960 foi o primeiro presidente eleito de seu pais.

Em 1965, Senghor esteve no Brasil como presidente. Ademar de Barros era governador de São Paulo. O programa elaborado pelo Itamaraty previa uma visita ao Estado. Senghor, conhecido por sua cultura, falava diversas línguas, inclusive o português, ficou bem à vontade no Brasil.

Quando o chefe do cerimonial do Palácio dos Bandeirantes anunciou a presença do visitante, Ademar gritou lá de dentro:

– Manda o crioulo entrar.

Senghor ouviu, mas fingiu que ignorava o português e cumprimentou Ademar em francês. Ademar, que também falava várias línguas, continuou com suas irreverências, conversando em francês com o presidente e entremeando a conversa com frases em português:

– Estou maluco para ver as canelas desse crioulo. Se forem finas e de calcanhar alto, ele é bom de enxada, conforme dizia meu avô na fazenda.

Ademar levou-o a visitar a cidade, a Assembleia, o Ibirapuera, os cartões de visita. No dia seguinte, foi até o aeroporto de Congonhas, de onde Senghor seguiu para Brasília. Depois, Ademar disse aos jornalistas:

– Vejam só. Não sei o que esse pretinho veio fazer aqui. Comprar o quê? Assinar o quê? Nem sei onde fica o Senegal.

Senghor vingou-se. Contou tudo no livro que escreveu sobre o Brasil.

Nenhum governo terá êxito se não adotar as reformas fundamentais

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Charge do Nani (nanihumor.com)

Sebastião Nery

Mais uma vez o país estará definindo seu futuro. Diante do presidencialismo de coalisão, quem for eleito agora tem um desafio: vai governar para o povo ou vai se submeter ao fisiologismo do Congresso Nacional, agravados com descontrole da dívida pública bruta atual de 88% do PIB, que pode atingir 95% em 2023, de acordo com projeção do FMI. Nos países emergentes a média é de 40%. No período, algumas políticas sociais introduziram mecanismos que amenizaram, mas não resolveram a dramática pobreza brasileira.

A questão social é grave pela concentração da renda, gerando privilégios indecorosos. Na outra ponta a renda do trabalhador, da classe média assalariada, está em processo de redução expressivo. O desemprego estrutural agrava essa realidade. São temas áridos da economia, que afetam a vida da maioria da população, mas ignorados nos programas presidenciáveis.

PRIVILÉGIOS – Diante dessa realidade, a farra dos privilégios é invencível na vida econômica nacional. No período de 2003 a 2016 (governos Lula, Dilma e Temer) o grande capital foi vitorioso, como demonstram os números. Os subsídios financeiros, desonerações e as renúncias tributárias, benefícios fiscais, custaram ao país R$ 3,5 trilhões (quase 1 trilhão de dólares). Isto em um governo que se dizia popular.

Em verdade, foi o beneficiador de grupos econômicos e bolsos de quem menos tem necessidade de favores oficiais, afetando diretamente o desenvolvimento, impactando a modernização produtiva e reduzindo a criação de um emprego.

A rigor, a administração pública brasileira, em diferentes governos, vem sendo capturada e vai elevando ano após ano a renúncia fiscal como política econômica de Estado. A elevada carga tributária brasileira é, também, consequência desses privilégios.

DÉFICIT PÚBLICO – No ano passado o déficit público nominal, diferença entre receitas e despesas, incluindo os juros da dívida pública, atingiu R$ 562 bilhões. Os brasileiros, pela ação do governo e visão parcial da mídia jornalística, omitem o “déficit nominal” e dão destaque somente ao “déficit primário” (excluindo os juros) que foi de R$ 155 bilhões.

Em 2019, quando assumirá o novo presidente da República, as renúncias e benefícios tributários crescerão em 8%. Atingirão R$ 306 bilhões, agravando ainda mais a situação econômica no primeiro ano do novo governo. Os grupos de interesses, formalizado no Congresso nas suas corporativas frentes parlamentares, não abrem mão dos seus privilégios.

Resta indagar: esse viés de política econômica não é um dos responsáveis pela desigualdade da renda nacional?

JUROS DO BNDES  – Um exemplo dessa deformação tem o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) como protagonista. Entre 2008 e 2015, o Tesouro Nacional captou a preços de mercado R$ 500 bilhões, depois emprestado a grandes empresas (a exemplo da JBS) a taxas de juros subsidiados, a TJLP, muito inferior à Selic.

Quem paga o subsídio implícito é a sociedade. Acrescente que poderosas empresas, a exemplo da indústria automobilística, usam largamente de incentivos tributários e redutíveis ao longo das últimas décadas.

Trabalho do Instituto Fiscal Independente constatou que, somente com empréstimos e financiamentos, o governo federal tem a receber R$ 1.545 trilhão. Os dois principais devedores são o BNDES, com R$ 636,3 bilhões e os Estados e Municípios, no total de R$ 577,0 bilhões. São questões dramáticas que serão enfrentadas por quem venha a ser eleito.

DESAFIOS SATÂNICOS – Se renascidos de volta ao mundo temporal, Jesus, Maomé ou Moisés, eleitos presidente da República, teriam desafios satânicos e diabólicos para colocar o Brasil em nível civilizatório na sua administração pública.

Ajuste fiscal, equilíbrio das contas públicas, abertura comercial, desconcentração da renda e justiça social seriam frentes de combate permanente. Valendo dizer que nenhum governo terá êxito se não adotar reformas fundamentais para o futuro do Brasil.

“Foi o Kim-1 que me prendeu, porque errei de Coreia”

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Nery (à esquerda) quando ainda errava de Coreia

Sebastião Nery

Alucinante aquela terça-feira, 30 de dezembro de 1952. Tinha 20 anos e amanheci preso em Belo Horizonte e na primeira página de todos os jornais de Minas, execrado com foto e tudo. Há apenas dois anos, ainda no seminário, de batina, piedoso, estudava Filosofia, para ser padre, talvez um dia bispo, quiçá cardeal. Na “Tribuna de Minas” a manchete era minha:

– “Confirmam-se as Acusações da TM sobre as Ligações do sr. José Mendonça com Elementos Comunistas. Preso ontem um redator de ‘O Diário’, justamente o homem de confiança do presidente do sindicato dos jornalistas de Minas. Carregava cartazes encimados pelo retrato de Prestes. Veem de longe as atividades subversivas do Sr. Sebastião Nery”.

O “Diario da Tarde”, também com manchete na primeira página:

– “Desmantelada Pela Policia uma Reunião Comunista – Varejada a sala de um prédio da rua Carijós. Efetuadas numerosas prisões. Apreendido farto material de propaganda vermelha”.

O “Estado de Minas”, como o “Diário da Tarde” também dos “Diários Associados” de Assis Chateaubriand, o maior jornal de Minas (o mais importante era “O Diário”), abriu manchete:

– “Mais de 40 Pessoas Foram Detidas Pelas Autoridades”.

O campeão de títulos berrantes era o “Diário de Minas”:

– “Surpreendidos os comunistas quando tramavam planos de ação”.

NO XADREZ – Dia seguinte, 31 de dezembro, Ano Novo, continuávamos presos, réveillon no xadrez, e a “Tribuna de Minas” não me dava folga:

– “Esse rapaz que apareceu nos jornais de ontem, fotografado com esse sorriso todo dentes, como se tivesse acabado de praticar a ação mais louvável desse mundo, é o tarefeiro comunista Sebastião Nery, de “O Diário”, o jornal do arcebispado, amigo e confidente do senhor José Mendonça, redator-chefe do jornal e presidente do Sindicato dos Jornalistas de Minas. Sebastião Nery foi preso com uma malta de desclassificados”.

Hoje, 66 anos depois, vejo os jornais e me surpreendo. Éramos todos muito jovens, nenhum de cara triste nem inocente. Sabíamos muito bem que estávamos em uma ação política proibida pela polícia e que, mais dia menos dia, seriamos soltos. Não havia crime nenhum.

Só uma frustração. Elegante, terno claro, gravata bonita, lencinho no bolso esquerdo do paletó, cabelo bem penteado, sorridente, meio abusado e desafiador, eu era bonito e não sabia, porque ninguém me dizia.

Quando a policia chegou à inauguração do “Movimento Mundial da Paz” em Minas, estávamos lá jovens estudantes e velhos lideres: Armando Ziller, venerando dirigente dos bancários e ex-deputado comunista,  sua bela filha Helia Ziller, estudante; Luis Bicalho, nosso professor na Faculdade de Filosofia; Aluisio Ordones, meu colega de Faculdade e vários outros.

Todos presos, socados em rádio-patrulhas. Lembro-me bem da calma da Helia que, empurrada aos tombos para dentro da radio patrulha, derrubada, levantou-se, sentou-se, abriu uma bolsa, tirou um pente e passou nos cabelos, alourados, lindos.

Depois de receber alguns tabefes, percebi que o simpático e magérrimo coronel Olimpio, da reserva do Exercito, havia desaparecido. Tinha sumido na hora. Dias depois, já solto, encontrei-o em outra reunião:

– O senhor é muito rápido, coronel. Foi o único que conseguiu fugir.

– Meu filho, não repita isso. Não fugi. Um oficial do Exercito brasileiro não foge. Bate em retirada.

AÇÃO DISFARÇADA – A reunião era uma ação disfarçada do Partido Comunista e da UJC, União da Juventude Comunista, drasticamente reprimidos pela polícia. Para atuarmos politicamente, lançávamos mão de atividades legais. Naquele dia, discutíamos o Brasil e o mundo e instalávamos em Minas o “Movimento Mundial da Paz”, criado na Finlândia para“combater a guerra”.

A guerra da Coreia dividia a opinião pública mundial e estávamos indignados com a Coréia do Sul, capitalista e ligada aos Estados Unidos, que, segundo pensávamos e denunciávamos, “havia criminosamente invadido a Coréia do Norte”, socialista e aliada da União Soviética e China.

ERREI DE CORÉIA – E por defender a Coreia do Norte e denunciar a Coreia do Sul é que tínhamos sido presos. Anos depois, Adido Cultural em Roma, fui a uma recepção ao ex-líder soviético Mikhail Gorbachev, que tinha acabado de ganhar o Prêmio Nobel da Paz e recebia grande homenagem da Itália.

Perguntei a Gorbachev quem, na guerra da Coreia, havia começado as hostilidades, quem tinha atacado quem e dele ouvi, perplexo, que a Coreia do Norte é que tinha invadido a Coreia do Sul e não como dizíamos.

Em 1952 eu estava enganado. Fui preso por causa do Kim-1, pai do Kim-2. Fui preso merecidamente. Errei de Coréia.