Em meio à quarentena, um poema exibe a necessidade de repensar o Brasil e o mundo

Desigualdade nos mantém na pobreza - Blog do Ari Cunha

Charge do Arionauro (Arquivo Google)

Celso Serra

Considero útil tudo o que leio – concorde ou não com a posição do autor –,  quando o texto me faz pensar. No dia 25/12/20, aqui na Tribuna da Internet, ao ler a poesia do nosso Paulo Peres intitulada “NATAL” mergulhei profundamente em meus pensamentos.

Paulo Peres começa por nos lembrar que, por interesses monetários, parte da humanidade vem substituindo no Natal a imagem e a filosofia religiosa de Jesus Cristo pela figura de Papai Noel.

NOEL DOS POBRES – Logo depois mergulha em nossa realidade mostrando que Papai Noel jamais se lembra das crianças pobres, notadamente aquelas no último degrau da pobreza que  – desabrigadas – dormem nas ruas nos bancos das praças ou sob marquises, com fome, com frio, sendo utilizadas pelos criminosos, ou seja, aprendizes do crime.

Inconformado com a situação que o nosso Brasil chegou, Paulo finaliza informando que jogou no lixo um enfeite de Papai Noel, armou um humilde presépio e na benção de Jesus Cristo festejará seu Natal.  Uma sincera lembrança e homenagem ao real e histórico passado.

Mergulhei no presente ano que se encerra – ano marcado por tanto medo, indignação e revolta com tudo, especialmente com os dirigentes dos povos, sejam asiáticos, europeus, africanos, americanos ou brasileiros – e me perguntei: o que realmente importa?

NATAL SOLITÁRIO – Familiares e amigos distantes, praias proibidas aos seres humanos, parques, lojas, restaurantes e bares fechados (sou carioca e os bares “fazem muita falta”, como dizia o saudoso João SaldanhaM gaúcho de nascimento e carioca de comportamento).

Rostos de pessoas bonitas cobertos por máscaras, sem ser Carnaval. Instituições de ensino fechadas para crianças e adultos. Lares transformados em melancólicos locais de trabalho. E um vírus imigrante inimigo invisível e pouco conhecido do lado de fora da porta, querendo entrar.

Com a injusta prisão domiciliar que me foi imposta – sem ter roubado qualquer centavo do dinheiro público, portanto, sem a necessidade de habeas corpus emitido por qualquer “garantista” do Supremo Tribunal Federal – a opção foi viajar para dentro, no que muito fui ajudado pela poesia do nosso Paulo Peres.

O QUE IMPORTA? – A pergunta que a mim fiz  (“o que realmente importa”)  escancarou uma enorme possibilidade de caminhos, por simples observação da vida que meus amigos estão sendo obrigados a levar: alguns se dedicaram à música, outros a trabalhos manuais, poucos à pintura e, os mais gulosos, à culinária. Os mais fleumáticos decidiram mergulhar em busca da espiritualidade e do autoconhecimento.

Hoje temos a certeza que todos os nossos pontos de referência possuem por origem o mundo externo, o mundo de nosso relacionamento: trabalho, amigos, família, escolas, clubes, associações culturais, academias de educação física, salões de beleza e barbearias, bares e outros pontos de encontros urbanos.

No momento – e isso se percebe na mídia e nas comunicações sociais – muitas pessoas têm medo que a totalidade desses pontos de encontro social possam desaparecer. Daí, começam a buscar o sentido da própria vida e a se questionar: “o que faço, qual a minha função social?”; “para onde vou?”; “para onde quero ir?”; “como encontrar a mim mesmo?

INCERTEZA E TEMOR – Não temos a menor dúvida que todo esse clima de isolamento, ansiedade e angústia, pode dar origem a sentimentos coletivos de incerteza e temor.

Nessa hora é que a internet surge como uma forma eficaz de conexão e que, em sinergia com a meditação pode ser uma ferramenta importante para tranquilizar a mente e ajudar a lidar melhor com esse momento tão cruel por que passa o ser humano.

Com o confinamento em nossas próprias residências, estamos sendo intimados a olhar para dentro de nós mesmos e a refletir sobre o que queremos fazer com nosso tempo, nossas aptidões, a sociedade em nosso entorno no presente momento e após essa tortura coletiva terminar.

O BRASIL PRECISA – Isso nos faz lembrar a poesia de Paulo Peres citada no início desse artigo, ela mostra, sem a menor dúvida, que o Brasil precisa de nosso trabalho.

Tenho a certeza de que, se aproveitarmos o confinamento a que estamos sendo submetidos para aperfeiçoar o conhecimento, cultivar paz psicológica, a autoconsciência e a luta por uma sociedade mais justa, sairemos da quarentena mais fortes do que ingressamos.

O confinamento, olhando pelo lado construtivo, pode nos proporcionar a conexão entre mente, espírito, corpo e disposição de luta para exigir dos agentes públicos uma sociedade mais justa, pois, afinal, pagamos uma carga tributária das mais altas do planeta.

É UMA CONVOCAÇÃO – Com o que o setor público arrecada, dentre outras necessidades, não era para mais existir crianças sem escolas, povo ser serviço de saúde eficiente, enorme número de brasileiros sem saneamento básico e moradores de rua passando terríveis necessidades.

A quarentena mostrou que poesia de Paulo Peres é uma convocação a todos nós para a luta por um Brasil mais justo.

Feliz 2021, com muita saúde e paz para todos. 

Na visão genial da “Disparada” de Geraldo Vandré, o boiadeiro podia ser um rei

Biografia de Geraldo Vandré desfaz mito do artista torturado - Jornal O Globo

Biografia de Vandré desfaz mito do artista torturado

Paulo Peres
Poemas & Canções

O advogado, cantor e compositor paraibano Geraldo Pedroso de Araújo Dias, mais conhecido como Geraldo Vandré, na letra de “Disparada”, faz uma crítica à ditadura vivida na época e, consequentemente, apresenta uma maravilhosa comparação entre a exploração das classes sociais pobres pelas mais ricas e a exploração das boiadas pelos boiadeiros, entre a maneira de se lidar com gado e se lidar com gente.

Neste sentido, a boiada é o povo, a massa (população inconsciente, alienada). Boiadeiro é um líder carismático, que pode ser político ou religioso. Logo, quando o povo começou a sonhar, teve revelações sob a realidade das coisas e, então, acordou da ignorância e teve consciência da realidade.

Em 1966, a música “Disparada”, defendida por Jair Rodrigues, participou do II Festival de Música Popular Brasileira (TV Record), dividindo o primeiro lugar com “A banda” de Chico Buarque, defendida por Nara Leão. Nesse mesmo ano, a música foi gravada pelo próprio Jair Rodrigues no LP O Sorriso de Jair, pela Philips.

DISPARADA
Théo de Barros e Geraldo Vandré

Prepare o seu coração
Prás coisas
Que eu vou contar
Eu venho lá do sertão
Eu venho lá do sertão
Eu venho lá do sertão
E posso não lhe agradar…

Aprendi a dizer não
Ver a morte sem chorar
E a morte, o destino, tudo
A morte e o destino, tudo
Estava fora do lugar
Eu vivo prá consertar…

Na boiada já fui boi
Mas um dia me montei
Não por um motivo meu
Ou de quem comigo houvesse
Que qualquer querer tivesse
Porém por necessidade
Do dono de uma boiada
Cujo vaqueiro morreu…

Boiadeiro muito tempo
Laço firme e braço forte
Muito gado, muita gente
Pela vida segurei
Seguia como num sonho
E boiadeiro era um rei…

Mas o mundo foi rodando
Nas patas do meu cavalo
E nos sonhos
Que fui sonhando
As visões se clareando
As visões se clareando
Até que um dia acordei…

Então não pude seguir
Valente em lugar tenente
E dono de gado e gente
Porque gado a gente marca
Tange, ferra, engorda e mata
Mas com gente é diferente…

Se você não concordar
Não posso me desculpar
Não canto prá enganar
Vou pegar minha viola
Vou deixar você de lado
Vou cantar noutro lugar

Na boiada já fui boi
Boiadeiro já fui rei
Não por mim nem por ninguém
Que junto comigo houvesse
Que quisesse ou que pudesse
Por qualquer coisa de seu
Por qualquer coisa de seu
Querer ir mais longe
Do que eu…

Mas o mundo foi rodando
Nas patas do meu cavalo
E já que um dia montei
Agora sou cavaleiro
Laço firme e braço forte
Num reino que não tem rei

A vida obscura de quem teve uma infância humilde, na visão simbolista de Cruz e Sousa

TRIBUNA DA INTERNET | Um homem bêbado, na poesia dura e realista de Cruz e SousaPaulo Peres
Poemas & Canções

O poeta João da Cruz e Sousa (1861-1898) nasceu em Desterro, atual Florianópolis, e tornou-se conhecido como o “Cisne Negro” de nosso Simbolismo, seu “arcanjo rebelde”, seu “esteta sofredor”, seu “divino mestre”. Procurou na arte a transfiguração da dor de viver e de enfrentar os duros problemas decorrentes da discriminação racial e social, características contidas no soneto “Vida Obscura”.

VIDA OBSCURA
Cruz e Sousa

Ninguém sentiu o teu espasmo obscuro,
Ó ser humilde entre os humildes seres,
Embriagado, tonto dos prazeres,
O mundo para ti foi negro e duro.

Atravessaste no silêncio escuro
A vida presa a trágicos deveres
E chegaste ao saber de altos saberes
Tornando-te mais simples e mais puro.

Ninguém te viu o sentimento inquieto,
Magoado, oculto e aterrador, secreto,
Que o coração te apunhalou no mundo.

Mas eu que sempre te segui os passos
Sei que cruz infernal prendeu-te os braços
E o teu suspiro como foi profundo!

Três poemas de Natal de Paulo Peres, um deles na trincheira do capitalismo selvagem

Charge: Natal. -

Charge do Cazo (aftm.com.br)

Carlos Newton

O advogado, jornalista, analista judiciário aposentado do Tribunal de Justiça (RJ), compositor, letrista e poeta carioca Paulo Roberto Peres inspirou-se no Natal para escrever estes três poemas.

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PAPAI NOEL

A lavagem cerebral
Do governo mundial
Substitui no Natal
Cristo por Papai Noel.

Comando inverso papel
De renas puxando trenó
Sobre a neve brasileira
Qual estórias da vovó.

Papai Noel na trincheira
Do capitalismo selvagem
Ilude com sua imagem
O cotidiano da criança.

Seja criança rica, seja criança pobre
Traz um sonho sempre nobre
Que Papai Noel não atenua
Quando é criança de rua.

Criança que dorme nos braços da lua,
Nos bancos das praças ou sob marquises
Com fome, com frio, do crime aprendizes,
Eivadas de medo, de drogas, de suicidas
Estatísticas nas elites esquecidas.

Crianças “crianças” nas brincadeiras,
Nas fantasias aventureiras
Do brinquedo improvisar
Esperando o Natal chegar.

O Papai Noel, como princípio,
Cujo enfeite sempre foi visto,
No lixo ontem joguei.

Armei um humilde presépio
E na bênção de Jesus Cristo
O Natal festejarei!..

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PARABÉNS, JESUS CRISTO!

Parabéns, Jesus Cristo,
Hoje é o seu aniversário!
Estamos felizes,
Embora façamos do cotidiano
Um Natal de sua sabedoria,
Pois os seus dogmas
São a Lei maior deste Universo.

Todavia, neste dia, especialmente,
Queremos presenteá-lo
Através de orações,
De canções e de reflexões.
Mestre, faça sua festa
Em nossos corações,
Abençoe e ilumine esta noite,
Onde o vinho, o pão e a fé
Sejam uma dádiva
Aos famintos e injustiçados.

Sinto-me gratificado
Em fazer do seu aniversário
O maior acontecimento da História
E nele desejar a todos
Um Feliz Natal!

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POEMA DE NATAL

Amigo,
como é gratificante
saber que você existe
e temos os mesmos ideais,
mormente, no que concerne ao
Natal,
dia este, onde cada pessoa
seja ela religiosa ou não,
em qualquer lugar do mundo,
tem que parar, tem que pensar,
tem que se curvar pelo
menos um segundo e festejar
o nascimento de
Jesus Cristo,
pois haverá sempre
alguém desejando um
Feliz Natal
e, não importa de que
maneira isto é feito,
importa sim
o seu significado
e a marca registrada
da presença eterna do
Messias
em cada Ser Humano!

A importância de preservar um Natal verdadeiramente brasileiro, na visão de dois poetas

Espetáculo de Folia de Reis será apresentado de graça em Catanduva | São  José do Rio Preto e Araçatuba | G1

Os três reis magos, festejados na folia do folclore brasileiro

Carlos Newton

Os poetas cariocas Paulo Peres e Chico Pereira escreveram este poema em parceria, inspirados no Natal do folclore brasileiro, mas precisamente, na Folia de Reis, que se inicia na noite de 24 de dezembro e se estende até 6 de janeiro, com a Festa de Reis.

FÉ E CANTORIA
Paulo Peres e Chico Pereira

Somos três Reis à sua porta
Pedindo licença para entrar
nossa visita importa
o nascimento louvar
Do Mestre Menino-Deus
através desta folia
dogmas cristãos meus
feitos de fé e cantoria
De longe escuto o teu tambor
uma luz forte anuncia o Salvador
o estandarte vem na frente
guiados pela estrela do Oriente
Mão calejada, pé-rachado
e a voz que sai esgoelada
Rei Herodes se disfarça de palhaço
Abro a porta, janela enfeitada
Uma oração singela é ofertada
O mestre, a farda, ladainha
Oração, chegada e despedida
Baltazar, Belchior e Gaspar
Reis da Folia
Nossa casa é uma casa de alegria
E gostaríamos de agradecer
Através desta folia
Aos santos reis magos
Por não deixarem esmorecer
A caminhada até Jesus
Pela fé no menino Jesus…
Nossa casa é uma casa de alegria
Sempre aberta para esta folia
Oração, fé e cantoria.

“Eu pensei que todo mundo fosse filho de Papai Noel”, dizia o genial compositor Assis Valente

Baiano Assis Valente é tema de musical que revela magnitude de sua obra -  Espaços Culturais - SecultBA - Secretaria de Cultura - Governo do Estado da  Bahia

Carmem Miranda adorava as músicas de Valente

Paulo Peres
Poemas & Canções

O compositor baiano José de Assis Valente (1911-1958), autor de grandes sucessos da MPB,  na marchinha “Boas Festas” criou uma das mais melancólicas e famosas letras da MPB, porque revela sua preocupação com a causa da criança pobre e infeliz, provavelmente, devido à sua própria infância. Composta em 1932 e gravada no ano seguinte por Carlos Galhardo, pela RCA Victor, esta marchinha tornou-se o “hino” do Natal brasileiro.

BOAS FESTAS
Assis Valente

Anoiteceu
O sino gemeu
A gente ficou
Feliz a cantar

Papai Noel
Vê se você tem
A felicidade
Pra você me dar.

Eu pensei que todo mundo
Fosse filho de Papai Noel
Bem assim felicidade
Eu pensei que fosse uma
Brincadeira de papel

Já faz tempo que eu pedi
Mas o meu Papai Noel
Não vem
Com certeza já morreu
Ou então felicidade
É brinquedo que não tem.

No Natal de Murilo Mendes, Anjos morenos sobrevoam o mar, os morros e arranha-céus

MURILO MENDES – FRASES – Pão de Canela e ProsaPaulo Peres
Poemas & Canções

O notário e poeta mineiro Murilo Monteiro Mendes (1901-1975), é considerado um dos maiores destaques do movimento surrealista no Brasil.

No poema “Natal”, ele realça o abrasileiramento do tema, com a presença de “anjos morenos” e a busca da paz de espírito anunciada pelo nascimento de Jesus.

NATAL
Murilo Mendes

Meu outro eu angustiado desloca o curso dos astros, atravessa
os espaços de fogo e toca a orla do manto divino.
O ser dos seres envia seu Filho para mim, para os outros que
O pedem e para os que O esquecem.
Uma criança dançando segura uma esfera azul com a cruz:
Vêm adorá-la brancos, pretos, portugueses, turcos, alemães,
russos, chineses, banhistas, beatas, cachorros e bandas de música.
A presença da criança transmite aos homens uma paz inefável
que eles comunicam nos seus lares a todos os amigos e parentes.
Anjos morenos sobrevoam o mar, os morros e arranha-céus,
desenrolando, em combinação com a rosa-dos-ventos,
grandes letreiros onde se lê: GLÓRIA A DEUS NAS
ALTURAS E PAZ NA TERRA AOS HOMENS DE BOA
VONTADE. 

Papai Noel de camiseta, bem brasileiro, na visão de Ivan Lins e Celso Viáfora

Ivan Lins e Celso Viáfora, dois grandes mestres

Paulo Peres
Poemas & Canções

O arranjador, cantor e compositor paulista Celso Viáfora, na letra de “Papai Noel de Camiseta”, soltou a imaginação para retratar uma realidade que para muita gente não existe. A música foi gravada por Ivan Lins no CD Um Novo Tempo, em 1999, pela Abril Music.

PAPAI NOEL DE CAMISETA
Ivan Lins e Celso Viáfora

Noel irá chegar de camiseta
metido num chinelo e de bermuda jeans
tocando agogô invés de uma sineta
cantando do xará o “Palpite Infeliz”
então, será Natal
A noite vai ser mais feliz

Estenderá uma toalha na sarjeta
em qualquer praça de subúrbio do País
trará cachaça, arroz, feijão, a malagueta
doce de leite, balas de goma e quindins
aí será Natal
A noite vai ser mais feliz

E surgirão blocos mirins
de suas camas de jornal
e dragqueens
os reis magros do carnaval
de pé no chão
os solitários da paixão
um tamborim
alguém trará um violão
um bandolim
e a multidão vai sambar com a batida dos sinos

Ali no morro nascerá mais um menino
e, no primeiro sol, virão os bentevis
Num dia de Natal a gente pode ser feliz

No Natal de Manuel Bandeira, surge a criança que resiste em cada um de nós

TRIBUNA DA INTERNET | Manuel Bandeira e a sensação de ser sempre menino na véspera de NatalPaulo Peres
Poemas & Canções

O crítico literário e de arte, professor de literatura, tradutor e poeta Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho (1886-1968), conhecido como Manuel Bandeira, no poema “Versos de Natal”, evoca a passagem do tempo numa dimensão metafísica, em que o adulto ainda permanece menino.

VERSOS DE NATAL
Manuel Bandeira

Espelho, amigo verdadeiro,
Tu refletes as minhas rugas,
Os meus cabelos brancos,
Os meus olhos míopes e cansados.
Espelho, amigo verdadeiro,
Mestre do realismo exato e minucioso,
Obrigado, obrigado!

Mas se fosses mágico,
Penetrarias até o fundo desse homem triste,
Descobririas o menino que sustenta esse homem,
O menino que não quer morrer,
Que não morrerá senão comigo,
O menino que todos os anos na véspera do Natal
Pensa ainda em pôr os seus chinelinhos atrás da porta

Num soneto de fim de ano, a pergunta que Machado de Assis celebrizou: “Mudaria o Natal ou mudei eu?”

A vida é cheia de obrigações que a... Machado de AssisPaulo Peres
Poemas & Canções

O jornalista, crítico literário, dramaturgo, folhetinista, romancista, contista, cronista e poeta carioca Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908), no “Soneto de Natal”, faz uma reflexão sobre o ato de criação artística.

SONETO DE NATAL
Machado de Assis

Um homem – era aquela noite amiga,
Noite cristã, berço do Nazareno –
Ao relembrar os dias de pequeno,
E a viva dança, e a lépida cantiga,

Quis transportar ao verso doce e ameno
As sensações de sua idade antiga
Naquela mesma velha noite amiga
Noite cristã, berço do Nazareno.

Escolheu o soneto… A folha branca
Pede-lhe a inspiração; mas frouxa e manca,
A pena não acode ao gesto seu.

E em vão lutando contra o metro adverso,
Só lhe saiu este pequeno verso:
“Mudaria o Natal ou mudei eu?”

Num cartão de Natal, João Cabral de Melo Neto pensa os homens reinaugurando a vida

A vida não se resolve com palavras. João Cabral de Melo NetoPaulo Peres
Poemas & Canções

O diplomata e poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto (1920-1999), no poema “Cartão de Natal”, mostra o simbolismo do reinício da vida que todo Natal propicia.

CARTÃO DE NATAL
João Cabral de Melo Neto

Pois que reinaugurando essa criança
pensam os homens
reinaugurar a sua vida
e começar novo caderno,
fresco como o pão do dia;
pois que nestes dias a aventura
parece em ponto de voo, e parece
que vão enfim poder
explodir suas sementes:

Que desta vez não perca este caderno
sua atração núbil para o dente;
que o entusiasmo conserve vivas
suas molas,
e possa enfim o ferro
comer a ferrugem,
o sim comer o não.

O cântico da mãe terra, na visão genial e universalista da poesia de Cora Coralina

Cora Coralina | Frases inspiracionais, Frases, Citações de inspiraçãoPaulo Peres
Poemas & Canções


Cora Coralina, pseudônimo de Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas (1880-1985), nasceu em Goiás Velho. Mulher simples, doceira de profissão, tendo vivido longe dos grandes centros urbanos, alheia a modismos literários, produziu uma obra poética rica em motivos do cotidiano do interior brasileiro, conforme este poema “Cântico da Terra”.

Vale ressaltar que a obra de Cora Coralina também nos mostra a vida simples dos becos e ruas históricas de Goiás Velho, a antiga capital do Estado.

O CÂNTICO DA TERRA
Cora Coralina

Eu sou a terra, eu sou a vida.
Do meu barro primeiro veio o homem.
De mim veio a mulher e veio o amor.
Veio a árvore, veio a fonte.
Vem o fruto e vem a flor.

Eu sou a fonte original de toda vida.
Sou o chão que se prende à tua casa.
Sou a telha da coberta de teu lar.
A mina constante de teu poço.
Sou a espiga generosa de teu gado
e certeza tranquila ao teu esforço.
Sou a razão de tua vida.
De mim vieste pela mão do Criador,
e a mim tu voltarás no fim da lida.
Só em mim acharás descanso e Paz.

Eu sou a grande Mãe Universal.
Tua filha, tua noiva e desposada.
A mulher e o ventre que fecundas.
Sou a gleba, a gestação, eu sou o amor.

A ti, ó lavrador, tudo quanto é meu.
Teu arado, tua foice, teu machado.
O berço pequenino de teu filho.
O algodão de tua veste
e o pão de tua casa.

E um dia bem distante
a mim tu voltarás.
E no canteiro materno de meu seio
tranquilo dormirás.

Plantemos a roça.
Lavremos a gleba.
Cuidemos do ninho,
do gado e da tulha.
Fartura teremos
e donos de sítio
felizes seremos.

Uma simples valsinha que demonstra o imenso talento de Vinicius de Moraes e Chico Buarque

Carta de Vinicius para Chico Buarque (parte II) | Eu, Vaca Gorda

Chico ensina a Vinicius como jogar futebol de botões

Paulo Peres
Poemas & Canções

Chico Buarque e Vinícius de Moraes (1913 –1980), uma dupla cuja obra traz uma beleza poética infinita, que dispensa quaisquer adjetivos e, neste diapasão, a música Valsinha, gravada por Chico Buarque, no LP Construção, em 1971, não foge à regra.
VALSINHA

Chico Buarque e Vinicius de Moraes

Um dia ele chegou tão diferente
Do seu jeito de sempre chegar
Olhou-a dum jeito muito mais quente
Do que sempre costumava olhar
E não maldisse a vida tanto quanto
Era seu jeito de sempre falar
E nem deixou-a só num canto,
Pra seu grande espanto convidou-a pra rodar

Então ela se fez bonita como há muito tempo não queria ousar
Com seu vestido decotado cheirando a guardado de tanto esperar
Depois os dois deram-se os braços como
há muito tempo não se usava dar
E cheios de ternura e graça foram para a praça
E começaram a se abraçar

E ali dançaram tanta dança que a vizinhança toda despertou
E foi tanta felicidade que toda a cidade se iluminou
E foram tantos beijos loucos
Tantos gritos roucos como não se ouvia mais
Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu
Em paz

Receita de Clarice Lispector: Busque aquilo que você quer ser, pois só temos uma vida

Clarice Lispector - PensadorPaulo Peres
Poemas & Canções

A escritora, jornalista e poeta Clarice Lispector (1920/1977), nascida na Ucrânia e naturalizada brasileira, sustenta que “O Sonho” é para ser praticado durante a vida, juntamente com muita felicidade.

O SONHO
Clarice Lispector

Sonhe com aquilo que você quer ser,
porque você possui apenas uma vida
e nela só se tem uma chance
de fazer aquilo que quer.

Tenha felicidade bastante para fazê-la doce.
Dificuldades para fazê-la forte.
Tristeza para fazê-la humana.
E esperança suficiente para fazê-la feliz.

As pessoas mais felizes não tem as melhores coisas.
Elas sabem fazer o melhor das oportunidades
que aparecem em seus caminhos.

A felicidade aparece para aqueles que choram.
Para aqueles que se machucam
Para aqueles que buscam e tentam sempre.
E para aqueles que reconhecem
a importância das pessoas que passaram por suas vidas.

Uma oração da noite, em que a genial Cecilia Meirelles revela que nunca foi feliz…

frases cecilia meireles : Blog do EliomarPaulo Peres
Poemas & Canções
 
A professora, jornalista e poeta carioca Cecília Meireles (1901-1964), no soneto “Oração da Noite”, repete seu cotidiano altruístico.    
ORAÇÃO DA NOITE

Cecília Meireles

Trabalhei, sem revoltas nem cansaços,No infecundo amargor da solitude:
As dores,  – embalei-as nos meus braços,
Como alguém que embalasse a juventude…

Acendi luzes, desdobrando espaços,
Aos olhos sem bondade ou sem virtude;
Consolei mágoas, tédios e fracassos
E fiz, a todos, todo o bem que pude!

Que o sonho deite bênçãos de ramagens
E névoas soltas de distância e ausência
Na minha alma, que nunca foi feliz.
Escondendo-me as tácitas voragens
De males que me deram, sem consciência.
Pelos míseros bens que sempre fiz!…  

Conheça a letra completa do clássico “Luar do Sertão”, jamais gravada na íntegra

Jaques Wagner - Com os versos de “Luar do Sertão”, obra de... | FacebookPaulo Peres
Poemas & Canções
 
A letra de Luar do Sertão, um dos maiores clássicos da MPB, é muito extensa e  nunca foi gravada integralmente. Foi o  maior sucesso do poeta, compositor e cantor maranhense Catulo da Paixão Cearense (1863-1946), em parceria com o músico João Pernambuco. Eis a letra completa e original, extraída do livro “Minhas Serestas” de Loris R. Pereira, paginas 61/64.

 

LUAR DO SERTÃO
João Pernambuco e Catulo da Paixão Cearense

“Não há, ó gente, oh não,
Luar, como este do sertão. ”
(refrão)
Oh que saudade do luar da minha terra,
Lá na serra branquejando,
Folhas secas pelo chão,
Esse luar cá da cidade, tão escuro,
Não tem aquela saudade,
Do luar lá do sertão.
(refrão)
Se a lua nasce por detrás, da verde mata,
Mais parece um sol de prata,
Prateando a solidão,
E a gente pega na viola que ponteia,
E a canção é a lua cheia,
A nos nascer no coração.
(refrão)
Quando vermelha, no sertão desponta a lua,
Dentro d’alma, onde flutua,
Também rubra, nasce a dor,
E a lua sobe…
E o sangue muda em claridade !
E a nossa dor muda em saudade…
Branca, assim, da mesma cor !!!
(refrão)
Ai !… Quem me dera, que eu morresse lá na serra,
Abraçado à minha terra e dormindo de uma vez !
Ser enterrado numa grota pequenina,
Onde à tarde a surunina,
Chora sua viuvez.
(refrão)
Diz uma trova,
Que o sertão todo conhece,
Que se à noite o céu floresce,
Nos encanta e nos seduz,
É porque rouba dos sertões as flores belas,
Com que faz essas estrelas,
Lá do seu jardim de luz !!!
(refrão)
Mas como é lindo ver depois,
Por entre o mato,
Deslizar, calmo o regato,
Transparente como um véu,
No leito azul das suas águas, murmurando,
Ir, por sua vez roubando,
As estrelas lá do céu !!!
(refrão)
A gente fria desta terra sem poesia,
Não se importa com esta lua,
Nem faz caso do luar,
Enquanto a onça, lá na verde capoeira,
Leva uma hora inteira,
Vendo a lua a meditar.
(refrão)
Coisa mais bela neste mundo não existe,
Do que ouvir um galo triste,
No sertão, se faz luar,
Parece até que a alma da lua é que descanta,
Escondida na garganta,
Desse galo a soluçar !!!
(refrão)
Se Deus me ouvisse, com amor e caridade,
Me faria esta vontade,
-O ideal do coração !
Era que a morte,
A descantar, me surpreendesse, e eu morresse
Numa noite de luar, no meu sertão !
(refrão)
E quando a lua surge em noites estreladas,
Nessas noites enluaradas, em divina aparição
Deus faz cantar o coração da natureza,
Para ver toda a beleza do luar do Maranhão !
(refrão)
Deus lá do céu, ouvindo um dia, essa harmonia,
-A do meu sertão, do meu sertão primaveril,
Disse aos arcanjos que era o hino da poesia,
E também a Ave Maria, da grandeza do Brasil !
(refrão)
Pois só nas noites do sertão de lua plena,
Quando a lua é uma açucena,
É uma flor primaveril,
É que o poeta, descantado a noite inteira….

Etelvina, acertei no milhar, ganhei quinhentos contos, não vou mais trabalhar”…

MOREIRA DA SILVA - ACERTEI NO MILHAR (GERALDO PEREIRA / WILSON BATISTA) -  YouTube

Moreira da Silva gravou esse tremendo sucesso

Paulo Peres

Poemas & Canções
 

O compositor mineiro Geraldo Theodoro Pereira (1918-1954) e seu parceiro Wilson Batista usaram um dos temas mais populares, o jogo do bicho, para fazer a letra do samba de breque “Acertei No Milhar”, gravado por Moreira da Silva, em 1940, na Odeon.

ACERTEI NO MILHAR
Wílson Batista e Geraldo Pereira

– Etelvina, minha filha!
– Que há, Jorginho?
– Acertei no milhar
Ganhei 500 contos
Não vou mais trabalhar
E me dê toda a roupa velha aos pobres
E a mobília podemos quebrar
Isto é pra já
Passe pra cá

Etelvina
Vai ter outra lua-de-mel
Você vai ser madame
Vai morar num grande hotel
Eu vou comprar um nome não sei onde
De marquês, Dom Jorge Veiga, de Visconde
Um professor de francês, mon amour
Eu vou trocar seu nome
Pra madame Pompadour
Até que enfim agora eu sou feliz
Vou percorrer Europa toda até Paris

E nossos filhos, hein?
– Oh, que inferno!
Eu vou pô-los num colégio interno
Telefone pro Mané do armazém
Porque não quero ficar
Devendo nada a ninguém
E vou comprar um avião azul
Pra percorrer a América do Sul

Aí de repente, mas de repente
Etelvina me chamou
Está na hora do batente
Etelvina me acordou
Foi um sonho, minha gente

Um desesperado poema de amor, com as saudades que Castro Alves não conseguia evitar

Tudo vem me lembrar que tu fugiste, Tudo... Castro alvesPaulo Peres
Poemas & Canções
 
O poeta baiano Antônio Frederico de Castro Alves (1847-1871) é símbolo da nossa literatura abolicionista, conhecido como “Poeta dos Escravos”. Entretanto, o poema “Hora da Saudade” demonstra sua versatilidade poética, porque tudo na sua vida cotidiana acarreta lembranças de sua amada.
HORA DA SAUDADE
Castro Alves
Tudo vem me lembrar que tu fugiste,
Tudo que me rodeia de ti fala.
Inda a almofada, em que pousaste a fronte
O teu perfume predileto exala

No piano saudoso, à tua espera,
Dormem sono de morte as harmonias.
E a valsa entreaberta mostra a frase
A doce frase qu’inda há pouco lias.

As horas passam longas, sonolentas…
Desce a tarde no carro vaporoso…
D’Ave Maria o sino , que soluça,
É por ti que soluça mais queixoso.

E não vens te sentar perto, bem perto
Nem derramas ao vento da tardinha,
A caçoula de notas rutilantes
Que tua alma entornava sobre a minha.

E, quando uma tristeza irresistível
Mais fundo cava-me um abismo n’alma,
Como a harpa de Davi teu riso santo
Meu acerbo sofrer já não acalma.

É que tudo me lembra que fugiste.
Tudo que me rodeia de ti fala…
Como o cristal da essência do oriente
Mesmo vazio a sândalo trescala.

No ramo curto o ninho abandonado
Relembra o pipilar do passarinho.
Foi-se a festa de amores e de afagos…
Eras – ave do céu…minh’alma – o ninho!

Por onde trilhas – um perfume expande-se
Há ritmo e cadência no teu passo!
És como a estrela, que transpondo as sombras,
Deixa um rastro de luz no azul do espaço…

E teu rastro de amor guarda minh’alma,
Estrela que fugiste aos meus anelos!
Que levaste-me a vida entrelaçada
Na sombra sideral de teus cabelos!…

Espantado com a força do mar, o menino poeta aprendeu que Deus era ainda mais forte

poesia #poema #casimirodeabreu | Poemas, Casimiro de abreu, PoemaPaulo Peres
Poemas & Canções

O poeta Casimiro José Marques de Abreu (1839-1860) nasceu em Barra de São João (RJ) e foi um intelectual brasileiro da segunda geração romântica. Sua poesia tornou-se muito popular durante décadas, devido à linguagem simples, delicada e cativante, como se vê nesse poema em que conta que sua infância descobriu “Deus”.

DEUS
Casimiro de Abreu

Eu me lembro! Eu me lembro! – Era pequeno 
E brincava na praia; o mar bramia, 
E, erguendo o dorso altivo, sacudia, 
A branca espuma para o céu sereno. 

E eu disse a minha mãe nesse momento: 
“Que dura orquestra! Que furor insano! 
Que pode haver de maior do que o oceano 
Ou que seja mais forte do que o vento?” 

Minha mãe a sorrir, olhou pros céus 
E respondeu: – Um ser que nós não vemos, 
É maior do que o mar que nós tememos, 
Mais forte que o tufão, meu filho, é Deus.  

Na versão de Geraldo do Norte, ressurge o homem que sabia javanês, criado por Lima Barreto

Paulo Peres
Poemas & Canções

O radialista, declamador, letrista e poeta Geraldo Ferreira da Silva, nascido em Parelhas (RN), mais conhecido como Geraldo do Norte, “O Poeta Matuto”, inspirou-se no conto O Homem Que Sabia Javanês, de Lima Barreto, para escrever a letra de “O Idioma Javanês”, que foi musicada por Ibys Maceioh.

O IDIOMA JAVANÊS
Ibys Maceioh e Geraldo do Norte                                                                       

Num país onde o ensino
Nunca foi para matuto
Compra diploma o granfino
De pergaminho Fajuto

O grande Lima Barreto
Em um conto num livreto
Disse o que um malandro fez
Pra arrumar um numerário
aprendeu num dicionário
Dar lições de javanês

Com a moral fora da vez
Castelo, o seu personagem,
Vai findar por mais um mês
Sem pagar a estalagem
fugindo pela janela
Dormindo sem acender vela
Com medo do português

Um dia leu um anúncio
Um forte e claro prenúncio
De ser mestre em javanês.

Aí sabe o que ele fez?
foi numa biblioteca
na marra e sem altivez
Pediu a um velho careca
Algum livro sobre Java
E tudo o que encontrava
anotava com avidez

Procurava assim um rumo
Que desse para consumo
Nas aulas de Javanês
Mesmo notando escassez
Naquela pesquisa sua
Era aproveitar a vez
Ou ir p’ro olho da rua

Se o burro passou selado
Pra quê se fazer de rogado
Seria uma estupidez
Não encontrar o barão
Pra dar-lhe uma lição
Do mais puro Javanês

Se não der que morra Inês
É o que tinha pensado
Já que seu nobre freguês
Tinha ouvido e gostado
Adiantara até algum
Prá quebrar o seu jejum
E a cara de palidez
Pois a fome que curtia
Enfim teria alforria

Graças ao Javanês
Agora, vejam vocês
O barão ficou encantado
Em muito menos de um mês
Já tinha lhe apresentado
A burguesia da Corte
Onde passava a noite
Falando com polidez
Até para poliglotas
Que se sentiam idiotas
Por não falar javanês

E a sua desfaçatez
O levou até ao Consul
Em diversos metiês
Ele chegava de sonso
Feito os espertos de agora
Que vão chegando de fora
Na mais alta sordidez

Quando um é pego, chora
Talvez até fosse hora
De mostrar seu Javanês
E otario da vez
É sempre o povo, coitado,
Que esquece com rapidez
Os malfeitores do Estado

Temos diversos Castelos
Desfilando em carros belos
Vestindo terno Francês
Explorando a fé alheia
E nem fazem cara feia
Pra exibir seu Javanês

Meu sonho é ver os dublês
De “171″ na cadeia
Pra ver se a embriaguez
Do povo não se semeia

Ou o mundo vai a pique
Porque é muito cacique
Pra indiada na nudez
Que chega até a dar saudade
Daquela falso “amizade”
Que ensinava Javanês

Chega de sem-vergonhez
A humanidade não aguenta
É muito falso burguês
Um dia a corda arrebenta

Trabalho e dignidade
Se fosse mesmo verdade
Tivesse a alma uma tez
E coração uma cara
Seria uma coisa rara
Alguém ensinar Javanês