LBA, uma sigla que faz falta no combate urgente à miséria, sobretudo em tempo de pandemia

NãoAoPEC241: Proposta golpista tira 54% da verba da assistência social e  atingirá os mais pobres :: CNTTL - Confederação Nacional Dos Trabalhadores  Em Transportes e Logística

IBGE mostra que está aumentando o abismo entre ricos e pobres

Pedro do Coutto

A Legião Brasileira de Assistência foi criada pelo presidente Getúlio Vargas em 1942 para dar apoio às famílias dos integrantes da FAB e teve atuação heroica em campos da Itália na Segunda Guerra Nundial. Sua primeira presidente foi a Sra, Darcy Vargas, que também presidia a Casa do Pequeno Jornaleiro. Nessa época, adolescentes de origem modesta vendiam jornais pelas ruas da cidade do Rio de Janeiro e assim obtinham recursos para estudar e auxiliar em despesas de suas famílias.

O lançamento da LBA foi em um espetáculo musical no Teatro Municipal, em 1942, quando o governo Vargas entrava na guerra contra o nazismo e o fascismo.

MUITAS MUDANÇAS – Através do tempo a LBA passou por mudanças, especialmente quando o engenheiro Luis Fernando da Silva Pinto a presidiu, no governo Ernesto Geisel, que tinha como ministro da Previdência a figura notável de Nascimento e Silva.

Luis Fernando projetou fortes mudança,s modernizando  a Fundação e promovendo uma reforma estrutural necessária para transformá-la num órgão verdadeiramente de Assistência no sentido que de ela representasse, para as camadas pobres, aquilo que o BNDES representava para a área econômica.

Infelizmente, a LBA foi extinta pelo presidente FHC que não compreendeu quais eram os objetivos que marcaram sua transformação numa entidade dinâmica. Aliás, no campo social FHC foi um desastre. Mas esta é outra questão.

PROGRAMA DE NUTRIÇÃO – Luis Fernando criou um programa de complementação alimentar destinado às crianças e também às suas mães, que ganharam nova qualidade de vida.

Na mesma época, instituiu o programa de registro civil, uma vez que em 1976 o IBGE havia descoberto parcelas expressivas da população que não tinha certidão de nascimento. Eram rostos que não possuíam sequer existência legal.

Colocou em prática cursos profissionalizantes e expandiu enormemente as redes de creches em todo o país, destacando sua importância. É preciso acentuar que colocou em ação todos os postos da LBA para campanhas de vacinação. Finalmente instituiu também a campanha de doação de cadeiras de rodas a pessoas bastante necessitadas.

REPROVAÇÃO ALTA – Uma pesquisa organizada pela LBA identificou uma realidade; o índice de reprovação nas duas primeiras séries do ensino público fundamental era de 47%. Mas quando se tratava de crianças que haviam frequentado creches a reprovação baixava para 20%. A queda da taxa se aplicava a um universo de 8 milhões de alunos.

Hoje em dia, olhando-se pelo retrovisor constata-se a  falta que a LBA faz. Outra coisa, já ia esquecendo: a LBA promoveu um convênio com entidade de planejamento familiar porque praticavam-se no país 1 milhão e 500 mil abortos por ano, dos quais 25% acarretavam ações médicas urgentes.

Seria essencial que a LBA existisse hoje para dar um rumo ao governo no combate urgentíssimo à pandemia.

Ajuste fiscal imaginado por Paulo Guedes só funcionaria se o consumo estivesse aquecido

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Charge do Nani (nanihumor.com)

Pedro do Coutto

Reportagem de Geralda Doca e Manoel Ventura, O Globo de sábado, revela que o ministro Paulo Guedes, derrotado no caso da Petrobras, joga seu destino no governo com o projeto de ajuste fiscal. Doca e Ventura acentuam que se o ajuste fiscal que propõe perder no Congresso, Guedes deixará o governo.

O episódio da Petrobras o enfraqueceu sensivelmente, pois infantilmente apoiou os reajustes da gasolina e do diesel fixados por Castello Branco, exonerado por Bolsonaro exatamente por esse motivo.

UM ACUMULADOR – Na minha opinião as dificuldades de Guedes são muito grandes sobretudo porque, como disse em artigo anterior, ele acumula quatro ministérios, e também o Banco do Brasil, a Caixa Econômica Federal e ainda por cima fixou em 16 bilhões de reais o preço, muito baixo, até ridículo,  para privatizar a Eletrobras.

Aliás, essa privatização é prevista apenas para o controle acionário, uma vez que 49% da empresa permaneceriam estatizados.

As dificuldades se projetam em torno de Paulo Guedes, fechando-se como um obstáculo a ser transposto.

AUXÍLIO EMERGENCIAL – Na Folha, Eduardo Cucolo revela que, em termos de auxílio de emergência, a questão se agravou no caso dos trabalhadores informais terem sido afastados dos postos existentes no emprego sem vínculo.

Essa faixa abrangia no país praticamente 35% da mão de obra ativa, cujo total é de 100 milhões de homens e mulheres. Existe ainda o caso dos terceirizados que custavam muito caro às empresas de economia mista. Isto porque o salário mensal acarretava o triplo da despesa, ficando dois terços com a empresa contratada para terceirizar, um caso de enriquecimento ilícito ou exploração do homem pela empresa.

PROBLEMA DESAFIADOR – A suspensão do auxílio de emergência acarretou um grave problema para todos aqueles, em torno de 60 milhões de pessoas, que o recebiam. O problema também foi assumido pelo ministro da Economia, que assim incorporou ainda, além da Previdência, também a Assistência Social.

Aliás, em matéria de assistência social, a extinção da LBA no governo FHC abriu uma grave lacuna. Pelo projeto do engenheiro Luis Fernando da Silva Pinto, a LBA seria um órgão de desenvolvimento social nos moldes que o BNDES representa para o setor econômico.

A realidade dos fatos desmoraliza os cálculos de Paulo Guedes, do IBGE e da FGV

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Charge Marco Jacsobsen (Folha de Londrina)

Pedro do Coutto

Quando o ex-presidente da Petrobrás, Roberto Castello Branco, anunciou na quarta-feira que a empresa estabeleceria um novo aumento de preço da gasolina, óleo diesel e gás de cozinha, o ministro Guedes estava na mesa ao lado de Bolsonaro ouvindo a explicação do dirigente da estatal.

Guedes apoiou a decisão, aceitando o princípio de que o aumento coincidia com os preços internacionais do petróleo, forma focalizada para assegurar a saúde financeira da empresa.

INFLAÇÃO MANIPULADA – Acontece que, como Manoel Ventura, Gustavo Maia e Bruno Rosa mostraram em O Globo de sexta-feira, em um mês e meio deste ano o preço da gasolina subiu 34% e do óleo diesel, 27%.

O ministro da economia, da mesma forma que Castello Branco não levou em conta o reflexo na taxa de inflação. Na minha opinião, ambos indiretamente basearam suas posições no índice inflacionário de apenas 0,25% no mês de janeiro, confiando na pesquisa da FGV.

Erraram. Esse índice de 0,25% é simplesmente ridículo, a população sabe muito bem disso. Os preços ao longo desses 50 dias que separam dezembro de fevereiro subiram numa velocidade que esvaziou o bolso de um número enorme de brasileiros.

NÚMEROS DISCREPANTES – O IBGE apontou 4,5% de inflação em 2020. A FGV tem cálculo parecido, menos para o IGPM que rege os aluguéis entre outros itens. No ano passado, o IGPM avançou 21%. A surpresa foi tanta que os proprietários de imóveis resolveram não aplicar tal impacto, preferindo reajustes muito menores para não perder locatários.

Enquanto isso, os salários, especialmente do funcionalismo público, com exceção da magistratura e do ministério público, ficaram estacionados em 0%, como se não tivesse havido inflação. Isso torna impossível o poder de consumo ter se expandido, menos para o ministro Guedes que afirma reiteradamente que a economia vai bem. Como? Se o próprio Banco Central admite que o PIB recuou 4% ano passado, não há como o ritmo da economia ter acelerado. 

ISENÇÃO DE IPI – No meio da confusão, o presidente Bolsonaro antes de exonerar Castello Branco, assinou decreto de isenção do IPI sobre o diesel, sem ouvir o ministro da Economia.Os repórteres Bernardo Caran e Júlio Wiziack focalizam esse ponto igualmente crítico colocado por Bolsonaro.

Já o ministro Paulo Guedes perde espaço porque esqueceu que o preço dos combustíveis gera uma cascata de aumento de preços e com isso Bolsonaro perde popularidade. Além do mais, como a sociedade brasileira poderia suportar esse peso?

O Ministro das Minas e Energia Beto Albuquerque teve o desplante de dizer que Castello Branco não foi exonerado e o presidente da República apenas não o reconduziu, porque a recondução acontece de dois e dois anos e a data seria março. O titular da pasta, um almirante, mentiu ao assumir uma versão que contraria a realidade do Palácio do Planalto.

Folha festeja 100 anos como testemunha da História, reveladora das condições humanas

Resultado de imagem para folha 100 anosPedro do Coutto

A Folha de S. Paulo completou nesta sexta-feira seus primeiros 100 anos de existência, uma brilhante trajetória pelos fatos, interpretações e seu compromisso democrático, compromisso consigo mesma e com seus leitores que se multiplicam no passar dos anos, o que é natural, pelo crescimento da população, se por outro motivo não fosse. Mas para falar sobre toda amplitude do jornal não se pode esquecer que nenhuma outra publicação é mais universal do que uma edição impressa que nos chega por assinatura ou por acesso às bancas tradicionais, uma vez que em suas páginas estão sempre a política, arte, esporte, administração pública e as informações que dão voz e vez às comunidades carentes que sem a publicação de seus problemas jamais poderiam chegar ao conhecimento dos órgãos municipais.

Posso dizer mesmo que o jornalismo é também um fator de pressão legítima para que os atingidos pelos desastres que se repetem pela natureza sejam resgatados e protegidos.

TRANSMITIR CONHECIMENTO– Nada, portanto, é tão representativo do que a imprensa na transmissão do conhecimento e na troca de informações. Ao lado das TVs, da rádios e da internet, os jornais são importantes elos de comunicação da sociedade moderna.

Quando falo nos 100 anos da Folha e sua luta pela liberdade e pela democracia, lamento que o Correio da Manhã, onde trabalhei por longos anos, não tenha chegado ao centenário que ocorreria em janeiro de 2001. Consequência da total desadministração que sucedeu a saída de Luis Alberto Bahia, seu grande redator-chefe. Mas esta é outra história.

ÂNGULOS DA LIBERDADE – Falando na bela estrada da Folha destaco artigos que saÍram ontem no jornal de Hélio Schwartsman e Ruy Castro, que abordaram ângulos singulares do processo democrático essencial à liberdade. Liberdade tanto para quem escreve quanto para os leitores que, no fundo são as razões de existirem as teclas nervosas de ontem e as teclas sensíveis do universo de comunicação de hoje.

Jornalista há mais de 60 anos, acrescento que vale a pena escrever, fotografar e ler o que se desenrola diariamente no mundo e em nosso país. 

Aliás. É sobretudo nas páginas dos jornais que se encontra a usina da liberdade e da defesa dos princípios fundamentais que fazem circular os impulsos humanos, suas limitações, seus hábitos e sua cultura. Falando em cultura, nada supera um jornal como a Folha, que nos dias de hoje tem novamente pela frente obstáculos e arbitrariedades, porém eles acrescentam mais emoção à bela história do jornal na família Otávio Frias.

CONFRONTAR O PODER – Tanto quanto o velho Correio da Manhã e outros importantes jornais, esse monumento que é a Folha reproduz o espírito de mosqueteiro de Dumas pai. Espada em punho, a Folha veio à luz para confrontar o poder e restringi-lo à dimensão humana.

Falei em cultura e em liberdade, dois compromissos e duas lutas fundamentais à existência, que são travadas dia a dia, ao longo da História. Esse o destino da Folha de S. Paulo. Que o jornal continue iluminando a passagem do tempo dentro dos princípios que o fizeram nascer e chegar ao apogeu.

Carta de Dom Helder a Lacerda é documento histórico sobre a subversão e o golpismo

Resultado de imagem para dom helder camara frasesPedro do Coutto

No editorial de ontem, a Folha, como era de esperar, condenou de forma veemente a atitude do deputado Daniel Silveira, sustentando que é caso de cassação de mandato. Na edição desta quinta-feira, os colunistas Gabriela Prioli e Bruno Boghossian também focalizaram o tema, acreditando que a decisão do Supremo corria o risco de se chocar com a imunidade parlamentar. Pessoalmente não acho.

O art.52 da Constituição Federal alterou a questão da imunidade que estava prevista na Carta de 46.  O texto pós-Estado Novo estabelecia que, para ter sequência qualquer investida legal contra deputados e senadores, teria de ser liberada pela respectiva Casa do Congresso. Isso mudou e no momento cabe a ação policial independentemente da licença do Congresso Nacional.

NO EXERCÍCIO DA ATIVIDADE – O art. 53 atual diz senadores e deputados são invioláveis por suas opiniões, palavras e votos, quando no exercício da atividade parlamentar. Não é o caso do deputado Daniel Silveira, que de forma alucinada e permanente, tem desferido mais do que ataques, porque são grotescos insultos aos integrantes do Supremo.

O ministro Alexandre Moraes determinou a prisão do deputado e no dia seguinte foi referendada por unanimidade pela Corte Suprema. A Casa respectiva, no caso a Câmara, pelo voto secreto da maioria, deverá decidir sobre a prisão do acusado.

O deputado Daniel Silveira é um fanático que deseja fechar o STF, como já deixou bem claro. A meu ver, o processo aberto no Supremo terá curso independentemente da Câmara optar por sua soltura. O processo criminal não se dissolve com uma decisão que pode deixá-lo em liberdade momentânea.

HELDER E LACERDA – Dei o título neste artigo, recuando no tempo para lembrar um veto histórico de Dom Helder Câmara ao golpe defendido pelo deputado Lacerda contra a posse de JK.

Juscelino venceu as eleições de 3 outubro de 1955. Lacerda incentivou correntes militares para violar a Constituição. Diariamente, à noite, pregava o golpe através de sucessivos programas na rádio Globo. Não confundir com a TV Globo que só foi inaugurada em 1965. Lacerda falava em fraude eleitoral e a participação de tanques e canhões. D. Helder Câmara era o bispo auxiliar do Rio de Janeiro. O cardeal era D. Jaime Câmara, sem parentesco com o bispo.

A carta de D. Helder que vale para todos os tempos dizia:

“Carlos você sabe que fraude eleitoral não é patrimônio de apenas um partido. Você está com ódio no coração. Você Fala em tanques e canhões. Você os teme ou os deseja? Acho que você os deseja se eles estiverem a seu lado.”

O documento apontou a contradição essencial de Lacerda. Peço aos historiadores José Murilo de Carvalho e Marco Antônio Villa, que incorporem essa carta à História do Brasil.

Paulo Guedes propõe ‘congelar’ salários e deixar a inflação corroer seu poder aquisitivo

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Charge do Gilmar Fraga (Gaúcha/ZH)

Pedro do Coutto

Num encontro no final da semana passada com o senador Rodrigo Pacheco e com o deputado Arthur Lira, dirigentes de Senado e Câmara, o ministro Paulo Guedes afirmou que uma das alternativas para prosseguir o pagamento do auxílio de emergência é congelar os salários dos funcionários públicos pelo prazo de três anos. Entretanto, o que ele deseja mesmo é reduzir os vencimentos ao longo do mesmo prazo.

A reportagem é de Flávio Pupo, na Folha desta quarta-feira.

PROPOSTA SINISTRA – Explico. Na realidade, congelam-se salários quando são reajustados pela inflação do IBGE. O ministro da Economia sabe muito bem disso. Quando se promove a estagnação dos vencimentos pelo valor nominal, isso significa reduzi-los no mesmo ritmo do índice de inflação.

Exemplo: o índice inflacionário de 2020 foi de 4,3%. Assim essa é também a perda que atinge 450 mil funcionários federais, exceto o dos magistrados e integrantes do Ministério Público.

E parece que o congelamento não é para atingir o Exército, Marinha e Aeronáutica. Isso porque, nesse caso Guedes e sua equipe temem a reação das Forças Armadas.

IMPACTO SOCIAL – O ministro da Economia espera receber o apoio do Congresso Nacional para mais essa perversidade, que punirá inclusive funcionários públicos que recebem salários baixíssimos.

É uma perversidade que causará impacto social inevitável, como consequência da diminuição do valor real dos salários dos servidores. Essa redução vai se refletir também no consumo, que, no final das contas é a base insubstituível da receita tributário. Menor salário, menor consumo.

Isso já aconteceu no ano passado com a redução do lucro das empresas, matéria de Eduardo Cucolo, também na Folha. A pesquisa foi realizada pela FGV. A previsão para o primeiro trimestre de 2021, de acordo com a FGV, é permanecer a retração, porque as pessoas estão com medo de perder o emprego. Portanto, como digo sempre, qualquer corte salarial reflete na arrecadação. Por isso os economistas, segundo matéria de Vinicius Neder no Estadão, apontando risco de recessão.

CANDIDATOS DO PSDB – O presidente do PSDB, Bruno Araujo, numa entrevista a Carolina Linhares, da Folha, afirmou que o candidato tucano à sucessão presidencial de 2022 será definido até o final deste ano.

Bruno Araujo disse que os nomes são João Dória, governador de São Paulo, Eduardo Leite, governador do Rio Grande do Sul, e o senador cearense Tasso Jereissati.

Para o presidente Bolsonaro, o certo é tirar de circulação O Globo, a Folha e o Estadão

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Charge do Pelicano (Arquivo Google)

Pedro do Coutto

Reportagem de Ricardo Della Coletta e Renato Machado, Folha de terça-feira, revela que o presidente Jair Bolsonaro afirmou que o certo é tirar de circulação O Globo, a Folhs e o Estadão, porque publicam matérias contra ele e seu governo que são verdadeiras fake news. A declaração foi feita em Brasília antes de ir para o Guarujá, onde pilotou um jet ski.

O presidente atacou também o site O Antagonista e se voltou igualmente contra o Facebook assinalando que teve sua conta encerrada arbitrariamente.

UM FORA DA LEI – Bolsonaro, penso eu, não pauta suas atitudes e pensamentos à base da Constituição Federal e das leis do país. Acusou também a utilização de imagens pelos três jornais que são os três maiores do país.

“Não vou fazer isso (fechar os jornais), porque sou democrata mas são fábricas de fake news contra mim e meu governo”, acrescentou, dizendo que o povo precisa se libertar desses jornais e tem logicamente esse direito.” Em vários casos tem que se recorrer à Justiça. Contra O Globo, a Folha e o Estadão não se verifica nenhuma reação da mídia em geral. Ela se cala. Falam tanto em liberdade de expressão, mas os três órgãos de imprensa mentem em suas matéria”.

O pronunciamento do Bolsonaro foi feito através de uma rede social operada por seu filho Eduardo, deputado federal por São Paulo.

TAMBÉM AS REDES SOCIAIS – Jair Bolsonaro mostrou-se revoltado também com as redes sociais, especialmente contra o Facebook e anunciou uma tributação maior contra os veículos das redes sociais.

Finalizando, Bolsonaro alvejou principalmente a Folha, dizendo que não adquire qualquer produto anunciado comercialmente em suas páginas. Além disso disse “não vamos gastar mais dinheiro em publicidade na Folha”, assinalando que acompanha as empresas que anunciam na Folha, como se quisesse amedrontar os empresários.

DISSE BARROSO – Num artigo na edição de O Globo de ontem, Merval Pereira destaca a importância extraordinária da entrevista do ministro Luís Roberto Barroso ao historiador Marco Antonio Villa.

Barroso afirmou que existe uma operação abafa contra a Lava Jato, porque ela atingiu profundamente a corrupção. Acrescentou que o esforço contra a Lava Jato inclui políticos e fez soprar uma nuvem no próprio Supremo. Citou como exemplo os 51 milhões de reais num apartamento de Geddel Vieira Lima em Salvador.

O artigo de Merval é imperdível, da mesma forma do que a entrevista de Barroso.

Gabeira, testemunha e personagem do pós-1964, já procura um horizonte para 2022

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Gabeira acha que não haverá grandes novidades em 2022

Pedro do Coutto

Em artigo publicado no Globo desta segunda-feira, Fernando Gabeira, com sua experiência no universo político, busca um horizonte para as urnas de 2022, considerando a hipótese de o quadro de 2018 se repetir em matéria de correntes partidárias. Devo assinalar que acompanho sempre seus artigos e seus comentários na GloboNews. São isentos, claros como um copo d’água, o que os torna bastante importantes.

Entretanto, está um pouco distante o desencadeamento da sucessão presidencial, pois em matéria de política dois anos são um longo percurso. Nesse espaço de tempo acontecem fatos inesperados, surpreendentes, que fazem com que as análises tenham de ser renovadas ao longo do percurso.

MUDANÇA DE RUMO – Da mesma forma como acontece nos projetos econômicos, que na maioria dos casos tornam praticamente obrigatória a revisão dos planejamentos originais, a política também é cheia de mudanças.

Um exemplo de surpresa. A ruptura entre Bolsonaro e Hamilton Mourão. Como dizia o senador Benedito Valadares, a teoria na prática é outra coisa. Outra frase do velho político mineiro: ”É melhor um adversário  cordial do que um correligionário hostil”, disse em 1960, referindo-se à eleição em Minas, quando Tancredo Neves perdeu para Magalhães Pinto. 

Mas esta é outra questão. Penso que o quadro de 2022 não será igual ao que marcou as urnas de 2018. Há dois anos, Lula, Dilma e o PT foram os responsáveis pela vitória de Bolsonaro. Depois do Mensalão, os escândalos do Petrolão e da Lava Jato mostraram que a roubalheira foi institucionalizada. Lula dividira a Petrobrás em capitanias financeiras.

BOLSONARO NA MIRA – Na próxima sucessão o que estará sob julgamento é a atual administração do presidente, que permanece sem partido mas que age colocando seus objetivos e problemas acima das suas maiores vontades, esquecendo-se do interesse coletivo. 

Surgiu a candidatura de João Dória, Lula lançou Haddad, Luciano Huck é uma incógnita, da mesma forma que qualquer outro nome venha a surgir, inclusive Ciro Gomes. Podem dizer que o apresentador da TV Globo certamente terá poucos votos, mas seu apoio não será igual a zero. Lembro que no futebol, se por um gol se vence, por um ponto também se perde.

No que se refere à economia, matéria de Tiago Braga em O Globo, Huck segue a linha de Armínio Fraga. Além disso, devem surgir os candidatos de sempre como a frase que ficou célebre no filme “Casablanca”.

TRUMP ENROLADO – Reportagem de Beatriz Bulla, correspondente do Estadão em Washington, edição de ontem, revela que o advogado Bruce Castor, que funcionou na defesa De Donald Trumpo irritou fortemente o próprio ex-presidente.

Castor repetiu a posição do senador republicano Mitch McConnell. Ambos consideraram que não pode haver impeachment para alguém que não está mais no governo. No entanto, afirmaram que Trump pode ser processado e até condenado por incitamento a desordem, cujo desfecho foi a invasão do Capitólio, com cinco mortes.

Os democratas e seis republicanos estão tentando levar Trump à prisão.

Machistas têm de aceitar que a mulher não é sua propriedade, tampouco um objeto sexual

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Ilustração reproduzida do Humor Político

Pedro do Coutto

Excelente o ensaio de Gabriela de Araújo, Maira Bayod e Priscila Santos, Folha de domingo, no espaço Tendências e Debates, sobre o absurdo machismo que se mantem através do tempo e desafia os avanços sociais. As autoras da matéria condenam a desmoralização a que se expõem os autores do preconceito, ao mesmo tempo em que incentivam às vítimas dos relacionamentos abusivos a romperem o silêncio e denunciar as chantagens, ameaças e os abusos.

Citam a reação de Dani Calabresa, Mari Ferrer e Duda Reis a respeito de procedimentos repugnantes ocorridos, segundo disseram, na TV Globo.

VIOLÊNCIA SEXUAL – A mulher não é propriedade de ninguém nem pode ser tratada como objeto, situação aliás denunciada em 1959 pelo samba de Mansueto, “eu não sou água pra me tratares assim, só na sede é que procuras por mim”.

Isso de um lado, de outro, é preciso levar em conta o próprio relacionamento sexual. Penso em 2/3 dos casos o homem se preocupa somente com seu prazer.

Através do tempo inúmeros são os casos de violência, desrespeito, espancamento. Agora mesmo, há uma semana atrás o caso Aida Curi revivido pela Globo representou um fato terrível acontecido em 1958.

RESPEITO ABSOLUTO – A mulher tem de ser respeitada em sua vontade, em seu direito de escolha, no seu sentimento. Valer-se de prestígio e poder de contratação para um emprego, na realidade é um ato execrável, covarde e totalmente absurdo. Felizmente como assinalam Gabriela, Maira e Priscila, é fundamental que a espécie humana vire a página de um comportamento que deve e tem de ser lançado no esgoto do processo social.

Sempre me refiro a expressão ser humano e seres humanos para evitar que ao me referir a espaços na história singularize a história do homem.

HUCK E O PSB – O Estadão de domingo publica que o prefeito de Recife lançou praticamente a candidatura de Luciano Huck a presidência da República, antecedendo a um artigo de Flávia Lima na Folha chamando atenção (acho que ela tem razão) de jornalistas políticos estarem tratando Huck como alguém que flutua acima das críticas , inclusive focalizando-o como alguém que assume a posição de um herói disponível para enfrentar o grande desafio do desenvolvimento econômico social do país.

Importante é destacar que Fabrício de Castro, também no Estadão, revela, com base em informação do Banco Central, que o PIB apresenta um recuo de 4% em 2020. A esse fato acrescento que no ano passado nasceram 2 milhões de pessoas, resultado do índice demográfico do país, que reduz a renda per capita.

OUTRO VICE – Na Folha, Gustavo Uribe e Daniel Carvalho revelam que Jair Bolsonaro está mesmo buscando um candidato a vice-presidente, uma vez que rejeita continuar com o general Hamilton Mourão.

O nome do engenheiro Tarciso de Freitas, ministro da Infraestrutura e um dos poucos destaques do governo, começa a ganhar força.

Penso ser um erro de Bolsonaro, pois antecipar o rompimento com Mourão acarretará evidentemente uma reação antecipada da corrente militar entrosada com o vice-presidente.

Há 20 anos a noite chamava para levar Jose Lino Grunewald, um grande poeta da arte

José Lino Grunewald, um notável revolucionador das artes 

Pedro do Coutto

O título desta matéria reproduz um verso de Goethe utilizado no fundo para tornar mais leve ou menos pesada a passagem da dimensão humana, creio eu, para uma dimensão eterna. Quero dizer, para uma outra realidade que nos escapa. Uma dimensão onde os relógios não tem ponteiros como a imagem de Ingmar Bergman nos “Morangos Silvestres”, ou no segredo dos morangos, conforme o título original.

Mas José Lino Grunewald foi um poeta da arte, repousando e abrangendo mais a literatura e o cinema. Deixou um legado e um espaço que também corresponde à eternidade que caracteriza as obras de cultura produzidas pelos seres humanos.

HOMEM/MULHER – Falo em seres humanos porque não gosto da expressão que destaca o ângulo singular da palavra homem. Sempre incluo as mulheres, que igualmente produzem cultura. Fica melhor assim.

E a cultura, como já foi definida, é a passagem do ser humano pelo mundo, sua estrada, sua sombra, ele mesmo. E assim os ensaios de arte tornam-se fundamentais, sobretudo na medida em que revelam e traduzem a pintura, escultura, música, teatro, cinema, literatura etc.

José Lino Grunewald abordou e interpretou produções de arte enfatizando-as seus ângulos livres e poéticos. Fez descobertas subliminares sobre os filmes densos, com os dirigidos por Ingmar Bergman, por exemplo.

SEMPRE NA VANGUARDA – Seus estudos sobre cinema, arte que destaca o comportamento humano, ficarão para sempre, como a obra dos cadernos de cinema do francês André Basin, que projetou a importância dessa arte surgida em 1895. Grunewald foi além. Ao produzir sua arte~, abriu também a realidade artística muitas vezes oculta distante da compreensão comum.

Esteve na ruptura concretista que abalou a poesia tradicional, que se refletiu em uma modernização marcada pelo movimento que explodiu em 1956 e deixou suas marcas. Muitas remetidas para o passado recente. No concretismo, verdadeiro rock and roll da poesia, Grunewald formou no bloco ao lado de Augusto de Campos, Haroldo de Campos, Décio Pignatary e Ronaldo Azeredo. Foi importante no seu tempo a ruptura do limite tradicional, como ressaltaram à época os poetas Manoel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade.

José Lino, meu amigo por tantos anos, na sua caminhada deixou marcas para sempre, como o verso conjugado entre a imagem e o texto que este induzia. Sua passagem ficou eternamente assinalada pela beleza de suas obras, sempre marcadas pelo toque poético que iluminou sua vida. Sua presença faz falta.

GUEDES FARSANTE – De volta aos áridos dias de hoje, reportagem de Julia Lindner e Manoel Ventura, O Globo deste sábado, destacou amplamente o despropósito do ministro da Economia, Paulo Guedes, ao retomar sua proposta de unir o auxílio de emergência a ajustes fiscais que ele imagina necessários ao combate a pandemia.

Sua proposta, já apresentada em 2019, prevê redução de salário de servidor e a revisão de benefícios fiscais. Guedes desprezou a existência do coronavirus desde o início de 2020. Agora, tenta inventar a roda.

Ladrões da cibernética querem vender dados pessoais de Bonner, Bolsonaro e Fátima Bernardes

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Ilustração reproduzida do Arquivo Google

Pedro do Coutto

Ladrões cibernéticos, nessa era dos computadores, são responsáveis pelo vazamento de 100 milhões de celulares e estão vendendo ou tentando vender os dados pessoais a que tiveram acesso. A reportagem é de Bruno Romani, Bruna Arimthes e Guilherme Guerra, em O Estado de São Paulo, edição de quinta-feira.

A invasão dos cadastros, além de sórdida, constitui violação, esta sim, de privacidade e sérios riscos decorrentes de tal apropriação, expondo os alvos a todo tipo de ameaça.  Para combater o voo dos ladrões foi contratada a empresa Cibersegurança.

VÍTIMAS FAMOSAS – A reportagem cita como exemplo como vítimas do roubo de informações os jornalistas William Bonner e sua ex-mulher Fátima Bernardes, além do próprio presidente Jair Bolsonaro.

Mas a dimensão da ofensiva, como se constata pelo total de 100 milhões de invasões é gigantesca. Os ladrões atacaram também as operadoras Claro e Vivo, além de terem obtido o CPF dos milhões de suas vítimas. O vazamento da Claro foi de 57 milhões de contas e da vivo 45 milhões.

Um dos pontos básicos escolhidos é o fato de terem divulgado o valor de cada informação em um dólar. Fica nítido que se concretizarem seu plano sombrio acham que poderão faturar milhões de dólares. Os cadastros, como se sabe, são importantes para operações bancárias e comerciais e dão margem a chantagens. Incrível.

COMPARAÇÃO RIDÍCULA – O General Pazuello, ao responder perguntas aos senadores na quinta-feira, posicionou-se contra a criação de uma CPI para investigar em profundidade sua atuação à frente do Ministério da Saúde. A matéria foi de Natália Cancian e Renato Machado, Folha de sexta-feira.

O general Pazuello comparou o projeto do CPI às derrotas alemães na Segunda Guerra Mundial. Exagerou ao tentar dimensionar comparativamente uma situação e outra.

As principais derrotas alemães foram a operação Barba Rossa (invasão da URSS), nas batalhas de Tobruk, El Alamen, Normandia e Dresden na fronteira Tcheca, quando as forças americanas e russas se uniram e fecharam o anel no vale do Ruhr, bloqueando as usinas siderúrgicas alemães. O caso do coronavirus é muito diferente. A comparação chega a ser uma piada.

PODER AQUISITIVO – O comércio varejista, de acordo com Alberto Ramos, da Goldman Sacher, constatou que ano passado a perda de renda de parte dos compradores causou uma queda de 6,1% nas vendas a varejo.

Ramos identifica como causa a queda do poder aquisitivo da população. Cita a pesquisa nacional realizada pelo IBGE. A reportagem é de Ana Conceição e Luciane Carneiro, de quinta-feira.

A retração das compras tem dupla origem – decorre tanto do desemprego quanto do congelamento salarial.

Próximo recurso de Lula a ser julgado visa à anulação de sentença de Moro no triplex

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Charge do Veronezi (Charge Online)

Pedro do Coutto

O recurso principal do ex-presidente Lula ao Supremo na realidade não visa novo habeas corpus, pois este ele já recebeu em face de decisão do ministro Ricardo Lewandowski, referendada pela Segunda Turma. Pelas notícias dos jornais de quinta-feira, o próximo recurso destina-se a arguir a parcialidade do ex-juiz Moro ao julgar a ação que envolve a compra do triplex do Guarujá, quando o apartamento de 80 metros quadrados se tornou um tríplex por gentileza de uma empreiteira, no caso a OAS.

Os advogados do ex-presidente obtiveram decisão favorável da Segunda Turma para que Lula tenha acesso a diálogos entre Moro e procuradores do MPF, nos quais sua defesa identifica prova de parcialidade. 

“PARCIALIDADE” – O habeas corpus que falta é o da anulação do julgamento do então juiz Sérgio Moro, por parcialidade. A liberdade Lula conquistou com a proibição do cumprimento de pena após segunda instância, que já foi concedido pela maioria do Supremo. Tanto é assim que Lula está em liberdade tendo viajado inclusive para o exterior, além de abordar com frequência articulações políticas. Agora mesmo, nesta semana, livre, leve e solto, o ex-presidente lançou a candidatura de Fernando Haddad para a sucessão presidencial em 2022.     

A diferença é que a parcialidade visa anular a sentença, com base no princípio de que se trata de ato anulável e não nulo como define o direito. Desta vez, o advogado Cristiano Zanin Martins não focalizou o objeto real de seu recurso.

Na Folha, a reportagem sobre o recurso de Zanin é de Mônica Bergamo.

VOLTA DE LULA – A essência do episódio inspirou o principal editorial do Globo, ao sustentar que a vitória do STF impulsiona o projeto político de Lula da Silva. Não é o caso, porque mesmo anulada a sentença de Guarujá, Lula ainda tem pela frente a sentença relativa ao sítio de Atibaia, com envolvimento da Odebrecht e também da OAS.

Não tenho dúvida que a operação Lava Jato se encontra em declínio, inclusive o procurador geral Augusto Aras está disposto a praticamente extinguir a força tarefa de Curitiba, como destaca Aguirre Talento no Globo de ontem.

No STF os ministros Gilmar Mendes, Levandowisk e Dias Tofolli endossam a iniciativa de Aras, que a pretexto de condenar o procurador Delton Dalagnol, transfere seu pensamento para, com base no caso unitário, voltar-se contra todos os integrantes da força tarefa.

DISSE O GENERAL – Já que estamos falando de Lula vale a pena ler matéria de Pedro Capetti sobre as declarações do General Villas Bôas, ex-comandante do Exército, dizendo que a nota expedida pelos generais a respeito do julgamento de Lula por Moro, teve endosso do Alto Comando do Exército, em consulta à Marinha ou Aeronáutica.

Penso que o General Villas Bôas, ao falar sobre o assunto, enviou um recado a respeito do pensamento militar contra qualquer tentativa de torpedear a democracia. “

Defendo o respeito a Constituição e ao regime democrático”, finalizou o general.

Rompimento entre Bolsonaro e Mourão indica que existe uma divisão entre os militares

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Mourão está cada vez mais desprezado por Jair Bolsonaro

Pedro do Coutto

Reportagem de Jussara Soares e André de Souza, O Globo, dá grande destaque ao fato de o vice-presidente Hamilton Mourão ter sido excluído da reunião ministerial convocada pelo presidente Bolsonaro para debater os mais recentes fatos que envolvem o governo. Hamilton Mourão disse a Jussara Soares não ter sido chamado para o encontro, o que ocorreu pela segunda vez.

O episódio, penso, expõe o aprofundamento da crise que separa Bolsonaro de Mourão. Evidencia que as correntes militares encontram-se divididas e o comportamento de Bolsonaro ressalta o desencontro entre um grupo militar e outro na Esplanada de Brasília. E o livro do general Eduardo Villas Bôas mostra que os militares não desistem de intervir na política.

FACHIN E A CORRUPÇÃO – Numa entrevista a Mateus Teixeira, Folha desta quarta-feira, o ministro Fachin, relator da Lava Jato no STF, disse que a corrupção chegou ao andar de cima, havendo sintomas de revigoramento, o que preocupa, como um fato capaz de levar o país a uma crise política que pode produzir maus resultados para a democracia. O ministro acentuou que na sua impressão a Lava Jato foi atingida, resultado que considera muito ruim.

Em matéria de contradição, citou o deputado Artur Lira, dizendo que o presidente da Câmara não pode assumir a presidência da República, se a situação se colocar, porque a Justiça aceitou a denúncia do Ministério Público que o acusa de corrupção.

Fachin usou esse episódio para destacar um aspecto da cooptação entre o Poder Executivo e a Câmara Federal. Após dizer que a corrupção chegou ao andar de cima, Fachin revelou sua preocupação com as eleições de 2022 em uma fase da história que a atmosfera política aponta para uma crise.

REGIME CORRUPTO – Fachin criticou também a grande presença de militares no governo, como é o caso do ministro Eduardo Pazuello. Acrescentou também que o modelo brasileiro diz respeito e decorre da corrupção envolvendo o regime democrático.

Ainda na entrevista referiu-se que o Brasil deve levar em conta o que aconteceu nos EUA quando, como todos vimos, a vitória de Joe Biden marcou um acontecimento inédito; a invasão programada do Capitólio. Essa invasão foi incentivada pelo ex-presidente Donald Trump na tentativa alucinada de fazer com que o Congresso não confirmasse a vitória do candidato democrata. Mas não deu certo.

Petrobras, IBGE e FGV, a disparada da inflação e a reeleição de Jair Bolsonaro

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Charge do Jorge Braga (Arquivo Google)

Pedro do Coutto

Dando sequência a nova política de preços do petróleo e derivados – reportagem de Bruno Rosa, edição de O Globo, terça-feira – a empresa estatal estabeleceu o terceiro aumento de preços nos meses de janeiro e fevereiro, como se constata, atingindo diretamente a gasolina e o óleo diesel. Com isso ao longo de doze meses a gasolina aumentou 22% e o diesel 10,8%.

Claro que tal política que segue os preços internacionais do petróleo vai refletir na elevação do custo de vida e, portanto, no aumento da inflação.

PREÇOS INTERNACIONAIS – O presidente da Petrobrás, Roberto Castelo Branco, defendeu fortemente na semana passada a política que colocou em prática e faz acompanhamento dos preços internacionais, recebendo o apoio integral do ministro Paulo Guedes. Sua decisão acabou sendo aceita pelo presidente Bolsonaro, que havia convocado reunião visando sua intervenção no mercado. Mas Guedes e Castelo Branco o convenceram de que esse não é o caminho certo.

Entretanto, os reflexos políticos dos reajustes em série, sem discutir o mérito da questão, só poderão abalar a candidatura à reeleição de Bolsonaro nas urnas de 2022. O IBGE e a FGV não terão outro caminho para encontrar e fixar os efeitos inflacionários da nova política. As ações da Petrobrás caíram na segunda-feira. As ordinárias recuaram 4,1, as preferenciais 3,1%.

VAI MUDAR DE IDEIA – Acentuo que os preços dos combustíveis não poderão seguir tendo seu efeito real nos cálculos do IBGE e da FGV sobre a inflação. Bolsonaro concordou com Guedes e Castelo Branco, mas não considerou os efeitos políticos na próxima campanha eleitoral. Logo vai mudar de ideia.

Acontece que a produção brasileira de petróleo é de 3,1 milhões de barrir dia e o consumo praticamente na mesma escala. Portanto, os preços da gasolina e do diesel logicamente não dependem do mercado internacional.

Uma questão que devia ser explicada pelo presidente da Petrobras e pelo ministro da Economia, mas eles não o fazem.

ATAQUE À LAVA JATO – Fiquei surpreso com o artigo da jornalista Cristina Serra na edição de ontem da Folha de S.Paulo. Ela atacou de forma violenta os jornalistas que cobriram a Lava Jato, cujo ciclo terminou segunda-feira.

Infelizmente, a repórter não baseou seu texto nas revelações que tornaram públicas a gigantesca corrupção que existia e foi descoberta no país. Além do mais, por que culpar os jornalistas por supostos erros judiciários que somente agora os réus condenados alegam terem ocorrido?

87 bilhões em 30 anos é muito menos do que um trilhão em 10 anos, que Guedes prometeu

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Charge do Genildo (Arquivo Google)

Pedro do Coutto

Reportagem de Geralda Doca que se transformou na manchete principal de O Globo desta segunda-feira acentua que pelos cálculos do INSS uma decisão do STF pode custar 87 bilhões de reais a Previdência Social. Mas isso ao longo de 30 anos o que deixa claro que a quantia assusta a primeira vista porém dilui sua força ao longo de tão grande período.

Lembro da promessa do ministro Paulo Guedes, quando da votação da reforma estimou que ela permitiria uma economia anual de 100 bilhões de reais a cada 12 meses, totalizando o montante de 1 trilhão de reais em 10 anos.

EXAGERADÍSSIMO – Para se ter ideia do que representa 1 trilhão em 10 anos basta dizer que o orçamento federal de 2020 foi de 3,6 trilhões. Aliás cabe uma observação. O ministério da Economia, não sei por quê, oculta sempre o total do Orçamento, fazendo comparações entre a despesa e a receita tributária.

No entanto, a receita tributária não exprime o orçamento total, apenas 40% dele. Existem outras receitas, por isso quando se fala em custo da folha anual de vencimentos dos funcionários se projetados apenas sobre a receita de tributos, seu peso percentual torna-se muito maior do que fosse a comparação com todo o total orçamentário.

LANCES DE DADOS – O ministro da Economia que acumula em suas mãos os ministérios da Fazenda, Planejamento Previdência e do Trabalho necessita reformular seus lances de dados.

Geralda Doca chama atenção para o julgamento do STF, previsto para o final deste mês que analisa um recurso do INSS – sempre ele – contra a contagem da contribuição dos segurados que se encontram em licença para tratamento de saúde. No Supremo já existem 5 votos a favor desses segurados, o que torna difícil que o INSS tenha êxito em seu recurso.

TEMPO DE SERVIÇO – A questão é a seguinte. Durante as licenças para tratamento de saúde a Corte Suprema entende que os períodos devam ser contados como tempo de serviço e também de contribuição. Assim as exigências legais para aposentadoria se tornem condições efetivas. Para mim nada mais justo, pois os licenciados não estão deixando de trabalhar por vontade própria.

Há também o caso dos trabalhadores informais, situação que não inclui as contribuições do empregador. Vale frisar que o INSS está recorrendo contra trabalhadores e não toca no fato de as empresas deixarem de recolher os 20% sobre a folha de salários.

COPA DE 50 – Na edição de ontem da Folha, Ruy Castro falou sobre uma reportagem do saudoso Geraldo Mayrink a respeito da vitória do Uruguai na final de 50 sobre o Brasil no Maracanã. Nos próximos dias vou escrever sobre aquele desfecho e vou além, sou a última testemunha viva do diálogo entre Obdulio Varela e João Coelho Neto, apelidado de Preguinho, camisa 10 da seleção brasileira na Copa de 1930.

Obdulio revelou a tática do Uruguai. Foi uma vitória de uma estratégia que tirou o espaço de nosso time de exercer a técnica e a arte. Faltou espaço, faltou garra.

Informação a Sérgio Moro e Merval Pereira: os diamantes são eternos, a corrupção, também

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Charge do João Bosco (O Liberal)

Pedro do Coutto

O Globo, edição de domingo, publicou artigo de Merval Pereira sobre as articulações que flutuam no cenário político para esvaziar a operação Lava Jato e proporcionar uma nova perspectiva para corruptos e corruptores que saquearam o Brasil a partir de 2003 e  que pelos últimos lances nem tão ocultos voltam-se para assegurar a própria impunidade.

Ao mesmo tempo, o governo Bolsonaro está assistindo os efeitos da iniciativa da Procuradoria-Geral da República que na verdade decretou o fim da operação Lava Jato. E o próprio passo é inocentar Lula e todos os corruptos.

GUERRA DA IMPUNIDADE – Firmemente, Merval Pereira expôs as articulações do Centrão e de parte do Supremo Tribunal Federal para assegurar a impunidade dos personagens.

O jornalista de O Globo escreveu um verdadeiro ensaio iluminando a face ainda oculta da corrupção brasileira. Incrível. A rede de atuação é profunda e articulada. O objetivo é claro – não só tentar destruir o trabalho extraordinário de Sérgio Moro e da Lava Jato, como também amordaçar o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF), porque o acesso a esse órgão bloqueia os depósitos tanto na rede bancária brasileira quanto no sistema internacional. Em síntese, tornava claro o volume dos depósitos inclusive os que não podem explicar sua existência.

A existência da Lava Jato e do COAF não interessa a grupos de parlamentares, a ministros, a dirigentes de empresas estatais e a empresários que aparecem como autores dos depósitos sombrios.

MAIS IMPUNIDADE – Reportagem de Bruno Goes e Natália Portinari, também em O Globo, revela a elaboração de grupos na Câmara Federal no sentido de afrouxar a legislação contra a improbidade e a lavagem de dinheiro. Um escândalo.

Inclusive o repórter Bernardo Caran, na Folha, acentua que grupos de deputados e senadores estão concluindo projeto para que o governo não cobre 242,6 bilhões de reais em dívidas tributárias de empresas. Alegam que há necessidade de um novo prazo para que possa efetuar o pagamento. Essas dívidas foram resultado de quase dois anos, portanto no atual governo.

Para finalizar, Lauro Jardim no seu espaço de ontem no Globo, diz que a venda da Oi móvel para Tim, Vivo e Claro está prevista em 16,5 milhões de reais. Pergunto a Guedes: não é possível que a Eletrobrás tenha seu preço de venda fixado em 16,5 bilhões de reais. A resposta é importante, porque não há comparação entre a Oi e a Eletrobras.

O título que dei a este artigo, os leitores já perceberam, inspira-se no livro de Ian Fleming autor do personagem 007, “Os diamantes são eternos”. Aqui no Brasil, o que parece eterno é a impunidade da corrupção.

Lula escolhe Haddad para as urnas de 2022, mas ainda falta a definição de Luciano Huck

Pedro do Coutto      /   Charge do Aroeira (revista Fórum)               

O Globo e o Estado de São Paulo deste sábado dão destaque a iniciativa do ex-presidente Lula de colocar o PT em ação contra a candidatura Bolsonaro e também contra João Dória, praticamente escolhido como candidato do PSDB. A matéria no Globo está assinada pelo repórter Sérgio Roxo.

Com essa iniciativa acredito que não sobrou espaço para que o apresentador Luciano Huck possa disputar as eleições, inclusive porque o DEM, presidido por ACM Neto vai sofrer perdas com a saída de Rodrigo Maia, como escreveram Paulo Capelli e Júlia Lindner também no Globo.

No decorrer da semana passada Merval Pereira escreveu a respeito de Huck dizendo que ele não havia ainda decidido ser candidato o que implicaria no seu desligamento da TV Globo.

TUDO COM ANTES – Como se constata no caldeirão sucessório, as posições vão se consolidando não havendo espaço para qualquer outra candidatura. Novamente podem se colocar frente a frente os direitistas com Bolsonaro, o centro com João Dória, os reformistas com Haddad e Ciro Gomes.

Quanto a Lula, ao contrário do que muitos pensam, é interessante notar que o ex-presidente na realidade tem uma atuação que conduz à impressão de ser da esquerda, quando é de fato um conservador.

Ser conservador representa a posição de todos aqueles que não desejam uma reforma de estrutura entre as relações do capital e do trabalho.

CONCENTRAÇÃO DE RENDA – Enquanto não for resolvida no Brasil uma solução para o problema da concentração de renda, o conservadorismo vai prevalecer. Uma das consequências da política conservadora está no empobrecimento da população. Basta ver que o país tem 65 milhões de pessoas em situação de extrema carência.

Não gosto da expressão desigualdade social, pois ela parte de um raciocínio poético de que todos seriam iguais. Mas por princípio o ser humano é desigual. O desenvolvimento social, isso sim, é que tem de ser finalmente implantado. Os salários não podem eternamente perder para os preços, uma vez que o resultado de tal confronto está contido na favelização, desemprego e na falta de esperança. É triste ver o expresso da história passar pelos trilhos da política sem ter condições de embarcar.              

E é preciso que nós, seres humanos, nos livremos dessa compressão e possamos seguir em frente sentindo melhoras em nossas vidas, à luz da inclusão para nossas famílias.

CAPITAL E TRABALHO – Lula jogou apenas um lance de dados e Haddad aceitou percorrer o país em busca de apoio junto a população. Certamente vai abordar a contradição entre capital e trabalho. Ela se une a outras duas que também envolvem a humanidade. São elas; existência/eternidade e corpo/espírito, que representam um sinal de mais e outro de menos, em todas as ocasiões.

Mas isso é só uma divagação minha. A extrema esquerda não existe mais, porém a extrema direita sobrevive. Nem todos conservadores são extremistas, mas todos os extremistas são conservadores. 

Na quinta-feira, na reunião do governo para avaliar os preços do diesel e da gasolina , Guedes disse que toda a vez que a receita subir vão crescer também direitos sociais. Não é verdade. A arrecadação de impostos só pode subir se o consumo avançar.

 

Sucessão do presidente Jair Bolsonaro ainda depende de uma longa estrada até 2022

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Charge do Jota A (O Dia/PI)

Pedro do Coutto

O espaço de dois anos na política é uma longa estrada cheia de surpresas e alterações inesperadas e imprevisíveis com mudanças repentinas de tendências e obstáculos. Carolina Linhares, Folha desta sexta-feira, analisou as vitórias e Bolsonaro nas eleições de Rodrigo Pacheco e Arthur Lira como uma dificuldade para que a oposição se articule no rumo das urnas.

Minha experiência, porém, me faz pensar que nesses dois anos podem acontecer mudanças nos rumos das eleições. As vitórias de Pacheco e Lira não têm maior influência na campanha presidencial.

SITUAÇÕES DIVERSAS – Uma coisa é a escolha de dirigentes do Congresso, outra, muito diferente, a seleção dos candidatos e o desempenho deles. Isso porque um conjunto não é apenas a soma das partes, traz consigo sempre reflexos diversos passando por uma série de situações políticas.

O presidente Bolsonaro empenhou-se a fundo no apoio aos novos presidentes da Câmara e do Senado. Isso não tem vinculação com a campanha voltada para o eleitorado de 140 milhões de homens e mulheres. Não tem cabimento também dar-se muita ênfase ao peso das legendas partidárias, muito mais importante é o desempenho dos rivais em confronto.

Se o peso partidário fosse algo inexpugnável, o general Teixeira Lott teria sido eleito em 1960, pois era apoiado pela coligação PSD-PTB que cinco anos antes levou JK a vitória nas urnas de 1955.

EXEMPLO DE JANGO – Se a soma das legendas fosse um atestado de força política o presidente João Goulart não teria sido deposto. Jango foi sustentado pelo governador Brizola e formou seu governo com apoio do PSD, PTB e também da UDN. Vejam só; Virgílio Távora no Ministério dos Transportes, Gabriel Passos em Minas e Energia, Afonso Arinos embaixador do Brasil junto a ONU. Moreira Sales na Fazenda, Ulisses Guimarães na Indústria e Comércio. A UDN rompeu em 1962. O resto pertence à história moderna do país.

Bolsonaro avisa ao Centrão que antes deseja os votos e só dá os ministérios, depois

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Charge do João Bosco (O Liberal)

Pedro do Coutto

Na edição de quarta-feira, na Folha, os repórteres Gustavo Uribe, Daniel Carvalho e Tiago Resende revelam que, aconselhado por assessores do Palácio do Planalto, o presidente Bolsonaro avisou ao Centrão que deseja receber primeiro os votos de sua base antes de nomear ministros que forem indicados pelos parlamentares.

O presidente da República quer avaliar até onde vai a fidelidade das bancadas na Câmara e no Senado para votar projetos do interesse do governo.

NO CONTA-GOTAS – Os deputados e senadores do Centrão, entretanto, querem o contrário; primeiro os ministérios, depois os votos. Para resolver o impasse desse verdadeiro jogo de pôquer, Bolsonaro está avaliando substituir ministros à base de conta-gotas.

O senador Eduardo Gomes está indicado para o Desenvolvimento Regional, mas há também parlamentares que têm em vista o ministério da Saúde.

Agora o principal projeto do Palácio do Planalto é aprovar a proposta de privatização do poderoso grupo Eletrobrás.

MAIA SE OPÔS – Reportagem de Anne Warth, Camila Turtelli e Daniel Weterman, no Estadão de quinta-feira, focaliza  o empenho do Executivo em privatizar a Eletrobrás, iniciativa barrada desde o final de 2019 pelo deputado Rodrigo Maia, então presidente da Câmara.

Penso que essa venda da estatal é muito difícil, não só pela resistência dos trabalhadores e de correntes políticas, principalmente no Vale do São Francisco. Mas há também a questão do preço, porque o valor de 16 bilhões de reais é uma brincadeira.

Em meia hora a State Gride (empresa chinesa) efetuaria o pagamento. É só comparar transações realizadas no EUA, cujo valor é muito superior àquele avaliado pelo ministro Paulo Guedes. Além disso, a privatização como está proposta é ilusória. O que haveria apenas era a passagem da parcela majoritária das ações da estatal.

CASO BIA KICIS – O deputado Arthur Lira, a meu ver não tem condições para presidir a Câmara Federal, como ficou flagrante na indicação da deputada Bia Kicis para presidir a Comissão de Constituição e Justiça.

Ela participou de atos públicos na Esplanada dos Ministérios contra o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal. Como é possível que o presidente da Casa faça uma indicação desse porte?

E o Estado de São Paulo de ontem publicou entrevista de Bia Kicis à repórter Camila Turtelli voltando a atacar a Corte afirmando que vai apresentar projeto de lei para acabar com o ativismo judicial do STF. A que ponto chegamos…

Nelson Rodrigues tinha um encontro marcado com Shakespeare na eternidade da arte

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Quarenta anos depois de sua morte a eternidade da obra de Nelson Rodrigues cada vez mais alcança maior presença no cenário da dramaturgia. Agora, por exemplo, vários romances e peças de sua autoria vão se transformar em nova edição pela Harper Collins, após extensa pesquisa de sua produção.

Nelson Gobbi na edição de O Globo de quarta-feira publicou reportagem sobre a iniciativa. Importante. Tem como base tanto obras literárias quanto peças teatrais.

DESEJO DE NELSON – A editora da Harper Collins disse que a seleção dos textos será feita para atualizá-los em alguns pontos. Lembro que num almoço tradicional de sábado na casa de Marcelo Soares de Moura, eu estava presente com Beline Cunha, Mário Saladini e Salim Simão, com Nelson Rodrigues falando sobre sua obra. Disse que iria deixar em testamento que “tem a mãe na zona o filho da puta que alterar qualquer parte do que eu escrevi”.

Não sei se ele concretizou essa vontade. De qualquer forma deixo registrado neste artigo.

Certa vez, ele escreveu no Globo que Marcelo Soares de Moura, Salim Simão, José Lino Grunewald e eu éramos seus “irmãos íntimos”. Nos encontrávamos sempre no Maracanã. Marcelo, Belini e eu, torcedores do Fluminense. Salim Simão era um exaltado botafoguense.

URUBU DE PÉ – Certa vez no meio da semana em que jogavam Flamengo e Botafogo, Nelson escreveu na coluna ‘À sombra das chuteiras imortais” que Salim lhe dissera que “domingo não ia ficar nem um urubu de pé”. A afirmação foi racista, mas a torcida rubronegra assumiu a cor da pele; levou para o Maracanã um urubu e quando o time entrou em campo a torcida gritou em coro: “É urubu, é urubu, é urubu”, assumindo a raça. Foi um belo episódio contra o racismo.

A obra de Nelson é intensa e extensa, tão impressionista quanto impressionante. Inclusive, para mim, a maior de suas peças é “O vestido de noiva”, de 1941, magistralmente dirigida por Ziembinsky, dividida em três planos. A realidade, o subconsciente e o delírio do desespero de quem sentiu-se alvo da morte. Para mim, é tão importante essa peça quanto o “Cidadão Kane” de Orson Welles. Por coincidência, o teatro e o filme foram produzidos no mesmo ano.

Falei no encontro com Shakespeare. O volume das obras se equivalem. Mas a diferença fundamental é que os personagens de Nelson são pessoas comuns, do povo, do cotidiano e os de Skakespeare eram príncipes, imperadores, generais, caso de Otelo, intelectuais como Romeu e enigmáticos como Hamlet.

UMA PEÇA ASSASSINADA – É um pouco esquecida sua passagem pelo Correio da Manhã onde iniciou suas memórias. Mas Roberto Marinho o levou para O Globo, jornal em que escrevia a coluna À Sombra das Chuteiras Imortais. Nelson orgulhava-se sempre quando dizia que ele era o único autor que quase teve uma peça assassinada. Foi “Perdoa-me por me traíres, no Theatro Municipal, 1956, quando o vereador Wilson Leite Passos sacou o revólver no meio da confusão que começou no primeiro ato da peça.

O passar do tempo mostrou e cada dia está demonstrando que a realidade choca imensamente mais do que a poesia dramática do meu saudoso amigo, autor de tantas obras de arte.