Pais e filhos dos mortos na Covid exibiram a maior tragédia do governo Bolsonaro

Obsessão negacionista de Bolsonaro continua a ser inexplicável 

Pedro do Coutto

Os depoimentos selecionados pela CPI do Senado de vítimas das ações e omissões do governo federal efetivamente dimensionam com nitidez o que aconteceu e continua acontecendo no país em consequência da Covid-19, da inação do Ministério da Saúde e das ações inexplicáveis do presidente da República, dos ministros Eduardo Pazuello e Marcelo Queiroga, das transações elaboradas nas escalas administrativas do Ministério da Saúde.

O governo recusou a aquisição de vacinas da Pfizer no início da pandemia e instituiu um sistema de intermediação para adquirir imunizantes a preços 50% maiores que os do mercado, além de incluir adiantamentos e empresas intermediárias como foi o caso da Precisa. A TV Globo e a GloboNews na noite de segunda-feira e as edições de ontem do O Globo e da Folha de S.Paulo destacaram os dramas com absoluto realismo e nitidez.

DEBOCHE DE BOLSONARO – Márcio Antônio Silva perdeu um filho. Kátia Castilho dos Santos acusa o presidente da República de imitar os momentos finais de seu pai, morto por falta de oxigênio em Manaus. Geovana da Silva perdeu o pai e a mãe e tem que assumir a guarda de sua irmã de 11 anos. Outros depoimentos destacam pontos de uma tragédia inconcebível. A reportagem de O Globo é de Adriana Mendes. Na Folha de S. Paulo a matéria é de Matheus Vargas e Renato Machado.

As duas matérias são documentos que se incorporam ao lado obscuro da história do Brasil e conduzem o governo ao silêncio da autocondenação diante da falta de condições de oferecer qualquer resposta aos fatos que se acumulam contra ele. Muitas mortes poderiam ter sido evitadas, mas não foram.

Interessados na comercialização de vacinas atuaram com força para o resultado, mas com força atuou também o impulso interior do próprio Jair Bolsonaro que se tomou de uma obsessão inexplicável e trágica, contra a vacinação e contra o uso de máscaras, não se podendo justificar quais as suas razões.

CRÉDITO COM A CASA PRÓPRIA  – Não sei porque o Banco Central não apresentou argumentos contra o projeto de crédito bancário com base no oferecimento da casa própria como garantia. Afinal, a legislação do país impede a possibilidade de uma execução imobiliária ao proprietário de uma só residência. A ideia destacada em reportagem de Vítor da Costa e Júlia Noia, O Globo de terça-feira, destacou o lançamento deste tipo de crédito, apoiado direta ou indiretamente por um banco.

A modalidade foi comentada pela Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário. Este ano, de janeiro a agosto, a abertura de créditos tendo o imóvel como garantia cresceu 46% comparado ao mesmo período de 2020: R$ 12,3 bilhões já foram negociados. Os juros, informa a matéria, foram fixados em 0,78% ao mês. Mas, tal valor, será aquele que ultrapassar a inflação de 10% em 12 meses, como está acontecendo no país, inclusive de acordo com o IBGE.

Assim, os juros de 0,78% mensais têm que ser acrescidos aos 10% encontrados pelo IBGE para a inflação. Caso contrário, os juros cobrados seriam negativos. Em alguns casos, são cobrados juros de 0,6% por trinta dias. Digo isso porque muitas pessoas poderão supor que encontrarão uma facilidade muito grande para obter crédito, já que no mercado bancário os juros mensais são de 2,8%. Esclarecida a questão essencial, presume-se que tal modalidade de crédito possa marcar a véspera de uma bolha imobiliária como aquela que aconteceu nos Estados Unidos em 2004. Hipotecas duplas eram permitidas e a segunda não pôde ser saldada em grande número de casos pelos que assumiram empréstimos.

LUCRO DOS BANCOS – Larissa Garcia, reportagem na Folha de S. Paulo,  com base em relatório do Banco Central divulgado na tarde de segunda-feira, assinala que no primeiro semestre deste ano o lucro dos bancos atingiu R$ 62 bilhões, o que representa um aumento de 53% em relação ao espaço de janeiro a junho de 2020. Mesmo se descontarmos a inflação oficial do IBGE, verificamos um lucro concreto de 43%.

O sistema financeiro continua avançando no país enquanto o endividamento das famílias também. Neste caso, ampliou-se ao longo dos últimos 12 meses, de 50,3%% para 59,9%. Como não existe crédito sem débito, se alguém lucrou mais é porque alguém perdeu uma parcela de sua renda. Importante acentuar que o índice de endividamento está atingindo mais de 80% da mão-de-obra ativa do país, pois há uma diferença entre a mão-de-obra e o número de habitantes:a mão-de-obra excetuando o desemprego normalmente é formada pela metade da população.

Assim, para 214 milhões de habitantes, caso brasileiro, o mercado de emprego privado e público deveria reunir 107 milhões de homens e mulheres, mas reúne menos porque o desemprego é muito alto. São 14 milhões de pessoas.

COPA DO MUNDO – Na edição de ontem da Folha de S. Paulo, Carlos Petrocilo revela que a Globo transmitirá com exclusividade a Copa do Mundo de 2022 na televisão aberta, mas perdeu a exclusividade para a transmissão através de direitos digitais pela internet. A Copa do Mundo de Futebol começa no dia 21 de novembro do próximo ano e termina dia 18 de dezembro.

As transmissões digitais poderão ser realizadas pelas plataformas do Youtube, do Facebook e do TikTok que já foram procurados pela FIFA e estudam a viabilidade das transações. Na Copa do Mundo de 2022, além da TV Globo, o grupo terá acesso às transmissões pelos seus canais do SporTV. Carlos Petrocilo afirma que a Globo deverá pagar em parcelas US$ 90 milhões pelos direitos de transmissão. Relativamente aos canais digitais, a FIFA contratou a agência LiveMode, sediada no Rio, para articulação prevista.

A LiveMode foi criada em 2017 pelos empresários Edgard Diniz e Sérgio Lopes e já faz a gestão dos direitos de transmissão da Copa do Nordeste e do Campeonato Paulista. No caso do Campeonato Paulista, a Record transmitirá os jogos. No caso dos direitos pela transmissão da Copa no próximo ano pela TV aberta, a Globo obteve na justiça o direito de parcelar o pagamento total de US$ 90 milhões, mas segundo Petrocilo o caminho judicial poderá ser substituído por um entendimento direto entre a TV Globo e a FIFA.

CPI deve centrar relatório no governo Bolsonaro como um todo e não fracionar acusações

Charge do Amarildo (diariodocentrodomundo.com.br)

Pedro do Coutto

Reportagem de Raquel Lopes, na Folha de S. Paulo desta segunda-feira, e de Natália Portinari e Paulo Cappelli, no O Globo, revelam divergências que surgiram quanto ao relatório final da CPI do Senado, levando ao adiamento pelo menos por 24 horas da leitura do texto do relator Renan Calheiros.

Na noite de domingo, em entrevista à GloboNews, o senador Omar Aziz, presidente da CPI, colocou o problema e afirmou que a conclusão final do trabalho será resultado de um consenso fixando as responsabilidades e propondo ações penais em consequência das omissões do presidente da República e das ações dos ministros Eduardo Pazuello e Marcelo Queiroga, períodos nos quais ocorreram problemas muito graves, como foi o caso do atraso na aquisição de vacinas contra a Covid-19 e a participação de empresas que surgiram repentinamente como intermediárias de propostas de fornecimento de imunizantes, sobretudo o caso que envolveu a Precisa e a indiana Covaxin, cujo preço era de US$ 1,5 a unidade, 50% acima do preço internacional. Este é um dos pontos fundamentais.

PFIZER – Outro ponto também essencial refere-se ao atraso na aquisição de vacinas, a começar pela recusa da aquisição junto à Pfizer e ao bloqueio do próprio presidente Bolsonaro à chinesa Coronavac; ambas terminaram plenamente aceitas e integradas ao processo global de vacinação. O presidente Bolsonaro inevitavelmente se destaca como o maior opositor da vacinação, tendo atuado para desacreditar a importância  dos imunizantes ao mesmo tempo em que realçava a importância  do que classificava como tratamento precoce, que foi um fracasso.

No Ministério da Saúde evidenciaram-se problemas extremamente críticos envolvendo propostas de comissões ilícitas embutidas na aquisição duvidosa de produtos. Uma dessas operações, a da Covaxin, embutiu um adiantamento de US$ 45 milhões à empresa Precisa, cujo credenciamento à produtora original não havia sequer sido comprovado. Uma das razões da divergência na CPI refere-se à inclusão do senador Flávio Bolsonaro, do deputado Eduardo Bolsonaro e do vereador Carlos Bolsonaro como responsáveis na medida em que são acusados de injetar fake news nas redes sociais da internet.

Na minha impressão, eles podem ser citados como elos de uma investigação, mas a responsabilidade efetiva é do governo federal envolvendo diretamente o presidente da República e as equipes do Ministério da Saúde nas administrações Pazuello e Queiroga. Um aspecto a ser considerado refere-se à acusação de genocídio ao presidente da República, na medida em que uma acusação exagerada pode até apagar a acusação central do processo que se desencadeou na esfera do Planalto e da Esplanada dos Ministérios de Brasília.

MANIFESTO – Bianca Gomes, O Globo de ontem, revela que mais de três mil promotores e procuradores do Ministério Público Federal assinaram um documento pedindo a rejeição total do projeto liderado pelo deputado Arthur Lira que reduzia o campo de atuação do Ministério Público, especialmente nos casos de corrupção. Pelo que se entende do texto confuso, a punição só estaria reservada aos casos de dolo, o que é um absurdo porque a corrupção não pode ser equacionada no esquema que separa os atentados contra a vida humana. Quem pratica corrupção, está claro, age intencionalmente, incluindo todo o esquema de parceria que surge da tentativa de se assaltar o Tesouro Público.

A respeito da PEC de Arthur Lira, o procurador-geral Augusto Aras, numa entrevista ao O Globo, afirmou que irá recorrer ao Supremo Tribunal Federal caso o Congresso aprove a emenda que reduz a autonomia e dilui a composição do Conselho Nacional do Ministério Público. A emenda amplia o número de parlamentares no poder de decisão do CNMP, o que, no caso, tem como objetivo bloquear denúncias do Ministério Público contra parlamentares e administradores em geral ligados a interesses de setores do empresariado. Augusto Aras admite que tem conversado sobre a vaga no STF, o que assinala um enfraquecimento de André Mendonça cuja indicação não consegue avançar no Senado Federal.

CANDIDATO TUCANO – O ciclo de debates que O Globo e O Valor iniciam hoje sobre a escolha de candidato do PSDB à sucessão presidencial de 2022 vai definir entre Eduardo Leite, favorito, João Doria e Arthur Virgílio. O panorama está bem mais favorável para Eduardo Leite, que inclusive criticou diretamente João Doria por tentar esquivar-se do confronto adotando uma técnica colocada em prática por Jair Bolsonaro em 2018. Eduardo Leite, assim, relembra que nas eleições de 2018 para o governo de São Paulo, João Doria manifestou o seu apoio direto à candidatura de Jair Bolsonaro.

As prévias do PSDB também assinalam um encurtamento da terceira via para sucessão presidencial porque não faria sentido que o partido pudesse escolher outro candidato que não o mais votado nas prévias de agora. Com isso, fechado o caminho do PSDB, Sergio Moro não teria nenhuma outra opção para se candidatar, inclusive porque o candidato do PDT é o ex-governador Ciro Gomes. Em certo sentido, Eduardo Leite bloqueia o caminho de qualquer outro candidato além de Lula da Silva e do próprio Bolsonaro.

O grande erro do juiz Sergio Moro foi ter aceitado ser ministro de Bolsonaro

Antes de ser ministro, Moro tinha a melhor imagem possível

Pedro do Coutto

Na edição de ontem de O Globo, Elio Gaspari e Merval Pereira, cada um sob um ângulo, tentaram focalizar a posição do ex-juiz Sergio Moro no quadro da sucessão presidencial, ambos considerando ser viável tal expectativa. Mas é difícil, acho. Sergio Moro, em primeiro lugar, não terá legenda para ser candidato à Presidência, pois não vejo qual agremiação poderia homologá-lo como candidato.

Em segundo lugar, ele pode ser candidato a deputado federal, cargo para o qual estará eleito, ou para o Senado, eleição que pode se tornar duvidosa nas urnas. Ele não pode se inscrever em um partido que apoiar a candidatura de Lula da Silva porque como juiz condenou o ex-presidente à prisão. Não poderá se inscrever num partido que forme na coligação de apoio à reeleição de Jair Bolsonaro pois foi por ele demitido, o que o levou a acusá-lo junto ao Supremo Tribunal Federal por interferência indevida na Polícia Federal.

OPINIÃO PÚBLICA – Sergio Moro antes de ser  ministro da Justiça era alguém com a melhor imagem possível junto à opinião pública brasileira, mas a partir do momento em que avalizou o governo perdeu essa condição, distanciando-se do grau de apoio que obtinha. Era aplaudido quando entrava em aviões, restaurantes, livrarias, enfim era uma figura extremamente popular. De repente, tudo mudou, sobretudo a partir do momento em que assumiu o Ministério da Justiça e incorporou ao seu sistema o Coaf, órgão da Fazenda absolutamente estratégico para a classe política e para o universo empresarial, principalmente aos empresários do setor financeiro.

O Coaf, é bom lembrar, é capaz de identificar em minutos recebimentos de depósitos atípicos. Portanto, acredito, Sergio Moro não será candidato à Presidência da República. Mas a sua presença no quadro político é mais perigosa para Bolsonaro do que para Lula, sobretudo porque Lula já foi alvo de reabilitação pelo STF, enquanto o declínio de Bolsonaro vai se acentuar ainda mais a partir do momento em que a CPI do Senado divulgar o seu relatório acusando-o de uma sequência de crimes, destinado a obter uma grande repercussão nacional quanto internacional. Bolsonaro, assim, vai perder mais pontos na estrada para as urnas de 2022.

Moro, diante deste panorama, poderia ser aceito pelo PSDB ou pelo PDT, mas como candidato a deputado federal. O PSDB começará uma sequência de debates nos jornais O Globo e O Valor entre Eduardo Leite, João Doria e Arthur Virgílio. No seu espaço de ontem no O Globo, Lauro Jardim indica que pesquisas na legenda tucana deixam Doria em desvantagem em relação a Eduardo Leite. Quanto ao PDT, Sergio Moro só teria um caminho numa campanha presidencial de Ciro Gomes. Não há mais espaço para o juiz da operação Lava Jato que, diga-se de passagem, prestou um grande serviço ao Brasil quando pela primeira vez ladrões de casaca foram acusados e condenados.

TRISTE REALIDADE – Em reportagem publicada na Folha de S. Paulo de domingo, Fernando Canzian revela com base em cálculos da Tendência Consultoria e também do IBGE que 55% da população do país integram as classes D e E, aquelas nas quais moram a pobreza e a miséria. Impressionante o número, digo, porque como se constata as classes D e E possuem mais integrantes que todas as demais categorias juntas, valendo ressaltar que a classe C que também é abrangida pela pobreza reúne 29% da população.

Portanto, a triste realidade sempre desconhecida pelo ministro Paulo Guedes é a de que 84% dos brasileiros e brasileiras vivem em situação de carência. Assim, o Auxílio Brasil de R$ 300 em média a ser estendido até o final de 2022, ano das eleições, não será capaz de alterar o atual quadro social do país. O desemprego, a informalidade do mercado de trabalho e o congelamento de salários são fatores marcantes e extremamente críticos da realidade brasileira. A previsão da Tendência Consultoria é a de que uma faixa da classe B vai descer alguns degraus e ingressar no segmento C da realidade do país.

Após repercussão negativa, Doria recua e diz que participará de debate das prévias

Doria tinha recusado o convite dos jornais O Globo e Valor

Pedro do Coutto

O governador de São Paulo, João Doria, na última sexta-feira anunciou ter desistido  de participar do primeiro debate dos pré-candidatos do PSDB à sucessão presidencial organizado pelo O Globo e também pelo Valor, marcado para a próxima terça-feira. Com isso, o debate estaria restrito ao governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, e ao ex-prefeito de Manaus Arthur Virgílio Neto. João Doria sustentou que não foi estabelecido um entendimento prévio entre os três candidatos sobre as regras do debate e sobre o seu formato, uma vez que o encontro será transmitido pelos sites e pelas redes sociais de O Globo e do Valor.

A meu ver, as razões de João Doria não eram compatíveis com a sua decisão de não comparecer. Isso porque as regras estabelecidas para o confronto de ideias só poderiam ser aqueles em tantos debates semelhantes que se realizam em torno de eleições de escolha dos candidatos. Creio ter sido um sinal, naquele momento, de que João Doria pudesse ter desistido de disputar a Presidência da República em outubro de 2022, preferindo disputar a reeleição para o governo de São Paulo.

REPERCUSSÃO – Com isso, o campo para a escolha do candidato do PSDB estaria aberto ao governador Eduardo Leite, que possui apoio partidário maior do que o alcançado por Arthur Virgílio Neto.  A decisão de Doria, entretanto, acabou repercutindo mal entre seus aliados que pediram para que ele reconsiderasse a posição. Ele então anunciou neste sábado que participará do primeiro debate das prévias do PSDB.

O governador João Doria fixou-se numa posição contra Jair Bolsonaro, mas com base nas pesquisas do Datafolha, a sua aprovação não ultrapassa os limites do regular. Se a sua disposição for a de concorrer ao Palácio do Planalto, evidentemente, ele não teria se negado ao debate. Com a representatividade que tem, como governador de São Paulo, seria estranho a sua ausência de um debate tão importante.

ATIVIDADE ECONÔMICA – Reportagem de Clarissa Garcia, Folha de S. Paulo de sábado, revela que atividade econômica no mês de agosto caiu 0,15% e acentua uma tendência à desaceleração na retomada do setor produtivo. Os dados do próprio Banco Central, a meu ver, não poderiam ser diferentes, já que é praticamente impossível a atividade econômica passar por uma reaceleração com um índice de desemprego que abrange mais de 14 milhões de pessoas e com uma taxa inflacionária de 10% relativa ao período de setembro de 2020 a setembro de 2021.

Portanto, a previsão de crescimento do Produto Interno Bruto sofreu uma interrupção até sob a lente do próprio Banco Central. Além disso, Leonardo Vieceli, também na Folha de S. Paulo de ontem, publica matéria destacando que os efeitos da inflação para os mais pobres são muito mais intensos do que para as famílias de classe média de modo geral. É fácil explicar o motivo.

A alimentação, que é o setor mais imediato em matéria de consumo, atinge com muito mais força os grupos de renda baixa. A reportagem de Leonardo Vieceli está baseada na própria pesquisa do Ipea, órgão governamental. Com o desemprego em alta e a inflação crescendo, a retomada da economia seria uma surpresa que só é desenhada no papel. A meta inflacionária já foi largamente ultrapassada este ano.

PONTES DEVE SAIR –  O ministro da Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes, não tem motivos para permanecer à frente da pasta, sobretudo porque ela sofreu um esvaziamento em seus recursos numa escala de 90% de 2021 para 2022. A proposta orçamentária elaborada pelo Ministério da Economia, revela Daniel Giulino, O Globo, sofreu um corte de R$ 690 milhões para apenas R$ 90 milhões. Quando o corte foi anunciado, Marcos Pontes procurou o presidente Bolsonaro e levou o problema a ele, referindo-se ao corte determinado pelo ministro Paulo Guedes. O presidente da República ficou de examinar a questão e restabelecer a verba prevista, mas isso não aconteceu.

Na sexta-feira, o Diário Oficial publicou a Lei Orçamentária sancionada por Bolsonaro mantendo o corte de praticamente 90% dos recursos da pasta. Assim, o Ministério de Ciência e Tecnologia concretamente deixa de existir. E se isso acontece, o ministro não pode permanecer no posto, simplesmente porque o posto não mais existe na prática. Marcos Pontes deve entregar o cargo imediatamente.

NOVA FÓRMULA – Na edição de sábado, Stephanie Tondo, O Globo, publica reportagem sobre uma nova fórmula que setores descobriram para investir. Trata-se do empréstimo de dinheiro de uma pessoa para outra. Custa crer que tal modalidade pudesse passar ao largo do Banco Central.

A rentabilidade oferecida é bem mais alta do que a do mercado e faz parte de um projeto lançado pelo empresário Thiago Carneiro Barreto. A matéria frisa diretamente que não há garantia para os aplicadores de tal sistema que se inspira na antiga agiotagem. Colocada em prática essa forma de crédito, os problemas decorrentes, como se presume, serão muito grandes e insolúveis.

PREÇOS DOS ALIMENTOS – Na edição de sábado do jornal O Estado de S. Paulo, a repórter Daniela Amorim focaliza objetivamente o peso insuportável que a alta dos alimentos, o aumento do gás de cozinha e a elevação das tarifas elétricas representam para os grupos sociais de menor renda, portanto os mais pobres.

Conclui que tais encargos são extremamente críticos e significam um aprisionamento social progressivo para mais de um terço da população brasileira. Assim, a economia não reacelera e, pelo contrário, desacelera.

Guedes esquece que vender ações de estatais é ato isolado e desembolso com Bolsa Família é mensal

Charge do Leandro Campos (twitter.com)

Pedro do Coutto

O ministro Paulo Guedes que a meu ver se especializou em projetos irrealizáveis, agora teve a ideia, como destaca reportagem de Manoel Ventura, O Globo de sexta-feira, de vender ações de empresas estatais, especialmente a Petrobras e a Eletrobras para destinar recursos ao combate à fome que está fazendo com que a miséria ocupe o lugar da pobreza.

Ele já havia se pronunciado sobre o assunto numa entrevista a Daniel Giulino e Fernanda Trisotto, O Globo, edição de quinta-feira, mas restringindo a venda às ações da Petrobras. Ele assinalou que a venda de ações da estatal poderá ser utilizada na distribuição de recursos financeiros para que os segmentos de menor renda adquiram botijões de gás. Neste caso, não levou em consideração a estrutura necessária para tal projeto. Ações seriam vendidas, o dinheiro arrecadado, mas pergunto, como seria feita a distribuição? Impossível colocar em prática um projeto desta ordem.

FUNDO DE SOCORRO – Na edição de ontem, Manoel Ventura também focaliza a iniciativa de Paulo Guedes, desta vez acrescentando que a venda de ações da Petrobras e da Eletrobras permite a arrecadação de recursos para criar um fundo de socorro às famílias necessitadas. Seria uma forma de financiar o Bolsa Família, estendendo-o de hoje ao final de 2022, passando assim pelas eleições presidenciais de outubro.

Mas, como disse no título, o ministro da Economia esqueceu que a venda de ações é uma operação singular. O desembolso com o Bolsa Família é mensal, então quando se esgotassem os recursos decorrentes da primeira venda de ações teria que ser realizada uma segunda para assegurar a continuidade do programa. Tal operação teria influência, é evidente, na cotação dos papéis da Petrobras e da Eletrobras na Bovespa. O desembolso mensal permanente não pode ser confundido com um lance financeiro isolado.

DIVIDENDOS – Paulo Guedes argumenta que este ano a Petrobras distribuirá R$ 17 bilhões em dividendos. Mas isso não muda a questão essencial que é de que o custo do programa Bolsa Família é de aproximadamente R$ 14 bilhões este ano e deve ser elevado, acentua Manoel Ventura, para R$ 23,2 bilhões  em 2022. Afinal de contas, o programa social destina-se a 14,4 milhões de famílias, correspondendo a cerca de 55 milhões de pessoas.

Há alguns meses, no início de 2021, o ministro Paulo Guedes sugeriu que restaurantes, depois de servidos os clientes para o almoço, distribuíssem a quantidade não consumida para os pobres. Impossível executar tal projeto. Sobretudo por um fato muito simples; sabendo da distribuição de alimentos, formariam-se filas de homens e mulheres aguardando a vez de receber. Basta este aspecto para mostrar que os restaurantes não poderiam colocar a ideia em prática porque principalmente faltariam clientes. Este é um reflexo absolutamente evidente para todos, menos para Paulo Guedes.

DIA DO PROFESSOR – Na manhã de ontem, sexta-feira, na TV Globo, o programa Encontro com Fátima Bernardes, apresentado por Patricia Poeta, incluiu uma excelente matéria desenvolvida por outro apresentador, Manoel Soares, sobre a passagem do Dia dos Professores e Professoras que se empenham em dar aula, enfrentando dificuldades de toda sorte, a começar, como é o caso do Rio de Janeiro, há quatro anos sem receber um reajuste salarial sequer.

As perdas acumuladas atingem 26% e além disso as professoras e professores enfrentam falta de material, falta de limpeza nas escolas, falta de sabonete para lavar as mãos, falta de papéis para enxugá-las. Todos esses fatores conduzem a um desgaste enorme e uma desvalorização de uma profissão essencial para o presente e para o futuro do país.

O panorama nacional do Magistério não é diferente do Rio de Janeiro. As dificuldades são crescentes e só uma dedicação que parte do amor ́ profissional pode sustentar, como vem sustentando, o desenvolvimento da atividade. Portanto, a tarefa é realmente de compromisso com os alunos e, sobretudo, com a própria educação. Infelizmente, digo, no Dia do Professor, que deveria ser o dia da educação, não há nada para festejar a não ser o esforço  dos professores e professoras.

FMI  – O Fundo Monetário Internacional, matéria publicada na edição de quinta-feira de O Globo, revela que a dívida global do universo, incluindo portanto governos de países e também empresas particulares, atingiu este ano o recorde de US$ 226 trilhões, mais que o dobro do Produto Bruto mundial. O relatório do FMI foi divulgado quarta-feira em Washington e acentua que a pandemia vai deixar uma marca duradoura na desigualdade, na pobreza e nas contas governamentais.

Este ano, o total de US$ 226 trilhões representa 14% a mais do endividamento registrado em 2020. Isso de um lado. De outro, a dívida de US$ 226 trilhões representa um pouco mais da metade do Produto Bruto mundial que se encontra na escala de US$ 110 trilhões. Do total de US$ 226 trilhões, as dívidas de governos representam US$ 88 trilhões e a diferença as dívidas de empresas pelo mundo afora.

Os credores são os bancos internacionais e a dívida se acumula porque, como acentua Thomas Piketty em seu livro “O Capitalismo do século XXI”, a rentabilidade das aplicações financeiras que criam menos empregos do que os investimentos econômicos são também muito mais rentáveis do que a realização de projetos que atingem diretamente a vida da população do planeta que já supera sete bilhões de seres humanos.

Com salários congelados, fome avança no país e já se aproxima da classe média  

Charge do Genildo (Arquivo do Google)

Pedro do Coutto

Atualmente no Brasil cerca de 20 milhões de pessoas passam as 24 horas do dia sem ter o que comer, até mesmo alguns dias por semana. Enquanto isso, 24,5 milhões de brasileiros e brasileiras não têm certeza se vão se alimentar no dia seguinte. Além disso, 74 milhões são atingidos pela insegurança sob a hipótese de ter que passar por isso.

É o que revela reportagem de Fernando Canzian, Folha de S. Paulo desta quinta-feira, com base em dados da Escala Brasileira de Insegurança Alimentar, instituição inclusive usada pelo IBGE para os seus cálculos sociais. A  Escala Brasileira de Insegurança Alimentar calcula que 55% da população brasileira enfrenta uma situação de pelo menos alguma carência alimentar.

CUSTO DE VIDA – A fome tem avançado e, em sua matéria, Fernando Canzian acrescenta que nos últimos dez anos o total de favelas dobrou no país. A meu ver, mantido o congelamento dos salários dentro da política do ministro Paulo Guedes, em pouco tempo o problema da fome terá alcançado uma parte da atual classe média que está empobrecendo em consequência da inflação e da não reposição do custo de vida em seus salários.

Com isso, observa-se um processo de empobrecimento de grande parte dos que vão aos supermercados diariamente. Outra prova  do avanço da pobreza está na redução do rendimento domiciliar, de acordo com pesquisa da FGV Social dirigida por Marcelo Neri. Essa renda per capita domiciliar que era de R$ 249 por mês caiu para R$ 172, uma consequência também do desemprego porque a média de pessoas por família permanece em quatro pessoas por unidade, mas o rendimento dos que sustentam se encolheu e com isso encolheu também o cálculo per capita.

INFLAÇÃO – A reportagem é de Cleide Carvalho, O Globo, e destaca o fato de que o IBGE registrou nos últimos 12 meses uma inflação de 10,25%, mas a alimentação domiciliar atingiu 14,4%, o que revela que atingiu com mais intensidade os segmentos sociais de menor renda porque na média algébrica a alimentação pesa mais nas despesas gerais do que o reflexo na classe média.

O professor da PUC, Luíz Roberto Cunha focaliza os efeitos climáticos no custo de vida, mas o fato – acrescento – é que os preços continuarão subindo. Depois de julho do próximo ano, portanto a três meses das eleições presidenciais, eles podem até subir com menor velocidade, mas incidirão sobre os patamares registrados hoje no país. Isso significa que não irão retroceder, mas apenas subir menos do que subiram entre setembro de 2020 e setembro de 2021.

Em matéria de poder aquisitivo da população, portanto, o problema se agrava sem parar. Um dos pontos que demonstram o peso do aumento de preços encontra-se no Rio e em São Paulo, locais onde estão sendo permitidos o retorno do público aos jogos de futebol. O número de ingressos adquiridos está sendo muito menor do que o previsto pelos clubes e já está produzindo efeito negativo entre a receita proporcionada e a despesa obrigatória. Os ingressos estão muito caros e os exames para a Covid-19 acrescentam bastante à despesa. Carlos Petrocilo, Folha de S. Paulo, focaliza a questão.

COMBUSTÍVEIS – A Câmara dos Deputados, destaca Fernanda Trisotto, O Globo, aprovou nova lei federal para a cobrança do ICMS pelos estados sobre combustíveis, como é o caso da gasolina, do óleo diesel, do gás de cozinha e do gás encanado. Atualmente, os preços dos combustíveis são atualizados pela Petrobras com base na média aritmética de cada 15 dias. Pela lei aprovada, essa média passará a ser anual. A meu ver, a alteração influirá pouco no preço, A mudança parece ser um lance para arquibancada, como se diz no futebol.

Porque os preços estão sendo reajustados pela Petrobras também com base no valor do barril de petróleo no mercado internacional e também com base na flutuação do dólar do mercado nacional de câmbio. Assim, essas duas variáveis continuarão incidindo sobre a fixação dos preços. A média anual não altera os números registrados de fato, apenas adia uma parcela da cobrança.

A população brasileira continuará pagando combustíveis que serão reajustados da mesma forma. O período de um ano significa somente um adiamento no preço cobrado dos postos de abastecimento.

Sermão de Dom Orlando também reflete a posição do Papa no compromisso com a vida

“Pátria amada não pode ser pátria armada”, diz o arcebispo

Pedro do Coutto

No sermão feito durante a homilia pela passagem da celebração de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, o arcebispo Orlando Brandes, na realidade, fez um ataque direto à política do presidente Jair Bolsonaro que defende o armamento da população, é contra a vacina no combate à Covid.19, além de apoiar as fake news para desinformar à sociedade no esforço de apoiar o seu governo.

Reportagens de Sérgio Roxo, O Globo, Tatiana Cavalcanti, Folha de S. Paulo, e José Maria Tomazela, o Estado de S. Paulo, edições de ontem, reproduzem de forma excelente o episódio registrado na Catedral de Aparecida. A repercussão foi e está sendo muito grande, proporcional à importância da manifestação, a qual, no fundo, reflete sem dúvida alguma a posição do Papa Francisco e do Vaticano ao que se refere ao relacionamento com Brasília.

PÁTRIA AMADA – Dom Orlando Brandes disse que a “pátria amada não pode ser pátria armada”, mas que deve ser uma uma república sem mentiras e fake news, uma pátria amada sem corrupção. É a pátria amada com fraternidade. “Somos todos irmãos, construindo a grande família brasileira”, acrescentou.O reflexo do acontecimento cresceu ainda mais porque à tarde (o sermão foi pela manhã) o presidente Bolsonaro compareceu à missa novamente celebrada na Catedral.

Dom Orlando Brandes acentuou que as suas palavras representam uma mensagem para todos os brasileiros, lamentou a morte de 600 mil pessoas pela Covid-19 e destacou a importância da vacina e da Ciência, exatamente o oposto do que o chefe do Executivo adota e defende. Sérgio Roxo acrescenta na matéria de O Globo que o sermão de Dom Orlando foi mais um ponto de desencontro entre a Igreja Católica e o governo num relacionamento abalado por pronunciamentos da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil quando Dom Walmor Oliveira de Azevedo divulgou um vídeo de crítica ao governo. Em abril de 2020, 152 arcebispos assinaram uma carta aberta com fortes críticas ao governo Bolsonaro, frisando sua apatia pelos mais pobres.

Agora, o distanciamento entre a Igreja Católica e o Palácio do Planalto foi ampliado. Na Folha de S. Paulo, Anna Virginia  Balloussier focaliza o encontro de Aparecida como uma prova a mais do desconforto existente entre o presidente da República e os bispos do Brasil. Os bispos têm criticado também a falta de uma política que concretamente enfrente o desemprego de milhões de pessoas. Os acontecimentos de Aparecida refletem também a diferença que separa algumas correntes evangélicas da Igreja de Roma. As consequências eleitorais deste distanciamento, a meu ver, são inevitáveis. O episódio de Aparecida do Norte foi um dos acontecimentos de maior peso político dos últimos meses.

INFLAÇÃO – Reportagem de Rafael Balago, de Washington, Folha de S. Paulo de ontem, destaca a entrevista de  Gita Gopinath, economista-chefe do FMI  ao Financial Times na qual sustenta que é necessária muita vigilância com o crescimento da inflação quando se referiu especialmente ao Brasil. O Brasil apresenta uma perspectiva inflacionária que só é ultrapassada pela Nigéria. O Fundo Monetário Internacional, matéria de Ricardo Leopoldo e Gabriel Bueno da Costa, O Estado de S. Paulo, projeta para o Brasil um crescimento do Produto Interno Bruto de apenas 1,5%, o que representa uma quase estagnação já que o crescimento demográfico brasileiro no período de 12 meses está na escala de 1%.

Na minha opinião, nenhum crescimento efetivo da economia pode-se registrar quando no campo social existem mais de 14 milhões de desempregados. É impossível. Isso de um lado. De outro, conforme digo sempre, é preciso saber sobre qual número absoluto do PIB incide a percentagem de 1,5%. Isso porque quando uma percentagem de crescimento é projetada sobre um resultado não muito positivo, a comparação fica sujeita a distorções.

Na reunião anual do FMI, o ministro Paulo Guedes, que viajou acompanhado pelo presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, culpou os setores de alimentação e de energia pela alta da inflação no Brasil. Numa tentativa clara de se eximir por sua política, o ministro da Economia sustentou que a alta de preços no mundo está sendo global.  

ENDIVIDAMENTO – Carolina Nalin, Júlia Motta e Polyanna Brêtas publicaram uma reportagem extremamente importante no O Globo de ontem sobre o endividamento de 59,9% da renda média anual das famílias, o que representa uma proximidade bastante estreita com o limite de rolagem das dívidas em função dos juros cobrados pelo mercado.

A pressão social assim aumenta a cada dia. E, como vem acontecendo, atinge a alimentação, elevando em consequência ainda mais os riscos à saúde humana.

Prêmio Nobel de Economia: salários são a base e o impulso da economia real

Pesquisadores fizeram estudos para entender os efeitos de salário mínimo

Pedro do Coutto

O Prêmio Nobel de Economia deste ano foi destinado ao canadense  David Card , ao americano Joshua Angrist  e ao holandês Guido Imbens por suas pesquisas e conclusões sobre o mercado de trabalho e os seus reflexos concretos no desenvolvimento no consumo das populações. Os três vencedores do Nobel distinguidos pela Academia Real Sueca de Ciências acentuaram que os seus trabalhos basearam-se em situações da vida real e, por isso, contém inovações quanto à metodologia do que se considera relações causais.

Na minha opinião, os três pesquisadores basearam o trabalho no que se pode chamar de Ciência da Realidade que distingue a diferença entre projetos teóricos e a sua realização na prática. Os três professores investigaram também a influência das correntes migratórias no mercado salarial, caso dos cubanos nos Estados Unidos, e não encontraram diferença em matéria de restrição salarial em virtude da maior demanda de emprego. Os salários não diminuíram  e o desemprego nos Estados Unidos não aumentou, o que para eles prova que o mais importante encontra-se na produção e não na restrição da renda do trabalho.

SALÁRIO MÍNIMO – No O Globo, edição de ontem, a reportagem é de Carolina Nalin, na Folha de S. Paulo é de Ana Estela de Sousa Pinto. David Card analisou também e incorporou à tese os efeitos do salário mínimo no mercado de trabalho.  Angrist e Imbens interpretaram as conclusões. Ao que se refere à contratação de empregados, os ganhadores do Nobel dão um exemplo do McDonald ‘s que chegou a oferecer US$ 50 de bônus para os que aceitarem fazer entrevista para admissão na rede da empresa.  

Um outro aspecto que vale ser acrescentado contido no estudo: o salário mínimo norte-americano, do qual todos os demais salários são múltiplos, são elevados  e a economia do país é a maior do mundo chegando a representar 25% do Produto Bruto mundial  que é da ordem de US$ 127 trilhões.

INFLAÇÃO NO PICO – Estudo do banco J.P. Morgan, concluído na última segunda-feira e publicado na Folha de S. Paulo de ontem por Leonardo Vieceli, demonstra que a inflação brasileira alcançou em setembro o seu pico, atingindo 10,2%. É possível que seja esse um limite de aumento para 12 meses, portanto de setembro de 2020 a setembro de 2021.

Mas o problema, digo, é que não existem hipóteses, aliás nunca aconteceu, de um processo inflacionário ter regredido a níveis anteriores ao do seu crescimento. Assim, daqui para frente, o IBGE e a Fundação Getúlio Vargas podem encontrar avanços mensais menores, mas eles incidirão inevitavelmente sobre os números absolutos formados pela incidência dos 26,2% que romperam o limite que não se verificava há mais de 30 anos.  Os salários de setembro de 2020 a setembro de 2021 perderam, mais uma vez, para a inflação e continuarão perdendo em função dos acréscimos que ocorrerão a partir deste mês de outubro.  

REJEIÇÃO – Com base nos índices mais recentes do Datafolha, Ranier Bragon, Folha de S. Paulo, edição de ontem, coloca em confronto duas posições que até o momento estão influindo na disposição do eleitorado brasileiro: 59% não votariam em Jair Bolsonaro de modo algum e 38% de modo algum votariam em Lula da Silva. A rejeição relativa a Bolsonaro é a maior registrada pelos presidentes eleitos desde 1989. Um quadro estatístico acompanha a matéria.

A meu ver existe uma certa lógica que se reflete também nas pesquisas do Datafolha para a sucessão presidencial de outubro de 2022. No primeiro turno, Lula alcançaria 44 pontos contra 26 de Jair Bolsonaro. No segundo turno, Lula da Silva alcançaria 56% contra 31% de Bolsonaro. Verifica-se, portanto, uma correlação lógica entre a rejeição e a aprovação dos dois principais candidatos. A rejeição a Bolsonaro é mais de 20 pontos superior à resistência a Lula da Silva. E a vantagem de Lula da Silva sobre Bolsonaro em um segundo turno é de 25%.

Em seu espaço de ontem na Folha de S. Paulo, Hélio Schwartsman escreve um artigo, como sempre muito bom, sobre o enigma que leva o presidente Jair Bolsonaro a uma posição contra as vacinas capazes de imunizar a população da Covid-19 e também sua permanente oposição ao uso das máscaras. São atitudes, de fato, incompreensíveis. Não há nenhum sentido alguém ser contra o uso das vacinas ou das máscaras. Esse comportamento talvez esteja  tornando-se em mais um fator para a rejeição do atual presidente da República.

CRECHES –  Paulo Saldaña, Folha de S. Paulo, focaliza o déficit da rede de creches no país, destacando que mais de 2,2 milhões de crianças brasileiras estão fora do sistema pré-escolar, fundamental para a sociabilização, para a sua alimentação e liberação de mães para o mercado de trabalho. Lembro de pesquisa feita pela antiga LBA, quando presidida pelo engenheiro Luiz Fernando da Silva Pinto, sobre a importância das creches em todos os sentidos.

Na época, eu integrava a Diretoria da entidade. Paralelamente, no final dos anos 70, pesquisa do MEC revelou que o índice médio de reprovação na primeira e segunda séries do antigo primário era de 47%, porém esse índice caía para 20% quando as crianças tinham sido atendidas pelas redes de creche antes de ingressarem no ensino formal. Na época, a população infantil no início do curso primário era de oito milhões de crianças.

Assim, uma reprovação de 47% significava a necessidade de mais um ano de aprendizado para o contingente que iniciava o primário. O atendimento em creche, assim, liberava mais de dois milhões de vagas nas escolas públicas. Porque é evidente que o índice de reprovação era muito mais alto nos grupos de renda menor. Inclsuive os grupos de renda mais elevada colocavam os seus filhos em creches particulares.

ABORTO NO PAÍS – Carol Pires, Folha de S. Paulo de ontem, escreveu artigo sobre o problema do aborto no país, atacando aqueles que defendem a criminalização da prática. Os problemas em torno desta questão são múltiplos e de toda ordem. Uma pesquisa do passado feita também no final dos anos 70,  revelou que eram praticados por ano no Brasil 1,3 milhão abortos dos quais 30% decorrentes de procedimentos rudimentares, sem higiene ou cuidados necessários.

O problema continua em uma escala muito alta certamente nos dias de hoje, e a solução mais efetiva não é de criminalizar, na minha impressão, mas de consolidar uma política de planejamento familiar. Isso porque uma faixa enorme de mulheres não deseja ter o número de filhos, mas não sabem como evitar a gravidez indesejada.

Quanto melhor e mais eficaz for a politica de planejamento familiar, menor será o número de abortos, sendo que 30% dos abortos praticados nos anos 70 acarretavam a necessidade de atendimento hospitalar. O planejamento familiar evitaria tanto um problema quanto o outro.

Papa Francisco anuncia a maior reforma da Igreja Católica de todos os tempos

Papa Francisco lança consulta popular sobre futuro da Igreja Católica

Pedro do Coutto

Ao rezar na manhã de domingo a missa da Basílica de São Pedro, o Papa Francisco anunciou que levará à frente o maior processo de consulta popular da história da Igreja Católica para adaptá-la aos novos tempos. O processo baseia-se num plebiscito gigantesco através do qual poderão ser ouvidos 1,3 bilhão de católicos a respeito do futuro da Igreja.Todos os católicos poderão votar e as mudanças mudarão as estruturas de poder do Vaticano.

O plebiscito, que assim pode ser chamado, será realizado ao longo de dois anos, contados a partir deste 2021. Na minha opinião, será também a maior reforma da Igreja Católica depois da implantada pelo  Papa João XXIII, na qual o Vaticano reconheceu que o ser humano deve se realizar tanto no céu quanto na Terra. A Encíclica de João XXIII abordou também o tema social, desdobrando-se numa outra importante iniciativa, propondo a união da população com o Congresso.

GRANDES REFORMISTAS  – João XXIII e o  Papa  Francisco são os grandes reformistas da Igreja Católica. Na manhã de domingo, na Praça de São Pedro, Francisco indagou: “estamos prontos para a aventura ou estamos com medo do desconhecido, preferindo o refúgio nas desculpas habituais ? Mas não vamos isolar os nossos corações, não vamos nos abrigar em nossas certezas”, acrescentou.Vários pontos serão debatidos: ordenamento de mulheres, o divórcio, o celibato e também os relacionamentos homossexuais. Serão pontos essenciais da reforma para que a Igreja contenha a perda de fiéis, inclusive acentuada pelos escândalos de abusos sexuais e corrupção cometidos por uma estrutura que pouco mudou através dos séculos.

Da mesma forma que os conservadores que em 1958 se opuseram a João XXIII, os conservadores de hoje também se opõem ao Papa Francisco e já começaram a se manifestar contra o plebiscito de renovação. Para mim, no fundo, encontra-se também em jogo a manutenção da riqueza e de uma aliança que atravessa o tempo entre o poder político, o poder econômico e o poder do Vaticano, que no passado pesava muito mais do que no presente, mas que mantém a sua aliança com um sistema de poder e de concentração de renda.

CONTRADIÇÕES – A fome, inclusive, continua e o trabalho semi-escravo permanece num universo marcado por pelo menos quatro contradições fundamentais: existência e eternidade, corpo e espírito, um sinal de mais e um sinal de menos, o capital e o trabalho. Inclusive, trata-se de um elenco de símbolos que regem a vida e asseguram o equilíbrio da espécie humana.  

Mas, dos quatro símbolos, a contradição entre o capital e o trabalho é a única que pode ser solucionada dentro do espírito cristão que nem sempre prevaleceu no Vaticano. O período de Eugênio Pacelli, Pio XII, que se estendeu de 1941 a 1958, quando faleceu, foi um espaço de tempo em que a Igreja de Roma ficou em silêncio diante do nazismo. Mas este fato pertence ao passado. João XXIII propôs e conseguiu uma reforma dentro do espírito cristão, dentro do exemplo de Jesus Cristo.

Agora, vamos aguardar o conteúdo concreto da reforma que o Papa Francisco coloca diante da humanidade. Os obstáculos surgirão para medir a força de uma reforma que se destina a ser tão humana quanto Divina: talvez na visão do Papa, um encontro entre Deus e o ser humano. Aquele encontro que não chegou a se realizar num toque de mãos como MIchelangelo pintou e eternizou na Capela Sistina. A pintura retrata Deus com o braço estendido para tocar a mão de Adão e Adão com a mão estendida para tocar a mão de Deus. Mas fica o espaço entre elas. A pintura foi feita há 500 anos e, no fundo, desafia o passar do tempo.

DESENTENDIMENTO – Correntes evangélicas, como a do pastor Silas Malafaia, reportagem de Igor Gielow e  Anna Virginia Balloussier , Folha de S. Paulo de segunda-feira, se desentenderam com as articulações do ministro Ciro Nogueira, do ministro Fábio Faria e da ministra Flávia Arruda no sentido de que o presidente Jair Bolsonaro substitua a indicação de André Mendonça para o Supremo Tribunal Federal, uma vez que o nome de Mendonça encontra fortes resistências no Senado Federal.

Ciro Nogueira, Fábio Faria e Flávia Arruda começaram a  dar curso a uma articulação em torno de Alexandre Cordeiro de Macedo,  atual presidente do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) , que pode ser evangélico, mas está distante de ser  “terrivelmente envagélico”. Aliás, diga-se de passagem, evangélicos são todos aqueles católicos e protestantes que adotam o Novo Testamento como norte religioso. Isso fica claro quando se focaliza a obra conjunta de Mateus, João, Lucas  e Marcos.

SENTIMENTO DE CONFRONTO – Para os que, assim como eu assistiram a final da Copa de 1950 no Maracanã, quando a seleção brasileira enfrenta a do Uruguai, um sentimento de confronto esportivo se acentua. Tem sido assim através do tempo, a começar pelo Pan-Americano de 1952, em Santiago do Chile, quando derrotamos o Uruguai por 4 a 2, com nossa seleção treinada por Zezé Moreira. Um técnico que mostrou que um time não vence apenas do meio para a frente, no ataque, mas também com base na defesa do meio para trás. Mas agora o problema não é mais esse. O futebol brasileiro incorporou as ações defensivas em seu desempenho. O que está acontecendo, como se verificou nas partidas contra a Venezuela e a Colômbia, especialmente no jogo de domingo passado, foi a dificuldade de se chegar à área adversária.

Reportagem de Marcelo Neves, no O Globo de ontem, focaliza o problema, incluindo o mal desempenho de Neymar e uma declaração feita por ele de que a Copa de 2022 será a sua última participação. Mas esta é uma outra questão. Os jogadores surgem e encerram as suas carreiras, um processo natural de renovação. A questão essencial é que o esquema armado pelo treinador Tite está amarrando o desempenho da equipe.

A equipe está centralizando demais o jogo na figura de Neymar cuja presença dos lances tem se revelado enigmática.Nos últimos anos, por exemplo, só tem atuando bem no Barcelona e no Paris Saint Germain. Não tem figurado bem na camisa verde e amarela. Não está satisfeito como deixou claro em suas próprias palavras.  

FGV: Economia do país só recupera o nível de 2019 a partir de 2025

Charge do Amarildo (.agazeta.com.br)

Pedro do Coutto

Estudo da professora Silvia Matos do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas sustenta que a economia brasileira só poderá retomar o nível da pré-pandemia, portanto 2019, a partir de 2025, o que representa um espaço de tempo considerável, digo eu, pois em tal período a população brasileira terá crescido 6%, já descontada a taxa de mortalidade que é de 0,7% a cada 12 meses.

Silvia Matos é coordenadora do Boletim Macro da FGV e a sua previsão é de que o processo de resgate do atraso econômico só acontecerá a partir do último trimestre de 2025, caso se mantenha a tendência de crescimento do Produto Interno Bruto verificada de 2017 a 2019, antes portanto do coronavírus e da Covid-19.

TEMPO HISTÓRICO – Esse processo representa  uma perda do tempo histórico não só porque tem que ser descontado o crescimento populacional, mas também porque a situação exige que se verifique o que poderia ter sido feito no país e que não foi realizado se a economia estivesse seguindo o seu fluxo normal. Reportagem de Eduardo Cucolo, Folha de S. Paulo de domingo, destaca nitidamente o assunto, dando margem a que se analise a importância real do obstáculo ao desenvolvimento do nosso país.

Um exercício semelhante foi feito pelo pela OCDE em seu recente relatório sobre as economias do G-20. A retomada do crescimento que conclui o trabalho ainda não está nos horizontes das nações emergentes. Relativamente ao Brasil, o PIB está na mesma escala da que se encontrava em 2019, ao contrário, está 2% abaixo. Para que se possa avaliar bem o que isso significa, acrescento que o PIB em 2019 atingia R$ 6,6 trilhões. A incidência da porcentagem sobre o número bruto, como dizia o ministro Roberto Campos, avô do presidente do Banco Central, é extremamente importante porque, caso contrário, a citação da percentagem pode ocultar a realidade.  

Por exemplo: se a economia em 2023 alcançar algum crescimento, uma coisa é projetar-se a percentagem deste sobre o resultado de 2022. Mas não é só esta a questão. É preciso considerar o PIB de 2019, pois caso contrário a incidência de um número baixo sobre um absoluto também reduzido pode iludir aos que não estejam acostumados a cálculos desta ordem.

MÍRIAM LEITÃO – Matéria de Cora Rónai sobre os 30 anos de Míriam Leitão no jornal O Globo. A profissional é uma presença extremamente brilhante e importante no jornalismo, focalizando, traduzindo e difundindo os fatos que ocorrem na economia brasileira e internacional com os seus reflexos inevitáveis  no universo político. Tem sido uma presença decisiva na interpretação dos períodos que se sucedem na vida brasileira nas últimas décadas, até o que ela própria classifica de desgoverno Jair Bolsonaro.

Nos próximos dias, mais um livro que a tem como autora chega para todos os que se sensibilizam pelo processo econômico e a sua vinculação com os processos e desfechos políticos nos caminhos do poder que não consegue no Brasil resolver o impasse entre o capital e trabalho e, portanto, também não consegue reduzir a imensa dívida social que faz com que muitos não possuam redes de tratamento de esgoto e água potável de qualidade. A dívida social brasileira é maior do que a dívida do governo que se estende a R$ 6 trilhões, praticamente 90% do PIB. A respeito de Miriam Leitão, como um de seus leitores, devo dizer que é uma das melhores coisas no jornalismo brasileiro é a sua presença nele.

CORRUPÇÃO SE GENERALIZA – Em seu artigo ontem em O Globo, Merval Pereira destacou um fenômeno múltiplo que reúne petistas, integrantes do Centrão e bolsonaristas, que estão convergindo unidos para desmontar a estrutura de combate à corrupção organizada. E não só os integrantes de partidos políticos. É necessário assinalar a presença de empresários, sem os quais a corrupção não ocorreria, já que ela decorre dos contratos de obras e compras feitas pelos poderes públicos, evidentemente junto às empresas industriais e comerciais.

A reação às medidas de combate a esse processo socialmente trágico está desmoronando depois que a Lava Jato foi levada pelo vento para algo destinado a se incorporar ao passado e não mais se vinculando aos acontecimentos do presente. Agora mesmo, o repórter Vinicius Sassine, da Folha de S. Paulo de domingo, dá como exemplo o pagamento de R$ 193 milhões feito pelo governo Bolsonaro para a aquisição de máscaras chinesas destinadas a evitar a contaminação pela Covid-19.

Entretanto, o valor foi depositado de maneira antecipada na conta de uma empresa intermediária e até hoje não houve comprovação que o material foi entregue, conforme relatório da própria Controladoria-Geral da União.O relatório é de 4 de agosto e o fornecimento deve ter sido ou tinha que ter sido pelo Ministério da Saúde. O recebimento não foi confirmado, o que surpreende. Vários produtos adquiridos para o Ministério da Saúde passaram por intermediações da VTCLog  e da Global HK – e agora nova surpresa – de Hong Kong.

Jornalismo livre e independente: Único caminho para assegurar a liberdade e a democracia

Liberdade de expressão dá Nobel da Paz a Maria Ressa e Dmitry Muratov

Pedro do Coutto

A Academia da Noruega concedeu este ano, na decisão de quinta-feira, o Prêmio Nobel da Paz para os jornalistas Maria Ressa  e Dmitry Muratov,   perseguidos pelo governo Rodrigo Duterte, nas Filipinas, e Vladimir Putin, na Rússia. Ressa e Muratov  se rebelaram contra o poder discricionário dos dois países e deram ao mundo mais um exemplo da eterna luta pela liberdade.

A liberdade, a democracia e os direitos humanos, princípios consagrados universalmente, são essenciais para a paz entre os países e entre o poder e os cidadãos. Portanto, todos os jornalistas e todos aqueles que consideram a democracia um direito humano devem se emocionar com o Nobel da Paz exatamente com esses dois vencedores que colocaram bem alto o valor da liberdade e respeito aos direitos humanos. A imprensa livre e o jornalismo independente serão para sempre os adversários imbatíveis do confronto entre o poder ditatorial e a tirania que se propõe a ocultar a sua verdadeira face na tentativa vã de fazer com que a violência e o terror substituam os direitos sociais.

LUTA CONTRA O HORROR – Entre exemplos da tirania estão o nazismo de Hitler e o comunismo sovietico de Stalin, dois ditadores que terminaram se enfrentando na Segunda Guerra Mundial fazendo com que as nações democráticas e o Brasil formassem na luta contra o horror nazista.O sangue derramado de 50 milhões de pessoas mortas não foi, entretanto, suficiente para impedir tanto a Guerra da Coreia, quanto a Guerra do Vietnã.

Não foi suficiente para impedir a invasão da Hungria  e a derrubada da Primavera de Praga que culminou com a invasão da União Soviética na Tchecoslováquia. Mas a imprensa livre tornou-se a barreira intransponível que separa a consciência humana da alucinação do poder. Falar em paz não se restringe à convivência entre os países. Refere-se também às tragédias que ocorrem no dia a dia, tanto nas grandes, quanto nas pequenas cidades, começando pelo direito de enfrentar a fome que causa a morte de milhões de seres humanos.

A paz implica também no direito à existir com dignidade, direito à vida, à saúde, ao emprego. Os três maiores jornais do país, O Globo, a Folha de S. Paulo e o Estado de S. Paulo, como era esperado, nas edições de ontem deram grande destaque à concessão do prêmio. O jornalismo, com ele, foi reconhecido como um meio mais eficaz de enfrentar a opressão, seja cometida da parte de quem for, contra a nossa espécie. Somos, todos nós, seres humanos, e o princípio que rege a nossa existência começa na liberdade, passa pela democracia e culmina nos direitos humanos.

RESISTÊNCIA – Através da história, um longo percurso vem sendo percorrido. Mas a luta por esses três exemplos continua e resta a esperança de que enquanto existir a imprensa livre e o jornalismo independente, o poder opressivo, com a sua tirania e malignidade, enfrentará uma força eterna de resistência. Foi a imprensa americana que derrubou a Guerra da Coreia de 1953. Foi a mesma imprensa que encerrou a Guerra do Vietnã, que começou em 1962 e foi até 1975. Foi a liberdade de imprensa que denunciou o Watergate. Foi a imprensa internacional que revelou ao mundo a invasão da Hungria em 1956. A mesma imprensa denunciou e exibiu ao mundo a invasão da Tchecoslováquia.

Foi a imprensa também que denunciou e expôs ao mundo os crimes do regime de Fidel Castro em Cuba. A imprensa que esteve e estará presente na luta pela vida humana e, portanto, a favor da paz, cujo prêmio na figura de Maria Ressa e Dmitry Muratov recebe o seu reconhecimento. A luta contra a opressão tem na imprensa a sua grande aliada porque se os fatos não forem expostos, eles continuam roubando e matando  sob a  nuvem negra do desconhecimento.

Vale assinalar, sobretudo, que a informação e a opinião são as armas mais eficazes para assegurar os princípios da dignidade, incluindo o combate à corrupção que também leva à tragédia e à morte. Os recursos financeiros roubados são letais para impedir o combate à miséria que também é assassina na medida em que significa a derrubada dos direitos mais simples e essenciais dos povos para que possam existir. Não fosse a imprensa, quantos culpados por tragédias continuariam praticando suas ações assassinas ?

INFLAÇÃO DISPARA – Leonardo Viceli, na Folha de S. Paulo, Carolina Nalin, Manoel Ventura, Dimitrius Dantas e Gabriel Shionara, O Globo, edições de ontem, revelam o resultado da inflação de setembro que passou de 1,1 % em setembro, acrescentando um reflexo ainda maior no ciclo inflacionário que segundo o IBGE alcançou 10,2% ao longo de 12 meses. O resultado de setembro, diga-se de passagem, não inclui a consequência de mais um aumento dos preços da gasolina e do gás de cozinha que começaram a vigorar a partir de ontem.

Desde 1995, no Plano Real, o índice mensal inflacionário não passava de 1%. A alta continua e o governo Bolsonaro prossegue também perdendo apoio junto à opinião pública. A política econômica do ministro Paulo Guedes nunca teve sucesso, como os fatos comprovam. O próprio ministro e o presidente do Banco Central tentaram escapar do circuito inflacionário fazendo aplicações em dólar nas Ilhas Virges Britânicas e no Panamá, paraísos fiscais. É preciso acrescentar  que a questão não é apenas ter uma offshore, mas saber em que setores financeiros a offshore opera.

MUDANÇAS NA GLOBO – A repórter Cristina Padiglione, Folha de S. Paulo deste sábado, anuncia em matéria de página inteira  que o apresentador do Fantástico, Tadeu Schmidt, será substituído por Maria Júlia Coutinho e comandará o Big Brother Brasil no lugar de Tiago Leifert que deixa a emissora no final do ano. Alguns nomes foram estudados, mas a direção da TV Globo chegou à conclusão que para comandar o BBB é necessária uma capacidade de improviso  e uma flexibilidade de opiniões e das palavras contidas nos diálogos, sobretudo porque  a diversidade entre os personagens é múltipla e muito grande.

Maria Júlia Coutinho será a parceira de Poliana Abritta no Fantástico fazendo com que a apresentação do programa semanal seja feita por duas mulheres. Há tempos atrás aconteceu isso com a participação da jornalista Glória Maria. A qualidade de Tadeu Schmidt ajusta-se bem aos princípios do programa, principalmente porque, agora na minha opinião, ele possui a versatilidade exigida para ocupar o posto, da mesma forma que Maria Júlia no Fantástico.

A Globo está nitidamente realizando uma reprogramação com escalações que se ajustam  aos projetos em foco. A cadeira ocupada por Maju no Jornal Hoje passará a ser ocupada por César Tralli que deixará o SP TV. Não se sabe, entretanto,  se permanecerá no jornal das 18h da GloboNews. Essas mudanças devem ser anunciadas pelo próprio Fantástico no programa da noite de hoje, domingo.

MENDONÇA NO SENADO  – Reportagem de Bernardo Mello e Thiago Prado, O Globo de ontem, correntes evangélicas passaram a temer a derrota da indicação de André Mendonça para o STF no Senado Federal. Silas Malafaia dirigiu ataques aos senadores Davi Alcolumbre, presidente da Comissão de Constituição e Justiça, Ciro Nogueira  e Fernando Bezerra Coelho, respectivamente chefe da Casa Civil e líder do governo. Todos três apontados pelos evangélicos de obstruir a aprovação de Mendonça.

Com os ataques aos três senadores e também à deputada Flávia Arruda, ministra da Secretaria de Governo da Presidência da República, Malafaia, ao meu ver, contribuiu para tornar ainda mais difícil a aprovação de Mendonça porque criou-se uma atmosfera de hostilidade e, portanto, contrária à indicação na medida em que causará a impressão de que o Senado teria ficado vulnerável em seu poder de decidir, como lhe compete, se aprova ou não a indicação de ministros para o Supremo Tribunal Federal.

Renda média do brasileiro recua e entre os mais pobres é agora de apenas R$ 177

Crise se agrava e milhares de famílias não podem comprar  gás

Pedro do Coutto

Uma pesquisa realizada pela PUC do Rio Grande do Sul em parceria com o Laboratório da Dívida Social, com base em dados do PNAD do IBGE, revela que a renda do trabalho média dos brasileiros e brasileiras caiu em julho para R$ 1326, sendo que entre os 40% mais pobres encontra-se estacionada somente em R$ 177 por mês. A reportagem é de Leonardo Viceli, Folha de S. Paulo desta sexta-feira.

Como se constata a renda média de R$ 177 por mês vai se refletir na fome porque tal valor não é suficiente para que o grupo social possa adquirir os alimentos de que necessita. Os dados focalizados referem-se ao mês de julho e assinalam um recuo de cerca de 10% em relação à média dos três meses anteriores. A pesquisa, na minha opinião, assinala a dimensão da crise social que está se agravando no governo Jair Bolsonaro.

RETRAÇÃO – Os preços estão subindo, o IBGE aponta uma inflação de 10% para o período de setembro de 2020 a setembro de 2021 e os salários estão sendo reduzidos pois sequer conseguem acompanhar o índice inflacionário oficial. As consequências do consumo de tal política são inevitáveis. A retração atingiu já o comércio de varejo cujo acesso não inclui obviamente as famílias cuja renda média é de R$ 177.

O levantamento se fixou nas vinte maiores metrópoles brasileiras. E, se nas metrópoles os índices são esses, imaginem como serão os que se referem às áreas rurais onde ainda existe uma escravidao pouco disfarçada, como  Antonio Houaiss e eu acentuamos em “Brasil – O fracasso do conservadorismo”, livro de trinta anos atrás.

DIREITOS SOCIAIS – Um aspecto que influi e contribui para iludir o quadro de desemprego que se eleva a mais de 14 milhões de pessoas é o emprego informal que em alguns momentos apresenta crescimento, como é o caso dos meses finais do ano em função das vendas de Natal. Mas o emprego informal, como acentua Fernando Canzian, Folha de S. Paulo, termina prejudicando a obtenção de direitos sociais, como é o caso da aposentadoria pelo INSS e do acesso ao FGTS.

A situação, em síntese, ressalta que o recuo da renda média deixa claro que não está ocorrendo a reativação da economia como costuma dizer o ministro Paulo Guedes. Falta perspectiva e um novo horizonte aos que vivem de salários. São esses, no fundo, os que sustentam o consumo, não só no Brasil, mas no mundo todo. Infelizmente, pagam a conta de fracassos como os que dominam o atual governo brasileiro.

PATRIMÔNIO ECOLÓGICO – Nicola Pamplona, na Folha de S. Paulo, Glauce Cavalcanti e Stephanie Tondo, em O Globo, e Fernanda Nunes, no Estado de S. Paulo, edições de ontem, focalizam com grande destaque o leilão para explorar áreas de reservas de petróleo, incluindo de forma surpreendente o Arquipélago de Fernando de Noronha e o Atol das Rocas, ambos no Rio Grande do Norte. A perfuração de poços marítimos nas águas de Fernando de Noronha configurariam um absurdo, um atentado à ecologia e um desastre em matéria de proteção ao meio ambiente. Nenhuma empresa se habilitou, nem a Petrobras.

Nos leilões de quinta-feira só foram negociados cinco lotes, todos da Bacia de Santos. Quatro em investimento único da Shell e um quinto da Shell também, mas em parceria com a empresa colombiana Ecopetrol. Portanto, ficou preservado o santuário ecológico de Fernando de Noronha e o Atol das Rocas.

SANTUÁRIO DE PAMPULHA  – No início desta semana, o Vaticano concedeu à Igreja da Pampulha erguida quando Juscelino Kubitschek foi prefeito de Belo Horizonte, com base num projeto de Oscar Niemeyer com um painel de Cândido Portinari, o título de santuário. Por uma coincidência do destino, o prédio da ONU apresenta também em seu salão principal um painel “Guerra e Paz” de Portinari.

A Igreja da Pampulha esteve interditada durante 15 anos, de 1943 a 1958, quando o Papa era Eugênio Pacelli, ultraconservador, personagem central de “O Papa de Hitler”, de John Cornwell. Em 1958 Pio XII faleceu e foi sucedido por João XXIII. Hoje, a bela e pequena capela da Pampulha faz parte do patrimônio mundial e cultural do Vaticano.

Nada como o tempo para estabelecer os avanços entre os quais os da cultura universal. Basta dizer, acrescento, que até hoje nenhuma obra de arte que tenha sofrido interdição ou restrição, com o passar do tempo, não tenha sido liberada integralmente. Os exemplos são muitos e os fatos revelam que nas tragédias, os fatos da vida real superam o que se denomina de ficção.

Bolsonaro vai depor pessoalmente e com isso desafia Sergio Moro

Bolsonaro tenta nova polarização em confronto com Moro

Pedro do Coutto

O presidente Jair Bolsonaro comunicou na quarta-feira ao ministro Alexandre de Moraes, do STF, que vai prestar depoimento pessoalmente no inquérito que apura a sua influência na Polícia Federal, acusação que lhe foi feita pelo ex-ministro Sergio Moro de interferir na nomeação de superintendentes regionais, especialmente no Rio de Janeiro para o rumo do inquérito sobre a atuação de seu filho, Flávio Bolsonaro, quando deputado estadual. A acusação refere-se ao caso da “rachadinha”. A decisão de Bolsonaro foi comunicada ao ministro Alexandre de Moraes pelo advogado-geral da União, Bruno Bianco, logo no início da sessão de terça-feira.

Numa ampla reportagem publicada na edição de ontem na Folha de S. Paulo, Marcelo Rocha detalha todos os aspectos essenciais da questão da origem do choque entre o presidente da República e o ex-ministro da Justiça até os dias de hoje.  O Globo publicou também reportagem sobre o assunto, de autoria de Marianna Muniz. 

NOVO CHOQUE  – O episódio, na realidade, acentua a perspectiva de um novo choque entre Jair Bolsonaro e Sergio Moro, uma vez que Moro é o autor da denúncia que levou à abertura do inquérito na esfera do Supremo Tribunal Federal. O depoimento de Bolsonaro será, portanto, prestado de forma presencial à Polícia Federal. O Supremo iria decidir se o depoimento seria presencial ou não. Mas com a decisão do próprio Bolsonaro de comparecer pessoalmente, a resolução que caberia ao ministro Alexandre de Moraes, relator da matéria, tornou-se desnecessária.

Se, por hipótese, o inquérito decidir por um novo depoimento de Sergio Moro, estará configurado um embate entre ambos acerca da questão que perdura até hoje e foi objeto tanto da denúncia, quanto da renúncia do então ministro da Justiça.  A questão se deslocou também para a esfera da Procuradoria-Geral da República, levando Augusto Aras a tentar bloquear o caso, mas o embate prossegue e será acentuado, é claro, logo após o depoimento de Jair Bolsonaro, cuja data deve ser marcada ainda esta semana.

O ex-juiz Sergio Moro sustentou – e certamente sustenta – que em sua passagem pela pasta da Justiça, o presidente da República pressionou para que ele substituísse, principalmente, o superintendente da PF do Rio de Janeiro, responsável pelas investigações sobre a “rachadinha”, operação que consistia no repasse de parte dos salários de servidores lotados no gabinete do então deputado estadual a Fabrício Queiroz.

MENSAGEM – Sergio Moro acusou também Bolsonaro de agir pela substituição do ex-diretor geral da PF Maurício Valeixo. Relativamente ao caso da Superintendência no Rio de Janeiro, Sergio Moro disse ter recebido uma mensagem pelo WhatsApp de Jair Bolsonaro dizendo o seguinte: “Moro, você tem 27 superintendências estaduais na PF; eu quero apenas uma, a do Rio”.

O texto foi transcrito integralmente na denúncia de Sergio Moro no inquérito aberto para apurar a veracidade de suas acusações. Moro assinalou que havia recebido de Bolsonaro o compromisso de ter carta branca para nomear o diretor-geral e os superintendentes estaduais da Polícia Federal. A interação, portanto, sob a ótica de Moro, representava uma manifestação contrária ao compromisso, levando-o a pedir demissão do cargo.

NOVA POLARIZAÇÃO –  Na minha impressão, o presidente Bolsonaro está tentando um novo confronto direto com Sergio Moro, objetivando tentar uma nova polarização política em torno do Palácio do Planalto, polarização que perdeu força com o seu recuo através do texto de Michel Temer depois de tentar sem sucesso radicalizar com o STF, atacando principalmente Alexandre de Moraes e Luís Roberto Barroso. Em relação a Alexandre de Moraes, Bolsonaro chegou a dizer que não cumpriria mais as suas decisões. Mas, como se constata, recuou e esse recuo apagou parte do entusiasmo dos extremistas da direita que o apoiam.

Isso de um lado. De outro, ele no fundo deseja a candidatura de Moro nas eleições de 2022. Entretanto, a candidatura do ex-ministro somente poderá ser ao Senado ou à Câmara Federal, uma vez afastada a hipótese de candidatar-se ao Planalto. Em relação ao quadro político, Sergio Moro não poderá escolher nem Lula e nem Bolsonaro. Ele inclusive está acusando Bolsonaro na justiça. Quanto a Lula, ele foi o autor da condenação do ex-presidente da República.

Não importa que o STF tenha anulado a decisão. Mas a incompatibilidade do ex-juiz com o ex-presidente permanece. Assim, Bolsonaro não conseguirá, a meu ver, dividir forças eleitorais que hoje estão com Lula através de um embate direto com seu ex-ministro da Justiça. Não conseguirá, mas isso não o impede de tentar.

STF ALINHADO  – Matéria de Ricardo Della Coletta, também Folha de S. Paulo de ontem, revela que numa reunião na terça-feira com integrantes da bancada ruralista do Congresso, o presidente Jair Bolsonaro manifestou-se a favor do Marco Temporal quanto às terras indígenas, limitando-as à situação de 1988 quando a atual Constituição foi promulgada e, com isso, colidindo com os interesses dos indígenas que ocupam espaços no território brasileiro, especialmente na Amazônia. 

Jair Bolsonaro disse também aos ruralistas que se for reeleito em 2022, conseguirá fazer indicações de ministros para o STF no sentido de que a Corte esteja alinhada junto ao governo. A declaração, para mim, pode refletir-se num argumento contrário à aprovação pelo Senado de André Mendonça para o Supremo. 

CONVOCAÇÃO DE GUEDES – Danielle Brant, Ranier Bragon e Fábio Pupo, na Folha de S. Paulo de quinta-feira, destacam que a Câmara dos Deputados por 310 votos a 142, manifestação massiva portanto, decidiu convocar para prestar explicações no Plenário, o que torna o fato político mais amplo, sobre a aplicação de recursos financeiros em dólar numa offshore das Ilhas Virgens Britânicas, um paraíso fiscal livre de impostos. A contradição de Paulo Guedes é muito grande e a repercussão política está sendo maior ainda. Seus advogados sustentam que ele não fez novos depósitos após 2017, além dos US$ 9,5 milhões com que abriu a conta. 

Mas isso não muda o fato, uma vez que a rentabilidade da aplicação nada tem a ver com depósitos adicionais. Além disso, é preciso definir que setores econômicos e financeiros são objetos dos investimentos feitos por ele, Paulo Guedes, na offshore. A oposição votou maciçamente pela convocação do ministro da Economia. Mas teve  adesão bastante elevada da bancada governista, inclusive do Centrão, o que demonstra que Paulo Guedes perdeu grande parte do apoio político e da própria Presidência da República. Porque, caso contrário, o Centrão não teria ido ao encontro dos partidos de oposição para convocar o ministro da Economia.

Também merece registro o fato de a convocação não ter incluído Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central e investidor em offshore do Panamá, outro paraíso fiscal. Enquanto isso, lembra a reportagem da FSP, o Brasil continua com mais de 14 milhões de desempregados. O movimento comercial do varejo recuou 3,1% este ano e a repórter Larissa Garcia assinala que no mês de agosto foram retirados R$ 7,7 bilhões nas cadernetas de poupança, o que superou as retiradas de agosto que foram de R$ 5,4 bilhões. Está, portanto, faltando dinheiro para o consumo, inclusive como revelam as quedas de compras nos supermercados. 

CPI da Covid no Senado salvou milhares de vidas e bloqueou corrupção gigantesca

CPI permitiu a revelação de uma série de decisões contrárias à vida humana

Pedro do Coutto

A CPI do Senado, presidida pelo senador Omar Aziz e que tem como relator o senador Renan Calheiros, aproxima-se do seu final e deixará um saldo notável, principalmente a favor da população na medida em que evitou milhares de mortos, revelou o tratamento inadequado e bloqueou uma tentativa gigantesca de corrupção no episódio da proposta de compra da vacina indiana Covaxin. Foi a atuação da CPI que permitiu a revelação de uma série de decisões contrárias à vida humana e ao interesse público. O Ministério da Saúde foi o ponto mais sinistro de uma tempestade sem limites.

Inclusive o que surpreendeu fundamentalmente foi a existência de intermediários para a compra de vacinas, quando no mundo inteiro as aquisições são feitas diretamente entre produtores e compradores. O episódio da intermediária Precisa é impressionante. Mas eu disse que a CPI salvou milhares de vidas. O número de vidas salvas não deve ser medido apenas pelas que ocorreram entre fevereiro de 2020, quando a pandemia começou no país, até este mês de outubro de 2021. Deve ser colocada uma pergunta: ao derrubar o tratamento inadequado à base de cloroquina, a Comissão Parlamentar de Inquérito tornou a sua atuação em favor da vida humana  de forma permanente pelo menos até que no mundo o coronavírus e a sua variante Covid-19 sejam completamente superados?

SEM PRECEDENTES – O que se passou na área da Saúde não tem precedentes em matéria de desprezo. Como se pode admitir que pessoas, tendo à frente o presidente Bolsonaro, possam se colocar contra a vacinação e contra o uso da máscara que reduz as contaminações ?  O fenômeno absurdo não é so brasileiro. Nos Estados Unidos, por exemplo, mais de 70  milhões, correspondendo a 25% da população, ainda não se vacinaram. No Brasil, uma porcentagem semelhante  atingiu e está atingindo o país. Trata-se de um comportamento inexplicável à luz da lógica e do próprio instinto de sobrevivência.

Importa mais o fato de ter salvo milhares de homens e mulheres do que qualquer efeito que a CPI possa causar na condenação dos responsáveis.  A CPI do Senado deverá ficar na história do Legislativo brasileiro como uma ação essencial para a vida brasileira. Basta dizer que os impulsos de corrupção não respeitam sequer os limites que separam a vida da morte.

PREÇO DOS COMBUSTÍVEIS – Entrevistado nesta quarta-feira pela GloboNews, pela manhã, o ex-presidente do Banco Central e atual secretário de Fazenda de São Paulo, Henrique Meirelles, considerou sem sentido o projeto articulado pelo presidente da Câmara Federal, Arthur Lira, diminuindo a incidência do ICMS dos preços da gasolina e do óleo diesel através de um prazo de cálculo que evidentemente manterá o nivel cobrado pela Petrobras e atingirá, se aprovado pelo Legislativo, as economias estaduais.

Bruno Góis, Manoel Ventura, Fernanda Trisotto e Geralda Doca, no O Globo, Danielle Brant e Julia Chaib, na Folha de S. Paulo, e Camila Turtelli e Idiana Tomazelli, no Estado de S. Paulo, reportagens publicadas nas edições de ontem, focalizam amplamente o assunto.

O projeto do presidente da Câmara, evidentemente produzido pela equipe econômica do governo, mas que no fundo provavelmente pretende ocultar a autoria, muda o sistema de cálculo que a Petrobras usa para reajustar os preços. Em vez da média do diesel e da gasolina dos últimos 15 dias, passa a ser com base na média de preços dos últimos dois anos. E o processo de reajuste dá a impressão, com base no texto das matérias, que também seria atualizado de 24 a 24 meses.

PONTO DUVIDOSO –  Mas este ponto é duvidoso, não faria sentido para a Petrobras. O fato é que substituir a média de duas semanas pela medida de dois anos diminui acentuadamente o valor do tributo e a receita que proporciona nos estados, inclusive porque a inflação em dois anos representa em si um fator de atualização e esse aspecto aparentemente está desconsiderado.

Os governos estaduais perderiam receita e os consumidores, de fato, poderiam não obter vantagem alguma, já que as tabelas de aumento da Petrobras têm também como base as variações do petróleo do mercado internacional e as variações do dólar no mercado de câmbio nacional. Henrique Meirelles lembrou que para formar um fundo destinado a evitar os aumentos seguidos de preços, ele deve ser constituído por tributos federais e não por impostos estaduais, uma vez que os estados, ainda por cima, não têm possibilidade legal de colocarem títulos no mercado de captação de recursos.

OFFSHORES –  Por iniciativa de vários deputados, entre eles Alessandro Molon, a Câmara convocou o ministro Paulo Guedes e o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, a respeito das contas que mantém nos paraísos fiscais das Ilhas Virgens Britânicas e no Panamá. Eles foram convocados também para fornecerem explicações ao Senado Federal.

Reportagem de Bernardo Caram, Washington Luís e Daniela Brant, Folha de S. Paulo, destacam o assunto e assinalam também que já entraram em ação os advogados contratados por Paulo Guedes, Ticiano Figueiredo e Pedro Ivo Veloso que sustentam a tese de que o ministro não movimentou a sua conta no offshore, o que dá a entender que ele limitou o seu depósito aos US$ 9,5 milhões com que abriu a conta da qual fazem parte também a sua esposa e a sua filha.

Francamente, não vejo, e a maioria das pessoas também não vão identificar, a diferença entre a abertura da conta e a sua movimentação, ângulo observado pelo senador Alessandro Vieira, autor do requerimento no Senado Federal. Sobretudo porque, acrescento, tais contas não necessitam de remuneração à base de novos depósitos para render dividendos ou resultados das aplicações.

NADA DE NOVO –  Portanto, a tese dos advogados, a rigor, nada apresenta de novo em relação à divulgação dos fatos marcados pelos voos de Paulo Guedes e Roberto Campos Neto que os levaram a pousar em locais cujas aplicações são isentas de incidência tributária. Entretanto, investimentos financeiros, de acordo com a teoria do próprio Paulo Guedes, produzem empregos. No caso dele e do presidente do Banco Central, produziram empregos fora do Brasil.

A repercussão na imprensa e no Congresso, na minha impressão, torna especialmente difícil a permanência de Paulo Guedes no Ministério da Economia e no governo Bolsonaro. O desgaste está sendo muito grande e traz consigo, como consequência natural, a perda de autoridade do titular da Economia. O abalo atingiu também Roberto Campos Neto, mas este talvez consiga escapar com base em ser detentor de mandato na Presidência do Bacen.

Redistribuição de renda só com uma política permanente de empregos e salários

Charge reproduzida do jornal Expresso (Portugal)

Pedro do Coutto

Em artigo publicado ontem em seu espaço no O Globo, Merval Pereira focalizou, aliás com razão, como essencial para o país a redução da desigualdade econômica e social enquanto base tanto do regime democrático, quanto da valorização do trabalho humano. Colocou bem a questão e acrescento que para a redistribuição de renda defendida por quase todos os economistas é indispensável colocar-se em prática uma forte e concreta política no Brasil de retomada de empregos e valorização dos salários. Caso contrário, o consumo do qual a indústria e o comércio necessitam não poderá ser ampliado.

É preciso levar em conta também que a população brasileira cresce na velocidade de 1% ao ano e, assim, verifica-se sempre uma crescente demanda de postos de trabalho. No momento, o desemprego atinge mais de 14 milhões de homens e mulheres. E pergunto, a quantos milhões vai o total do não emprego? Isso porque o desemprego é medido pela demissão dos que se encontravam trabalhando.

TERMÔMETRO – Mas qual o termômetro para medir o não emprego que reúne os que não perderam o emprego simplesmente porque não começaram a trabalhar? Merval Pereira cita Thomas Piketty, grande economista e pesquisador francês, autor de “O Capital do século XXI”, uma obra monumental, e também do livro “Capital e Ideologia”.

No “O Capital no século XXI”, Piketty comprova que o mercado de trabalho não cresceu na mesma proporção que a concentração de renda, sobretudo porque a lucratividade das aplicações financeiras, caso dos rentistas, supera em muito a lucratividade da produção econômica.

Os que aplicam em papéis, portanto, não geram empregos, mas suas taxas de remuneração superam, o que representa uma contradição, os lucros legítimos da indústria dos serviços e do comércio. Dou ênfase aos lucros legítimos recorrendo ao exemplo do Brasil onde é grande o volume dos lucros ilegítimos.  Basta ver as revelações da CPI do Senado Federal presidida pelo senador Omar Aziz. O caso da compra de vacinas é um escândalo absoluto.

MENSAGENS PUBLICTÁRIASEm uma conversa com o economista Filipe Campello, meu amigo, focalizamos a divulgação massiva de mensagens publicitárias nos quatro principais jornais do país – O Globo, Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e O Valor – e também as veiculadas através da TV Globo e da GloboNews, oferecendo uma lucratividade às aplicações financeiras que desafiam a realidade econômica do país e os limites naturais do bom senso. Surgem ofertas até de títulos emitidos por governos de outros países, o que demandaria diversas ações complementares.

Além desses exemplos, existem propostas que oferecem retribuições bem acima das taxas das cadernetas de poupança e dos fundos de investimento. A fantasia está substituindo a realidade, sobretudo porque é indispensável levar em conta que a inflação do IBGE para os últimos 12 meses atinge a escala de 10%. Portanto, as cadernetas de poupança, cujo saldo ultrapassa R$ 1 trilhão, 15% do Produto Interno Bruto, estão operando com juros negativos.

Os aplicadores, todos nós, estão perdendo para a inflação. Os bancos e os fundos de investimento e de pensão, que detém títulos do Tesouro Nacional, estão também com uma remuneração abaixo do índice inflacionário. Daí porque a tendência do Banco Central é elevar o percentual da Selic.

PARAÍSOS FISCAIS  –  Reportagem de Fábio Pupo, Folha de S. Paulo desta terça-feira, revela que no mês de junho em palestra para a CNI e para a Federação Brasileira de Bancos, o ministro Paulo Guedes defendeu na tramitação do projeto sobre o novo Imposto de Renda o fim da taxação sobre as aplicações de brasileiros em paraísos fiscais, a exemplo dele próprio, aplicador numa offshore das Ilhas Virgens Britânicas.

Acentua Fábio Pupo que nas explicações que o Ministério da Economia tentou apresentou através de uma nota técnica, não ficou claro se o ministro Paulo Guedes deixou de fazer aplicações a partir do momento em que assumiu a pasta no governo Bolsonaro.

Na palestra para a CNI e para a Febraban, Paulo Guedes, ao defender a isenção sobre esses rendimentos, disse: “Não vamos botar em risco a retomada do crescimento econômico sustentável que é o que está acontecendo. Eu sou um democrata, estou tentando ajudar o país.”

REAÇÃO –  A reportagem acentua que houve reação contrária do senador Ângelo Coronel, do PSD da Bahia, que anunciou ontem que estudará a matéria no sentido de apresentar emenda anulando qualquer hipótese de isenção. “Vou ouvir todos os segmentos e vamos fazer audiências públicas”, afirmou.

De outro lado, o senador Randolfe Rodrigues recorreu ao Supremo Tribunal Federal contra o posicionamento do ministro Paulo Guedes e do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, na questão de serem autores de aplicações em paraísos fiscais, como é o caso das Ilhas Virgens Britânicas e do Panamá. O relator sorteado para a matéria foi o ministro Dias Toffoli.

FUTEBOL –  A Turner, empresa do grupo Warner, manteve contatos com dirigentes de clubes brasileiros no sentido de que eles, quando mandantes das partidas, pudessem escolher a transmissão dos jogos, afastando-se assim da exclusividade presente no contrato com a TV Globo. A reportagem é de Alex Sabino, Folha de S. Paulo de ontem.

A Turner Warner queria arrematar espaços tanto na televisão aberta, quanto nos canais da Sport TV e no Pay-per-view do sistema Globo. Mas, no dia 28 de setembro, a empresa americana fracassou e anunciou a sua desistência em transmitir os jogos do Campeonato Brasileiro que pretendia realizar a partir de 2022. A Turner chegou a firmar um contrato paralelo no valor de R$ 200 milhões com o Atlético Mineiro, o Bahia, o Ceará, o Fortaleza, o Juventude, o Palmeiras e o Santos.

Alex Sabino diz que há dúvidas se a Turner já realizou o pagamento. Na minha opinião, o problema do futebol pela televisão não se encontra somente na transmissão dos jogos. Existe todo um processo de cobertura por semana que antecede as partidas e essa cobertura é que efetivamente valoriza os jogos. Com a valorização dos jogos aumenta a audiência, como é natural. E aumentando a audiência, amplia-se o universo da publicidade. A desistência da Turner, acentua a reportagem, surpreendeu o mercado.

CAMPEONATOS ESTADUAIS –  Mas é fato também que é muito bom o relacionamento da Globo com os dirigentes de clubes. Entretanto, a Globo desistiu de transmitir em 2022 os campeonatos estaduais do Rio e de São Paulo, cujos direitos foram adquiridos pela Record.  

A TV Globo não demonstrou interesse em transmitir a Copa América deste ano, não aceitando os valores exigidos pela empresa detentora dos direitos. A Copa América está sendo transmitida pelo SBT. Relativamente à Copa do Mundo do próximo ano, Alex Sabino acrescenta que o contrato encontra-se em processo de discussão, aguardando-se o pagamento de parcelas cujos valores encontram-se sob análise.

Paulo Guedes e Campos Neto são dois desastres eleitorais para Bolsonaro em 2022

Paulo Guedes e presidente do BC, Roberto Campos Neto, são donos de offshore

Pedro do Coutto

O Fantástico da noite de domingo e uma excelente reportagem de Washington Luís, Larissa Garcia e José Marques, Folha de S. Paulo desta segunda-feira, destacaram a existência de aplicações financeiras feitas pelo ministro Paulo Guedes e pelo presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, em offshores nas Ilhas Virgens Britânicas e no Panamá, pontos considerados paraísos fiscais pela não incidência de tributos sobre os investimentos.

O Globo publicou também matéria relativa ao assunto na edição de ontem. O reflexo negativo do episódio para o governo Bolsonaro é evidente, já que Paulo Guedes e Roberto Campos Neto defendem a realização de investimentos  no Brasil para ampliar a oferta de empregos. Em seus casos particulares, contribuíram para aumentar a oferta de empregos em outros países que não o nosso.

COMUNICAÇÃO À RECEITA – Tanto Paulo Guedes quanto Roberto Campos Neto afirmam que comunicaram as aplicações nas offshores à Receita Federal brasileira e por isso foram tributados aqui. Mas o fato despertou forte reação nos setores oposicionistas, tendo inclusive o deputado Alessandro Molon anunciado que vai requerer o comparecimento do ministro da Economia e do presidente do Bacen à Câmara Federal para que possam dar explicações a respeito do assunto.

Roberto Campos Neto disse que encerrou suas aplicações nas offshores. Relativamente a Paulo Guedes, elas aparentemente continuam porque de acordo com as matérias publicadas pelo revista Piauí e pelo jornal El País, vinculados à imprensa investigativa que integram o sistema internacional na “Pandora Papers”, as aplicações do ministro da Economia incluem a sua esposa e a sua filha como acionistas de uma empresa offshore nas Ilhas Virgens Britânicas.

O episódio acarreta mais um impacto que deixa mal o presidente Jair Bolsonaro que se vê numa situação difícil entre manter ou exonerar Paulo Guedes e Roberto Campos Neto. Por sinal, Campos Neto foi nomeado presidente do Bacen  por indicação de Paulo Guedes. Ele ainda, pela lei de autonomia do Banco Central, possui um mandato de dois anos. O que surpreende também no acontecimento revelado pela revista Piauí e pelo jornal El País é o fato do Coaf não ter até a tarde de ontem se pronunciado a respeito, uma vez que é encarregado do controle de atividades financeiras, dentro e fora do país, quando tais investimentos são feitos por brasileiros ou por residentes do Brasil.

PONTO NEVRÁLGICO – O Coaf é um ponto nevrálgico do sistema financeiro nacional, inclusive porque Paulo Guedes e Roberto Campos Neto são dois investidores em moeda estrangeira, mas existem, segundo a Piauí e o El País, cerca de 300 empresários, executivos e políticos que também investem fora de nossas fronteiras para escapar da incidência da tributação.

Washington Luís, Clarissa Garcia e José Marques acentuam uma informação comentada por Mauro Menezes, ex-presidente da Comissão de Ética Pública, que chama atenção para o fato de Paulo Guedes defender o fim dos benefícios fiscais aplicados na Zona Franca de Manaus e defender benefícios fiscais em outro país para si próprio. A reportagem da Folha de S. Paulo foi publicada com destaque, ocupando dois terços de uma página do jornal. O fato, na minha opinião, ao que se refere aos reflexos políticos, é de que a sua ocorrência só pode ter sido negativa para a candidatura de Bolsonaro à reeleição, pois de positivo não acrescentou nada a favor do governo.

FILME DO ITAÚ – Também na noite de domingo, a TV Globo exibiu um filme publicitário do Banco Itaú motivando as comunidades de menor renda para a Taça de Futebol das favelas da Cidade. Não tenho dúvida de que a iniciativa vai alcançar pleno sucesso e contribuir para revelar o surgimento de novos valores nas disputas de uma favela ou de uma região contra outra. Mas não é esse o seu único aspecto.

Sob uma lente social, verifica-se que as filmagens percorrem áreas de grande carência social e sanitária, atravessando passagens em que uma habitação fica no máximo a um metro da outra em frente. Os trajetos não são limpos como a saúde humana exige. Águas poluídas escorrendo, poças e falta de saneamento. As câmeras sobem também as encostas de morros produzindo imagens cinematográficas de qualidade que devem ficar na mente dos governos estadual e federal e também da Prefeitura do Rio.

DÍVIDA SOCIAL – Os registros constituem uma expressiva síntese da dívida social brasileira para com a sua população a partir do número de habitantes das encostas e dos becos do Rio onde vivem duas milhões de pessoas, quase um terço da população da Cidade. A favelização é uma consequência da política de concentração de renda que somente pode ser solucionada quando os valores do trabalho, no caso os salários, deixarem de perder para a inflação do IBGE. Enquanto isso não ocorrer, o problema da redução da desigualdade jamais será resolvido.

A compressão salarial começou a partir de Jânio Quadros em 1961 e não foi interrompida até os dias de hoje. A moradia em favelas é uma consequência das perdas salariais acumuladas. Além disso, metade do país não conta com tratamento de esgotos e água de qualidade para o consumo. Incrível, o subdesenvolvimento continua.

CIRO PEDE TRÉGUA – Numa entrevista às repórteres Cássia Miranda, o Estado de S. Paulo, Carolina Linhares, Folha de S. Paulo, e Elisa Martins, O Globo, o ex-governador Ciro Gomes, pré-candidato à Presidência da República pelo PDT, propôs publicamente o que classificou como uma trégua ao Partido dos Trabalhadores, responsabilizando-o pela vaia que recebeu ao discursar sábado na Avenida Paulista e pelos ataques a pauladas contra o carro quando antecipava a sua saída do local.

Ciro Gomes disse que o objetivo maior é derrotar Jair Bolsonaro e lutar pelo seu impeachment. Para mim, Ciro Gomes reconheceu  talvez tarde demais o equívoco que cometeu ao dirigir ataques ao ex-presidente Lula da Silva, em vez de concentrá-los contra o atual presidente da  República. Ciro Gomes teria só esse caminho para tentar crescer nas pesquisas. Se mesmo assim a iniciativa já era difícil, ao estender os seus ataques a Lula, a sua meta se torna impossível.

Uma coisa é ir às ruas e apoiar o governo, outra é ir às ruas, atacar o governo e enfrentar o poder

Manifestações pedem impeachment, mais vacinas e empregos

Pedro do Coutto

Reportagem de Bianca Gomes, Sérgio Roxo, Julia Lindner e Giovanni Mourão, O Globo de domingo, focaliza com nitidez as manifestações que ocorreram em mais de 20 estados e em Brasília contra o governo de Jair Bolsonaro, condenando a inflação e o aumento do custo de vida, além de pedir o impeachment do presidente da República. A presença foi bastante forte e marcou uma posição que se generaliza pelo país, consequência das ações do próprio governo como se verifica, por exemplo, no caso da Covid-19.

Mas a Folha de S. Paulo, também na edição de domingo, considerou que as adesões ao movimento foram tímidas e não agruparam o mesmo número de pessoas que, no dia 7 de setembro, manifestaram o seu apoio ao Palácio do Planalto. Isso é verdade, especialmente no que se refere à Avenida Paulista, embora a concentração de sábado contra o governo tenha sido bastante expressiva.

MÁQUINA ADMINISTRATIVA – Mas temos que considerar a diferença que está no título deste artigo. Uma coisa é participar de manifestação apoiando quem está no governo, portanto, com a máquina administrativa nas mãos. Outra coisa é comparecer à manifestação política contra o governo e, portanto, em confronto direto com a administração federal e com uma parte dos deputados e senadores.

Além disso, Lula da Silva não participou no sábado, enquanto Jair Bolsonaro esteve presente tanto na Paulista quanto na Avenida Atlântica, no Rio, no dia 7 de setembro. O presidente da República radicalizou no Dia da Independência, especialmente nos ataques ao Supremo Tribunal Federal. Tanto radicalizou que teve que recuar através de um texto conciliador redigido pelo ex-presidente Michel Temer. De qualquer forma, o confronto entre Lula e Bolsonaro se consolida a cada dia, bloqueando um terceiro caminho para algum outro candidato chegar às urnas e vencer a disputa pelo Planalto.

Essa terceira via, de acordo com as pesquisas do Datafolha e do Ipec, até sábado podia se chamar Ciro Gomes. Porém, depois de sábado, tal hipótese tornou-se ainda muito mais remota. O ex-governador do Ceará, candidato do PDT à sucessão, foi vaiado ao discursar na Avenida Paulista e teve que deixar o local no seu carro atacado a pauladas. Como a manifestação da Paulista claramente foi desencadeada pelo PT, verifica-se que Ciro Gomes perdeu pontos e espaço ao dirigir ataques a Lula nas últimas semanas, ao invés de se concentrar contra Jair Bolsonaro.

OFENSIVA – Atacando Lula, ele não ganha um voto com isso, e deixando de concentrar a sua ofensiva contra Bolsonaro contribui para manter a sua segunda colocação no espelho traçado pelo Datafolha. Ciro Gomes que no último levantamento tinha chegado a 11 pontos, hoje deve ter perdido umas duas ou três colocações. Motivos não faltavam para Ciro Gomes. Do leque de opções, ele poderia ter se manifestado com base na CPI do Senado e no aumento dos preços dos combustíveis fixados pela Petrobras. Mas ele não fez isso.

O terceiro caminho parece indicar que será disputado pelo PSDB. Os tucanos vão realizar em 21 de novembro eleições internas para a escolha do candidato para disputar as eleições em outubro de 2022. Dois nomes se destacam, o dos  governadores João Doria e de Eduardo Leite. Quem vencer as prévias, examinando-se bem a questão, não poderá deixar de ser candidato.

Mesmo que tenha que até abril, seis meses antes das eleições, renunciar ao mandato de governador. Não é possível que alguém dispute eleições internas e, caso vencedor, não assuma a posição referendada pela maioria do seu partido. Fernando Henrique Cardoso já manifestou a sua simpatia por João Doria, mas também não descartou Eduardo Leite. Portanto, em abril, teremos um novo governador de São Paulo ou um novo governador do Rio Grande do Sul. Os vices aguardam a decisão.

PETROBRAS – Numa entrevista a Manoel Ventura, o Globo de domingo, o presidente da Petrobras, general Joaquim Silva e Luna, afirmou que a estatal não vai mudar a sua política de reajuste de preços e acentuou que se os preços da gasolina e do diesel forem represados haverá desabastecimento de combustível. Portanto, além da crise do sistema hidrelétrico, o país está ameaçado pela hipótese de um problema de grande parte no setor de combustíveis.

O general Silva e Luna destacou que a Petrobras é uma empresa de capital misto, portanto de capital aberto, sobretudo porque 63% dos seus acionistas são privados, enquanto a União possui somente 37%. A afirmação, na minha impressão, no fundo constitui uma resposta aos que, como o ministro Paulo Guedes, defendem a privatização da estatal.

São aspectos, a meu ver, bastante importantes a serem colocados e observados com atenção. Mas não é só essa questão essencial. Silva e Luna, também com base nos acionistas privados lembra que a política de preços relaciona-se também com a colocação de seus papéis na Bovespa e na Bolsa de Nova York.

REFLEXO ELEITORAL –  Com o pronunciamento do presidente da Petrobras, ficou diminuído o campo de ação do próprio governo em tentar solucionar uma política de preços que está incentivando o processo inflacionário e causando reflexo eleitoral negativo ao governo na reeleição do próximo ano. Silva Luna destacou também que durante o governo Bolsonaro a Petrobras pagou R$ 550 bilhões em tributos e que neste ano já destinou R$ 20 bilhões em dividendos para os acionistas.

Com a afirmação de que manterá a política de preços, Silva e Luna deixou aberto apenas para o Palácio do Planalto o caminho de tentar diminuir os impostos estaduais, caso do ICMS, cujo percentual varia de um estado para o outro. No Rio de Janeiro é de 14%. Silva e Luna disse ainda que pela qualidade do petróleo extraído no país pela Petrobras, há necessidade de 30% do óleo diesel e outros 30% da gasolina serem refinados fora do país, o que se reflete na formação dos preços. Há o transporte  de petróleo para o refino  e a volta como óleo diesel e gasolina. Ficou claro que o presidente Jair Bolsonaro não conseguirá fazer com que a Petrobras reduza os preços nas bombas do país.

Afinal, o que ganham as pessoas no Pix, num país como o Brasil? Os riscos se repetem

Invasão no Banco de Sergipe colheu os dados dos clientes

Pedro do Coutto

Qual a vantagem das pessoas físicas, no caso, os assalariados, integrando-se ao sistema de pagamentos imediatos do Pix? É uma pergunta que faço aos leitores deste site e aos especialistas capazes de traduzir a realidade, cujos efeitos francamente ainda não percebi. Só observei que as invasões de contas se repetem, como revelou ontem Clarissa Garcia em excelente reportagem na Folha de S. Paulo.

Há cerca de um mês haviam ocorrido vazamentos praticados por hackers. Agora, na última semana, através do Banco  do Estado de Sergipe, outras invasões aconteceram. Tanto assim, que o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, anunciou novas medidas de segurança para o sistema. Se há necessidade de novas medidas de segurança é porque, evidentemente, as ações de proteção não funcionavam como seria de supor numa rede bancária.

VANTAGEM – Não atinei ainda qual a vantagem de pagamentos por parte de pessoas físicas através do novo mecanismo. O efeito imediato das transações somente pode interessar às empresas e aos aplicadores de curtíssimo prazo no mercado financeiro. Estes poderiam aplicar mais rapidamente quantias recebidas, incluindo os seus clientes no mercado. Mas essa rapidez sem o overnight não pode ser maior do que 24 horas. O pagamento feito por nós, assalariados, através dos cartões de débito do Itaú, do Bradesco ou do Santander, no que nos diz respeito é a mesma coisa do que pagar noturnamente através do Pix.

É possível que aplicadores atuem na Bovespa, no mercado de ganho e nas cotações do ouro. Mas tais investimentos não podem estar condicionados a transferências de valores muito pequenos como são os limitados pelo Banco Central. O especialista Victor Hugo Pereira Gonçalves, presidente da empresa Sigilo, especializada em proteção de dados, disse na reportagem que infelizmente, institucionalmente, o Banco Central e a Autoridade Nacional de Proteção de Dados não têm feito nada, mas a situação é grave e requer atenção. Não está claro, dentro das regras do Pix, quais são os mecanismos de segurança adotados.

Para ele, a estrutura desenvolvida para as chaves de segurança não geram confiança, pois a estrutura demanda que cada instituição desenvolva sua parte no processo. E isso gera um risco ainda maior. Desta vez, a invasão de dados foi praticada através do Banco de Sergipe na quinta-feira, operação criminosa que obteve informações de 395 mil pessoas. Presumo que através de uma conta num determinado banco, violado o sistema de chaves, talvez seja possível aos hackers saltarem para outro estabelecimento de crédito.

CONSULTAS INDEVIDAS – O banco revelou ter detectado consultas indevidas de pessoas que não eram clientes, embora as informações tenham sido obtidas através do próprio banco. O presidente do Banco Central anunciou medidas complementares de segurança e acentuou não ter havido falha no sistema do Bacen. O hacker acessou as informações utilizando a infraestrutura tecnológica do sistema do Banese. Pessoalmente não sei se o sistema do Banco Central não tem segurança capaz de impedir o voo de hackers de um ponto para outro.

Para Roberto Campos Neto, os hackers jamais tiveram acesso direto aos diversos sistemas do Banco Central. Acrescentou que medidas de segurança complementares já foram adotadas para impedir um outro vazamento de dados. O problema, entretanto, é objeto de comentários de vários especialistas e executivos de empresas de segurança. Para Rafael Stark, presidente do Stark Bank, o vazamento foi uma falha exclusiva do Banese, e admitiu que possa ter ocorrido transmissão de informações sigilosas por parte de funcionários comprometidos.

FALTA DE SEGURANÇA – Peterson dos Santos, presidente da empresa Trio, não atribui o vazamento à falta de segurança, mas ressalta que a implantação do novo meio de pagamento ocorreu muito rapidamente. Por isso, estão aprimorando diariamente a capacidade de evitar fraudes. Logo, na minha opinião, a segurança não estava completa até a última semana. Tanto que que o próprio Bacen limitou as operações entre às 20h de um dia e às 6h da manhã do dia imediato a apenas R$ 1 mil, e também passou a poder reter operações que considerar suspeitas. Portanto, a desconfiança permanece, o que naturalmente conduz a um aumento da segurança. Assim, o Banco Central admitiu tacitamente que existiam vulnerabilidades que precisam ser bloqueadas.

Houve até o caso de sequestros de pessoas obrigadas a realizar transferências para contas indevidas. Minha pergunta permanece, qual a vantagem para os assalariados na realização de pagamentos imediatos? Sobretudo porque mais de 90% dos pagamentos realizados se destinam à empresas tanto de pequeno, quanto de média e grande porte.

GASOLINA E DIESEL –  Folha de S. Paulo, edição de sábado, destaca a preocupação que está envolvendo o Palácio do Planalto em função dos aumentos de preços da gasolina e do diesel no processo eleitoral, ameaçando seriamente  a possibilidade de reeleição do presidente Jair Bolsonaro.

O problema discutido pelo chefe da Casa Civil, Ciro Nogueira, está encontrando uma saída muito difícil. Isso porque, fora da Petrobras, só uma alteração na participação dos estados através da incidência do ICMS. Mas isso promoverá uma revolta em série por parte dos governos estaduais que perderiam grandes parcelas  de suas receitas. Seria um novo fator de crise que o governo teria que enfrentar na tentativa de obter recursos para o Auxílio Brasil, nova forma do Bolsa Família.

CUSTO DE VIDA – Na manhã de ontem, sábado, no programa da TV Globo, coordenado por Cissa Guimarães, a jornalista Talitha Morete fez uma brilhante exposição sobre o custo de vida e o seu reflexo no consumo de alimentos da população, impulsionado fortemente pelo aumento de preços do óleo diesel, já que o transporte de gêneros alimentícios é realizado por caminhões movidos por este combustível.

Ela exibiu uma foto publicada pelo Jornal Extra, ressaltando o acesso de pessoas famintas a ossos, peles e gorduras não utilizadas na venda de carnes pelos supermercados. Destacou o absurdo que é um país como o Brasil, maior produtor do mundo em matéria de alimentos, não consiga sequer impedir a fome de grande parte de sua população. A crise chegou a um ponto intolerável, uma vergonha nacional, uma desumanidade com a população.

O custo de vida está impedindo que uma grande parcela de brasileiros e brasileiras possam escapar do flagelo da fome e de suas consequências. A exposição de Talitha Morete, na minha opinião, constitui-se num ponto alto  divulgado através do jornalismo pela televisão.

APROXIMAÇÃO COM CENTRÃO – Numa entrevista a Fábio Zanini, Folha de S. Paulo, Flávio Dino, governador do Maranhão, afirmou que quanto mais centrista Lula for, melhor eleitoralmente será para ele. O governador disse que o ex-presidente Lula da Silva, que lidera as pesquisas para as eleições de 2022, deve continuar se aproximando do Centro para unir os votos desta corrente aos votos que lhe são destinados pelas posições de centro-esquerda.

Para Flávio Dino, o isolamento contra a candidatura de Lula deve ficar restrito à faixa da extrema-direita, cuja fração de votos não é suficiente para ameaçar a sua vitória nas urnas. A polarização entre Lula e Bolsonaro está cristalizada e, portanto, impõe-se uma coalisão dos partidos para que, seguindo a maioria do eleitorado, posicionem-se contra a política atual do Planalto.

Bolsonaro reconhece situação desfavorável, espera recuperar-se e quer um debate com Lula

Bolsonaro quer comparar gestão de Lula com seu governo

Pedro do Coutto

Ao inaugurar uma nova linha do metrô em Belo Horizonte na tarde de quinta-feira, o presidente Jair Bolsonaro em meio a apoiadores que o aplaudiam, reconheceu que o cenário para a eleição de 2022, por enquanto, é desfavorável, mas espera reverter tal situação. A matéria focalizando a manifestação de Bolsonaro foi publicada na edição de O Globo de sexta-feira.

Dirigindo-se aos apoiadores, Bolsonaro disse que as dificuldades para governar são grandes. Mas agradeceu a confiança dos correligionários que gritavam “queremos Bolsonaro outra vez”. Num momento do encontro foi hostilizado por uma mulher que criticou a sua atuação quanto à vacina. Retomando sua fala, o presidente afirmou : “se porventura for candidato, terei prazer em debater frente a frente com Lula e comparar a sua gestão com o meu governo”.

PASSAPORTE – Bolsonaro aproveitou o momento também para criticar a iniciativa de prefeitos que estão exigindo passaporte de vacinação para que as pessoas tenham acesso a locais públicos e academias, restaurantes, bares e casas de festas. Acrescentou que o governo montou uma agenda de inaugurações pelo país para estancar a queda de popularidade de sua administração.

Assinalou: “cada vez mais, nos vemos obrigados a demonstrar nossas lutas e nossas realizações”. Relativamente à vacina, voltou a argumentar com base no direito de ir e vir para condenar os prefeitos, como é o caso de Eduardo Paes no Rio de Janeiro ao exigir passaportes da população.

CONDIÇÕES DE MORO – Reportagem de Bela Megale, O Globo, destaca as condições colocadas pelo ex-juiz Sergio Moro para ser candidato às eleições parlamentares de 2022 e dar o seu apoio a João Doria ou a Henrique Mandetta, caso um dos dois venha a disputar o Planalto.

Moro não se referiu, por enquanto, ao governador Eduardo Leite, do Rio Grande do Sul, que disputa a indicação no PSDB com Doria. Mas um dos compromissos colocados por Sergio Moro é o apoio do candidato à tese da prisão em segunda instância, antes mesmo do trânsito totalmente julgado pelos Tribunais Superiores. Para ele, a prisão deve ser estabelecida a partir da segunda instância.

DILEMA NO PSDB – Bela Megale focaliza também o apoio do ex-prefeito de Salvador ACM Neto ao governador Eduardo Leite como candidato do PSDB à sucessão presidencial de 2022. A situação entre os tucanos está dependendo do resultado das prévias que reúnem principalmente João Doria e Eduardo Leite. Na minha impressão, as prévias criam um dilema para o PSDB, pois quem vencer terá que disputar o pleito, pois não faz sentido alguém concorrer a uma indicação político-partidária e, sendo o mais votado, desistir de se candidatar.

Da mesma forma, quem aceita participar de eleições prévias tem como consequência lógica apoiar o vencedor. Como a disputa está entre os governadores Eduardo Leite e João Doria, quem perder apoiará o outro e quem vencer terá que caminhar para as urnas, mesmo sabendo da pouca possibilidade de êxito, uma vez que o confronto entre Lula da Silva e Bolsonaro se consolida.

Além disso, com o PSDB escolhendo um candidato próprio, e com a disposição de Mandetta de admitir ser candidato pela pela coligação DEM-PSL, diminui ainda mais o campo para que o ex-governador Ciro Gomes possa se apresentar como uma terceira opção entre o cotejo de Bolsonaro e Lula. Sergio Moro, cuja candidatura a deputado a meu ver o levará à Câmara Federal, não focalizou a hipótese em Ciro Gomes  e tampouco o incluiu como capaz de cumprir o compromisso de defender a prisão em segunda instância.

INICIATIVA DA PGR –  A subprocuradora da República Lindôra Araújo tomou a iniciativa de enviar documento ao Supremo Tribunal Federal determinando que seja investigada a iniciativa do presidente Jair Bolsonaro em convocar atos democráticos no dia 7 de setembro, em meio às comemorações pela independência do país, que no próximo ano completam dois séculos.

A reportagem é de Aguirre Talento e Mariana Muniz. O procurador geral Augusto Aras não opinou no processo e tampouco no encaminhamento à Corte Suprema. O Planalto não comentou o assunto.

VACINAÇÃO – Francamente, não se compreende a oposição permanente do presidente Jair Bolsonaro à vacinação para conter a Covid-19 e também a sua aversão ao uso protetor das máscaras que em centenas de milhares de casos evitaram uma contaminação ainda maior do que a que atravessamos e que deixaram até agora uma tragédia de quase 590 mil mortos no país.

Não tem sentido esse posicionamento negacionista e ao mesmo tempo mortal, pois quantas mortes poderiam ter sido evitadas  se o governo tivesse adquirido as vacinas certas, no momento exato em que a pandemia começou a se instalar no país. O presidente Jair Bolsonaro esquece que mais de 140 mil brasileiros já se vacinaram, dos quais 90 mil já com a segunda dose e também o início da terceira para os mais idosos.

Aliás, ontem foi o Dia Internacional do Idoso. Não há explicação lógica para o comportamento do presidente da República que destacou a sua atuação na abertura da Assembleia Geral da ONU, quando em encontro com o primeiro-ministro inglês e com o prefeito de Nova York revelou não ter ainda se vacinado. Bolsonaro expôs o país a uma situação vergonhosa internacionalmente. No dia seguinte, a sua mulher, Michelle, vacinou-se em Nova York.

TRANSMISSÃO DO FUTEBOL –  Reportagem de Carlos Petrocilo, Folha de S. Paulo, comenta o panorama das transmissões de futebol pelas emissoras de televisão, destacando uma nova política colocada em prática pela TV Globo. A Globo desistiu da Libertadores e também, segundo a matéria, do Campeonato Paulista. Petrocilo não se refere ao Campeonato Estadual do Rio de Janeiro e a Taça Guanabara, presumindo-se que as transmissões serão realizadas normalmente.

A Globo, entretanto, estará presente na Copa do Mundo de 2022, assumindo, como sempre, os direitos de transmissão cujo valor está fixado em US$ 96 milhões. Existia um problema quanto ao valor a ser decidido pela Justiça. No foro da Suíça, por ser sede da Fifa. Mas as partes terminaram chegando a um acordo. A Globo transmite da Copa do Mundo desde 1970 e, evidentemente, não deseja deixar de fazê-lo. Foi aceita, inclusive, uma reivindicação da própria Fifa de que a emissora transmitisse, aliás como fez, dos jogos de futebol de areia e de futsal.

A Taça Libertadores e o Campeonato Paulista serão transmitidos pelo SBT  e pela Record no plano da televisão aberta. No plano dos canais fechados, a Globo mantém pay-per-view em sua esfera de atuação, que abrange também a SporTV.

As maiores tragédias da humanidade foram crucificação de Cristo, escravidão e nazismo

Em que pensava Maria quando Jesus foi crucificado?

O séculos se vão, mas a presença de Cristo será para sempre

Pedro do Coutto

A crucificação de Jesus Cristo, confirmada pelo governador romano na Judéia, Poncio Pilatos, a escravidão negra depois da era de Colombo, absorvida principalmente pelos Estados Unidos, pelo Brasil e pelo Caribe, e o nazismo de Hitler são efetivamente, na minha opinião, as três maiores tragédias da humanidade que não podem ser disfarçadas por quaisquer colocações através da história. Digo isso incluindo o futuro e, portanto, aqueles que vierem depois de nós.

Escrevo esse artigo de hoje baseado num importante texto de Thiago Amparo, publicado na Folha de S. Paulo de quinta-feira, rebatendo opiniões que de vez em quando surgem como uma tentativa de suavizar a escravidão negra, citando exemplos de pessoas que conseguiram se livrar da senzala e da chibata.

VOLTA DO NAZISMO – Da mesma forma é repugnante o posicionamento da extrema-direita mundial que deixa transparecer a sua afinidade com o hediondo nazismo que matou 50 milhões de seres humanos na Segunda Guerra Mundial, dentre os quais seis milhões de judeus subjugados nos campos de concentração que formaram o trágico conjunto do Holocausto.

Relativamente à tragédia da crucificação, é importante acentuar que Jesus Cristo, com a sua morte, tornou-se a maior figura da humanidade, sobretudo na medida em que se dividiu o tempo humano em antes e depois Dele. Não pode haver corte maior e mais profundo no tempo do que a divisão que balizou a passagem dos séculos pelo planeta chamado Terra. Calendário seguido por todos os povos do mundo.

TRABALHO E SALÁRIO – Através do cadastro do Caged, o Ministério do Trabalho divulgou que no mês de agosto foram retomados 372 mil postos de trabalho com carteira assinada, o que significa um vínculo legal entre empregadores e empregados. Reportagem de Fernanda Trisotto, O Globo, focaliza o tema. É fácil confirmar o fenômeno, já que os empregos formais implicam contribuições ao INSS e ao FGTS.

Porém, Fernanda Trisotto destaca que a média de salário passou a ser R$ 1700, 1,4% menor do que a oferta salarial registrada no mês de julho deste ano. A matéria focaliza também as oscilações na dívida pública do país e diz que ela baixou de 89% sobre o PIB para 82%.

NÚMEROS ABSOLUTOS – Mais uma vez, digo: é lamentável que as matérias divulgadas pelo governo não se refiram sobre quais números absolutos incidem as percentagens. Mas vamos nos referir a eles.

O endividamento do país é de R$ 6 trilhões. Assim é fácil saber quanto significavam 89% e quanto significam 82%, caso os dados sejam exatos. Acrescento mais um detalhe. Cada ponto percentual da Selic sobre a dívida equivale a R$ 60 bilhões. Daí é fácil concluir que a diferença de sete pontos representa R$ 420 bilhões.