Datafolha indica que Lula avança ainda mais e hoje não haveria nem segundo turno

Pesquisa aponta que Lula tem 48%; Bolsonaro, 27%; Ciro, 7%

Pedro do Coutto

Pesquisa do Datafolha , concluída na manhã de quinta-feira e comentada no final da tarde pela GloboNews, foi destacada também no O Globo, edição desta sexta-feira, em reportagem de Bernardo Mello, Lucas Matias, Bianca Gomes e Sérgio Rôxo. O levantamento aponta que se as eleições presidenciais fossem hoje, Lula da Silva alcançaria 48 pontos contra 27 de Jair Bolsonaro e 7 pontos de Ciro Gomes.

Em matéria de votos úteis, ou seja, retirada a parcela de 7% dos que se dispõem a anular ou votar em branco, Lula teria 54%, contra 30% de Bolsonaro e 8% de Ciro Gomes. O quadro sucessório, a meu ver, parece estar definido, não vendo a necessidade de Simone Tebet firmar alianças com candidatos a governos estaduais. Ela surge na pesquisa do Datafolha com apenas 2% das intenções de votos.

DIVISÃO DO VOTO – Mas a pesquisa revela dados importantes. Mais uma vez fica nítida a divisão do voto por classes sociais na medida em que desce a renda dos eleitores e eleitoras, Lula sobe. Na medida que sobe a renda dos entrevistados pelo Datafolha, Bolsonaro melhora.

Esse dado de divisão por classes sociais, foi focalizado em meu livro “O voto e o povo”, de algumas décadas atrás. A divisão dos votos por segmentos sociais é fundamental, sobretudo porque a grande maioria do eleitorado brasileiro é formada por grupos de renda menor. Afinal de contas, estamos em um país em que 60% dos que trabalham ganham de um a dois salários mínimos, a meu ver incluída a parcela dos que não chegam a receber por mês o piso fixado na lei.

Temos, porém, que levar em consideração que entre os que têm renda familiar superior a dez salários mínimos, Bolsonaro atinge 42% contra 32% de Lula da Silva. Mas entre as famílias cuja renda mensal vai até dois salários mínimos, Lula tem 56% e Lula 20%. O Datafolha fez a pesquisa também junto aos evangélicos, onde Bolsonaro leva vantagem com 39% contra 35% de Lula da Silva.

VANTAGEM  – Na região Nordeste, a vantagem a favor de Lula da Silva se amplia, ele tem 62 pontos contra apenas 17% a favor de Bolsonaro. Inclusive, entre os beneficiários do Auxilio Brasil (R$ 400 por mês), Lula chega a 59 pontos contra 20% de Bolsonaro. Entre os jovens de 16 a 24 anos, Lula mantém a dianteira com 58% contra 21% de Jair Bolsonaro. O quadro parece estar cristalizado e sua divulgação representa uma ducha fria lançada sobre o Planalto.

Importante o efeito consequente, que são as alianças para os governos estaduais fora das correntes que apoiam Lula e Bolsonaro. Por isso, não vejo condições de Tebet decolar. Os outros candidatos pré-existentes têm uma pontuação fraca.

Enquanto isso, numa entrevista ao O Globo, Guilherme Caetano e Ivan Martinez-Vargas, o candidato bolsonarista ao governo de São Paulo, Tarcísio de Freitas, acredita que disputará o segundo turno com Fernando Haddad pelo governo paulista. Mas acrescenta um ângulo importante em relação ao panorama político. “Se perder a eleição, Bolsonaro passa a faixa a Lula da Sila”, afirmou.

FOME NO BRASIL –  Na edição de quinta-feira, dia 26 de maio, Fernando Canzian, Folha de S. Paulo, escreveu extensa matéria, muito boa, focalizando o aumento da fome no Brasil que de 2014 para 2021 subiu 33% para os homens e 37% para as mulheres. Em 2014, era de 14% para os homens e 20% para as mulheres.

A causa principal do problema está na falta de dinheiro para adquirir alimentos numa escala bastante alta que chega a 70% dos casos de insegurança alimentar.  Portanto, verifica-se que a liberação de preços e a estagnação de salários e do desemprego são as causas essenciais que conduzem à fome parte muito grande da população brasileira.

PLANOS DE SAÚDE –  A  Agência Nacional de Saúde, órgão do Ministério da Saúde, autorizou no final da tarde de quinta-feira, o aumento dos planos de saúde individuais e familiares na ordem de 15,5%. Cinco por cento acima da inflação registrada em 2021. As razões são o encarecimento dos insumos, dos serviços médicos e também da frequência maior à assistência de saúde, incluindo interações.

Luciana Carneiro e  Poliana Bretas, O Globo, comentam muito bem o tema. Um dos reflexos que o aumento produzirá certamente é o risco de segurados não poderem pagar o acréscimo, pois como sempre digo, os salários estão estacionados.

Fome é consequência da política de concentração de renda, que vem aviltando os salários

No Brasil, a fome passou a atingir 36% das famílias

Pedro do Coutto

Uma pesquisa da Fundação Getúlio Vargas, com base em dados internacionais do Gallup World  Poll, revela que no Brasil a fome passou a atingir 36% das famílias, o que equivale a cerca de 30 milhões de pessoas, uma vez que a média familiar no país é de quatro pessoas.

Reportagens excelentes de Carolina Nalin, no O Globo, e de Fernando Canzian, Folha de S. Paulo, edições desta quinta-feira, revelaram a dimensão do problema que inclui o Brasil no Mapa Mundial da Fome.

INSEGURANÇA ALIMENTAR –  A pesquisa refere-se ao que se chama de insegurança alimentar. Sobre o assunto, o diretor da FGV Social, Marcelo Neri, acentua que o problema tem reflexos nos campos da saúde, da educação e na moradia, fatores todos convergindo para uma qualidade baixa de vida.

O Brasil estava fora do Mapa Mundial da Fome desde 2014, mas a partir de 2016 a desigualdade de renda aumentou. São capítulos, disse Neri, que fazem parte do mesmo drama. O aumento seguido dos preços, digo, em confronto com o congelamento de salários acarretou, como já houve reflexos nos supermercados, uma queda na compra de alimentos. Com isso, o problema da fome se expandiu como reflexo direto.

Em nosso país, a fome atinge mais as mulheres do que os homens numa proporção de 47% para as mulheres e de 36% para os homens, resultado que deve ser consequência do panorama que abrange o nível de emprego e de desemprego que está muito alto. O problema é gravíssimo, e é consequência da política conservadora que se baseia na concentração de renda.

JUSTIÇA SOCIAL – or falar em concentração de renda, o problema é muito maior do que a palavra desigualdade exprime. Pois desigualdade sempre haverá, mas tem que existir um mínimo de justiça social no país e no mundo. E a redistribuição de renda só se dá através do salário e do emprego.

Formas assistenciais são movimentações típicas, mas que não resolvem o problema estrutural que exige uma harmonia entre o lucro e os salários, entre a economia e as condições sociais do país. Além disso, a confiança do consumidor é abalada com o receio do prosseguimento da subida de preços, a manutenção da estagnação salarial e do índice do desemprego.

GRANDE ILUSÃO – O ministro Paulo Guedes confirmou com seus pronunciamentos em Davos que é um personagem da grande ilusão, no caso, brasileira. Traçou um panorama azul sobre a economia do país nos últimos anos e considerou que o Brasil é um porto seguro para investimentos internacionais, além de garantir que o Brasil foi o país que mais preservou o meio ambiente em 2021.

Os jornalistas presentes aos pronunciamentos ficaram perplexos. Guedes apresentou uma realidade fantasiosa e chegou a dizer que a crise mundial registrada no ano passado interessa economicamente ao Brasil, pois abre oportunidades para exportações de produtos de grande interesse de diversos países.

Chegou a afirmar que a Europa ficará isolada, provavelmente se referindo ao plano econômico, uma vez que já perdeu a Rússia. Guedes defendeu o ingresso do Brasil na OCDE e condicionou o não isolamento europeu ao fato de se integrar mais em outras regiões, especialmente a América Latina.

FANTASIAS – O ministro participou de um programa que discutia a dívida global. Profetizou que nós, no Brasil, ficamos para trás, não se referindo a nenhum período certo. Mas, agora, ele idealizou, “vamos crescer no eixo da energia verde, no plano digital e até na segurança alimentar”. Paulo Guedes criticou a França e a Bélgica, sustentando que eles barram a entrada do Brasil na OCDE por serem protecionistas na agricultura, e não levam em conta que são irrelevantes para o Brasil.

Na terça-feira, o ministro Paulo Guedes – reportagem de Luciana Coelho enviada da Folha de S. Paulo a Davos – havia sustentando que a turbulência global é uma oportunidade positiva para o Brasil – que poderia obter vantagens das incertezas na cadeia produtiva internacional. Guedes acrescentou que a turbulência global é uma benção para o nosso país. Impressionante, digo, o irrealismo que marca as atuações do ministro da Economia.

REAJUSTE  – A repórter Luciana Coelho registrou também afirmação de Paulo Guedes sobre o reajuste salarial do funcionalismo público da ordem de 5% de forma geral, uma vez que a Constituição não permite aumentos salariais diferenciados. Assim, Bolsonaro não pode destinar um aumento diferente às Polícias Federal, Rodoviária e Judiciária.

O reajuste será, portanto, linear, e se estenderá às Forças Armadas e também aos Poderes Judiciário e Legislativo. Reajuste, acrescento, muito inferior à inflação acumulada nos últimos três anos que passa de 20%. Inclusive, só em 2021, o IBGE registrou 10,2% no índice inflacionário.

Agora, no mês de maio, o IBGE encontrou (não sei como só isso) um índice inflacionário de 0,59%. Natalia Garcia, a Folha de S.Paulo de ontem, focaliza o assunto. Alguns técnicos tentando reduzir o impacto do índice, dizem que representa um freio no processo inflacionário, embora admitam que ele continuará persistente. A questão é que a inflação se acrescenta aos índices que a antecederam. Não houve recuo já que o processo inflacionário é aditivo.

CONTROLE DE PREÇOS –  A repórter Luciana Coelho, também cobrindo Davos, conversou com o presidente do Bradesco, Octavio de Lazari Junior. Ele disse que a inflação continuará a pressionar a economia global e do Brasil ainda este ano, fazendo com que a taxa de juros de mantenha em alta ao menos até o fim do semestre atual.

Sobre a Selic que atualmente é de 12,75%, ele acredita que chegue ao final do ano com 13,5%, uma vez que a inflação deve fechar dezembro com uma taxa de 11%. Este índice, destacou, está muito acima da meta inflacionária prevista pelo governo que era de 5%. Assim, sob o ponto de vista de Octavio Lazari, o governo errou na proporção superior a 100%.

TRABALHO VOLUNTÁRIO – A reportagem é de Renato Machado, Folha de S. Paulo. O Senado aprovou, na quarta-feira, a incrível Medida Provisória que cria no país um programa de prestação de serviço voluntário para jovens entre 19 e 24 anos, e desempregados de mais de 50 anos há pelo menos 24 meses fora do mercado de trabalho.

Também está previsto serviço voluntário para pessoas com deficiência. É impressionante o fato de o Congresso ter aprovado um projeto dessa ordem. Isso só prejudica ainda mais as relações de trabalho. O programa inclui também incentivo aos municípios, mas sem que os voluntários tenham vínculos trabalhistas. Falta sensibilidade aos políticos brasileiros.

Para se reeleger, Bolsonaro quer travar aumentos da Petrobras até as eleições de outubro

Charge do Cacinho

Pedro do Coutto

A questão dos preços da gasolina, do diesel e do gás faz parte de um panorama bastante amplo que coloca posições divergentes no próprio governo: o presidente Jair Bolsonaro quer travar os reajustes pelo menos até as urnas de outubro.

Tal posicionamento choca-se com o pensamento do ministro Paulo Guedes, autor da indicação de Caio Paes de Andrade para a Presidência da estatal, que inclusive pode se deslocar para a esfera judicial ou para um conflito administrativo no Conselho da própria Petrobras.

NOVA INVESTIDA  – Reportagem de Fábio Pupo, Folha de S. Paulo desta quarta-feira, revela a nova investida de Bolsonaro para travar aumentos da gasolina e do diesel na reta final das eleições para a Presidência da República. Ele determinou estudos para que seja encontrada uma fórmula que estabeleça um intervalo maior sobre os reajustes de preços até que o eleitorado decida sobre a sucessão presidencial.

A disposição de intervir no mercado de combustíveis confronta-se com o pensamento de Guedes, que sucessivamente condenou a política de intervenção estatal neste mercado. Por uma coincidência do destino, Caio Paes de Andrade é da equipe de Paulo Guedes na Economia. Foi indicado pelo ministro para dirigir a empresa e a indicação causou um duplo reflexo negativo. Primeiro, a divergência entre liberar os preços ou travá-los como deseja Bolsonaro.

A segunda contradição é que setores da Petrobras ameaçam ir à Justiça contra a indicação porque Paes de Andrade não reúne os requisitos fundamentais para presidir a Petrobras. Ele não tem prática com o universo do petróleo e isso está sendo apresentado contra a sua indicação.

VANTAGEM DE LULA –  O Ipec divulgou no final da tarde de terça-feira e O Globo publicou em sua edição de ontem, reportagem de Bernardo Mello, destacando que no estado do Rio de Janeiro, em matéria de intenção de voto, Lula mantém a vantagem de 15 pontos sobre Bolsonaro. Dois dias antes, o Instituto Quaest havia publicado que no Rio havia um empate entre ambos na escala de 35%.

Evidentemente a pesquisa do Instituto Quaest estava e está errada, o que prejudica os que costumam escrever sobre o assunto, pois num dia são levados a fazer análises sobre números que não são reais.

O Ipec revela também que sua pesquisa foi encomendada pela Rio Indústria e se estendeu ao universo dos evangélicos. Entre esses, aí sim, Bolsonaro leva vantagem. Ele tem 46% contra 29% para Lula. Um aspecto bastante sensível destacado pelo Ipec é que do eleitorado pesquisado, a presença dos que se disseram evangélicos é de um terço. Acho uma base muito ampla.

POSIÇÃO NAS PESQUISAS  – Joelmir Tavares, Folha de S. Paulo de ontem, publicou extensa reportagem sobre os bastidores do MDB que, de fato, aceitam Simone Tebet como candidata da legenda, através da terceira via. Mas condiciona o apoio a que ela melhore sua posição nas pesquisas do Datafolha ou do Ipec. Nos últimos levantamentos ela aparece com 1% dos votos.

Ela pode crescer, mas a terceira via depende da convenção do PSDB e do Cidadania. Verifica-se assim a importância que ganharam as pesquisas eleitorais no país. Antigamente muitos não acreditavam nelas. Sempre acreditei no Ibope e continuo acreditando no Ipec e no Datafolha.

ROBÔS E PERFIS FALSOS  –  Foi excelente o editorial da Folha de S. Paulo de terça-feira sobre a existência em larga escala de perfis falsos em plataformas da internet superestimando manifestações de seguidores, compartilhamentos e comentários que são produzidos por robôs. Esses perfis falsos têm como objetivo influir comercialmente para a adesão de propaganda de empresas ou de mensagens daqueles conhecidos como influenciadores.

A Folha de S. Paulo cita como exemplos o que acontece no TikTok, no Facebook e no Instagram, acrescenta que os perfis não autênticos e são controlados por pessoas que atraídas pelas promessas de ganhos extras, chegam a gerir até 500 contas diferentes. Um verdadeiro absurdo. A FSP conclui que se trata de uma prática que tem como objetivo percepções falsas do mercado de informação.

Bolsonaro nomeia quarto presidente da Petrobras e meta é não subir preços até as urnas

Charge do JCaesar (veja.abril.com.br)

Pedro do Coutto

Impressionante o processo de substituição dos presidentes da Petrobras que vem sendo adotado pelo presidente Jair Bolsonaro, agora por influência do ministro Paulo Guedes, que indicou Caio Paes de Andrade para substituir José Mauro Coelho. A meta de Bolsonaro é encontrar alguém que não reajuste os preços da gasolina, do diesel e do gás pelo menos até as urnas de outubro, quando se desenrolam as eleições presidenciais.

Reportagem de Fernanda Trisotto, Jussara Soares, Elaine Oliveira, Geralda Doca e Bruno Rosa, O Globo desta terça-feira, acentua que José Mauro Coelho permaneceu no cargo apenas por 40 dias. Assim, digo, ao longo de três anos e meio de mandato, Bolsonaro já nomeou e demitiu três presidentes da estatal.

SINUCA DE BICO – Agora, Caio Paes de Andrade, da equipe de Guedes na Economia, evidentemente, terá que usar de habilidade para ir ao encontro da vontade do presidente da República sem se afastar da política de preços liberados que, no fundo da questão, é do alinhamento ideológico de Paulo Guedes.

Essa compatibilização entre política partidária e política do mercado encontra explicação na posição de Paulo Guedes anunciada na segunda-feira e publicada ontem em O Globo, matéria de Malu Gaspar e Bruno Rosa. Paulo Guedes na tentativa de equilibrar as duas opções está propondo um prazo de cem dias para o reajuste de preços pela estatal.

Acontece, entretanto, que as eleições ocorrem daqui a praticamente 120 dias. Este é mais um desafio para o governo, sobretudo na reta final da campanha que será percorrida no mês de setembro, pois as eleições serão em 2 de outubro.

TERCEIRA VIA  – A renúncia do ex-governador João Doria na disputa pela Presidência da República não resolve uma hipotética viabilização da terceira via na tentativa para a formulação de uma candidatura capaz de quebrar a polarização entre Lula da Silva e Jair Bolsonaro.

A tendência predominante é a da escolha da senadora Simone Tebet, mas isso exigiria uma aliança entre o MDB, o PSDB, o Cidadania e outras siglas, excetuando-se a União Brasil que já têm Luciano Bivar como candidato.

Mas as articulações federais dependem basicamente das composições sobre as disputas dos governos estaduais. Isso porque as coligações nas esferas dos estados são muito diferentes da coligação que os adeptos da terceira via esperam para o plano federal. Sem isso, não há terceira via que se imponha.

LULA LIDERA NO RIO – Pesquisa do Ipec, antigo Ibope de Carlos Augusto Montenegro, publicada ontem no O Globo, revela uma discordância total com a que foi divulgada há cerca de uma semana pelo Instituto Quaest. A reportagem é de Lucas Matias e as diferenças são colossais.

O Instituto Quaest havia publicado uma queda de Lula no Rio e uma ascensão de Bolsonaro, fazendo com que a corrida no estado estivesse empatada nos trinta e cinco pontos. Mas o Ipec, em levantamento mais recente, aponta 46% das intenções de voto para Lula contra 31% de Bolsonaro. Em terceiro, Ciro Gomes com quatro pontos.

DIVERGÊNCIA – O panorama então traçado pelo Ipec diverge de modo absoluto do universo encontrado pelo Quaest. O Ipec pesquisou também as tendências para a disputa sobre o governo do Rio de Janeiro. Claudio Castro tem 18 pontos contra 17 de Marcelo Freixo, e 8% de Rodrigo Neves. O quadro, entretanto, não está satisfazendo os eleitores e eleitoras. Tanto que 30% dos cariocas e fluminenses, hoje, se dispõem a votar em branco ou anular o voto.

Para o Senado, uma surpresa. Romário, do time campeão do mundo em 1994, tem 29%, seguido pelo Cabo Daciolo, com 10%, e Alessandro Molon (para mim, excelente candidato), com 8%. Além disso, aparece o deputado Daniel Silveira, condenado pelo STF e perdoado por Bolsonaro, empatado com Molon, também com oito pontos.

FANTASMA ELEITORAL – O governo cogita retirar parcela substancial do ICMS sobre a energia elétrica para evitar um aumento de tarifas que se apresenta como solução para o governo, especialmente no momento em que espera concluir a privatização da Eletrobras. A privatização da Eletrobras está prevista para o mês de junho, três meses antes das eleições, mas acentua-se o fato de que até o momento ainda não surgiram compradores.

Na minha opinião, compradores existem em larga escala, mas eles não entraram em cena porque provavelmente aguardam o desfecho das urnas de outubro, uma vez que Lula já se pronunciou contrariamente a essa transferência do comando da estatal para o setor privado. Assim, de nada adiantaria concluir-se este ano uma operação financeira, diante da sombra da hipótese dela ser anulada a partir de janeiro de 2023.

AUMENTO DE RECEITA –  O Globo, edição de segunda-feira, publica reportagem de Elaine Oliveira e Fernanda Trisotto que destacam o aumento da receita em 2021 e neste ano dos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina e Bahia, os quatro maiores colégios eleitorais do país.

A matéria, com base em levantamento da Instituição Fiscal Independente, trabalho da economista Vilma Pinto, destaca o desempenho positivo, principalmente das receitas geradas pelo ICMS.

Para mim, fica a pergunta de por qual motivo as arrecadações dos estados sobem e a do governo federal estaciona. Algo está errado, pois o governo federal tem o Imposto de Renda, que é o maior de todos, e o IPI. Portanto, é preciso uma explicação.

Privatização da Eletrobras ficará pela metade e Furnas quitará dívidas da Santo Antônio Energia

Usina foi objeto de conflito entre Dilma e Marina Silva

Pedro do Coutto

Num edital de meia página publicado na edição da Folha de S. Paulo de domingo e na edição de ontem, segunda-feira, no O Globo, Furnas, empresa do sistema da Eletrobras, convoca Assembleia Geral dos debenturistas para o dia 30 de maio com o objetivo de quitar a situação financeira das hidrelétricas que por sua vez se tornou a Sant0 Antônio Energia, subsidiária da própria Furnas.

As condições sobre as quais surgirão as deliberações, acentua o texto do edital, serão oportunamente divulgadas até a realização da assembleia, portanto, até o dia 30 deste mês.

AUMENTO DE CAPITAL – No espaço ocupado pelo edital, em ambos os veículos, foi publicado um anexo da Santo Antônio Energia, assinado pela diretora de relações com investidores, Ana Paula Romantini, no qual destaca que no dia 29 de abril os acionistas da Madeira Energia, na qual se inclui a hidrelétrica de Santo Antônio, aprovaram o aumento do capital social para até R$ 1,582 bilhão.

A impressão que surge, na minha opinião, é de que Furnas quitará as finanças da Santo Antônio e, com isso, reduzirá o passivo dos que vierem a comprar ações referentes à privatização do comando da Eletrobras, uma vez que Furnas é a principal unidade da holding de energia elétrica.

CONFLITO – A Usina de Santo Antônio, em Rondônia, foi objeto de conflito entre a então ministra de Minas e Energia, Dilma Rousseff, e a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, no final do primeiro governo Lula, culminando com a  demissão da senadora pelo Acre no episódio.

Marina Silva sustentava uma posição contrária à construção da usina em função do desmatamento que acarretou e por não acreditar na sua viabilidade econômica. O tempo demonstrou que estava certa, pois se não estivesse, a Usina de Santo António não teria acumulado dívidas como acumulou.

LIMITAÇÃO – A privatização da Eletrobras tem acentuado a existência de controvérsias quanto ao preço, quanto à forma de pagamento e agora também em relação ao voto dos acionistas em face da pulverização prevista para o controle administrativo da empresa holding que inclui Furnas, Chesf, EletroNorte e EletroNorte.

Aliás, me referi à Usina de Santo Antônio no início deste texto e acrescento que Furnas possui 43% de suas ações, e entre as acionistas inclui-se também a Odebrecht, a Andrade Gutierrez e a EletroNorte.

PODER DE VETO – Voltando à questão da limitação dos votos dos acionistas, o que inclui os novos que surgirem da privatização, reportagem de Nicola Pamplona, Folha de S. Paulo de ontem, destaca que a União, mesmo depois da holding privatizada, terá poder de veto nas decisões administrativas e para acionistas será necessária uma lei específica para limitar o seu poder de decisão.

Como se verifica, a privatização aprovada pelo Tribunal de Contas, encontra-se incompleta. Tanto assim, que será necessária uma nova lei fixando limites mínimos para pulverização do controle. Afinal de contas, o objetivo da privatização da Eletrobras é o de concentrá-la no comando da empresa holding. Isso porque privatizada a Eletrobras já é, pois possui ações na Bovespa e na Bolsa de Nova York, e, com isso, qualquer um pode adquirir os papéis da empresa.

FAKE NEWS – No O Globo, edição de domingo, Bernardo Yoneshigue publica reportagem focalizando um ponto importantíssimo exposto pela prática criminosa pela disseminação de fake news nas redes da internet. São falsas notícias voltadas para problemas e programas de Saúde que espalham boatos extremamente nocivos a respeito de tratamentos milagrosos, remédios inadequados, soluções primárias para doenças e casos de aplicação de processos para rápido emagrecimento, entre outros.

É claro que a população já percebeu a existência desses malefícios e os riscos que representam. Assim, acredito,  que a recente pesquisa que O Globo publicou focalizando o confronto de credibilidade entre as emissoras de televisão abertas e também incluindo os canais de assinatura, é enorme a vantagem dessas sobre as plataformas digitais. Portanto, deduzo que no fundo da questão as fake news prejudicam não somente a quem se dirige, mas também, conjuntamente, os próprios canais que as divulgam.

As próprias redes que acolhem e divulgam fake news, não apenas sabem o  que estão fazendo, mas contribuem igualmente para a queda de seu próprio alcance na opinião pública, além de colocar em risco a vida de milhões de homens e mulheres diariamente.

ENSINO DOMICILIAR – Foi um belo artigo de Miriam Leitão, O Globo de domingo, sobre o projeto aprovado pela Câmara de Deputados instituindo o ensino domiciliar, profundamente prejudicial tanto para as crianças quanto para seus pais e avós. Um retrocesso de séculos, disse.

Ele bloqueia a convivência dos estudantes entre si, afastando-os da socialização que é fundamental. Em segundo lugar, os pais, avós e outros responsáveis adultos terão que transmitir e explicar às crianças e adolescentes matérias sobre as quais não possuem conhecimento pleno.

Como se sabe, raros são os meninos e meninas capazes de aprender de plano o que está sendo ensinado nos colégios e nas escolas. Além disso, terão os pais e avós que acompanhar as explicações pelo computador do material didático relativo a esta e àquela matéria.

ALIMENTAÇÃO – Completando o ciclo desastroso que o projeto oferece à sociedade brasileira, encontra-se também em relação ao primeiro grau, o fato de as crianças perderem a alimentação, o que é fundamental para a própria saúde e que reduz de alguma forma as despesas de suas famílias. Há também o atendimento médico e dentário.

Além disso, há o problema do tempo que os pais das crianças e adolescentes não possuem para acompanhar os estudos, uma vez que precisam trabalhar e manter os seus empregos.

Alianças políticas precisam considerar as articulações para os governos estaduais

Charge do Cazo (humorpolitico.com.br)

Pedro do Coutto

Uma reportagem de Johannes Eller, O Globo deste domingo, focaliza problemas que surgiram na aliança entre o PT e o PSOL, abrangendo até mesmo o governador Cláudio Castro, em face de uma falta de sintonia entre os candidatos Marcelo Freixo e André Ceciliano, um para governador e outro para o Senado, e que estão bloqueando uma articulação mais ampla do ex-presidente Lula da Silva no estado do Rio de Janeiro.

A candidatura de Freixo, como revelou semana passada o Instituto Quest, perdeu pontos e acarretou um recuo de Lula no estado, o que está levando o PT a solucionar o problema. O episódio serve de exemplo para os partidos em escala nacional. Eles desenvolvem alianças sem levar em conta o que está ocorrendo nos estados, pois uma vez adotada uma candidatura no plano federal, nem sempre ela corresponde aos planos estaduais.

As articulações estaduais nem sempre entram em sintonia com a do plano nacional. No caso do Rio, o quadro implica em vários aliados disputando, por vezes, a mesma base de Lula. Esses fatos devem ser considerados pelas direções nacionais das legendas para evitar desencontros e prejuízos.

ARTICULAÃO DE PREÇOS –  Em seu espaço aos domingos no O Globo, o jornalista Lauro Jardim sustentou ontem que quem de fato articula os preços da gasolina, do diesel e do gás é o ministro Paulo Guedes usando na verdade o poder que lhe foi concedido pelo próprio presidente Jair Bolsonaro.

Por isso, é praticamente impossível que a política de contenção desses preços possa ser alterada, a não ser que fosse mudada a orientação passada por Guedes. Na minha opinião, Bolsonaro ainda não compreendeu quem é o ministro.

SEM COMPROMISSO – Paulo Guedes é um homem de pleno conhecimento e atuação no universo financeiro, mas que no fundo não tem compromisso maior com a área econômica e muito menos com a área social. Ele continua, apesar de percalços, merecendo a quase total confiança de Bolsonaro que não identificou de forma mais ampla  o verdadeiro perfil de seu principal conselheiro e orientador equivocadamente no espaço econômico.

Paulo Guedes é um conservador absoluto, não leva em conta a condição salarial dos trabalhadores e servidores públicos. Tanto assim, que qualquer reajuste salarial apenas para repor parcialmente a inflação, é rebatida por ele de forma frontal. Mas o mesmo não acontece com a política de preços, a começar pelos combustíveis.

FUTEBOL E A AUDIÊNCIA –  Na edição de sexta-feira de O Globo, Carolina Nalin escreveu sobre a audiência da tv aberta e canais por assinatura em comparação com as plataformas digitais da internet. Uma pesquisa da empresa Kantar IBope Media revela que a preferência pela TV aberta, incluindo canais de assinatura, dominam o consumo de vídeo do brasileiro.

Na programação das emissoras de televisão, o maior índice de audiência se refere ao jornalismo (25%), às novelas, em segundo lugar (18%), seguidos dos programas de auditório (9%),entre outros. A pergunta que coloco é se o jornalismo inclui as transmissões esportivas.Deveria haver uma separação para poder se aferir e comparar o grau de audiência do esporte nas pesquisas entre as várias camadas de interesse despertadas.

Se a 10ª economia não tem recursos para investir em energia, poderá uma empresa fazê-lo?

Esquema traçado pelo governo Bosloanro revela pontos confusos

Pedro do Coutto

Se o Brasil que é a nona ou décima economia do mundo, com um Produto Interno Bruto da ordem de R$ 6,5 trilhões, não tem recursos para investir na modernização e expansão do sistema elétrico, não será uma empresa particular que possuirá tal disponibilidade no momento em que o governo tenta levar a efeito a privatização do comando da Eletrobras.

Os que criticam os que se manifestam contra a privatização, não levam em conta pontos confusos do esquema traçado pelo governo Bolsonaro. No projeto de privatização está previsto, por exemplo, a aquisição antecipada de dez termelétricas e também uma rede de gasodutos em locais que não são fonte de produção de gás. Um lance de dados dos séculos XX e XXI.  

O jornalista Celso Ming, edição de sexta-feira do Estado de S.Paulo, defende a privatização da Eletrobras e atacou os que se opõem a essa iniciativa do governo Bolsonaro inspirada em projeto do ministro Paulo Guedes.

ELON MUSK – Nas edições desta sábado, Ivan Martinez-Vargas, O Globo, e Júlio Wiziack e Paula Soprana, Folha de S. Paulo, publicam extensas reportagens sobre o encontro entre o presidente Jair Bolsonaro e o empresário Elon Musk sobre  o combate ao desmatamento na Amazônia, além da monitoração com equipamentos do empresário para o exercício de uma fiscalização sobre o problema, incluindo a comprovação do fato de o Brasil estar com resultados positivos na preservação das florestas verdes, conforme afirmou Bolsonaro.

As matérias ressaltaram que o encontro, como se verificou, deu margem a uma repercussão muito grande em nosso país. Mas, o programa de monitoração por satélite da Amazônia já se encontra em funcionamento. Assim, é desnecessário qualquer acordo entre Bolsonaro e Musk, inclusive o que foi conversado ficou no campo das intenções, pois não houve nada de concreto assinado.

A impressão que se tem é que foi um lance para a arquibancada. O programa de monitoramento existe desde 2018, executado pela ViaSat e pela Telebrás. Além disso, na minha opinião, da mesma forma que o raciocínio aplicado no exemplo que dei da Eletrobras, o problema do combate ao desmatamento é nacional, não necessitando  de contratos entre o Estado e a Tesla, empresa particular de Elon Musk.

TERMELÉTRICAS – A Folha de S. Paulo publicou na edição de sexta-feira alguns pontos fundamentais do processo de privatização da Eletrobras, incluindo uma entrada de R$ 25 bilhões e  R$ 42 bilhões a serem pagos em trinta anos. Isso me faz lembrar uma frase famosa do Lord Keynes, ministro da Fazenda de Winston Churchill quando da criação no final de 1944, do Banco Mundial.

Levaram para ele um projeto que disseram ser de realização a longo prazo. Ele respondeu: “Há longo prazo não, pois a longo prazo estaremos todos mortos”. O dinossauro na questão da Eletrobras é a obrigação de serem mantidas em operação térmicas movidas a gás, abastecidas por gasodutos que não se encontram projetados para os setores de produção e comercialização.

PREJUÍZO –  Alexa Salomão e Nicola Pamplona, Folha de S. Paulo, escrevem sobre problemas relativos à térmicas cujas instalações encontram-se atrasadas e que, com isso, causam à Eletrobras um prejuízo de R$ 18 bilhões.

No momento em que o governos e preocupa com o congelamento de R$ 8 bilhões no orçamento, não faz sentido que um órgão do governo, como a Aneel, ter suspendido o pagamento de R$ 209 milhões em multas a quatro térmicas cujas obras estão em atraso e que vão custar 18 milhões até 2025.

JABUTI – A decisão da Aneel tomada no meio da última semana pertence à Âmbar Energia, que por sua vez integra o sistema da JJ, controladora da JBS de Wesley Batista. A decisão causou surpresa nos setores ligados à eletricidade. Paulo Pedrosa, presidente da associação que reúne os grandes consumidores de energia do país, afirmou que o governo criou um grande jabuti, na realidade, um dinossauro com a  decisão.

A alternativa, disse Pedrosa, contraria a regra do leilão prevista nos contratos e vai contra o princípio da redução das contas de energia. Há outros detalhes que incomodam os especialistas do segmento. É que o leilão dos projetos das termelétricas era para atender a projetos novos e não como ocorre com a Âmbar para usinas já em operação.

Arthur Lira apoia projeto que explode as alianças estaduais de Jair Bolsonaro

Lira costura medida que pode provocar baque no caixa dos estados

Pedro do Coutto

O deputado Arthur Lira, presidente da Câmara Federal, articulou com o Palácio do Planalto a aprovação de um projeto apresentado pelo deputado Danilo Forte que reduz a incidência do ICMS sobre os preços da gasolina e do óleo diesel.

O projeto unifica o ICMS em 17%, mas há estados que cobram alíquota superior. Perderiam uma receita, calculam, de cerca de R$ 100 bilhões por ano. O projeto foi articulado no Planalto, provavelmente, penso, pela área econômica do governo.

EFEITO POLÍTICO – O objetivo é reduzir os preços nas bombas da gasolina, do diesel e do gás encanado, mas o efeito político é desastroso. O presidente do Congresso, senador Rodrigo Pacheco, tem uma opinião contrária a de Lira, e acha que o projeto prejudica a economia dos estados e a política do governo.

Arthur Lira vai colocar o projeto na Ordem do Dia de terça-feira, e a reação dos estados deve ser grande. O projeto, que cria resistências estaduais esperadas, bloqueia articulações nas unidades da federação em relação à candidatura de Bolsonaro. No momento em que o presidente busca apoio estadual, o projeto não poderia ser mais negativo.

Da mesma forma que o projeto de Danilo Forte prejudica o governo, as articulações da terceira via em torno da senadora Simone Tebet bloqueia as alianças regionais, pois unir o MDB, o PSDB e a Cidadania irá dificultar as alianças dos governos estaduais. 

MINISTRO DO ABSURDO – Paulo Guedes, como acentuou Miriam Leitão na quinta-feira, na GloboNews, fez uma declaração defendendo a inflação brasileira de 12% ao ano, dizendo que falta manteiga na Holanda e que a gasolina no interior está mais cara. Um absurdo. O que tem isso a ver com a economia do Brasil?

Miriam Leitão classificou como estapafúrdia a declaração. Guedes é um ministro do absurdo. Ele não debate os temas reais, mas cria uma realidade paralela.

LULA PERDE PONTOS – Matéria de Jordana Neves, do Estado de S. Paulo, edição de quinta-feira, diz que o ex-presidente Lula da Silva, nas últimas duas semanas, perdeu 4% dos votos no Rio de Janeiro, enquanto Bolsonaro subiu outros 4%. Conforme apontam os índices, Lula recuou 8 pontos na escala de intenções de votos.

O Secretário Nacional de Comunicação do PT, Jilmar Tatto, disse que o partido resolveu contratar uma pesquisa qualitativa para medir o impacto negativo que Marcelo Freixo, como candidato a governador, está causando à candidatura do petista.

“Estamos muito preocupados com o Rio de Janeiro”, disse Tatto. Freixo vem restringindo o campo de manobra do PT e não vem motivando o eleitorado como se esperava. O PT, provavelmente, vai substitui-lo.

AUDIÊNCIA – Uma pesquisa da empresa Kantar IBope Media – reportagem de Carolina Nalin, O Globo – revela que a preferência pela TV aberta, incluindo canais de assinatura, dominam o consumo de vídeo do brasileiro em relação às plataformas digitais. São 79% contra 21% e o jornalismo ocupa um espaço preferencial de 25%.

Os programas de auditório estão com 9%. As novelas estão na escala de 18%. Portanto, se verifica que a influência da televisão na opinião pública é muito maior do que as redes sociais da internet. Podem ser muito acessadas, mas não proporcionam o mesmo reflexo do que as emissoras de televisão.

REAJUSTE ADIADO –  Idiana Tomazelli e Mariana Holanda, Folha de S.Paulo, afirmam que o presidente Jair Bolsonaro adiou o anúncio sobre o reajuste dos servidores federais, incluindo os militares, em face de problemas evidenciados pelo ministro Paulo Guedes para o orçamento deste ano.

Bolsonaro sustenta que o orçamento federal é pequeno e que o reajuste geral de 5% acarretará uma despesa nacional de R$ 17 bilhões. Ele se engana. O orçamento não é pequeno. O que pode haver é um comprometimento de pesquisa maior do que o esperado, mas os servidores estão há anos sem reajustes, enquanto os preços disparam para todos. Melhor dizendo, para quase todos, pois para Guedes é algo totalmente natural.

Governo corre para vender a Eletrobras, mas quem são e o que pensam os compradores ?

TCU aprovou privatização da Eletrobras, em vitória do governo

Pedro do Coutto

Após autorizada a venda do controle acionário da Eletrobras pelo Tribunal de Contas da União, e apesar do passivo que existe quanto a Usina de Santo Antônio, objeto da reportagem de Alexa Salomão, Folha de S. Paulo de quarta-feira, o governo Bolsonaro, seguindo a ideia do ministro Paulo Guedes, quer concretizar a transação até 15 de junho, portanto daqui a um mês.

Mas existe a necessidade de uma explicação sobre quem são os possíveis compradores e o que pensam sobre o preço de venda e as condições de compra? Não se conhecendo os possíveis compradores, como se pode pensar na rapidez da venda ?

QUESTIONAMENTOS – Há menos que eles sejam conhecidos da Eletrobras e já tenham manifestado intenção nesse sentido. Talvez até integrantes de suas equipes tenham se formado também nas diretorias de Furnas, da Chesf, da EletroNorte e da EletroSul. São perguntas a serem respondidas. Há recursos na justiça ainda, liminar pedida ao STF e a intenção manifestada pelo presidente da Assembleia Legislativa do Rio, André Ceciliano, de recorrer até à justiça dos Estados Unidos.

Em editorial, O Globo de ontem focaliza o assunto das térmicas e a necessidade do Supremo Tribunal Federal examinar o assunto para evitar o destino dessa compra que inclui a compra de gasodutos não existentes. Sobre a pressa do governo brasileiro em privatizar o comando da Eletrobras, além da Folha, foi publicada uma ampla reportagem no O Globo de autoria de Geralda Doca e Gabriel Shinohara.

PASSIVOS – O texto assinala que a venda da empresa tem que ser registrada na próxima semana nas bolsas de São Paulo e Nova York. Nesta última pode haver problemas, acrescento, em função do preço que não foi anunciado e devido à questão dos passivos existentes.

A Eletrobras teve a sua criação proposta por Getúlio Vargas em 1954. Passaram sete anos e um projeto do presidente Jânio Quadros foi aprovado pelo Congresso. Em 1962, o presidente João Goulart regulamentou a criação da empresa que começou a funcionar como holding. Na minha opinião, o ativo da Eletrobras é muito mais do que o esperado na venda.

DIFICULDADES NAS ELEIÇÕES – Num episódio singular na diplomacia, Elizabeth Bagley ao responder à sabatina sobre o seu nome e suas condições para embaixadora dos Estados Unidos no Brasil, já indicada pelo presidente Joe Biden, afirmou diretamente prever dificuldades nas eleições de outubro, mas que as instituições brasileiras estão preparadas para resistir à pressões antidemocráticas.

Acentuou que o presidente Jair Bolsonaro tem dito muitas coisas, mas o Brasil tem instituições, Judiciário e Legislativo independentes, além de liberdade de expressão. Não citou, digo, o Poder Executivo.

Ao longo de 30 anos, Elizabeth Bagley diz que tem acompanhado muitas eleições no mundo e sabe que no caso brasileiro o momento não é fácil em razão dos comentários de Bolsonaro que busca colocar em xeque a legitimidade do pleito em caso de uma eventual derrota.

COMBATE AO DESMATAMENTO – “Apesar desses comentários, há uma base institucional e nós continuaremos a demonstrar nossa confiança na expectativa de que elas serão livres e justas”, disse. Bagley disse ainda que uma das maiores prioridades que vai adotar se aprovada pelo Senado será focalizar o combate ao desmatamento e aos crimes ambientais no Brasil.

Ressaltou que desenvolverá esforços para encorajar os setores brasileiros preocupados com o meio ambiente a defender a questão florestal e processar os autores dos crimes contrários ao meio ambiente. A futura embaixadora em Brasília também assegurou que vai agir no combate ao tráfico de animais e na ampliação da transparência do Brasil a respeito dos dados que envolvem o desmatamento.

A excelente reportagem publicada pela Folha de S. Paulo é de Rafael Balago. No O Globo de ontem, a matéria sobre o pronunciamento de Elizabeth Bagley foi focalizada em reportagem de Luisa Marzullo e Elaine Oliveira.

VOTOS BRANCOS E NULOS –  Na edição de quarta-feira, a Folha de S.Paulo publicou pesquisa da Quest sobre a sucessão para o governo do Rio de Janeiro, apontando a liderança do governador Cláudio Castro, com 25% das intenções de voto, seguido por Marcelo Freixo com 18%, e Rodrigo Neves com 9%.

É importante destacar que 33% dos eleitores e eleitoras, cariocas e fluminenses, pretendem votar em branco ou anular o sufrágio. E 10% não demonstram interesse pela disputa. Um alto índice que demonstra a insatisfação do eleitorado na sucessão do governador Claudio Castro. Fica demonstrado que o desempenho de Freixo está abaixo do esperado, até porque é apoiado por Lula da Silva.

Fachin convida observadores internacionais para eleições e imobiliza ameaças de golpe

Com iniciativa de Fachin, Bolsonaro ficou numa posição difícil

Pedro do Coutto

O ministro Edson Fachin, presidente do Tribunal Superior Eleitoral, anunciou no final da tarde de terça-feira que convidará mais de 100 observadores internacionais, inclusive representantes da Organização dos Estados Americanos, para acompanhar o processo eleitoral brasileiro e participar dos trabalhos de computação dos votos depositados nas urnas eleitorais no dia 2 de outubro.

Foi um lance importante, sobretudo porque coloca uma blindagem nas investidas que ameaçam o golpe contra a democracia no país e imobiliza também movimentos do próprio presidente Bolsonaro. Uma excelente matéria de Adriana Muniz, O Globo, focaliza principalmente as declarações do ministro Edson Fachin exatamente um dia depois de Bolsonaro ter afirmado que as eleições podem ser conturbadas.

MENSAGEM – “Cabe à sociedade brasileira garantir que levaremos ao plano internacional mensagem de estabilidade e segurança”, afirmou Fachin. O presidente Jair Bolsonaro politicamente não pode discordar de tal iniciativa, pois isso seria interpretado como uma prova de que as ameaças de fato existem e se não existirem então não há motivos para bloqueá-las.

Bolsonaro ficou numa posição difícil, como difícil tem sido as negativas do governo em atender pedidos de informação sobre desempenho do ministério com base na Lei da Transparência da informação. Destaco que negar informações públicas é admitir que o desempenho do governo está errado, logo, negativo. Não sendo assim, ocultar é uma confissão de que existem erros a serem preservados. Mas este é outro aspecto da questão informativa.

Sobre a iniciativa de Fachin, existe o exemplo adotado nas urnas de 2018, quando as eleições brasileiras vencidas por Jair Bolsonaro foram acompanhadas por 36 representantes de entidades internacionais. Fachin acentuou que seu plano de expor a corrida eleitoral brasileira à comunidade internacional é para conter investidas antidemocráticas, a exemplo do que ocorreu nos Estados Unidos com a invasão do Congresso em Washington.

ARMAMENTO – Na sequência dos fatos políticos, na tarde de terça-feira, ao falar aos seus eleitores em Sergipe, Bolsonaro voltou a defender o armamento da população. Disse que o cidadão que tem uma arma contribui para a segurança pessoal das famílias e para a defesa da soberania nacional. Mas a tarefa de defesa, digo, cabe às Forças Armadas.

“Nós defendemos o armamento para o cidadão de bem porque entendemos que a arma de fogo além de uma segurança pessoal para as famílias, também é para segurança da nossa soberania e a garantia que a nossa democracia será preservada”, afirmou.

PRESSÃO –  Apesar do pronunciamento recente de apoio de Fernando Henrique Cardoso, o PSDB voltou a pressionar João Doria a desistir de sua candidatura. A corrente empenhada nessa hipótese pretende formar com Simone Tebet uma terceira via para as eleições presidenciais. Mas a terceira via não depende apenas do PSDB. E depende, no caso de aliança com Tebet, de convenções tanto do PSDB quanto do MDB. A Corrente de Doria não vai concordar, obviamente.

O MDB é um enigma, mas a convenção do partido dará margem a opiniões contrárias, até mesmo porque a terceira via colocará em risco candidaturas estaduais pelo partido que estão bem encaminhadas.  É preciso notar as posições estaduais dos candidatos dos dois partidos. Se houver união no plano federal, poderá haver a explosão de coligações estaduais.

Quanto às eleições para governador do Rio de Janeiro, pesquisa do Instituto Quest, concluída segunda-feira, revela que Cláudio Castro com 25% das intenções de voto está sete pontos na frente de Marcelo Freixo, enquanto Rodrigo Neves aparece com nove pontos. O Rio, com base nos números, delineia o seu segundo turno para a escolha do governador.

REAJUSTE –  O presidente Jair Bolsonaro, destaca Adriana Fernandes, o Estado de S. Paulo de ontem, deve decidir hoje ou até amanhã, sexta-feira, o reajuste dos servidores federais, inicialmente previsto em 5%, índice que é a metade da inflação registrada em 2021. Mas o presidente da República resolveu conceder um reajuste maior à Polícia Federal, à Polícia Rodoviária Federal, à Polícia Judiciária, e o percentual neste caso não foi revelado.

Mas a Constituição federal determina que os aumentos nominais têm que ser unificados e entrarem em vigor na mesma data, acrescentando que as reposições terão que ser anuais, o que o governo não tem observado. O reajuste está previsto, revela a matéria, numa despesa de R$ 10 bilhões.

E isso tem provocado resistência na área econômica do governo, mas o fato é que o orçamento em vigor este ano é de R$ 4,8 trilhões, não incluindo as despesas com os juros sobre a dívida interna que já superam R$ 600 bilhões em 12 meses, uma vez que os títulos que a lastreiam são reajustados pela Selic que hoje se encontra em 12,75%.

DRAUZIO VARELLA –  Na edição de O Globo de terça-feira, Eduardo Graça, e na Folha de S. Paulo de ontem, Valter Porto, escreveram longas matérias destacando a atuação e a importância do médico Drauzio Varella, que através da imprensa, da TV Globo e da GloboNews,  tornou-se um símbolo de defesa da Saúde, portanto da vida humana, e do uso da Medicina no país, com destaque para sua presença  marcante na campanha de vacinação contra Covid-19.

Ele, aos 79 anos de idade, vai lançar o livro “O exercício da incerteza”, suas memórias pela Cia das Letras. São 296 páginas sobre a passagem do tempo e os avanços da ciência médica. O livro, penso, deve ser tão importante quanto a sua presença nos fatos que marcam o país.

Agressivo, Jair Bolsonaro acende o sinal de alarme no convés da democracia

Bolsonaro repetiu ataques e se isentou de responsaiblidades

Pedro do Coutto

Num evento na tarde de segunda-feira, em São Paulo, na Associação Paulista de Supermercados, o presidente Jair Bolsonaro, num momento de intensa agressividade, admitiu que as eleições de 2 de outubro podem ser conturbadas e que ele pessoalmente já deu provas suficientes de que tem que conduzir o país com pulso firme, e que “só Deus o afastará do cargo”.

A declaração, no fundo, representou um claro enigma porque em seguida ele assinalou que a liberdade é mais importante do que a própria vida e do que as eleições. “Não sou um ditador, mas também não serei preso como algumas figuras da oposição afirmam”, destacou.

AUMENTOS – Em seu pronunciamento aos dirigentes de supermercados, Bolsonaro agradeceu a contribuição ao longo da pandemia, esquecendo-se dos aumentos de preços que estão atingindo o consumidor, sobretudo porque, na minha opinião, os salários estão estagnados, mas o custo de vida não.

Reportagem excelente de Bruno Soraggi, Folha de S. Paulo desta terça-feira, focaliza o acontecimento. O almoço reuniu setecentas e vinte pessoas, e falaram também o ministro Paulo Guedes e o ex-ministro Tarcisio de Freitas, candidato ao governo de São Paulo nas urnas de outubro.

“Eu não manjo nada de economia, assim como Paulo Guedes não manja nada de política. Na realidade eu sou o técnico do time”, acentuou Bolsonaro. O pronunciamento de Bolsonaro foi longo e marcado por aparentes desconexões. Por exemplo: “Podemos ter eleições conturbadas. Imaginem acabarmos as eleições e pairar para um lado ou para outro a suspeição de que elas não foram limpas. Não queremos isso”, afirmou.

ATAQUES – Bolsonaro atacou novamente o TSE, frisando que o Tribunal não aceitou sugestões das Forças Armadas. “Sou uma pessoa que tem responsabilidade pelo Brasil e digo se Deus me deu essa missão, vou ter que cumpri-la. Não adianta ninguém querer inventar uma canetada por aí que não vai conseguir”, acrescentou.

O presidente pediu ainda aos empresários que não o abandonem agora, mas que caberia à consciência de cada um. Bolsonaro ironizou Lula da Silva, dizendo que é analfabeto , estendendo os seus ataques ao governador João Doria a quem chamou de “engravatado que nunca se aproximou dos pobres na vida”. Voltou também a atacar o STF, culpando-o por limitar sua atuação ao longo da crise da Covid-19.

 “Tem uma passagem bíblica que diz que a soberba precede à queda. Essas caras (seus opositores) não sabem o que é Deus. Não acreditam e não têm respeito pelos que acreditam”, afirmou. Como se verifica, há uma série de contradições diante das ações que o próprio Bolsonaro tomou durante todo o seu mandato.

VOTO NULO – Numa entrevista de página inteira a Fábio Zanini e Guilherme Seto, Folha de S. de Paulo de ontem, Renan Santos coordenador nacional do MBL defendeu a prática de voto nulo nas eleições presidenciais. A meu ver é um equívoco e uma ação antidemocrática porque o voto é um instrumento essencial da democracia ao lado da liberdade.

O voto nulo ou em branco, na verdade dos fatos, é impossível votar em branco ou anular o voto. Se o eleitor abre mão do seu direito de escolher, ele está indiretamente ajudando ao candidato que lidera as pesquisas do Datafolha e do Ipec porque o voto estéril mantém o panorama delineado pelos levantamentos de opinião pública.

FILA DO EMPREGO – Cristiane Gercina, Folha de S. Paulo de terça-feira, escreve uma reportagem muito importante que destaca com nitidez o problema social, principalmente do emprego, que está marcando a vida nacional. A matéria é acompanhada de uma fotografia mostrando uma fila imensa de pessoas na capital paulista, no Vale do Anhangabaú, em face do anúncio publicado por um conjunto de empresas  convocando pessoas de diversas profissões e ocupações para o preenchimento de vagas.

As filas se estenderam das 8h às 17h de segunda-feira, mas para garantir que seriam recebidas pessoas dormiram à noite ao relento enfrentando o frio na capital do estado que as envolviam junto com a ansiedade e o desespero. O Globo também publicou matéria sobre o fato na edição de ontem.

PETROBRAS –  José Mauro Ferreira Coelho, novo presidente da Petrobras, está correndo o risco concreto de ser substituído no cargo juntamente com três dos novos seis integrantes do Conselho da Administração. Bolsonaro permanece insatisfeito com a política de preços, sobretudo com o último reajuste do diesel ocorrido na semana passada.

A reportagem de página inteira de O Globo de ontem foi de Malu Gaspar e os três diretores que poderão ser substituídos junto com o presidente são o do Departamento Financeiro, o de Tecnologia e o de Relações Institucionais da empresa. A questão do preço da gasolina e do diesel, com seu natural efeito na campanha política, permanece no alvo do presidente da República. Circula o nome de Caio Paes Andrade da equipe de Paulo Guedes para substituir José Mauro Ferreira Coelho.

Cláudio Castro apoia Bolsonaro, mas também busca votos de Lula e de Ciro Gomes

Alinhado com Bolsonaro, Castro diz que não vai criticar Lula

Pedro do Coutto

Numa entrevista articulada a Bernardo Mello, Gabriel Sabóia e Thiago Prado, edição de O Globo desta segunda-feira, o governador Cláudio Castro, que luta pela reeleição no Rio de Janeiro, afirmou que está com Bolsonaro, mas não vai criticar Lula e espera votos até de Ciro Gomes.

A entrevista é uma síntese inevitavelmente em grande número de estados nas urnas de 2 de outubro, quando candidatos aos governos vão tentar equilibrar as suas candidaturas às correntes que estão com Lula e as facções que estão com Bolsonaro.

“HARMONIA” – O fenômeno não é novo e decorre das posições que Lula e Bolsonaro mantiverem nas pesquisas eleitorais, especialmente as do Datafolha e do Ipec. Claudio Castro forma uma coligação que tem Bolsonaro como candidato, mas sentindo a forte presença de Lula da Silva na campanha, decidiu harmonizar o seu nome com os eleitores tanto do primeiro colocado nas pesquisas quanto do segundo.

Castro, entretanto, estendeu seu posicionamento e afirmou que “meu papel é pelo Rio de Janeiro, não quero nacionalizar a eleição estadual. Os bolsonaristas, os lulistas e os ciristas  podem esperar alguém que governe com enorme disposição”.

Cláudio Castro, assim, mandou um recado importante sobre a campanha eleitoral no Rio de Janeiro. Ele basicamente está com Bolsonaro, mas os eleitores não devem esperar dele uma oposição hostil a Lula da Silva. Ciro Gomes é menos importante como elo de voto, uma vez que se encontra na terceira colocação nas pesquisas, mas a sua influência não é igual a zero e muitas vezes as eleições são determinadas por pequenas porcentagens.

FHC EXPLODIU TERCEIRA VIA  – O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, reportagem de Bruno Soraggi e José Marques, Folha de S. Paulo, pronunciou-se no final da tarde de domingo a favor da candidatura de João Doria à Presidência da República pelo PSDB.

FHC elogiou o comportamento de Doria  e afirmou que os tucanos, entre os quais se inclui, devem respeito às prévias realizadas há dois meses que apontaram Doria bem à frente de Eduardo Leite no PSDB. A crise no partido foi agravada por declarações feitas no final de semana pelo deputado Aécio Neves, que focalizou a crise na legenda, mas foi criticado pelo atual governador Rodrigo Garcia

Com sua declaração de apoio a João Doria, Fernando Henrique explodiu de forma definitiva a terceira via que estava sendo tentada, tanto por Doria quanto por Simone Tebet; esta defendendo uma aliança entre PSDB e MDB a ser referendada pelas duas convenções partidárias.

REFLEXO – Mas o reflexo da declaração de FHC é maior ainda do que anular qualquer  esforço em busca de uma terceira via, que aliás não existe. Fernando Henrique, com isso, contribuiu para a polarização ainda maior entre Lula e Bolsonaro.

Reparem que FHC não se referiu a Ciro Gomes. Portanto, indiretamente, centralizou o seu foco eleitoral nos dois candidatos com mais intenções de votos, de acordo com o Datafolha e o Ipec.

AMEAÇA  –  O presidente Jair Bolsonaro – matéria de Alice Cravo e Dimitrius Dantas, O Globo – afirmou não descartar uma nova troca na Presidência da Petrobras com a saída de José Mauro Ferreira, nomeado há cerca de 30 dias.

Diante da pergunta sobre a situação do presidente da Petrobras, Bolsonaro disse aos jornalistas que dirigissem a pergunta ao ministro Adolfo Sachsida, demonstrando desinteresse quanto à permanência de José Mauro à frente da estatal.

Caso estivesse disposto a mantê-lo no posto, não teria respondido de forma tão efusiva, revelando distanciamento em relação ao problema. Bolsonaro voltou a criticar o valor da gasolina e do diesel, admitindo mudar o Conselho de Administração da Petrobras, embora ele próprio detenha a maioria absoluta do conselho.

CALAMIDADE SOCIAL  –  No plano social, o país efetivamente passa de uma calamidade para outra, não só pelo fato de 50% das cidades não terem sistema de tratamento de esgotos e de 25% da população não receber água potável.

De acordo com o levantamento realizado pelo governo federal, 26% das casas existentes nas favelas brasileiras, não possuem sequer banheiro. Um desastre.

FGTS – Saques atingem 20% do total do FGTS. Geralda Doca, O Globo de ontem, publica reportagem destacando o fato de saques extraordinários liberados pelo governo Bolsonaro terem atingido R$ 123 bilhões, correspondendo a 20% do saldo total.

A medida parece favorável aos trabalhadores e aos servidores das estatais regidos pela CLT. Mas, no fundo, significa uma descapitalização do próprio FGTS e o enfraquecimento do Programa Nacional de Habitação. O FGTS foi instituído em 1965, projeto do ministro Roberto Campos, com a finalidade, conforme escrevi neste site, de assegurar a estabilidade no emprego.

Hoje, porém, o FGTS caminha para uma posição difícil, pensando que significa algo positivo, os trabalhadores recorrem a saques extraordinários. Diminuindo o saldo, diminui também o resultado da incidência dos juros sobre ele.

SALDOS MENORES – No momento das aposentadorias ou dos desligamentos através de demissões incentivadas dos empregos, os trabalhadores vão se deparar com saldos muito menores do que os que seriam atingidos caso não fizessem saques nas suas contas.

Além do mais, o objetivo dos saques, visão do governo, projeto Paulo Guedes, é aquecer a economia, incrementar o comércio e, portanto, a movimentação financeira. Mas a essência do projeto Roberto Campos era outro de muito mais longo alcance.

Nem com a lei de Roberto Campos, a reforma agrária conseguiu avançar no país

Charge do Floreal (Arquivo do Google)

Pedro do Coutto

Um dos temas principais da sucessão presidencial de 1960, ao lado da remessa de lucros, a reforma agrária não conseguiu avançar no Brasil e também foi um dos motivos que levaram à queda do presidente João Goulart em março de 1964, quando a ditadura militar se instalou no país.

O tema tinha e tem uma profundidade social e econômica enorme, pois existem os latifúndios improdutivos, os minifúndios também improdutivos e a lei Roberto Campos de 1965, implantando o Estatuto da Terra, e que voltou-se para uma solução racional e também capitalista para o problema agrário brasileiro.

PREVISÕES – O Estatuto da Terra previa financiamentos, distribuição de insumos, treinamento visando a produtividade e redistribuição de áreas agrícolas. Não atingia os grandes proprietários de terras da maneira com que o decreto de João Goulart focalizou. Era uma solução de equilíbrio como foi também de autoria do avô do atual presidente do Banco Central a criação do FGTS.

O FGTS recriou a figura da estabilidade do emprego, uma vez que era alcançada com 10 anos de vínculo entre os trabalhadores e as empresas comerciais e industriais, e não se estendia ao meio agrário. Quando o empregado completava nove anos, ou nove anos e alguns meses no mesmo emprego, era demitido para que não obtivesse a estabilidade.

Com o FGTS, o fantasma da instabilidade e do passivo trabalhista desapareceu. Roberto Campos era um símbolo do conservadorismo, mas observando-se hoje a sua atuação, é possível ver que é possível articular interesses simultâneos de forma harmônica.

FALTA DE RECURSO – Escrevo este artigo com base na reportagem de Ranier Bragon, Folha de S. Paulo de domingo, revelando que a falta de recurso atingiu vários segmentos de tal forma, de tal forma que o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária suspendeu até atividades administrativas. Suspendeu também, por exemplo, eventos comuns na administração e, mais importante, as inspeções técnicas na fiscalização de projetos voltados para o meio rural e para a produtividade agrícola.

O problema é dramático, mas o governo Bolsonaro, de acordo com o projeto do ministro Paulo Guedes, não está interessado na redistribuição de renda e sim em sua concentração como os fatos concretamente demonstram.

INFLAÇÃO – Eduardo Cucolo e Douglas Gavras, Folha de S. Paulo de ontem, publicam reportagem sobre as reações sobre a alta inflação que domina o país. Embora 63% da população considere que o presidente da República é responsável, a política do ministro Paulo Guedes permanece voltada para a espiral de preços e o congelamento de salários.

Há pouco mesmo, houve uma redução do imposto sobre produtos industriais e a redução de tributos relativos à importação de etanol e até de alimentos.

IMPACTO – André Braz, coordenador do índice de preços da FGV, afirma que a primeira redução do IPI não resultou na desaceleração do processo inflacionário e que a questão continua. Subsídios para conter os preços não funcionam, causam um impacto inicial que dura pouco e o ritmo do custo de vida continua veloz.

Mas o governo continua na mesma posição e o presidente Bolsonaro até hoje parece que não compreendeu quem é o ministro Paulo Guedes e o que ele representa no quadro econômico e administrativo do país. Guedes é um adepto entusiasmado do capitalismo e não leva em consideração aspectos sociais decorrentes do confronto entre capital e trabalho.

EDUCAÇÃO DOMICILAR – Na semana que se inicia, encontra-se na pauta da Câmara Federal para votação, projeto que institui a educação domiciliar e, portanto, à distância, substituindo a presencial. A grande maioria da população, segundo o Datafolha, na escala de 63% manifesta-se contrariamente de forma total, e 19%, de forma parcial.

Como era de se esperar, a medida é maior nas classes de renda menor porque sem o ensino presencial no primeiro grau, os alunos deixam de receber a merenda escolar que é importante para a economia doméstica dos que necessitam de apoio. É um fato que pode ter reflexo na corrida eleitoral deste ano.

AUDIÊNCIA – Reportagem de Luciano Trindade, Folha de S. Paulo de sábado, anuncia que a TV Globo voltará a transmitir a Taça Libertadores porque a audiência que ela atingia antes de ter rompido o contrato em 2019, era muito maior do que a atingida agora pelo SBT.

O contrato, portanto, será renovado com o compromisso de a Globo transmitir a final mesmo que não tenha equipe brasileira envolvida. A Globo, no início de 2020, pouco antes da rescisão do contrato, apresentava uma audiência de 26% na média. Já o SBT apresentou uma audiência média de 12 pontos.

GRANDE DIFERENÇA – Só em São Paulo cada ponto vale 76 mil domicílios, correspondendo a 305 mil espectadores. A diferença é muito grande. Os patrocinadores chegaram a essa conclusão, como é o caso da Ford, Amstel, Credicard, Gatorade, Santander, Rexona, entre outros.

A Conmebol exigia o pagamento de multa por parte da Globo de R$ 600 milhões pela ruptura do contrato de 2019 para 2020. Chegou a ser ajuizada a cobrança, mas agora a Conmebol retirou a ação e anunciou que chegará a um acordo com a Globo.

ELEIÇÕES DE OUTUBRO –  No O Globo de sábado, Flávio Tabak e Sérgio Roxo publicam uma excelente reportagem sobre os índices de rejeição que os candidatos de 1989 para cá apresentaram na reta final das campanhas. No momento, a rejeição de Bolsonaro e também de Lula são mais altas do que apresentavam os principais candidatos nas sucessões presidenciais dos últimos 33 anos.

Lula pelo último Datafolha liderava por 42% a 21%. Sua rejeição, entretanto, é muito alta, 37%. A rejeição de Bolsonaro é ainda mais alta, de 55%. A rejeição apontada para Lula talvez seja um fator importante para que a eleição de outubro em vez de ser decidida no dia 2, seja decidida no dia 30, ou seja, segundo turno.
 

Se o diesel depende do preço internacional, por que o governo quer reduzir o ICMS dos estados?

Charge do Iotti (Arquivo do Google)

Pedro do Coutto

O presidente Jair Bolsonaro recorreu ao Supremo Tribunal Federal e obteve liminar do ministro André Mendonça reduzindo aparentemente a incidência do ICMS sobre o preço do óleo diesel. No O Globo, a reportagem é de Mariana Muniz, Fernanda Trisotto, Bianca Gomes e Bruno Rosa, na Folha de S. Paulo é de José Marques e Nicola Pamplona, edições de ontem, sábado.

Na realidade, a liminar do ministro André Mendonça não me parece que produzirá o efeito esperado por Bolsonaro sobre os preços do óleo diesel. A liminar não se estende à gasolina, mas na verdade tem como objetivo fazer com que os estados definam uma alíquota única do ICMS sobre os preços da Agência Nacional do Petróleo.

ESCALA SUPERIOR –  A incidência seria sobre o preço médio e unificado do país, o que não significa coisa alguma porque o Conselho formado pelos secretários de Fazenda das unidades da Federação, a quem inclusive o relator deseja que sejam ouvidos, podem fixar a alíquota única até numa escala superior à medida cobrada no momento.

O fato essencial é que o governo, através do Ministério da Economia e da Petrobras, vem sempre acentuando que o preço da gasolina, do diesel e do gás, subprodutos do petróleo importado pelo Brasil, decorre das oscilações do mercado internacional e do movimento do dólar.

Portanto, a incidência do ICMS é sobre o preço final e influi minimamente – se influir – no preço de consumo dos derivados. Não adianta tentar fazer milagres em matéria econômica e financeira. Verifica-se que a jogada do governo em recorrer ao STF foi um lance para a arquibancada.

REDUÇÃO DO FGTS –  O ministro Paulo Guedes – sempre ele – tem nas mãos um estudo para reduzir a contribuição das empresas para o FGTS dos trabalhadores regidos pela CLT, entre os quais os das empresas estatais.

“A proposta de redução de 8% (oito por cento) para 2% (dois por cento) da alíquota mensal relativa à contribuição devida para o FGTS poderá contribuir, não apenas para a redução no custo da contratação de trabalhadores, como também para a melhoria do cenário econômico, o que possibilitará o aumento de novos empregos e novas contratações”, diz trecho da exposição de motivos de uma das medidas. Além disso, propõe diminuir de 40% para 20% a multa sobre o total do FGTS no caso de demissões sem justa causa. 

O anteprojeto criado pela Subsecretaria de Política Fiscal da SPE (Secretaria de Política Econômica), vinculada ao Ministério da Economia, extrapola o campo de atuação da pasta. Essa iniciativa prejudica eleitoralmente Bolsonaro, na medida que choca milhões de empregados. Trata-se de uma iniciativa super conservadora que objetiva a concentração de renda e não a sua distribuição, pois reduz a transferência do capital para o trabalho. Quando essa lógica não funciona, o governo assume e estatiza os custos, reduzindo os tributos das empresas.

POLARIZAÇÃO  – Artigo de Demétrio Magnoli, Folha de S.Paulo, um excelente observador político, focaliza o tema da polarização nas eleições partindo de um artigo escrito pelo jornalista Marcus Melo que considera a disputa nos Estados Unidos e a do Brasil como exemplos de conflitos políticos restritos a uma opção.

Acredito que Marcus Melo seja um homem jovem, pois caso contrário não destacaria polarização na disputa pela Casa Branca. Essa disputa existe desde a primeira eleição no país após a sua independência, quando George Washington elegeu-se e reelegeu-se pelo Partido Republicano Democrata. Antes, portanto, de sua divisão em duas legendas e que atravessou o tempo.

CONFRONTOS – Os confrontos americanos no passar dos séculos foi sempre entre democratas e republicanos. Em nenhum caso até hoje houve necessidade de segundo turno. Este caso somente poderá ocorrer caso um terceiro candidato tenha somado votos colegiais capazes de impedir que no colégio eleitoral um democrata ou um republicano obtenha  a maioria absoluta.

No caso disso ocorrer, pela Constituição dos EUA, a decisão teria que ser tomada pelo Congresso entre os dois mais votados nas urnas. No Brasil, a exemplo de tantas outras disputas, uma polarização se repete na disputa presidencial, já que nenhum candidato surgiu para evitar esse quadro atual que permanecerá assim até as eleições, provavelmente.

Bolsonaro inova como governante e ameaça ir à justiça para reduzir preços da gasolina e do diesel

Charge do Cacinho

Pedro do Coutto

Numa reportagem excepcional, Alice Cravo, Gabriel Shinohara, Geralda Doca, Eliane Oliveira e Bruno Rosa, O Globo desta sexta-feira, com base em vídeo que o próprio Jair Bolsonaro colocou nas redes sociais, revela que o presidente da República afirmou que pode recorrer à justiça para reduzir os preços do óleo diesel e da gasolina.

A declaração é desconcertante, uma vez que Bolsonaro é simplesmente o presidente do país a quem cabe nomear os ministros e à Presidência das estatais, como é o caso da Petrobras. Na minha impressão, Jair Bolsonaro bateu o recorde mundial de atitude política mal adotada pelo chefe do Executivo.

DERROTA PRÉVIA – A matéria assinala que Bolsonaro afirmou: “esperamos redução de preço. Vamos ter que recorrer à justiça. Sabemos que quando eu recorro é quase impossível ganhar quando as matérias são colocadas em votação”. Portanto, Bolsonaro referia-se ao Supremo Tribunal Federal. Citou, inclusive, a decisão recente do ministro Alexandre de Moraes a respeito da redução de impostos sobre os produtos industrializados.

O vídeo gravado e divulgado pelo Planalto revela duas coisas, a meu ver. Primeiro, que a questão do preço do petróleo não acabou. Sobretudo porque na edição da Folha de S. Paulo de quinta-feira, Julio Wiziack, Idiana Tomazelli, e Matheus Teixeira publicaram que pesquisa do Datafolha mostrou que 68% da opinião pública consideram Bolsonaro responsável pela alta da inflação que vem sendo impulsionada basicamente pelo aumento dos combustíveis e pela energia elétrica.

O Datafolha também revelou, desta vez com base em pesquisa encomendada pela XP, que 83% dos eleitores e eleitoras querem votar em um candidato mais intervencionista na Petrobras. Para mim, inclusive com base no recurso de Bolsonaro na Justiça, os fatos comprovam que Adolfo Sachsida durará muito poucos dias à frente do Ministério de Minas e Energia.

POLÍTICA DE PREÇOS – Além disso, Bolsonaro, certamente contrariando Paulo Guedes, pretende acionar o Conselho Administrativo de Defesa Econômica no sentido de mudar a política de preços da Petrobras. O Brasil é autossuficiente em petróleo, inclusive exportador de óleo bruto e importador de gasolina, diesel e gás encanado.

As oscilações do dólar e do mercado internacional do petróleo tanto podem aumentar as despesas com as importações, quanto aumentar as receitas com as exportações. Assim, o câmbio do mercado internacional pesaria nos dois sentidos e não apenas em um, que é o da importação da gasolina e do diesel.

LICENÇA-MATERNIDADE – Acentuei que o ministro Adolfo Sachsida vai durar pouco no cargo. Ele provocou uma tempestade em seu discurso recente e também já se manifestou contrariamente à licença-maternidade de seis meses. Gravou vídeo, está na internet.

Além disso, defendeu salários menores para as mulheres do que os pagos aos homens, porque as mulheres “faltam mais ao trabalho para irem ao médico”. E que, com a licença-maternidade de seis meses, os empresários não promovem as mulheres no trabalho. Um absurdo total que pode se transformar em um problema eleitoral para Bolsonaro quando a posição for mais intensamente veiculada nas mídias.

REAJUSTE –  O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, propôs ao governo um reajuste de 22% aos servidores da instituição, conforme revela a reportagem de Gabriel Shinohara e Geralda Doca.

Mas, diante da relação, sobretudo do mercado financeiro, que passou a temer igual reposição a seus empregados, Campos Neto recuou aparentemente em meio à greve parcial da equipe do Bacen. O governo, entretanto, frisou que está estudando o reajuste de 5%, mas que pode se tornar um pouco maior.

CRIPTOMOEDAS  –  Letícia Cardoso, O Globo de ontem, com base em informações do site Bloomberg, de Nova York, em reportagem de grande destaque, assinala que o mercado de criptomoedas entrou em crise, sobretudo em função da elevação dos juros nos Estados Unidos. Nos últimos dois dias, investidores desse sistema perderam US$ 260 bilhões.

É o tal negócio, digo, em matéria de dinheiro e economia ninguém cria uma onda de vento. É preciso ter base concreta e não se estruturar em especulações.

NOVAS MUDANÇAS – Na live semanal de quinta-feira, Bolsonaro afirmou que pode fazer novas mudanças de pessoas na Petrobras. Não citou expressamente o nome da estatal, mas assinalou : “a empresa precisa entender o seu papel”, e a forma disso ocorrer seria por meio de trocas como as feitas por ele no comando do Ministério de Energia.

As afirmações devem ser adicionadas à matéria de abertura da minha coluna de hoje. Os dois blocos têm em comum singularidades inéditas na administração política brasileira e creio também que na política mundial.

HADDAD NA FRENTE – O Instituto Quest divulgou no final da tarde de quinta-feira, e a Folha de S. Paulo publicou ontem, resultado de pesquisa realizada para o governo de São Paulo também sobre a eleição de 2 de outubro. Fernando Haddad lidera com 30% das intenções de voto , seguido por Márcio França com 17%, Tarcisio de Freitas com 10%, e o atual governador Rodrigo Garcia com 5 pontos.

Haddad também lidera na hipótese de um segundo turno. Ele alcança 38% contra 32% de Márcio França. Contra Tarcisio de Freitas, ele teria 45% contra 23% do candidato de Bolsonaro. O Tribunal Superior Eleitoral está realizando uma consulta sobre a hipótese de uma coligação que apoia um candidato à Presidência poder ter ou não dois candidatos ao Senado Federal. É importante a consulta.

Os integrantes de coligações são uma espécie de sublegendas de antigamente. Não creio que haja nada na legislação que impeça a duplicidade de candidatura ao Senado.

Discurso de Sachsida foi um desastre político e eleitoral para Jair Bolsonaro

Sachsida não falou sobre o reajuste dos preços dos combustíveis 

Pedro do Coutto

Foi um verdadeiro desastre político o discurso do novo ministro de Minas e Energia, Adolfo Sachsida; sem pé nem cabeça, falando muito mais de investimentos no Brasil do que de petróleo e combustíveis. No final do pronunciamento, defendeu a privatização da Petrobras e pediu ao ministro Paulo Guedes que incluísse a estatal no levantamento para desestatização de empresas no país.

No O Globo, Fernanda Trisotto, na Folha de S. Paulo, Idiana Tomazelli, destacam de forma excelente o que representou no plano político e econômico o pronunciamento do sucessor do almirante Bento Albuquerque.

APOIO E BOLSONARO – Relativamente à privatização da Petrobras, cujos estudos ele solicitou publicamente ao ministro Paulo Guedes, a quem também agradeceu por sua indicação, Adolfo Sachsida disse ter o apoio total do presidente Jair Bolsonaro.

Se não tivesse o apoio do presidente da República, claro, não seria nomeado ministro de Minas e Energia. Mas, em parte até se entende, pois o ministro Bento Albuquerque saiu da pasta por não ter contado com o apoio de Bolsonaro na questão do reajuste de preços da gasolina, do diesel e do gás encanado.

ENTUSIASTA – Além disso, o ministro é um adepto entusiasmado do presidente da República. Inclusive, como diz Fernanda Trisotto, participou de manifestação pública, incluindo ataques ao Supremo Tribunal Federal. Esse conjunto de fatos constituiu um desastre  para Bolsonaro, para o governo e para o país.  

No caso da Petrobras, acarretou perda considerável de votos para a reeleição do chefe do Executivo. É bom lembrar que a Petrobras possui cerca de 45 mil servidores regidos pela CLT.

REPERCUSSÃO –  A GloboNews transmitiu na íntegra o discurso de posse de Adolfo Sachsida, que era  integrante da equipe econômica de Paulo Guedes. Terminado o discurso, os comentários de Gerson Camarotti, Natuza Nery e César Tralli foram arrasadores, condenando o seu pronunciamento, o anúncio da intenção de privatizar a Petrobras faltando cinco meses para as eleições, e pelo fato de terminado o evento não tendo aceito responder a perguntas dos repórteres.

Na mesma GloboNews, pouco tempo depois, no programa Em Pauta, a jornalista Eliane Cantanhêde analisou o pronunciamento, destacando  que se concentrou no tema da importância de investimentos estrangeiros do país, dizendo que o Brasil era um porto seguro para absorver as aplicações internacionais de capital. Falou dez vezes em “porto seguro para os investidores e para os investimentos”.

Mas a sensação de insegurança é fornecida pelo próprio governo Bolsonaro. A repercussão negativa do quadro ameaçador à democracia está na matéria de Lucas Mathias, edição de terça-feira de O Globo, quando destacou declarações feitas à BBC pela subsecretária de Estado americano, Victoria Nuland, que criticou os ataques de Bolsonaro às urnas eletrônicas e a sua intenção de contratar uma empresa para fazer auditoria nas eleições.

AUDITORIA – De fato, contratar uma auditoria para conferir a computação dos votos significaria, penso, atribuir à uma auditoria particular o poder de contestar os trabalhos do Tribunal Superior Eleitoral. Inclusive, é importante acrescentar que o exercício do voto em 2 de outubro não se refere somente à sucessão presidencial.

Refere-se às sucessões em 27 unidades federativas e também à escolha de senadores, deputados federais e estaduais ao mesmo tempo. Afinal de contas, por que a auditoria se concentra apenas no pleito federal? Se é uma questão de princípio e desconfiança, deveria ser pela lógica de Bolsonaro estendida a todo o pleito.

PREÇOS – Relativamente aos preços da gasolina, do diesel e do gás, que foi o verdadeiro motivo da demissão do ministro Bento Albuquerque, o ministro que o sucedeu não se referiu a qualquer momento a tal questão. Afinal de contas, o preço dos derivados foi o verdadeiro motivo tanto da demissão do general Silva e Luna da Petrobras, quanto de Bento Albuquerque do MME.

O ainda presidente da Petrobras, José Mauro Ferreira Coelho, era um homem de confiança de Bento Albuquerque e sua permanência no cargo transformou-se num enigma político. Como ela era de absoluta confiança de Albuquerque e por esse motivo foi nomeado presidente da estatal, eticamente, penso, deve entregar o cargo.

FUGA DO TEMA  – No O Globo desta quinta-feira, reportagem de Fernanda Trisotto, Eliane Oliveira, Geralda Doca, Jussara Soares e Gabriel Shinohara, analisa em detalhes o posicionamento inseguro de Adolfo Sachsida ao escapar do tema central em seu discurso, que motivou a demissão de Bento Albuquerque, e que se refere aos preços dos derivados do petróleo.

Um dos ângulos da análise feita por especialistas políticos e econômicos é o de que ao levantar a questão da privatização da Petrobras, que inclusive dependeria da aprovação pelo Congresso, como lembrou o senador Rodrigo Pacheco, tal fato seria uma cortina de fumaça para deslocar a atenção do eleitorado brasileiro sobre o preço dos alimentos, a inflação de 12,2% de abril de 2020 a abril de 2021, entre outros.

TERCEIRA VIAJussara Soares e Julia Lindner, O Globo de ontem, revelam que a terceira via por proposta pela senadora Simone Tebet que define um candidato único do grupo para se tornar uma opção contra Lula da Silva e Jair Bolsonaro nas urnas de outubro.

João Doria apoia a iniciativa. Mas, digo, se depender de pesquisa com base na mais recente do Datafolha, o candidato da terceira via só pode ser Ciro Gomes.

Agronegócio e exportadores de carne pedem apoio de Joe Biden contra desmatamento

Empresas pedem a Biden apoio para aprovar fundo para florestas

Pedro do Coutto

Reportagem de João Sorima Neto e Marcelo Motta, O Globo, revela que empresários e entidades brasileiras enviaram carta ao presidente americano, Joe Biden, pedindo apoio às iniciativas de combate ao desmatamento na Amazônia e também pela preservação das florestas brasileiras.

O documento que politicamente ultrapassa o governo Bolsonaro está assinado por vinte e três empresas e trezentas entidades ligadas ao agronegócio, à exportação de carnes e à preservação do meio ambiente.

OBJETO DE DEBATE – O projeto será objeto de debate hoje na Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados. Além disso, o documento dos empresários e dirigentes de entidades brasileiras foi destinado também à deputada Nancy Pelosi, presidente da Câmara de Deputados dos Estados Unidos, e ao líder da maioria democrática do Senado, Steny Hoyer.

Um dos apelos é que seja destinada ao Brasil uma parte do crédito de US$ 9 bilhões anunciado pela Casa Branca para financiar a preservação de florestas tropicais, sendo  a principal a da Amazônia. A proposta inclui um tópico indireto ao processo político. Para garantir a participação nos recursos, cada país (inclusive o Brasil) precisa garantir transparência do uso dos recursos recebidos e também garantir a participação de comunidades indígenas e de mulheres no processo.

Entre os signatários dos documentos encontra-se a Associação Brasileira do Agronegócio, Associação Brasileira de Óleos Vegetais., Associação das Exportadoras de Carnes, como é o caso da JBS,  de Wesley Baptista, a PRF, a Mafrick, a Nestlé, a Danone e a Suzano Papel.  As empresas e entidades adotaram o nome de “Coalizão Brasil”, conforme informou Rodrigo Castro, Fundação Solidaridad, que integra o grupo estratégico.

REAJUSTE – Lorena Rodrigues, edição de ontem de O Estado de S. Paulo, revela que o presidente Jair Bolsonaro pela legislação terá que decidir o reajuste dos servidores federais, civis e militares, até o próximo dia 22, pois a legislação eleitoral somente permite aumento nominal de salários e também aumentos reais, o que não é o caso, até 180 dias antes  do término do mandato presidencial.

O governo Bolsonaro estava disposto a fixar o reajuste em 5%, incluindo os Poderes Legislativo, Judiciário e o Ministério Público. Mas as reposições inflacionárias do Legislativo e do Judiciário têm que ser fixadas pelos presidentes dos Poderes. Eu disse aumento real, pois o aumento de 5% é apenas nominal, já que a inflação como o IBGE informou ontem, é de 12,2 % de abril de 2021 a abril de 2022.

O GENERAL E FACHIN – Anteontem, o ministro da Defesa, general Paulo Sérgio Nogueira, em ofício enviado ao ministro Edson Fachin, presidente do TSE, Edson Fachin, solicitou que as respostas às eventuais perguntas das Forças Armadas sobre o sistema eleitoral devam ser encaminhadas diretamente a ele.

Na minha opinião, o presidente do TSE deve aceitar, é claro, a solicitação, mas acrescentar que as respostas devem ser através de um encontro público entre ele e o general, com a participação dos presidentes do Senado e da Câmara Federal e também da imprensa para que as questões indagadas e esclarecidas sejam do conhecimento geral da opinião pública do país.

CARTÕES DO AUXÍLO BRASIL –  Idiana Tomazelli, Marianna Holanda e Julia Chaib, Folha de S. Paulo de quarta-feira, assinalam em reportagem que o governo está empenhado em remanejar R$ 130 milhões do Orçamento para emitir novos cartões do Auxilio Brasil. Isso porque os cartões ainda em uso têm a marca do Bolsa Família, programa instituído pelo ex-presidente Lula da Silva.

De outro lado, o preço parece excessivo porque são 18 milhões de famílias cadastradas e dividir R$ 130 milhões por 18 milhões revela um custo muito alto por unidade a ser distribuída. O benefício médio é de R$ 409 e o total é de R$ 7,4 bilhões por mês.

O BC E O PIX –  Natália Garcia, também da FSP de ontem, revela que os servidores do Banco Central, através de seu sindicato, estão protestando contra o uso político do Pix como um projeto de Bolsonaro e de candidatos a deputado do PP.

Acentuam que o Pix é um programa de Estado e não de governo. Ele surgiu no próprio BC e, por isso, não pode se transformar em matéria político-eleitoral.

Fachin rebate Bolsonaro, que assume ser candidato de um inexistente “partido militar”

Bolsonaro fez colocações absurdas para o TSE através de Nogueira

Pedro do Coutto

Uma excelente reportagem de Mateus Vargas e Matheus Teixeira, Folha de S. Paulo de terça-feira destaca os pontos principais e sensíveis da resposta do presidente do Tribunal Superior Eleitoral, ministro Edson Fachin, abrindo à opinião pública perguntas e respostas sobre o sistema eleitoral de outubro, inclusive destacando erros contidos em questões apresentadas ao Tribunal, rejeitando propostas inviáveis para as eleições presidenciais. Em O Globo, a reportagem sobre o assunto é de André de Souza e Jussara Soares.

Analisando-se o conteúdo das perguntas, verifica-se nitidamente que mais do que indagações enviadas pelas Forças Armadas, elas são de fato tópicos de desconfiança sobre um resultado eleitoral que ainda não ocorreu, dando a impressão de que o governo desconfia de uma trama arquitetada na Justiça Eleitoral para prejudicá-lo da computação dos votos dos eleitores e eleitoras do país.

EQUÍVOCOS – Fachin enumera os equívocos e eles flutuam junto à opinião pública como uma acusação destinada a prejudicar a reeleição do próprio Bolsonaro.  A investida do que podemos chamar de partido militar inclui também um comunicado do general Paulo Sérgio Nogueira a Edson Fachin solicitando que o diálogo e, portanto, quaisquer respostas do TSE que possam se tornar um diálogo com as Forças Armadas sejam enviadas diretamente a ele próprio, general Paulo Sérgio Nogueira.

Como se constata, a atmosfera se tornou densa e as prerrogativas levantadas pelo ministro da Defesa pertencem aos partidos políticos, conforme a legislação brasileira. Paulo Sérgio Nogueira admite inclusive, certamente representando o pensamento de Bolsonaro, a contratação de uma auditoria para certificar ou contestar os trabalhos e as computações do TSE. Um absurdo.

Aliás, como observou Demétrio Magnoli, sexta-feira, no programa Em Pauta da GloboNews, participar do processo eleitoral não é tarefa que cabe às Forças Armadas. Na minha opinião, entretanto, está no ar um projeto de intimidação e, pior do que isso ainda, de subversão na medida em que fica claro que o governo Bolsonaro se dispõe a não respeitar o resultado das urnas se ele lhe for desfavorável. Para isso, conta com o partido militar, o que além de ilegal é inconstitucional.

COLOCAÇÕES ABSURDAS – Bolsonaro, através do general Paulo Sérgio Nogueira, faz colocações absurdas para a Presidência do TSE. Uma delas seria o fornecimento dos índices de abstenção e de óbitos ocorridos entre as eleições de 2018 e as que serão realizadas agora em 2022.

A abstenção, na realidade, no Brasil não existe, já que o voto é obrigatório a partir dos 18 anos de idade. A abstenção decorre em parte dos óbitos ocorridos nos últimos quatro anos que não são, na maioria dos casos, informados à Justiça Eleitoral pelos parentes. Como o índice de mortalidade anual no país é de 0.7%, em quatro anos os falecimentos atingem 2,8%. Mas os casos de doenças graves impossibilitam o eleitor de comparecer às urnas para votar. Não se trata de uma abstenção intencional ou de ilegalidade.

TESTES DE AMOSTRAGEM – Há também outro fato rebatido por Fachin, que é sobre os testes de amostragem das urnas. O documento dos militares pede uma amostragem mais ampla porque acha que os índices de 5% são muito pequenos. Fachin contesta esse aspecto, e lembro que com um índice infinitamente menor de entrevistados, o Datafolha acerta a colocação dos candidatos. Cinco por cento, logo, representa uma amostragem gigantesca.

O problema final disso tudo é apenas a sombra de uma ofensiva que vai ganhando corpo e objetivo a cada dia que passa. O objetivo claro do governo Bolsonaro é não respeitar o resultado das urnas se eles colocarem à sua frente Lula da Silva. Esse é o enigma, é o desafio e o lance decisivo para a democracia brasileira.

PETROBRAS –  Na noite de domingo, a Petrobras anunciou mais um reajuste, desta vez no óleo diesel, de 8,8%, apesar de o presidente Bolsonaro ter reagido fortemente contra o aumento da gasolina e do mesmo diesel, além do gás encanado apenas uma semana atrás, no momento em que o presidente da estatal, José Mauro Ferreira Coelho, iniciava a sua administração.

Ferreira Coelho rebateu Bolsonaro no dia seguinte, afirmando que a política de preços iria permanecer. E permaneceu mesmo, com base em mais um aumento seguido do óleo diesel que representa 50% do consumo brasileiro de petróleo. O transporte de cargas é feito em caminhão a diesel e também os ônibus urbanos e interestaduais que trafegam pelo país.

O presidente da República, portanto, não manda mais do que José Mauro Ferreira Coelho no comando da Petrobras. Tanto que ele diz uma coisa e a Petrobras pratica outra. Este é um exemplo concreto. E não para aí a contradição. A Petrobras anunciou que apesar do aumento do diesel, ainda existe uma defasagem de 11% a ser compensada.

VENDA DA ELETROBRAS –  O ministro Paulo Guedes – reportagem de Julio Wiziack e Fábio Pupo –  afirmou que a venda da Eletrobras, que ele pretende concretizar este ano, contribuirá para evitar o aumento nas tarifas de energia antes das eleições. O tema, entretanto, está sob exame no Tribunal de Contas da União e, como tenho observado, existe uma enorme confusão sobre preços e forma de pagamentos que conduzem a questão a um lance de dados  que ameaça ficar na história do Brasil.

Os que comprarem o controle majoritário das ações pagarão somente R$ 25 bilhões à vista. E, agora, mais R$ 32 bilhões num prazo de cinco anos.  Constata-se assim que o preço de R$ 67 bilhões já foi reduzido para R$ 57 bilhões. De qualquer forma, os R$ 67 bilhões seriam quase nada. Afinal de contas são 49 hidrelétricas, 40 eólicas, uma usina solar e o acervo de Furnas, da Chesf, da EletroSul e da EletroNorte. Isso de um lado.

De outro, as tarifas jamais seriam reduzidas ou congeladas. Pelo contrário. As empresas que assumissem o controle acionário não concordavam em não ser remuneradas pelo investimento feito. Paulo Guedes é um excêntrico e suas ações  desvairadas ocorrem uma atrás da outra.

DEMISSÃO DE ALBUQUERQUE – Na manhã de hoje, a GloboNews informou que o presidente Jair Bolsonaro demitiu o almirante Bento Albuquerque do Ministério de Minas e Energia. A demissão só pode ter sido em decorrência de mais um aumento do óleo diesel estabelecido ontem pela Petrobras.

Com a saída de Bento Albuquerque é provável que José Mauro Ferreira Coelho deixe a Presidência da Petrobras porque ele foi indicado para o cargo exatamente pelo almirante e cuja equipe ele integrou.

O mínimo e todos os demais salários estão diminuindo no país em ano eleitoral

Charge do Brum (twitter.com)

Pedro do Coutto

O salário mínimo, e na verdade todos os demais salários, estão sendo diminuídos no Brasil, consequência da perda dos reajustes  para a inflação do IBGE dentro da política traçada pelo ministro Paulo Guedes e colocada em prática pelo presidente Jair Bolsonaro.

Cássia Almeida e Thais Coneco, O Globo desta segunda-feira, focalizam as perdas do salário mínimo, do qual todos os demais salários são múltiplos na medida em que o reajuste estabelecido por Bolsonaro para janeiro de 2023 não leva em consideração o ritmo inflacionário dos últimos 12 meses.

PERDA SUBSTANCIAL – Um levantamento Tullett Prebon avalia que a perda será de 1,7%, caso a inflação não acelere ainda mais. A previsão da velocidade inflacionária consta de estudo do próprio Banco Central. O piso salarial que hoje é de R$ 1213, não compensada a inflação dos últimos 12 meses, cairá em números reais para R$ 1193. Uma perda substancial, sobretudo porque toda vez que o salário é reajustado, no dia seguinte ele volta a perder para o ritmo inflacionário.

Um estudo da Consultoria Tendências acentua o universo das perdas, revelando que 64% das aposentadorias e pensões do INSS são de apenas um salário mínimo. O problema dos aposentados é ainda pior do que os assalariados em geral, pois na maioria dos casos não conseguem outra ocupação nem mesmo no mercado informal.

Assim está o panorama social do país expresso nos dados das duas consultorias e sobretudo nos dados da realidade focalizada com firmeza na reportagem citada. O quadro social brasileiro é muito ruim.

REFORMA AGRÁRIA – Na edição de ontem da Folha de S. Paulo, Ranier Bragon e Marianna Holanda, após longa pesquisa, considerando apenas o período de Fernando Henrique Cardoso para cá, revelam que a reforma agrária praticamente não sai do papel, limitando-se, como está ocorrendo no governo Bolsonaro, à entrega isolada de títulos de propriedade que não abrange ou mesmo enfrentam o problema estrutural do campo brasileiro.

No período de Castello Branco até o governo Fernando Henrique Cardoso nada foi feito e o problema se agravou. Ao longo de seus dois mandatos na Presidência da República, Lula da Silva conduziu a reforma para 70 milhões de hectares, mas a iniciativa perdeu-se na névoa do tempo.

Movimentos rurais continuam e uma série de decisões estão na dependência de julgamento do Supremo Tribunal Federal.  O sistema reformador continua a ser um desafio para as próximas gerações e para o Brasil.

ARTICULAÇÕES – Bianca Gomes e Gustavo Schmitt, O Globo, focalizam o posicionamento de candidatos a governos estaduais, como é o caso de ACM Neto na Bahia e Romeu Zuma em Minas Gerais, de tentarem se manter isentos, não apoiando nem Lula e nem Bolsonaro nas urnas de outubro.

Há outros governadores tentando assumir essa posição. Acredito que não vão conseguir, pois na medida em que se aproximam as urnas, as posições serão exigidas pelo eleitorado na hora de votar.

Lula começa bem, ao propor união pela democracia, num apelo que exclui Bolsonaro

Lula pregou união de democratas e diz não ter desejo de vingança

Pedro do Coutto

Foi sem dúvida uma boa largada a do ex-presidente Lula da Silva no encontro do PT no sábado em São Paulo, quando deu início à caminhada pelas eleições de outubro. Lula propôs a união de todos pela democracia e destacou que não alimenta rancores e nem reações contrárias aos que são contra ele.

Foi um lance político importante na minha opinião. Sobretudo porque de todos os candidatos e pré-candidatos à Presidência da República nas urnas de outubro, deixou claro que dificilmente o presidente Jair Bolsonaro poderá participar  de uma frente democrática, pois vem assumindo uma posição contrária à manifestação de apoio à democracia brasileira.

CONCILIAÇÃO – Lula fez um bom discurso destacando a conciliação das forças políticas e uma convergência contra o totalitarismo. As manifestações até agora contrárias à essência da democracia partem do presidente Jair Bolsonaro e dos bolsonaristas de modo geral.

Um exemplo, o caso do deputado Daniel Silveira. Outro exemplo, os que se manifestaram no dia 1º de maio defendendo inclusive o fechamento do Supremo Tribunal Federal e a implantação de uma ditadura militar com Bolsonaro.

O presidente participou da manifestação e, portanto, concordou com ela. Pedir o fechamento da Corte Suprema é tudo menos exaltar a democracia brasileira. Sua mensagem simboliza também o esquecimento do passado e este fato baseia-se nas decisões do STF que anularam as condenações que sofreu e os processos da justiça que deram margem às mesmas. Lula tocou em pontos sensíveis da opinião pública.

PLENO EMPREGO – Focalizou essencialmente o congelamento de salários diante da disparada dos preços  que sobem todas as semanas, enquanto os salários permanecem estagnados. Defendeu a distribuição de renda, o que só poderá ser alcançado através do pleno emprego, na minha opinião.

Quaisquer ações assistenciais e não econômico-sociais são utópicas. O Auxilio Brasil, por exemplo, é um socorro importante para as famílias que têm fome, mas não geram fundo de FGTS e aposentadoria pelo INSS.

O panorama da campanha eleitoral foi descortinado no sábado em São Paulo. A polarização da campanha é um fato irreversível, na minha opinião. Cabe agora ao presidente Jair Bolsonaro responder a Lula. Em matéria de democracia, a limitação significa uma barreira, a começar por sua contestação repetida ao sistema eleitoral brasileiro com foco nas urnas eletrônicas, através das quais foi eleito por larga margem de votos em 2018.

CONTESTAÇÃO  – Reportagem de Patrícia Campos Mello, na Folha de S. Paulo deste domingo, focaliza o posicionamento de correntes bolsonaristas que passaram a atacar os institutos de pesquisa para desacreditar os levantamentos sobre as intenções de voto que elas apresentam. Essa atitude não é patrimônio do bolsonarismo; ela atravessa os tempos.

Vem desde as eleições de 1955, sempre tendo como ator principal o governador Carlos Lacerda, líder incontestável da direita no país. Quando derrotados seus candidatos, sempre se voltou contra a posse dos eleitos. Quando foi vitorioso, aí estava tudo perfeito.

Lacerda era um gênio e um político que buscava chegar à Presidência da República. Lembro que no dia 2 de abril de 1964, quando repórter do Correio da Manhã, houve uma reunião no Palácio da Guanabara convocada por ele com os governadores que apoiavam o movimento que derrubou o presidente João Goulart.

DISCURSO – Lá estavam além de Lacerda, Ademar de Barros, Magalhães Pinto, Petrônio Portela e, como convidado especial, na mesa, o jornalista Júlio Mesquita Filho, diretor do Estado de S. Paulo. Falaram todos e de repente Lacerda retoma o discurso, elogiando o general Castello Branco dizendo “Sou seu amigo, seu admirador e quero ser o seu sucessor na Presidência da República, as eleições de 1965”.

Lacerda não se continha, esse era o seu problema. Criou resistência e terminou rompendo com o bloco militar que o apoiava e que foi apoiado por ele nas articulações contra João Goulart. Isso pertence ao passado. Digo isso, pois quem está prestes a perder as eleições tenta desacreditar as pesquisas.