Inflação alta, medida por IBGE e FGV, sufoca os segmentos sociais de renda mais baixa

Acidente de Harrison Ford e inflação nas charges deste sábado - Região - Jornal VS

Charge do Tacho (Arquivo Google)

Pedro do Coutto

Num editorial da edição de sábado, a Folha de São Paulo focalizou muito bem o problema da inflação, tanto a calculada pelo IBGE quanto a medida pela Fundação Getúlio Vargas, destacando a diferença essencial entre a dança dos números para os grupos de menor e maior renda. Isso porque o item mais afetado pelo aumento de preços sem dúvida alguma foi a alimentação.

Ocorre que o grupo de menor renda está mais exposto ao aumento de custo de vida, porque a maior parte de suas despesas é com o consumo de alimentos. Para as classes de renda mais alta, o percentual com alimentação é menor.

MAIORIA DO POVO – Então, para mim, a disparada de produtos alimentícios sufoca a maior parte da população. A FGV e o IBGE entretanto, dizem que houve o inverso. Na minha opinião, os cálculos do IBGE e da FVG não refletem a realidade. Os preços subiram muito mais do que os índices apontados pelas duas instituições.

As pesquisas de preços se baseiam nos preços mínimos dos supermercados, mas isso não significa que a população possa praticá-los. Porque num supermercado o feijão está mais barato e o arroz mais caro. Em outro supermercado acontece exatamente o contrário. Os consumidores navegam nas ondas dos preços na estratégia utilizada largamente pelas vendas no varejo.

Mas o que dizer do preço dos remédios? Do reajuste dos alugueis, das tarifas de transporte coletivo? Não acredito que o real fator inflacionário tenha fechado 2020 na convergência entre o IBGE e a FGV.

CRÍTICAS À FOLHA – Em artigo também na Folha de S. Paulo, o ex-prefeito Fernando Haddad despediu-se da coluna semanal que escrevia e criticou duramente a linha editorial do jornalão.  Disse que a Folha estava publicando matérias para evitar que Lula possa ser candidato nas eleições de 2022.

Ou seja, Haddad não leva em consideração a sequência de fatos que impedem o retorno do ex-presidente ao Palácio do Planalto. A própria bancada do PT na Câmara Federal, por maioria de votos, decidiu apoiar a candidatura de Baleia Rossi. A diferença de votos foi pequena, mas seguramente significou uma derrota para Lula, que sempre isolou o PT em qualquer acordo político com o MDB, PSOL e com qualquer outro partido. Salvo quando estava no poder, quando se aliou aos segmentos políticos mais corruptos do país.

Demissões no Banco do Brasil e na Ford afetam arrecadações do INSS, do FGTS e do IR

TRIBUNA DA INTERNET | Crise do desemprego exige solução rápida, o país não  pode esperar

Charge do Jean Galvão (Arquivo Google)

Pedro do Coutto

O Banco do Brasil divulgou segunda-feira que abriu plano de demissões voluntárias com objetivo de reduzir 5 mil empregados de seu quadro, hoje calculado em 93 mil em todo o país. Reportagem de Fábio Pupo e Isabela Bolzani focaliza o assunto. Por coincidência, haverá outras 5 mil demissões com o fechamento das unidades da Ford em nosso país.

O Globo e a Folha de São Paulo destacam mais essa redução no mercado de trabalho. No Globo assinam a matéria Henrique Gomes Batista, João Sorima Neto e Bruno Rosa. Na Folha, a reportagem é de Eduardo Sodré, Fernanda Brigatti e João Valadares.

EFEITOS NEGATIVOS – Os reflexos vão se fazer sentir tanto no plano econômico quanto na área social. Falei em área social e acentuo que Guedes e sua equipe não atribuem importância a esse segundo reflexo. Mas vamos destacar os principais aspectos que aliás estão no título deste artigo.

Com as demissões, cai a receita do INSS, já abalada pelo desemprego que atinge 14 milhões de brasileiros. O BB deixará de recolher a parte de 20% sobre os salários, que é a contribuição empresarial para com o INSS. Deixará também de recolher 8% mensais para o FGTS.

Cada emprego que se perde reflete também na parte do desconto na folha de cada trabalhador. Como se constata esses são os reflexos diretos na receita da Previdência Social e do FGTS. A parte do IR vai se fazer sentir quando da declaração anual do exercício deste ano de 2021 a ser pago em 2022.

INCENTIVOS PARA DEMITIR – No caso do Banco do Brasil as despesas com desligamentos serão adicionadas em função dos incentivos ofertados pelo banco. Tenho a impressão de que as demissões chamadas voluntárias têm como objetivo reduzir o passivo trabalhista e com isso, segundo Paulo Guedes proporcionar menor desembolso para a empresa que poderá assumir o BB no projeto de privatização.

Aliás de voluntárias as demissões só têm o nome, como aconteceu por exemplo em Furnas. Ou seja, quem não aderir será desligado sem os incentivos que seduzem as demissões.

É o caso também da Ford, com a diferença de que a montadora vai apenas pagar as indenizações previstas na CLT que são o aviso prévio, salário mensal, 13º proporcional, ferias proporcionais e multa de 40% sobre o saldo acumulado do FGTS.

DRAMA SOCIAL – A repercussão das demissões na Ford, destaque em todos os jornais de terça-feira, revela em cores fortes o drama social que está desencadeado em todo o país, com repercussões no exterior.

Afinal a montadora é uma multinacional americana, cujo fundador Henry Ford destacava a necessidade vital do emprego, inclusive para assegurar parcelas de crescimento do PIB e a capacidade de consumo de modo geral, vital para quem pretende vender veículos.

Ao contrário do que pensa Paulo Guedes. Henry Ford era considerado um capitalista, mas tinha preocupações sociais.                   O pensamento de Henry Ford é absolutamente contrário à atual política econômica no governo Jair Bolsonaro.

No radicalismo fatal, Trump e Bolsonaro se encontram com Carlos Lacerda ao longo da história

O que é a UDN, partido de Carlos Lacerda e que pode ser dos Bolsonaro

Lacerda foi radical a vida toda e acabou fora da política

Pedro do Coutto

A invasão do Congresso dos EUA por fanáticos da direita transformou-se num episódio que marca o crepúsculo de um presidente que não suportou a derrota nas urnas, expressão maior da Democracia. No Brasil o presidente Bolsonaro não suporta o embate democrático e numa fase de seu governo incentivava seus seguidores a alvejar e ameaçar o Congresso e o Supremo.

Recuou dessa campanha negativa e aberta, mas não desestimulou a ação de grupos a ele ligados nas investidas nas redes sociais.

ATRÁS DA REELEIÇÃO – Bolsonaro, com sua agitação, preocupa-se hoje com a sucessão de 2022 e prega um retrocesso eleitoral que seria o retorno ao voto impresso. Chegou a dizer que com as urnas eletrônicas daqui a dois anos poderá haver uma crise ainda pior, nos moldes que marcaram o desfecho final americano. Quer dizer, se ele perder em 2022, haverá um episódio extremamente crítico no Brasil. Como Trump, ele não admite de forma alguma ser derrotado. O que isso significa? Um apelo à ditadura.

Mas eu disse que na estrada da história Trump e Bolsonaro estão se encontrando com o então governador Carlos Lacerda. Antes de governar a Guanabara, no seu jornal Tribuna da Imprensa, Lacerda combateu a candidatura de Vargas em 1950 quando disse que este não podia ser empossado.

Com o trágico desfecho de 54, Lacerda elegeu-se deputado federal e logo em 1955 foi a figura de destaque na tentativa de golpe militar para impedir a posse de JK.

JÂNIO E JANGO – Em 1960, Lacerda apoiou Jânio Quadros, mas com a renúncia de Jânio desencadeou forte campanha contra a posse de Jango Goulart. Apesar de jornalista, ele comandou no Rio de Janeiro uma operação de censura à imprensa.

O Correio da Manhã, jornal em que ele (Lacerda) trabalhou como repórter e colunista, teve sua circulação proibida por iniciativa sua, quando acionou a Polícia Militar para apreender os exemplares nas rotativas da Gomes Freire.

O tempo passou e ele não abandonou o narcisismo de julgar-se acima da Constituição e das leis. Mais um ato antidemocrático ele proporcionou, tentando alucinadamente impedir a posse de Negrão de Lima que derrotou nas urnas Flexa Ribeiro, o candidato que Lacerda havia lançado. Como se constata uma sequência de impulsos ditatoriais.

DE 54 A 64 – Quando Café Filho em 1954 assumiu a presidência da República, Lacerda lançou uma campanha para adiar as eleições de 55 sob o argumento de que eram pelo menos necessários dois anos para desintoxicar o país. Falhou. Ainda em 1955, quando o golpe contra JK falhou, exilou-se na embaixada de Cuba, na época governada por Fulgencio Batista.

Em 1964, era governador e estava na linha de frente do golpe. Depois, terminou rompendo com o movimento militar de 64. Foi preso e cassado pelo poder militar pelo qual desencadeara uma campanha golpista.

A direita, portanto, marcou encontro na névoa do tempo entre Donald Trump, Bolsonaro e Carlos Lacerda.

Rodrigo Maia ataca Bolsonaro, Luiz Fux defende a democracia, a temperatura política sobe

Charge 06/07/2020 | Um Brasil

Charge do Caco Gualhardo (Arquivo Google)

Pedro do Coutto

Folha de São Paulo deste domingo publicou declarações de Rodrigo Maia atacando fortemente o presidente Bolsonaro, afirmando que ele é um covarde porque, além de causar mortes por Covid-19, ainda permanece não atribuindo importância a pandemia e além disso se envolve diretamente na eleição para presidência da Câmara Federal, conduzindo seu candidato Arthur Lira às mesmas práticas de que se utiliza no Palácio do Planalto.

Maia acentuou ter recebido relatos de governadores a respeito da pressão em favor do seu candidato, “tudo isso do lado da turma que fala em democracia e liberdade”.

NOTA NA VEJA – A acusação de Rodrigo Maia decorre também do compartilhamento de uma nota na coluna Radar da revista Veja assinalando que o presidente Bolsonaro vem culpando o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, pela perda de popularidade e atraso no programa de vacinação.

O ataque de Maia foi feito através de postagens nas redes sociais. O presidente da Câmara acrescenta que Bolsonaro, ao ser questionado sobre o problema da vacinação, recusou-se a responder a uma pergunta de José Luis Datena na Band News: “Não vou falar, não vou dar palanque para ninguém.”

A respeito de Artur Lira acrescentou que está sendo chamado de Bolsolira, o que acentua a posição de dependência ao Palácio do Planalto.

CADÊ OS DÓLARES – Em seu espaço no Globo, Lauro Jardim informa que. ao assumir o governo, Bolsonaro encontrou um saldo de 390 bilhões de dólares depositados no Banco Central. Entretanto, no final de dezembro o saldo baixou para 355 bilhões de dólares. O que terá havido?

Lauro Jardim também afirma que nas redes sociais os seguidores de Bolsonaro totalizam 38 milhões de pessoas. Entretanto coloco uma questão: ser acompanhado por 38 milhões de pessoas não significa, obrigatoriamente, que todas elas exerçam essa atenção para apoiar o presidente. Tem que se incluir também os que seguem porque estão sempre criticando.

Finalmente, em artigo do Globo, o ministro Luiz Fux sustenta que há necessidade de suprema vigilância em defesa da democracia. Fux cita os acontecimentos na capital americana que culminaram com a invasão do Congresso. Como se vê, a temperatura política de Brasília subiu.

Bolsonaro demonstra não ter condições emocionais e políticas para governar o Brasil

Revolta da Vacina

Charge do Duke (dukechargista com.br)

Pedro do Coutto

Como se sabe, o presidente Bolsonaro afirmou na quinta-feira que houve fraude nas urnas americanas e por isso ocorreu a manifestação violenta que marcou o ataque ao Capitólio. Bolsonaro afirmou levianamente que na verdade associava-se à posição inteiramente absurda do presidente Donald Trump.

Jair Bolsonaro, penso, não tem condições emocionais e políticas de governar o Brasil. Suas declarações foram contestadas pelo presidente do TSE, ministro Barroso, pelo ministro Edson Fachin e pelo presidente da Câmara, deputado Rodrigo Maia, e muitos outros mais.

PREVISÃO SINISTRA – Nos meios políticos de Brasília o presidente Bolsonaro usou o episódio para acentuar que uma revolta do mesmo tipo poderá ocorrer em 2022, o que causou perplexidade, porque, concorrendo a essas eleições, Bolsonaro deixa no ar uma ameaça pouco velada.

Tanto assim que causou inquietação nos partidos políticos que estão formando um bloco de oposição que parte para o enfrentamento da ameaça, através da candidatura de Baleia Rossi para presidir essa casa do Congresso.

Bolsonaro acrescentou que o Brasil terá problema pior do que aquele que se desenrolou na tarde de quarta-feira. Bolsonaro não parou por aí. Voltou a defender a implantação dos votos no papel, deixando para trás as urnas eletrônicas. Seria um retrocesso.

NÃO HÁ MOTIVOS – Não sei por que ele insiste no tema, uma vez que foi eleito com 57% dos votos apurados pelo sistema que ele agora deseja substituir. Como se constata, o presidente não diz coisa com coisa, dando a impressão que está na órbita da fantasia. Fantasia perigosa, por sinal.

Agora, ele terá pela frente a eleição da Câmara Federal. Com a matéria publicada nesta sexta-feira pela Folha de São Paulo, Arthur Lira perde espaço, tal o número de procedimentos criminais.

O jornal reproduziu as ações que na Justiça correm contra ele, a começar pelas acusações de sua ex-mulher, que sustenta ter sido vítima de agressão por parte dele.

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CRESCIMENTO ESPANTOSO DOS DEPÓSITOS NA POUPANÇA

Reportagem de Larissa Garcia na edição da Folha de São Paulo de sexta-feira sustenta que a captação das cadernetas de poupança em 2020 receberam depósitos de 3,1 trilhões de reais, superando os saques que atingiram 2,9 trilhões de reais. Tais dados são simplesmente fantásticos. Basta dizer que o orçamento federal de 2020 foi de 3,6 trilhões de reais.

Creio que o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, deve transmitir a Larissa Garcia as informações verídicas, pois a escala de trilhões choca-se com a realidade. As cadernetas de poupança fecharam o exercício com um saldo de 820 bilhões de reais. A matéria necessita esclarecimento.

Já o economista Marcelo Nery, da FGV, acha que com o fim do auxílio emergencial o nível de pobreza vai aumentar em 2021 o nível de pobreza. Ou seja, cresce a poupança e aumenta a pobreza.

Ministro Pazuello tenta reduzir os ataques de Bolsonaro à imprensa, mas é uma missão impossível

Tribuna do Norte - Comportamento de Bolsonaro perante a mídia é tema da  charge de Brum

Charge do Brum (Arquivo Google)

Pedro do Coutto

Na entrevista coletiva nesta quinta-feira, o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, afirmou a importância da imprensa no combate ao Corona Vírus, tentando nitidamente reduzir os efeitos negativos causados por Bolsonaro à mídia em geral. Destacou a importância do trabalho dos jornalistas, lamentando que sua área de atuação, a saúde, dependa muito da convergência de propósitos das fontes oficiais e do jornalismo em geral.

Como se constata, a posição do ministro da Saúde é muito diferente daquela assumida por Bolsonaro, que na realidade foi um desastre, pela culpa que atribuiu à imprensa.

O despropósito cometido por Bolsonaro é consequência de sua própria incompreensão sobre o universo da informação por parte do Palácio do Planalto. A imprensa não cria fatos, ela apenas divulga a realidade e os comenta.

ALGUNS EXEMPLOS – Não foi a imprensa a autora da rachadinha na qual encontra-se envolvido o senador Flávio Bolsonaro. Não foi a imprensa que inventou Fabrício Queirós e os depósitos que este fez em dinheiro vivo nas contas de parentes do presidente da República, inclusive a primeira-dama Michelle.

O jornalismo funciona também como termômetro da atuação do governo. Nesse caso, pode se salientar uma ironia antiga. Se alguém tem febre não adianta quebrar o termômetro.

Podemos também destacar um fato concreto que transcorre nos órgãos de governo. Os que dirigem tais assessorias são pessoas que nada têm de jornalista. Pelo contrário, seus projetos pretendem desenvolver trabalho como se fossem agências de publicidade. O propósito é claro. Participar dos contratos.

JORNALISMO GRATUITO – A imprensa tem de operar no mercado de informação absolutamente gratuita, uma vez que as matérias são transmitidas por emissoras de TV, rádio, jornais e a internet. Não adianta fake news, porque o jornalismo só opera com informações verdadeiras.

A informação e opinião obrigatoriamente devem ser de interesse público, portanto são de interesse dos órgãos de comunicação.

Entretanto isso não acontece, veja-se quantas assessorias de imprensa são dirigidos por jornalistas profissionais. Vai surgir uma realidade trágica que custa milhões de reais por ano.

CONSULTORIA MILIONÁRIA – Dou o exemplo de Furnas: a estatal tem ou tinha um contrato com uma consultoria que custava 24 milhões de reais por ano.

O fato é que é necessário ser jornalista para compreender o peso dos assuntos e sua ordem de importância. Mas como pode fazer isso se o governo só apresenta fatos negativos, e nem sequer abastece a comunicação pública com os temas que preocupam a população do país.

O jornalismo é uma atividade que destaca fatos mas não os cria.

Balas perdidas e excesso de velocidade transportam a morte pelas ruas do Rio de Janeiro

balas perdidas | Humor Político – Rir pra não chorar

Charge do Pelicano (Arquivo Google)

Pedro do Coutto

As balas perdidas produzidas por tiroteios estão matando seguidamente pessoas nas ruas do Rio, provocando desespero e sensação de insegurança, somando-se o excesso de velocidade por motoristas alucinados e irresponsáveis. As tragédias estão criando uma situação extremamente perigosa que se baseia num tipo macabro de banalidade do mal.

No Globo de segunda-feira, Ancelmo Gois publicou em seu espaço declarações do professor Alessandro Silva Lima, pesquisador da Universidade do Texas, acentuando que o drama está assumindo características extremas.

NA ERA DO NAZISMO – “Banalidade do mal” é o título também do livro de Hanah Arendt, escrito quando ela contratada pelo O Estado de São Paulo e escreveu reportagens sobre o julgamento de Eichman, um nazista que se refugiou na Argentina e que durante a guerra traçou um projeto de extermínio dos judeus nos campos de concentração.

Era a época do hediondo nazismo de Hitler. Hanah Arendt criou a expressão “banalidade do mal”, que para ela marcava um profundo desprezo de Hitler e Eichman pela condição humana.

A intelectual Arendt identificou no carrasco preso em Buenos Aires uma figura que continuava a manter uma frieza pelos crimes coletivos. Arendt disse que Eichman era um homem comum para o qual o genocídio era visto como um processo político banal.

CAOS NO RIO – A mesma atmosfera que pulsava no carrasco encontra-se hoje na cidade do Rio de Janeir,o que parece já ter se conformado com assassinatos de inocentes, seja pelos disparos das armas de fogo, dos punhais e também nos carros em supervelocidade, como foi o caso do casal de professores na Barra da Tijuca.

Na segunda-feira a morte chegou para Marcelo Guimarães na Linha Amarela, altura da Cidade de Deus. Quando poderá chegar ao fim a indústria da morte na atmosfera da cidade?

A população, por culpa dos personagens dos conflitos que se repetem, corre o risco duplo: a vida passa a ter menos valor e a banalidade pela repetição incorpora-se à realidade urbana.

PRESIDÊNCIA DA CÂMARA – Baleia Rossi, presidente do MDB. e Artur Lira, líder do Centrão, continuam suas articulações para a disputa da presidência da Câmara Federal. Reportagem de Danielle Brant, Folha de São Paulo de terça-feira, focaliza a questão.

Minha impressão: Baleia Rossi deve vencer, uma vez que o entusiasmo está impulsionando seus adeptos, ao contrário do que acontece com Arthur Lira. Para mim, a atmosfera predomina nos embates políticos e está conduzindo mais a candidatura Baleia Rossi.

Bolsonaro insinua renúncia e abre uma crise política igual a de Jânio Quadros em 1961

História é vida: Jânio – entre a vassoura e a espada

Jânio era um Bolsonaro de vassoura (Foto Erno Schneider)

Pedro do Coutto

O presidente Bolsonaro, manchete principal de O Globo, e chamadas em primeira página da Folha de São Paulo e do O Estado de São Paulo, como se constata, os três maiores jornais brasileiros. As edições desta quarta-feira assinalam nitidamente a profundidade da crise que está envolvendo o governo e colocando em risco o próprio regime democrático.

Aliás, no dia de hoje fica na história universal assinalando para sempre o verdadeiro atentado praticado pelos apoiadores de Donald Trump.

DIREITA DITATORIAL – Temos, assim, duas manifestações da direita que não se conforma com os limites da legislação. E esquecem o princípio hegeliano de que a lei é a conciliação entre os contrários. Mas fiquemos no Brasil.

Jair Bolsonaro afirmou que o Brasil está quebrado e que ele não pode fazer nada, citando como exemplo seu projeto referente ao Imposto de Renda.

O presidente da República atacou frontalmente a imprensa, de modo geral, acusando-a de incentivar a pandemia do coronavírus. Absurdo total. Penso que Bolsonaro está tentando radicalizar o processo político deslocando-o para a área militar. Um desastre sob todos os aspectos.

PONTO FUNDAMENTAL – Na edição de hoje de O Globo, Merval Pereira chamou atenção para um ponto fundamental na manifestação do presidente, que busca o apoio dos militares. “Não posso fazer nada, mas têm de me engolir até 2022”. Em O Globo, a reportagem é de Daniel Gulino, Cássia Almeida e João Sorima Neto. No O Estado de São Paulo está assinada por Emilly Behnke, e na Folha de São Paulo, Ricardo Della Coletta e Bernardo Caram.

Todas as matérias destacam o caráter extremista que reúne o bloco da direita em torno de Jair Bolsonaro. Vale a pena acentuar que o comportamento de Bolsonaro explode também a candidatura de Arthur Lira. Isso porque as correntes políticas vão sentir de imediato a importância das mesas do Congresso Nacional.

O CASO DE JÂNIO – No dia 25 de agosto de 1961, Jânio Quadros renunciava e transportava o impasse da posse de Jango Goulart para o conjunto das Forças Armadas. É compreensível que as novas gerações de jornalistas deixem escapar o exemplo de 1961. Portanto, precisam estudar a história moderna do Brasil.

Em 23 de agosto de 1961, o governador Lacerda, pela TV Tupi, denunciava ter sido convidado por Jânio Quadros para desencadear um golpe no país. A denúncia teve efeito imediato deixando o Senado e a Câmara Federal preparados para um desfecho dramático.

Assim quando a comunicação da renúncia chegou ao Senador Moura Andrade, presidente do Senado, estabeleceu-se o princípio de que renúncia é um ato profundamente pessoal, não cabendo ao Legislativo examinar a comunicação do Planalto. Fica o exemplo em nossa história. Os sintomas são de uma grave crise cujas nuvens fornecem a antevisão de um temporal.

Na luta dramática e heroica contra a tirania de Hitler não houve lugar para racismo

O combate que exterminou Hitler - ISTOÉ Independente

Na Segunda Guerra, todos lutaram ombro a ombro

Pedro do Coutto

Na edição de domingo da Folha de São Paulo, Paula Sperb destacou a presença de descendentes indígenas, tanto do Brasil quanto dos EUA, que lutaram contra o nazismo de Hitler, defendendo a liberdade e os direitos humanos profundamente atingidos pela tirania. A reportagem me leva a focalizar o repugnante tema do racismo nas batalhas dramáticas e heroicas que uniram as forças democráticas contra o III Reich.

A autora focalizou também a atuação da FEB nos campos da Itália, marcada principalmente pelas conquistas de Monte Castelo e Montese, vencidas após duras batalhas que se estenderam  por vários dias, sobretudo porque Monte Castelo representava uma subida de 973 metros e Montese um pouco menos. Portanto, os alemães atiravam do alto e isso dificultou nosso avanço.

ITÁLIA OCUPADA – Houve também a batalha de Porreta di Termi que cortou o abastecimento a postos alemães. A Itália estava ocupada por forças alemães que tentavam defender o fascismo de Mussolini.

Quanto ao racismo, Flávia Oliveira, em seu espaço de sexta-feira em O Globo, tem marcado forte posição de liderança, estendida também a seu desempenho na Globonews.

Sobre a história da FEB, um dos pesquisadores da atuação brasileira é o jovem historiador Daniel Mata Roque, que estudou intensamente o tema  e o transformou no livro importante em quaisquer circunstânciaas, inspirado no slogan da FEB, “A cobra vai fumar”.Daniel Mata Roque substituiu fumar por filmar, uma vez que o acervo da Associação dos Ex-Combatentes possui filmes eternizando a participação brasileira.

NO DIA D – Mas eu falei em racismo, abominável em qualquer circunstância e que foi ressaltado na invasão da Normandia pelas forças americanas, inglesas e canadenses. Era junho de 1944, quando desembarcaram 150 mil homens, comandados pelos generais Eisenhower e Montgomery.

As metralhadoras do marechal Rommel não escolhiam cor nem raça para abater. Os soldados avançaram ombro a ombro e tomaram a praia. Foi uma grande derrota para o lendário Rommel e para o nazismo.

Se negros, pardos, indígenas formaram ombro a ombro com brancos a um passo da morte, realmente nâo tinha e nâo tem o menor sentido que não possam sentar lado a lado nas escolas, universidades, praças e praias de seus países. A batalha da Normandia fica para sempre como eterno exemplo histórico.

Bolsonaro – não se sabe por quê – decide que a verba para vacinação poderá ser bloqueada

: boa notícia para quem? | NSC Total

Charge do Zé Dassilva (Arquivo Google)

Pedro do Coutto

O presidente Jair Bolsonaro vetou artigo da Lei de Diretrizes Orçamentária que impedia que o governo pudesse bloquear os recursos previstos para vacinação contra a Covid-19. Com isso, deixou no ar o receio de que o programa de vacinação corre risco de contingenciamento. O Congresso havia colocado no texto legal exatamente o contrário: o Executivo não poderia congelar essas verbas.

O presidente da República vetou também as emendas parlamentares que tornavam impositivos os destaques para que fossem realizadas obras direcionadas pelos deputados e senadores.

RISCO E CONTRADIÇÃO – Na minha opinião a etapa de vacinar em massa a população passa a correr risco. Quanto às verbas parlamentares, o veto significa uma contradição. No momento em que o Palácio do Planalto se empenha a favor de Arthur Lira, líder do Centrão, para presidir a Câmara, o veto só poderá causar reação negativa por parte dos deputados.

Relativamente à vacina, tenho receio de que Bolsonaro esteja tramando algo destinado a impedir o início da vacinação pelo governador de São Paulo, João Doria. Alguma coisa enlouquecida assim.

ALGO INCOMPREENSÍVELOs vetos poderão ser derrubados pelo Congresso Nacional, e se isso acontecer o chefe do Executivo ficará em situação ruim junto à opinião pública e também entre os senadores que se articulam para indicar o presidente daquela casa do Congresso no lugar de Davi Alcolumbre.

O que está sucedendo no governo é algo para mim incompreensível. O presidente da República parece estar contra as vacinas, sejam elas a de Oxford, Pfizer ou vindas da China ou da Rússia Politizar um tema do porte do coronavíirus revela uma inabilidade total.

OUTRO ASSUNTO – Reportagem de André Coelho e Luiz Ernesto Magalhães, O Globo de sábado, destaca providências anunciadas pelo prefeito Eduardo Paes logo ao início de sua administração recém-iniciada.

Ele anunciou que vai propor o aumento de 11 para 14% sobre os salários do funcionalismo municipal para a Previdência da cidade. A elevação é de 3 pontos, mas em relação ao desconto em vigor significa um aumento de 22%. O prefeito diz também que vai rever os incentivos fiscais que atingem 1 bilhão de reais.

Não adianta reclamar. Em nosso país os candidatos dizem uma coisa e na prática fazem outra.

Somente pleno emprego pode salvar a economia brasileira e evitar o caos social

Guedes cobra explicação do Ministério da Justiça sobre notificação a  supermercados - Negócios - Diário do Nordeste

Com sua teimosia, Guedes conduz o Brasil para um abismo

Pedro do Coutto

O pesquisador Daniel Duque, da Fundação Getúlio Vargas afirma que o fim do auxílio de emergência remeteu 11 milhões e 600 mil pessoas à extrema pobreza, pois as famílias atendidas pelo programa encontram-se em situação caótica no que diz respeito a seu retorno à miséria.

Reportagem de Cássia Almeida e Sérgio Matsura focaliza o tema e leva, a meu ver, a uma certeza: só o pleno emprego pode resolver o impasse, pois não está funcionando a política de Paulo Guedes, que inclui o congelamento de salários diante do aumento ininterrupto do custo de vida.

RUMO AO FRACASSO – Não adianta o titular da Economia dizer que a reforma da Previdência e as reformas Tributária e Administrativa podem levar à retomada da economia do país. Para mim, o conservadorismo está conduzindo o país ao fracasso. O presidente Bolsonaro não se preocupa com a gravidade da situação.

Na verdade, o que se pode esperar de um presidente que, por suas palavras e atitudes, transforma-se num líder contra a vacinação.

Os integrantes da equipe de Paulo Guedes não têm qualquer visão e preocupação social. Para o superministro, o mercado resolve tudo. Talvez tudo para aqueles que se encontram no topo da escala de renda. Mas no Brasil, mais da metade da mão de obra ativa ganha por mês apenas dois salários mínimos.

NO REINO DAS ELITES – Também no Globo, Cássia Almeida e Carolina Nalin, edição de segunda feira, com base em dados da Consultoria Tendência, revelam que de novembro de 2019 a novembro de 2020 apenas a classe A conseguiu não ter sua renda rebaixada.

Por fim, as mesmas Cássia Almeida e Letícia Cardoso, na quarta-feira, mostraram que o desemprego no Brasil em novembro pela primeira vez recuou de 14,6% para 14,3%. Os números falam por si.

Fecham-se as cortinas de 2020, então vamos reabrir a janela da esperança para 2021

Frases de Chico Xavier para FacebookPedro do Coutto

Abrir a janela da esperança foi uma frase do artigo de Miriam Leitão, O Globo de 31 de dezembro. Nada melhor do que a janela da esperança para que todos possamos aguardar dias melhores do que aqueles que terminaram ontem na passagem de um ano para outro. Na realidade, 2020 foi um péssimo período para os assalariados brasileiros que, exceção do mínimo, tiveram prejuízos acumulados ao longo de 12 meses, tendo de enfrentar a escala inflacionária, tendo de amargar suas perdas.

Isso porque temos que se confrontar a taxa inflacionária registrada pelo IBGE com os valores imobilizados na estrada salarial.

ARROCHO SALARIAL – Por exemplo: o salário mínimo foi reajustado em 5,2%, em decorrência da curva do custo de vida admitido pelo governo para o período que terminou ontem. A inflação de novembro de 2019 a 2020 foi de 3,9%, mas como o ministro Paulo Guedes estima que o índice inflacionário registra 1,3% no mês de dezembro, chegamos então a 5,2%.

Pela lei em vigor, o reajuste do salário mínimo aplica-se automaticamente aos aposentados e pensionistas do INSS. Os demais salários do país, incluindo os funcionários federais, estaduais e municipais são envoltos pela corrente de 0%. A isso se chama arrocho salarial.

EQUIPARAR POR BAIXO – A política do salário mínimo faz com que todos os anos aumente o número daqueles que descem a escada social, passando a se integrar no piso nacional. Ou seja, se a remuneração dos que ganham mais do que o mínimo não for alterada, no decorrer do tempo os 33% dos trabalhadores e funcionários que ganham acima do piso vão se deparar com sua própria inclusão na faixa do mínimo.

A longo prazo, será o resultado da política imposta pelo ministro Paulo Guedes, uma equiparação por baixo.

Os preços sobem, como ocorre no dia a dia, enquanto os salários afundam em uma temperatura congelada.

E A PROFECIA? – Aliás por falar em política econômica, pergunto ao ministro Guedes como ficou sua profecia de que a reforma previdenciária iria permitir uma economia anual de 100 bilhões de reais, o que levaria no final da década a um trilhão de reais.

Os preços do ouro e do dólar avançaram, o que a meu ver comprova o descontrole do projeto que leva o nome do ministro da Economia.

Por fim, muito bonito o poema de José Eduardo Agualusa, edição de ontem de ontem de O Globo. Vamos esperar.

Ninguém pode defender a tortura – é o ato mais covarde e execrável nas relações humanas

O golpe que está triturando Jair Bolsonaro nas redes sociaisPedro do Coutto

Sem dúvida, tanto a tortura quanto os torturadores têm lugar reservado no esgoto da memória universal. A classificação inclui também todos aqueles que defendem sua prática e que, no fundo, revelam fortes indícios de sadismo. Torturar alguém é uma ignomínia, uma brutalidade, algo que só encontra explicação na psiquiatria.

Infelizmente o presidente Jair Bolsonaro incluiu-se entre os que aceitam e até verbalizam a tortura, o que causa perplexidade e reação à sua postura.

IRONIZANDO DILMA – Reportagem na edição de quarta-feira de O Globo, revela que na caminhada pelas ruas de Brasília o presidente da República achou normal cobrar da ex-presidente Dilma Rousseff o Raio X de seus dentes, uma vez que ela sustenta ter recebido um soco desfechado por um agente do Doi-Codi, o que também lhe causou deslocamento da mandibula.

Bolsonaro, estupidamente, ironizou esse fato que pertence à história da ditadura militar que durou 21 anos e deixou um saldo macabro de violência.

Os ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso, Luiz Inácio Lula da Silva e a própria Dilma Rousseff repudiaram a atitude de Bolsonaro.

BRILHANTE USTRA – O Doi-Codi era chefiado pelo coronel Brilhante Ustra que sempre recebeu elogios de Bolsonaro, inclusive na votação de impedimento de Dilma, ele exaltou o coronel ao dar o voto.

Também se pronunciou através de texto escrito, o deputado Rodrigo Maia, acompanhado por Baleia Rossi, candidato à presidência da Câmara Federal. Sentindo que as palavras do presidente da República são capazes de aumentar as reações contra sua candidatura, Arthur Lira, embora seja o candidato de Bolsonaro, também fez restrições à prática de tortura.

ALGO INDEFENSÁVEL – Na minha opinião, é inconcebível existir quem admire a tortura e torturadores, tentando fazer duvidar que tais personagens estão rompendo com a condição humana, título de um livro de André Malraux.

O que também impressiona no presidente Bolsonaro é a frieza com que se refere à tortura, demonstrando sua admiração por torturadores. Foi uma página triste na memória brasileira o que o presidente do país falou e tampouco recorreu a dizer que suas palavras estavam fora de contexto. Bolsonaro também ficará na história brasileira como o presidente que trata a história com deboche e pratica erros sucessivos que atingem toda a população.

VACINAS DA COVID – O caso das vacinas contra a Covid-19 é uma prova de sua incapacidade de governar o país.

E o IBGE, reportagem de Cássia Almeida e Letícia Cardoso, O Globo, focaliza a informação do IBGE que disse que o desemprego estava caindo e atribuiu essa queda aos empregos sem carteira assinada. Entretanto o próprio IBGE disse que o desemprego apenas recuou de 14,6% para 14,3%. Um absurdo que eu comento na edição de amanhã.A

Bolsonaro e Doria disputam a presidência da Câmara já de olho na sucessão de 2022

BATALHA DE RAP - BOLSONARO x DÓRIA - YouTube

Ilustração reproduzida do Arquivo Google

Pedro do Coutto

Estamos a um passo do ano novo e o debate político já ganha velocidade para as urnas de 2022. Cresce a disposição de Rodrigo Maia para enfrentar o Centrão de Arthur Lira no embate para a presidência da Câmara Federal. Nesta terça-feira, O Globo, Merval Pereira e Miriam Leitão analisaram o assunto, mas a partir da perda de substância da candidatura Arthur Lira, apesar do apoio que vem recebendo de Bolsonaro.

No entanto, penso que o episódio, com base na realidade de hoje, estende-se às eleições presidenciais de aqui a dois anos.

SE LIRA PERDER? – Uma derrota de Lira abala o bloco governista e atinge principalmente a campanha de Bolsonaro à reeleição. De outro lado, fortalece o governador João Dória que, ao que tudo indica, é um dos principais adversários do presidente da República nas eleições, que inevitavelmente serão marcadas pelos fatos que vão envolver o presidente e o governador na estrada que leva a conquista do poder.

O governador João Dória, como é natural na luta política, está interessado diretamente não somente na derrota de Arthur Lira, mas sobretudo no revés que for imposto ao Palácio do Planalto. Por isso vai usar sua parcela de poder junto a bancada paulista e ao PSDB nacional para a vitória de Baleia Rossi.

ABALADO PELA VACINA – Uma derrota de Bolsonaro atingirá frontalmente a campanha do presidente à reeleição. Não há dúvida quanto a isso. Abalado pelo caso da vacinação, Bolsonaro vem acumulando derrotas, principalmente porque coleciona a prática de uma sequência de absurdos. O presidente, na minha opinião não tem condições de exercer o cargo. Basta acrescentar à reunião ministerial de abril a declaração de que cabe aos laboratórios obter junto a ANVISA sua inclusão no mercado. Absurdo total. Afinal o que faz o ministro Eduardo Pazuello? Nada.

Uma reportagem de Eduardo Cucolo, Folha de São Paulo de segunda-feira, revela que 72% da opinião pública brasileira acredita que a inflação de 2021 vai aumentar, e, digo eu, os salários hoje congelados vão diminuir ainda mais, menos para o prefeito Bruno Covas que aumentou para si mesmo o índice de 47%.

Cony e Drummond no calçadão de Copacabana, na manhã de 31 de março de 1964

A conquista da liberdade é algo que faz... Carlos Drummond de AndradePedro do Coutto

Num artigo na edição de O Globo de domingo, Bernardo Melo Franco, bisneto do senador Afonso Arinos, visitou o passado lembrando que, no dia 31 de março de 1964, o jornalista e escritor Carlos Heitor Cony e o poeta Carlos Drummond de Andrade caminhavam no calçadão de Copacabana quando forças militares ocuparam o Forte do Posto 6 e iniciaram prisões em série, tanto pelas ruas do bairro quanto em outros bairros da cidade.

E logo sentiram que o poder já havia se deslocado da democracia para a área militar.

ARTIGO FAMOSO – Carlos Heitor Cony escreveu no Correio da Manhã um artigo que ficou famoso: “Revolução de caranguejos”. No Correia da Manhã, também Carlos Drummond de Andrade começava uma série de crônicas denunciando no seu estilo fino o risco de ver a democracia indo para o espaço.

Alguns leitores podem estranhar Drumond no Correio da Manhã. Mas o fato é que ele só trocou o CM pelo Jornal do Brasil no final da década de 60.

Cony escreveu a série de artigos “O Ato e o Fato”, que o levou a prisão. O autor do clássico Quase Memória, na minha opinião, assumiu o papel que o destino reservou a Emile Zola no processo Dreyfus.

Cony foi profético: a concentração de renda veio a galope, a liberdade acabava. O retorno ao regime democrático custou 21 anos de história. Mas isso pertence ao passado.

É GRAVE A CRISE – No presente, a crise também se agravou e a prova está na reportagem de Cássia Almeida e Carolina Marim, em O Globo de segunda-feira. A reportagem teve base em pesquisa da Tendência Consultoria, que destacou que neste ano apenas os integrantes da classe A conseguiram 0,9% de avanço real. A classe A representa apenas 3,4% dos domicílios brasileiros. Trata-se do grupo cuja renda familiar parte de 19.400 reais mensais. A classe B, média, encontra-se na faixa de 6,2 mil a 19 mil de renda mensal.

A expectativa, revela a diretora da Tendência, Alessandra Ribeiro, é de que em 2021 esta classe perderá 2,4% de seus vencimentos. A classe C que recuou 0,9% em 2020, no próximo ano vai perder numa escala de 1,5% de seu rendimento. Por fim, as classes D e E, que atravessaram 2020 sustentadas pelo auxílio de emergência, vai recuar incríveis 15,4% em matéria de remuneração.

DUAS CAUSAS – As perdas são resultado do desemprego e de salários que perdem para a inflação. Em matéria de inflação faço uma pergunta ao IBGE e a FGV:

Por que o IPCA do IBGE assinala3,4% de inflação e a FGV, no IPM, acusa 25%. O período é o mesmo. De novembro de 2019 a 2020. Jamais se viu uma disparidade de tais proporções.

Bolsonaro socorre empresas em crise, que ganham dez anos para saldar dívidas trabalhistas

Charge do João Bosco (Arquivo Google)

Pedro do Coutto

Reportagem de Tiago Resende, Folha de São Paulo deste sábado, revela que o presidente Bolsonaro sancionou a lei que permite que empresas que se encontrem em recuperação judicial possam receber financiamentos públicos concedidos pelo Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, BNDES. A recuperação judicial destina-se ao parcelamento das dívidas e constitui a última escala antes da hipótese de falência. Neste caso, para haver concretização, é necessário acordo com credores.

O ministro Paulo Guedes espera que a nova lei funcione para evitar demissão dos empregados. O parcelamento pode até atingir 120 parcelas mensais e também – aí é que está – envolve o pagamento das dívidas trabalhistas até o prazo de homologação do plano de socorro empresarial.

TRATAMENTO DESIGUAL – A matéria de Tiago Resende não focaliza a correção monetária, tanto das dívidas ajustadas com os credores quanto em relação ao resgate das dívidas trabalhistas. Como se constata, há um tratamento para as empresas e outro para os empregados.

Para Guedes, o novo texto legal protege os trabalhadores das companhias em crise. A meu ver, o ministro da Economia não tem nenhuma compatibilização com os direitos dos assalariados. Pelo contrário. A lei foi sancionada com vetos: um deles, passava dos limites, atingiu um artigo do texto aprovado pelo Congresso que suspendia os pagamentos de salário no espaço de tempo entre a proposta de recuperação e a aceitação do parcelamento pelos credores.

NOVA ESTATAL – A lei foi sancionada na sexta-feira e nesse dia o presidente Bolsonaro assinou decreto criando uma nova empresa estatal, a Nave Brasil, que vai coordenar as atividades da navegação aérea do país, acrescentando suas atribuições à Infraero.

Mais uma contradição do Palácio do Planalto: Paulo Guedes quer privatizar as empresas estatais, Bolsonaro criou mais uma que vai se juntar a constelação das existentes.

Natal é esperança, justiça, fraternidade, num encontro de todos visando apenas ao bem comum

Penso que a fé é a extensão do... Charles ChaplinPedro do Coutto

São princípios que iluminam a comemoração legada ao mundo por Jesus Cristo, a cada ano, na travesia dos séculos. Infelizmente, no Brasil, tais princípios não são seguidos pelos titulares do poder. Na realidade ocorre entre nós o contrário. A política volta-se para algo difícil e os fatos confirmam o insucesso. Mas Natal é esperança e nela continuaremos a caminhada, porque é tudo o que se pode fazer.

Na maioria dos casos o poder emana das urnas, mas os eleitores se decepcionam e tentam buscar o voto de volta. Não é possível. E recomeça a caminhada.

ANTES E DEPOIS DELE – Mas não podemos nos deixar abater e trazer no pensamento o exemplo do homem que morreu na cruz e dividiu o tempo entre antes e depois dele. Este foi o corte mais profundo que a humanidade registra.

Constatar e acreditar no exemplo é o que nos consola. O Brasil vive dias confusos, tais são os erros do governo Bolsonaro e agora também pode se adicionar, no fim de ano, a perplexidade com os rumos do prefeito carioca Marcelo Crivella que o levaram à prisão, que mesmo domiciliar não o absolve, pelo contrário.

MESMO ASSIM… – No plano federal, não se vislumbra qualquer projeto concreto. O ministro Paulo Guedes acumula desastres em série. Com isso a população brasileira sofre mais um golpe.

Mesmo assim, jamais podemos perder as esperanças, porque o mundo só pode avançar se conseguir reduzir a desigualdade social, na visão defendida por Jesus Cristo.

Portanto, Feliz Natal para todos os leitores e colaboradores da nossa Tribuna da Internet.

O fantasma de Lula elegeu Bolsonaro em 2018 e continua atormentando muitos eleitores

O fantasma de Sarney assusta Temer

Charge do Ivan Cabral (Arquivo Google0

Pedro do Coutto

Um fantasma chamado Lula da Silva garantiu a vitória de Jair Bolsonaro na urnas de 2018 e, passados dois anos, continua a ser responsável pelos 37% da opinião pública que ainda acreditam em desempenho satisfatório de Bolsonaro à frente do Palácio do Planalto. A meu ver, é a explicação pelos números registrados na pesquisa do Datafolha, publicada nesta segunda-feira pela Folha de São Paulo e comentada pelo jornalista Igor Gielow.

O levantamento pode ser visto sob várias lentes e diversas leituras, como por exemplo a melhoria da posição de Jair Bolsonaro no Nordeste, sustentada em boa parte pelo auxílio emergencial que começou com 600 reais e vai acabar este mês já reduzido para 300 reais. Pode ser que o governo termine prorrogando-o por mais tempo. Pode ser que seja na escala de 300 reais. Vamos ver.

CONTRADIÇÕES – Enquanto isso, vale a pena iluminar alguns dados revelados pelo Datafolha. O principal deles é o de que 53% dos entrevistados informaram que não acreditam nas palavras divulgadas por Bolsonaro. Ora, se não acreditam em Bolsonaro mas consideram seu governo ótimo e bom, aí vai a principal aparente contradição da pesquisa.

Se 53% não acreditam no presidente, a continuação lógica desse pensamento choca-se com o índice de popularidade do presidente, sendo que 17% só acreditam em parte.

A seguir o Datafolha encontrou outra contradição: 55% acham que  ao longo dos dois anos ele (Bolsonaro) fez menos do que anunciou na campanha. Apenas 17% acham que ele fez mais do que prometeu e a parcela restante de 22 pontos inclui os que consideram que ele ficou entre uma coisa e outra.

MENTIR NA CAMPANHA – Trata-se de um problema que se eterniza no Brasil: a divergência entre o candidato e o presidente. Nas campanhas eleitorais todos os candidatos acenam com promessas de melhorar a renda do trabalho e a vida de homens e mulheres, portanto significa melhorar a vida da população.

Muitas promessas são sonho de uma noite de verão por vários problemas, especialmente a falta de recursos públicos, decorrente dos sistemas de corrupção.

Como dizia o presidente Juscelino Kubitschek, política, sobretudo, é esperança, e os eleitores encontram-se inevitavelmente em busca dessa esperança.

RUIM E PÉSSIMA – A taxa dos que classificam a administração federal de ruim e péssima é de 32%. Logo, confrontados 32% de reprovação com os 37% de aprovação, o coeficiente é favorável ao atual presidente da República, apesar dos erros e dos absurdos que ele diz quase que diariamente.

O exemplo da vacinação não é suficiente para refletir na sua imagem, embora desgastada mas na escala de 37 pontos. Não foi suficiente sua ruptura com o general Hamilton Mourão. Também não foI suficiente a reunião ministerial de 22 de abril, cujo desenrolar ficará na história como o episódio mais incrível do exercício do poder e também pelo baixo nível dos argumentos e despautérios.

Para finalizar, só encontro uma explicação. O contraste entre Jair Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva. Lula e o PT foram os grandes eleitores de Bolsonaro e Hamilton Mourão. O fantasma do ex-presidente causa pânico na população brasileira. E continua causando.

Acredite se quiser! País vive atmosfera semelhante àquela que marcou o desfecho de 31 de março

Julgamento contra Bolsonaro e Mourão no TSE é adiado; entenda ações que pedem cassação da chapa - BBC News Brasil

Bolsonaro e Mourão já estão rompidos e apenas se aturam

Pedro do Coutto

O editorial da primeira página da edição de domingo da Folha de São Paulo, a reportagem de Gustavo Uribe e Júlia Chaib, o artigo de Jânio de Freitas e o espaço que Élio Gaspari ocupa aos domingos, tanto em O Globo quanto na Folha, acentuam que o governo Jair Bolsonaro está vivendo uma crise gravíssima. destacada por impasses e contradições que criaram uma atmosfera política igual a aquela que marcou o desfecho de 1964 que culminou coma queda do presidente João Goulart.

A densidade desta fase ao mesmo tempo em que eleva a temperatura do país também assinala uma desorganização quase geral, que está tolhendo os passos do presidente da República e assinalando que há pedras no seu caminho, como na poesia de Drummond.

MAIS DIVERGÊNCIAS – Os repórteres Gustavo Uribe e Júlia Chaib destacaram as divergências entre Bolsonaro e Hamilton Mourão decorrente da posição do vice em relação a Amazônia e a irredutibilidade de Bolsonaro para forçar uma situação capaz de levar Ricardo Salles a sair do Ministério do Meio Ambiente.

A meu ver, já deveria ter saído ha muito tempo, pois só fornece argumentos que agravam o problema do desmatamento e das queimadas. O vice-presidente da República propôs a organização de um sistema com base militar para representar o Brasil na reunião do meio ambiente marcada para o ano que vem.

O presidente Bolsonaro entretanto, colocou nas redes sociais que o Ministro Salles será o representante brasileiro na conferência. Com isso, o general Mourão sentiu-se desprestigiado.

TEXTO DEVASTADOR – O editorial da Folha foi um dos tetos mais violentos e também realistas contra Jair Bolsonaro, a quem o jornal chama de assassino por sua posição negativa no combate a pandemia do coronavírus. O artigo frisa também que passou de todos os limites a estupidez do presidente da República. Chega de molecagens no caso da vacinação, disse o artigo.

Jânio de Freitas ataca Bolsonaro e estende a ofensiva ao general Augusto Heleno, por ter mobilizado a Agência Brasileira de Inteligência no sentido de anular o processo que tramita na Justiça contra o senador Flávio Bolsonaro. É um escândalo, caso de impeachment, a conduta da presidência da República num assunto criminal que envolve o senador, enfatizou o jornalista.

Elio Gaspari parte também para o ataque, apontando a incapacidade do presidente em administrar o país. E acrescenta que, além de tudo, Bolsonaro está estudando uma forma de substituir Ernesto Araújo no Ministério das Relações Exteriores.

TEMPESTADE INSTITUCIONAL – Como se verifica, estamos atravessando uma verdadeira tempestade institucional, fomentada pela convergência dos interesses públicos legítimos com os interesses particulares, área em que também estão situados Fabrício Queiroz e sua mulher no caso das rachadinhas.

A estrada de saída está cada vez mais estreita e flutua no ar a sensação quase febril de uma ruptura dentro da democracia, na qual talvez o general Hamilton Mourão seja um caminho democrático, institucional e praticamente inevitável, através de um impeachment.

Na briga eleitoral, Bolsonaro coloca vacinação em risco só para conter atuação de João Dória

Charge reproduzida de “The Economist”

Pedro do Coutto

O presidente Jair Bolsonaro mandou preparar medida provisória que será publicada na semana que começa amanhã, estabelecendo centralização pelo Ministério da Saúde de todas as vacinas produzidas no país e mesmo as que forem importadas diretamente pelos governos estaduais, no sentido de deixar o comando absoluto do combate a pandemia nas mãos do ministro da Saúde.

Reportagem de Maiá Menezes, Gustavo Maia, Paula Ferreira e Flávio Fernandes, O Globo deste sábado, revela os detalhes do impulso do presidente Bolsonaro, na minha opinião, para evitar que o governador João Dória inicie a vacinação antes do governo federal.

VIDAS HUMANAS – O argumento absurdo é o de que nenhum estado poderá atuar antes da decisão do Palácio do Planalto. O govenador João Dória sustentou que a medida revela um verdadeiro confisco porque o que está em jogo são vidas humanas.

O Ministério da Saúde até hoje não foi capaz de estabelecer um plano para vacinar a população brasileira. Esta dificuldade essencial porque a vacinação em massa exige uma logística que passa, não só pelas vacinas, mas pelas seringas, e locais de vacinação. Portanto o presidente da República, ao assinar a MP estará dificultando a solução e o problema gravíssimo, inclusive a logística inclui os locais da aplicação das vacinas.

ERRO POLÍTICO – Numa entrevista a Andreza Mateus, Felipe Caran e Tânia Monteiro, O Estadão também de sábado, o deputado Rodrigo Maia afirmou que a demora do Governo em liberar a vacinação é o maior erro político de Bolsonaro.

O presidente da Câmara Federal rebateu as declarações do ministro Paulo Guedes, matéria de Daniele Brandt, Folha de São Paulo, que o culpou de obstruir a reforma tributária. Rodrigo Maia acrescentou que na verdade a reforma tributária não sai porque o Ministério da Economia não deseja que seja votado o projeto já elaborado pela Câmara dos Deputados. O ministro Guedes não tem razão em me culpar, ele é que está criando problema, disse Maia.

E matéria de Fabio Pupo, Bernardo Caran e Daniel Carvalho, Folha de São Paulo, revela que Paulo Guedes entrará de férias, uma vez que os projetos de reforma não estarem caminhando no Legislativo. Rodrigo Maia mais uma vez rebate as alegações do ministro da Economia. Com as férias, o próprio governo Bolsonaro vai deixar o debate econômico para 2021.