Fernanda Montenegro conduz Nelson Rodrigues à eternidade de sua própria obra

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Fernanda dá um show interpretando o amigo Nelson

Pedro do Coutto

No domingo que passou, o programa Fantástico deu sequência à viagem que Fernanda Montenegro realiza com Nelson Rodrigues para a eternidade da obra do maior teatrólogo brasileiro, ao mesmo tempo memorialista, cronista apaixonado por futebol. Além disso, romancista. A série preparada por Fernanda Montenegro, domingo passado, estacionou a viagem no cronista esportivo. Apaixonado pela Seleção brasileira e pelo Fluminense, tem com parte de sua bagagem literária a coluna no O Globo “À Sombra das Chuteiras Imortais”.

A atriz abordou frases suas e, sobretudo, a descoberta do que ele chamava complexo de vira-lata, que pesava na alma de parte substancial da população. O Campeonato do Mundo conquistado em 1958 foi uma resposta à frustração de 1950, quando, segundo o próprio Nelson Rodrigues, fomos derrotados por um homem só: Obdulio Varela. A conquista histórica de oito anos depois na Suécia começou a mudar o complexo que o escritor identificava. Vibrou como poucos no bicampeonato de 62 e guardou tristezas para a derrota de 66.

BELA PREVISÃO – Em 70, apaixonadamente escreveu no início da Copa que o Brasil seria novamente campeão do mundo. O jornalismo esportivo se dividiu entre a euforia de Nelson e a isenção de Armando Nogueira, este na coluna diária do Jornal do Brasil. O impacto da certeza de Nelson e da dúvida de Armando deu margem ao surgimento de personagens de ficção como o “Sobrenatural de Almeida”, o “Gravatinha” e o “Palhares”. Sobrenatural de Almeida era a imagem da derrota e do derrotismo. Uma variante do complexo de vira-lata.

O destino levou a confirmação do que previa Nelson Rodrigues: na final do México, derrotamos a Itália. O êxito foi mais uma consagração passageira do cronista, já consagrado plenamente por suas múltiplas criações. Dentro e fora da realidade.

Hoje, olhando-se o passado com a lente da memória, concluímos que a diferença essencial entre Nelson Rodrigues e Armando Nogueira estava na arte do primeiro e no estilo do segundo. O artista não tem limites para si próprio. Ele flutua, voa na imaginação e usa a realidade para construir tanto a fantasia quanto o que considera no fundo da alma a sua própria realidade.

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Nelson e Fernanda, amigos desde sempre

A ARTE É UM DOM – A busca da ruptura, da criação, do encontro entre o fascínio criativo e a imaginação projetada no papel e agora nas telas da televisão e da internet, são características da arte que, como disse Noel Rosa, não se aprende no colégio. É um dom, um impulso com o uso das palavras e das imagens, e isso diferencia os artistas e as demais pessoas, que mesmo inteligentes não conseguem escapar dos limites em torno de si.

Para falar de limites desejo sugerir a Fernanda Montenegro que dedique um capítulo de sua série à peça “Vestido de noiva”, que está para o teatro brasileiro assim como o “Cidadão Kane”, de Orson Welles, está para o cinema internacional.

Deve ser esta talvez a última escala da viagem de Nelson Rodrigues, conduzida por Fernanda, em busca da eternidade do escritor e da eternidade de sua própria obra.

Meirelles prevê 3% de crescimento do PIB, sem a menor base na realidade

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Charge do Nani (nanihumor.com)

Pedro do Coutto

Pensava em escrever hoje sobre “Poesia”, de Vinícius de Moraes, obra lançada pela Companhia das Letras, e sobre a poesia de Oduvaldo Matta, “Sob a Luz de Antares”, editora Autografia, mas a reportagem de Marli Prado e Mariana Carneiro, Folha de São Paulo de domingo, passou a ter preferência no momento em que o ministro Henrique Meirelles anuncia crescimento do Produto Interno Bruto na escala de 3% no ano de 2018. Como? Se os investimentos públicos caíram , incluindo despesas com obras públicas, como o PIB pode crescer este ano e no próximo? Este ano a previsão é de 0,2%. E a expectativa de Henrique Meirelles para o ano que vem dispara na escala de 3%.

Eis uma questão que necessita ser explicada pelo Ministro da Fazenda, uma vez que está se transformando numa espécie de Mágico de Oz, filme famoso da década de 40. Na matemática, as afirmações necessitam de base concreta. E não projeções otimistas que começam e terminam na tela do computador ou na folha de papel que não rejeita atitudes otimistas.

E O PAC? – Meirelles não enfoca as reduções feitas no Programa de Aceleração do Crescimento – PAC, para o qual estavam previstas prioridades que evaporaram dos planos do governo.

A reportagem de Marli Prado e Mariana Carneiro, Folha de São Paulo de domingo, é acompanhada pela matéria de Alexia Salomão, no mesmo jornal, destacando a estimativa feita pelo Credit Suisse a respeito da economia brasileira. O Banco internacional destaca que a economia brasileira está sendo puxada para baixo na medida em que as contas públicas se encontram no vermelho.

Se as contas públicas, como na proposta orçamentária para 2018 acusam de início um déficit de 159 milhões de reais, tal constatação observada pelo Credit Suisse colide frontalmente com as palavras otimistas em excesso de Henrique Meirelles.

SEM EXPLICAÇÃO – Mágico da economia futura, o titular da Fazenda necessita explicar quais os caminhos que percorreu, ou que pretende percorrer, para prever o crescimento da ordem de 3% em 2018. A política não está nada favorável ao governo Michel Temer. Ao contrário, as prisões de Geddel Vieira Lima, Joesley Batista e Ricardo Saud tornam-se fatores adversos para o Palácio do Planalto.

O presidente Michel Temer, no fundo da questão, gostaria que não tivessem acontecido a Lava Jato, com também desejaria que o Tesouro de Geddel permanecesse oculto, uma vez que não pode haver uma explicação legítima para tal acumulação de dinheiro num apartamento de Salvador próximo à sua residência.

GedDel Vieira Lima, afinal de contas, foi nomeado ministro pelo presidente Michel Temer. Se o presidente não sabia das atividades de Geddel, é algo que depõe contra a percepção presidencial. Se ele sabia, pior ainda. As duas versões são péssimas.

DINHEIRO VIVO – As fotos das malas de dinheiro foram colocadas pelos jornais e revistas à vista de todos os brasileiros.  As imagens conduzem a uma sensação de perplexidade. Quais foram as práticas usadas por Geddel e acolhidas  pelo poder que levaram a uma acumulação de 51 milhões de reais num apartamento?

São fatos que se adicionam a um processo extremamente crítico que envolve os governos de Lula, Dilma, do próprio Temer. No caso de Michel Temer, antes de Geddel, ele já fora obrigado a anular a nomeação de Romero Jucá para o Planejamento e a de Henrique Eduardo Alves para o Turismo.

Os episódios críticos crescem a todo momento, como cresceu o tesouro de Geddel. O que o Planalto pode dizer sobre isso? E o que o ministro Henrique Meirelles pode esclarecer a respeito de sua previsão sobre o Produto Interno Bruto?

Tesouro de Gedel e prisão de Joesley consolidam a atuação de Rodrigo Janot

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Charge do Aroeira (portal O Dia/RJ)

Pedro do Coutto

O tesouro de Gedel Vieira Lima, ex-ministro dos governos Lula e Temer e ex-vice-presidente da Caixa Econômica Federal ao longo do mandato de Dilma Rousseff, encontrado num apartamento em Salvador no montante de 51 milhões de reais, não pode ter sido remetido num dia só e sim através de meses seguidos, que resultaram no acúmulo revelado pela Polícia Federal e reproduzido em todos os jornais do país. Quanto à prisão de Joesley Batista e Ricardo Saud, proposta pelo Procurador Geral da República ao Supremo Tribunal, é praticamente certo que será concretizada, como segunda etapa do processo detonado pela JBS.

Com isso, Rodrigo Janot se consolida sob o aspecto político na medida em que o Supremo aceitar prender novamente Joesley. Nas gravações que ele mesmo produziu, sem dúvida desacatou o STF.

O CASO DE MILLER – A prisão do ex-procurador Marcelo MIller é uma consequência lógica do comportamento que ele próprio adotou. Demitiu-se espontaneamente da PGR, mas seu projeto de advocacia frustrou-se. Depois das revelações dos irmãos Batista, ele deixou de interessar ao escritório onde deu os primeiros passos para articular a delação premiada da JBS. Sua presença na equipe passou a ser negativa. E assim, Rodrigo Janot acertou o alvo mais sensível de toda a trama no atual capítulo das delações e de suas premiações.

A reportagem de Carolina Brígido e de Jailton de Carvalho, em O Globo de sábado, antecipou a ação do Procurador Geral no caso de Joesley Batista e Marcelo Miller. O jornal saiu na frente da Folha de São Paulo e O Estado de São Paulo. Foi o primeiro a noticiar a representação de Rodrigo Janot. Mas esta é outra questão.

MALAS DE DINHEIRO – O caráter essencial do tesouro de Gedel Vieira Lima contém em si a evidência de que as malas e caixas de dinheiro foram se acumulando através do tempo, uma vez que não faria o menor sentido que fossem transferidas todas de uma só feita. O episódio remete a uma sequência prolongada de corrupções, as quais, mesmo assim,  não foram suficientes para impedir sua nomeação para a equipe ministerial de Michel Temer.

Esses 51 milhões de reais resultaram em qual volume de corrupção que antecederam sua passagem as mãos de Gedel, que inclusive, como a Polícia Federal constatou, não teve a preocupação de não deixar nas notas suas impressões digitais. O tesouro foi fotografado e ficará eternamente na memória do país e da opinião pública.

NOS CINEMAS – E por falar em Polícia Federal, excelente o filme “A Lei é Para Todos” que retrata o desencadeamento da Operação Lava Jato. Trata-se de um filme-reportagem porque intercala sequências que reproduzem situações e no final, intercala flashes da realidade com o decorrer da história. Entre esses flashes, há um que reproduz literalmente a nomeação do ex-presidente Lula para a Casa Civil de Dilma Rousseff. Outros personagens aparecem na parte final, caso de Paulo Roberto Costa.

O filme, ao mesmo tempo uma reportagem, lembra o italiano A “Cidade Se Defende”, do diretor Pietro Germi, sobre a Camorra Napolitana, rival no crime da Máfia Siciliana.

No Brasil as correntes corruptas uniram-se num rio só. Com as ações do Ministério Público e da Polícia Federal, ao que tudo indica, a fonte secou.

De Geddel a Joesley, em meio ao impacto do IPTU na cidade do Rio

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Charge do Orlandeli (Arquivo Google)

Pedro do Coutto

Enquanto se assiste pela TV à prisão de Geddel Vieira Lima em regime fechado e se aguarda a decisão de Rodrigo Janot de anular a delação premiada concedida a Joesley Batista, vamos focalizar a Lei aprovada pela Câmara dos Vereadores que vai causar impacto contra a população carioca através dos aumentos do IPTU e do Imposto de Transmissão. Vamos por partes.

A decisão de Rodrigo Janot, procurador geral da República, de cancelar os benefícios concedidos a Joesley Batista está focalizada principalmente nas reportagens de Carolina Brígido, O Globo, e de Beatriz Bulla, O Estado de São Paulo, ambas nas edições desta sexta-feira. A questão do IPTU, cujo aumento foi contestado pela vereadora Tereza Bergher, que vai recorrer à Justiça, foi destaque na matéria de Erenice Bottari e Gustavo Goulart, em O Globo de quinta-feira. Tereza Bergher, no primeiro passo, já formulou representação junto ao Ministério Público.

CIDADÃO ONERADO – A elevação do IPTU e do IT atinge a metade dos domicílios existentes na cidade do Rio, algo em torno de 850 mil imóveis. O Imposto de Transmissão incide sobre as transferências e venda de unidades residenciais, inclusive as decorrentes de heranças. O prefeito Marcelo Crivela adotou, no caso do IPTU, o critério baseado no valor de venda dos imóveis, sejam eles residências ou escritórios. O valor venal atinge também lojas comerciais. Em síntese: abrange quaisquer transações imobiliárias.

O Imposto de transmissão, atualmente de 2% sobre o valor do imóvel, passa a ser de 3%. Logo implica em majoração de 50%, diferença entre a taxa de ontem e a de que vigora a partir de hoje. Elevação expressiva, muitas vezes superior à inflação entre 2016 e a de 2017. As duas escalas inflacionárias representam 4,5% em 2016 e cerca de 3% em 2017. O índice aceitável seria uma correção de 7,5%, não de 50%.

ARBÍTRIO – No caso do IPTU, o principal problema apontado por Tereza Bergher encontra-se no arbítrio a ser adotado pelo prefeito em relação ao valor potencial dos imóveis, especialmente os residenciais, que são a grande maioria. Com essa faculdade, a Prefeitura do Rio, a fim de elevar a receita, pode aumentar à vontade o imposto em questão. Acontece que o IPTU, no caso das locações, é pago pelos inquilinos e locatários. Portanto atinge grande parte da população carioca.

Ocorre – acentua a vereadora do PSDB – que o valor potencial do imóvel não necessariamente representa seu valor de mercado. Isso porque o valor de mercado encontra-se comprimido há pelo menos 3 anos, e assim torna-se muito difícil estabelecer um valor tributário à base da suposição de que cada residência por exemplo, vale tantos reais por metro quadrado, sem levar em consideração o valor real para efeito concreto das transações. É muito fácil projetar o valor dos imóveis dos outros, de modo geral, sem levar em conta a dificuldade atual de mercado.

MERCADO FRACO – Os financiamentos da Caixa Econômica Federal, para citar um exemplo, diminuíram sensivelmente no período de 2015 a 2017, tornando mais difíceis as negociações que envolvem possíveis transações. É muito fácil dizer, para efeito de cobrança do IPTU, que o imóvel vale hoje muito acima do que valia no ano passado. Mas é extremamente difícil efetuar um cálculo arbitrário, sem levar em conta as restrições de mercado.

O prefeito Marcelo Crivella deseja arrecadar, tanto assim que vai colocar à venda seu camarote no desfile das Escolas de Samba. Porém, o prefeito não deve esquecer jamais as dificuldades financeiras da população.

A vereadora Tereza Bergher espera  alcançar êxito na sua representação ao Ministério Público e a Justiça. Esperemos que sua iniciativa seja confirmada pelos fatos. Afinal, estão em jogo as contas de todos os que moram no Rio de Janeiro.

Palocci detona Lula e a explosão volta a fortalecer o procurador Rodrigo Janot

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Em uma só tacada, Palocci incriminou Lula e Dilma

Pedro do Coutto

O depoimento claro e absolutamente direto do ex-ministro Antonio Palocci ao juiz Sérgio Moro foi a bomba que explodiu a defesa do ex-presidente Lula e trouxe, por reflexo, um novo fortalecimento do Procurador Geral da República, Rodrigo Janot, demonstrando que as denúncias formuladas encontram plena confirmação na realidade dos fatos. Principalmente no ponto em que o ex-ministro da Fazenda de Lula e ex-ministro chefe da Casa Civil de Dilma Rousseff confirma a celebração de um pacto entre Luiz Inácio Lula da Silva e a empresa, fechando um acordo entre ambos que inclui a propina de 300 milhões de reais para obtenção de superfaturamentos em contratos com a Petrobrás e outras obras.

O depoimento de Antonio Palocci detona também a ex-presidente Dilma Rousseff como conhecedora do pacto e recebedora de doações eleitorais disfarçadas na campanha da sua própria sucessão em 2014. O valor de 300 milhões de reais assusta, é claro, pelo seu volume, porém está plenamente confirmado pelo empresário Emílio Odebrecht, controlador da empreiteira e pai de Marcelo Odebrecht, que se encontra preso há dois anos em Curitiba.

CRISE MORAL – Reportagens de Chico Prado, Demétrius Dantas, Gustavo Scimit, Sérgio Roxo e Carolina Brígido, em O Globo desta quinta-feira, focalizam com total nitidez o relato desse episódio que agravou a crise moral do poder. Além desta matéria, acrescente-se a de Andre de Souza e Jailton de Carvalho, na mesma edição do jornal, reproduzindo o reflexo da explosão no Supremo Tribunal Federal.

Neste ponto é que transparece o apoio da ministra Carmen Lúcia, presidente do STF, e dos ministros Celso de Mello, Luiz Fux e Marco Aurélio Mello à atuação de Rodrigo Janot, cujo refortalecimento colide com o que o presidente Michel Temer poderia esperar no incidente envolvendo Joesley Batista e Ricardo Saud no capítulo da delação premiada.

STF A FAVOR DA LEI – Por que o posicionamento de integrantes do Supremo não foi do agrado do Planalto? Ora, porque os ministros citados mostraram-se favoráveis à validação das provas que os irmãos Batista apresentaram, separando-as da posição pessoal dos colaboradores em busca de uma liberdade que, ao que tudo indica, vai durar muito pouco. Ficou claro, aliás, que as fitas de quatro horas de duração vão transportar seus autores para um regime de prisão, como sustentou o ministro Luiz Fux.

É preciso considerar também que o atual capítulo da operação Lava-Jato apresenta também um personagem de grande importância na sequência criminal: o milionário Geddel Vieira Lima, o homem que guardava em casa, 51 milhões de reais, cuja origem ele terá que explicar. Malas cheias de notas de 100 e 50 reais, além de dólares. As malas revelam ser o meio de transporte adotado por ladrões, visando lucrar com isso. Uma ponte entre a lei e o crime. Nesse panorama visto da ponte – para citar a peça de Arthur Miller – situa-se também a mala noturna de Rocha Loures, que igualmente deverá traduzir o destino da encomenda.

NOVA TEMPESTADE – Fatos novos, portanto, iluminam a nova etapa da tempestade que se desenvolve no país, confirmando o dinamismo sequente próprio da área política e do processo dos que percorrem caminhos sinuosos e sombrios em busca do dinheiro e do poder. O dinheiro, nesse caso, trata-se de um instrumento de comunicação entre os que querem servir e os que se servem da corrupção.

Eterna verdade, infelizmente exponenciada ao máximo pelos ladrões de Brasília e das empreitadas escusas no campo da vida. Principalmente em torno do Planalto e da Esplanada que Niemeyer projetou em Brasília.

Geddel, como personagem de René Clair, num mar de dinheiro e corrupção

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Charge do Renan Lima (Arquivo Google)

Pedro do Coutto

Reportagens dos quatro maiores jornais do país, O Globo, Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo e o Valor, publicaram com grande destaque, aliás merecido, que a Polícia Federal – apreendeu 51 milhões de reais, propriedade de Geddel Vieira Lima, espalhados pelo chão, em malas num apartamento cedido ao ex-ministro para guarda de objetos de família. A justificativa (falsa) explodiu na televisão e na imprensa como uma prova direta da corrupção desencadeada no país e que a cada dia parece ser maior do que se pensava na véspera.

Geddel Vieira Lima realizou na vida real a história de um personagem do diretor francês René Clair, um homem que adorava estender-se sobre colchões de dinheiro. O nome do filme é Monsieur Bancô (pronúncia francesa). O episódio de Salvador fica depositado na memória ao lado daquela obra. Gedel foi ministro do governo Michel Temer e antes vice-presidente da Caixa Econômica Federal do governo Dilma Rousseff e ministro de Lula.

PAPEL DE DESTAQUE – Geddel não é o único protagonista do assalto aos cofres públicos, mas inegavelmente integra o elenco, com papel de destaqie. Como é possível explicar a propriedade dos R$ 51 milhões que repousavam no apartamento de Salvador.

Mas se esta é uma comprovação, ao lado existem enigmas a serem decifrados. Um deles a gravação de Joesley Batista e Ricardo Saud que foi parar nas mãos do Procurador Geral Rodrigo Janot. O Procurador Geral, na minha opinião, à primeira vista parece ter se precipitado, quando disse que existiam fatos gravíssimos nas gravações de quatro horas envolvendo até o Supremo Tribunal Federal.

Pelo que se leu nos jornais, relativamente ao Supremo existem apenas generalidades e nenhum comprometimento dos ministros citados, Carmen Lúcia, Ricardo Lewandovsky e Gilmar Mendes.

EX-PROCURADOR – O fato importante refere-se ao ex-procurador Marcelo Miller, apontado como uma espécie de ponte entre a JBS e a delação de seu controlador majoritário.

A verdade é que essas últimas gravações, a rigor, não desqualificam a conversa gravada no Palácio Jaburu e tampouco o filme que destaca a corrida de Rodrigo Rocha Loures na noite paulista. Mas abre pelo menos uma perspectiva de redução da carga política contra o presidente Michel Temer. A menos que a delação do doleiro Lúcio Funaro, homologada pelo ministro Edson Fachin, possa reacender a temperatura em torno do Palácio do Planalto e do PMDB. Temos que esperar os próximos desdobramentos. Michel Temer está de retorno da China. Porém veio informado plenamente dos últimos acontecimentos. Não trazem alívio para aqueles que direta, ou indiretamente participaram da avalanche de dinheiro que foi retirado dos cofres públicos.

BOLSO DO POVO – Esta conta foi transferida para a população brasileira. As empreiteiras e fornecedores de notas frias não perderam nada. Descontaram as diferenças roubando o bolso do povo.

Uma coisa entretanto é certa: com Janot ou Rachel Dodge na Procuradoria Geral da República, o roubo vai diminuir consideravelmente. E em velocidade a jato, a exemplo da operação do mesmo nome.

Rodrigo Janot cria uma trama cheia de enigmas, do tipo “O Terceiro Homem”

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Charge do Aroeira (Portal O Dia)

Pedro do Coutto

O Procurador Geral da República, Rodrigo Janot (a melhor matéria sobre suas declarações de segunda-feira, foi a de Beatriz Bulla e Fábio Serapião, O Estado de São Paulo de terça, dia 5) – anunciou a hipótese de revisar o acordo de delação premiada com Joesley Batista e Ricardo Saud diante da hipótese de faltarem informações essenciais em torno dos casos de corrupção dos quais os controladores da JBS foram protagonistas e ao mesmo tempo testemunhas capazes de identificar aqueles que conseguiram seduzir e comprar com dinheiro as consciências e parcerias.

Entretanto, Janot revelou estar de posse de quatro horas de diálogos gravados contendo acusações gravíssimas nas gravações de 240 minutos feitas pelo próprio Joesley Batista, que não sabia manusear adequadamente o equipamento de áudio? As gravações (com grande parte apagadas) foram entregues pela defesa de Joesley e chegaram às mãos de Rodrigo Janot, que as transferiu ao ministro Edson Fachin, relator da Lava Jato.

VÁRIOS ENIGMAS – Como explicar essa trama, que tem vários enigmas?, eis a pergunta lógica. Neste ponto, o enredo lembra o filme famoso de Carol Reed, “O Terceiro Homem”, com Orson Welles no papel principal.

Ocorre que a gravação recuperada pela Polícia Federal já está sendo desmoralizada, porque Joesley e Saud estavam visivelmente embriagados, fazendo ilações absurdas e dizendo bobagens o tempo todo. Tanto assim que, no final da tarde desta terça-feira, dia 5, Joesley e Saud divulgaram uma nota oficial desmentindo tudo o que haviam gravado.

ELDORADO E ELETROBRÁS – Reportagem de Estela Fontes e Carolina Mandi focaliza a venda da Eldorado papel e celulose, do grupo JBS, a uma empresa estrangeira por 15 bilhões de reais. Portanto deve ser revista a avaliação que o governo Michel Temer divulgou em relação ao valor de mercado da Eletrobrás: 22 bilhões de reais.

Se a Eldorado sozinha vale 15 bilhões, a Eletrobrás, que inclui Furnas, Chesf,Eletronorte e Eletrosul, não pode valer apenas 22 bilhões de reais. Fica a informação comparativa que poderá servir para o dimensionamento do processo de privatização da holding de energia.

O eterno Nelson Rodrigues, imortalizado agora por Fernanda Montenegro

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Foi uma bela iniciativa da atriz Fernanda Montenegro em promover uma série teatral sobre Nelson Rodrigues, que há quatro anos viaja pelo Brasil fazendo leituras de textos de Nelson Rodrigues. As crônicas, que falam de amor, adultério, futebol, juventude e até sobre a tragédia que culminou nas mortes do irmão e do pai do dramaturgo, viraram no programa Fantástico a série “Nelson – Por Ele Mesmo”, na qual a consagrada atriz orienta a interpretação de Otávio Müller em episódios baseados nas crônicas do livro “Nelson Rodrigues – Por Ele Mesmo”, organizado por Sônia Rodrigues, sua filha.

Fantástica também é a obra do dramaturgo, cronista esportivo, teatrólogo e memorialista que saiu do palco da vida em 1980, aos 68 anos, mas continua sendo representado, como destacou a atriz em todos os pontos do país. Pode-se dizer que na maioria dos teatros brasileiros há sempre um Nelson Rodrigues à espera dos espectadores da arte.

FERNANDA À FRENTE – Curiosa a situação inteligente de Fernanda Montenegro: de personagem de Nelson à diretora da reapresentação dos vários nelsons que se encontram caminho a fora. Atriz nelsonrodriguiana em “A Falecida”, Fernanda revive Nelson na seleção de frases e títulos e peças que imortalizam seu autor. Uma viagem no tempo, sem dúvida. Aliás, com o passar do tempo os artistas, não morrem ficam encantados e revivem na emoção dos que admiram sua arte eterna.

Shakespeare não morreu: vive intensamente por mais de quatro séculos. Chaplin não morreu. Orson Welles também não. Nelson Rodrigues, no mesmo elenco. Não existe língua nenhuma na qual Shakespeare não tenha sido apresentado e representado. Uma diferença entre Shakespeare e Nelson Rodrigues, segundo observação de Carlos Heitor Cony: os personagens de Shakespeare são figuras da nobreza. Os personagens de Nelson Rodrigues são pessoas comuns que oscilam na variação de situações imprevistas.

VESTIDO DE NOIVA – Mas eu citei Orson Welles. Porque, numa coincidência, a grande obra de Welles, “Cidadão Kane” é do mesmo ano, 1942, do que “O Vestido de Noiva”, sucesso absoluto no Rio com a direção magistral de Ziembinski. Os planos de uma história e outra mexem com a memória, equilibram-se em planos diversos e se projetam no interior da mente humana.

Só os profetas enxergam o óbvio e toda unanimidade é burra. São frases preferidas de Nelson Rodrigues e com elas navegou no mar da existência. Marcado por tragédias familiares, como o assassinato de seu irmão Roberto, Nelson tornou-se vítima do drama e o projetou ao longo de sua obra. Fernanda Montenegro relembrou frases suas e por elas vai caminhar iluminando as noites de domingo.

Nelson Rodrigues também iluminou espaços da vida e da arte. Por exemplo, a peça “Anjo Negro”, que estreou no teatro Municipal, enfrentou reações raciais. Não queriam um negro no palco sagrado. Desejavam um homem branco pintado de negro, exemplo de como se apresentou o cantor All Johnson. Nelson manteve o ator negro no papel principal.

TUMULTO NO MUNICIPAL – A peça “Perdoa-me por me traíres”, em 1956. teve sua estréia conflagrada, também no Municipal.

As reações colidiram e, me lembro bem, o vereador Wilson Leite Passos sacou o revólver. Não disparou, mas intimidou. Mais tarde, nas suas memórias, Nelson Rodrigues destacou que fora o único teatrólogo a ter uma peça assassinada. Claro, foi uma frase de humor, mas que deve ficar para sempre, como a sua obra.

“À Sombra das Chuteiras Imortais”: com esta coluna, era o cronista esportivo. Em “A Vida Como Ela É”, era o autor das tramas do cotidiano. “Nas Confissões”, em O Globo, consagrou-se como memorialista. O memorialista surgiu de uma contradição.

DECEPÇÃO COM O GLOBO – Autor de “O Casamento”, romance interditado pelo ministro da Justiça, Carlos Medeiros, foi surpreendido com um tópico de primeira página de O Globo apoiando a interdição. Desgostoso, pensou em escrever para o Correio da Manhã. A sugestão foi minha. E Nelson partiu para “As Memórias’. Duraram pouco, como o Correio da Manhã na época.

Por insistência de Roberto Marinho, Nelson ampliou sua presença em O Globo. Além da coluna esportiva e “Da Vida Como Ela É”, o artista tornou-se uma presença fixa e tripla no jornal que permanece até hoje como um dos mais importantes do país. “As Memórias” e “As Confissões”, as peças de teatro e os filmes baseados em obras suas ficam permanentemente na emoção e na consciência.

Da consciência dos que vivem hoje e na emoção dos que vierem ao longo do tempo depois de nós. E Fernanda Montenegro, imortalizando Nelson, imortalizou a si própria.

Michel Temer, o “ladrão-geral”, está na obrigação de processar Joesley Batista

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Charge do Jota A (Portal O Dia/PI)

Pedro do Coutto

Matéria divulgada no sábado e publicada domingo – reportagem de Marina Dias, Gustavo Uribe e Letícia Casado, na Folha de São Paulo – o empresário Joesley Batista rebateu a versão do Planalto e afirmou que Michel Temer é o ladrão-geral da República. Acrescentou que ele não consegue se defender dos crimes que comete. O presidente da República está na obrigação moral de processar o controlador da JBS. Afinal de contas, chamar o presidente da República de ladrão geral é algo inusitado ao extremo e que não pode ficar sem resposta, sob pena de o silêncio significar um enfraquecimento político surpreendente.

A declaração de Joesley Batista foi em resposta a manifestação do governo que desclassificou a delação de Batista feita ao Procurador-Geral Rodrigo Janot. O Planalto falou na sexta-feira, os jornais publicaram no sábado e, na sequência, Joesley respondeu. A reportagem da Folha sustenta que o governo tentou antecipar a defesa diante do depoimento de Lúcio Funaro e nessa antecipação incluiu Joesley Batista.

NOVAS GRAVAÇÕES – Joesley decidiu entregar à Procuradoria Geral da República novas gravações que manteve com políticos, inclusive conversas com a participação de Funaro, operador da Lava-Jato para o PMDB, além de representar uma ponte entre Eduardo Cunha e o sistema de propinas na Petrobrás.

Além disso, Lúcio Funaro revelou ter recebido 400.000 reais para se manter em silêncio e assim não envolver Michel Temer.

Temer recebeu a notícia em Pequim, no primeiro momento decidiu antecipar seu retorno ao Brasil, mas foi convencido por integrantes da comitiva a não proceder assim. A reação, portanto, fica adiada provavelmente para quarta ou quinta-feira, 7 de setembro, feriado nacional o que logicamente adiará o processo contra Joesley Batista para sexta-feira. Será surpresa se o presidente da República não proceder assim.

Afinal de contas, sob a ótica de Michel Temer, a acusação de ser um ladrão representa grave calúnia, caso não seja confirmada pelos fatos. Entretanto, vale admitir que a abertura de um processo judicial apresentará desdobramentos de vários tipos e formas. Contudo, o chefe do Executivo encontra-se na obrigação moral de reagir, uma vez que ser chamado publicamente de ladrão não pode se transformar num fato comum da política.  Pelo contrário.

SINGULARIDADES – É algo tão inédito na história do Brasil, da mesma forma que o processo por corrupção passiva que a Câmara dos Deputados não permitiu que fosse julgado pelo Supremo Tribunal Federal marcou também um episódio absolutamente singular.

A reportagem de Marina Dias, Gustavo Uribe e Letícia Casado inclui outra acusação: uma delas retrata a versão do mesmo Joesley contra Aldemir Bendine, ex-presidente da Petrobrás. A JBS afirma ter destinado 5 milhões de reais a Bendine sob o pretexto de empréstimo. Tal fato foi noticiado também pela TV Globo no JN de sexta-feira. Joesley diz que o pedido foi feito em sua casa. Bendine teria dito que o dinheiro destinava-se a pagar despesas de uma transação imobiliária.

Empréstimos como os pedidos à mesma pessoa por Aécio Neves e Aldemir Bendine não incluem nas solicitações nem juros, nem correção monetária, muito menos prazos de resgate. As posições de Aécio e Bendine estão para ser resgatadas junto à opinião pública.

Dilma apaga Lula da sucessão e diz preferir Alckmin a João Dória ou Bolsonaro

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Charge do Clayton (Jornal O Povo/CE)

Pedro do Coutto

São três matérias ganharam destaque na imprensa neste final de semana, comprovando que na política, como na economia, a movimentação não se interrompe. Não só na política e na economia, na própria vida humana. São três assuntos, um título para cada um, conceitos e observações sob vários ângulos. Isso sem nos afastarmos da lógica insubstituível para qualquer análise. Vamos aos episódios.

Numa entrevista a Bernardo Mello Franco, Folha de São Paulo de sábado, a ex-presidente Dilma Rousseff, focalizando a sucessão presidencial de 2018, afirmou que prefere a vitória nas urnas de Geraldo Alckmin a João Dória ou a Jair Bolsonaro. Surpresa? Nada disso. Dilma Rousseff voltou seu pensamento para a certeza de Luiz Inácio Lula da Silva vir a ser impedido de concorrer, por decisão do Judiciário. Deixou antever, pelo tom com que dirigiu sua resposta à pergunta de Bernardo Mello Franco, que já não acredita que Lula possa ultrapassar a decisão judicial que o afastaria da sucessão.

Dilma disse que o PT ainda não discutiu quem poderá substituir a candidatura do ex-presidente em 2018. “Trata-se”, frisou, “de uma obra aberta. Do nosso ponto de vista, essa discussão não pode ser antecipada”. E acrescentou: “Não seremos nós os algozes da democracia. Algozes da democracia são aqueles que se unem ao presidente Michel Temer que pensam até na implantação de um Parlamentarismo para permanecer no poder. Os que livraram Michel Temer do julgamento pelo Supremo Tribunal Federal são os mesmos que me condenaram. E indagou: Serão necessárias mais gravações com malas de dinheiro?  Isso porque o golpe contra mim não foi uma peça de um ato só. Foi para evitar que as investigações chegassem até eles, os integrantes do atual governo.

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COMO O CONSUMO CRESCEU, SE OS INVESTIMENTOS BAIXARAM?

Reportagem de Marcelo Correa, Marina Brandão, Cassia Almeida e Gabriel Martins, em O Globo, destaca o crescimento de 0,2% do Produto Interno Bruto anunciado pelo governo na sexta-feira, acentuando que o consumo das famílias brasileiras foi responsável pelo avanço, o qual, embora pequeno, pode significar uma melhora no cenário econômico. Entretanto, uma pergunta deve ser respondida pelo Planalto ou pelo IBGE: como o consumo evoluiu se os investimentos no mês de julho ficaram no pior nível desde 1996, de acordo com matéria de Vinicius Neder e Daniela Amorim, em O Estado de São Paulo.

As duas informações são incompatíveis, porque, se os investimentos caíram, como explicar o crescimento do consumo? O IBGE deve decifrar o enigma.

Os salários não aumentaram, o desemprego caiu para 13%, mas a queda não inclui os contratos de trabalho com carteira assinada. Não é fácil acreditar que os empregos informais possam ter avamçado numa escala de 0,5%, o que se choca com a lógica dos fatos. Por exemplo: qual foi o método utilizado pelo IBGE para aferir o crescimento do trabalho informal?

Quanto ao trabalho formal, o cálculo pode ser feito à base das contribuições para o INSS e para o FGTS. Esta fórmula não pode ser aplicada ao universo da informalidade de modo geral, mesmo levando-se em conta que trabalhadores avulsos se tornam contribuintes do INSS para garantir sua futura aposentadoria. Mas como o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística conseguiu assinalar a expansão da informalidade? Esperemos uma explicação.

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CBF CONTRATA AGÊNCIA PARA NEGOCIAR PUBLICIDADE NA TV

Ítalo Nogueira e Sérgio Rangel, na Folha de São Paulo do dia 2, revelam que a CBF está disposta a dobrar o valor dos direitos de transmissão dos jogos do selecionado brasileiro, abrindo uma disputa entre a Rede Globo e outras redes que possam estar interessadas no contrato. Pretende vender os direitos por 466 milhões de reais, abrangendo a Copa de 2018 até a de 2022, incluindo os jogos amistosos que a equipe realizar.

São, ao todo, 37 partidas previstas incluindo TV aberta, TV a cabo e Internet. O preço de 466 milhões representa o dobro do contrato anterior adquirido pela Rede Globo.

As regras básicas permitem ofertas conjuntas de diferentes emissoras, porém a exclusividade conduz ao valor atualmente fixado pela CBF.

Um dado curioso do projeto da Confederação Brasileira de Futebol, a meu ver, reside no fato de a entidade ter contratado a agência Synergy Football, que tem sede na Suíça, para formatar o contrato a ser firmado, ou com a Rede Globo ou incluindo outra emissora.

Acho difícil outra emissora entrar na área do futebol na televisão. Temos o exemplo do que aconteceu em junho quando a Globo recusou-se a comprar horários para transmissão de amistosos da Seleção Brasileira na Austrália. Um possível contrato foi firmado entre a CBF, de um lado , e de outro a TV Brasil e a TV Cultura. Resultado: audiência mínima marcou o episódio.

Mas esta é outra questão. O que se estranha é a contratação de agência intermediária quando o problema pode ser resolvido fácil e diretamente pela própria CBF com a Globo, ou então com a Globo e outra emissora. O contrato pode dispensar a intermediação.

Joaquim Barbosa (candidato?) diz que país foi sequestrado por políticos corruptos

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Charge do Jeremias Castro (Arquivo Google)

Pedro do Coutto

Numa longa entrevista a Maria Cristina Fernandes, suplemento do Valor, edição de sexta-feira, o ministro aposentado do STF, Joaquim Barbosa, afirmou existir uma balbúrdia institucional no Brasil, pois o país foi sequestrado por um bando de políticos inescrupulosos que reduziram nossas instituições a frangalhos. Em nenhum país do mundo – destacou – o chefe de Governo permaneceria no cargo depois das acusações que foram feitas contra Michel Temer. Para Joaquim Barbosa, Michel Temer deveria ter tido a honradez de deixar a Presidência da República.

Joaquim Barbosa, de acordo com o texto de Maria Cristina Fernandes, seria um candidato forte à sucessão presidencial de 2018. Na entrevista, em princípio negou ser candidato, porém o tom da negativa não foi definitivo. Abriu assim a perspectiva de eventualmente assumir a candidatura, lembrando já ter recebido convites de partidos políticos como a Rede, de Marina Silva, de setores do PSB e de correntes até do PT.

E A FILIAÇÃO? – A intenção ficou no ar. Mas, digo eu, se o movimento em torno de seu nome se consolidar numa legenda, ele terá que se filiar a esse partido até 7 outubro, pois  a legislação eleitoral estabelece a exigência de um ano de filiação partidária para todos os candidatos de modo geral.

Por coincidência, na mesma sexta-feira, em entrevista a Folha de São Paulo, o governador Geraldo Alckmin afirmou que será candidato à sucessão de Michel Temer, rompendo assim abertamente com o prefeito João Dória que também postula ser candidato do PSDB. Na área dos tucanos, são os dois nomes fortes, uma vez que Aécio Neves e José Serra, especialmente o senador mineiro, foram fortemente atingidos pelas delações premiadas de Joesley Batista.

PRESIDENCIALISMO – Mas vamos voltar a Joaquim Barbosa. O ministro aposentado do STF sustentou ser contrário a qualquer iniciativa que signifique um esforço para transformar o regime de Presidencialista em Parlamentarista. A seu ver, trata-se de uma ideia absolutamente caótica, sobretudo porque o Parlamentarismo já foi rejeitado maciçamente em dois plebiscitos: de 1963 e o de 1993.

Perguntado por que a população se mobilizou para derrubar Dilma Rousseff e não se mobilizou para afastar Michel Temer, acentuou acreditar que a explicação se encontra no cansaço da sociedade diante da instabilidade política do país.

A entrevistadora lembrou que Joaquim Barbosa possui uma popularidade muito ampla, não só junto às classes de menor renda, como também em relação a classe média, e o entrevistado permaneceu em silêncio diante da colocação.

CAPITALISMO – Em seguida, retomando o diálogo, Barbosa sustentou que o Brasil precisa de um capitalismo de verdade. Uma união entre o capital e o trabalho. Para ele, a Democracia baseia-se na ideia de Jean Jacques Rousseau que há séculos atrás equacionou dessa forma as forças produtivas dos países. Ressaltou, entretanto, que o tamanho do Estado na economia precisa ser diminuído, porém o mais essencial é o combate frontal e vigoroso à corrupção.

A respeito de seu conhecimento com a História Francesa, incluindo seus princípios essenciais de liberdade, Joaquim Barbosa lembrou ter residido quatro anos naquele país onde cursou mestrado em Direito. Formou-se em Direito logo após trabalhar como jornalista no Correio Brasiliense e no Jornal de Brasília.

BESTIALIZAÇÃO – Num dos trechos da reportagem, Barbosa, focalizando a campanha para 2018 disse identificar dificuldades, pois o país está sendo bestializado pelo governo Michel Temer e pelo descrédito nas instituições. Por isso a magistratura comanda o espetáculo e tem encontro marcado em 2018.

Joaquim Barbosa não esclareceu a qual tipo de encontro está no seu pensamento. Mas também não havia necessidade. Logicamente poderá marcar presença numa convergência da ética e da honestidade contra corrupção, os corruptos, os corruptores.

Deixou no ar se será ou não personagem de tal jornada. Mas o que falou foi suficiente como mensagem aberta à população brasileira.

Gilmar e Guiomar Mendes, embaralhados na poesia eterna de Cartola e Ary Barroso

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Gilmar e Guiomar estão cada vez mais enrolados

Pedro do Coutto

Para não dizer que não falei de flores, título de uma das últimas colunas de Carlos Castelo Branco no Jornal do Brasil, é meu assunto de hoje. Em entrevista à Folha de São Paulo desta quinta-feira, a advogada Guiomar Mendes, mulher do ministro Gilmar Mendes, rebateu a representação do Procurador Geral Rodrigo Janot contra o seu marido, na qual sustenta a intimidade entre ele e Jacob Barata Filho, por ser este pessoa de suas relações, conforme ficou atestado pela iniciativa do empresário de enviar flores ao casal.

A matéria na Folha de São Paulo está assinada por Letícia Casado. No Estado de São Paulo, a reportagem sobre o caso é de Fausto Macedo, também nesta quinta-feira. E O Globo publicou matéria sobre o tema, em que Gilmar Mendes e Guiomar Mendes afirmaram não se lembrar de terem recebido a gentileza. Gesto pouco simpático. Afinal de contas quando se recebe flores costuma-se agradecer. Pode não ser por escrito, mas através de um telefonema.

DESAPREÇO – Me surpreende é não terem se recordado. O que pode ser interpretado como um sinal de desapreço ou desconsideração aos remetentes. Digo remetentes porque as flores estavam assinadas por Jacob Barata Filho e sua mulher. Mas esta é outra questão.

Quando eu digo que o casal Gilmar e Guimar Mendes se incluem nas poesias de Cartola e Ary Barroso é porque o primeiro é autor da bela canção “As Rosas Não Falam”, eternizada no contexto da música popular brasileira. De fato as rosas não falam, caso contrário elas poderiam revelar o equívoco de a remessa não ter sido gravada na memória do casal ilustre. Mas citei Ary Barroso e a razão está no fato de Guiomar Mendes ter afirmado que Rodrigo Janot caiu num momento ridículo ao fazer espuma sobre o nada, viajando para o desimportante.

Espuma é uma palavra contida no samba canção de Ary Barroso “Risque”. Num dos versos marcantes da canção, ficou escrito no tempo a frase “toda quimera se escuma, como a brancura da espuma que se desmancha na areia”.

NÃO MANDAM FLORES – A página poética do episódio ainda comporta uma outra citação, da peça teatral de Pedro Bloch “Os inimigos Não Mandam Flores”, grande sucesso na década de 50. De fato os inimigos não mandam flores e a amigos que os atrapalham. Não estou dizendo que as flores de Jacob Barata Filho e sua esposa se destinassem a colocar uma sombra num relacionamento cordial.  O relacionamento, na verdade, só poderia ser cordial, já que Gilmar Mendes foi padrinho do casamento da filha de Barata com um sobrinho de sua mulher Guiomar Mendes.

As flores objeto da reportagem de Letícia Casado não foram remetidas agora, como se pudesse supor que se tornassem manifestação de agradecimento pela transformação da prisão do empresário de ônibus transferida para seu domicílio. Não, nada disso. As rosas chegaram dois anos depois do casamento destacado nos dias de hoje pela memória da imprensa.

SINAL DE AMIZADE – O que representam as rosas? Apenas um sinal de amizade transmitido por um conjunto de cores. O sinal de amizade, pelo esquecimento registrado, não foi bem compreendido. As flores não falam, mas exalam (como disse Cartola) um sentimento de afeto e de aproximação.

Se tal aproximação será ou não motivo do impedimento levantado por Rodrigo Janot, este será um problema a ser respondido pelo Plenário do próprio Supremo Tribunal Federal.

Queda da arrecadação mostra o fracasso do projeto de Henrique Meirelles

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Meirelles mostra que o problema está aumentando

Pedro do Coutto

Reportagem de Lorena Rodrigues e Eduardo Rodrigues, O Estado de São Paulo desta quarta-feira, aponta um déficit na arrecadação federal de 20,2 bilhões de reais, no mês de julho, o pior resultado em 12 meses. Com isso o déficit previsto para o exercício de 2017 passou a ser de 183,7 bilhões superando assim a estimativa original, do próprio Ministério da Fazenda que era de 159 bilhões. No período janeiro a julho a receita total caiu 1,3%. O que significa isso?

Significa que num período de recessão, no qual prevalece a queda do consumo, não existe política fiscal que possa alcançar êxito em matéria de arrecadação de impostos.

RESULTADO PRIMÁRIO – Um déficit estabelecido agora ainda não representa a verdade absoluta do processo fiscal, isso porque trata-se do chamado resultado primário das contas públicas. O resultado completo tem que incluir as despesas com o pagamento de juros de 9,25%a/a (taxa Selic) que incide sobre o estoque da dívida federal num montante de 3,3 trilhões de reais.

Dessa forma, se adicionarmos o déficit previsto em 183 bilhões com mais 320 bilhões de juros chegaremos a uma cifra espantosa, estarrecedora, de mais de 600 bilhões de reais.

Tal montante equivale a 20% do orçamento geral da União para este ano de 2017. Tem-se a impressão de que o governo encontra-se no caso de um navio sem rumo certo.

COBRANDO O BNDES – Basta ler uma reportagem de Adriana Fernandes na mesma edição de O Estado de São Paulo que destaca uma cobrança do governo federal contra o BNDES, na escala de 100 bilhões de reais, dívida que deve ser saldada em 2018.

A equipe econômica chefiada por Henrique Meirelles e Dyogo Oliveira, ministros da Fazenda e do Planejamento, resolveu cobrar do BNDES a devolução desses 100 bilhões que o Tesouro Nacional liberou àquele banco desde 2009. Essa devolução deverá ser prevista no orçamento que o governo deve apresentar hoje ao Congresso para o próximo exercício.

O BNDES, entretanto, segundo Adriana Fernandes não se mostra disposto a fazer a devolução.

DESPESAS DE CUSTEIO – A Lei Orçamentária em sua estrutura permanente proíbe o Tesouro Nacional de bancar despesas de custeio a longo prazo.

As despesas com pessoal e Previdência representam gastos obrigatórios. Não é o caso dos recursos transferidos ao BNDES. O BNDES resiste em fazer a devolução projetada. Acentua que empréstimos de longo prazo têm recuperação lenta e depende da retomada do crescimento econômico.

No meio da controvérsia, surge a nova taxa de juros de longo prazo que passa a condicionar a concessão de financiamentos à base do índice Selic. Se concretizada tal modificação, desaparecem os créditos a juros subsidiados (taxas menores que a inflação) que sustentaram inclusive projetos da Odebrecht, em Cuba, Angola e Venezuela, entre outros.

TAXA SUBSIDIADA – A Taxa TJLP antiga era extremamente favorável as empresas e empresários que obtinham empréstimos. Para se ter uma ideia pagavam juros de 6%a/a e aplicavam os créditos no Mercado Financeiro a 9,25%. Por isso alargava-se o prazo entre a liberação do financiamento e o início da execução das obras. Nesse espaço nasciam lucros privados à base de empréstimos públicos.

Voltando ao tema contido no título, inegável é a sensação de que a política econômico-financeira não deu certo. Se tivesse dado certo não haveria o déficit, cada vez maior nas contas públicas.

Basta somar o déficit primário com o custo da rolagem da dívida interna. E Henrique Meirelles em momento algum refere-se a dívida interna do país. É como se não existisse.

Decisão de Carmen Lúcia já representa uma censura a Gilmar Mendes

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Charge do Mário (Arquivo Google)

Pedro do Coutto

A ministra Carmen Lúcia, presidente do Supremo Tribunal Federal, segundo excelente matéria de Luisa Martins, no Valor desta terça-feira, estabeleceu preliminarmente que o ministro Gilmar Mendes se manifeste sobre a representação do Procurador-Geral da República, Rodrigo Janot que pede seu afastamento do caso Fetranspor no Rio de Janeiro. Ela poderia ter, através de despacho monocrático, rejeitado a investida do procurador, Se não o fez, acentua Luisa Martins, é porque deseja submeter o caso ao Plenário do STF.

Tal decisão, como disse no título, já representa em si uma censura ao comportamento do presidente do Tribunal Superior Eleitoral. Há cerca de um ano, Rodrigo Janot representou contra Gilmar Mendes quando ele soltou Eike Batista, concedendo-lhe um habeas corpus. Concedeu também habeas corpus ao ex-ministro José Dirceu, condenado pelo mensalão de 2005 e depois no Petrolão que desencadeou a Operação Lava-Jato.

DIFERENÇAS – Escrevo este artigo no final da tarde de terça-feira, antes de vir a público o despacho final de Carmen Lúcia. Existem diferenças entre os atos de Gilmar Mendes em relação a Eike Batista e José Dirceu comparados a seu despacho relativo a Jacob Barata Filho? Claro que sim.

Gilmar Mendes concedeu habes corpus a Eike Batista e José Dirceu. Relativamente a Jacob Barata Filho não o liberou por medida idêntica. De fato ele não colocou Barata em liberdade e sim transformou sua prisão preventiva em prisão domiciliar, obrigando-o a entregar seu passaporte a Polícia Federal. Gilmar MendeS, assim, determinou uma situação não solicitada pela principal figura da Fetranspor. Em seguida, Gilmar Mendes decidiu colocar em liberdade provisória outros acusados no mesmo processo de corrupção maciça u explorava o transporte de ônibus no Rio de Janeiro.

SEM SUSPEIÇÃO – Questionado sobre o fato de ter sido padrinho de casamento da filha de Barata declarou não ver nisso incompatibilidade entre seu relacionamento pessoal com a família de Barata e sua isenção que obrigatoriamente tem que manter na qualidade de Ministro do Supremo. Também não viu nenhum obstáculo no fato de sua mulher ser tia do genro de Jacob Barata. A opinião dele foi contestada.

Ao ponto de ter se tornado figura central de uma passeata que aconteceu dE Copacabana ao Leblon, domingo passado, condenando sua posição. Por ironia do destino, talvez, a passeata atravessou a Avenida Atlântica, a Rua Joaquim Nabuco, onde reside a ex-presidente Dilma Rousseff, seguindo pela Vieira Souto e Delfim Moreira, culminando em frente ao edifício onde residiu o ex-governador Sérgio Cabral. Foi emblemático o roteiro antecipadamente programado porque um dos maiores lances da corrupção do período Sérgio Cabral resultou de seu entendimento articulado com Jacob Barata Filho. Com paradas no roteiro na escala do Detran e do Departamento de Transportes Coletivos.

CRÍTICA A GILMAR – Voltando à decisão de Carmen Lúcia, sem dúvida representou uma condenação prévia do comportamento de Gilmar Mendes. O Ministro que preside o TSE transformou-se num vilão da vida pública brasileira, para utilizar uma imagem que Nelson Rodrigues oferecia àqueles que representam posições que colidem com o pensamento da opinião pública.

Se a extravagância de Gilmar Mendes tiver que ser examinada pelo  plenário do STF, o desfecho seja ele qual for, o deixará numa posição absolutamente descontável. Transformar uma prisão preventiva em prisão domiciliar representa uma solução singular na vida jurídica brasileira.

Deputados que vendem seus votos desacreditam o Parlamento brasileiro

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Charge do Son Salvador (Charge Online)

Pedro do Coutto

Na semana passada, o Estado de São Paulo publicou pesquisa do Instituto IPSOS revelando que nada menos que 94% do eleitorado brasileiro não se sentem representados pelos deputados que elegeram nas urnas de 2014. A reação é totalmente lógica, pois uma grande parte dos que integram a Câmara Federal são movidos por interesses pessoais de baixo nível, prontos a negociar seus votos e opiniões, como ocorreu na sessão que barrou a perspectiva de o STF apreciar a representação de Rodrigo Janot na qual acusou frontalmente o presidente Michel Temer.

Praticamente todo país acompanhou aquela sessão através da Globonews e também da Rede Globo de Televisão. E assim testemunhou a farsa representada pelos que negociaram posições com o Palácio do Planalto movidos por interesses que se chocam com a opinião pública e portanto também com a consciência democrática do país. Os que venderam seus votos distanciaram-se de seus eleitores que se sentiram traídos ou instrumento de obtenção de vantagens ilícitas. Vai daí a rejeição de 94%.

REFORMA POLÍTICA – Agora os deputados discutem uma reforma política que não reforma coisa alguma e sim constitui-se numa forma de facilitar ao máximo a reeleição dos que lá se encontram no exercício de um mandato muito mais individual do que coletivo. É o caso do “distritão”, como destacou o ministro Luiz Fux na entrevista a Carolina Brígido, em O Globo desta segunda-feira. O ministro Luiz Fux foi além: afirmou que o Congresso, portanto também o Senado, deseja enfraquecer o Poder Judiciário numa autentica contramão da Operação Lava-Jato e da própria história do Brasil. E lembrou o que aconteceu na Itália quando da Operação Mãos Limpas.

MANIPULAÇÃO – Acentuou Luiz Fux que o projeto de iniciativa popular  (mais de 2 milhões de assinaturas), que propôs medidas anticorrupção, foi transformado num projeto que considera crime de abuso de autoridade por parte dos juízes. Absurdo total. Relativamente ao “distritão”, Fux afirmou: “Trata-se de uma indecência a toda prova porque é destinado a manter a reeleição de quem já está com acento no Parlamento”.

De fato, o projeto implica num esforço voltado contra a renovação de mandatos, fenômeno que pela legislação atual vem acarretando a cada quatro anos a substituição de pelo menos 1/3 dos deputados. “Distritão”, a meu ver, é sinônimo de farsa e de apropriação indébita do voto popular.

VOTO DISTRITAL – Na edição de domingo de O Globo e da Folha de São Paulo, o jornalista Élio Gaspari enfocou com exatidão o aspecto fundamental do voto distrital misto que parte ponderável da Câmara empenha-se em aprovar. Fala-se em voto Distrital, disse Gaspari, antes mesmo de saber-se como poderá ser feita a divisão, para efeito de voto parlamentar dos distritos no país. Afinal de contas são 5.600 municípios brasileiros dos quais teria que surgir a subdivisão de áreas eleitorais.

O “distritão” tem duas faces. O voto direto no deputado e o voto indireto através das legendas partidárias. Os defensores de tal mudança radical, por sua vez, não sabem ao certo qual no final a fórmula a ser ajustada. O tempo corre contra a forma dessa reforma, uma vez que ela terá de ser aprovada antes de 7 de outubro. Exatamente no limite de um ano para realizar-se a eleição de 2018.

O sistema a ser adotado, que pode ser a manutenção do método atual de escolha, tem que entrar em vigor um ano antes das urnas, porque substancialmente os candidatos terão que possuir doze meses pelo menos de filiação partidária e muitos parlamentares de hoje desejam trocar de partido amanhã.

NOVOS PARTIDOS – Há também o caso da criação de novas legendas e para essas também se aplica a exigência de um ano de existência legal. A reforma qu se encontra em debate conduz a uma desinformação quanto, afinal de contas a que se destina. Não houve consenso entre os atuais deputados.

Mas ao rejeitarem o quadro legislativo pela margem de 94%, consenso é o que não falta aos eleitores e eleitoras do país. O tempo veloz apresenta ainda uma outra característica: o que podem fazer os atuais deputados para que seus eleitores voltem a confiar-lhe seu voto?

A resposta, nesta altura do campeonato, parece difícil. Como difícil é a tarefa de Rocha Loures de explicar o destino verdadeiro da mala da noite paulista.

Informação a Meirelles: é o desemprego que explode as contas do INSS

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Meirelles ainda não entende nada sobre Previdência

Pedro do Coutto

O título é inspirado num romance de Carlos Heitor Cony e o conteúdo nele contido refere-se à influência negativa “mais uma” do desemprego que sufoca os trabalhadores e trabalhadoras do Brasil. O ministro Henrique Meirelles na entrevista a Marta Beck e Eliane Oliveira, O Globo de domingo, focalizou a antecipação das privatizações da Eletrobrás e dos aeroportos como meio de tentar equilibrar as contas públicas. Referiu-se também à reforma da Previdência Social como medida de urgência voltada para o mesmo objetivo financeiro. Chegou a dizer que, se o Congresso não aprovar a Emenda Constitucional da reforma o governo terá que colocar em prática novas medidas tributárias, as quais não desejou exemplificar.

O ministro da Fazenda não estudou profundamente a questão do déficit previdenciário. Se tivesse estudado, não veria que suas causas encontram-se em dois planos distintos, porém convergentes: a sonegação de empresas e a taxa de desemprego na escala – segundo o IBGE, de 13,5% sobre a mão de obra ativa do país. São assim 14 milhões de pessoas.

RECEITA POSSÍVEL – Partindo-se do princípio de que o salário médio brasileiro situa-se em torno de 2 mi reais por mês e considerando que as contribuições dos empregadores são de 20% sobre as folhas e a dos empregados na média de 9% dos salários, vamos verificar o seguinte: a arrecadação total para o INSS, não fosse o desemprego seria de mais 102 bilhões de reais por ano.

Os empregadores entrariam com aproximadamente 82 bilhões e os empregados com 20 bilhões. Esse é o problema essencial. É verdade que o desemprego é tecnicamente aceitável na escala rotativa de 5%. Não pode haver desemprego zero. Mas, convenhamos, a taxa de 13,5% é assustadora.

Em vários outros países, como a Espanha e França, o índice de desemprego é alto e seus governos se empenham para reduzi-lo. No Brasil o empenho do Executivo volta-se para o plano financeiro das contas públicas, deixando a esfera social para outra dimensão menos importante.

TÍTULO DO CONY – Eu afirmei que o título desta matéria é inspirado numa obra do escritor Carlos heitor Cony. Chama-se “Informação ao Crucificado”. No Brasil, crucificado é o povo envolto num maremoto que reduz os postos de trabalho. Daí o nível de descrédito que atinge o governo, da ordem de 93%, pesquisa do Instituto Ipsos, reportagem de Daniel Drumati e Gilberto Amêndola, em O Estado de São Paulo também de domingo.

A população não se sente representada nem pelos políticos de modo geral, nem pelo governo em particular. É como seus interesses legítimos fossem contestados e oprimidos pelo sistema de poder.

O sistema de poder, em vários níveis, vem sofrendo contestações em série. Uma delas, me informa o médico Pedro Campello, por parte do Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro contra o ministro da Saúde Ricardo Barros. A edição mensal do informativo do CREMERJ destaca que a entidade ingressou com representação contra o ministro Ricardo Barros da Saúde por ter ele demonstrado desconhecimento do sistema público e do trabalho dos médicos e demais profissionais do setor saúde.

ESTADO DE CALAMIDADE – Essa reação, que se encontra já no Ministério Público Federal, inclui a informação de que no mês de maio a entidade entregou ao ministro um dossiê focalizando todas as deficiências que marcam a rede federal que opera no Rio de Janeiro, a qual se encontra em verdadeiro estado de calamidade.

O ministro Ricardo Barros acusou os médicos de não trabalharem, depois resolveu retratar-se, mas de maio até este final de agosto a calamidade não apresenta qualquer sinal de redução. Ao contrário. O sistema de saúde merece estar no centro do tratamento intensivo para salvar-se.

Aliás, o Brasil, como um todo, está exigindo medidas urgentes para que sua população possa salvar-se do abandono e que se encontra. O desemprego é o fator principal do desequilíbrio das contas previdenciárias, em particular, e das contas públicas de modo geral. A arrecadação de impostos no primeiro semestre ficou abaixo do esperado pelo ministro Henrique Meirelles. A culpa, evidentemente, não pode ser transferida aos assalariados. Os assalariados são as vítimas e não os culpados da catástrofe.

Presidente do Banco Central diz que já está ocorrendo aumento do consumo

Pedro do Coutto

Numa entrevista a Mariana Carneiro, Marli Prado e Ricardo Baltazar, Folha de São Paulo deste sábado, o presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, afirmou que o consumo, e não o investimento, puxou a recuperação lenta da economia nos últimos meses, acentuando ter sido interrompido o ciclo de uma profunda recessão herdada pelo governo Michel Temer.

A afirmação do presidente do Banco Central impressiona, a meu ver, por sua incursão no reino da mágica, isso porque um alta taxa de desemprego e retração dos salários, como é que o consumo pode subir ao ponto de influir na aceleração da economia? Esta pergunta deve ser respondida prelo autor da tese, que também recorreu à influência do saque das contas inativas do FGTS.

ALGO EPISÓDICO – Mesmo aceitando como válida a explicação, é importante considerar que o saque do FGTS é algo episódico, não podendo, portanto, ser analisado como um fator permanente da recuperação econômica. O próprio presidente do BC sustenta que a confiança na recuperação da economia não tem impulsionado a atividade como se pensava no início do ano. Acrescentou que a capacidade ociosa permanece muito grande e que a economia ainda se recente dos erros cometidos pelo governo Dilma Rousseff.

A que capacidade ociosa se refere ele? Não pode ser a redução da força de trabalho refletida na existência de quase 14 milhões de desempregados.

Acrescentou também que a economia se recente do excesso de gasto, de empréstimos e de endividamento das pessoas. Endividamento que, como foi divulgado esta semana, envolve 56 milhões de pessoas. Mas neste ponto mais uma contradição: se houve excesso de gastos, como apresentar positivamente o crescimento do consumo. Mas esta é outra questão. Os gastos do governo são uma coisa. As despesas da população outra. Há que separar os dois planos. Para os gastos do governo tem que se incluir o desembolso com o pagamento de juros da dívida interna.

RECEITA EM QUEDA – Mas as dificuldades não preocupar o presidente do BC. Por falar em banco, uma revelação importante. Reportagem de Eduardo Rodrigues e Idiana Tomzelli, O Estado de São Paulo, também de sábado, destaca a queda da arrecadação de tributo federais no mês de julho. Foi de 109,9 bilhões de reais menor na escala de 0,3% do que a do mês anterior. O principal fator do recuo da receita, incluindo a correção inflacionária, decorre do recolhimento menor do Imposto de renda da empresas, principalmente dos bancos. O recolhimento dos bancos, pela lei, tem base nas estimativas para seus resultados no mês seguinte.

Pela retração, parece que as expectativas não são favoráveis. Mas como acreditar nisso se os bancos fecharam seus balanços com lucros muito altos, como foi o caso do Itaú e do Bradesco?

Entretanto como a base do imposto, para eles, está na expectativa, é possível que tais expectativas não se concretizem na prática.  Mas valem para o cálculo do imposto a pagar.

Caso Bendine exibe o real objetivo das doações financeiras feitas pela Odebrecht

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Além de corrupto, Bendine mostrou ser cara-de-pau

Pedro do Coutto

O juiz Sérgio Moro aceitou a denúncia do Ministério Público Federal e incluiu o ex-presidente do Banco do Brasil e da Petrobrás na relação dos réus por crimes de corrupção e lavagem de dinheiro dentro da operação Lava-Jato. Excelente reportagem de André Guilherme Vieira, no Valor desta sexta-feira, focaliza o assunto que, sem dúvida, torna-se uma chave para derrubada do mito das doações políticas, sejam para fins administrativos, sejam para campanhas eleitorais. Não existe doação espontânea por parte de quem as realizou, realiza, ou pretende ainda realizar.

Trata-se, isso sim de uma avenida de mão dupla. As doações na verdade são troca de ações visando o lucro. Vejam, por exemplo, o que Marcelo Odebrecht falou em sua delação premiada em relação a Aldemir Bendine. Ele era presidente do Banco do Brasil no governo Dilma Rousseff. Pediu 17 milhões de reais a Odebrecht. A empresa, não vendo como Bendine poderia beneficiá-la como presidente do Banco do Brasil, simplesmente negou.

E TUDO MUDOU…

– Mas quando o mesmo Bendine foi nomeado presidente da Petrobrás, a Odebrecht entregou-lhe logo três milhões de reais, segundo afirmou o próprio Marcelo. O lance, agora tornado público, representa uma chave para a plena compreensão de um processo que envolvia administradores, empresas, governadores, senadores e deputados. Fica claro dessa síntese que doações empresariais nunca existiram de fato. Porque elas sempre foram e serão acompanhadas por um comportamento recíproco que colide com as normas legais e morais, rompendo o limite entre a economia estatal e o interesse público.

A questão torna-se emblemática num momento em que parlamentares empenham-se em tentar aprovar doações empresariais para suas campanhas. Um absurdo. Os motivos são ocultos, melhor dizendo eram ocultos até as revelações de Marcelo Odebrecht. Doações foram feitas para encobrir assaltos a economia do país. Não há cabimento na sua volta, como também é descabido criar-se um fundo eleitoral, com dinheiro público para financiar candidaturas.

FUNDO PARTIDÁRIO – Como afirmou o deputado Rodrigo Maia, presidente da Câmara Federal, já existe na lei um fundo partidário de quase 900 milhões de reais para sustentar a busca do voto nas urnas.

Aliás, por falar em voto nas urnas, como é feita a divisão de tais recursos? É base da proporcionalidade numérica das bancadas no Congresso. Assim os deputados e senadores que possuem mandatos beneficiam-se muito mais nas campanhas do que aqueles que concorrem pela primeira vez.

E por falar em campanha, como na poesia de Vinícious de Moraes, por que motivo cada candidato não se utiliza dos seus próprios recursos ? Qual o motivo essencialmente democrático que confere aos políticos não meterem a mão no próprio bolso para custear sua aventura na estrada do eleitorado e da opinião pública?

CONTAS INDIVIDUAIS – Deveria ser como na vida de todas as pessoas que desembolsam seus recursos para obterem os bens e objetivos que desejam. O complexo das doações agride a lógica e o comportamento social de cada um de nós, seres humanos. É possível supor que muitos sonhos dos cidadãos comuns não possam ser realizados ou atingidos pela falta de dinheiro suficiente.

Mas neste caso, o que se pode fazer? Cada um tem que viver dentro dos limites que o destino impõe. Ninguém é obrigado a candidatar-se. Para alcançar tal meta deve agir como todos nós agimos pela vida afora. Pagando suas próprias despesas.

Governo quer arrecadar R$ 40 bilhões, mas só a Eletrobrás já deve R$ 64 bilhões

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Charge do Jota A (Portal O Dia/PI)

Pedro do Coutto

O governo Michel Temer lançou um projeto de privatização envolvendo nada menos que 57 empresas estatais, entre elas principalmente a Eletrobrás, visando a obter uma arrecadação no montante de 40 bilhões de reais, de acordo com reportagem de Idiana Tomazelli, Fernando Nakagawa e Carla Araújo, O Estado de São Paulo desta quinta-feira. A previsão está aquém dos débitos financeiros que as entidades da relação apresentam, a começar pela Eletrobrás.

A Eletrobrás é apresentada como detentora de uma dívida de 43,5 bilhões, mas lendo-se a matéria de Fernando Torres, Vitória Mantoan e Camila Maia, edição do Valor, a estatal de energia apresenta contingências na escala de 64 bilhões de reais. Assim os compradores em potencial terão de avaliar, não apenas a oscilação das ações inicialmente ocorridas na Bovespa, como a soma dos passivos existentes numa escala muito superior à avaliação de mercado da empresa.

DISPUTAS JUDICIAIS – Existem também disputas judiciais que se elevam, segundo o Valor, a um total de 51 bilhões. A Eletrobrás informou em junho o contingenciamento de créditos que atingem seu sistema, mas este problema não é o único se focada na lente financeira a responsabilidade de médio e longo prazo.

Existem outros problemas. Um deles a participação em sociedades de propósitos específicos, objeto de observações técnicas mais detalhadas. À primeira vista os números, para efeito de compra e venda de ações podem seduzir investidores sensíveis ao impulso aparente voltado para o lucro a curto prazo. Na Bovespa os vendedores de ações em alta num dia são os mesmos compradores de tais ações em baixa nos dias seguintes. O mercado acionário encontra-se sempre sujeito inevitavelmente a lances especulativos.

CONTROLE ACIONÁRIO – A questão, entretanto, não se esgota nesse plano. É preciso considerar o problema do controle acionário. A pulverização pretendida das ações da Eletrobrás pode reduzir a participação estatal a menos de 49%. Porém isso não significa a perda do comando, uma vez que é sempre improvável uma união de detentores minoritários das ações, capaz de formar um bloco em torno da escala de 51%.

Coloca-se, assim, uma análise bastante sensível, que é a que conduz ao raciocínio de que a participação estatal pode ser reduzida com a venda pulverizada das ações. Mas a pulverização não será suficiente para alterar a política que será adotada depois do varejo dos títulos comprados na Bolsa de Valores.

OUTRAS PRIVATIZAÇÕES – Um quadro que envolve a Eletrobrás, entretanto, não é o mesmo que focaliza a concessão de aeroportos e, muito menos, a venda da Casa da Moeda. Quanto à Casa da Moeda, deve se notar que ela representa um serviço público, porém não se reveste do sentido de lucro financeiro. É um caso à parte, que certamente os especialistas do mercado haverão de estudar e traduzir mais claramente a oferta menos aparente de sua eventual privatização. A Casa da Moeda possui diversos clientes, dentre países na América do Sul. Uma questão à parte. Mas uma entre tantas outras que se diluem quando aquecidas pela luz da realidade.

Agora mesmo o Congresso Nacional no debate sobre a reforma política chegou a considerar a hipótese de ser criado um Fundo Partidário para Democracia, cujos recursos seriam fixados pela Comissão Mista de Orçamento do Congresso Nacional.

A proposta igualou o recorde do absurdo. Uma comissão parlamentar mista avaliaria o percentual a ser distribuído pelas legendas partidárias. Incrível. Absurdo total: uma Comissão Parlamentar seria investida de poderes próprios do Executivo. É demais.

No furacão da Lava-Jato, empresas podem voltar a fazer doações a campanhas?

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Charge do Ivan Cabral (ivancabral.com)

Pedro do Coutto

No momento em que o Congresso não chega a um consenso sobre a reforma política, surge uma iniciativa levantada por um grupo parlamentar – reportagem de Júlia Lindner, Felipe Frazão e Thiago Faria, O Estado de São Paulo desta quarta-feira. Através de emenda constitucional, pretendem restabelecer as doações por parte de empresas e empresários a campanhas políticas e eleitorais. O presidente do Senado, Eunício Oliveira, anunciou que pretende consultar o Supremo Tribunal Federal a respeito do assunto, uma vez que o STF já decidiu a impossibilidade de tais doações empresariais, que conduziram à tempestade da operação Lava-Jato.

Dificilmente o Supremo poderá recuar de sua decisão inicial, embora um de seus integrantes, o ministro Gilmar Mendes, uma espécie de homem fatal de Nelson Rodrigues, já se mostrou favorável.

QUEM VAI DOAR? – O tema não se esgota em si mesmo, no caso da campanha eleitoral de 2018. Qual a empresa que, na esteira da Lava-Jato vai se dispor a fazer doações, tanto as verdadeiras, quanto os desembolsos disfarçados? Aliás, analisando-se objetivamente tal faculdade, chega-se à conclusão de que, a rigor, doações em sua essência nunca existiram.

Existiram, isso sim, trocas de dinheiro pela defesa dos interesses dos doadores entre aspas. Ninguém, raríssimas exceções confirmando a regra, se dispõe a entregar dinheiro, se não houver retorno de alguma forma. Esta é que é a verdade. Princípio básico da contabilidade financeira, não existe débito sem crédito.

DEDUÇÃO DO IMPOSTO – Poder-se-ia, numa hipótese, admitir doações empresariais, desde que fossem feitas através de depósitos bancários e permitindo deduções no Imposto de Renda. Dessa forma estaria caracterizado o valor doado e o autor da doação. Mas há um outro problema.

Se forem aceitar doações de empresas, como seria a forma adotada para sua direção? Seria para o partido? Seria para o candidato? Há candidatos e candidatos. Uns concorrem a eleições majoritárias, a grande maioria à Câmara dos Deputados. Isso para não falar dos deputados estaduais e vereadores. Na hipótese de serem permitidas doações a candidatos parlamentares, surgiria a hipótese natural de alguns receberem muito mais que outros. Uma desigualdade que a legislação eleitoral veda por princípio.

CASO ELETROBRAS – Por falar em príncípio e sua vinculação à política, segundo matéria de Raymundo Costa, no Valor desta quarta-feira, dia 23, a base aliada do governo Michel Temer no Congresso mostrou-se favorável a dispersão das ações da Eletrobrás no mercado financeiro, mas desde que a privatização almejada não inclua Furnas nem a Cia. Hidrelétrica de São Francisco, a CHESF.

Por aí se vê a influência política das duas grandes empresas do setor elétrico. Um impasse. Sem Furnas e CHESF, e também sem Itaipu, a Eletrobrás desaparece. A questão levantada pela maioria dos governistas de que forma poderá ser resolvida?

A reforma política está produzindo um desencontro na área parlamentar, de modo geral. Uma corrente deseja o distritão, outra é contrária. É possível que venha a ser aprovada uma reforma sem forma, como em “O Leopardo”, filme de Lucchino Visconti, cujo personagem principal diz ao outro:”Precisamos mudar, para deixar tudo como está.”