Quais serão os reflexos das revelações de Paulo Roberto Costa na campanha eleitoral?

Pedro do Coutto

Esta é a pergunta que se faz neste momento em que as revelações do ex-diretor da Petrobrás Paulo Roberto Costa alcançam enorme repercussão na imprensa e na mídia em modo geral. Isso a partir da reportagem que a revista Veja publicou na edição de sábado que se encontra nas bancas. Na proposta que formulou de delação premiada com a redução de sua pena, Paulo Roberto Costa relacionou nominalmente diversos políticos importantes como envolvidos no esquema de corrupção que funcionava na Petrobrás e incluía grandes empresas empreiteiras.
O episódio vem comprovar que campanhas eleitorais não se decidem somente com base em projeções estatísticas frias e baseadas em números de eleições anteriores e a transferência possível de votos de um candidato para outro. Nada disso. De repente explode um fato imprevisto capaz de alterar o rumo dos confrontos. Não quero com isso dizer que a atitude do ex-diretor da estatal vá influir na conquista ou perda deste ou daquele candidato em matéria de intenções de voto nas urnas de outubro. Daí porque coloco a pergunta, cuja resposta as próximas pesquisas do Datafolha e do Ibope irão responder.
Vamos nos próximos dias entrar na reta final da campanha cujo início verifica-se sempre a duas semanas do pleito. É quando as disputas assumem o caráter de competição esportiva e atingem a emoção dos eleitores e eleitoras. Nesse período valem pouco os resultados anteriores revelados pelas urnas de quatro anos atrás, destacando-se a importância do desempenho dos três candidatos reais ao Palácio do Planalto ao longo do horário eleitoral gratuito e dos debates que vão se desenrolar nas emissoras de televisão.
DEBATE NA TV GLOBO
Entre esses debates ressalte-se o peso do confronto a ser promovido pela Rede Globo na noite de 3 de outubro, 48 horas antes das urnas do dia 5. A audiência, pela força do canal, será elevada e a avaliação dos eleitores sobre o desempenho de Dilma Rousseff, Marina Silva e Aécio Neves poderá se tornar decisiva para a escolha dos dois finalistas no confronto marcado para 26 de outubro.
Os demais candidatos, está evidente, não possuem a menor chance de se aproximar dos três primeiros, mas terão que ser convidados a participar, em pé de igualdade, pelo que determina a lei eleitoral, lei 9504/97. Neste ponto cabe uma explicação: são 11 as candidatas e candidatos, porém a lei condiciona a obrigatoriedade de participação nos debates ao fato de serem eles de partidos que possuam representação no Congresso Nacional. Caso contrário a determinação não se estende a eles. Por este motivo os debates realizados até agora na Rede Bandeirante e no SBT reuniram somente 7 candidaturas.
Enfim, este é o quadro que se apresenta como decisivo no final da atual campanha. A escolha para o segundo turno vai depender do desempenho de Dilma, Marina e Aécio no primeiro.

Pesquisas do Ibope e Datafolha norteiam campanhas dos candidatos

Pedro do Coutto

Antigamente eram maiores as reações contrárias às pesquisas eleitorais, hoje permanecem porém em escala muito menor. Apesar dessa evolução, comprovada pelos acertos dos levantamentos, ainda há setores que permanecem nelas não acreditando sempre que os números não favorecem os candidatos de sua preferência. Verifiquei isso quando participei como assistente de palestra realizada pelos professores Jairo Nicolau na residência do ex-deputado Luis Alfredo Salomão, levado por um amigo comum, da equipe da direção de Furnas.
Na realidade não encontro motivos para descrédito das estatísticas, sobretudo porque em função delas os candidatos norteiam as campanhas que realizam. A presidente Dilma Rousseff, por exemplo, mudou de rumo e alvo. Concentrava seu combate contra Aécio Neves e alterou seu alvo a partir do momento em que as pesquisas, tanto as do Datafolha quanto as do IBOPE, apresentaram a subida espetacular de Marina Silva, que, em apenas duas semanas, passou de 21 para 34 pontos. O alvo da presidente da República passou a ser a ex-senadora do Acre.
Na luta pela colocação que possa permitir sua classificação para o segundo turno, Aécio Neves também passou a dirigir ataques a Marina Silva, procurando destacar a falta de base parlamentar a sua candidatura. Na edição de O Globo, dia 4, quinta-feira passada, reportagem de Cássio Bruno e Leandra Lima focaliza um pacto firmado entre os candidatos ao governo do Rio de Janeiro, Lindberg Farias e Marcelo Crivella, contra Garotinho e Luiz Fernando Pezão, que passaram a polarizar a disputa pelo Palácio Guanabara.
NÃO-AGRESSÃO

Sob a capa de pacto de não-agressão, uniram-se contra os adversários apontados pelos institutos como os mais fortes. O primeiro turno realiza-se a 5 de outubro. O segundo a 26 do próximo mês. Como antes de resolvido o primeiro embate, dois candidatos se unem pelo desfecho final das urnas? É claro que, sentindo perda de espaço na maratona, Crivella e Lindbergh uniram-se para melhorar suas posições em primeiro turno. Tudo  isso em função dos resultados apontados pelo Datafolha e Ibope até agora.
Essas atitudes, todas elas, demonstram tácita e claramente que os personagens citados acreditam na firmeza das estatísticas envolvendo as intenções de voto. Caso contrário, não mudariam de rumo e de alvo. E que, na verdade, além das colocações, os levantamentos apontam tendências. A tendência declinante de Aécio neves, por exemplo, tornou-se um fato concreto e bastante sensível junto ao eleitorado após seu recuo ter sido publicamente assinalado. As pesquisas não criam fatos, da mesma forma que a imprensa, mas assinalam e acentuam realidades. Os jornais não inventam fatos. Expõe, os acontecimentos, isso sim. Os levantamentos do Ibope e Datafolha não criam posições eleitorais, somente as revelam.
Quanto aos seus efeitos, trata-se de outra coisa. A repercussão no que hoje se chama mídia conduziu e provocou o julgamento dos acusados pelo mensalão, bomba que explodiu no segundo mandato do presidente Lula. O principal acusado (e condenado) foi o ministro chefe da Casa Civil. As pesquisas de agora polarizam a disputa final pela presidência da República entre Dilma Rousseff e Marina Silva. No Rio de Janeiro conduziram a polarização entre Anthony Garotinho e Luiz Fernando Pezão. Refletiram atmosferas existentes. Não as criaram e produziram. Imprensa e pesquisas não são instrumentos mágicos. São fatores reais das sociedades e dos regimes democráticos.

A sucessão em oito estados e uma grande dúvida: qual será o reflexo na campanha da saída antecipada de Mantega?

Pedro do Coutto
Escrevo este artigo com base em duas reportagens publicadas na edição de sex-feira 5 da Folha de São Paulo. A primeira, de Ricardo Mendonça, reproduzindo, e também analisando pesquisa do Datafolha apontando a posição dos três candidatos à presidência da República em oito estados que pesam entre 56 a 5¨% do eleitorado do país. Se tal levantamento incluísse a Bahia, quarto maior colégio, alcançaria de 61 a 62% dos votos. Mas como não inclui, fiquemos nos oito a que se refere a pesquisa.
Com base nos resultados, verificamos que em nenhum deles Aécio Neves deixa de ocupar a terceira posição, com Dilma Rousseff e Marina Silva alternando-se no primeiro e segundo lugar. Surpreende Minas Gerais: Dilma 35, Marina 27, Aécio com 22 pontos. Em São Paulo, Marina 42, Dilma 23, Aécio 18%, embora o candidato ao Palácio Bandeirantes, Geraldo Alckmin, PSDB, esteja disparado nas intenções de voto. No Rio de Janeiro, Marina lidera com 37, seguida por Dilma com 31. Aécio alcança apenas 11%. A atual presidente ocupa o primeiro lugar no Rio Grande do Sul e Ceará. A ex-senadora lidera em Pernambuco e na cidade de Brasília. No final das contas praticamente o empate: 35 para Dilma Rousseff; 34 pontos para Marina Silva.
Aécio Neves, terceiro colocado muito distante da dupla, adotou como tática concentrar os ataques em Marina Silva na tentativa de substituí-la, no dia 5 que se aproxima,  se classificar para as urnas de 26 de outubro, data do desfecho final entre os dois primeiros colocados no turno básico da disputa. Conseguirá? As próximas pesquisas do IBOPE e Datafolha vão dar a resposta.
O mais forte ataque de Aécio a Marina foi feito no horário eleitoral de quinta-feira, base da matéria de Paulo Peixoto e Daniela Lima, FSP do dia seguinte, quando criticou a candidata do PSB por não ter deixado o Ministério do Meio Ambiente, quando explodiu em 2005 o escândalo do mensalão. Lula foi reeleito em 2006 e Marina Silva foi exonerada no início de 2008 em consequência de divergência com a ministra Dilma Rousseff em torno da construção das usinas hidrelétricas de Santo Antônio e Jirau, em Rondônia, região amazônica. Marina era contra, Dilma a favor.
O ENIGMA MANTEGA
Os repórteres André Uzeda, Andréa Sadi e Natuza Nery são os autores da reportagem, também publicada na edição de sexta-feira da Folha de São Paulo, focalizando a resposta dada pela presidente Dilma Rousseff, quando, em campanha no Ceará, deixou claro, pelo menos até agora, que pretende substituir Guido Mantega no Ministério da Fazenda, caso reeleita nas urnas de outubro. A repercussão, como era natural, foi enorme: desagrado na atual equipe que se encontra em ação; abertura de novas perspectivas em setores do empresariado, de acordo com o que a matéria acrescentou.
O que pesará mais em consequência da atitude da presidente em matéria de votos? Esta é a questão essencial, como disse o poeta. As próximas pesquisas, também neste caso, vão revelar. Mas o episódio apresenta um risco para Dilma: e se Mantega, em consequência, pedir demissão antecipando-se ao desfecho? Pois seu destino está traçado: se Dilma Rousseff vencer, ela não ficará no cargo. Se a presidente perder, ele, claro, não será mantido por quem vier a ocupar o Palácio do Planalto. Seu rumo portanto está longe da esplanada dos ministérios.

Ibope e Datafolha divergem, mas convergem quanto ao duelo entre Dilma e Marina

Pedro do Coutto

Em reportagem de Juliana Gama e Fernanda Krakovics, edição de O Globo de quinta-feira 04, ficou acentuada uma divergência de números entre as pesquisas do Ibope e Datafolha sobre as eleições presidenciais de outubro. Foram divulgadas simultaneamente na noite de terça-feira e enquanto o Ibope apontou 37 pontos para Dilma contra 33 para Marina, o Datafolha assinalou Dilma com 35% e Marina com 34 nas intenções de voto do primeiro turno das eleições de outubro. A direção entretanto das pesquisas dos institutos convergem plenamente quanto à polarização do quadro eleitoral entre as duas principais candidatas e convergem também no que se refere ao enfraquecimento de Aécio Neves.
Em uma semana, prazo da diferença entre as duas últimas pesquisas anteriores, para o Ibope o senador mineiro desceu de 19 para 15 pontos; para o Datafolha Aécio Neves está com 14 pontos. Vale assinalar que a pesquisa do Ibope anterior foi divulgada em 25 de agosto e a penúltima pesquisa do Datafolha saiu no dia 29. Como se vê o prazo de levantamento do Datafolha é um pouco mais curto do que o do Ibope
Mas isso importa pouco, inclusive a convergência dos dois institutos estende-se às simulações para o segundo turno: para o Ibope, Marina venceria nas urnas de 26 de outubro por 46 a 39 pontos. Para o Datafolha a vitória seria por 48 a 41. Nota-se que em ambos os casos a diferença projetada é de 7 degraus. Dificilmente o panorama do primeiro turno se modificará quanto à polarização, inclusive porque Aécio neves passou a botar um tom pessimista, como ficou claro na reportagem de Silvia Amorim, também na edição de O Globo do dia 4, quando perguntado por ela sobre sua posição eleitoral, terceiro lugar em Minas Gerais, admitiu que “eleições se perdem”.
POLARIZAÇÃO TAMBÉM NO RJ
O Datafolha, em outra pesquisa, revelou também que para governador do Rio de Janeiro estabeleceu-se uma polarização entre o Anthony Garotinho e Fernando Pezão. Garotinho com 28, Pezão subindo para 23, distanciando-se de Marcelo Crivella com 18%. O candidato do PT, Lindbergh Farias, enquanto Pezão subiu nove degraus e Garotinho 1 ponto, desceu de 12 para 11, apesar do apoio do ex-presidente Lula. Marcelo Crivella, segundo matéria publicada na Folha de São Paulo no dia 04, avançou dois pontos, atingindo 18%, ficando 5 pontos abaixo de Pezão e 10 pontos de Garotinho.
Feita a simulação, as intenções de voto hoje assinalam vitória de Pezão por 45 contra 36 de Garotinho. Pelo que os sintomas indicam não deverá haver mudanças quanto ao ocupante do Palácio Guanabara.

 Dilma e Marina: consolidado o desfecho final nas urnas

Pedro do Coutto
Os últimos debates e posicionamentos dos candidatos às eleições presidenciais de outubro revelam nitidamente que se consolidou a polarização da disputa entre a presidente Dilma Rousseff e a ex-senadora Marina Silva. Aécio Neves perdeu o embalo na medida em que não foi agressivo nos seus pronunciamentos. Dilma mudou de estratégia e sentido. O avanço de Marina Silva foi focalizado nas pesquisas do Ibope e Datafolha, Dilma passou a dirigir seus ataque à principal adversária que inclusive continua a crescer.
Agora mesmo o Ibope, reportagem de Cássio Bruno e Letícia Fernandes, O Globo de terça-feira três, revela que Marina Silva abriu 16 pontos sobre Dilma Rousseff em São Paulo, alcançando 39% das intenções de voto. Dilma permaneceu com 23 pontos e Aécio Neves desceu dos 19 para o décimo-sétimo degrau . A tendência de subida de Marina Silva, contra a qual se volta Dilma Rousseff, pode ser bem analisada se verificarmos que no Rio de Janeiro, onde Dilma liderava, a ex-senadora passou a liderar com a margem de seis pontos: 38 a 32. Portanto, a arrancada de Marina Silva continua, como mostram os resultados em São Paulo e no Rio de Janeiro.
A importância destes dois colégios é essencial, pois são respectivamente o primeiro e o terceiro redutos dos votos nacionais. O segundo colégio é Minas Gerais. Os três estados atingem praticamente a metade de todo o eleitorado brasileiro.
NO SEGUNDO TURNO…
O embate decisivo será no segundo turno, marcado para 26 de outubro. E a partir de agora os debates vão se concentrar cada vez mais entre Dilma e Marina, como ficou comprovado também na edição do horário eleitoral gratuito da última terça-feira. Está nítido no panorama o cotejo que assinalamos entre as duas candidatas, o que levará a escolher entre uma e outra, com o quadro não dando margem a uma outra opção.
Um fenômeno que também se observa é a redução dos eleitores que tendiam a anular o voto ou votar em branco, mas que resolveram mudar de posição. Essa mudança foi no sentido de Marina Silva, já que à medida em que ela sobe, os eleitores desestimulados descem na escala.
Para o confronto final as duas candidatas, vamos chamar assim, terão que se voltar cada vez mais para o plano concreto das ideias, que é o meio mais eficaz de atingir e emocionar o eleitorado. A posição mais sensível é da presidente Dilma Rousseff, cuja atuação visa conter a arrancada de Marina Silva e recuperar o espaço e o tempo perdido, na maratona eleitoral. Seu alvo não era Aécio Neves e sim a ex-ministra do Meio Ambiente do governo Lula, que deixou o cargo no início do segundo mandato do ex-presidente.

Giannetti, outro assessor, vê Marina ao lado de Lula e FHC

Pedro do Coutto 
Depois da entrevista da assessora Maria Alice Setúbal, que anunciou pensamentos seus como diretrizes de Marina Silva, na edição de segunda-feira da Folha de São Paulo, em longas declarações à repórter Mariana Carneiro, foi a vez do assessor Eduardo Giannetti, que chegou a afirmar que, se vitoriosa nas urnas de outubro, a ex-senadora deseja ter os presidentes Lula e Fernando Henrique como aliados no seu governo. Giannetti acrescentou: eles poderiam colaborar. Se Sarney, Renan Calheiros e Fernando Collor vão para a oposição, com quem se governa e com quem se negocia? Ele mesmo responde pela candidata: com Lula e FHC.
Acentuou que o PSDB é um partido de muitos técnicos e poucas lideranças. O PT possui técnicos de excelente qualidade que trabalharam no primeiro governo de Lula. A gente, pluralizou, trazê-los. Nossa ideia , assinalou, é governar com os melhores na política (partidária) na gestão de políticas públicas.
Serão estas as diretrizes da candidata Marina Silva? – pergunto eu. Ou cabe aos assessores ou conselheiros econômicos fixar os princípios a serem adotados, sem discutir com a ex-senadora? Escrevo este artigo quando surgem as primeiras versões da pesquisa Ibope apontando Marina Silva bem à frente de Aécio Neves e superando Dilma Rousseff no primeiro turno. Talvez o fenômeno tenha sido a causa das críticas da  presidente da república a Marina Silva, publicadas na edição do mesmo dia 25, matéria de Aguirre Talento. Na véspera, domingo, foi Aécio Neves que investiu contra Marina, em declarações a O Globo, como focalizei em artigo recente neste site.
Coincidência ou informação antecipada, o fato é que Marina Silva tornou-se alvo de ataques por parte de seus adversários. Sim. Porque as eleições presidenciais de outubro, a rigor, apresentam apenas três candidaturas viáveis: Dilma, Marina e Aécio. Dos três, projetado para 5 de outubro o panorama registrado hoje, dois vão para o turno final. Sobra um. Ou Aécio ou Marina, conforme revelam os levantamentos do Ibope e Datafolha. Os demais não estão no páreo.
QUESTÃO DE “AUTONOMIA”
Dito isso, voltando ao tema título do artigo, verifica-se que o que se discute na campanha da ex-ministra do Meio Ambiente não é somente a autonomia do Banco Central, mas sim a predominância da autonomia dos assessores econômicos, como Maria Alice Setúbal e agora Eduardo Giannetti deixaram evidente nas entrevistas publicadas pela Folha de São Paulo. Abordaram temas – incrível isso – que somente deveriam ser colocados e tornados públicos pela própria candidata. Não por conselheiros por mais confiança que inspirem a ela.
Isso porque, diante do palco da opinião pública, a sociedade deseja tomar conhecimento das plataformas através dos presidenciáveis, não por intermédio de integrantes de consultorias cuja tarefa é debater previamente as opiniões com a titular da candidatura, não com eventuais integrantes de uma equipe que venceu nas urnas.
Assessores e consultores não são capacitados para assumir compromissos de governo. Esta tarefa cabe exclusivamente a quem se lança para conquistar a maioria dos votos do eleitorado. Um caso insubstituível de comunicação direta.

 

No programa do PSB, assessoria participou demais; no Banco do Brasil, presidente prestou atenção de menos

Pedro do Coutto

 

São duas reportagens publicadas no Globo, edição de segunda-feira 1 de setembro. A primeira de Flávio Ilha, que entrevista o candidato a vice Beto Albuquerque, considerando que a coordenação do programa do partido desafinou em algumas questões sensíveis ao eleitorado. A segunda, sem assinatura, revelando que o Ministério Público Federal de São Paulo abriu investigação contra o presidente do banco do Brasil, Aldemir Bendine, por suspeita de ter, por intermédio do ex-motorista, destinado quantias em dinheiro para empresários.

 

As denúncias contra o atual presidente do BB começaram na Folha de São Paulo que, na manchete principal de uma das edições da semana passada, revelou que Bendine fora multado pela Receita Federal em face de erro em sua declaração no Imposto de Renda. Acrescentou que ele pagou multa sem recorrer.

 

Os dois fatos criaram situações sensíveis, o primeiro para a equipe da candidata Marina Silva, refletindo nas intenções de voto para a sua candidatura. O segundo, para a presidente Dilma Rousseff , que terá de pedir explicações públicas ao presidente do Banco do Brasil, porque a sombra a coloca numa posição de constrangimento, com reflexos no eleitorado.

 

Em dois artigos anteriores, eu havia chamado atenção para atuação da assessoria de Marina Silva. Foram duas entrevistas a Folha de São Paulo. A primeira de Maria Alice Setúbal, a segunda de Eduardo Giannetti. Ambos falaram como se fossem eles os candidatos às urnas de 2014, e não a própria Marina Silva. O terceiro fato foi este que aconteceu com o programa partidário. A assessoria foi além da candidata.

Na realidade existem PHD’s nas assessorias político-partidários. Mas PHD é para ajustar as ideias dos candidatos aos planos econômicos, financeiros, sociais. Não para se sobreporem as visões próprias dos titulares das legendas. Não foi o que aconteceu no prisma social quanto ao casamento de pessoas do mesmo sexo. Para tal hipótese se concretizar é necessário a aprovação de emenda constitucional e não somente lei complementar. Como se vê, por exemplo, há necessidade dos assessores terem conhecimento, além de suas especialidades da legislação em vigor do país. O que não foi observado. O reflexo foi ruim. Inclusive, sob o aspecto religioso. Afinal de contas, as religiões católica e protestante são contrárias ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. Se tal hipótese estivesse em lei como os sacerdotes poderiam proceder?

BANCO DO BRASIL

 

Quanto ao desempenho de Aldemir Bendine, presidente do Banco do Brasil, o Palácio do Planalto já deveria ter se antecipado e pedido explicações sobre as reportagens da Folha de São Paulo e o pagamento da multa a Receita Federal, pois não é cabível que o presidente de uma instituição extremamente importante possa ter sido multado pela Receita Federal e o caso tenha ficado restrito às matérias publicadas na imprensa, agora acrescido de uma acusação formulada por um seu ex motorista.

Enfim, os debates entre os candidatos, equívocos e omissões que tenham cometido vão ter seu reflexo medido nas próximas pesquisas do Ibope e Datafolha.

Lembrando a renúncia de Jânio Quadros

Pedro do Coutto

No dia 25 de agosto de 1961, depois de eleito em 60, o presidente Jânio Quadros renunciou abrindo enorme crise política e proporcionando clima para um movimento político militar, liderado pelo governador da Guanabara, Carlos Lacerda, contra aposse do vice João Goulart. Naquela época, a eleição do vice era separada da eleição do presidente da República. Jango derrotou Milton Campos, da UDN, em grande parte por causa do movimento Jan-Jan, Jânio e Jango, que alcançou centenas de milhares de votos em São Paulo e no Paraná.

A política brasileira dividia-se então entre o varguismo e o antivarguismo. Os antivarguistas perderam em 45, apoio de Vargas a Dutra; em 50 com a vitória do próprio Getúlio; em 55 com a vitória de JK tendo Jango como vice.

Em 60, finalmente, o antivarguismo vence nas urnas. E o que faz o vitorioso? Renuncia entrega o poder ao varguismo com a posse de Goulart. O fenômeno levou a que os antivarguistas desistissem do roteiro eleitoral e passassem à teoria da conspiração.

Esta, na verdade, foi a raiz de sua queda do poder para cujo exercício efetivo nunca teve vocação. A essa raiz juntaram-se, por erro explícito, forças sindicais que, de fato, abandonaram suas origens trabalhistas e passaram a tentar ingressar no universo capitalista. A contradição era evidente.

 

João Goulart não teve habilidade para administrar o choque inevitável, não administrando a contradição essencial que se formava em volta de seu poder. Desabou. E com ele o regime democrático, sucedido por 21 anos de ditadura político militar.

Aécio ataca Marina: lance duvidoso em busca do segundo turno

Pedro do Coutto

Numa entrevista à repórter Maria Lima, O Globo do dia 24, o senador Aécio Neves alvejou a ex-senadora Marina Silva, afirmando que não há espaço para ambos, criticou sonhos sem projetos factíveis, além de cobrar respostas sobre suspeitas de uso irregular do avião que levou o ex-governador Eduardo Campos à morte.

O ataque, sob o prisma político eleitoral, tem como objetivo conter o avanço de Marina na luta pelo segundo lugar no quadro da sucessão de outubro. Tacitamente, portanto, Aécio reconhece como certa a primeira colocação de Dilma Rousseff e pretende assim assegurar o segundo turno entre ele e a atual presidente da República.

O êxito do lance que colocou no panorama sucessório é duvidoso. Pois enfraquecer Marina Silva pode não lhe acrescentar votos e, por via indireta, fortalecer ainda mais Dilma Rousseff. A tentativa de alterar o fluxo de transferência das intenções de voto pode não dar resultado positivo para o candidato do PSDB, uma vez que a subida de Marina decorreu de sua influência de arrebatar sufrágios entre os que tinham como propósito anular o voto ou votar em branco e também junto àqueles que se encontravam indecisos. De qualquer forma estabeleceu-se a luta em torno da segunda posição.

SEGUNDO TURNO

O equívoco de Aécio Neves, a meu ver, consistiu em ter optado pelo ataque a uma adversária em vez de procurar destacar suas qualidades, colocando-se acima dos atributos de Marina e de sua capacidade de formulação. Verifica-se nitidamente no quadro eleitoral um choque entre as correntes dilmistas e antidilmistas.

Porém, cientista político algum será capaz de prever que o ataque de Aécio contra Marina, se surtir efeito, poderá assegurar uma transferência total de votos da candidata do PSB para o candidato do PSDB. Poderá, isso sim, contribuir para que não se concretize a hipótese de segundo turno previsto para 26 de outubro. As pesquisas vão definir.

Está prevista a divulgação de novas pesquisas do Datafolha e Ibope para o transcorrer desta semana.

Secretaria de Segurança revela-se impotente para combater o crime no RJ

Pedro do Coutto

A situação crítica que está no título foi revelada pela excelente reportagem de Paula Ferreira, edição de O Globo, dia 26, destacando a importância do relatório enviado ao Tribunal Regional Eleitoral pela Secretaria de Segurança do Rio de Janeiro comunicando que o crime organizado está impedindo que candidatos façam campanha em 41 favelas e áreas de renda baixa do Estado.Traficantes e milicianos cobram pedágio de até 10 mil reais e formam cadastros particulares à base de títulos eleitorais. O documento cujo texto foi publicado pela repórter representa, na realidade a maior confissão de impotência do governo estadual no combate à criminalidade. Apesar deste aspecto gravíssimo do problema, o governador Luiz Fernando Pezão afirma que não precisará de apoio da Força Nacional.

O relatório da Secretaria de Segurança foi entregue segunda-feira passada ao TRE e aponta nominalmente a ocorrência de fortes pressões nas comunidades da Rocinha, Alemão e Maré, além da Vila Ipiranga, em Niterói. O desembargador Fábio Uchoa, que recebeu o documento, classificou a situação como caótica. Por seu turno, o presidente do tribunal, desembargador Bernardo Garcez, afirmou ter enviado ofício ao governador Pezão para ouvi-lo a respeito. Mas o ofício foi respondido por um secretário subalterno, ao contrário do que o panorama exige, que é uma resposta direta do próprio chefe do Executivo. Por este motivo, Garcez encaminhou um novo ofício ao Palácio Guanabara. Há um temor de dizer que há necessidade da presença da Força Nacional.

Ao responder, então diretamente, a esse segundo ofício, o governador Pezão disse que a Secretaria de Secretaria sustentou que, até o presente momento, não há necessidade de forças federais. Como? Segundo Pezão, revela a reportagem de Paula Ferreira, caso o Tribunal Superior Eleitoral julgue necessário aumentar a segurança na cidade do Rio até as eleições, isso não representa fracasso das UPPS.

RESPOSTAS CONTRADITÓRIAS

As respostas do governador, que disputa a reeleição nas urnas de outubro, são contraditórias. Pois se a sua Secretaria de Segurança expôs a ocupação de áreas estaduais ao TRE, o que poderia esperar como resposta? Que a segurança pública é obrigação do estado. Porque, então, esperar uma outra posição por parte do Tribunal Superior Eleitoral? Não faz sentido. A reportagem revela as chantagens feitas por facções criminosas aos candidatos que se aventuram a penetrar nos principados estabelecidos à base de pagamentos regulares em dinheiro. Além disso, os autores das pressões recolhem os títulos eleitorais de moradores das comunidades na tentativa de controlar seus votos no dia 5 de outubro.

Pezão, em declarações à equipe de O Globo, integrada também por Carolina Oliveira Castro, Chico Otávio, Igor Melo, Juliana Castro, Letícia Fernandes e Marcelo Remígio, disse que as milícias dominam as comunidades por meio do assistencialismo em centros sociais e do terror. Assim, garantem o poder político – acrescentou. O que dizer?

Qual a solução desenhada para o impasse da liberdade prevista na lei? Nenhuma, pelo menos até o momento, significando uma situação pré-falimentar de um dos princípios fundamentais do próprio regime democrático, que está na liberdade de ir e vir, essencial à liberdade de expressão e de realizar campanhas eleitorais. Se o governo do Rio de Janeiro se confessa impossibilitado de assumir as providências cabíveis, nem sequer recorrendo ao governo federal, sua omissão se amplia conduzindo-o a um plano inclinado de uma atitude tacitamente de omissão e tolerãncia. Um verdadeiro desastre sintetizado na reportagem de Paula Ferreira, manchete principal de O Globo de 26, que deve ser objeto principal do debate na área da sucessão estadual.

 

 Quem vai ao 2º turno com Garotinho? Romário dispara para o Senado

Pedro do Coutto  
A pesquisa do Ibope sobre as intenções de voto para o governo do Rio de Janeiro, objeto de excelente reportagem de Juliana Castro, O Globo de quarta-feira 27, aponta nos últimos trinta dias um avanço de 7 pontos do candidato Anthony Garotinho, subindo no período de 21 para 28% das intenções devoto. Luiz Fernando Pezão ultrapassou Marcelo Crivella registrando  18 a 16, enquanto Lindbergh Farias passou de 11 para 12 pontos. A pesquisa, creio eu, carimba o passaporte de Garotinho para as urnas de 26 de outubro, mas deixa no ar um enigma que ou será resolvido no segundo turno ou então evidenciado nos levantamentos mais próximos do primeiro embate: quem vai enfrentá-lo no turno final?
Pode ser qualquer um dos três, Pezão, Crivella ou Lindbergh, dependendo do desempenho que apresentarem no horário eleitoral. Pezão leva a vantagem de ter em mãos a máquina administrativa do estado. Lindbergh está sendo explicitamente apoiado pelo ex-presidente Lula, que certamente lhe acrescentará uma parcela de votos, pois se trata do maior eleitor do país. Marcelo Crivella tem o respaldo da legião do bispo Edir Macedo, seu tio, porém os dois pontos que perdeu em agosto em relação a julho provavelmente decorrem da consolidação da candidatura Marina Silva à presidência da República que arrebatou bases de sustentação do eleitorado evangélico. Tanto assim que o pastor Everaldo recuou do terceiro para o primeiro degrau no período.
O Ibope fez três simulações para o segundo turno. Garotinho derrotaria Crivella por um ponto. Pezão por 7. Lindberg por 8 pontos. Curiosa projeção. O adversário mais difícil, como se vê, seria Marcelo Crivella. Vantagem mínima, praticamente um empate.
Mas enquanto há indefinição sobre qual o campo do segundo turno, não parece existir dúvida quanto ao Senado. Para a Câmara Alta, como se sabe, não há necessidade de segundo turno. O campeão do mundo Romário, de julho para agosto, avançou consideravelmente passando de 24 para nada menos de 37% das intenções de voto. O ex-prefeito Cesar Maia, no mesmo espaço de tempo, passou de 17 para 22, subindo 5 pontos. Os demais candidatos não possuem a menor chance de vitória. Sobretudo porque nas urnas de outubro estará em disputa apenas uma vaga.
ROMÁRIO VAI SUBIR MAIS
Romário deu um salto e, sem dúvida, está à porta de marcar mais um gol de placa em sua trajetória vitoriosa. Concorre pelo PSB, partido da ex-senadora Marina Silva que livrou  vantagem em relação a Aécio Neves e, pelo que destaca a pesquisa Ibope, vai ao segundo turno contra Dilma Rousseff no pleito marcado para 26 de outubro. A tendência de Romário, na minha impressão, é subir ainda mais.
Não existe nada no cenário eleitoral fluminense capaz de marcá-lo na arrancada final. Entretanto, em matéria de voto, quanto a governador e presidente da república surgem algumas dúvidas. Por exemplo o apoio de Garotinho a Dilma, que realizaram campanha juntos, quarta-feira no Rio. Tal apoio, por si, evidentemente atinge a articulação com o governador Pezão, formalizada há cerca de um mês em almoço, também na cidade do rio, com grande número de prefeitos. Uma dualidade impossível. Outro problema, para Dilma Rousseff é o apoio de Lula à candidatura de Lindbergh. Dilma não poderá deixar de seguir o mesmo caminho.
São três estradas no RJ rumo a Brasília. Se a dualidade que há pouco coloquei já era difícil, quanto mais três versões de votos. As contradições ainda não acabaram. Aparece ainda a propaganda veiculada pelo ex-ministro Carlos Lupi, que possui e pontos para o Senado, entre o ex-presidente Lula e a presidente Dilma Rousseff. É demais.

Marina Silva, uma arrancada espetacular

Pedro do Coutto
A pesquisa do Datafolha divulgada pelo Jornal Nacional de sexta-feira e objeto de reportagens na Folha de São Paulo e de O Globo de sábado, revela uma arrancada espetacular de Marina Silva nas intenções de voto para presidente da República nas urnas de outubro. Num espaço de tempo de quinze dias, ela avançou treze pontos, empatando na primeira colocação com a presidente Dilma Rousseff: 34 a 34%. Como no penúltimo levantamento do Datafolha ela registrava 21 pontos, nas duas últimas semanas ela subiu numa velocidade de quase 1 ponto por dia.
Nesse mesmo espaço de tempo Dilma recuou dois degraus e Aécio Neves caiu cinco pontos, descendo para 15%. A mão do destino parece ir ao encontro de Marina Silva, candidata com a coligação de pequenos partidos. Primeiro o trágico acidente que causou a morte de Eduardo Campos expôs intensamente sua imagem nos jornais e nas redes de televisão. Ela saiu-se bem nas aparições e também no debate promovido pela Rede Bandeirantes de Televisão que provavelmente lhe acrescentou alguns pontos, apesar de a audiência máxima ter ficado em 7%.
ECONOMIA EM QUEDA
Falei mão do destino e vejam só a pesquisa do Datafolha foi publicada nos jornais simultaneamente ao resultado do PIB do segundo trimestre que assinalou um retrocesso de 0,6%, levantando pelo menos uma sombra sobre o desempenho da economia brasileira, fator que reflete negativamente no governo. Observamos inclusive que esta foi a última estimativa do PIB antes das eleições pois o trimestre agosto, setembro, outubro somente poderá ser divulgado após as urnas eleitorais terem sido computadas.
Da mesma forma que a pesquisa do Ibope, o Datafolha assinalou a polarização do eleitorado entre Dilma Rousseff e Marina Silva, uma vez que Aécio Neves, além da queda de cinco pontos, não vem demonstrando na campanha agressividade que seria de esperar por parte de um candidato da oposição. Motivos não faltam. A começar pela sonegação fiscal responsável a meu ver pela queda da arrecadação tributária. Para citar um só exemplo lembro que um ex-diretor da Petrobrás, que inclusive se encontra preso é acusado pela Polícia Federal de possuir uma conta num banco suíço no valor de 23 milhões de dólares.
Este quadro olhado panoramicamente não quer entretanto dizer que a sucessão presidencial, cujo desfecho se dará a 26 de outubro esteja hoje decidida pela vantagem (larga) de 10 pontos que Marina Silva, pelo Datafolha, livra sobre a atual presidente. Há pontos que serão focalizados no debate ao longo dos 30 dias que faltam para o primeiro turno que podem modificar a tendência hoje registrada. Num sentido ou no outro, como é o caso do pré-sal. Entretanto o desfecho final das urnas não sairá das duas primeiras colocações que as pesquisas, tanto do Ibope quanto do Datafolha apresentam. Aécio Neves perdeu velocidade e os demais candidatos praticamente não existem. Por falar em candidatos, vale a pena frisar serem onze no total, número raramente alcançado nas eleições presidenciais do Brasil. Criam-se partidos como se instalam pequenas empresas. Incrível.

 

Debandar do poder para apoiar Aécio? Politicamente impossível

Pedro do Coutto
Em sua coluna de O Globo, edição de quarta-feira 27, ao comentar a mais recente pesquisa do Ibope, o jornalista Merval Pereira afirmou ser “possível que boa parte da base aliada da presidente comece a debandar em busca de salvar-se na candidatura Aécio, se a vitória de Marina no segundo turno deixar de ser uma onda que vem e vai para se transformar numa possibilidade em si”. Discordo. Tal transferência, no sentido da candidatura Aécio Neves, presumo que ainda no primeiro turno, é politicamente impossível. Seria a primeira vez na história que haveria uma debandada de forças que vivem na área do poder.
Por que deveriam debandar de uma candidatura que ainda se encontra à frente das pesquisas no primeiro turno para um candidato que, pelo mesmo Ibope, encontra-se dez pontos atrás de Marina Silva? Fisiologicamente, debandar por debandar, seria mais lógico que, em tal caso, a debandada fosse diretamente no sentido de Marina Silva. Isso de um lado. De outro, também sob o prisma do fisiologismo, a debandada não teria conteúdo prático, pois como no velho ditado aplaude-se a traição, rejeita-se o traidor. Outro aspecto: em caso de dificuldade à vista para Dilma Rousseff permanecer no Planalto, mais necessitará ela do apoio de todas as correntes da chamada base aliada. Assim, os possíveis desertores veriam sua permanência valorizada no jogo.
“Esses partidos – acrescenta Merval Pereira – só estão com Dilma porque consideravam inevitável sua vitória e devem estar lamentando não terem desertado antes, como fizeram alguns setores do PMDB, do PP e do PTB.”
Não é fato. Se a deserção inspira-se na obtenção de metas fisiológicas, se os traidores da base tivessem se afastado antes de agora, o que obteriam em troca? Nada. Além do mais, a tese implica em que o candidato Aécio Neves aceitaria a adesão interesseira, contrariando os princípios que tem exposto na campanha. E não é só. Debandando do poder, os personagens da nave da revolta teriam deixado de contar com as vantagens diretas ou indiretas do poder sem receberem nada em troca. Sim. Sem receberem nada em troca, uma vez que, não tendo as engrenagens do poder nas mãos, Aécio Neves nada poderia oferecer. Isso é absolutamente claro, de lógica cristalina.
Porque, por exemplo, no debate da rede Bandeirantes de Televisão, todas as cobranças convergiriam para Dilma Rousseff? Simplesmente porque ela era a única pessoa que poderia receber cobranças, na medida em que ela é a chefe do Poder Executivo. Cobrar o quê de Aécio Neves? Dos demais candidatos não vale a pena nem falar. Em seu conjunto, com a queda do pastor Everaldo de 3 pontos para apenas 1, não ultrapassam 5% das intenções de voto. Eram sete candidaturas desempenhando seus papeis. Apenas três candidatos reais. E olha que, de forma surpreendente, quatro outros candidatos deixaram de comparecer. Parece incrível mas são onze as candidaturas presidenciais.
Mas voltando ao tema central deste artigo, podem haver deserções na política eleitoral, porém nunca para um candidato, como Aécio Neves, que se encontra 15 pontos atrás de uma candidata e diz pontos atrás da segunda que, contra a primeira, vai enfrentá-la no desfecho final. Dificilmente a candidatura de Aécio recuperará o espaço perdido.

 

Debate na Band atingiu máximo de 7 pontos e não mudou quadro eleitoral

Marina Silva, Aecio Neves, Ricardo Boechat e Dilma Rousseff
Pedro do Coutto
O debate que reuniu sete candidatos à presidência da República, realizado pela Rede Bandeirantes na terça-feira, atingiu o máximo de 7 pontos no Ibope e não mudou o quadro eleitoral que tonaliza para um segundo turno entre Dilma Rousseff e Marina Silva. Foram duas matérias publicadas na edição de ontem da Folha de São Paulo que acentuam esta realidade.
A primeira revelando que o debate, em seu pico máximo, sete pontos de audiência, com a média de 5%. Isso significa que ao longo das três horas de duração que apresentou a audiência foi caindo à medida que o tempo passava. Deve ter chegado a uma da manhã com o máximo 3 pontos. A segunda, também publicada pela Folha, revela pesquisa realizada pelo Instituto MDA por encomenda da Confederação Nacional dos Transportes. Confirma quase exatamente os índices encontrados pelo Ibope, exceto quanto à posição de Aécio Neves.
O MDA apontou 34 para Dilma Rousseff, 28 para Marina e 16% para Aécio Neves. A diferença em relação ao que o Ibope achou para o senador mineiro, como se observa é de 3 pontos para menos. Quanto aos outros candidatos o MDA nada apresentou. Fez uma simulação para o segundo turno: Marina venceria Dilma por 43 a 37. Verifica-se assim uma convergência dos números e das tendências registradas. Vamos esperar para os próximos dias a divulgação do levantamento que está sendo feito pelo Datafolha. De qualquer forma ao que tudo indica as colocações das duas primeiras candidaturas não deverão ser alteradas.
E neste plano vamos citar um terceiro texto publicado na edição de ontem da Folha de São Paulo. Trata-se do artigo da jornalista Eliane Cantanhede cujo título foi o seguinte: Aécio no pior dos mundos. A frase revela de imediato o conteúdo que a direção do artigo acentuando que Aécio que contava crescer a partir de agora desabou sem ao menos conseguir estabilizar-se no patamar em que se encontrava. Um avião desabou na cabeça de todo mundo. De fato para o crescimento de Marina Silva tornou-se fator importante a repercussão da trágica morte de Eduardo Campos, em cuja chapa figurava como candidata a vice presidente. Mas não é somente esse o motivo da descida tanto de Dilma quanto de Aécio, acentuo eu.
Relativamente a Aécio Neves deve-se registrar sua pouca agressividade demonstrada na campanha eleitoral. Motivos para confrontar o governo não faltam, a começar pela farsa da CPI da Petrobrás, decorrente da compra da refinaria de Pasadena no Texas. O senador mineiro não desejou focalizar o tema e passou ao eleitorado imagem leve demais para quem se apresenta como adversário do governo Dilma Rousseff. Sua ultrapassagem pela candidata Marina Silva deixou-o em posição crítica. Pela primeira vez do decorrer da campanha encontra-se ameaçado de ficar fora das urnas de 26 de outubro. O segundo turno assim, que a esta altura parece ser inevitável deverá estar restrito às candidatas do PT e do PSB.
Curioso é que o instituto da reeleição foi implantado pelo presidente Fernando Henrique Cardoso do PSDB e agora tende a doze anos depois deixar o PSDB fora de um desfecho presidencial. Aliás, por falar em reeleição o sistema vigente é profundamente contraditório. Basta dizer que  enquanto um secretário estadual, por exemplo, para ser candidato a deputado precisa deixar o cargo seis meses antes do pleito, mas um presidente da República e um governador podem disputar as urnas permanecendo nos postos executivos que ocupam. Absurdo total. Que pode ser ampliado com outro exemplo mais banal: o apresentador de programa de televisão ou rádio não pode permanecer no seu trabalho a partir de seis meses antes das eleições. O presidente da República pode.

 

Ibope define segundo turno entre Dilma Rousseff e Marina Silva

Pedro do Coutto
A pesquisa do Ibope revelado pela rede Globo na noite de terça-feira, e também objeto de reportagem de Sérgio Roxo na edição de O Globo de ontem, quarta-feira 27, a meu ver define antecipadamente o segundo turno nas eleições presidenciais de outubro: o confronto, se não houver um fato absolutamente imprevisto, será entre Dilma Rousseff e Marina Silva. A ex-senadora, inclusive, encontra-se em plena ascensão, tendo subido 8 pontos de julho para agosto, comparando-se a atual pesquisa com a que o Datafolha publicou no final do mês passado na Folha de São Paulo.
No mesmo espaço de tempo, a presidente da República recuou 4 pontos, descendo de 38 para 34%. Mantém a liderança, mas a distância em relação a marina encurtou para 5 degraus. O terceiro candidato, Aécio Neves, perdeu 4 pontos declinando para 19%. Como se observa, o ex-governador de Minas Gerais ficou 15 pontos distante de Dilma e 10 pontos de Marina Silva. Inclusive o debate realizado pela Rede bandeirantes de televisão, mediado por Ricardo Boechat, confirmou a polarização entre as duas primeiras colocadas no Ibope. Aécio Neves não convenceu. Sua participação foi fraca.
O quadro não lhe é favorável. Sobretudo porque Marina encontra-se em plena ascensão. Para subir, Aécio Neves tem que empolgar, o que não está conseguindo fazer, as correntes antidilmistas. Pois o pleito está nitidamente dividindo o eleitorado entre os que estão com Dilma e os que se voltam contra sua reeleição. Marina Silva assumiu este papel e, embalada pela morte de Eduardo Campos, está conseguindo preencher o espaço da oposição, colocando em prática uma firmeza que falta a Aécio.
GRAÇA FOSTER
A presidente da República está sendo atingida pelos reflexos de alguns equívocos que cometeu. O primeiro decorrendo da aliança com candidatos fracos que o PT apresentou em São Paulo e no Paraná, por exemplo. Alexandre Padilha e Gleisi Hoffman nada acrescentam à candidatura da presidente. Mas não apenas isso. Na minha opinião, a atitude de Graça Foster, transferindo os imóveis que possui para os filhos, deixou o governo mal, pois, como escreveu Élio Gásperi no Globo de domingo, colocou-a ao lado do ex-diretor Nestor Cerveró que tomou a mesma iniciativa.
Diante da repercussão da matéria na imprensa, Dilma Rousseff precipitou-se em sair na defesa de Graça Foster, tentando desviar o tema para focalizar a Petrobrás como instituição. A Petrobrás é, sem dúvida, uma instituição econômica, a maior empresa do Brasil, mas a questão não era essa.
O segundo turno, para o qual na simulação formulada pelo Ibope, hoje, aponta Marina bem à frente de Dilma, por 45 a 36% dos votos, entretanto vai se constituir numa nova etapa, num outro quadro. O esquema partidário ao lado da atual presidente é muito mais forte. Porém até agora não conseguiu fazer com que tal realidade se refletisse nas intenções de voto. Pelo contrário. As pesquisas estão demonstrando a ruptura do eleitorado com o sistema configurado pelas legendas. Assim não fosse, Marina Silva não teria saltado de 21 para 29 pontos num espaço de duas semanas.
Faltam 5 semanas para o turno marcado para 5 de outubro. Mas como os levantamentos concluem a decisão final será nas urnas do dia 26: entre Dilma Rousseff e Marina Silva. Aécio neves perdeu impulso justamente na fase mais sensível da campanha política.

Com a propaganda eleitoral em marcha, pesquisas vão definir os rumos


Pedro do Coutto
O tempo da propaganda eleitoral na televisão e no rádio começou, e, logicamente os candidatos vão definir suas estratégias realçando as diferenças entre eles, como destacaram as reportagens de O Globo e Folha de São Paulo, nas edições de quarta-feira 20. No Globo, o texto foi assinado pela repórter Maria Lima. Na Folha de São Paulo, um conjunto de matérias divididas em blocos, sem assinatura. Convergem entretanto para o mesmo tema. Escrevo este artigo na quarta-feira, antes portanto da primeira aparição de Marina Silva como candidata do PSB, tendo como vice o deputado gaúcho Beto Albuquerque, da corrente menos reformista do partido.
Os desempenhos na TV são fundamentais para os avanços das campanhas, razão pela qual as exposições, como sempre, serão acompanhadas pelas pesquisas no sentido de medir seus efeitos na opinião pública, no eleitorado como um todo. Eventuais equívocos e posturas não adequadas serão corrigidos no passar dos dias, uma vez que os três principais candidatos, Dilma Rousseff, Marina Silva e Aécio Neves, também vão se expor em seus horários três vezes por semana, além das inserções diárias de 30 segundos cada uma. São inserções múltiplas, com a presidente da república tendo direito a 36 ou 38 comerciais  por semana ao longo de diversos horários. Aparecem repentinamente nas telas nos momentos mais diversos.
PESQUISAS

As medições quanto aos efeitos que produzem já podem ser avaliados a partir desta semana, pois o quadro estará completo com a homologação, pelo PSB, de Marina Silva como candidata da legenda que lidera uma coligação de pequenos partidos. Vamos observar, a partir de então, os reflexos mais concretos do confronto, reduzido o impacto da emoção pela trágica morte e pelo sepultamento de Eduardo Campos.
Deve-se levar em conta, inclusive, que os quadros que formam no apoio a Dilma Rousseff e Aécio Neves já se encontram consolidados. Os em torno de marina Silva ainda não totalmente. A indicação do candidato a vice, por exemplo. O deputado Beto Albiquerque conta com o apoio do agronegócio, como afirmou na Folha de São Paulo o repórter Felipe Bachtoldt, edição do dia 20. O agronegócio enfrenta resistência da candidata Marina Silva. Ela terá também que equacionar ou conviver com a candidatura de Márcio França  a vice-governador de São Paulo na chapa de Geraldo Alckmin. Márcio França é o presidente da seção paulista do PSB. Vai ter que equacionar ou superar o apoio do Partido Socialista Brasileiro à candidatura Linbergh Farias que é do PT, ao governo do Estado do Rio de Janeiro. Enfim nada insuperável, mas nem por isso deixa de exigir sensibilidade para as circunstâncias e trabalho para superá-las.
O PASTOR E A PETROBRAS
O pastor Everaldo, que alcança 3% nas pesquisas do Ibope e Datafolha quanto as intenções de voto, foi entrevistado na noite de terça-feira por William Bonner e Patrícia Poeta no Jornal Nacional. Foram quinze minutos de diversão, uma vez que a candidatura do Partido Socialista Cristão só pode ser levada a sério como capaz de assegurar a realização do segundo turno. Três pontos podem ser decisivos sob este aspecto. Fora daí, não tem o menor sentido, a não ser conduzir ao divertimento. Basta dizer que defendeu, se eleito, a privatização da Petrobrás. Quem poderia comprar a estatal? Somente uma empresa internacional, já que Eike Batista está fora de cogitações. Qual seria o preço? O próprio pastor Everaldo não faz ideia.

 Impactos na campanha: Graça Foster, Marina e apoio de Lula a Lindbergh

Pedro do Coutto
A política, mistura de ciência e arte, está cheia de acontecimentos imprevistos que explodem a cada momento, especialmente nas disputas eleitorais, capazes de influir e até mudar, pelo menos parcialmente, os rumos das campanhas sinalizados pelas pesquisas de intenções de voto. A atitude da presidente da Petrobrás, Graça Foster, doando três imóveis que possui para os filhos temendo o bloqueio de bens pelo tribunal de Contas da União, é um exemplo. Deixou em posição desconfortável a presidente Dilma Rousseff, ao tomar iniciativa igual à de Nestor Cerveró, ex-diretor da estatal, sobretudo porque Cerveró, juntamente com Sérgio Gabrielli e Roberto Costa, foi acusado pela chefe do Executivo de fornecer informações incompletas sobre a compra da refinaria de Pasadena.
Dilma Rousseff saiu na defesa de Graça Foster no primeiro instante. Não estava com as informações divulgadas pelos repórteres Vinicius Sassine, Eduardo Bressolini e Demétrio Weber, O Globo, edição de quinta-feira 21. A decisão de Graça Foster não acrescenta nenhum voto para a reeleição da presidente da República. Mas pode tirar. Basta o cotejo das duas faces da questão para acentuar a imprudência do gesto. Desnecessário. Os filhos são herdeiros universais e necessários. Assim agindo, ela se igualou a Nestor Cerveró. Errou e muito sob o prisma político.
IMPOSIÇÕES DE MARINA
Outro impacto na campanha foi produzido por Marina Silva com as imposições a que obrigou o PSB, partido ao qual está filiada. Uma delas a de não apoiar os candidatos escolhidos pela legenda em São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio de Janeiro. Foram compromissos assumidos por Eduardo Campos que ela resolveu apagar da memória partidária. reportagem de Simone Iglesias, Cristiane Jungblut e Catarina Alencastro, O Globo também de 21 de agosto destaca estas alterações. Além disso, ela afirmou que, candidatando-se pelo PSB, não desistirá de se empenhar pela transformação do Movimento Rede Sustentabilidade em partido político, o que facilmente acontecerá se ela for eleita pelas urnas de outubro. Para a Rede será uma alvorada. Para ela, Marina, a chegada ao Planalto.
Marina Silva também fez duas substituições no comando da campanha: o coordenador geral e o encarregado da arrecadação financeira. Tais substituições não devem ter agradado nada o comando do Partido Socialista Brasileiro. Principalmente uma arrecadação financeira estilo socialista, presume-se, colocada em prática num sistema capitalista. Sim, partindo-se do princípio de que doações para campanhas políticas só podem se realizar através do capital. Nunca dos salários por motivos óbvios.
LULA E LINDBERGH

Finalmente o terceiro impacto: o apoio expressado pelo ex-presidente Lula a Lindbergh Farias, candidato ao governo do Rio de janeiro. Como Lula aparece apoiando enfaticamente Dilma Rousseff, depois de aderir a Lindbergh, dificilmente Dilma Rousseff poderá se aproximar de Luiz Fernando Pezão, como no episódio que marcou o encontro de ambos com grande número de prefeitos fluminenses quando foi lançada a chapa Dilmão: Dilma com Pezão. Qualquer novo movimento nesse sentido, sem dúvida, causará confusão na cabeça dos eleitores do Rio de janeiro, capazes de identificar uma distonia entre o -ex-presidente da república e a atual que busca nas urnas a reeleição e tem em Luís Inácio da Silva seu maior eleitor e sua principal fonte de apoio. Com o apoio de Lula, Lindbergh, quarto colocado no Ibope e Datafolha, passa a ser um candidato competitivo. Pode subir na escala de votos, superando Pezão e Marcelo Crivela e decidindo o acesso às escadas do Palácio Guanabara com Garotinho no segundo turno.
Bem: esses foram os impactos. Vamos ver como se refletem nas próximas pesquisas do Ibope e Datafolha.

Assessora assume diretrizes econômicas de Marina Silva

Pedro do Coutto
Numa entrevista ao repórter Fernando Rodrigues, edição de 22 de agosto da Folha de São Paulo, Maria Alice Setúbal, acionista do grupo Itau e principal assessora econômica de Marina Silva, narrou e praticamente assumiu as principais diretrizes da candidata do PSB, o que, sem dúvida, representou um exagero, uma ruptura dos limites que publicamente separam o assessoramento do primeiro plano reservado aos candidatos. Não creio tenha a atitude sido positiva em matéria de votos para a ex-senadora.
Maria Alice Setúbal afirmou, por exemplo, que ao longo da campanha mais economistas estarão se aproximando (da candidata) e terão o perfil de operadores do mercado para compensar a característica mais acadêmica da maioria dos atuais conselheiros. Neste ponto, claro, entrou em rota de colisão com os conselheiros a que se refere. Destacou que esta será a tentativa de Marina de se qualificar como uma candidata confiável aos olhos do establishement financeiro e empresarial. Informou que  o programa a ser assumido pela candidata deve ser lançado na próxima sexta-feira, 29 deste mês. A candidata, acrescentou Maria Alice, estuda fazer um discurso ou um documento sucinto a respeito de seus compromissos na área econômica.
Ela ressaltou que conversa quase todos os dias com Marina e que, partir da consolidação da candidatura, cresceram as ofertas de doações. E foi em frente. Falou sobre pontos específicos do programa, dando a impressão de que Marina será uma repetidora deles, não idealizadora. Fernando Rodrigues perguntou: Marina concorda com todos esses pontos e vai assumi-los?
Vai assumi-los, assegurou Maria Alice. Ela tinha se se posicionado em alguns pontos de forma diferente de Eduardo. O caso da autonomia do Banco Central, por exemplo. Ela não achava que precisaria uma lei. Existiam diferenças. Mas o programa (partidário) vai refletir o consenso. Assim Marina aceitou a fórmula, acrescentou Maria Alice.
Já que a assessora estava falando sobre os mais variados temas, Fernando Rodrigues indagou: Há em geral dúvida sobre a falta de experiência administrativa de Marina. Como ela responderá a essa crítica? Maria Alice respondeu através de uma comparação com Dilma Rousseff. Afirmou: hoje, temos uma presidente cujo perfil é de gestão programática, racional. Talvez o oposto de Marina. E o resultado que nós temos é bastante insatisfatório. Toda essa fala de Dilma gestora se desfez ao longo de quatro anos. O mercado visualizando as pessoas que estarão ao lado dela (Marina) vai ter mais segurança. Ela já tem vários economistas. Terá outros, mais operadores, revelou.
O principal problema do governo Dilma – prosseguiu Maria Alice Setúbal – é a questão política. Ela tem incapacidade de ouvir. Tem um discurso absolutamente racional, de uma gerente, uma gestora. Mas tem que ter liderança. Ela não tem essa capacidade política. Ela desagrega. É aquela pessoa dura, que bate na mesa, que briga, que sustenta eu vou fazer, acontecer. Atitude política tradicional de quem vai resolver tudo sozinha.
Maria Alice, como se vê pelo texto de Fernando Rodrigues, assumiu um espaço na comunicação que, penso eu, deveria ter sido antes assumido pela candidata em pessoa. Passou a ideia de que Marina Silva em vez de produzir afirmações, repete opiniões. Torna-se assim, o que é negativo, uma síntese de sua assessoria, um consenso de seus consultores.

Horário eleitoral precisa, pelo menos, passar seriedade

Pedro do Coutto

O horário eleitoral na televisão precisa urgentemente ser modernizado quanto a forma de apresentação dos candidatos e principalmente passar o mínimo de seriedade e credibilidade. Os partidos são responsáveis pela desarrumação e confusão que o envolvem, fatores que se refletem na acentuada queda dos índices de audiência, através especialmente da fuga para os canais pagos. É o que revela a jornalista Keila Jimenez na edição da Folha de São Paulo de 21 de agosto, quinta-feira passada.

Ela acentua que à tarde do primeiro dia da entrada em vigor do espaço obrigatório nada menos que 28% dos televisores da Grande São Paulo deslocaram-se para os canais pagos que subiram de habituais 3,7 pontos para 8,9%. Cada ponto na região representa 65 mil domicílios. A Globo, que possui audiência média de 11 pontos das 13 às 13:50hs, caiu para 5,9%. À noite, das 20:30hs às 21:20hs, a fuga para os canais por assinatura elevou-se dos habituais 9 pontos para a escala de 16,4%. No horário político, a Globo perdeu 27%, a Record 40 e o SBT 28 pontos.

Para a colunista de TV da Folha de São Paulo, com o passar dos dias, a tendência é a retração se ampliar. Decorrência, principalmente, creio eu, da falta de qualidade dos candidatos que fazem promessas absurdas sem parar e se transformam em figuras folclóricas que não passam a menor confiança por não dizerem como pretendem efetivar os compromissos que se propõem a assumir com milhões de pessoas que vão comparecer às urnas de outubro.

PROMESSAS

Candidatos a deputado federal e estadual apresentam propostas que aos poderes executivos (federal, estaduais) compete executar como seus próprios nomes indicam. Porque as direções partidárias não selecionam melhor as pessoas que se apresentam para disputar o voto do eleitorado? Simplesmente porque não lhes interessam. Aos dirigentes interessa atrair e apresentar candidatos de poucos votos, mas de boa presença nas comunidades, a fim de que possam somar sufrágios para as legendas, porém sem ameaçar os que as dirigem.

O resultado é esse que se vê. Lástimas sob o ângulo de análise, ou um divertimento inconsequente, visto de modo amplo e geral. Há pessoas que assistem ao horário político para se divertir com a exposição de absurdos em série. Casos existem em que as falas, nos curtos espaços a serem preenchidos rapidamente, em que as mensagens não fazem sequer sentido. E pior: quando um está terminando sua parte, o outro está iniciando, ficando uma voz em cima da outra. Um desastre completo.

Para resolver isso bastaria uma divisão melhor do tempo disponível de cada legenda e um treinamento prévio. Tal iniciativa elevaria os níveis de audiência no passar dos dias, funcionando inclusive para adicionar doses de propaganda aos candidatos a presidente da República e aos governos estaduais. Enfim seria melhor para todos, sobretudo para aprimorar o perfil dos que se apresentam como habilitados a receber o voto, país afora, de milhões e milhões de eleitores. Do jeito como as coisas estão funcionando hoje, os espaços partidários vão adicionar um retrocesso em cima do outro. A democracia, de fato, necessita ter níveis positivos de qualidade. Estão faltando.

Marina abre cisões no PSB; Dilma erra na forma de apoio a Graça Foster

Pedro do Coutto

Foram duas reportagens publicadas na edição de O Globo de sexta-feira 22 de agosto. A primeira de Catarina Alencastro, Simone Iglesias e Flávio Ilha focalizando a crise aberta no comando de campanha de Marina Silva no PSB. A segunda de Eduardo Bresciani reproduzindo declarações da presidente Dilma Rousseff apoiando a atitude de Graça Foster de transferir para o nome dos filhos três imóveis que possui. Foram dois erros, na realidade, um cometido pela ex-senadora; outro pela candidata à reeleição nas urnas de outubro.

Era esperada, como escreveu Eliane Catanhede na Folha de São Paulo também de sexta-feira, a dificuldade que Marina encontraria no Partido Socialista Brasileiro. Não somente pela substituição de dois coordenadores da campanha, um deles no setor de arrecadação financeira, mas igualmente em função do veto que formulou às alianças firmadas pelo PSB em São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio de Janeiro.

Rejeitados os candidatos que formaram em coligações condenadas por ela, é claro quje não poderão apoiar sua candidatura. É o caso por exemplo, de Márcio França, candidato a vice do governador Geraldo Alckmin em São Paulo, e de Lindbergh Farias, candidato ao governo do Rio de janeiro. Essas dissidências pesam, sem dúvida. Quanto a Lindbergh, este não poderia mesmo apoiar Marina Silva, não só porque é candidato do PT, mas sobretudo pelo fato de ter recebido o apoio declarado na televisão do ex-presidente Lula.

O apoio de Lula, inclusive, vai levar Dilma a reexaminar a articulação iniciada com Pezão e acompanhar seu maior eleitor na direção de Lidbergh. Pois não será possível que ela forme ao lado de uma candidatura estadual combatida na prática do apelo ao voto pelo ex-presidente Lula. O ex-prefeito de Nova Iguaçu levou a melhor no episódio.

Enquanto isso, de outro lado, espontaneamente a presidente Dilma Rousseff levou a pior na defesa que fez de Graça Foster, presidente da Petrobrás por sua indicação direta e pessoal. Principalmente, quanto à forma que usou, acusando a oposição de tentar deslocar a Petrobrás para o campo do debate eleitoral. E, ao mesmo tempo, defender como legítima a pressão de ministros e setores do governo sobre o Tribunal de Contas da União, como está na manchete principal da edição de O Globo, 22. Não faz sentido.

Sua iniciativa não  vai lhe acrescentar um voto sequer. Mas é capaz de prejudicá-la em matéria de intenção de votos. O debate em torno da Petrobrás foi alimentado pela estranha transação  envolvendo a compra (forçada) da refinaria de Pasadena, Texas, condenada por ela própria, Dilma Rousseff, quando acusou os ex-diretores Sergio Gabrielli, Nestor Cerveró e Paulo Roberto Costa de haverem fornecido informações incompletas ao Conselho de Administração da estatal, o qual dirigia por ocupar, final do governo Lula, a chefia da Casa Civil. Transferindo seus imóveis para os filhos, Graça Foster assumiu a mesma atitude do ex-diretor Nestor Cerveró. Inclusive quase na mesma data.

MARINA NA GLOBO QUARTA-FEIRA

William Bonner anunciou na edição de quinta-feira do Jornal nacional que Marina Silva será entrevistada por ele e Patrícia Poeta na edição do JN da próxima quarta-feira. Será uma oportunidade para que a candidata do PSB possasesclarecer contradições que envolvem sua plataforma eleitoral e seu relacionamento com o próprio PSB, pois excluiu de sua cogitação as sessões regionais de São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio de Janeiro, afastando-se dessa forma da totalidade de compromissos assumidos por Eduardo Campos.

Deverá também ser indagada sobre o relacionamento de sua campanha com o agronegócio, uma vez que o vice Beto Albuquerque é ligado a esse setor produtivo. Vamos ver o que acontece.