Entre a paixão nacional e o vazio fiscal: o Brasil das apostas e seus desafios

Se Galípolo disser o que sabe, o mercado financeiro vai sofrer um forte abalo

O custo social de uma política monetária restritiva no Brasil

Charge do Cazio (Blog do AFR)

Pedro do Coutto

O mais recente levantamento do Banco Central, divulgado em reportagem de Bruna Alessa, Vinícius Néder e Letícia Rafaela, em O Globo, expõe um retrato preocupante da economia doméstica brasileira. O endividamento das famílias voltou a crescer, enquanto a concessão de novos empréstimos recuou de forma significativa. No centro desse desequilíbrio está uma variável bem conhecida, mas ainda subestimada em seus efeitos sociais e políticos: a taxa de juros.

Com a taxa básica da economia mantida em 15% ao ano, em um contexto de inflação estimada em 4,1%, o Brasil opera hoje com juros reais em torno de 11%. Trata-se de um patamar extremamente elevado quando comparado a padrões internacionais, inclusive entre países emergentes. Essa escolha de política monetária, embora justificada pelo discurso do controle inflacionário e da credibilidade fiscal, cobra um preço alto da sociedade — especialmente das famílias de renda média e baixa.

ENDIVIDAMENTO – Os dados são eloquentes. Em outubro, o endividamento das famílias alcançou 49,3% da renda anual, enquanto o comprometimento da renda com o pagamento de dívidas chegou a 29,4%. Em outras palavras, quase um terço do rendimento médio das famílias brasileiras está sendo consumido pelo serviço da dívida. Não se trata apenas de números frios: é menos comida na mesa, menos investimento em educação, menos capacidade de planejamento e mais insegurança cotidiana.

O quadro se agrava quando se observa a dinâmica do crédito. A concessão de novos empréstimos caiu cerca de 6,6%, sinalizando retração da atividade econômica e maior cautela — tanto de bancos quanto de tomadores. O crédito às empresas, fundamental para sustentar investimentos, emprego e crescimento, sofreu quedas ainda mais expressivas, superiores a 30% em termos proporcionais à renda anual média. Esse estrangulamento do crédito produtivo compromete a recuperação econômica e reforça um ciclo de baixo crescimento.

CUSTO DO CRÉDITO – Mas talvez o aspecto mais chocante — e politicamente sensível — seja o custo do crédito ao consumidor. Os juros do cartão de crédito rotativo, quando financiados, chegam a absurdos 440% ao ano. Não há racionalidade econômica, tampouco justificativa moral ou social, para taxas dessa magnitude. Elas estão fora de qualquer padrão aceitável de normalidade e revelam falhas estruturais graves no sistema financeiro, na regulação do crédito e na proteção ao consumidor.

É importante destacar que os salários não têm acompanhado a inflação de forma consistente. Mesmo com índices inflacionários relativamente controlados, a renda real das famílias permanece pressionada. O resultado é previsível: para manter o padrão mínimo de consumo, muitas famílias recorrem ao crédito caro, aprofundando um processo de endividamento que se retroalimenta.

DILEMAS – Do ponto de vista político, esse cenário impõe dilemas claros. Uma política monetária excessivamente restritiva pode até conter pressões inflacionárias no curto prazo, mas produz efeitos colaterais relevantes: desaceleração econômica, aumento da inadimplência, concentração de renda no sistema financeiro e desgaste social. O debate sobre juros, portanto, não é apenas técnico — é profundamente político.

Fontes de alta credibilidade como o Banco Central do Brasil, o IBGE e o próprio O Globo ajudam a iluminar esse diagnóstico, mas a decisão sobre os rumos da política econômica exige algo além dos modelos: sensibilidade social e visão estratégica de desenvolvimento. Persistir em juros reais tão elevados significa aceitar, como custo colateral, o empobrecimento relativo das famílias e a asfixia do setor produtivo.

A pergunta que se impõe é simples e incômoda: a quem serve uma economia que remunera tão bem o capital financeiro, mas empurra milhões de famílias para o limite do endividamento permanente? Enquanto essa questão não for enfrentada com coragem e equilíbrio, os números continuarão piorando — e a fatura social, inevitavelmente, chegará às urnas.

Bolsonaro sela a sucessão, enquadra o PL e redefine o jogo da direita

Bolsonaro busca preservar seu capital político 

Pedro do Coutto

A carta aberta divulgada por Jair Bolsonaro pouco antes de se submeter a uma nova cirurgia não pode ser lida como um gesto improvisado, emocional ou meramente familiar. Em política, especialmente na política brasileira recente, timing é substância. E o momento escolhido pelo ex-presidente foi tão eloquente quanto o conteúdo do texto. Ao formalizar apoio à candidatura presidencial do próprio filho, hoje senador da República, Bolsonaro não apenas fez uma declaração de preferência: ele decretou uma linha sucessória e impôs uma ordem interna ao bolsonarismo.

A repercussão imediata confirmou o alcance do movimento. A grande imprensa, com destaque para O Globo, tratou o episódio como um divisor de águas dentro do Partido Liberal. Não por acaso. Ao tornar público e inequívoco seu apoio, Bolsonaro esvaziou, de uma só vez, qualquer tentativa de construção de alternativas presidenciais no interior do PL. Governadores, parlamentares influentes ou quadros técnicos que eventualmente sonhassem com protagonismo nacional foram colocados em posição secundária — quando não descartados.

MOVIMENTO PERSONALISTA – O bolsonarismo, desde sua origem, sempre funcionou menos como uma corrente ideológica plural e mais como um movimento personalista, organizado em torno da figura de seu líder. A carta apenas explicitou essa lógica. Ao sinalizar que o candidato do grupo tem sobrenome e DNA político definidos, Bolsonaro reafirma que, no seu campo, a lealdade precede o debate e a obediência estratégica se sobrepõe à construção coletiva. Não há espaço para prévias, ensaios ou dissensos públicos. O recado foi direto: quem quiser permanecer sob o guarda-chuva bolsonarista deve seguir Bolsonaro — e ponto final.

Esse gesto também precisa ser analisado à luz das limitações que hoje cercam o ex-presidente. Fora do jogo eleitoral direto, pressionado por investigações e juridicamente impedido de disputar cargos, Bolsonaro busca preservar seu capital político por meio de um herdeiro. Trata-se de uma tentativa clara de transferência simbólica de liderança, fenômeno conhecido e estudado em democracias frágeis ou altamente personalizadas. Não é novidade na história política mundial, nem tampouco na brasileira, marcada por clãs, dinastias regionais e heranças eleitorais.

Ao escolher o filho, Bolsonaro reduz riscos. Garante fidelidade absoluta, controle do discurso e continuidade da narrativa. Um aliado externo, por mais próximo que fosse, sempre carregaria a possibilidade de autonomia futura. Um filho, ao menos em tese, preserva o projeto, o estilo e o antagonismo que sustentam a identidade bolsonarista. Nesse sentido, a carta não é apenas um apoio: é um mecanismo de autopreservação política.

SIMBOLOGIA – Há também um componente simbólico relevante. O contexto de saúde confere à mensagem uma carga emocional que não pode ser ignorada. Ao escrever às vésperas de uma cirurgia, Bolsonaro se coloca novamente no papel que tão bem explorou ao longo dos últimos anos: o do líder que resiste, sofre e luta contra adversidades em nome de seus seguidores. Essa narrativa, amplamente analisada por estudiosos do populismo contemporâneo, reforça vínculos afetivos e dificulta questionamentos racionais dentro da base.

Do ponto de vista partidário, o PL sai momentaneamente mais coeso, mas não necessariamente mais forte. A imposição de um nome pode conter disputas internas no curto prazo, porém cobra seu preço no médio e longo prazos. Ao fechar portas para lideranças emergentes, o partido corre o risco de limitar sua capacidade de renovação e ampliar sua dependência de uma única figura política — ainda que essa figura esteja formalmente fora da disputa.

REDEFINIÇÃO – Por fim, a carta de Bolsonaro redefine o debate no campo da direita brasileira. Ela antecipa o conflito central da próxima eleição: não apenas entre governo e oposição, mas entre a manutenção de um projeto personalista e a tentativa de construção de uma direita mais institucional, menos centrada em um único líder. Ao deflagrar sua posição partidária de forma tão explícita, Bolsonaro deixa claro que não pretende abrir mão do controle do movimento que criou — mesmo à distância.

Resta saber se o eleitorado aceitará essa transferência automática de liderança e se o bolsonarismo, ao optar pela sucessão familiar, conseguirá dialogar para além de sua base mais fiel. A carta resolveu uma disputa interna, mas abriu uma questão maior: até que ponto um movimento político consegue sobreviver quando se confunde, de maneira tão profunda, com o destino de um único sobrenome.

Fachin entre dois fogos: o esforço silencioso para desarmar crises institucionais

A inflação que fecha na conta, mas não fecha no bolso do trabalhador

Charge do André Félix (Arquivo do Google)

Pedro do Coutto

O governo anuncia, com otimismo, que a inflação deve encerrar o ano em 4,4% e projeta um cenário ainda mais benigno para 2026. No papel, o número soa como alívio. Na vida real, porém, ele encontra resistência.

É difícil aceitar essa taxa como tradução fiel do que ocorreu ao longo do ano, quando os preços — sobretudo dos alimentos — subiram muito além do que a média oficial sugere. A sensação cotidiana é a de que o custo de vida avançou mais rápido do que as estatísticas conseguem captar.

DESCOMPASSO – Parte desse descompasso está na forma como a inflação é medida. No caso dos alimentos, o levantamento considera, em muitos casos, os preços mínimos praticados no mercado, e não a média efetivamente paga pelo consumidor. Essa diferença técnica, legítima do ponto de vista metodológico, produz um efeito político e social relevante: a inflação pode parecer controlada nos indicadores, enquanto continua pressionando o orçamento das famílias, especialmente das que gastam a maior parte da renda com itens básicos.

Não se trata de negar que houve algum arrefecimento em determinados momentos. De fato, o aumento não foi explosivo. Mas também está longe de ter sido irrelevante. O problema é que, quando se anuncia uma compensação ou uma desaceleração, o consumidor percebe que, no dia seguinte, os preços continuam subindo — ou, no mínimo, não recuam. A inflação sentida é cumulativa, persistente e pouco sensível às boas notícias oficiais.

DESCONFIANÇA – Esse desalinhamento entre números e percepção corrói a confiança. A política econômica pode até cumprir a meta, mas a legitimidade dessa conquista depende de algo mais simples e mais difícil ao mesmo tempo: fazer com que o cidadão comum reconheça o resultado no supermercado, na feira, no restaurante popular. Quando isso não acontece, o discurso técnico soa distante, quase abstrato.

Há ainda um elemento estrutural que não pode ser ignorado. Mesmo variações aparentemente pequenas pesam mais sobre quem tem menos. Um aumento modesto nos alimentos tem impacto desproporcional sobre as famílias de baixa renda, para as quais a comida não é um item entre outros, mas o centro do orçamento doméstico. A média estatística dilui essas desigualdades; o cotidiano, não.

DESAFIO – Projetar uma inflação menor em 2026 é desejável e necessário. Mas o desafio real não é apenas cumprir um número dentro da meta. É alinhar a política de preços, a comunicação governamental e a experiência concreta da população. Sem isso, a inflação continuará sendo, ao mesmo tempo, um sucesso técnico e um fracasso perceptivo.

No fim das contas, controlar a inflação não pode ser apenas um exercício contábil. Precisa ser, sobretudo, um compromisso com a vida real — aquela que não fecha balanço, mas precisa fechar o mês.

Conversas no topo do poder expõem ruídos institucionais no caso Banco Master

Flávio Bolsonaro, a cisão do PL e os dilemas da direita no Brasil rumo a 2026

Divisão de forças ameaça reduzir competitividade de Flávio

Pedro do Coutto

A decisão de Flávio Bolsonaro, senador pelo Rio de Janeiro e filho do ex-presidente, de lançar sua pré-candidatura à Presidência da República para as eleições de 2026 acendeu uma nova discussão política que vai muito além da simples escolha de um nome para o pleito.

A configuração interna do Partido Liberal (PL), o principal bastião do bolsonarismo, reflete preocupações profundas sobre estratégia eleitoral, unidade partidária e o posicionamento da direita no Brasil, que hoje enfrenta um quadro de forte liderança do presidente Lula da Silva e uma divisão de forças que ameaça reduzir sua competitividade eleitoral.

CLÃ SOB PRESSÃO – A trajetória de Flávio — que anunciou sua pré-candidatura com o apoio explícito do pai, mesmo com o ex-presidente inelegível e detido — evidencia que, mais do que conquistar votos, a campanha tenta preservar a relevância política de um clã sob pressão judicial e de imagem.

A reação no PL e nas forças alinhadas à direita não foi unânime. A escolha de Flávio afastou, na prática, nomes que ainda mantinham apoio considerável dentro e fora do partido, como Ratinho Júnior (PSD), Tarcísio de Freitas (Republicanos), Romeu Zema (Novo) e Eduardo Leite (PSDB) — todos percebidos por parte do eleitorado como alternativas mais moderadas ou competitivas contra Lula.

Pesquisas recentes mostram que, em um eventual segundo turno, Lula venceria Flávio por margens significativas, com o petista marcando cerca de 51% a 36% nas simulações do Datafolha, enquanto outros nomes de centro-direita teriam desempenhos relativamente melhores, embora ainda sem ameaça real à liderança do presidente.

DUPLO EFEITO – Essa escolha partidária provoca um duplo efeito: por um lado, consolida o núcleo bolsonarista do PL, que vê em Flávio uma continuidade da agenda política do pai e um símbolo de fidelidade à base; por outro, agrava a fragmentação das forças de direita, alimentando a polarização em um ambiente político já tenso.

A percepção de que Flávio levará a campanha até o fim é compartilhada por quase metade dos brasileiros, segundo pesquisa Genial/Quaest, que indicou que 49% acreditam que ele de fato seguirá na corrida eleitoral até o fim, e 38% veem sua pré-candidatura como instrumento de negociação política.

O desafio para a direita brasileira, portanto, não é apenas encontrar um candidato competitivo, mas articular uma estratégia que vá além da mera herança política bolsonarista. Em um cenário em que nomes como Tarcísio e Ratinho — mais bem avaliados em simulações de segundo turno — ficam de fora da liderança partidária, a polarização pode se acentuar sem necessariamente ampliar a base de apoio.

LIDERANÇA – Lula mantém liderança clara em diversas pesquisas, com vantagem significativa tanto no primeiro quanto em simulações de segundo turno, e sua candidatura mostra estabilidade mesmo diante de cenários fragmentados à direita.

A construção de alianças robustas e a mitigação de cismas internos parecem essenciais para um campo derrotado, em 2022, em um segundo turno acirrado. A aposta unicamente na figura de Flávio, com seu desempenho eleitoral — relativamente menor em comparação com outros nomes — e elevada rejeição em segmentos amplos do eleitorado, coloca o PL diante de um dilema: persistir em uma estratégia que pode consolidar identidade partidária ou remodelar sua plataforma para buscar maior atratividade e competitividade nacional.

No fim, a reação interna ao nome de Flávio Bolsonaro é mais do que uma disputa de egos ou de heranças: é o reflexo de uma direita em busca de um projeto político que transcenda narrativas familiares e que responda aos desafios de um Brasil em rápida transformação social e eleitoral. A forma como esse dilema for resolvido — se por um consenso interno ou por uma cisão mais clara — terá impacto direto no modelo de disputa que se descortina para 2026, e pode influenciar a disposição de votos de milhões de brasileiros que hoje ainda definem se a eleição será um embate de continuidade ou de ruptura.

Hugo Motta e o preço político de acabar desagrando todos

Charge do Aroeira (Metrópoles)

Pedro do Coutto

A ascensão de Hugo Motta à Presidência da Câmara foi inicialmente recebida como a chegada de um articulador moderado, capaz de negociar com diferentes correntes e atenuar a escalada de polarização que marca o Legislativo desde antes de sua eleição.

Jovem, pragmático e com trânsito no Centrão, Motta tentou se projetar como uma figura de equilíbrio em um ambiente no qual a barganha política assume dimensão central e onde governabilidade depende, cada vez mais, de uma coreografia delicada entre interesses partidários, pressões regionais e expectativas do Executivo. No entanto, o que parecia ser uma estratégia de equilíbrio se transformou em um jogo de alto risco.

CRÍTICAS – Ao buscar uma posição equidistante entre campos ideológicos e lideranças poderosas, o deputado passou a enfrentar críticas da esquerda, que o acusa de leniência em pautas conservadoras, e da direita, que o vê como alguém incapaz de defender com firmeza agendas caras ao bloco oposicionista.

Essa sensação de isolamento político simbólico intensifica-se diante da evidente distância em relação ao seu antecessor, Arthur Lira, cuja habilidade em comandar o Centrão e influenciar votações com mão firme criou um modelo difícil de replicar.

O peso dessa comparação é inevitável em Brasília: enquanto Lira se consolidou como peça-chave de negociação durante o governo Bolsonaro e manteve protagonismo na transição para a nova gestão, Motta tenta provar que equilíbrio não é sinônimo de fraqueza, mas ainda não convenceu atores centrais do tabuleiro.

DILEMA – A crítica irônica publicada em O Globo traduz com precisão esse dilema: ao tentar não ser alvo de ataques diretos nem da esquerda nem da direita, Motta encontrou uma posição desconfortável, pois os dois espectros passaram a vê-lo como alguém sem assertividade suficiente.

Em um Congresso onde o diálogo é necessário, mas onde a ambiguidade costuma ser interpretada como ausência de liderança, o presidente da Câmara convive com uma crescente percepção de que tenta agradar a todos e, na prática, agrada a poucos.

A crise de representatividade dentro do próprio Centrão torna-se ainda mais evidente à medida que a base governista cobra avanços legislativos, a oposição denuncia supostos favorecimentos e a sociedade civil acompanha votações com crescente desconfiança sobre interesses por trás das articulações.

NEUTRALIDADE – O resultado é um cenário no qual Motta se torna protagonista não por dominar a cena, mas justamente por representar o risco de uma neutralidade que não encontra eco num país politicamente fragmentado.

O desafio que se coloca adiante é simples de formular e complexo de executar: ou o presidente da Câmara transforma sua busca por equilíbrio em liderança concreta, assumindo pautas com clareza e construindo alianças sólidas, ou continuará sendo percebido como um dirigente que tenta equilibrar-se numa corda bamba sem rede de proteção — e sem plateia disposta a aplaudir sua travessia.

Apreensão de R$ 430 mil com Sóstenes mostra a que ponto caiu a política

O tabuleiro eleitoral de 2026, com o peso da cassação de Eduardo Bolsonaro

O Senado, o 8 de Janeiro e a fragmentação do campo bolsonarista

Senado aprova PL da Dosimetria que reduz pena de Bolsonaro

Pedro do Coutto

A aprovação, pelo Senado, do projeto que reduz penas de condenados pelos atos de 8 de janeiro marca um novo capítulo no embate político-institucional que o país vive desde a tentativa frustrada de ruptura democrática. Embora o gesto tenha sido lido por setores conservadores como uma inflexão em direção à anistia, a tramitação ainda está longe de se tornar uma vitória para Jair Bolsonaro e seus aliados.

O Palácio do Planalto tem margem — e responsabilidade — para barrar o avanço da proposta. O veto presidencial é esperado, sobretudo porque o governo não pode arcar com o desgaste de validar qualquer medida que soe como perdão a quem atacou os Poderes constituídos. A relação histórica entre Executivo e Supremo, especialmente após 2023, reforça o entendimento de que a punição aos golpistas permanece como pilar de defesa institucional.

DISPUTA – É difícil imaginar Lula assinando uma norma que dilua a autoridade do próprio STF, cuja prerrogativa de calibrar penas e sentenças seria, na prática, invadida pelo Legislativo. O mais provável é que o Congresso enfrente, na sequência, uma disputa pelos 3/5 necessários para derrubar o veto — e, nesse campo, a tendência é de insuficiência.

Mesmo com parte da oposição mobilizada, o desgaste político do 8 de janeiro e a memória recente de condenações tornam improvável uma aliança ampla disposta a arcar com o ônus de confrontar o Supremo e o Executivo ao mesmo tempo.

Enquanto isso, no horizonte de 2026, um outro jogo começa a se delinear. As pesquisas divulgadas por institutos como o Quaest ─ referência consolidada no monitoramento de opinião pública desde 2014 ─ apontam Lula com vantagem numérica e possibilidade de vitória no primeiro turno. A matemática eleitoral, é claro, depende da taxa de votos válidos: em cenários com percentual elevado de brancos e nulos, 45% podem se aproximar perigosamente da maioria absoluta.

FRAGMENTAÇÃO – Todavia, o dado mais relevante não está apenas no desempenho do presidente, mas na fragmentação do campo adversário. Flávio Bolsonaro desponta numericamente na frente entre possíveis nomes de oposição, segundo levantamentos citados por analistas políticos como Merval Pereira, mas enfrenta o mesmo obstáculo que corroeu parte da força bolsonarista pós-2022: a incapacidade de reunir, sob um único projeto, governadores e caciques regionais com ambições próprias.

Tarcísio de Freitas reafirma a intenção de permanecer em São Paulo — uma estratégia que preserva capital político, mas enfraquece a possibilidade de unidade nacional. Romeu Zema e Ratinho Junior se movimentam de forma autônoma, cada qual com seu eleitorado, enquanto Ronaldo Caiado enxerga 2026 como oportunidade natural, já sem reeleição em Goiás. O resultado é um mosaico: múltiplas candidaturas possíveis, poucas pontes programáticas e o risco de dispersão de votos no primeiro turno.

FORÇA DA MÁQUINA – O contraste é visível. Lula concorre com a força da máquina e com uma coalizão ainda coesa, apesar de tensões internas comuns a qualquer governo. Seus adversários, por outro lado, rivalizam entre si antes de rivalizar com ele. A dinâmica do “cada um por si” pode transformar a disputa em uma repetição do fenômeno de 2018 às avessas: em vez da implosão do centro, a implosão do bolsonarismo.

O país se encontra, portanto, num momento em que dois debates caminham paralelamente: o do passado — as responsabilidades pelo 8 de janeiro — e o do futuro — a arquitetura eleitoral do pós-bolsonarismo. Em ambos, o fator determinante é a capacidade de articulação: no Congresso, para sustentar ou derrubar vetos; nas ruas e redes, para consolidar ou fragmentar candidaturas.

QUESTIONAMENTO – Se o projeto aprovado pelo Senado é, no mérito e no rito, questionável do ponto de vista constitucional — como já apontaram juristas do Instituto Brasileiro de Direito Público (IDP) e professores da USP em análises divulgadas após o 8 de janeiro — sua repercussão é profundamente política: revela não apenas a persistência de uma base parlamentar bolsonarista, mas também sua limitação.

De um lado, tenta-se reescrever a narrativa do passado recente; de outro, luta-se para construir um futuro eleitoral ainda incerto. No cruzamento desses caminhos, uma mensagem permanece clara: a democracia brasileira, sob pressão constante, não pode se dar ao luxo de negligenciar nem a memória, nem a estratégia.

E, por ora, tanto no julgamento da história quanto nas pesquisas eleitorais, o campo que apostou no confronto direto com as instituições parece menos coeso do que seu adversário que governa — com todos os desafios — de dentro delas.

Lula amplia vantagem e Flávio lidera entre adversários, mas sem ameaçar petista

Entre dosimetria e anistia: o cálculo político por trás da disputa no Congresso

As ruas falaram que a democracia é um bem que não é negociável

Manifestantes protestaram contra o PL da Dosimetria

Pedro do Coutto

O último domingo foi marcado por um recado claro e direto vindo das ruas brasileiras. Em capitais e grandes cidades, milhares de pessoas se mobilizaram contra o Projeto de Lei da Dosimetria, que altera critérios de aplicação de penas para crimes contra o Estado Democrático de Direito. Mais do que um protesto pontual, as manifestações expressaram um sentimento profundo de desconfiança em relação a acordos políticos que, na avaliação dos manifestantes, podem abrir caminho para a impunidade.

Os atos reuniram movimentos sociais, partidos de esquerda, centrais sindicais, artistas, parlamentares e cidadãos sem filiação partidária explícita, unidos por uma palavra de ordem comum: sem anistia. Para os participantes, a proposta em debate no Congresso representa uma tentativa indireta de reduzir punições impostas aos responsáveis pelos ataques às instituições em 8 de janeiro de 2023 — episódios que incluíram a invasão e depredação do Congresso Nacional, do Supremo Tribunal Federal e do Palácio do Planalto.

RELATIVIZAÇÃO – Embora pacíficas, as manifestações foram politicamente contundentes. Cartazes, discursos e palavras de ordem ressaltaram que os crimes cometidos contra a democracia não podem ser relativizados por meio de ajustes legislativos casuísticos. A leitura predominante entre os manifestantes é que a dosimetria, apresentada como um debate técnico, carrega forte conteúdo político e simbólico: o de reescrever a gravidade de atos que atentaram contra a ordem constitucional.

Os números de público foram menores do que em mobilizações anteriores, mas isso não esvaziou o significado político do movimento. Pelo contrário. Em um ambiente de fadiga social e dispersão do debate público, a capacidade de reunir milhares de pessoas em diferentes regiões do país revela que o tema segue sensível e mobilizador. A mensagem transmitida é a de que a sociedade civil permanece vigilante e disposta a reagir quando percebe riscos à institucionalidade democrática.

PAUTAS – Outro ponto relevante foi a diversidade das pautas incorporadas aos protestos. Além da rejeição ao PL da Dosimetria, surgiram reivindicações ligadas a direitos trabalhistas, críticas à escala de trabalho 6×1 e à condução do Congresso Nacional. Esse entrelaçamento de agendas reforça a percepção de que, para muitos brasileiros, a defesa da democracia não está dissociada de justiça social e respeito aos direitos fundamentais.

Ao final do dia, o saldo político das manifestações foi menos quantitativo e mais simbólico. As ruas lembraram ao Parlamento que decisões tomadas a portas fechadas, ainda que dentro da legalidade formal, precisam considerar o impacto social e histórico de seus efeitos. A democracia, como deixaram claro os manifestantes, não é apenas um arranjo institucional — é um pacto que exige memória, responsabilidade e limites claros.

O recado do domingo foi simples e poderoso: crimes contra a democracia não são moeda de troca. Cabe agora ao Congresso decidir se ouvirá o eco das ruas ou se assumirá o ônus político de ignorá-lo.

Corrupção do Banco Master exibe a fragilidade da confiança institucional

Charge de Fred Ozanan (Instagram)

Pedro do Coutto

O episódio envolvendo o Banco Master, a Operação Compliance Zero da Polícia Federal e o contrato milionário com o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes — esposa do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal — tornou-se um dos casos mais delicados do Brasil em 2025, não apenas por seus elementos jurídicos e econômicos, mas pelo impacto que exerce sobre a percepção pública das instituições democráticas.

A operação policial, que apura supostas fraudes bilionárias na emissão de créditos e vendas de ativos sem lastro, derrubou parte do véu de normalidade que por vezes envolve o sistema financeiro e suas relações com o mundo jurídico e político. Entre os documentos apreendidos pela PF no celular do controlador do banco, Daniel Vorcaro, havia um contrato de prestação de serviços jurídicos entre o Banco Master e o escritório Barci de Moraes Sociedade de Advogados, no qual Viviane Barci de Moraes e dois filhos do casal atuam como sócios.

REMUNERAÇÃO – O contrato, assinado em janeiro de 2024, previa uma remuneração mensal de R$ 3,6 milhões pelo período de 36 meses, podendo totalizar R$ 129 milhões caso não tivesse sido interrompido pela liquidação extrajudicial da instituição financeira. Mensagens internas obtidas pelos investigadores apontam que os pagamentos eram tratados como prioridade absoluta dentro do banco, mesmo em meio à crise de liquidez que se avolumava.

Esse elemento — a magnitude dos valores e a posição institucional de uma das partes — foi destacado na coluna de Elio Gaspari na Folha de S.Paulo quando chamou a atenção para o fato de que, mesmo sem qualquer acusação formal de irregularidade contra o escritório ou sua sócia, o contrato revela zonas de tensão entre interesses privados e a confiança pública nas instituições de controle e no Judiciário. A crítica não se apoia necessariamente na imputação de crime, mas na sensibilidade institucional e na dissociação entre legitimidade legal e legitimidade percebida pela sociedade.

CHOQUE SIMBÓLICO –  Gaspari ressalta o choque simbólico que emerge quando figuras próximas a operadores do sistema jurídico aparecem associadas a contratos vultosos com agentes sob investigação. Esse choque não se confunde com prova de irregularidade, mas é um reflexo da fragilidade da confiança pública quando essas relações não são clarificadas de modo íntegro e transparente, sobretudo em um ambiente já marcado por descrédito e polarização.

Especialistas em governança corporativa e ética pública têm apontado que contratos desse tipo, ainda que legais, precisam ser avaliados sob o prisma não apenas jurídico, mas também da percepção de conflito de interesse — especialmente quando envolvem figuras ligadas ao mais alto escalão do Judiciário, mesmo que de forma indireta. A preocupação não é, necessariamente, que algo de ilícito tenha ocorrido, mas que a mera aparência de confluências entre poder econômico e proximidade institucional possa corroer a confiança dos cidadãos nas regras e mecanismos de fiscalização que deveriam ser imparciais e robustos.

IMPLICAÇÕES – O caso também transitou para o campo político, com parlamentares da oposição pedindo que a Procuradoria-Geral da República (PGR) analise o contrato em sua amplitude, incluindo possíveis implicações de atuação junto a órgãos como o Banco Central, a Receita Federal e o Congresso Nacional, como consta no escopo do acordo. Esse movimento evidencia que, mesmo sem condenações, o episódio é politicamente sensível e suscita debates sobre transparência e limites éticos em relações jurídicas de grande vulto.

Enquanto o Banco Master segue em liquidação e suas irregularidades financeiras são investigadas sob rigor técnico e jurídico, o episódio do contrato com o escritório da mulher de um ministro do STF se instala no debate público como um caso emblemático. Ele exige que o Brasil reflita não apenas sobre aspectos legais, mas sobre percepções de integridade e os mecanismos pelos quais instituições públicas protegem sua credibilidade, até porque, em democracias saudáveis, a confiança pública é tão essencial quanto a legalidade dos atos.

No fim de ano, o isolamento bolsonarista e as zonas de sombra institucionais

Haddad, Lula e o intrincado xadrez político rumo à eleição de 2026

Haddad confirma que pode deixar a Fazenda

Pedro do Coutto

A entrevista recente concedida pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, acendeu um novo capítulo no já movimentado tabuleiro político brasileiro. Com tom sereno, mas carregado de sinais, Haddad admitiu que pode deixar o comando da Economia para atuar diretamente na campanha de reeleição do presidente Lula da Silva em 2026. A fala, embora envolta em cautela, deixou no ar a sensação de que a decisão está mais encaminhada do que o ministro quis admitir explicitamente.

Segundo relatou, essa foi a primeira vez em que conversou abertamente com Lula sobre a possibilidade de sair da pasta para colaborar com o projeto eleitoral. O presidente, em resposta, adotou uma postura compreensiva e amistosa, afirmando que respeitará qualquer escolha de Haddad. Não houve menção a datas, tampouco a uma decisão formal, mas ficou evidente que o ministro deseja participar diretamente da elaboração do programa de governo e da estruturação da campanha — não como candidato, e sim como colaborador estratégico.

ESPECULAÇÕES – A sinalização da possível saída de Haddad naturalmente abre espaço para especulações dentro do governo sobre quem poderia assumir o Ministério da Fazenda. Ainda que o ministro não tenha citado nomes, o ambiente político observa atentamente os movimentos internos, já antecipando mudanças que podem remodelar a equipe econômica.

Durante a entrevista, Haddad também abordou temas que têm exigido atenção constante do governo, entre eles a situação delicada dos Correios. Ele reconheceu que a estatal vive um momento que “inspira cuidados”, diante de um rombo financeiro expressivo e de uma necessidade urgente de reinvenção. Para o ministro, será indispensável que a empresa busque novos modelos de negócio e parcerias, alinhando-se a tendências internacionais para sobreviver em um mercado em transformação.

Outro ponto que ganhou destaque foi sua avaliação sobre o relacionamento com o Congresso. Haddad admitiu que, em alguns momentos, o Legislativo acabou engessando a execução orçamentária, dificultando a capacidade do governo de remanejar recursos e avançar com as políticas planejadas. Em um ambiente onde o debate eleitoral já se insinua nos bastidores, essas tensões tendem a se intensificar, pressionando tanto o Executivo quanto os parlamentares.

POLÍTICA MONETÁRIA – No pano de fundo, paira também o debate sobre a condução da política monetária. Embora Lula tenha sido um crítico ferrenho dos juros elevados durante a gestão anterior do Banco Central, permanece o silêncio presidencial diante do patamar atual — mais alto do que aquele que criticava. A leitura política é complexa e envolve desde a autonomia do Banco Central até os efeitos da política econômica sobre o humor dos mercados e da opinião pública.

O cenário institucional brasileiro, já congestionado por disputas entre poderes, ganhou novos contornos com a controvérsia envolvendo o mandato da deputada Carla Zambelli. A decisão do ministro Alexandre de Moraes de anular a manutenção do mandato pela Câmara, diante de uma condenação que deveria, segundo interpretação constitucional, acarretar sua cassação, aprofundou as tensões entre Judiciário e Legislativo. O episódio reforça a sensação de que 2026 não será apenas mais uma eleição, mas um marco decisivo sobre o equilíbrio de poderes no país.

Alguns movimentos partidários também começam a redesenhar as projeções eleitorais. A articulação que busca lançar Ratinho Junior e Romeu Zema como alternativa ao Planalto reorganiza peças no campo da centro-direita e pressiona candidaturas já declaradas. Essa reestruturação amplia a complexidade do tabuleiro político e evidencia que a disputa presidencial já está em curso, mesmo que oficialmente ainda distante.

IMPACTOS – Nesse contexto, a posição de Haddad se torna ainda mais estratégica. Sua eventual saída não representaria apenas uma mudança administrativa: teria impactos na economia, na articulação política e na própria campanha de Lula. Por outro lado, sua permanência poderia garantir estabilidade à condução da política fiscal em um momento de volatilidade política e incertezas institucionais.

O que a entrevista deixa claro é que o Brasil já respira o clima pré-eleitoral. Entre ajustes econômicos, tensões políticas e rearranjos partidários, o país se prepara para uma disputa que promete ser uma das mais complexas e imprevisíveis desde a redemocratização. E Haddad, seja como ministro ou como articulador de campanha, permanecerá no centro dessa travessia.

A crise institucional gerada por Motta e o ataque à Imprensa no Parlamento

A sessão da Câmara que envergonhou a democracia e a suspensão de Glauber Braga