Especialista explica influência do Papa na reaproximação EUA/Cuba

Silvio Queiroz
Correio Braziliense

A Santa Sé acumula uma vasta experiência histórica de arbitragem e mediação de conflitos, mas não ocupava um papel tão central como pivô do diálogo entre dois países desde que João Paulo II intercedeu para evitar uma guerra entre Argentina e Chile na crise do Canal de Beagle, no início dos anos 1980. “Essas mediações — ainda mais quando têm sucesso, como essa última — têm o efeito colateral de relançar a Santa Sé no plano internacional”, avalia Anna Carletti, professora de relações internacionais da Universidade do Pampa e colaboradora do Programa de Pós-Graduação de Estudos Estratégicos Internacionais na Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Autora de “O internacionalismo vaticano e a Nova Ordem Mundial”, ela falou ao Correio sobre o peso exercido pelo papa Francisco na reaproximação histórica entre Estados Unidos e Cuba.

Qual foi o interesse do Vaticano em mediar os contatos diplomáticos entre EUA e Cuba?

Um dos meios de atuação internacional da diplomacia vaticana é a arbitragem ou medição de conflitos entre Estados. Ao longo da história, foram registradas 14 intervenções importantes, a primeira durante a guerra franco-prussiana, em 1870. Uma mediação que ganhou destaque internacional foi na disputa chileno-argentina sobre o canal de Beagle, de 1978 a 1984. A mediação operada nas difíceis relações entre EUA e Cuba se insere e se explica na esteira de uma tradição e grande experiência acumulada pela Santa Sé na mediação e na tentativa de resolução de conflitos. O atual secretário de Estado, o cardeal Parolin evidenciou mais de uma vez que os objetivos da diplomacia vaticana são justamente construir pontes, apoiar as negociações e o diálogo como meio para resolução de conflitos. Fez questão de reiterar que não existem outros interesses ou estratégias por parte do papa. Eu acrescentaria que, mesmo a Santa Sé afirmando não ter outros interesses, essas mediações — ainda mais quando têm sucesso, como essa última — têm o efeito colateral de relançar a Santa Sé no plano internacional e revitalizar aquela autoridade moral própria e única, que nos últimos anos foi bastante ferida pelos escândalos de pedofilia, além dos financeiros.

Havana tem aperfeiçoado as relações com o Vaticano desde a visita histórica do papa João Paulo II. Também a Santa Sé tem olhos na evolução futura de Cuba?

As relações diplomáticas com Cuba foram as únicas que permaneceram ininterruptas entre a Santa Sé e um país socialista. Temos hoje quatro países comunistas: a China, cujo tema das relações com a Santa Sé é ainda um tema não resolvido; o Vietnã, que ainda não tem relações formais, mas cujo estágio de negociações se encontra mais avançado do que o da China e da Coreia do Norte. Portanto, Cuba sempre esteve entre as prioridades do Vaticano. Pelas características peculiares do governo castrista e do contexto regional e internacional, foi possível manter essas relações. A abertura de João XXIII ao diálogo com os governos comunistas facilitou tais relações. Não obstante os problemas entre o governo castrista e a Igreja cubana, principalmente nas décadas de 1960 e 1970, a Santa Sé fez de tudo para mitigar os desentendimentos e manter canais abertos para o diálogo.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG – O Papa Francisco nem precisou visitar Cuba, como fez seu antecessor Bento XVI.  Apenas trocou correspondências nos últimos meses com Barack Obama e Raúl Castro, convidando-os a resolver questões humanitárias, como a situação de alguns detidos. E em outubro o Vaticano acolheu as delegações de ambos os governos, para fechar as negociações. Dois meses depois, surgiu o acordo. E tanto Obama como Castro, fizeram questão de agradecer publicamente a mediação do Papa Francisco, que se consolida como a maior liderança mundial. (C.N.)

O mal de que nos livramos. Livramos?

Percival Puggina

Interessado na história do período que vai de 1964 a 1985, ouvi falar e busquei assistir o documentário “Hércules 56”. Trata-se de um longa, do diretor Sílvio Da-Rin, composto por entrevistas, gravações de época e uma espécie de coletiva desenrolada numa mesa de bar. Os participantes da coletiva são remanescentes dos sequestradores do embaixador norte-americano em 1969 e do grupo despachado para o México, por exigência deles, a bordo da aeronave que dá nome ao filme. Entre outros, depõem, com a perspectiva que lhes permitiu um afastamento que já chega a quatro décadas, Franklin Martins, Vladimir Palmeira, José Dirceu, Flávio Tavares, Daniel Aarão Reis Filho e Paulo de Tarso Venceslau.

Eu assistira, antes, ao “O que é isso companheiro?”. Nele, Fernando Gabeira assume participação importante no sequestro. Em Hércules 56 Gabeira some. Por quê? O diretor, após a estreia, em 2006, explicou que Gabeira fora “soldado raso” na operação e jamais teria participado não houvessem os líderes escolhido para refúgio a casa onde ele morava. Praticamente mandou Gabeira procurar a própria turma e não inventar lorota. Só encontro uma explicação: o então deputado Fernando Gabeira se transferira do PT para o PV e perdera a simpatia dos companheiros.

Do conjunto da obra (Hércules 56 é um bom filme), concluí que, hoje, a maior parte dos protagonistas considera o sequestro e a luta armada como equívocos que estimularam o endurecimento e a continuidade do regime. Escolheram esse caminho por descrerem do jogo democrático. Eram militantes, dispostos a morrer e a matar pela revolução que julgavam estar fazendo, e sobre cuja existência real, pelo que pude presumir, não têm mais tanta certeza.

Foi exatamente aí que nasceu a observação registrada no título deste artigo: do que escapamos!

ÍMPETOS JUVENIS

Imagine, leitor, se, em vez de senhores de meia idade, reflexivos mas orgulhosos dos seus ímpetos juvenis, como se apresentam no filme, eles tivessem sido vitoriosos, e chegassem ao poder, como desejavam, na esteira do que realizara Fidel partindo de Sierra Maestra. O que teriam implantado no Brasil? Totalitarismo marxista-leninista, expropriações, tribunais revolucionários e execução de conservadores, liberais, burgueses, latifundiários, empresários, direitistas. E mais, partido único e total absorção da comunicação social pelo Estado. Era o que na época se chamava “democracia popular”, regime adotado pelas referências mundiais do comunismo.

Não estarei indo longe demais? Não. Assista ao filme e ouvirá Vladimir Palmeira elogiar o chefe do sequestro, Virgílio Gomes da Silva, por lhes ter dito: “Se houver algum problema que, por desobediência a uma ordem minha ou vacilação, coloque em risco a operação, não pensem que vou esperar um tribunal revolucionário. Eu executo na hora”. Quem trata assim os companheiros, como procederá com os adversários?

EXECUTAR O EMBAIXADOR

Noutra passagem, os entrevistados respondem à seguinte questão: caso as exigências não fossem atendidas pelo governo, o embaixador seria executado? Foi unânime a confirmação. Palmeira ilustra que essa mesma pergunta lhe fora feita no interrogatório posterior à sua prisão. Resposta: “Teria executado, sim; eu cumpro ordens”. E os cavalheiros, ex-revolucionários, em volta da mesa do bar, riram com ele. Franklin Martins riu mais alto do que todos.

Hoje, personagens daqueles anos acantonaram-se no poder e estamos sob severo risco de andar na mesma direção, por outros meios e com outros modos.

* O filme “Hércules 56” está disponível em boas locadoras e, dividido em nove partes, pode ser assistido no YouTube, buscado pelo título.

A biografia de Prestes e a falsificação da História

O alto comando da Coluna Prestes, em Goiás

Anita Leocadia Prestes

Estamos diante de um livro, escrito por um historiador[1], que poderia ser usado em sala de aula de um curso de História como modelo para os estudantes do que não deve ser um trabalho de historiador. Para E. Hobsbawm[2], o historiador deve ter um compromisso com a evidência e, portanto, escrever uma História não só apoiada em documentos como também baseada na comparação do maior número possível de fontes documentais que lhe permitam obter os elementos necessários para uma aproximação confiável dessa evidência. Caso contrário, o historiador ficará sujeito a reproduzir e difundir informações falsas, assim como interpretações errôneas e parciais da realidade que pretende retratar.

Nada disso é considerado por Daniel Aarão Reis. No seu livro, não se apresentam as fontes documentais das afirmações veiculadas. Em notas, presentes no final da obra, são citados livros ou arquivos de maneira genérica (por exemplo, “Fundo PCB no Arquivo da Internacional Comunista”, no qual existem milhares de documentos), deixando, portanto, o leitor privado da possibilidade de consultar o documento ao qual o autor se refere. Dessa forma, o leitor é induzido a aceitar como verdades indiscutíveis afirmações cuja origem dificilmente poderia ser comprovada.

Tal metodologia adotada por D. A. Reis, marcada pela incompetência e a irresponsabilidade do pesquisador, contribui para que nos encontremos diante de um texto repleto de erros factuais e de informações falsas, assim como de análises supostamente psicológicas de Prestes e dos demais personagens retratados no livro, embora não conste que o autor possua formação de psicólogo.

ALGUNS ERROS

Entre inúmeros erros, constantes da obra de D. A. Reis, para citar apenas alguns – se fossem listados todos, seria necessário escrever outro livro -, pode-se apontar, por exemplo, o de antecipar o episódio da campanha da “Reação Republicana” de Nilo Peçanha de 1921-1922 para o ano de 1919 (p. 26), quando foi eleito presidente da República Epitácio Pessoa. Outro exemplo: o autor afirma que os dirigentes comunistas Ramiro Luchesi e Fragmon Carlos Borges foram assassinados (p. 347), no início dos anos 1970, quando na realidade faleceram de morte natural; da mesma maneira, escreve que o general Miguel Costa já teria falecido em março de 1958 (p.279), sem indicar quando, o que só veio a ocorrer em dezembro de 1959; também afirma que, em março de 1990, entre as quatro irmãs de Prestes, só Lygia restara viva (p. 480), enquanto, na realidade, Lúcia faleceu em 1996 e Eloiza em 1998. Em diversos pontos da obra, o autor cita documentos constantes dos anexos no livro A Coluna Prestes, de A. L. Prestes, mas a referência incluída na bibliografia é de outro livro da mesma autora (Uma epopéia brasileira: a Coluna Prestes).

Em diversos momentos, D. A. Reis, que se considera entendido nas obras dos clássicos do marxismo, ao abordar a luta constante de Prestes tanto contra o oportunismo de direita quanto contra o oportunismo de esquerda, lhe atribui posições centristas (p. 330, 333, 358, 437), revelando desconhecimento dessa temática no marcos da teoria marxista. Segundo tal interpretação, V. I. Lenin, que sempre combateu os desvios de esquerda e de direita no seio dos movimentos socialistas e comunistas, teria sido um político de centro…

LEGENDAS ERRADAS

No que se refere às legendas das fotos reproduzidas no livro, verifica-se que inúmeras estão erradas: o tenente Victório Caneppa, carcereiro de Prestes (à época diretor da Casa de Correção), é apresentado como sendo o diplomata Orlando Leite Ribeiro, amigo de Prestes; a foto da formatura de Prestes no Colégio Militar (aos 18 anos) figura como se fosse da formatura da Escola Militar (aos 22 anos); as fotos de Anita, filha de Prestes, não correspondem às datas que lhes são atribuídas; o retrato da mãe de Prestes, tirado em Londres, em 1936, é atribuído ao período do exílio no México, etc.

Estamos diante de um texto eivado de fofocas, mexericos, intrigas e mentiras, em que se reproduzem as invencionices da viúva de Prestes, assim como de antigos dirigentes do PCB e de comandantes da Coluna Prestes, que viraram inimigos de Prestes. Este foi o caso de João Alberto Lins de Barros, autor de memórias publicadas três décadas após a Marcha, em que revela ressentimentos por seu antigo comandante haver se tornado comunista. Da mesma maneira, vários ex-dirigentes do PCB, em depoimentos prestados ao autor do livro, recorrem à falsificação dos fatos para justificar seus ressentimentos por Prestes ter rompido, em 1980, com a direção do partido da qual faziam parte.

Trata-se de um livro anticomunista, cujo objetivo é a desqualificação de Prestes, da sua mãe, de suas irmãs e também da sua esposa, Olga Benario Prestes; a desqualificação dos comunistas em geral.

AFIRMAÇÃO MENTIROSA

O autor tem a canalhice de tentar desmoralizar minha mãe, ao afirmar que ela teria abandonado um filho em Moscou (p. 171, 205, 495), como se Olga fosse capaz de semelhante gesto. Os documentos citados – e pior ainda, o autor não cita documento algum, mas apenas o “Fundo PCB no AIC” – não são verdadeiros, pois conheço a documentação da Internacional Comunista, inclusive a pasta referente a Olga. Se alguém, em algum lugar, afirmou tal coisa a respeito de Olga, é mentira; conheci muitos amigos e amigas da minha mãe da época em que ela viveu em Moscou e a afirmação do autor é mentirosa.

O anticomunismo, disfarçado sob a capa de uma suposta objetividade histórica, é revelado a cada página da obra de D. A. Reis, tanto através das numerosas informações falsas que divulga quanto da repetição de juízos de valor questionáveis. Assim, a adoção por Prestes de posições políticas em que, incompreendido, ficou só, e as derrotas, enfrentadas por ele e pelos comunistas durante sua longa vida, seriam episódios desmerecedores da sua trajetória como homem público e revolucionário, que se empenhou na conquista de um mundo sem explorados e exploradores, sem oprimidos e opressores.

OPRIMIDOS E OPRESSORES

Ao rebater os juízos de valor adotados por D. A. Reis, vale lembrar William Morris, o revolucionário inglês do final do século XIX, cuja biografia constitui o primeiro trabalho importante de E. P. Thompson. Conforme foi assinalado por Josep Fontana, W. Morris, em 1887, “ao comemorar uma dessas grandes derrotas coletivas”, escreveu:

A Comuna de Paris não é senão um elo na luta que teve lugar ao longo da história dos oprimidos contra os opressores; e, sem todas as derrotas do passado, não teríamos a esperança de uma vitória final.[3]

Também Paul Eluard, o poeta da Resistência francesa, pronunciou-se a respeito das derrotas:

Ainda que não tivesse tido, em toda minha vida, mais do que um único momento de esperança, teria travado este combate. Inclusive, se hei de perdê-lo, outros o ganharão. Todos os outros.[4]

Embora os intelectuais a serviço dos interesses dominantes, comprometidos com a preservação do sistema capitalista, como é o caso de D. A. Reis, empreendam todo tipo de esforços para desmoralizar e destruir a imagem de lutadores pelas causas populares, como Luiz Carlos Prestes e Olga Benario Prestes, não o conseguirão, desde que as forças democráticas e progressistas se mantenham alertas e atuantes na preservação do legado revolucionário desses homens e mulheres que deram a vida por um futuro de justiça social e democracia para toda a humanidade. (artigo enviado por Sergio Caldieri)

Anita Leocadia Prestes é doutora em História Social pela UFF, professora do Programa de Pós-graduação em História Comparada da UFRJ e presidente do Instituto Luiz Carlos Prestes <www.ilcp.org.br>

[1] REIS, Daniel Aarão. Luís Carlos Prestes. Um revolucionário entre dois mundos. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.

[2] HOBSBAWM, Eric. Sobre a História; ensaios. São Paulo: Companhia das Letras, 1998, p.286-287.

[3] MORRIS, William. Why we celebrate the Commune of Paris. Commonweal, 3, n. 62, p. 89-90, Mars 1887, apud FONTANA, Josep. A história dos homens. Bauru, SP: EDUSC, 2004, p.490.

[4] ELUARD, Paul. Une leçon de morale, prefácio, em Ouvres complètes. Paris: Gallimard, 1984. II, p. 304, apud FONTANA, Josep. Obra citada, p. 490.

Maquiagem das contas públicas assusta Joaquim Levy

Joaquim Levy critica a “multiplicação de despesas”

Martha Beck
O Globo

A nova equipe econômica encontrou as contas públicas em situação pior do que esperava. Em conversas reservadas no gabinete improvisado no Palácio do Planalto, o futuro ministro da Fazenda, Joaquim Levy, tem dito a interlocutores que está impressionado com a “multiplicação de algumas despesas” que atingiram uma dimensão “impossível de ser sustentada”. Nessas avaliações, ele também questiona a efetividade de algumas das desonerações feitas nos últimos quatro anos para estimular o crescimento da economia e o emprego.

Há incentivos cuja relação entre custo e benefício não se justifica, concluiu. Embora o futuro comandante da Fazenda não revele as medidas de correção de rota que estão em estudo, ele indicou a interlocutores que o corte de despesas que crescem sem sustentação é inevitável, assim como de incentivos. Também demonstrou o desejo de não carregar para o orçamento de 2015 despesas que estão sendo represadas, como a conta de energia.

O futuro comandante da Fazenda também tem indicado que o quadro atual precisa ser corrigido logo, o que não significa necessariamente provocar um baque na economia. Nas conversas internas, Levy tem dito que “diante dos números e das perspectivas, não seria produtivo deixar as coisas para serem todas resolvidas ano que vem”:

— A ideia não é passar uma foice em tudo. Tem lugares onde o mato está tão alto que mesmo cortando ainda continuará bastante grande. (O plano) É fazer um ajuste sem dar brecadas efetivas, sem causar desconfortos efetivos — disse, segundo fontes.

CARGA TRIBUTÁRIA

Sobre o aumento de tributos, Levy também tem demonstrado cautela, dizendo que “não é boa a ideia de carregar demais na carga de impostos”. Ao comentar as benesses tributárias dos últimos tempos, brinca:

— Há áreas em que o conforto é tão grande que ninguém vai notar (a retirada).

Da atual equipe econômica, Levy tem cobrado que o resultado fiscal de 2014, não importa o tamanho, seja transparente e não deixe esqueletos. Um deles está no setor elétrico. A estratégia do governo de tentar desonerar as contas de luz em 2012 desequilibrou o setor de tal maneira que o Tesouro Nacional teve que colocar recursos orçamentários na Conta de Desenvolvimento Energético (CDE) e ainda negociar com o setor privado dois empréstimos às distribuidoras.

Os planos da nova equipe são que os custos da CDE voltem a ser cobrados na conta de luz. Levy tem defendido em reuniões internas que a medida “vai aumentar um pouco a inflação, mas parar de criar esqueletos”. O futuro ministro também é um defensor das chamadas bandeiras tarifárias, que entram em vigor em 2015. Esse sistema indica aos consumidores as condições de geração de energia no país. Quando os custos sobem, a diferença é repassada imediatamente para as tarifas.

RAPIDEZ NA REFORMA

A urgência em mostrar como a política fiscal mais austera vai ser executada em 2015 aumentou com o atual quadro internacional, de dólar em alta e preços do petróleo em queda.

— O que é ruim é a incerteza. Quanto mais rápido a gente der o rumo, mas rápido a gente começa a avançar. O importante é arrumar a regra do jogo. Quando arruma, as peças começam a se mexer — disse Levy a interlocutores.

Na nova estratégia, os subsídios aos bancos públicos serão reduzidos substancialmente. Com o aumento da Taxa de Juros de Longo Prazo (5,5% ao ano), aprovado ontem, o BNDES terá que fazer mais escolhas na hora de emprestar seus recursos e deve “priorizar segmentos estratégicos”, disse uma fonte do Palácio do Planalto. Entre eles, pequenas empresas e setores inovadores, como o de etanol.

O discurso da transparência e uma boa comunicação com o mercado também são considerados essenciais pela nova equipe econômica. O futuro ministro da Fazenda tem demonstrado simpatia pela ideia de adotar um Focus fiscal como “ferramenta de disciplina”. A pesquisa semanal Focus, feita pelo Banco Central com as principais instituições financeiras, traz hoje as projeções para indicadores como crescimento, inflação e câmbio.

Uma música imortal de Gonzagão e Humberto Teixeira

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O advogado, compositor e poeta cearense Humberto Cavalcanti Teixeira (1915-1979), na letra de “Baião”, ensina como dançar este estilo de música nordestina, com influência do samba e da conga e, que se tornou popular no Brasil inteiro, a partir de 1946, com o sanfoneiro, cantor e compositor pernambucano Luiz Gonzaga do Nascimento (1912-1989), o popular Rei do Baião, que gravou essa música em 1949, pela RCA Victor.

BAIÃO

Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira

Eu vou mostrar pra vocês
Como se dança o baião
E quem quiser aprender
É favor prestar atenção
Morena chega pra cá
Bem junto ao meu coração
Agora é só me seguir
Pois eu vou dançar o baião
Eu já dancei balancê
Xamego, samba e xerém
Mas o baião tem um quê
Que as outras dancas não têm
Oi quem quiser é só dizer
Pois eu com satisfação
Vou dançar cantando o baião
Eu já cantei no Pará
Toquei sanfona em Belém
Cantei lá no Ceará
E sei o que me convém
Por isso eu quero afirmar
Com toda convicção
Que sou doido pelo baião

(Colaboração enviada por Paulo Peres – Site Poemas & Canções)

Delação premiada de Youssef envolve Lula e Dilma

Laryssa Borges
Veja

O ministro do Supremo Tribunal Federal Teori Zavascki homologou o acordo de delação premiada firmado pelo doleiro Alberto Youssef, caixa do petrolão e um dos principais colaboradores das investigações sobre o escândalo. O doleiro implicou no escândalo a presidente Dilma Rousseff e seu antecessor, Luiz Inácio Lula da Silva, conforme revelou Veja.

Agora, Youssef passa a receber benefícios judiciais em troca das informações que prestou às autoridades.

O ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa, que também fechou acordo de delação, passou para o regime de prisão domiciliar quando teve o acordo homologado.

Nos vários depoimentos que prestou, Youssef detalhou o esquema de pagamento de propina a políticos e então diretores da Petrobras, além de elucidar o esquema de fraudes em licitações da estatal. Também disse que empreiteiras envolvidas no escândalo repassaram dinheiro desviado da Petrobras para a campanha presidencial do PT em 2010 e simularam contribuições legais para ocultar a fraude.

(matéria enviada por Celso Serra)

Lula disfarça e diz que problema da Petrobras é de Dilma

Andréia Sadi e Severino Motta
Folha

O ex-presidente Lula disse na quinta-feira que cabe a Dilma Rousseff decidir se Graça Foster deve ou não deixar a presidência da Petrobras.

Questionado pela Folha se achava que Foster deveria deixar a estatal, Lula respondeu:

“Eu não acho nem desacho. É um problema da presidenta Dilma, não é meu”.

Lula também foi perguntado sobre até quando a Petrobras aguenta a crise envolvendo as investigações da Operação Lava Jato.

“A Petrobras tem muita força, gente.”

Ele deu as declarações após participar de solenidade no Ministério da Justiça em homenagem aos dez anos da reforma do judiciário.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG – Lula diz que não tem nada a ver com isso, mas sabe-se que desde a semana passada ele ordenou que Dilma Rousseff demitisse Graça Foster, mas ela não o fez, porque Lula ainda não conseguiu achar um grande nome que aceite. Lula diz que não tem nada a ver com isso, mas está criando no PT o tal “Gabinete da Crise”. Como dizia Bussunha, “fala sério!”. (C.N.)

Ex-gerente depõe e confirma que Graça sabia da corrupção

Confirmado: Graça mentiu na CPI e continua mentindo

Deu na FolhaEm depoimento de cinco horas no Ministério Público Federal do Paraná nesta sexta-feira (19), a ex-gerente da Petrobras Venina Velosa da Fonseca apresentou documentos e alegações que confirmam que a presidente da empresa, Graça Foster, sabia das irregularidades na estatal desde 2007, segundo o advogado de Fonseca, Ubiratan Mattos.

Sobre alegações da Petrobras, divulgadas em nota na última terça (16), de que as afirmações de Fonseca eram vagas e de que ela só fez as denúncias por ter sido responsabilizada, Mattos vê uma inversão.

“Estão querendo transformar a vítima em vilã. Estão tentando desconstruir a figura da minha cliente. Hoje ela comprovou que não é a vilã da história”, afirmou.

Obama e Raúl esqueceram o principal

Percival Puggina

“Ahora, llevamos adelante, pese a las dificultades, la actualización de nuestro modelo económico para construir un socialismo próspero e sostenible”. Raúl Castro, em discurso ao povo cubano no dia 17 de dezembro de 2014.

Num dia de outubro do ano de 2012 – já contei isso antes por aqui – enquanto caminhava ao longo do Malecón habanero, eu ia observando o incessante bater das ondas contra os molhes que protegem a cidade. Retornara a Havana, passados 10 anos da minha visita anterior, para conhecer as mudanças que se dizia, então, estarem ocorrendo no país. Gastara os dias anteriores perguntando às pessoas sobre essas mudanças. “Câmbios? No hay cambios!”, asseguravam-me aqueles com quem falava. De fato, tudo parecia apenas dez anos mais velho, dez anos mais deteriorado, exceto pela novidade dos telefones celulares. “Mas um dia o mar vencerá o muro”, eu ia pensando enquanto contemplava a baía de Havana.

Lendo os jornais de 18 de dezembro de 2014, me pergunto: será este o momento? Será agora que Cuba tomará a decisão certa, o caminho da democracia sonhado por tantos cubanos, exauridos de sua liberdade e criatividade por um governo comunista, de feitio leninista? A frase com que abro este comentário, feito em cima dos acontecimentos, deixa margem para muitas dúvidas. O ditador Raúl Castro pretende instalar-se sobre uma contradição – “socialismo próspero”. Ora, isso não existe. O que pode existir é uma ditadura com capitalismo, tipo chinesa.

SEM ABERTURA?

Diante disso, vê-se que Obama acaba de prestar um desserviço ao povo cubano. Se era para fazer acordo, que o acordo previsse a abertura política. Ao isolar das negociações o povo da ilha, Obama reproduz a conduta brasileira, que socorre o ditador em suas necessidades materiais ajustando o estribo para que ele possa continuar cavalgando a nação cubana.

Huber Matos, um dos principais comandantes da revolução, no livro “Cómo llegó la noche”, relata uma conversa que teve com Fidel, indagando-o sobre quando iriam cumprir a promessa de permitir aos trabalhadores a participação no resultado das empresas. Na resposta, o Líder Máximo afirmou que isso seria impossível porque quando o trabalhador adquire independência econômica logo vai atrás da independência política.

MUDARAM DE OPINIÃO?

Se tal entendimento os manteve no poder durante 54 anos, não vejo razão para que tenham mudado de opinião. A longa experiência certifica a correção da tese. Ademais, o modelo político cubano, segundo a própria definição de Fidel Castro, é marxista-leninista, ou seja, tem total desapreço à democracia e às liberdades que normalmente a acompanham.

Se a questão política interna de Cuba não faz parte da pauta negociada entre Raúl e Obama com as bênçãos de Sua Santidade o Papa Francisco, então esqueceram o principal. Cuba não é um negócio da família Castro & Castro Cia. Ltda, com a qual Obama faz acertos, mas uma nação insular onde, há mais de meio século, 11 milhões de pessoas trabalham como escravas do Estado. Um dia, contudo, o mar vencerá o muro.

Processo contra Bolsonaro não vai à frente, diz Eduardo Cunha

Acusações fazem Bolsonaro ficar cada vez mais famoso

Isabela Vieira
Agência Brasil

O deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), candidato à presidência da Câmara dos Deputados, esclareceu hoje, em campanha no Rio de Janeiro, que a representação contra o deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ), por quebra de decoro parlamentar, não deve “ir adiante”. Ele disse que, com o fim da atual legislatura, o caso não pode ser apreciado em 2015, no novo mandato

“[A representação] é fato desta legislatura”, disse. “Já tem jurisprudência”, completou, explicando que outros casos não puderam ser apreciados após o fim do mandato. Porém,  como líder do PMDB, Cunha aproveitou para condenar a declaração do deputado do PP-RJ.

“A história [entre Bolsonaro e a deputada Maria do Rosário (PT-RS)] tem três versões: a das partes e a verdadeira. Agora, eu sou contra qualquer tipo de agressão como [a que] foi feita por ele, na verbalização. Sou contra qualquer agressão, acho que [as relações no] Parlamento têm que se dar com respeito, educação, divergência de ideias, mas dentro da polidez e do decoro”, afirmou.

Na última semana,  PT, PCdoB, PSB e PSOL acusaram, por meio da representação, o deputado Jair Bolsonaro de quebrar o decoro ao ofender a deputada Maria do Rosário. Em pronunciamento no plenário da Câmara, Bolsonaro disse que não estuprava Maria do Rosário “porque ela não merece”. A agressão ocorreu após a deputada comentar o relatório final da Comissão Nacional da Verdade, divulgado dia 10 de dezembro.

Em breve defesa prévia, Bolsonaro afirmou que ficou ofendido com as “acusações” contra os militares. “Sou capitão do Exército”, justificou.

Os deputados no Congresso Nacional entram em recesso na próxima segunda-feira (22) e voltam às atividades em 1º de fevereiro de 2015.

Piada do Dia: Parlamento cubano aprova acordo por unanimidade

Deu na Agência Lusa

O Parlamento cubano ratificou hoje (19) por unanimidade o acordo alcançado entre Havana e Washington para normalizar as relações entre os dois países, após mais de meio século de hostilidade, segundo noticiou a agência de notícias cubana Prensa Latina.

Raúl Castro presidiu hoje a reunião semestral do Parlamento cubano, em sessão focada na renovação das relações da ilha comunista com os Estados Unidos.

O embargo contra Cuba foi imposto pelos Estados Unidos em 1962, depois de fracassada invasão da ilha conhecida como Baía dos Porcos, para tentar derrubar o regime de Fidel Castro.

Ainda na quarta-feira, os Estados Unidos libertaram os últimos três membros do grupo conhecido como os Cinco de Cuba, condenados em 2001 por espionagem.

NÃO EXISTE OPOSIÇÃO

A libertação de Gerardo Hernández, Ramón Labanino e Antonio Guerrero foi anunciada no mesmo dia em que o regime de Havana libertou o norte-americano Alan Gross, detido há cinco anos em Cuba, também por espionagem.

O Parlamento cubano conta com 612 membros e não tem representantes da oposição. A reunião de seus membros ocorre duas vezes por ano.

A sessão de hoje, fechada à imprensa internacional, foi convocada para rever o progresso do Plano Econôico Anual, que não cumpriu o objetivo de crescimento fixado em 2,2% para este ano. Segundo representantes do Conselho de Ministros no início do ano, Cuba deverá crescer apenas 1,3% em 2014.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
Não há oposição e o próprio presidente Raúl Castro preside o Parlamento. Por isso, ninguém pode estranhar a unanimidade. Em Cuba, a palavra de ordem do governo é a famosa expressão “ou dá ou desce”. (C.N.)

 

Procuradoria pede cassação de Pimentel, governador eleito de Minas

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Pimentel é acusado de abuso do poder econômico

Helena Martins
Agência Brasil

A Procuradoria Regional Eleitoral de Minas Gerais (PRE-MG) pediu a cassação do diploma e a decretação de inelegibilidade do governador e vice-governador eleitos de Minas Gerais, Fernando Pimentel e Antônio Andrade. A procuradoria também solicita a realização de ação de investigação judicial eleitoral dos eleitos.

No pedido, ajuizado no Tribunal Regional Eleitoral de Minas (TRE-MG), o procurador regional eleitoral Patrick Salgado destaca problemas na prestação de contas da campanha ao governo do estado. De acordo com a ação, “a campanha de Fernando Pimentel e Antônio Andrade foi ilicitamente impulsionada por inaceitável abuso de poder econômico”, evidenciado “pela superação do limite de gastos e por adoção de um método dúbio de realização de despesas”.

A prestação de contas da coligação Minas pra Você (PT/PMDB/PCdoB/PROS/PRB) foi desaprovada pelo TRE-MG, na última quinta-feira (11). Entre as irregularidades apontadas pelo tribunal estão a extrapolação em mais de R$ 10,1 milhões do teto de R$ 42 milhões da campanha, estabelecido no registro da candidatura, bem como a ausência de registro das despesas feitas por outros candidatos, partidos ou comitês em favor do então candidato ao governo.

ALEGAÇÕES DA DEFESA

De acordo com informações da Justiça Eleitoral, a defesa de Pimentel afirma que o montante excedente não pode ser considerado nova despesa, já que consiste em transferências feitas ao Comitê Financeiro Único do PT, em Minas Gerais, para fazer propaganda para o próprio Pimentel. Os advogados também alegam que a coligação não teve conhecimento da publicidade feita por candidatos a outros cargos.

A análise das contas feita pelo TRE-MG embasa o pedido de cassação feito pela procuradoria. Para a PRE, “não se trata de apenas um erro formal, mas de falha grave, visto que o limite estabelecido para gastos é uma forma de garantir a transparência da campanha eleitoral e propiciar a fiscalização plena”.

A Agência Brasil procurou a coligação Minas pra Você e o PT em Minas Gerais, mas não conseguiu contato até a publicação desta matéria. Para outros veículos da imprensa, a assessoria da coligação informou que ainda não vai se manifestar sobre o pedido.

Surgem dois nomes para a presidência da Petrobras

Natuza Nery. Valdo Cruz e Andréia Sadi
Folha

Apesar do desejo pessoal de manter Graça Foster no comando da Petrobras, a presidente Dilma Rousseff está sendo convencida por auxiliares a procurar nomes para o comando da estatal e fazer, se possível, uma mudança o mais breve possível.

Interlocutores dizem que a ideia é aproveitar alterações na cúpula de bancos públicos para mudar a diretoria da petroleira, mexida que pode ocorrer só em 2015 devido ao atraso da reforma ministerial.

Além de ser amiga pessoal de Graça, Dilma resistia em tirá-la do cargo por convicção de que a executiva, desde que assumiu a presidência da estatal, trabalhou para limpá-la de eventuais irregularidades. Acreditava, portanto, ser uma injustiça sacrificá-la por causa da Operação Lava Jato.

Assessores têm dito que Dilma, caso opte pela substituição, vai escolher um profissional de mercado, de preferência nome com experiência em captações de recursos e remodelagem de dívidas.

DOIS NOMES

Dois novos nomes estão circulando como candidatos. Um deles é Nildemar Secches, que comandou a Perdigão e, depois da fusão com a Sadia, presidiu o conselho de administração da BR Foods. Hoje conselheiro de empresas, ele já trabalhou no BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social). Outro nome é o de Rodolfo Landim, executivo do setor de petróleo. Ele já trabalhou na Petrobras, onde, entre outros, foi diretor-gerente de exploração e produção e presidente da BR Distribuidora.

MINISTÉRIO

Neste ano, Dilma deve fechar o primeiro escalão. Até a próxima semana, vai definir os nomes palacianos, confirmando Miguel Rossetto na Secretaria-Geral da Presidência. O petista Patrus Ananias deve substituí-lo no Desenvolvimento Agrário.

Ricardo Berzoini, titular das Relações Institucionais, tende a seguir no cargo.

Por pedido de Lula, o PT voltará ao comando do Ministério do Trabalho com um ministro ligado à CUT. São Cotados José Feijó e Arthur Henrique, ex-presidente da central. Jaques Wagner, que queria assumir a Defesa, deve ir para as Comunicações.

O Esporte tende a ficar com o PDT, o que pode deslocar o PC do B para a Cultura.

O PSD aguarda a confirmação do ex-prefeito Gilberto Kassab para as Cidades no lugar do PP, que pode ser transferido para a Integração Nacional. O PMDB quer a Integração para Henrique Eduardo Alves, presidente da Câmara. O PT trabalha contra.

Dilma ainda tenta nomear o governador do Ceará Cid Gomes (Pros) para a Educação, tradicional reduto petista. Nos últimos dias, o aliado mandou sinais de que poderia aceitar o convite.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOGNesta reportagem, onde se lê Dilma Rousseff, leia-se Lula, por favor. É ele quem decide praticamente tudo. Dilma é como a rainha da Inglaterra: reina, mas não mais governa. (C.N.)

Duas histórias. Duas?

Jacques Gruman

Perdoem a cara amarrada,/Perdoem a falta de abraço,/
Perdoem a falta de espaço,/Os dias eram assim
(da música “Aos nossos filhos”, composta por Ivan Lins e Vitor Martins)

Nestes dias de lembranças dolorosas, nesta fase de desencanto, nestes momentos de travo amargo, começo a contar duas histórias brasileiras. Melhor: de duas mulheres brasileiras. Nenhuma das duas mereceu manchetes, nenhuma das duas mereceu sequer um fiapo da repercussão dos 7 a 1, e, no entanto, são alma e sangue do que é o nosso país. Seus rostos vincados pela dor carregam olhos cansados pela indiferença dos outros, seus cabelos, prematuramente embranquecidos, gritam o horror abafado pela invisibilidade.

MARIA AUXILIADORA ARANTES      

Maria Auxiliadora de Almeida Cunha Arantes é psicóloga e psicanalista. Muito jovem, engajou-se na luta contra a ditadura militar. Acabou presa em Maceió por quatro meses, junto com os filhos André e Priscila. André tinha três anos, a irmã pouco mais de dois. É isso mesmo. Os militares deviam achar que as crianças eram grande ameaça à segurança nacional. Entre os vários cárceres por onde passaram, um foi o Hospital da Polícia Militar. Lá, ficaram trancados num quarto reservado para os portadores de doenças infectocontagiosas. André e Priscila adoeceram, com furunculose e diarreia. Priscila estava com a boquinha tão cheia de aftas que só conseguia se alimentar por contagotas. Em nenhum momento receberam cuidados médicos.

Filhos de presos políticos, não importa a idade, foram tratados com absoluta impiedade. Muitos assistiram os pais serem torturados. Submetidos a severa clandestinidade, os militantes não revelavam seus verdadeiros nomes. André, por exemplo, não sabia que o nome de seu pai era Aldo. Maria viveu na carne a experiência de muitos companheiros de luta. Seus filhos perderam parte da infância e atris3011imagina.jpgacumularam fantasmas difíceis de exorcizar. A ausência fez faltar o afago calmo das noites silenciosas. Fez desaparecer o sorriso que solucionava problemas impossíveis. Fez sufocar o grito de gol nas peladas vadias. Sequestrou os cheiros e os sussurros que constroem o afeto comum. Esvaziou de imagens os álbuns da memória. Nada disso é contabilizado pela História oficial.

LUTO SEM CORPOS?

O Menino descobriu como é difícil falar sobre estes sentimentos. Conheceu gente que fugiu da Europa para não ser trucidada pelos nazistas. Os parentes que não saíram foram assassinados. Como falar do inclassificável ? Como elaborar o luto na falta dos corpos ? Como suportar a dor ? O resultado é que poucos se abriam. Tudo fica mais difícil e delicado quando as vítimas são crianças. Já crescida, Priscila desabafou com Maria: “Mãe, acho que finalmente estou saindo debaixo da mesa”. Maria olhou a filha com cara de paisagem. Daí, Priscila removeu o entulho e explicou. Na casa da família, em Belo Horizonte, havia uma mesa redonda de oito lugares, coberta por uma longa toalha, que ia até o chão. Estava escondida debaixo da mesa quando agentes da repressão invadiram a casa, em busca de Maria. Pressionaram a avó, detalhando as torturas sofridas por Aldo, ameaçando fazer o mesmo com Maria. Desesperada, ela fugiu e se enroscou nas pernas dos adultos. Na vida real, levou mais de 20 anos para sair do refúgio. Muitos e tortuosos são os caminhos da liberdade. (artigo enviado por Mário Assis)

AMANHÃ: A história de Célia Regina, na favela do Acari

Youssef usou propinas para construir hotéis/lavanderias

Wilson Lima
iG Brasília

As investigações da Operação Lava Jato apontam que vários empreendimentos do doleiro Alberto Youssef foram erguidos com dinheiro fruto de propina na Petrobras. Youssef é apontado como o líder de um esquema bilionário de lavagem de dinheiro e atos de corrupção na Petrobras descoberto pela Operação Lava Jato.

Conforme as investigações da Força Tarefa da “Operação Lava Jato”, um dos exemplos de como os empreendimentos de Alberto Youssef foram erguidos com dinheiro desviado da estatal é a formalização do contrato de U$$ 616 milhões para a construção do “Navio-sonda Vitória 10000”, celebrado entre a Petrobras e a Samsung Heavy Industries Co.

Pelas informações do Ministério Público Federal (MPF), esse contrato foi firmado após mediação de favorecimento à Samsung feita pelo lobista Fernando Soares, o Fernando Baiano, e Júlio Camargo, executivo da Toyo-Setal – integrante do pool de empresas envolvidas no esquema de cartel da Petrobras -, além de Nestor Cerveró, então diretor da área internacional da Petrobras. O negócio entre a Heavy Industries Co. e a Petrobras, segundo o MPF, ocorreu por meio de autorização de Cerveró, mediante pagamento de propina de U$$ 33 milhões.

EM QUATRO PARCELAS

O acerto entre Camargo e a Samsung é que essa propina seria paga em quatro parcelas em contas indicadas pelo executivo da Toyo Setal. Em seguida, esses recursos foram destinados a contas de Cerveró e Fernando Baiano.

No entanto, no caso específico, a Samsung não pagou a última parcela do acerto com Camargo, no valor de pouco mais de U$$ 8 milhões. Assim, o executivo recorreu a Alberto Youssef para repassar a propina a Cerveró e a Fernando Baiano. Como contrapartida pelo empréstimo, Youssef determinou que Camargo efetuasse depósitos nas contas da GFD Investimentos para “terminar os seus empreendimentos imobiliários”, conforme o MPF.

Entre os empreendimentos imobiliários que, de forma indireta, receberam recursos desviados de obras da Petrobras estão o Hotel Romeiros, em Aparecida (SP); o Hotel Príncipe da Enseada, em Porto Seguro (BA); e o Edifício Residencial Dona Lila, em Curitiba (PR). Com essa estratégia, esses empreendimentos receberam R$ 11,7 milhões das empresas de Júlio Camargo.

“Para fazer essas transferências à GFD, Júlio Camargo simulou contratos de suas empresas Auguri Empreendimentos LTDA, Treviso Empreendimentos LTDA e Piemonte Empreendimentos LTDA com a empresa GFD, inclusive com a emissão simultânea de notas promissórias, tudo para que não parecesse que ‘fosse algo simulado’”, descrevem os procuradores na denúncia contra Cerveró, Youssef impetrada no início desta semana.

CONTRATOS SIMULADOS

As investigações apontam transferências das empresas controladas por Júlio Camargo à GFD Investimentos: a Piemonte, transferiu valores da ordem de R$ 8,7 milhões; a Treviso efetuou repasses de no valor de R$ 1,8 milhões; e a Auguri transferiu recursos da ordem de R$ 1,1 milhões. Todas as transferências foram fracionadas entre 25 de março de 2010 e 16 de fevereiro de 2011.

“Em conclusão, toda a propina solicitada e negociada, para viabilizar a construção dos dois navios-sondas identificados, no valor total de US$ 53 milhões, foi oferecida/prometida, recebida e paga por Júlio Camargo a Fernando Soares por meio de contas offshores no exterior ou em nome de terceiros, com base em contratos simulados e falsas justificativas de câmbio, tudo com o fim de evitar a identificação dos envolvidos, a natureza espúria do dinheiro e a sua atual localização, tornando seguro o produto do crime. Ademais, as falsidades praticadas serviram ainda para conferir aparência de legalidade aos investimentos feitos na GFD, empresa de Youssef”, afirmam os procuradores na denúncia desta semana.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOGO fato de Youssef investir em hotéis é facilmente explicado. Hotel é uma maneira excelente de lavar dinheiro. Basta declarar que ele está sempre lotado. Reparem que no Brasil a hotelaria é um ramo sem crises. (C.N.)

Chinaglia tenta evitar o rótulo de “candidato do Planalto”

Chinaglia acha que apoio de Dilma prejudica sua campanha

Deu em O Tempo

Ao lançar seu nome para a disputa pela Presidência da Câmara a partir de 2015, o deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP) tentou se descolar do rótulo de “candidatura palaciana” e ainda pregou um pacto de boa convivência com o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), apontado como favorito na briga pelo cargo.

Numa tentativa de se contrapor à principal bandeira do peemedebista, que é retomar a autonomia da Casa, o petista, que se considera um “azarão” na corrida, disparou falas sustentando que é dever do comando da Câmara ter independência.

“O presidente da Câmara, para ser bom, sempre vai ter resistência de outros Poderes”, disse Chinaglia. “[Independência] não é algo que vá além de cumprir a obrigação”, completou.

A declaração, no entanto, serve como arsenal para Cunha, que não conta com aval do Palácio do Planalto. O peemedebista é considerado “um governista com estilo oposicionista” por causar problemas ao governo no Congresso.

O candidato do PT negou que a avaliação de independência em relação também ao Judiciário seja um recado aos colegas, diante da expectativa de que a Casa terá que julgar no ano que vem dezenas de parlamentares que podem ser denunciados por envolvimento no esquema de corrupção na Petrobras.

No discurso, o petista disse que está costurando uma plataforma de campanha, mas evitou lançar promessas corporativistas. Ele defendeu que a Casa crie uma pauta nacional, com a discussão de uma agenda temática.

APOIOS INCERTOS

Apesar de o PT ter anunciado o apoio do PDT a Chinaglia, a bancada não compareceu ao evento e ainda discute se fechará com ele ou apresentará candidatura própria.

PROS e PCdoB fecharam aliança com o deputado petista. O candidato disse estar costurando entendimento com dez partidos.

Em reação à movimentação de Chinaglia, Cunha deve receber apoio do DEM e do PTB. O peemedebista já conta adesão do Solidariedade e do PSC, siglas oposicionistas.

 

Costa já citou 28 políticos, mas falta a lista de Youssef

Lista de Paulo Roberto será confrontada com a de Youssef

O ex-diretor de Abastecimento da Petrobras Paulo Roberto Costa listou o nome de 28 políticos supostamente envolvidos no escândalo na estatal durante cerca de 80 depoimentos, no âmbito de delação premiada na Operação Lava Jato, ocorridos entre agosto e setembro, segundo informações do jornal “O Estado de S. Paulo”.

Segundo a reportagem, a lista de políticos envolvidos no esquema inclui ministros e ex-ministros do governo Dilma Rousseff (PT), deputados, senadores, um governador e ex-governadores. Constam também na relação nomes de parlamentares da base aliada do governo e da oposição. Na lista dos partidos estão PT, PMDB, PSB, PSDB e PP.

No documento, está o ex-ministro dos governos Lula e Dilma, Antonio Palocci. O petista teria encomendado a Costa, segundo a reportagem, dinheiro para a campanha da presidente, da qual era coordenador. O pedido teria sido de R$ 2 milhões.

SÉRGIO GUERRA

Costa também relatou pagamento de propina ao ex-presidente do PSDB, Sérgio Guerra, para que uma CPI que investigava a Petrobras fosse encerrada, caso revelado pela Folha em outubro. O pagamento, segundo o depoimento ao qual o “Estado” teve acesso, foi de R$ 10 milhões.

Outros nomes também já haviam sido ligados ao esquema em vazamentos anteriores.

Em setembro, a revista “Veja” divulgou nomes de 12 políticos que constariam nos depoimentos de Paulo Roberto Costa, dentre eles, Renan Calheiros (PMDB-AL), Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), Roseana Sarney (PMDB-MA) e Eduardo Campos (PSB-PE). A revista mencionava também o tesoureiro nacional do PT, João Vaccari, que não aparece no documento apresentado pelo “Estado”.

A Folha também já havia revelado a menção ao nome do candidato ao governo do Rio neste ano, Lindbergh Farias (PT).

No depoimento do doleiro Alberto Youssef –que assim como Costa, assinou delação premiada– também consta o nome da senadora e ex-ministra da Casa Civil Gleisi Hoffmann.

A informação de que o nome do líder do PT no Senado, Humberto Costa, constava no depoimento do ex-diretor da Petrobras também já havia sido revelada.

A integrantes da CPI da Petrobras, Costa disse ter delatado entre 35 e 40 congressistas.

CONFIRA OS NOMES

Veja abaixo os nomes presentes na lista de Paulo Roberto Costa, segundo o “Estado”:

PT

Antonio Palocci – ex-ministro dos governos Lula e Dilma
Gleisi Hoffmann – senadora (PR) e ex-ministra da Casa Civil
Humberto Costa – senador (PE) e líder do PT na Casa
Lindbergh Farias – senador (RJ)
Tião Viana – governador reeleito do Acre
Delcídio Amaral – senador (MS)
Cândido Vaccarezza – deputado federal (SP)
Vander Loubet – deputado federal (MS)

PMDB

Renan Calheiros – presidente do Senado (AL)
Edison Lobão – ministro de Minas e Energia
Henrique Eduardo Alves – presidente da Câmara (RN)
Sérgio Cabral – ex-governador do Rio de Janeiro
Roseana Sarney – ex-governadora do Maranhão
Valdir Raupp – senador (RO) e 1º vice-presidente do partido
Romero Jucá – senador (RR)
Alexandre José dos Santos – deputado federal (RJ)

PSB

Eduardo Campos – governador de Pernambuco de 2007 a 2014 (morto em 2014)

PSDB

Sérgio Guerra – presidente nacional do PSDB de 2007 a 2013 (morto em 2014)

PP

Ciro Nogueira – senador (PI)
João Pizzolatti – deputado federal (SC)
Nelson Meurer – deputado federal (PR)
Simão Sessim – deputado federal (RJ)
José Otávio Germano – deputado federal (RS)
Benedito de Lira – senador (AL)
Mário Negromonte – ex-ministro das Cidades
Luiz Fernando Faria – deputado federal (MG)
Pedro Corrêa – ex-deputado federal (PE)
Aline Lemos de Oliveira – deputada federal (SP)

OUTRO LADO

Procurados pela reportagem do jornal, os citados negam qualquer envolvimento. Apenas os senadores Delcídio Amaral (PT-MS) e Benedito de Lira (PP-AL) e os deputados José Otávio Germano (PP-RS) e Simão Sessim (PP-RJ) não quiseram se pronunciar.

ESCÂNDALO

Iniciada em março deste ano, a Operação Lava Jato investiga o esquema de lavagem e desvios de dinheiro em contratos assinados entre empreiteiras e a Petrobras que somam R$ 59 bilhões, considerando o período de 2003 a 2014.

Segundo as investigações, parte desses contratos se destinava a “esquentar” o dinheiro que irrigava o caixa de políticos e campanhas no país.

Até o momento, 39 pessoas, entre funcionários de empreiteiras, da Petrobras e intermediários de esquemas de corrupção, tornaram-se réus em decorrência da Operação Lava Jato.

As denúncias foram acatadas pelo juiz Sergio Moro, da Justiça Federal do Paraná, responsável pelo julgamento daqueles que não contam com foro privilegiado. Os políticos, por sua vez, só podem ter o caso analisado pelo STF.

Como esta sexta é o último dia de trabalho do Judiciário, inquéritos e denúncias envolvendo figuras com foro privilegiado só devem acontecer em fevereiro de 2015, quando recomeçam os trabalhos nas cortes.

Prédio do triplex de Lula no Guarujá é “habitado” por petistas

Vaccari é um dos petistas que “compraram” apartamentos

Germano Oliveira
O Globo

O tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, é proprietário de um apartamento no edifício Solaris, em Guarujá (SP), onde o casal Luiz Inácio Lula da Silva e Marisa Letícia Lula da Silva tem um tríplex avaliado entre R$ 1,5 milhão e R$ 1,8 milhão. Vaccari é acusado de estelionato em processo que tramita na 5ª Vara Criminal de São Paulo, referente ao período em que presidia a Cooperativa Habitacional dos Bancários (Bancoop), que vendeu, mas não entregou, apartamentos a cerca de 3.100 pessoas.

A Bancoop também comercializou os 122 apartamentos do Solaris, de 2006 a 2010, período em que Vaccari era o presidente da cooperativa. Na época, o prédio se chamava Mar Cantábrico. Como a obra passou por problemas, a Construtora OAS foi contratada em 2010 pela Bancoop para finalizar a construção.

Um apartamento no prédio custa, em média, R$ 750 mil. A lista com o nome de Vaccari como um dos proprietários está anexada ao processo na 5ª Vara Criminal, movido pelos mutuários da cooperativa que se sentiram lesados.

NOME CITADO NA LAVA-JATO

Vaccari também é investigado pela Operação Lava-Jato, da Polícia Federal, como suspeito de ser o operador petista de esquema de recebimento de propinas por obras na Petrobras. Ele nega todas as acusações

Devido a irregularidades na Bancoop, Vaccari foi denunciado por estelionato pelo Ministério Público Estadual no final de 2010. Nesse mesmo ano, a denúncia foi aceita pela juíza da 5ª Vara Criminal, Cristina Ribeiro Leite Balbone Costa. Uma sentença no caso é aguardada para meados de 2015.

Procurada pelo GLOBO, a assessoria do tesoureiro do PT confirmou que o apartamento é dele, mas informou que Vaccari não comentará o assunto.

Segundo o advogado criminalista Luiz Flávio Gomes, não há ilegalidade no fato de Vaccari ser dono de um apartamento no condomínio construído pela Bancoop.

— Só haveria algo ilegal se o prédio tivesse recebido recursos oficiais — disse.

OUTROS PETISTAS

Além do casal Lula da Silva e Vaccari, outros petistas e ex-dirigentes da Bancoop têm apartamentos no Solaris. É o caso de Ana Maria Érnica, diretora financeira da Bancoop. Érnica também é ré por estelionato no processo na 5ª Vara Criminal. Os outros réus são: Edson Botelho Fraga, Letycia Achur Antonio, Henir Rodrigues de Oliveira e Helena da Conceição Pereira Lage.

Também Heitor Gushiken, primo do ex-ministro do governo Lula, Luiz Gushiken, morto em 2013, é dono de apartamento no Solaris. Heitor negou qualquer privilégio na obtenção do imóvel. Ele disse ao GLOBO esta semana que quitou todas as prestações do apartamento à Bancoop e ainda teve que pagar mais R$ 160 mil para a OAS, que cobrou dos associados da cooperativa uma diferença pelo término da obra.

Simone Messeguer Pereira Godoy, mulher de Freud Godoy, tem apartamento no Solaris. Freud foi segurança do ex-presidente Lula e chegou a ter seu nome envolvido na compra do dossiê contra o ex-governador de São Paulo José Serra (PSDB), em 2006, no que ficou conhecido como escândalo dos aloprados.

A petista Marice Correia de Lima, cunhada de Vaccari, também é dona de um apartamento num prédio construído pela Bancoop. No último dia 18 de novembro, ela foi levada coercitivamente a depor na Polícia Federal de São Paulo, no decorrer da Operação Lava-Jato, para explicar por que recebeu R$ 244 mil da OAS.

Marice é proprietária do apartamento 193-A do Edifício Mirante do Tatuapé, no Bairro do Tatuapé, em São Paulo. Ela adquiriu o imóvel junto à Bancoop em 2006, quando o cunhado presidia a cooperativa.

ATÉ A CUT TEM APARTAMENTOS

No mesmo prédio do Tatuapé, os apartamentos de número 163-A e 173-A estão em nome da Central Única dos Trabalhadores (CUT), onde Marice trabalhou como colaboradora da Confederação Sindical de Trabalhadores das Américas. A confederação é ligada à CUT e também teve Vaccari como tesoureiro.

Outro empreendimento edificado pela Bancoop é o Torres da Mooca. Nele, Mirelle Nóvoa de Noronha, filha da ex-secretária de Lula, a petista Rosemary Nóvoa Noronha, é dona de um apartamento.

Rose, como Rosemary é conhecida, foi chefe de gabinete do escritório regional da Presidência da República em São Paulo. Ela foi flagrada pela Operação Porto Seguro, da Polícia Federal, em 2012, negociando favores em nome da Presidência e obtendo empregos para seus familiares no governo Lula, inclusive para a filha. O irmão de Rose, Edson Lara Nóvoa, também tem apartamento no prédio da Mooca.

Ainda têm apartamentos no prédio dois ex-assessores de Lula: José Carlos Spinoza, ex-chefe de gabinete do Escritório Regional da Presidência da República em São Paulo, e Rogério Pimentel, ex-assessor do gabinete pessoal de Lula.

E o apartamento 174 do Torres da Mooca pertence a um outro personagem envolvido no caso dos aloprados: Osvaldo Bargas, ex-diretor da CUT.

 

Petrobras ainda não sabe o tamanho do rombo da corrupção


Cláudia Schüffner, Ana Paula Ragazzi e Fernando Torres
Valor Econômico

A Petrobras segue negociando intensamente com credores um prazo mais alongado para apresentar suas demonstrações financeiras, com ou sem o aval dos auditores, em uma corrida contra o tempo para evitar que dívidas gigantescas tenham vencimento antecipado já no fim de janeiro ou até o fim do primeiro semestre de 2015. As cifras envolvidas seriam um pesadelo para o ministro da Fazenda de qualquer país, e não é diferente para o próximo ocupante da pasta, Joaquim Levy.

Se não tiver o balanço de 2014 auditado até o dia 30 de junho, ou 180 dias após o fim deste ano, a Petrobras entrará tecnicamente em “default”, o que vai disparar cláusulas contratuais que preveem a antecipação da cobrança de US$ 56,7 bilhões.

Isso pode acontecer porque, ao não apresentar o balanço, a estatal descumpre cláusulas restritivas (covenants) de alguns empréstimos de longo prazo que tomou para se financiar. A cifra apenas do que vence em junho equivale a aproximadamente 15% das reservas cambiais do Brasil, de US$ 374,8 bilhões.

PAGAMENTO INTEGRAL

Na sexta-feira a companhia informou que, da dívida total de US$ 135,3 bilhões que tinha em 30 de setembro, existem obrigações relacionadas à divulgação de balanço, seja trimestral ou anual, auditado ou não, de US$ 97,8 bilhões, um quarto das reservas cambiais. Sobre essas, os vencimentos podem ser “acelerados”, com os credores podendo cobrar antecipadamente o pagamento integral antes do vencimento, observados os prazos contratuais previstos.

Um analista de um grande banco observou que acelerar os vencimentos não é interessante para bancos e nem bondholders da Petrobras e, portanto, acha que o risco de uma aceleração de dívidas é “apenas teórico”. Contudo, as negociações para o perdão por descumprimento das cláusulas contratuais devem vir acompanhadas de taxas maiores e outras condições mais duras. “Com isso o fluxo de caixa livre da empresa deve ficar mais apertado.”

ROLANDO R$ 7 BILHÕES…

Nas últimas semanas, a Petrobras conseguiu estender para 31 de janeiro o vencimento de dívidas de US$ 7 bilhões que teriam que ser pagas até o fim deste mês, antecipadamente, porque não tem sequer o balanço auditado do terceiro trimestre. E já iniciou negociações para o restante. Além de aumentar o prazo do vencimento, parte dos credores aceitou alterar a obrigação desses contratos. Agora, bastaria um balanço pro-forma, sem o aval da auditoria PwC, para que a companhia cumpra o acordado. Mas o segundo adiamento, anunciado na sexta, mostra que a companhia não se sente confortável para publicar nem mesmo números não auditados, já que não conhece o tamanho do rombo.

A manobra trouxe um fôlego de 46 dias para que se decida como será feita a baixa contábil dos bilhões que foram superfaturados nos últimos anos por ex-diretores associados a fornecedores de equipamentos e serviços para abastecer um esquema bilionário de corrupção e suborno, cuja extensão ainda é desconhecida já que a cada dia vêm à tona novas e devastadoras apurações dos responsáveis pela Operação Lava-Jato na Justiça de Curitiba.

Além do réu confesso Paulo Roberto Costa, outros três diretores devem ser denunciados por corrupção. A situação da atual diretoria também começa a ficar insustentável, apesar de ser reconhecida como séria e de ter conseguido “entregar” resultados há muito prometidos. E isso também preocupa o analista ouvido ontem pelo Valor. “É complicado trocar a liderança agora, pode atrasar as metas por mais alguns anos. E 2015, que deveria ser o ano de consolidação, pode ser mais um ano perdido”, avalia.

CORRIDA CONTRA O TEMPO

Com um obstáculo creditício contornado temporariamente, a estatal enfrenta uma corrida contra o tempo, enquanto sangra. Se não divulgar qualquer balanço do terceiro trimestre, dispara o pagamento de dívidas de US$ 40,3 bilhões. Além dos US$ 7 bilhões que já foram objeto de aditivo contratual, há duas outras linhas, uma de US$ 10,6 bilhões, outra de US$ 22,7 bilhões, que completam o total e que são passíveis de ter vencimento antecipado para abril e maio. A divulgação de demonstrações trimestrais, mesmo sem revisão do auditor, no período entre 120 e 150 dias após 30 de setembro, atende às exigências desses credores. Em 30 de junho de 2015 vence a cláusula da dívida mais relevante, de US$ 56,7 bilhões.

A Petrobras reapresentou seu formulário de referência na sexta-feira, agregando essas informações, por exigência da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). A companhia reafirmou que possui apenas uma cláusula restritiva ligada à métrica dívida líquida/Ebitda, que não pode passar de 5,5 vezes. Ela se aplica a um empréstimo de R$ 25 bilhões do BNDES. Em junho, esse indicador estava em 4 vezes e deve ter subido em setembro.

(texto enviado por Guilherme Almeida)