Um documento para a História


Carlos Chagas

Completam-se 60 anos,  este mês, da maior tragédia sofrida pela República brasileira desde sua proclamação. Dia 24 a nação deveria parar  para reverenciar aquele que foi o maior de nossos presidentes e decidiu,com um tiro no peito, mobilizar as  forças populares e  operárias que havia redimido ao longo de décadas anteriores e se encontravam prestes a perder boa parte de seus direitos. O sacrifício de Vargas  adiou por mais dez anos a cupidez das elites. Seus herdeiros, a começar por João Goulart, em 1964, assistiram o inicio do desmonte das estruturas sociais que dali por diante os sucessores promoveram. Registram-se, também agora, os 50 anos da queda da democracia que levará 21 para restabelecer-se. Mas sem trazer de novo em sua plenitude  as conquistas anteriores.

Existem, na crônica dos povos, datas fundamentais. Agosto de 1954 foi uma delas. Desaparecem em irrefreável progressão natural as testemunhas oculares da tragédia, substituídas por farta literatura incapaz de reproduzir o fenômeno das multidões arrependidas ganharem as ruas impondo pelo menos mais dez anos de justiça.

Quando,  na madrugada do dia 24, o velho presidente percebera a armadilha em que o tinham prendido, desencadeou a libertação não apenas de seus esforços anteriores e dele próprio, mas o petardo que fez tremer por mais uma década  os alicerces dos privilegiados. Deixou o documento que sem sombra de dúvidas inscreve-se no rol dos mais contundentes libelos libertário de nossa História. Ei-lo:

“Mais uma vez as forças e os interesses contra o povo coordenam-se e novamente se desencadeiam sobre mim. Não me acusam, insultam; não me combatem, caluniam, e não me dão o direito de defesa. Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação, para que eu não continue a defender, como sempre defendi, o povo e principalmente os humildes. Sigo o destino que me é imposto.  Depois de decênios de domínio e espoliação de grupos econômicos e financeiros internacionais, fiz-me chefe de uma revolução e venci. Iniciei o trabalho de libertação e instaurei o regime de liberdade social. Tive de renunciar. Voltei ao governo nos braços do povo. À campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se  a dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho. A lei de lucros internacionais foi detida no Congresso. Contra a justiça da revisão do salário mínimo se desencadearam os ódios. Quis criar a  liberdade na potencialização da Petrobrás.  Mas esta começa a funcionar, a onda de agitação se avoluma. A Eletrobrás foi obstaculada até o  desespero. Não querem que o trabalhador seja livre. Não querem que o  povo seja independente.

Assumi o governo dentro da espiral inflacionária que destruía os valores do trabalho. Os lucros das empresas estrangeiras alcançavam até 500% a ano. Nas declarações de valores do que importávamos existiam fraudes constatadas de mais de 100 milhões de dólares por ano. Veio a crise do café, valorizou-se o nosso principal produto. Tentamos defender o seu preço e  a resposta foi uma  violenta pressão sobre a nossa economia, a ponto de sermos obrigados a ceder.

Tenho lutado mês a mês, dia a dia, hora a hora, resistindo a uma pressão constante, incessante, tudo suportando em silêncio, tudo  esquecendo, renunciando a mim mesmo, para defender o povo que agora se queda desamparado. Nada mais vos posso dar a não ser o meu sangue. Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida .Escolho este meio de estar sempre convosco. Quando vos humilharem, sentireis a  minha alma sofrendo ao vosso lado. Quando a fome bater à vossa porta, sentireis em vosso peito a energia para a lutar por vós e vossos filhos. Quando vos vilipendiarem, sentireis no meu pensamento a força para a reação. Meu sacrifício vos manterá unidos e meu nome será a vossa bandeira de luta. Cada gota do meu sangue será uma chama imortal na vossa consciência e manterá a vibração sagrada para a resistência. Ao ódio, respondo com o perdão. E aos que pensam que me derrotaram, respondo com a minha vitória. Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo de quem fui escravo jamais será escravo de ninguém. Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue será o preço de seu resgate.

Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, a infâmia, a calúnia  não abateram o meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora, ofereço a minha  morte. Nada receio. Serenamente, dou o primeiro passo   no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História.”

Sessenta anos não são nada na história do mundo. Esse documento continua atual, presente e necessário. Algum candidato presidencial terá coragem de repeti-lo em sua campanha?

 

Reflexões sobre guerra e paz no mundo, no momento que vivemos

Pedro Ricardo Maximino

Há homens tão cruéis e canalhas ao ponto de aniquilar o valor da vida humana, tão preciosa e única quanto o centro de todo o universo.

É certo que os civis continuam utilizados como escudo e alvo principal, tanto no fatídico século XX, quanto neste terrível século XXI.

E nossas guerras diárias envolvem drogas e impiedade, enquanto naquelas bandas se somam a arrogância e o fanatismo religioso.

Apesar do complexo de colônia, desarmada, frágil, dependente e fornecedora de matérias primas, estamos estudando e pensando mais, sou otimista ao ponto de crer que, por aqui, os templos salomônicos são mera exibição mafiosa da idolatria à lavagem de dinheiro.

O protetorado judaico nos chama de anões e Dungas diplomáticos, mas somos gigantes, Hércules quasímodos, sempre de cabeça baixa, sem defesa ou tecnologia independentes, mas que podem virar o jogo e se fortalecer, conquistando a sua capacidade de fato e o respeito, que deve sempre ser recíproco, à nossa condição natural de direito.

Quanto à impiedade que trata alguns como mais humanos do que outros, o complexo industrial armamentista agradece e não vive sem a destruição e a morte por atacado.

A estúpida prepotência e a perversidade humana permanecem, coisificando e descartando a vida humana, daí as guerras, os estupros e as demais formas cruéis de exploração e de dominação.

Vídeo revela o que já se sabia: a CPI da Petrobras era apenas uma farsa

José Carlos Werneck

A agência Estado informa que, segundo denúncia publicada pela revista Veja, os  investigados receberam antecipadamente as perguntas que seriam feitas pela Comissão.

Um vídeo divulgado, hoje, mostra claramente que houve fraude na investigação da CPI da Petrobrás. Segundo a denúncia, a CPI foi criada com o objetivo de não pegar os envolvidos acusados de corrupção. Ainda assim, o Governo e a liderança do PT decidiram não correr riscos e montaram uma fraude que consistia em passar antes aos investigados as perguntas que lhes seriam feitas pelos senadores. A gravação foi obtida,com exclusividade, pela revista.

Com vinte minutos de duração, o vídeo mostra uma reunião entre o chefe do escritório da Petrobrás em Brasília, José Eduardo Sobral Barrocas, o advogado da empresa Bruno Ferreira e um terceiro personagem ainda desconhecido. A decupagem do vídeo mostra que o encontro foi registrado por alguém que participava da reunião ou estava na sala enquanto ela ocorria. A gravação teria sido feita com uma caneta dotada de uma microcâmera. De acordo com a publicação, quem assiste ao vídeo do começo ao fim percebe claramente o que está sendo tramado naquela sala. A fraude consistia em obter dos parlamentares da  CPI as perguntas que eles fariam aos investigados e, de posse delas, treiná-los para responder os questionamentos.

TUDO MONTADO…

O depoimento de Nestor Cerveró, o ex-diretor da Petrobrás, se contradiz com o que foi revelado pelo vídeo, segundo a reportagem. Depois que o ex-presidente Lula mandou  o ex-presidente da Petrobrás José Sérgio Gabrielli parar de confrontar a presidente Dilma Rousseff, Cerveró se tornou o principal motivo de apreensão do governo porque ameaçara desmentir a presidente diante dos parlamentares. Essa ameaça jamais se consumou. No vídeo, uma das falas de Barrocas desfaz o mistério: ele insista em saber se estava tudo certo para que chegassem às mãos de Cerveró as perguntas que lhe seriam feitas na Comissão.

Outros personagens citados como peças-chave da transação são Paulo Argenta, assessor especial da Secretaria de Relações Institucionais da Presidência da República, Marco Rogério de Souza, assessor da liderança do governo no Senado, e Carlos Hetzel, assessor da liderança do PT. Segundo a denúncia, a eles coube fazer muitas das perguntas que alimentariam a cadeia de ilegalidades entre investigados e investigadores. Barrocas diz, também, que o senador Delcídio Amaral era peça-chave da operação para manter Cerveró sob o cabresto governista, porque o senador foi seu padrinho político.

 

 

Ministério Público quer investigar por que o BC autorizou a Caixa a comprar o banco falido de Silvio Santos

José Carlos Werneck

Máteria de Fábio Fabrini, publicada pelo “O Estado de S. Paulo”, informa que o Ministério Público, junto ao Tribunal de Contas da União, pediu a abertura de uma fiscalização sobre o Banco Central por autorizar, entre 2009 e 2010, a compra de uma fatia do Banco Panamericano pela Caixa Econômica Federal .

A CEF pagou R$ 740 milhões no negócio meses antes de o Panamericano quebrar, devido a fraudes financeiras que abriram um rombo de R$ 4,3 bilhões em seu patrimônio.

O procurador Júlio Marcelo de Oliveira sustenta em representação enviada ao ministro José Múcio Monteiro, do Tribunal de Contas da União, que, com o aval do Banco Central, a Caixa, por meio de uma de suas subsidiárias, fez com o banco de Silvio Santos uma transação “ruinosa e ilegal”.

Caberá ao Tribunal, de acordo com os elementos apresentados pelo Ministério Público e em avaliação feita por sua área técnica, decidir se abre ou não uma auditoria para apurar a regularidade dos atos praticados pelo BC.

“Trata-se da compra de uma instituição falida por um banco público, que trouxe benefícios exclusivos para o antigo grupo empresarial controlador e apenas prejuízos vultosos para a Caixa e para a sociedade brasileira, sem nenhum interesse público a ser atendido e sem a adoção dos procedimentos acautelatórios básicos que qualquer outra instituição financeira adotaria”, afirma o procurador em sua representação.

NEGOCIATA

O Grupo Silvio Santos fechou contrato em dezembro de 2009 que previa a venda de 49% do capital votante e de 21,9% das ações preferenciais do Panamericano para a Caixapar, subsidiária da Caixa. Naquele ano, a instituição pública pagou R$ 517,4 milhões a título de sinal. Em julho de 2010, transferiu os R$ 221,7 milhões restantes dias após o Banco Central dar uma autorização “preliminar” para o negócio. Mesmo com o pagamento integral, a Caixa só passou a integrar o grupo de controle do Panamericano mais de três meses depois.

O Banco Central alega que só detectou fraudes no Panamericano em outubro de 2010, ou seja, após a transação ser concluída. O MP sustenta, contudo, não ser possível atestar que isso é verdade sem uma investigação aprofundada, pois fiscalização sobre eventuais irregularidades no banco de Silvio Santos já estava em curso no BC quando o processo de compra foi avaliado e aprovado. Além disso, já havia fortes indícios no mercado de fragilidades do banco nas suas operações interbancárias.

“O procedimento de fiscalização ocorreu paralelamente. Por que os primeiros indícios de fraude não foram imediatamente comunicados ao setor responsável por avaliar a aquisição? Será que a autorização preliminar foi emitida justamente porque se descobriram graves indícios de irregularidades e era politicamente importante que o pagamento se consumasse logo para criar-se um fato consumado?”, pergunta Júlio Marcelo.

BANCO QUEBRADO

Para o procurador, a negociação era atípica e os valores envolvidos, muito altos. Por isso, o Banco Central deveria ter iniciado uma investigação já em dezembro de 2009, quando o contrato foi firmado. Na prática, a Caixa fez investimento em um banco que tinha passivo a descoberto quatro vezes superior. Em 2011, após a descoberta das fraudes, o BTG Pactual adquiriu participação com recursos do Fundo Garantidor de Crédito.

Para o MP, cabe ao TCU avaliar minuciosamente os atos do Banco Central que possibilitaram o negócio. Na representação, Júlio Marcelo de Oliveira pede,também,que sejam esclarecidos outros detalhes, como o motivo de o BC não ter nomeado dirigentes para assumir o Panamericano. Tal procedimento foi adotado em 2013 com o Banco Cruzeiro do Sul, após a constatação de que regras do sistema financeiro estavam sendo descumpridas.

Num processo de acompanhamento já julgado, o TCU isentou em junho ex-gestores da Caixa de multas por supostas irregularidades na compra de participação no Panamericano. O MP recorreu no último dia 18, pedindo a aplicação das penalidades no valor máximo, além da abertura de processo para apurar quais providências foram tomadas pelo Bacen para reaver os prejuízos com a negociação.

Em 2012, ao examinar outros detalhes da atuação do Banco Central no caso, o TCU entendeu que não houve irregularidades. O BC, através de comunicado, esclarece  que naquela oportunidade já teve sua atuação julgada pelo TCU, “que a considerou legal e regular, relativamente aos trabalhos de fiscalização e de reorganização societária no Banco Panamericano”. “Tal como em relação à primeira representação, a autarquia está à disposição do TCU para prestar todos os esclarecimentos”.

 

Era só que faltava: Doleiro preso foi sócio da Petrobras em projeto de usina elétrica

Mario Cesar Carvalho

Duas empresas controladas pelo doleiro Alberto Youssef foram sócias da Petrobras Distribuidora num consórcio escolhido para construir uma usina termelétrica em Suape (Pernambuco), segundo relatório da Polícia Federal sobre a Operação Lava Jato.

O doleiro é réu numa ação penal sob acusação de ter lavado dinheiro desviado da obra da refinaria Abreu e Lima, que está sendo construída em Pernambuco. Mas é a primeira vez que ele aparece como sócio da estatal.

Uma das suspeitas investigadas é que Youssef conseguiu entrar no consórcio graças aos contatos políticos que ele tinha na Petrobras. As empresas de Youssef que se associaram à estatal (Ellobras e Genpower Energy) não tinham atuação no mercado de energia.

A Petrobras não quis se pronunciar.

DOLEIRO MAJORITÁRIO

Com as duas empresas, Youssef detinha a maior fatia do consórcio, de 40%. Petrobras, MPE Montagens e Genpower detinham 20% cada uma, segundo a Agência Nacional de Energia Elétrica, que fez o leilão para a construção da termelétrica.

A usina começou a ser erguida em 2008 e ficou pronta em 2013, após investimentos de R$ 600 milhões.

A PF descobriu que o doleiro estava por trás do consórcio ao apurar que a CSA Project Finance, empresa de Youssef e do ex-deputado José Janene (PP-PR), que morreu em 2010, controlavam as duas associadas da Petrobras. “A CSA é mandatária das empresas Ellobras e Genpower”, afirma o relatório da investigação.

Janene foi quem introduziu Youssef no mundo político, de acordo com a polícia. Foi o ex-deputado também quem indicou Paulo Roberto Costa para a diretoria de distribuição da Petrobras em 2003. Costa está preso na PF em Curitiba e é réu em dois processos, sob acusação de ter desviado recursos da refinaria Abreu e Lima.

LAVAGEM DE DINHEIRO

A CSA é acusada de ter lavado dinheiro do mensalão para Janene. A empresa investiu R$ 1,16 milhão dos R$ 4,1 milhões que Janene e o PP receberam do empresário Marcos Valério Fernandes de Souza em uma indústria de Londrina (PR).

Youssef não atuou na construção da usina. O consórcio ganhou o leilão em 7/11/2007 e, 40 dias depois, o doleiro vendeu os 40% que detinha para o Grupo Bertin.

A Folha apurou que os 40% no consórcio renderam cerca de R$ 700 mil a Youssef. O Bertin acabou fora do projeto por falta de recursos. Para acabar a usina, a Petrobras teve de recorrer ao Fundo de Investimento do FGTS, que aplicou R$ 372,9 milhões na usina de Suape.

OUTRO LADO

A Petrobras Distribuidora não quis se manifestar sobre o fato de ter integrado um consórcio do qual faziam parte duas empresas controladas pelo doleiro Alberto Youssef.

A MPE disse que nunca teve negócios com Alberto Youssef nem atuou na construção da usina termelétrica Suape 2. Dos vencedores do leilão, só a Petrobras seguiu no projeto até o fim. Os outros ganhadores venderam suas participações à estatal.

O Grupo Bertin disse que nunca soube que as empresas Ellobras e Genpower eram controladas por Youssef. Essas empresas detinham competências que o grupo não dispunha, segundo o Bertin.

 

Por que as nações fracassam

Márcio Garcia Vilela

A revista “Veja” de 16 último trouxe interessante entrevista com o economista James Robinson, autor, com Daron Acemoglu, de um best-seller mundial, a que deram o nome de “Why Nations Fail”, com o subtítulo “The Origins of Power, Prosperity, and Poverty”, parece-me que ainda sem tradução para o português. Recebi a edição em inglês da Eisenhower Exchange Fellowships, da qual fui bolsista, para um “post doctoral fellowship” nos Estados Unidos.

Obra polêmica e bem-elaborada, tem a seu favor apresentar conclusões empíricas por meio de observações de campo, como na África, contestadas pelo economista Jeffrey Sachs, que rejeita a afirmação de que o continente estudado tem como responsável pelo subdesenvolvimento a malária. Vale a pena ao menos ler-lhe e meditar-lhe o estimulante prefácio, se o leitor não sentir-se animado a garimpar-lhe o todo, acompanhando-o, por exemplo, na praça Tahir, no Cairo, onde descobre que os autores dos protestos públicos lá ocorridos, “praticamente em uníssono, queriam derrubar a corrupção do governo, a sua incapacidade de prover serviços públicos decentes e a falta de igualdade de oportunidade no país ou, em particular, atacavam a falta de liberdade, a repressão e o desrespeito dos direitos políticos”.

OTIMISMO

Otimista com o Brasil na sua entrevista à “Veja”, com o que humildemente discordo, Robinson lastreia seus argumentos:

1. A classe política brasileira, tão malquerida, não compromete a evolução positiva das instituições devido à correta (?) percepção que tem dessas vis-à-vis as pessoas que as representam. Contudo, a distinção só ocorre em proporção aos níveis de cultura, educação, compreensão política e grau de civilização, aqui muito baixos. Leva, pois, muito tempo, à luz do período (desde sempre, quiçá) que se negou aos brasileiros ingresso nesse aprendizado.

James Robinson reconhece que o Partido Trabalhista inglês levou 25 anos para romper o pacto da agremiação com a esquerda sindical e entrar na era da conciliação dos ganhos sociais com o livre mercado.Infelizmente, estamos ainda no ensaio para levar a ópera ao palco.

2.Os problemas do Brasil são superficiais e inseridos num processo mais profundo de transformação”, pondera. Mas há muito a escavar (quantos anos temos de PT no poder junto com a coalizão das trevas? Durará ainda mais?).

3.Instituições econômicas extrativas que concentram poder e renda nas mãos de um grupo pequeno de pessoas e agem em oposição às instituições inclusivas; estas permitem a disseminação da riqueza; porém, sem instituições políticas igualmente inclusivas, as econômicas não medram. O Bolsa Família funciona para sair dela”.

O que tem sido feito para a plena retirada? Como o país atual se compatibiliza com condições inclusivas e dinâmicas se é preciso subsidiar o patronato, via fiscal e créditos do BNDES? Como atua o PT? Como nos inserirmos em sistemas partidário e eleitoral corretos, se os trabalhistas ingleses precisaram de uma geração para reformar-se? Desanimar ou confiar? (transcrito de O Tempo)

 

Por que motivo os jovens renunciam ao direito de votar?

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Acílio Lara Resende

É natural que as derrotas escorchantes de que fomos vítimas no futebol nos impeçam (mas só por algum tempo, assim espero) de enxergarmos outras bem piores do que as recém-vividas na Copa do Mundo. Em junho do ano passado, por exemplo, os protestos pacíficos ocorridos em todo o país pegaram de surpresa o governo da presidente Dilma Rousseff e reacenderam, em milhões de brasileiros (jovens, sobretudo), a esperança num futuro melhor. Todavia, pesquisas indicam que são poucos os adolescentes (entre 16 e 17 anos) que procuraram a Justiça Eleitoral com o objetivo de votar nas eleições deste ano.

Dentre as respostas dadas por alguns adolescentes, separei duas, que merecem nossa reflexão: “Não tenho a quem confiar o meu voto. Por isso, optei por não tirar o título”. Ou: “Não quero votar agora porque não acredito em candidatos que não venham do povo”.

A queda do interesse dos jovens pelo título de eleitor se iniciou a partir de 2006. Nessa época, os eleitores menores de 18 anos (ou facultativos) representavam 39% do seu total. Em 2010, o índice baixou para 32% e, em 2014, para 25%. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral, que se funda em dados fornecidos pelo IBGE, hoje, o total de eleitores representa apenas um quarto da população nessa faixa etária. Pela primeira vez na sua história, o Brasil terá mais eleitores idosos (os que têm mais de 60 anos) do que com idades entre 16 e 24 anos.

DESINTERESSE

Afinal, por que motivo os jovens renunciam ao direito e, com certeza, ao dever (de cidadania) de votar? Os motivos constantes das respostas dadas pela maioria não serão os mesmos que estão na cabeça do eleitor brasileiro de modo geral, seja ele maduro ou velho? Ou há dúvida de que, nesse particular, estamos todos de pleno acordo?

Embora o desinteresse dos jovens pelo voto tenha se iniciado logo após a denúncia do mensalão (2006), o que, na verdade, desapareceu não foi a confiança na política, indispensável à sociedade humana, mas naqueles que a vêm exercendo de maneira incorreta.

Com exceções, há uma desconfiança generalizada de que não temos a quem confiar o nosso voto. Não acreditamos, enfim, na maioria dos candidatos às eleições no dia 5 de outubro de 2014.

ATORES IMPRESTÁVEIS

Vale dizer: os políticos (não todos, repito) têm sido atores imprestáveis de uma cena que se esgota a cada dia que passa, e com grande risco para o aperfeiçoamento do regime democrático. Ao alcançarem o limite máximo da desfaçatez, a paciência do povo se esgotou e deu no que deu.

Só que, sem a política e, por consequência, sem os seus atores, não haverá salvação para ninguém. Sem o voto, jamais se mudará o rumo que o atual governo deseja para o país. Ao que parece.

É isso – a indispensabilidade da política e dos políticos – que se deve incutir na mente dos jovens, que sofrem hoje, de fontes diversas, uma influência negativa e deletéria – a de que a democracia já não responde aos seus reclamos. E é preciso lhes dizer que a resposta à desconfiança nos políticos não pode ser a abstenção, o voto nulo ou em branco. Ao contrário, qualquer dessas opções poderá levar o país a descrer da liberdade – nosso único e confiável meio de salvação possível.

Haverá sempre alguém a quem confiar o nosso voto. A política, leitor, na prática, não diverge muito do que ocorre em qualquer setor da atividade humana, aqui ou neste contraditório mundo de Deus. Não nos iludamos! (transcrito de O Tempo)

 

Se Aécio for esperar a homologação do aeroporto pela Anac, vai ficar mais velho do que Tancredo Neves

Suzana Inhesta e Marcelo Portela
O Estado de S. Paulo

O candidato à Presidência da República pelo PSDB, Aécio Neves, voltou a defender o investimento de R$ 13,9 milhões feito pelo governo de Minas na construção do aeroporto de Cláudio (MG). A obra foi feita em área desapropriada que pertencia a um tio-avô do tucano, a 6 km de uma fazenda de sua família. Na quarta-feira, 30, Aécio admitiu pela primeira vez que pousou no local, disse que foi um erro não checar se as autoridades do setor aéreo consideravam a pista regular ou não. O candidato culpou a demora da Agência Nacional de Avião Civil (Anac) em homologar a pista pelo imbróglio.

“Não me refuto a responder sobre o assunto. A obra foi planejada, como milhares de outras obras feitas em Minas Gerais. O que há, na verdade, é uma grande demora da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), para fazer essas homologações e fui, de forma inadvertida, não me preocupei efetivamente de saber ou não se havia ou não homologação da pista. Isso é um erro, eu assumo esse erro”, disse.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOGHá um número enorme de pistas de pouso no Brasil que não estão homologadas pela Anac, que nos faz ter saudades do aintigo DAC (Departamento de Aviação Civil). A Anac nada mais é do que uma agência reguladora como todas as outras, que não regulam nada e só servem de cabides de emprego. Para se ter uma ideia da bagunça que invadiu o setor, o ex-governador Sergio Cabral, durante seus dois mandatos, usou diariamente para pouso e decolagem um falso heliporto no Palácio Laranjeiras. Os moradores do Parque Guinle reclamaram à Anac (publicamos aqui na Tribuna com exclusividade), a agência afirmou que não podia haver heliporto no local, mas Cabral disse literalmente que ninguém tinha nada a ver com isso. Não só seguiu usando o heliporto, como mandou até fazer uma obra de ampliação, e estamos conversados. Homologação? Era só o que faltava… (C.N.)

De vez em quando assisto a excelentes jogos

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Tostão
O Tempo

Há coisas boas no futebol brasileiro. De vez em quando, vejo excelentes partidas, belos lances e times com um jogo coletivo, moderno e eficiente. De vez em quando, vejo partidas com poucas faltas, poucas simulações, poucos chutões, poucas trombadas, poucas discussões e poucas ofensas. De vez em quando, vejo estádios cheios e boas arbitragens. De vez em quando, vejo dirigentes com boas ideias.

De vez em quando, vejo, escuto e leio ótimas análises sobre o jogo coletivo, e não apenas sobre lances isolados e/ou erros dos árbitros. De vez em quando, vejo que algumas pessoas explicam e compreendem o futebol. “Os que têm estudo explicam a claridade e a treva, dão aulas sobre os astros e o firmamento, mas nada compreendem do universo e da existência, pois bem distinto de explicar é compreender e quase sempre os dois caminham separados” (“O Albatroz Azul”, de João Ubaldo Ribeiro).

O problema do futebol brasileiro é que as coisas boas acontecem de vez em quando. É preciso haver um grande esforço de todos para que as coisas boas ocorram com mais frequência. Para isso, é necessário ter mudanças, dentro e fora de campo, que deveriam começar pela CBF. Não se pode também esconder a realidade. Jogos péssimos, como o entre Flamengo e Botafogo, precisam ser ditos que são péssimos, mesmo quando são emocionantes.

No fim de semana, vi coisas boas, como a estreia de Kaká, as ótimas atuações do Cruzeiro, de Ricardo Goulart, de Everton Ribeiro, de Elias e, mais uma vez, a excelente estrutura tática do Goiás, dirigido por Ricardo Drubscky, preparada para um time muito modesto de valores individuais, que me lembra a Costa Rica na Copa.

Kaká, mais pela esquerda, e Ganso, mais pelo centro, podem formar uma boa dupla. São jogadores que sempre atuaram na mesma posição, mas completamente diferentes. Kaká é muito mais um atacante, e Ganso, um armador. O meio-campo, para Kaká, é apenas passagem, para ele receber a bola e ir em direção ao gol. Para Ganso, é a moradia. Alguns assistiram à Copa e não compreenderam nada. Querem que Ganso jogue como Kaká.

Ricardo Goulart tem as características muito parecidas com as de Kaká, e Everton Ribeiro, com as de Ganso. Evidentemente, Ricardo Goulart não tem o talento que Kaká teve na maior parte da carreira. Everton Ribeiro se movimenta muito mais que Ganso e é, hoje, mais eficiente.

De vez em quando, ou melhor, várias vezes, vi momentos espetaculares de Ronaldinho no Atlético. Um torcedor me disse que foi a todas as partidas do Galo, que se sentava nas primeiras filas, só para ver Ronaldinho, para ele, o melhor jogador que viu tão de perto. Ele falou ainda que nunca viu alguém dominar tão bem uma bola, mesmo vinda de um chutão, para, em seguida, olhando para um lado, dar um passe tão preciso para outro. Ele completou: “Nem acredito no que vi”.

 

 

PT conseguiu transformar em pano de chão suas bandeiras de luta

Antonio Fallavena

Sob alguns aspectos, me sinto recompensado. Presidente do partido, tesoureiro, ministro, deputados. Puxa, quanto “cabra grandão” na cadeia, num só momento. E a grande maioria do PT, o partido puro, sério, que mudaria tudo para melhorar. Prometiam dar exemplo de conduta, de moral e ética.

Em pouco anos, transformaram as bandeiras de lutas em mentiras e a bandeira-símbolo em pano de chão! A estrela, sem ser cadente, caiu em desgraça. E a esperança, bem, a esperança virou canção.

Dos fundadores e militância, perderam cabeças boas, pensantes: muitos que ajudaram a criá-lo pularam do barco. Olham, com vergonha, no que se transformou o “sonho sonhado por muitos”.

E o mensalão chegou, se instalou e explodiu com tudo. Denúncias, processo, julgamento, condenação e prisão. Democratas e republicanos agora estão atrás das grades. E o que isto significou? Muito, muito mesmo.

UM DIA NA CADEIA

Um dia, apenas um dia na cadeia e já seria suficiente para “marcar no osso”, na “paleta”, alguns daqueles que, durante anos, vomitaram e arrotaram ideias, soluções, juízo de valores e moral para todos os outros. Eram eles e somente eles, os donos da verdade, do mundo, de tudo!

Agora, Genoino vai para casa. Sem problemas. Mas onde está hoje Genoino? Em hotel, com amigos, amigas? Onde? Na Papuda! Estes senhores que tinham muito papo, só poderiam parar lá.

Um dia na cadeia e agora cumprindo pena em casa. os crimes cometidos foram de pequena monta, principalmente para aqueles que ainda acreditam na inocência dele e dos demais. Lulla é o maior deles: continua declarando que o “mensalão não existiu”. Por mais engraçado que possa parecer, Genoino e os demais continuam presos, presos à história.

E depois de soltos, sempre serão ex-presos. É uma marca que jamais será retirada, nem como plástica, nem com banda de música. Só por isto, vale a pena viver neste período. Aliás, em relação as condenações deles, tudo valeu a pena.

Campanha de Dilma pede inquérito criminal contra Aécio Neves por usar aeroporto

José Carlos Werneck

Em reportagem de Ricardo Galhardo e Ricardo Della Colletta, publicada pelo jornal,”O Estado de S. Paulo”, o comando da campanha da presidente Dilma Rousseff entrou sexta-feira com uma representação junto à Procuradoria Geral da República, na qual pede abertura de inquérito criminal para investigar o candidato do PSDB, Aécio Neves, por supostos “atentados à segurança aérea” pelo uso dos aeroportos de Cláudio e Montezuma, cidades do interior de Minas Gerais.

No pedido os advogados do PT querem que sejam tomados depoimentos de Aécio, seu  tio-avô, Múcio Tolentino, proprietário da fazenda onde foi construído o aeroporto de Cláudio, e o primo do senador, Fernando Tolentino, que teria os  testemunhado os pousos do  avião do candidato do PSDB,nos referidos aeroportos .

Segundo eles, ao admitir, em artigo publicado quinta-feira, no jornal Folha de S. Paulo,o  uso dos aeroportos, ambos sem homologação da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), Aécio teria cometido o crime de atentado à segurança aérea, previsto no artigo 261 do Código Penal, e cuja pena vai de seis meses a dois anos de detenção.

Para advogados do PT,o senador Aécio Neves colocou em risco tanto o espaço aéreo  quanto a vida dos tripulantes ao  utilizar os aeroportos. Além da abertura do inquérito e dos depoimentos de Aécio e seus parentes, e pleiteiam a identificação de todos pousos e decolagens em Cláudio e Montezuma e informações sobre o processo de homologação das pistas pela Anac.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOGNa política brasileira vale tudo, menos perder eleição. Mas o comando da campanha do PT parece que está perdendo o rumo no caso do aeroporto. Um país das dimensões do Brasil tem grande número de pistas de pouso não homologadas em cidades do interior e em propriedades particulares, como a Fazenda Brasil, de um dos filhos de Lula, no interior de Mato Grosso, conforme relato do comentarista Wagner Pires. Aliás, se esta fazenda realmente existe, porque os tucanos não pousam por lá? (C.N.)

Desculpe o mau jeito, pede Flora Figueiredo num poema sintético

A tradutora, cronista e poeta paulista Flora Figueiredo, no poema “Atitude”, aborda os desentendimentos e os males que ocorrem em praticamente todas as relações amorosas, e pede desculpas pelo mau jeito.

ATITUDE

Flora Figueiredo

Esse seu silêncio
soa como um grito,
abafado em panos.
Só faz denunciar os danos que causei.
Desculpe o mau jeito,
mas comporto, em minha quota de defeitos,
não levar junto os enganos que eu amei.

  (Colaboração enviada por Paulo Peres – Site Poemas & Canções)

 

O supermilionário mexicano Carlos Slim sugere que as pessoas trabalhem só três dias por semana

Deu no Bloomberg View

Carlos Slim é um sujeito bem sucedido: dono da maior ou segunda maior fortuna do mundo, dependendo do critério adotado e do quanto ele tenha gasto no almoço. Assim sendo, vale a pena prestar atenção quando ele tem algo a dizer sobre trabalho e produtividade.

Numa conferência realizada recentemente no Paraguai, Slim, que controla a América Móvil, maior operadora de celular das Américas, defendeu uma reforma radical no regime de trabalho das 9 às 17 horas: melhor seria se as pessoas trabalhassem três dias por semana, com mais horas por dia (11), e a aposentadoria só viria mais tarde (perto dos 70). Os dias de folga adicionais proporcionariam às pessoas mais tempo para relaxar e inventar coisas, disse Slim.

No outro lado do mundo, o governo municipal de Seul, na Coreia do Sul, estava cantando o mesmo refrão – na verdade, o refrão de uma canção de ninar: logo os funcionários terão permissão para tirar sonecas à tarde, embora o experimento das sonecas seja limitado aos meses de verão. Talvez os funcionários do governo municipal tenham percebido algo que a ciência do sono já diz há algum tempo: as sonecas ajudam a melhorar o desempenho cognitivo, especialmente se a soneca ficar na casa dos 10 a 25 minutos.

MAIS SONECAS

O ethos do ‘mais sonecas, menos trabalho’ não é novidade. Mas seus principais defensores costumavam estar na parte mais sensível do espectro do trabalho, lugares como a Suécia ou empresas como o Google. Agora a ideia recebe o apoio de um bilionário de peso e dos administradores da maior cidade de um país conhecido pelas jornadas de trabalho exaustivas, noites de trabalho movidas a soju (bebida destilada) e insônia crônica.

Ainda assim, não será fácil para que tais ideias peguem, obviamente. A semana de trabalho, submetida a uma pressão possibilitada pela tecnologia pessoal e incentivada pela ansiedade com o emprego, vai no sentido contrário: ampliá-la, e não reduzi-la.

O aspecto genial das ideias de Slim e dos governantes de Seul está em aceitar a maleabilidade da semana de trabalho do século 21, mas indagar por que a mudança só se dá numa direção. O fato de o ambiente de trabalho estar sempre ligado e à disposição não significa que a semana de trabalho deva ser ininterrupta. Afinal, a semana de trabalho de cinco dias foi criada numa época em que tínhamos artigos secos, motores a vapor e lampiões. O ambiente de trabalho se tornou mais eficiente desde então. A semana de trabalho deve seguir o mesmo rumo, não?

Alguns burocratas sonolentos de Seul e um importante bilionário da Cidade do México dizem que a resposta é sim. (Assim como o conselho editorial de uma organização conhecida por sua ética de trabalho de primeira a chegar, última a sair, e também pelo ambiente de escritório aberto, que facilita o convívio, mas dificulta as sonecas.) A questão é como colocar a ideia em prática. É bem possível que as pessoas tenham necessidades específicas em relação às sonecas, ou talvez precisemos de um ano inteiro de dias de trabalho de 18 horas para descobrir a resposta ou, ao menos, fazer as pessoas despertaram para este problema. (Tradução de Augusto Calil)

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOGComo todo supermilionário, Slim se julga especial e gosta de tirar uma onda. Sua declaração é patética e deveria ser ridicularizada. Sua sugestão não está baseada em nenhum estudo, apenas na necessidade de chocar a plateia. Por que ele então não adota essa novidade em suas próprias empresas, que impõem exaustivos regimes de trabalho a seus empregados? Slim é um farsante, explorador do trabalho alheio. Deveria ficar em casa, contando dinheiro. (C.N.)

Declarações do desembargador que soltou ativistas serão analisadas pelo Conselho Nacional de Justiça

Adriana Cruz e Flavio Araújo
Jornal O Dia

As declarações do desembargador Siro Darlan sobre a ação do Ministério Público na questão dos ativistas presos vão parar no Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Em entrevista ao site BBC Brasil, o magistrado tratou o órgão como um serviço de “inutilidade”. Ontem, por unanimidade e a pedido do conselheiro Walter de Agra Júnior, o Conselho Nacional do Ministério Público decidiu enviar o caso ao CNJ.

O presidente do Conselho, o procurador-geral da República Rodrigo Janot, repudiou a entrevista, classificando-o como uma “agressão gratuita”. “O Ministério Público é uma instituição séria, que tem se dedicado a uma atuação eficaz, objetiva e de resultados reconhecidos”. As declarações de Darlan também incomodaram membros da Associação do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, que emitiu na última terça-feira nota oficial expressando repúdio pelo que taxaram de “pesadas críticas” direcionadas ao Ministério Público.

No documento, a entidade descreve parte da entrevista concedida por Darlan à BBC Brasil, destacando que Darlan chega a afirmar que o Ministério Público “é muito eficiente quando lhe interessa”, “…porque somente é eficiente na prisão de pessoas negras e pobres”, “além de imputar ao MP omissão e responsabilidade pela superpopulação carcerária e pela política de combate ao tráfico de drogas”.

A associação argumenta que além de “promover a defesa da sociedade no combate à criminalidade, luta contra a superpopulação carcerária”, seja nas constantes inspeções e controles que realiza, seja através das inúmeras ações civis públicas. Em nota oficial, o Ministério Público disse que “rotular o Ministério Público de ‘inutilidade’ é ignorar seu importante papel na tutela dos interesses coletivos”. Procurado ontem, Darlan não atendeu às ligações.

Cerca de 500 manifestantes fizeram uma passeata ontem à noite no Centro, contra a prisão de ativistas. Não houve confrontos com a polícia. Em cartazes, eles ironizavam o deputado federal Rodrigo Bethlem, acusado de corrupção, e perguntavam pelas vigas da Perimetral, que desapareceram.

SEM FUNDAMENTO?

Fundamentado em uma reportagem jornalística, recurso apresentado terça-feira pelo Ministério Público do Rio para manter prisão cautelar de 24 ativistas acusados de participação em protestos violentos é considerado ‘frágil’ por jurista ouvido pelo jornal Dia.

O documento inclui trechos de matéria publicada pelo ‘Globo’ na última quinta-feira em que são descritas supostas estratégias de ação da Frente Independente Popular (FIP) que teriam sido discutidas em reunião na Uerj, na véspera da publicação. O procurador Riscalla J. Abdenur destacou que elas trariam “indiscutível risco à ordem pública e à segurança de autoridades”.

Para o jurista Luiz Flávio Gomes, porém, a justificativa usada pelo MP para manter a prisão é frágil justamente por se basear em reportagem, que, diz, pode não ser “verdadeira”. Além disso, segundo ele, “ninguém pode ser preso por ter intenção de cometer crimes. E as pessoas acusadas não estão vinculadas a essas intenções por estarem detidas na ocasião”.

Academia dos poetas mortos

Sylo Costa

Nesta última quinzena de julho, o Brasil e a Academia Brasileira de Letras perderam três de seus maiores vultos. Uma pena… Eu nunca tinha prestado atenção na fragilidade humana dos imortais da ABL, igual à nossa, pessoas comuns. Talvez eu estivesse querendo me convencer dessa imortalidade e só agora tenha ficado ciente de que a imortalidade é da obra literária de cada um deles, e não da pessoa. Como diz uma amiga, “no fundo, no fundo, a gente sabe disso, só que não presta atenção”. E é mesmo. Pensando bem, onde será esse fundo, que nossa teimosia torna tão profundo? Pensar pensando é bom e fácil, e eu gosto…

JOÃO UBALDO

João Ubaldo, sem aviso prévio, morreu de doença que grassa no Nordeste, uma tal de “de repente”, que ataca por motivo secreto e de surpresa. “De repente” é um mal perverso e, ao mesmo tempo, confortador, pois a passagem se dá sem sofrimento. A morte morrida em tempo prolongado é sofrença, é ruim, porque dói mais nas pessoas do seu bem-querer… Vou morrer um dia qualquer, sem saber que a morte chegou. Eu lia João sempre aos domingos. Certamente, vou ficar pensando nele, por enquanto, sem precisar dormir na praça. Quando se dorme na praça, quase sempre é pensando nela…

RUBEM ALVES

O mineiro Rubem Alves, que era uma pessoa tão discreta quanto amável, tinha aquela fisionomia que podia fazer qualquer um pensar: “Parece que conheço aquele senhor…”. Na expressão dos mais novos, da geração celular: “Conheço aquele cara…”. Rubem será lembrado não só por sua obra como educador, filósofo, psicanalista e teólogo, mas, principalmente, por sua enorme generosidade, virtude própria dos que sabem tudo da vida.

ARIANO SUASSUNA

Finalmente, mas não por último, já que ficaram vivos muitos imortais que ainda não sabem que já morreram, assinalo a partida do querido Ariano Suassuna, paraibano de nascimento e pernambucano de vivência e preferência. O povo nordestino vai sentir muita falta de suas aulas-espetáculo, forma que ele usava para divulgar cultura.

De suas obras, guardarei sempre a lembrança de Chicó, um dos personagens do “Auto da Compadecida”, história que me tocou fundo, obra-prima da cultura das terras áridas do Nordeste. Não sei por que, mas sempre achei o Nordeste do Brasil a síntese do nosso povo e do país.

Talvez porque meu querido pai fosse um cearense da gota serena… Há mais de 20 anos, sei que saudade não mata a gente. E desse naipe foram também, para a Academia do Céu, Castro Alves e o Quintana, que, em vida, assumiu ser passarinho. Fica Manoel de Barros, o pantaneiro, que pensa e escreve pelo reverso do avesso e poeta com musgo incolor do nada…

BRIGA

E, para terminar, falando de flores, é incrível que o Brasil se meta em briga de judeus e palestinos, assunto que nem Cristo resolveu. Era só o que faltava. Com razão, a resposta de Israel foi à altura da intromissão indébita: “O Brasil é um país anão”. Israel está quase certo, pois não é o país que é anão, mas a porcaria do governo petista. Falei… (transcrito de O Tempo)

 

A expectativa antidilmista

João Gualberto Jr.

As rodadas mais recentes dos dois principais institutos de pesquisa trouxeram uma possibilidade interessante de leitura. A consulta para a eleição presidencial mostrou que a distância entre a presidente Dilma e Aécio, o segundo colocado, continua significativa, na casa dos 20 pontos. Em terceiro vem Eduardo Campos, com aproximadamente 10% das intenções.

A curiosidade está nas simulações de segundo turno. Apesar da margem de folga da candidata à reeleição nas consultas relativas ao primeiro turno, nos confrontos diretos, Aécio ou mesmo Campos sobem muito mais do que a adversária: ela não chega a 50% enquanto qualquer um dos dois se aproxima dos 40%.

Os números do Ibope e do Datafolha demonstrariam, assim, um forte fator anti-Dilma. As intenções de voto dadas aos demais concorrentes, diluídas no primeiro turno, parecem tender a concentrar-se no rival da petista nas hipóteses de segundo turno. É mais ou menos assim: “Voto em quem disputar com Dilma”.

Essa leitura das pesquisas retrata um clima cada vez mais presente de que o governo vai mal. Estão vencendo os discursos de que a inflação está fora de controle (embora isso não seja verdade), que o país não cresce quanto deveria (o que é verdade) e que os serviços de saúde e educação são uma lástima (ainda que quem critica contrate ambos da rede privada). E essa faixa de sintonia de humor, que anda contagiosa, já favorece os adversários de Dilma.

Mesmo assim, ela ainda é favorita. Tenhamos uma certeza, contudo: se uma nova vitória da presidente se confirmar, seu segundo mandato será entre espinhos e pedregulhos. O símbolo máximo dessa profecia é a carta do Santander endereçada a seus clientes mais abonados: o cenário de sucesso eleitoral da petista faz mal à economia.

PODER ECONÔMICO

É notável o poder econômico das expectativas autorrealizáveis, e a história é farta de exemplos. Assim como o banco espanhol, entendem os entendidos que a equipe econômica de Dilma é incapaz de aproveitar as oportunidades de crescimento, que o governo dela gasta muito e mal e não controla (pior, alimenta) a inflação. Com isso, um novo mandato manteria o país numa iminência de estagnação com inflação (a famosa estagflação). Antevendo as agruras de um novo mandato, o agente econômico não investe, não contrata, não se endivida: a economia não cresce com boa parcela de culpa da autorrealização de expectativas.

Segundos mandatos já tendem a ser piores do que os primeiros porque a saída do poder dentro de quatro anos tem um viés de desestímulo e porque o poder de novidade que propicia mudanças num primeiro governo não se repete. Imaginemos qual seria, então, a relação de Dilma com o Congresso num segundo governo. Todos os partidos aliados, inclusive o PMDB, venderam caro a fiança para uma nova adesão agora e saíram rachados.

“Todo esse pacote de desesperança já não seria motivo para votar em outro?”, provocam os antidilmistas. Se quiser dobrar o mau humor endêmico e a força das expectativas autorrealizáveis, o trabalho dela e do PT deve começar já e tem o desafio de ir além da propaganda eleitoral. (transcrito de O Tempo)

 

Desproporcional é o PT ameaçar retaliação usando a caneta

Julia Duailibi
Estadão

A presidente Dilma Rousseff e o PT erram quando ameaçam retaliar o Santander sugerindo o uso de mecanismos de Estado para isso. Na semana passada, o banco soltou um informe aos seus clientes com renda acima de R$ 10 mil dizendo haver risco de deterioração do cenário econômico em caso de vitória da presidente Dilma Rousseff.

Até então, a reação histérica sobre o tema parecia estar no ringue das opiniões. O ex-presidente Lula, o presidente do PT, Rui Falcão, e a oposição, cada um falou o que achava do caso. E é assim que as coisas funcionam na normalidade democrática. O banco emitiu sua opinião – você pode ou não concordar com ela. O PT reagiu a essa opinião e emitiu a sua – e você pode ou não concordar com ela.

O problema não é o bate-boca, mas o uso da máquina pública para retaliar ou ameaçar adversários ou instituições. As ameaças veladas ao Santander feitas por Dilma e por outros petistas levam a crer que algo pode estar acontecendo nos bastidores, longe dos microfones e da verborragia eleitoreira.  “Eu vou ter uma atitude bastante clara em relação ao banco”, afirmou ontem a presidente, de maneira misteriosa.

EXAGERO

O prefeito de Osasco, Jorge Lapas (PT), segundo a Folha de S. Paulo, chegou a declarar que vai romper convênio com o banco para recolhimento de taxas e tributos municipais. Se havia um convênio com o Santander, deveria existir interesse da população nele. Agora que o banco virou inimigo do PT, a prestação de serviço do Santander para a população de Osasco não serve mais?

O Santander pode até ter errado na maneira como expôs o que vários analistas já falam em alto e bom som. A opinião institucional de um banco tem um peso diferente do que a declaração avulsa de um analista. Tanto que os demais bancos têm opiniões similares, mas a expressam de modo mais cauteloso porque sabem que cenário eleitoral e expectativa econômica são duas variáveis que demandam responsabilidade e ponderação.

Mas o governo ameaçar usar a máquina porque não gostou da opinião não só é ilegal como é perigoso. Ao contrário do que disse o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores de Israel, desproporcional não é perder de 7 a 1. É usar a mão pesada do Estado por não aceitar o contraditório.