Mercancia eleitoral

Paulo Brossard
Zero Hora

Semana finda, foi divulgado com precisão e clareza que a senhora presidente Dilma Rousseff nomeou Luiz Rondon para vice-presidente da Caixa Econômica Federal para obter o apoio do PTB à sua reeleição.

Do personagem nomeado pouco se dizia, referindo-se apenas alguma relação com o mensalão. Até aqui, a notícia nua e crua. Em tais termos e circunstâncias, a meu juízo, o ato de mercancia eleitoral seria expresso e confesso.

Dada minha passagem pela Justiça Eleitoral e em várias posições, ocorre-me lembrar que, diante de semelhantes situações, embora infinitamente menores e apenas por indícios, não faltou a palmatória da lei e da justiça; a título ilustrativo, e sem sair do Rio Grande, lembro que na oportunidade em que alguém ligado a negócios, sem uma palavra acerca de votação ou de eleição, na suposição de que seria candidato, o Tribunal Regional Eleitoral fulminou a elegibilidade do presumido candidato por estar a fazer propaganda eleitoral intempestiva. Valeu como exemplo. Ao que sei, não foi repetido.

Agora não se trata disso, mas da senhora presidente da República, candidata à reeleição, que anunciou haver nomeado o futuro vice-presidente da Caixa Econômica Federal, para o fito de, com apoio respectivo do Partido, aditar alguns minutos ao tempo a que teria de acesso ao rádio e à televisão.

O negócio ou a transação é confessada explicitamente; salvo erro meu, inequívoca sua ilicitude. Ela tem, o que se poderia dizer, o esplendor de evidência.

A única pergunta a fazer seria no sentido de indagar se a lei permite à presidente da República eximir-se das normas legais para haver vantagem pessoal, palpável e inegável em relação a seus concidadãos.

Ora, até onde sei, não há precedente que autorizasse a mágica agora iniciada pela preclara governante, a menos que, à sorrelfa, os nossos costumes houvessem se decomposto arrostando normas centenárias que modelaram a nacionalidade.

(artigo enviado por Celso Serra)

 

Ucrânia: O jogo de espera

Pepe Escobar
Asia Times Online

Tudo o que há para ver em matéria de mediocridade, nas elites políticas medíocres que supostamente representariam os ‘valores’ da civilização ocidental, apareceu bem claro, à vista de todos, na reação daquelas elites aos referendos em Donetsk e Lugansk.

Os referendos podem ter sido coisa de última hora; podem ter sido organizados na correria; aconteceram no meio de uma guerra civil de fato; e, além do mais, foram realizados sob fogo – fogo, aliás, fartamente fornecido pela junta neofascista neoliberal da OTAN, a qual conseguiu inclusive assassinar alguns votantes em Mariupol. Processo imperfeito? Sim. Mas absolutamente perfeito em termos do que mostrou de um movimento de massas a favor do autogoverno e da independência política em relação a Kiev.

Foi democracia direta em ação; não surpreende que o Departamento de Estado dos EUA tenha odiado tudo; e que tenha decidido vingar-se.

RESULTADO INDISCUTÍVEL

O comparecimento foi gigante. A vitória do voto pela independência, indiscutível. Transparência, também, total: votação à vista de todos, em urnas de vidro, com monitores para acompanhar cada passo do processo, jornalistas ocidentais dos principais veículos alemães, mas também da Kyodo NewsAgency ou do Washington Post.

O que teria de vir depois que a República Popular de Donetsk se autoproclamou estado soberano e pediu que Moscou considere a integração do país à Federação Russa, não é a secessão, nem guerra civil generalizada, mas uma negociação.

Ficou perfeitamente claro, a partir da reação ponderada, equilibrada, do Kremlin: “Moscou respeita o desejo do povo de Donetsk e Lugansk e espera que a realização prática da decisão alcançada nos referendos seja feita de maneira civilizada.”

O tom de cautela refletiu-se também no pedido, que o Kremlin encaminhou, para que a Organização de Segurança e Cooperação da Europa (OSCE), ajude a construir a negociação.

SEM NEGOCIAÇÃO

Pois mais uma vez, há prova concreta de que a junta neoliberal neofascista da OTAN não quer negociar coisa alguma. Palhaço, rei da farsa, o presidente ‘interino’ Oleksandr Turchynov declarou que o referendo teria sido “aquela farsa que os terroristas chamam de referendo”. E Washington e Bruxelas decidiram que os referendos teriam sido “ilegais”.

E tudo isso depois do massacre de Odessa; depois do surgimento de paramilitares neonazistas travestidos como soldados de uma “Guarda Nacional” (que os sabujos da imprensa-empresa norte-americana chamam de “nacionalistas ucranianos”); dúzias de agentes da CIA e do FBI agindo em território estrangeiro; mais de 300 dos inevitáveis mercenários da empresa Academi – ex-Blackwater. E o que mais esperar, se o atual secretário de Segurança Nacional ucraniano é o neonazista Andriy Parubiy, ex-comandante das ‘forças de defesa’ de Maidan, e chefe de torcida de Stepan Bandera, colaborador dos nazistas na 2ª Guerra Mundial?!

O Banderastão – com seu remix dos esquadrões da morte à moda América Central dos anos 1980s – não reconhece referendos: prefere queimar vivos os ‘insetos’ russos étnicos que se atrevam a ocupar prédios.

 

Caso Alstom: Deputado pede convocação de Robson Marinho para depor na Assembleia


Fausto Macedo
Estadão

O deputado Carlos Giannazi, líder do PSOL na Assembleia Legislativa de São Paulo, requereu a convocação do conselheiro do Tribunal de Contas do Estado (TCE) Robson Marinho para depor sobre o caso Alstom. Ex-chefe da Casa Civil do governo Mário Covas (PSDB), Marinho está sob investigação por suposto enriquecimento ilícito.

A Suíça bloqueou US$ 1,1 milhão de uma conta de Marinho em Genebra, ­ o rastreamento mostra que a conta do conselheiro movimentou US$ 2,5 milhões. O Ministério Público suspeita que o conselheiro de contas recebeu propinas para ajudar a multinacional francesa a ganhar contrato da área de energia no governo do tucano.

O requerimento para convocação de Marinho foi encaminhado ao presidente da Comissão de Transportes e Comunicações da Assembleia, deputado João Caramez (PSDB).

O líder do PSOL destaca: “Na investigação do Ministério Público de São Paulo, em conjunto com o Ministério Público Federal e procuradores suíços, constam provas como documentos bancários que revelam transferências para conta secreta, de titularidade do conselheiro, aberta em março de 1998 no banco Credit Lyonnais Suisse, com saldo de cerca de US$ 1,1 milhão, e que fazem parte do processo referente ao caso Alstom – denúncia contra 11 investigados, perante a 6.ª Vara Criminal Federal de São Paulo, da qual o conselheiro não é parte ré por conta de seu foro privilegiado.”

DESGASTE DO TCE

Giannazi aponta o “o desgaste que aquela corte (Tribunal de Contas do Estado) vem enfrentando com a situação”.

O deputado condena o que chama de “injustificada inércia desta Casa Legislativa na tomada de qualquer providência” e invoca o “poder-dever fiscalizador inerente ao Legislativo para exigir a prestação por parte da autoridade pública (Robson Marinho) sobre os fatos que lhe são imputados”.

 

14/05/1998: Uma data para lembrar que nunca haverá um cantor como Frank Sinatra

Almério Nunes

Em 14 de maio de 1998, neste dia…, escrevi e enviei para os amigos o seguinte texto:

“Olhem para o Céu. Vejam. Observem. Uma estrela acaba de chegar! E que brilho intenso! Outras estrelas estão se aproximando dela! Que espetáculo! Alguém disse para o Senhor do Céu: “Que luz linda, maravilhosa! Ela de agora em diante é nossa, aqui permanecerá até a Eternidade”
Frank Sinjatra, naquele dia, pediu para jantar com a família: com a sua Barbra, filhos, genros, nora e netas. Fazia tempo que não saía. Sofrera dois infartos, problemas no cólon etc. Não vinha nada bem. Concordaram. Os médicos já haviam avisado do seu precário estado.
Frankie estava alegre e feliz, até que … desmaiou. Uma ambulância chegou imediatamente e ele foi colocado deitado nas pernas da mulher, Barbra.
“Fight it, Frank! Fight it”! Resista, resista … Pedia ela chorando muito.
Até que ele, abrindo os olhos e olhando para ela, disse:
“Oh, dear Lord…I’m leaving …” (Querido Senhor… estou partindo…)
E fechou os ‘olhos azuis’ para sempre. Aos 82 anos de idade.
COMOÇÃO MUNDIAL
Amigos de muitos anos como Dan Rickles, Gregory Peck, Shirley MacLaine, Anthony Quinn, Tony Bennett, Sophia Loren e outros… choravam abraçados.
Todas, todas!, as bases militares dos Estados Unidos espalhadas pelo mundo, colocaram seus aviões nos céus e desenharam corações de fumaça. 
A reunião do G7, em Londres, foi interrompida pelo Primeiro Ministro britânico Tony Blair, que passou a palavra para Bill Clinton; o discurso do presidente foi tão comovente que ele não conseguiu terminá-lo. 
Algo em torno de quatro mil jornais, de mais de oitenta países, colocaram a foto do ‘The Voice’ na primeira página e imprimiram Cadernos Especiais em cores, contando sua vida e obra.
Frankie começou a cantar em 1935 (aos 19 anos) e sua carreira durou até 1994, com os Duets. São 216 CDs à venda em todo o mundo. Reunamos os discos de Elvis, Beatles e Michael Jackson … e não chegam à metade disto! Atualmente suas gravações ‘My Way’ e ‘New York, New York’ estão entre as cinco músicas mais executadas internacionalmente. Gravou perto de 5.000 músicas, em mais de 1.400 sessões de gravação. Apresentou-se em 86 países. Fez 68 filmes, ganhou três Oscars.
Na Índia, às vésperas da sua chegada para um show inesquecível, encheram Nova Dheli com cartazes que diziam: “Frank Sinatra: Ele canta chorando… ou chora cantando?” Ele leu e… esboçou um sorriso, um sorriso suave…
Obra de longevidade única e incomparável.
CONVIDADO DE HONRA
Presidentes como John Kennedy, Richard Nixon e Ronald Reagan o recebiam na Casa Branca a qualquer hora! Em suas posses, Frankie foi como convidado de honra!!! Ele cantava seus sucessos com letras adaptadas às respectivas campanhas e… ficou como responsável direto das eleições de Kennedy e Reagan (até mesmo para governador da Califórnia).
Frankie criou uma maneira de cantar. Conseguia dividir as frases de tal forma, que cantava três ou quatro delas inteiras sem respira … e com musicalidade e interpretação únicas. Por mais que venham tentando até hoje… ninguém conseguiu fazer isto da maneira dele. Uma técnica fantástica!
Certa vez, ainda ‘crooner’ da Big Band do Tommy Dorsey (em 1940), pediu ao TD para colocar violinos.
“Garoto, isso não existe! Violinos compõem orquestras sinfônicas, filarmônicas e o que nós temos é uma banda!” …
“Mas com eles ao fundo, minha voz deslizará melhor e o efeito será maravilhoso!”
Hoje… ouvindo sambas e baladas com violinos, fica a pensar: foi um garoto que deu a ideia para tudo isso… Pois é.
NELSON RIDDLE
Seu guru musical? O genial maestro Nelson Riddle, seu companheiro desde os tempos de Hoboken/New Jersey, onde nasceram. “Esses dois criaram o som da América”, diziam. Para mim, eles criaram o som da música popular mundial (estudaram Franz Lizst, Félix Mendelssonn e outros mestres). “Quando você ouve Frank cantando, você está ouvindo uma obra dele, e não minha”, dizia o Nelson. Agora vejam só! Um dos maiores monstros sagrados da música… disse isto!!!
Quando Bill Clinton enviou para o Congresso um decreto (?) criando uma moeda de US$10 com o rosto do Frankie estampado, disseram: “Mas isto já foi feito! Frank já tem uma! Nossas leis impedem isto! Ninguém pode ter a mesma homenagem!”
No dia da votação… todos os congressistas levantaram-se e aplaudiram. Aprovaram por aclamação!!! (que não pode… não pode: mas, é o Frank Sinatra!, argumentaram)
Sua música favorita (e que foi tocada durante os serviços, no funeral), era “Put Your Dreams Away”;
Put your dreams away  / guarde seus sonhos
For another day  / para um outro dia
And I will take their place / e eu tomarei o lugar deles
In your heart  / no seu coração …
AVA GARDNER
Sua grande paixão? Ora, AVA GARDNER. O mundo inteiro sabe. Namoraram, casaram, se separaram e depois ficaram se encontrando e desencontrando por anos e anos. “Seu pai é o homem da minha vida”, disse Ava para a filha mais velha, Nancy Sinatra. “Nós nos amamos muito, mas a gente não se entende …” 
E olhem só o que ele disse, já velhinho:
“Barbra é o amor da minha vida”. 
Em entrevista para a imprensa mundial, após o passamento do amigo, Tony Bennett disse:
“Frank, ao longo da sua extraordinária carreira, conseguiu arrecadar para pessoas especiais mais de US$1 bilhão, porém não admitia que divulgassem nada a respeito. Fez inúmeros shows, em muitos países, apenas para doações …”
(Ele estreou aqui no Rio em 22 de janeiro de 1980, meu aniversário!!!, na inauguração do Rio Palace Hotel, hoje Sofitel, no Posto Seis/Copacabana. Eu, totalmente gago e trêmulo, conversei com ele. Que emoção!!! Foi o primeiro cantor a se apresentar num estádio de futebol, e logo no Maracanã!)

Em ato marcado por críticas a Dilma, Solidariedade declara apoio a Aécio

Deu na Folha

Em ato político marcado por críticas ao governo Dilma Rousseff (PT), o partido Solidariedade declarou apoio ao pré-candidato do PSDB à Presidência, Aécio Neves.

Apesar de o calendário eleitoral definir o mês de junho como período de oficialização das alianças, o ato informal de terça-feira, realizado em um hotel em Brasília, dará mais capilaridade ao candidato tucano junto à Força Sindical, central de entidades sindicais que tem como presidente licenciado o deputado Paulo Pereira da Silva (SDD-SP), o Paulinho da Força.

Presente no evento, Paulinho, que hoje ocupa a presidência do Solidariedade, manteve o tom opositor a Dilma e afirmou que Aécio já assumiu “compromissos com os trabalhadores, como a correção da tabela do Imposto de Renda, a política do salário mínimo e a valorização do salário dos aposentados”.

Paulinho já havia adotado uma postura refratária a Dilma nas comemorações do Dia do Trabalho. Na ocasião, ele culpou a presidente pela desvalorização da Petrobras, afirmou que o governo era corrupto e insinuou que a petista poderia ser presa pelas acusações de má gestão na estatal.

Pesquisa Datafolha divulgada na última semana apontou que Aécio ganhou quatro pontos e apresentou a maior variação entre todos os candidatos a presidente, subindo de 16% para 20% entre abril e maio. No mesmo período, a presidente Dilma Rousseff oscilou de 38% para 37%. Já o pessebista Eduardo Campos subiu de 10% para 11%.

As dúvidas de amor de Thiago de Mello

O poeta amazonense Thiago de Mello, no poema “Amor Mais Que Imperfeito”, não duvida do amor, mas duvida do modo mais imperfeito que ele próprio tem ao amar.
AMOR MAIS QUE IMPERFEITO
Thiago de Mello

Não do amor. De mim duvido.
Do jeito mais que imperfeito
que ainda tenho de amar.

Com frequência reconheço
a minha mão escondida
dentro da mão que recebe
a rosa de amor que dou.

Espiando o meu próprio olhar,
escondido atrás estou
dos olhos com que me vês.
Comigo mesmo reparto
o que pretende ser dádiva,
mas de mim não se desprende.

Por mais que me prolongue
no ser que me reparte,
de repente me sinto
o dono da alegria
que estremece a pele
e faz nascer luas
no corpo que abraço.

Não do amor. De mim duvido
quando no centro mais claro
da ternura que te invento
engasto um gosto de preço.
Mesmo sabendo que o prêmio
do amor é apenas amar.

        (Colaboração enviada por Paulo Peres – site Poemas & Canções)

Getúlio (2014): “O carisma de um sem-carisma”

 

Lucas Alvares

São atribuídas ao jornalista Carlos Heitor Cony algumas das mais deliciosas definições sobre a personalidade do ex-presidente Getúlio Vargas (1882-1954). Em uma delas, Cony aponta o personagem que acenava e sorria muito mais do que falava ou fazia como portador do “carisma dos sem carisma”, que dotava aquele homem com voz de taquara rachada, um metro e meio de altura e uma indiscreta barriga do porte de líder que, fisicamente, ele nunca teve. É do escritor também a curiosa observação de que o assumidamente agnóstico Getúlio “se benzia”, o que agrega ainda mais aspectos contraditórios e enigmáticos a uma personalidade tão rica e, ao mesmo tempo, tão pouco transparente.

Pois Getúlio (2014), de João Jardim, consegue traduzir para a estética cinematográfica esta persona rica e pobre, veemente e contraditória, apaixonante e odiosa em uma envolvente tragédia grega moderna, um thriller político de primeira linha que nada deixa a desejar às produções hollywoodianas e europeias do gênero, como “Der Untergang” (“A Queda”, no Brasil), de Bernd Eichinger e lançado em 2004, muito bem-sucedido ao ilustrar os estertores de Hitler e do Terceiro Reich.

Jardim é um grande “diretor de ator”. Mesmo o espectador mais atento não observará Tony Ramos, Drica Moraes ou Alexandre Borges na tela, e sim seus personagens, Getúlio, Alzirinha e Lacerda, obsidiados em olhares e entonações como nenhum outro intérprete destes três nomes históricos conseguiu até hoje.

ALZIRINHA

Há muita sensibilidade no papel da filha preferida e secretária particular – posteriormente biógrafa do ex-presidente em “Getúlio Vargas, meu pai” – em especial pela visível fragilidade física de Drica Moraes à época das filmagens, em recuperação de um transplante de medula óssea. Drica se superou a cada cena para interpretar Alzira Vargas, pilar de uma família de desconfianças mútuas, onde a mãe (D. Darcy, interpretada por uma segura Clarisse Abujamra), mantinha um casamento de distanciamento com o marido, e os outros filhos, Lutero e Maneco, submergiam em indícios de corrupção. Tony Ramos fez chover, como sempre faz, encolhendo 20cm apenas com a expressão corporal e incorporando minúcias do gestual de Vargas, como o levantar empertigado das sobrancelhas e o andar característico, similar ao de um pinguim do polo.

LACERDA

Entretanto, a grande surpresa está em Alexandre Borges, como o ás da indignação Carlos Lacerda, fundador e pai espiritual da Tribuna da Imprensa. Ou não. O Lacerda de Borges tem todas as reticências, parênteses e borrões de tinta da atuação do então jornalista e candidato a deputado naquele agosto de 1954. O tiro de 45 no pé, depois engessado – e com Armando Nogueira como testemunha ocular – além das estranhas intenções de quem premedita tentar matar o maior opositor de um presidente como saída para as crises do governo, e não como o tiro de misericórdia no próprio mandato, fazem de Lacerda, no mês mais obscuro de sua vida antes da obscuridade de sua própria morte, cheia de dúvidas até hoje, ainda mais apaixonante e atual em sua impetuosidade de um eterno pró-golpe. 

Quem mandou matar Lacerda, apenas Alcino João, o pistoleiro, hoje um nonagenário, pode responder. Mas, ironicamente, a ciranda de vida e de morte daquele mês sui generis na história do Brasil fez de um “sem-carisma” santo civil e de um carismático orador, talvez o maior de todos, vilão de um caso onde, até que se prove o contrário, foi vítima. “Getúlio” não responde a nenhuma dessas perguntas. E quem disse que a História é feita de respostas?

Renan faz o jogo do Planalto e a CPI da Petrobrás só terá senadores governistas

DÉBORA ÁLVARES
Agência Estado

O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), anunciou nesta terça-feira,13, os três integrantes da CPI da Petrobrás no Senado. Os nomes são da cota da oposição, que se recusou a escalar seu time, num movimento de pressão pela instalação da CPI mista para investigar a estatal com a participação dos deputados. Renan escolheu como membros os senadores de Goiás Cyro Miranda (PSDB), Lúcia Vânia (PSDB) e Wilder Morais (DEM). As suplências ficaram com Jayme Campos (DEM-MT) e Vicentinho Alves (SDD-TO).

Com as indicações, o membro mais velho da CPI, senador João Alberto (PMDB-MA), pode convocar a primeira reunião, onde serão eleitos o presidente e o relator. A expectativa é que isso ocorra nesta quarta-feira. O movimento de Renan atende às demandas do Palácio do Planalto, que tem preferência pela instalação da CPI exclusiva do Senado, onde a base aliada mais fiel proporciona um clima menos adverso durante as investigações. “As bancadas que não indicaram seus integrantes são as mesmas que ingressaram na Justiça para que a investigação ocorresse. Por isso e para que não haja suposições sobre a celeridade das investigações, vejo-me obrigado a indicar os membros da CPI”, disse o presidente em plenário.

Em reação à escalação feita por Renan, o líder do PSDB no Senado, Aloysio Nunes (SP), destacou a preferência da oposição pela CPI mista. “Não indiquei por estar fazendo corpo mole. Inclusive essa CPI só existiu porque nós da oposição lutamos por ela. Mas porque, tendo conseguido superar as barreiras que o governo colocou, obtivemos um número avassalador de deputados e, por essa razão, queremos que funcione efetivamente a CPI mista”, destacou. O presidente do DEM, senador Agripino Maia (DEM-RN), corroborou da fala de Aloysio: “Meu partido tem decisão formada e não vai gastar energia nenhuma com a comissão do Senado”.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOGEra só o que faltava: uma CPI composta só de governistas. A oposição manobrou mal e o governo se deu bem, graças a Renan Calheiros, que certamente sabe o quanto vale hoje para o Planalto. Depois ele manda a conta. (C.N.)

A sociedade anda parindo marginaizinhos!

Eduardo Aquino

Em tempos em que se discute a redução da maioridade penal, de 18 para 16 anos, pouca atenção se dá a um fenômeno cada dia mais crescente: a maldade, a violência e a impunidade são fruto da ausência firme de autoridades e de uma sociedade cada vez mais desigual, trancada em si e alienada.

Tome-se o exemplo de um assalto em plena tarde de terça-feira em São Paulo, em que dois menores de 11 e 14 anos (!) agrediram uma senhora em um estacionamento de um shopping – antigo local seguro de compras – e, perseguidos pela PM por vários quilômetros, acabaram batendo o carro em outro e trocando tiros com os policiais. Entre os feridos por balas perdidas e pelo acidente, cidadãos trabalhadores e inocentes, vítimas de uma tragédia sem fim. Levados à delegacia, conforme reza o Estatuto da Criança e do Adolescente, devido à idade mínima, ambos tiveram seus pais chamados para se responsabilizar.

A passagem pela instituição que em São Paulo se chama “Casa” (antiga Febem) não foi possível pela pouca idade. Entrevistada, uma das mães, aos prantos, diz: “não tem jeito com esse menino, é o cão, saio de casa às 4h da manhã, chego às 11h da noite, trabalho honestamente, mas ele não vai para escola, fica na rua com má companhia, usando droga e assaltando!”.

SEM LIMITES

Então, eu pergunto: cadê pai e mãe para dar castigo, punir, estabelecer limites? Na sua ausência, quem deverá exercer esse papel? Avós, familiares, vizinhos, creches sociais, babás para classes mais abastadas? Ou seriam escolas em horário integral, projetos esportivos comunitários, trabalho de ONGs que estimulassem arte, cultura, ecologia? Pois o certo é que na fase pré-puberdade é que se moldam mais firmemente a estrutura do caráter, as primeiras noções de cidadania, ética e moral. E o que dizer da formação religiosa, que por séculos inibia as tendências instintivas para violência, sexo, transgressões em geral?

Um estudo que gosto de citar quando assunto semelhante vem à tona é o caso dos adolescentes elefantes. Tudo começou quando um dos parques de preservação de elefantes ficou superpovoado. A solução encontrada foi transferir parte do bando para outro parque, a centenas de quilômetros, na África do Sul. Para tanto, optou-se pelo embarque dos menos pesados, portanto crianças e adolescentes. Tudo certo, até que, passado algum tempo, chegaram notícias de comportamento atípico dos elefantes, matando outros animais, invadindo tribos, destruindo construções, agressivos entre si, entre outros relatos, o que desafiou veterinários, biólogos e estudiosos.

SOCIEDADE MATRIARCAL

Após uma série de encontros e estudos, verificou-se que a sociedade dos elefantes é matriarcal (a fêmea exerce poder e domínio) e que, sem os adultos para controlá-los, puni-los, estabelecer hierarquia, limites, o bando de elefantes adolescentes se tornara desajustado, com má índole, violento e não sociável, e que não adiantaria retorná-los a seus pais e parentes, pois houvera uma mudança de caráter irreversível. Após polêmicas , o governo sul-africano autorizou que fossem abatidos e mortos em caçada.

Quem se interessar por uma ciência chamada “etologia”, que compara o comportamento animal com os seres humanos, poderá verificar situações como esta relatadas entre chimpanzés, leões, etc. Então, pergunto: quem será por nós? Pois, se por um lado, a revolta tem levado a tristes casos de linchamento, somos nós, ricos, remediados e pobres que, como coletivo, atendemos pelo nome de “sociedade”, quem tem a culpa, das gerações de meninos de rua, órfãos de nós mesmos, gerados por um ventre social doentio, desmamados à força, nutrindo-se do pó, das pedras, vingando-se sem misericórdia nos tiros, tirando dos “bacanas” o que julgam precisar para se igualar ao sonho consumista e às vaidades fúteis.

A guerra urbana não distingue herói de bandido, bons ou maus. Somos vítimas e autores das atrocidades que nos fazem ter prisão domiciliar, sair para trabalhar, voltar correndo na lentidão dos transportes públicos e privados, com muros altos, cercas, alarmes e muita, muita reza! (transcrito de O Tempo)

 

André Vargas sumiu e o Conselho de Ética teve de notificá-lo pelo Diário Oficial

Alex Rodrigues
Agência Brasil
Após cinco tentativas frustradas de localizar o deputado André Vargas (ex-PT, atualmente sem partido), o Conselho de Ética e Decoro Parlamentar da Câmara dos Deputados recorreu ao Diário Oficial da União para conseguir notificar o parlamentar sobre a instauração do processo de cassação de seu mandato. Assinado pelo presidente do conselho, deputado Ricado Izar (PSD-SP), o edital de notificação está publicado na edição de hoje (13).

Licenciado do cargo desde o início do mês passado, Vargas terá dez dias úteis para apresentar defesa escrita, arrolar testemunhas e entregar os documentos que julgar necessários para responder às denúncias de envolvimento com o doleiro Alberto Yousseff, preso pela Polícia Federal (PF) durante a Operação Lava Jato. O deputado já admitiu conhecer Yousseff e ter aceitado viajar em um avião fretado pelo doleiro, mas nega ter usado de sua influência parlamentar para beneficiar Yousseff.

O processo de cassação foi instaurado no início do mês passado, a partir de representação dos partidos PSDB, DEM e PPS. Vargas pode perder o mandato parlamentar caso os deputados concluam que ele é culpado das acusações. Após a prisão de Yousseff e as denúncias contra Vargas virem à tona, o parlamentar renunciou à vice-presidência da Câmara dos Deputados e se desfiliou do PT.

Na semana passada, o juiz Sérgio Fernando Moro, da 13ª Vara Federal em Curitiba, informou ao Supremo Tribunal Federal que a PF concluiu que a pessoa que trocou mensagens com o doleiro Alberto Youssef é mesmo o deputado licenciado André Vargas (sem partido-PR). Diante da conclusão, o juiz decidiu que enviará ao Supremo, na próxima semana, parte da investigação da Operação Lava Jato na qual o deputado é citado.

Defesa de Dirceu entra com recurso na OEA contra condenação no mensalão

André Richter
Agência Brasil

A defesa do ex-ministro da Casa Civil José Dirceu entrou hoje (13) com uma denúncia na Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), órgão da Organização dos Estados Americanos (OEA), sediada em Washington, para que o órgão recomende ao Brasil um novo julgamento da Ação Penal 470, o processo do mensalão. A defesa alega que Dirceu não teve direito ao duplo grau de jurisdição, direito constitucional do condenado recorrer a instância superior da Justiça.

“Tendo em vista que Estado brasileiro não gravou qualquer reserva ou ressalva à aplicação do artigo que estabelece o duplo grau de jurisdição e assegura aos réus, sem qualquer restrição, o direito de recorrer, no caso de eventual condenação, a uma instância superior, possuindo, portanto, natureza jurídica de garantia fundamental e absoluta, resta patente a grave violação ao referido dispositivo no presente caso”, afirmou a defesa.

A decisão da defesa foi tomada após o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Joaquim Barbosa, rejeitar pedido de Dirceu para deixar o Presídio da Papuda (DF) durante o dia para trabalhar em escritório de advocacia em Brasília. Barbosa entendeu que Dirceu não pode trabalhar fora do presídio por não ter cumprido um sexto da pena de sete anos e 11 meses de prisão em regime semiaberto, definida no processo do mensalão.

Seis erros que o Ocidente cometeu (e comete) na Ucrânia

Nicolai N. Petro
The National Interest

ODESSA, Ucrânia – Se o ocidente parece não compreender as ações dos russos na Ucrânia e mostra-se incapaz de encontrar resposta à crise, é porque, desde o primeiro momento, interpretou erradamente a situação, convertendo uma questão essencialmente doméstica em disputa que ameaça toda a arquitetura de segurança da Europa.

Embora todos os lados tenham contribuído ativamente para esse fracasso generalizado, há seis erros principais, com papel destacado na modelagem do discurso ocidental, a serem corrigidos, antes que qualquer progresso real comece a ser possível.

ERRO 1. Os ucranianos são um único povo, unido no apoio às mudanças. As fronteiras do país mudaram inúmeras vezes no século passado. Resultado disso, milhões de pessoas sem qualquer conexão étnica, cultural ou linguística com a Ucrânia vivem lá, nas regiões de fronteira. Desde 1991, a divisão mais visível acontece entre ucranianos do oeste, muitos dos quais desejam uma Ucrânia culturalmente e politicamente diferente da Rússia, e ucranianos do leste, que querem viver numa Ucrânia independente, mas que também mantenha laços espirituais, culturais e econômicos com a Rússia.

ERRO 2. Apoiar a derrubada do presidente Yanukovych pelos neofascistas da Praça Euromaidan. No auge dos tumultos em Kiev, governos ocidentais aconselharam o presidente Yanukovych a não usar a força para dispersar os protestos, mesmo quando se tornaram violentos. Adiante, durante fase crítica das negociações com a oposição, funcionários do governo dos EUA foram gravados em conversações com específicos líderes da oposição. Para uma opinião pública ucraniana já dividida em torno da legitimidade dos protestos na Praça Maidan (3/4 da população das cidades do leste da Ucrânia consideram ilegais os protestos de Maidan em Kiev), a ação do ocidente foi claramente identificada com movimento de intervenção, para distorcer as preferências políticas de metade da população da Ucrânia.

ERRO 3. Assinar e, na sequência, trair a assinatura do Acordo de 21 de fevereiro. A evidência de que França, Alemanha e Polônia traíram o acordo negociado e assinado com a Polônia para uma transição negociada do poder, que havia sido proposta pelos próprios ucranianos, foi vista como duro golpe contra a legitimidade das instituições do estado ucraniano – golpe do qual o governo da Ucrânia ainda não conseguiu recuperar-se.

Na sequência, a tomada do poder pela oposição não apenas derrubou o governo (detestado, mas legal e legítimo) do presidente eleito; o golpe também levou ao colapso o maior partido ucraniano, o qual, síntese complexa de suas próprias qualidades e defeitos, ainda encarnava as aspirações políticas de metade da população.

Até hoje, menos de 1/3 da população falante de russo que vive na Ucrânia considera legítimo o atual presidente ‘em exercício’ (e primeiro-ministro licenciado); enquanto que em Donetsk e Lugansk, o número de apoiadores do presidente ‘interino’ cai a menos de 15%.

ERRO 4. Ignorar a ascensão da Direita Radical. A imprensa-empresa ocidental demorou a dar-se conta de que grupos nacionalistas de direita, como Svoboda e Setor Direita desempenharam papel decisivo na radicalização do movimento na Maidan em Kiev, e na dramática tomada do poder imediatamente depois de traídos os acordos de 21 de fevereiro. Mas, oficialmente, os governos ocidentais insistem ainda em que esse papel teria sido marginal. De fato, até hoje esses grupos continuam a ter influência no Parlamento e nas ruas no centro de Kiev, que continuam ocupadas apesar dos muitos pedidos do atual presidente, para que sejam evacuadas.

Aqueles grupos intimidam todos e quaisquer que se manifestem contra as políticas do atual governo. Os atos de intimidação contra candidatos associados ao Partido das Regiões, não recebem nenhuma condenação vinda de governos ocidentais. Muitos no Leste e no Sul da Ucrânia veem tudo isso como mais e mais confirmação de que o ocidente apoia os neonazistas/neofascistas.

ERRO 5. Rotular manifestantes no Leste e no sul, de “separatistas” e/ou “pró-Rússia”.Nos dois casos, são rótulos errados e distorcidos, porque a conexão entre essas regiões e a Rússia é cultural e linguística, não é política. Há muito ressentimento local contra o governo provisório em Kiev. Até a oligarca Yulia Tymoshenko reconheceu isso, recentemente, pela televisão da Ucrânia. A vasta maioria deseja, simplesmente, que sua herança russa seja reconhecida como parte de sua identidade ucraniana. O meio mais simples de fazer tal coisa, dizem eles, é reconhecer na Constituição, a realidade do bilinguismo ucraniano. Quanto mais o governo ‘interino’ resiste contra essa ideia, mais os cidadãos desconfiam das intenções do governo de Kiev.

Quanto à acusação de “separatismo”, vale a pena observar que a demanda original sempre foi por maiores direitos regionais e mais autonomia dentro da Ucrânia. Só quando Kiev respondeu, substituindo governadores locais por novos oligarcas fiéis ao novo governo central, é que começou a aparecer a questão da secessão.

ERRO 6. Culpar a Rússia pelos problemas da Ucrânia. Apesar da retórica candente que se ouve dos governos ocidentais, o objetivo primário da Rússia na Ucrânia é reduzir a instabilidade. As razões não são difíceis de identificar. Primeiro, porque qualquer instabilidade é ruim para os negócios, os quais, no caso da Ucrânia, envolvem investimentos militares, industriais e de energia vitais para a Rússia. Segundo, a instabilidade continuada é ruim para a Rússia porque aumenta o risco de a Ucrânia vir a tornar-se estado falido, e a Rússia obrigada a sustentar com ajuda humanitária massiva. Em terceiro lugar, essa instabilidade é ruim, porque aumenta as tensões com o Ocidente, que tende a culpar a Rússia por tudo que aconteça na Ucrânia.

A Rússia muito apreciaria ver a Ucrânia como parceira econômica e política estável, capaz de gerar crescimento e criar empregos para seus cidadãos, de modo a reduzir o fluxo constante de mais de 3 milhões de trabalhadores ucranianos para dentro da Rússia, anualmente, e também contribuir para a prosperidade dos 11 milhões de russos que vivem ao longo da fronteira com a Ucrânia.

Já tendo gasto cerca de 300 bilhões de dólares nos últimos 20 anos, para evitar o colapso da economia ucraniana, não é absolutamente crível que, de repente, o fracasso da Ucrânia tenha passado a ser objetivo dos russos. É absolutamente certo que não, não é assim, e a Rússia não tem interesse em gastar mais dezenas de bilhões de dólares no esforço para equiparar o padrão de vida da Ucrânia aos padrões russos – o que seria indispensável, se a Rússia tivesse qualquer interesse em ‘anexar’ alguma Ucrânia, como repetem jornais, jornalistas e ‘especialistas’ ocidentais.

(artigo enviado por Sergio Caldieri)

 

 

Voto nulo anula eleição

Polianna Pereira dos Santos

De dois em dois anos, em eleições municipais ou regionais, sempre surge alguém para hastear a bandeira do voto nulo, declarando a finalidade de promover a anulação do pleito. Já passou da hora de superar essa ideia e entender, de fato, qual função pode ser atribuída ao voto nulo e ao voto em branco.

Para os defensores da campanha do voto nulo, o art. 224 do Código Eleitoral prevê a necessidade de marcação de nova eleição se a nulidade atingir mais de metade dos votos do país. O grande equívoco dessa teoria reside no que se identifica como “nulidade”. Não se trata, por certo, do que doutrina e jurisprudência chamam de “manifestação apolítica” do eleitor, ou seja, o voto nulo que o eleitor marca na urna eletrônica ou convencional.

A nulidade a que se refere o Código Eleitoral decorre da constatação de fraude nas eleições, como, por exemplo, eventual cassação de candidato eleito condenado por compra de votos. Nesse caso, se o candidato cassado obteve mais da metade dos votos, será necessária a realização de novas eleições, denominadas suplementares. Até a marcação de novas eleições dependerá da época em que for cassado o candidato, sendo possível a realização de eleições indiretas pela Casa Legislativa. Mas isso é outro assunto.

É importante que o eleitor tenha consciência de que, votando nulo, não obterá nenhum efeito diferente da desconsideração de seu voto. Isso mesmo: os votos nulos e brancos não entram no cômputo dos votos, servindo, quando muito, para fins de estatística.

NÃO SERVEM PARA NADA…

O Tribunal Superior Eleitoral, utilizando a doutrina de Said Farhat, esclarece que “votos nulos são como se não existissem: não são válidos para fim algum. Nem mesmo para determinar o quociente eleitoral da circunscrição ou, nas votações no Congresso, para se verificar a presença na Casa ou comissão do quorum requerido para validar as decisões.”.

Do mesmo modo, o voto branco. Antigamente, quando o voto era marcado em cédulas e posteriormente contabilizado pela junta eleitoral, a informação sobre a possibilidade de o voto em branco ser remetido a outro candidato poderia fazer algum sentido. Isso porque, ao realizar a contabilização, eventualmente e em virtude de fraude, cédulas em branco poderiam ser preenchidas com o nome de outro candidato. Mas isso em virtude de fraude, não em decorrência do regular processo de apuração.

Hoje em dia, o processo de apuração, assim como a maneira de realizar o voto, mudou. Ambos são realizados de forma eletrônica, e a possibilidade de fraudar os votos em branco não persiste. O que se mantém é a falsa concepção de que o voto em branco pode servir para beneficiar outros candidatos, o que é uma falácia.

VOTO É LIBERDADE

O voto no Brasil é obrigatório – o que significa dizer que o eleitor deve comparecer à sua seção eleitoral, na data do pleito, dirigir-se à cabine de votação e marcar algo na urna, ou, ao menos, justificar sua ausência. Nada obstante, o voto tem como uma das principais características a liberdade. É dizer, o eleitor, a despeito de ser obrigado a comparecer, não é obrigado a escolher tal ou qual candidato, ou mesmo a escolher candidato algum.

Diz respeito à liberdade do voto a possibilidade de o eleitor optar por votar nulo ou em branco. É imprescindível, no entanto, que esta escolha não esteja fundamentada na premissa errada de que o voto nulo poderá atingir alguma finalidade – como a alardeada anulação do pleito. Se o eleitor pretende votar nulo, ou em branco, este é um direito dele. Importa que esteja devidamente esclarecido que seu voto não atingirá finalidade alguma e, definitivamente, não poderá propiciar a realização de novas eleições.

(artigo enviado por Alam)

Não é possível aceitar que iates, helicópteros e jatinhos continuem isentos de IPVA

Roberto Nascimento

O jornalista Vladimir Safatle expôs na Folha uma tese racional e isonômica, ao denunciar que helicóptero, lancha e avião particular não pagam IPVA. Não existe razão para o proprietário do carro ter que pagar o IPVA e os outros proprietários de veículos de transporte nada pagarem. Nem que seja mudado o nome do imposto, por exemplo. Ao invés de veículos automotores ( IPVA), poderia ser sobre veículos marítimos (IPVM) e veículos aéreos (IPVAE).

No entanto, creio que essa luta será uma batalha das mais difíceis, pela simples razão de que os proprietários dessas maravilhas do consumo da alta classe empresarial, financiadora do Legislativo, não aceitarão a criação desse imposto, que somente ocorrerá diante de uma poderosa pressão da opinião pública ou de uma passeata pelo não pagamento do IPVA, enquanto os outros meios de transporte nada pagarem.

Não há nada que incomode mais os representantes do povo, do que o perigo de não serem reeleitos. Diante dessa tragédia para eles, os candidatos a permanecerem nos Parlamentos, votam as leis requeridas pelo povo imediatamente. Um exemplo fático foi a chamada “Primavera Junina”, que evitou a pretensão de amordaçamento do Ministério Público.

SUBSÍDIO INDEVIDO

Pior será o subsídio que será ofertado para a Aviação Regional (helicópteros e jatos executivos), da ordem de 1 bilhão por ano, oriundos do Fundo de Aviação Civil, sob argumento de que é necessário estimular as rotas que dão prejuízos para as empresas aéreas estabelecidas no eixo Rio/São Paulo.

Há muito o que mudar na sociedade brasileira, em relação aos privilégios de grupos e classes. Caso não ocorram essas mudanças, as desigualdades que crescem absurdamente podem detonar o tecido social, que levam inexoravelmente à ruptura do país. Os exemplos do Oriente Médio estão latentes e preocupantes.

Índice de aprovação da Copa no Brasil caiu de 79% para 48%

 

Da France Presse

A caipirinha que o secretário da Fifa, Jerôme Valcke, pretende tomar para festejar a abertura da Copa do Mundo no Brasil pode ter um sabor amargo: a um mês do início da competição, as obras ainda se arrastam e ainda há preocupações com a segurança.

O sonho de reformar ou construir 12 estádios ultramodernos para acolher o maior evento de futebol do mundo e mostrar seu potencial de gigante emergente bate de frente com uma dura realidade.

O projeto vem sendo criticado, não apenas pela Fifa, mas também por boa parte dos brasileiros, por conta dos cerca de 22 bilhões de reais que a organização do Mundial custará aos cofres públicos. A presidente Dilma Rousseff, que concorre à reeleição em outubro, inaugurou quase todos os estádios, mas quatro ainda não foram totalmente concluídos.

O Itaquerão, de São Paulo, que receberá a partida de abertura entre Brasil e Croácia, a Arena da Baixada, de Curitiba, o Beira-Rio, de Porto Alegre, e a Arena Pantanal, de Cuiabá, continuam em obras a exatos 30 dias do pontapé inicial, previsto para o dia 12 de junho. “Vivemos um inferno no Brasil”, confessou Valcke na semana passada, durante um evento realizado em Lausanne, na Suíça.

MANIFESTAÇÕES
Embora a maioria dos brasileiros ainda seja a favor da realização da Competição no país, a percentagem de aprovação caiu muito, de 79% em 2008 a 48% em abril deste ano. Há seis anos, apenas 10% se dizia claramente contra a Copa, contra 41% hoje em dia.

“Ninguém sabe qual será o teor das manifestações, mas duas coisas podem acontecer de forma simultânea, um grande êxito da Copa em termos de público e uma grande reação de protesto contra o governo”, analisou Lamartine Pereira da Costa.

“O grande fator favorável no Brasil é a população, que sempre responde bem. Uma vez que a Copa começar, a reação pode ser muito positiva”, completou.

Muitos se perguntam quais podem ser as consequências políticas caso a seleção brasileira não conquiste o tão esperado hexacampeonato em casa.

Confiança é essencial

Tostão
O Tempo

O futebol vive de lugares-comuns e das mesmas explicações para situações bem diferentes. Ter ou não ter confiança serve para tudo. É óbvio, essencial, ter confiança para fazer uma escolha, desde que o escolhido tenha qualidade e seja o mais bem indicado.

Felipão não explicou, na convocação de Henrique, se sua confiança no jogador é pelo comportamento junto ao técnico e aos companheiros, por suas qualidades técnicas ou pelos dois motivos. Há ainda os que confiam e os que não confiam, por motivos inconscientes, que estão no fundo da alma.

Não disse que Henrique é um perna-de-pau nem que sua convocação foi uma ação entre amigos. Se eu fosse técnico de um grande time brasileiro, o contrataria. Ele é um bom jogador, mas não para a seleção. Há vários melhores.

Dizem que Felipão preferiu Henrique a Miranda por ser mais alto e porque Miranda tem jogado bem em razão de ser muito protegido pelo sistema tático do Atlético de Madrid.

OUTRAS SITUAÇÕES

Há muitas situações limítrofes, conflitantes, nessas escolhas. Prandelli, técnico da Itália, precisa de Balotelli, mas não confia em seu comportamento emocional. Certamente, vai escalá-lo, pois é muito melhor que os outros atacantes.

Julio Cesar teria sido escalado porque goleiro é cargo de confiança. É mais um chavão. Ele é bem diferente de Henrique. Julio Cesar tem muita experiência na seleção, foi o melhor goleiro do mundo e jogou muito bem a Copa das Confederações e os amistosos. Ele tem atuado no Canadá. Nunca entendi a intensa queda de prestígio que teve. Discordo do mestre Juca. Eu também o escalaria.

Já Henrique nunca foi um grande zagueiro e, nas poucas vezes em que jogou pela seleção, nem foi notado. No ano passado, disputou a Série B do Brasileirão. Ele é reserva do argentino Fernández, no Napoli, que faz parte de uma seleção muito criticada por não ter um bom zagueiro. Dizem que Henrique foi chamado pela versatilidade. Seleção não é o Napoli nem o Palmeiras, para um jogador quebrar um galho em outra posição. Isso era importante no passado, quando só podiam ficar sete jogadores no banco.

Com a proximidade da Copa, parte da imprensa esportiva, que não acompanha os detalhes do futebol que se joga em outros países e que assiste apenas aos melhores momentos das partidas internacionais, passa a ser analista de outros jogadores e seleções, repetindo informações e comentários. É nossa cultura futebolística, de muito barulho e de pouca compreensão e conhecimento.

É inquestionável o ótimo trabalho de Felipão, o que não significa que, por admiração, convicção ou conveniência, temos de concordar com tudo o que ele fala ou faz. Quem está encantado com o técnico é Marín. Já deve ter pedido um autógrafo. Para Marín, Felipão é um deus, sua salvação e a da CBF.

 

Falando pelo telefone como Donga e Mauro de Almeida

O músico e compositor carioca Ernesto Joaquim Maria dos Santos, conhecido como Donga (1890-1974), apesar de compor inúmeros sambas, é lembrado pela gravação de “Pelo Telefone”, em 1917, em parceria com Mauro de Almeida. Foi o primeiro samba gravado. Atribui-se o fato de ter sido “gerado” na casa da Tia Ciata, famosa na época por reunir os maiores e melhores músicos populares da época, onde frequentavam além de Donga e Mauro de Almeida, João da Baiana, Caninha, Sinhô e Pixinguinha, entre outros.

“Pelo Telefone” tem uma estrutura ingênua e desordenada: a introdução instrumental é repetida entre algumas de suas partes (um expediente muito usado na época) e cada uma delas tem melodias e refrões diferentes, dando a impressão de que a composição foi sendo feita aos pedaços, com a junção de melodias escolhidas ao acaso ou recolhidas de cantos folclóricos. Este samba sintetiza aspectos da vida e da boemia no Rio de Janeiro nas primeiras décadas do século passado.

PELO TELEFONE

Mauro de Almeida e Donga

O chefe de Polícia pelo telefone,
Mandou me avisar,
Que na Carioca tem uma roleta
Para se Jogar.

Ai, ai, ai, deixa as mágoas para traz, o rapaz,
Ai, ai, ai, fica triste se és capaz e verás.

Tomara que tu apanhes
Pra nunca mais fazer isso,
Roubar o amor dos outros
E depois fazer feitiço.

Olha a rolinha, sinhô, sinhô,
Se embaraçou, sinhô, sinhô,
Caiu no laço, sinhô, sinhô,
Do nosso amor, sinhô, sinhô,
Parte deste samba, sinhô, sinhô,
É de arrepiar, sinhô, sinhô,
Põe perna bamba, sinhô, sinhô,
Mas faz gozar.

O peru me disse,
Se você dormisse, não fazer tolice,
Que eu não saísse, dessa esquisitice,
Do disse me disse.

Queres ou não, sinhô, sinhô,
Ir pro cordão, sinhô, sinhô,
Ser folião, sinhô, sinhô,
De coração, sinhô, sinhô,
Porque este samba, sinhô, sinhô,
É de arrepiar, sinhô, sinhô,
Põe perna bamba, sinhô, sinhô,
Mas faz gozar.

         (Colaboração enviada por Paulo Peres – site Poemas & Canções)

Presidente do Ibope diz que esta será a eleição mais difícil de todos os tempos

Sonia Racy
Estadão

Nos últimos 20 anos, houve uma evolução do eleitor brasileiro. Mais informado, mais educado, crítico e atento, participativo – inclusive nas redes sociais. Já o político “made in Brazil” parou no tempo. Repete as mesmas práticas de 30 anos, busca o mesmo jeito de financiar campanha e é adepto do “é dando que se recebe”, do caixa 2, do nepotismo, de jatinhos e helicópteros. Não se deu conta de que o mundo mudou, de que a era da internet e dos celulares alterou todo o cenário.

A opinião acima é de Carlos Augusto Montenegro, do Ibope, para quem a descrença do povo brasileiro na política cresceu barbaramente. “Se não houvesse voto obrigatório, 60% da população não compareceria às urnas”, previu o também ex-presidente do Botafogo, em seu escritório do Rio. Para Montenegro, os políticos vão ter uma resposta muito séria da população.

Como o senhor está vendo esta eleição?

Estou aqui há 42 anos e acho que esta é a eleição mais difícil da história do Ibope. A impressão que me dá é de que realmente o Brasil precisa fazer uma reforma política, mas fazer mesmo. Sinto que as pessoas estão nauseadas, enfadadas, não sei nem o termo, estão enojadas. A princípio, pela leitura das pesquisas hoje, quem é o grande ganhador da eleição? Ninguém. Está cada vez maior a fatia de branco, nulo, indeciso. O desânimo é com tudo, é com a política, é a confusão. A página de mensalão foi uma página diferente, o pessoal achava que a impunidade era total e, de repente, alguma coisa aconteceu. Na hora em que você está acabando de virar a página, vem uma confusão maior ainda com o caso da Petrobrás, que sempre foi uma empresa muito querida do povo brasileiro. O volume de informação, de denúncias é tão grande que dá a impressão de que isso aconteceu 40 dias atrás ou ontem. Não passa a impressão de que isso foi em 2006 ou em 2008. Você vê Polícia Federal invadindo a Petrobrás, gente sendo presa, é doleiro, é diretor, é o ex-presidente da estatal dizendo que foi certo e a atual dizendo que foi errado. Aécio tem seus problemas com o mensalão mineiro, Eduardo Campos tem seus problemas também. O fato é que o pessoal não aguenta mais toda essa confusão.

Como isso aparece nas pesquisas? Fora voto nulo e branco, há alguma outra maneira?

Na resposta à pergunta “se as pessoas têm interesse pela política ou pelo noticiário político”, isso aparece cada vez mais. As opções “pouco interesse” ou “nenhum interesse” representam mais da metade. Se o voto fosse facultativo, quase 60% não votariam nesta eleição. As manifestações do ano passado já foram um aviso disso. Eu diria que qualquer um dos candidatos que vencer a eleição será uma zebra – qualquer um, porque o desânimo, a tristeza com a política, a falta de sonhos e de programas é imensa. O desencanto é tão grande que, acredito, qualquer um que ganhar será uma surpresa para mim. Aí, você pode perguntar: mas até a Dilma? Até ela, que era favorita absoluta há um ano e pouco. Mas a agenda está ruim.

Então, qual a finalidade das pesquisas eleitorais?

As pesquisas, às vezes, até servem para falar o que eu estou te falando: que o desencanto hoje é total. Atualmente, tem 70% mais ou menos querendo mudança, mas eles não sabem bem que mudança seria essa, nem com quem. Já houve época em que o Brasil quis continuidade: foi assim em 1998, 2006 e 2010. Em 2002, os eleitores queriam mudança.

E os candidatos que estão concorrendo com a situação, o senhor diria que nenhum deles trouxe uma grande novidade?

Nenhum trouxe um programa, um sonho, uma ideia. Aí podem falar que não são conhecidos, não têm tempo de televisão etc. Todos os candidatos já foram governadores ou senadores de estados importantes, a imprensa está abrindo espaço para falar de projeto. Não adianta um ficar atacando o outro, o ruim fica pior. O ambiente já é horrível, falta esperança. E jogar lama? Eu sou melhor que você, você é ruim e eu não sou tão ruim. Está tudo muito negativo.

Pode aparecer uma surpresa até o final da eleição?

Não acredito. O brasileiro também já está vacinado contra surpresa depois de 1989. O Collor foi uma decepção em relação a várias coisas, o confisco, o impeachment. Não acredito que haverá um milagre, um coelho saindo da cartola. Muita gente fala da volta do Lula, se é possível ou não, uma especulação. O Lula, obviamente, é mais político, mais jeitoso, mais ídolo, mas também todas essas confusões que estão aparecendo agora aconteceram no governo dele. Acho que o partido atual no poder tem de tomar cuidado, porque é óbvio que tem um projeto de governo de 12 anos e tem gente querendo substituir esse projeto de governo de 12 anos, uma briga tremenda.

Se o Lula voltasse, ganharia?

Não sei. Isso tem um timing. Eu acho que, por enquanto, você pode dizer o seguinte: a Dilma foi antipática, a Dilma não teve sapiência para tratar com os políticos ou paciência, o Lula é melhor. Pode ser. Mas pode ser, também, que o negócio fique tão estragado com essa confusão, que ninguém saiba onde isso tudo vai parar. O timing é o seguinte: até dia 30 de junho, o partido pode resolver se o candidato vai ser a Dilma ou o Lula.