JOGUINHO DE PALAVRAS PARA ENGANAR BOBOS

Percival Puggina

Os petistas tinham as privatizações como um dos males do século e símbolos do “neoliberalismo”. Agora, que aparentemente caiu a ficha, e o PT começa a privatizar o que encontra pela frente. Incapazes de reconhecer o quanto atrasaram a infraestrutura do país e o quanto atrapalharam os governos anteriores, os petistas proclamam que agora, as “concessões” atentem ao interesse público, ao passo que antes, elas atendiam ao interesse das empresas.

Retórica para enganar bobos. Todas as concessões atendem ao interesse público porque o desempenho do setor privado é superior. E todas atendem aos interesses privados, inclusive as promovidas pelo PT, porque, caso contrário, as empresas não participariam das concorrências e dos leilões.

Alemão da Siemens nega denúncias contra tucanos de SP

Deu no site 247

O ex-executivo da Siemens, Everton Rheinheimer, entrou em contradição e agora nega ser o autor das denúncias que cita propina a políticos ligados aos governos tucanos em São Paulo, implicando os governadores Mário Covas, Serra e Alckmin diretamente no cartel de trens, segundo informa o site http://www.brasil247.com.br, que desde o início do atual episódio compra e vende a posição do governo e do PT contra o PSDB. Os tucanos paulistas reagiram duramente na sexta, avisaram que processarão o alemão e mostraram uma carta em que ele pede ao governo uma vaga na diretoria da Vale em troca da delação. O desmentido de Rheinheimer compromete o PT, o ministro da Justiça e o presidente do Cade, que teriam produzido a armação toda. Leia mais sobre os desmentidos:

A Polícia Federal recebeu do gabinete do ministro da Justiça Eduardo Cardozo o documento que teria sido assinado pelo ex-executivo. Até esta quinta-feira, a informação divulgada pelo governo e pelo PT era de que a denúncia tinha sido entregue ao Cade pelo deputado do PT, Simão Pedro, mas isto era mentira, segundo reconheceu ontem o ministrro, que disse que foi ele quem entregou tudo ao seu subordinado do Cade. Rheinheimer teria feito acordo com o Cade de delação premiada. Agora ele nega tudo.

O presidente do Cade, o ministro, o deputado do PT, o alemão – todos mentiram. Ninguém sabe quem investigará e punirá os mentirosos, já que a PF também é subordinada ao ministro.

No relatório enviado no dia 17 de abril ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), Rheinheimer disse que o hoje secretário da Casa Civil do governo Alckmin, deputado licenciado Edson Aparecido (PSDB), foi apontado pelo lobista Arthur Teixeira como recebedor de propina das multinacionais suspeitas de participar do cartel de trens na capital paulista entre 1998 e 2008. O deputado Arnaldo Jardim (PPS), ligado aos tucanos paulistas, também é citado como beneficiário.

Mas em nota divulgada nesta sexta-feira, o ex-diretor da multinacional alemã volta atrás.

“Vejo-me na obrigação de esclarecer que os documentos devassados e as informações publicadas como se fossem de minha autoria foram distorcidos e não condizem com a realidade”, diz. Ele acrescenta que não será “suscetível a eventuais pressões ou discussões políticas paralelas à apuração da verdade”.

(enviado por Delmiro Gouveia)

A força dos hinos

01

Tostão (O Tempo)

Quando vi toda a torcida francesa, emocionada, cantando o belíssimo e vibrante hino do país, “A Marselhesa”, antes e durante a partida contra a Ucrânia, tive a sensação que tinham aumentado as chances de a França se classificar para a Copa, mesmo com a desvantagem de dois gols. A mesma percepção tive na final da Copa de 1998. Estava no estádio. Lamentável foi escutar os franceses vaiando o hino da Ucrânia.

Quando os torcedores brasileiros começaram a cantar o hino na Copa das Confederações, e a euforia, uma tempestade, se espalhou entre os jogadores e por todos os estádios, percebi que eram grandes as chances do Brasil. O técnico Vicente del Bosque disse que a Espanha perdeu o título no hino.

Os torcedores brasileiros separaram a seleção em uma disputa esportiva dos protestos contra os absurdos gastos públicos no Mundial. Algo parecido ocorreu na Copa de 1970, quando um grande número de pessoas, revoltadas com a ditadura, que torceriam contra, ficaram arrepiadas com o time brasileiro.

Muitos vão argumentar que, na Copa de 1950, ocorreu o contrário. Mas, estatisticamente, as possibilidades de uma seleção de tradição vencer em casa são grandes, ainda mais quando o time é bom, como o do Brasil.

O hino nos estádios, quando cantado com o coração saindo pela boca, é como uma faísca em um barril de pólvora.

Exageros à parte, o escritor Stefan Ezweig, no livro “Momentos decisivos da humanidade”, conta, em várias histórias, como um instante, um olhar, um sim ou um não, muda a história de um indivíduo, de um grupo, de uma nação. Um dos capítulos é sobre como um músico insignificante, em um momento genial, compôs a Marselhesa.

Assim é também no futebol. Por causa de um instante, uma bola perdida, uma indecisão, como a de Julio Cesar, contra a Holanda, no Mundial de 2010, o melhor goleiro do mundo na época passa a ser tratado como um frangueiro, e Dunga, que tinha 80% de aprovação antes da partida, passa a ter traços. Felipão, chamado hoje de super-herói, corre o mesmo risco. É cruel.

O Chile, mais uma vez, jogou bem e perdeu para o Brasil. Valdívia parecia um jogador de Série B e/ou um ex-atleta inativo. É um suicídio jogar com os defensores quase na linha do meio-campo, ainda mais com zagueiros fracos, contra os velozes e hábeis Neymar, Oscar e Hulk. Isso facilitou também para Robinho, quando entrou descansado.

Mestre Juca, já gostei mais de Robinho. Penso que todos nós, imprensa e torcedores, ao constatarmos, ao longo do tempo, que Robinho não era um craque, apenas um bom ou, às vezes, um excelente jogador, nos sentimos decepcionados e traídos. O erro foi nosso, de avaliação. Robinho é extremamente habilidoso, mas possui várias deficiências técnicas, principalmente na finalização.

MUNDIAL

Será determinante para o Atlético jogar o Mundial de Clubes da Fifa com o time completo, com Ronaldinho, Réver e Fernandinho, além de outros titulares, como Josué e Pierre. Os dois volantes atleticanos são excepcionais no desarme, por serem muito rápidos, ainda mais se enfrentarem o Bayern de Munique, um time com magistral troca de passes no meio-campo.

Difícil será o lateral-direito do Galo, Marcos Rocha marcar Ribery. Ele terá de ter a proteção de um meia pelo lado. Luan é bom para isso. Como o Bayern avança e marca mais à frente, o Atlético, em contra-ataques rápidos, com a qualidade do time, pode surpreender a equipe alemã, se os dois fizerem a final.

Pela verdade, enternecida, para Jorge Béja e Fernando Orotavo

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Helio Fernandes

Em 1942, o general MacArthur, comandante das Filipinas, estava encurralado. Recebeu ordens do general Marshall (que comandava todas as forças militares dos EUA) para se retirar. Recusou, “ficarei aqui, até o fim”. Marshall, que tinha ligação direta com a Casa Branca, falou com Roosevelt. Este ligou logo para MacArthur, ordenou: “Saia imediatamente”. Não pôde recusar, saiu, deixou a frase famosa: “Eu voltarei”.

Como a história se repete, também voltei. Mas pela amizade e admiração que tenho pelos dois, e considerando que aquilo que os dois escreveram não pode ficar com espaço vazio no lugar onde deveria estar a resposta. Mas como a volta é rigorosamente transitória, aproveito para fazer um apelo aos dois, como reciprocidade ao carinho, amizade e admiração que existe entre nós.

O que eu preciso ou peço: que Béja e Orotavo, como advogados, convençam ao CN que ele está cometendo crime de “apropriação indébita” do meu nome. E também de “exploração da imagem histórica e jornalística da Tribuna da Imprensa”.

BLOG DO CN

As razões não precisam nem de explicação, só existe um fato: há meses e meses digo ao CN que não quero escrever mais, insisto que ele faça o Blog próprio. Mas tirasse tudo que indicasse meu nome ou da Tribuna, e fizesse o “Blog do CN”. Não pode usar meu nome e minha vida, contra a minha vontade.

Insistiu na deslealdade, eu “continuava” longe, mas presente pela usurpação. Até que surgiu com a “invencionice” (que é a invenção humilhada) da “demissão com aviso prévio”, uma forma de aparecer como vítima e continuar imaginando que minha imagem é propriedade dele.

Béja e Orotavo, só quero reaver o que é meu, o CN nem será prejudicado. Ele fica com o espaço, é só colocar no alto o nome dele, e perseverar na conquista da glória fugaz e nada altaneira.

Isso pode ser feito em cinco minutos, a recuperação de uma vida jornalística que levou dezenas de anos para existir. Só isso, nada mais do que isso.

Em 1886, Pedro II pediu ao primeiro-ministro Ouro Preto que convidasse Rui Barbosa para ministro da Justiça. Resposta de Rui: “Por favor, diga ao Imperador que estou empenhado num movimento que será realizado com ele, se for possível, ou sem ele, se for necessário”. Era a República.

Ficarei livre do Blog com vocês, de forma cordial, ou sem vocês, da forma que for possível. Mas quero a minha liberdade de escrever ou deixar de escrever, única e exclusivamente obedecendo à minha vontade.

A BAIXARIA DE 70 POR CENTO
DOS COMENTARISTAS

Usaram o que bem entenderam para me atingir, não conseguiram. Agora podem insistir, nem saberei. Quando participava do Blog, quase não o acessava, por isso não discutia ou debatia com ninguém, como fazia na Tribuna. Agora, exaltam “este espaço de liberdade único”, mas agridem seu criador. Nenhum ressentimento, aborrecimento, arrependimento.

Amaldiçoam até a minha idade, dizem que estou caquético, envelhecido, deixei de ser lúcido. Ora, vou completar 93 anos não demora, e me sinto cada vez mais à vontade, pensando, comentando, escrevendo. Mas lógico, estou tão lúcido, que olhando a minha carteira de identidade, admito sem revolta: este pode ser o meu último texto.

Afinal, quem chegou ou vai chegar a 93 anos? Mas posso dizer como está no título da autobiografia de Pablo Neruda: “Confesso que vivi”. Isso nenhuma baixaria ou espírito de vingança pode esquecer.

COMENTARISTAS
SEM INFORMAÇÃO

Dizem que estou deixando o Blog por causa das críticas ao PT. Ora, jamais falei ou estive perto de Lula, Dirceu, Genoino, Dilma e todos os outros. Sobre Lula, o mínimo que escrevi e reescrevo: “Ele deveria ser réu do mensalão, sabia de tudo, e não há corrupto sem corruptor”. Procurem saber, a frase está na moda, das minhas inexistentes relações com o PT.

Usam contra mim até o fato de ter ficado órfão de pai com 7 anos, e de mãe, com 9 anos. Isso nem Freud explica, pode ser contra ou a favor. No início, nem tinha idade para entender. Depois, as explicações ficam para o “destino”, que é inexplicável.

Mas a ausência ou presença dos pais daria quilômetros de reflexões, nenhuma definitivamente conclusiva ou definitiva.

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PS – Chega, tenho mais o que fazer. Acusam até o que chamam de minha vaidade. Vaidoso é FHC, que disse adorar os fenícios, só porque eles inventaram o espelho. Vaidosos não combatem ditaduras, aderem a elas.

PS2 – Fizeram restrições até ao Millôr, pelo fato dele não estar mais aqui, apesar de ser o único eterno entre todos nós. Eclético, ético, enciclopédico, além do mais Millôr era genial em tudo. Da sua geração e de outras gerações, que portento.

PS3 – Estou tão lúcido, que semana passada dei um depoimento para a televisão, dirigido pelo maior documentarista do Brasil. Sobre ditadura e democracia. Falei 2 horas e 10 minutos, sem interrupção.

PS4 – Terminada, ele disse, “que memória, que vivência”. A mesma coisa que falou e escreveu Mauricio Azedo (traído por este Blog), quando dei entrevista para o Jornal da ABI, no primeiro exemplar sob sua direção. Publicou em 16 páginas, leiam o prefácio que o Azedo (grande figura) escreveu depois deste repórter falar durante 5 horas.

PS5 – Divirtam-se.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG – Infelizmente, os juristas Jorge Béja e Fernando Orotavo Neto não poderão atender ao Helio Fernandes. Motivo: em artigo publicado aqui no Blog, eu já havia anunciado publicamente que cederia graciosamente ao HF, ao seu bastante procurador RMP e às duas empresas que os procuraram para fazer um novo blog ou site, todos os direitos sobre os domínios deste Blog, que me pertencem desde 2009. Mas só posso fazê-lo depois do dia 20, pois ainda não fui oficialmente dispensado de cumprir o aviso prévio previsto em lei. E para concluir: faltou HF me acusar de tê-lo tornado refém e o obrigado a escrever artigos e mais artigos, esses anos todos, postando uma arma na cabeça dele. (C.N.)

A importância da espiritualidade para a saúde dos seres humanos

01Leonardo Boff

Via de regra, todos os operadores de saúde foram moldados pelo paradigma científico da modernidade, que operou uma separação drástica entre corpo e mente e entre ser humano e natureza. Criou as muitas especialidades que tantos benefícios trouxeram para o diagnóstico das enfermidades e também para as formas de cura. Reconhecido esse mérito, não se pode esquecer que se perdeu a visão de totalidade: o ser humano inserido no todo maior da sociedade, da natureza e das energias cósmicas, a doença como uma fratura nessa totalidade e a cura como uma reintegração nela.

Há uma instância em nós que responde pelo cultivo dessa totalidade, que zela pelo eixo estruturador de nossa vida: é a dimensão do espírito.

Neurobiólogos e estudiosos do cérebro identificaram a base biológica da espiritualidade. Ela se situa no lobo frontal do cérebro. Verificaram empiricamente que sempre que se captam os contextos mais globais ou ocorre uma experiência significativa de totalidade, ou também quando se abordam de forma existencial (não como objeto de estudo) realidades últimas, carregadas de sentido e que produzem atitudes de veneração, de devoção e de respeito, se verifica uma aceleração das vibrações em hertz dos neurônios aí localizados. Chamaram esse fenômeno de “ponto Deus” no cérebro ou de emergência da “mente mística” (Zohar, Q. S., “Inteligência Espiritual”, 2004). Trata-se de uma espécie de órgão interior pelo qual se capta a presença do Inefável dentro da realidade.

Esse “ponto Deus” se revela por valores intangíveis, como mais compaixão, mais solidariedade, mais sentido de respeito e de dignidade. No termo, espiritualidade não é pensar Deus, mas sentir Deus mediante esse órgão interior e fazer a experiência de sua presença e atuação a partir do coração. Ele é percebido como entusiasmo (em grego, significa ter um deus dentro) que nos toma e nos faz saudáveis e nos dá a vontade de viver e de criar continuamente sentidos de existir.

Que importância emprestamos a essa dimensão espiritual no cuidado da saúde e da doença? A espiritualidade possui uma força curativa própria. Não se trata de forma nenhuma de algo mágico e esotérico. Trata-se de potenciar aquelas energias que são próprias da dimensão espiritual, tão válidas como a inteligência, a libido, o poder e o afeto, entre outras dimensões do humano.

ENERGIAS REGENERATIVAS

A espiritualidade reforça na pessoa, em primeiro lugar, a confiança nas energias regenerativas da vida, na competência do médico e no cuidado diligente da enfermeira. Sabemos pela psicologia do profundo e do transpessoal o valor terapêutico da confiança na condução normal da vida.

Não raro, os próprios médicos se surpreendem com a rapidez com que alguém se recupera, ou mesmo como situações, normalmente dadas como irreversíveis, regridem e acabam levando à cura. No fundo, é crer que o invisível e o imponderável são parte do visível e do previsível.
Pertence também ao mundo espiritual a esperança imorredoura de que a vida não termina na morte, mas se transfigura através dela.

Força maior, entretanto, é a fé de sentir-se na palma da mão de Deus. Entregar-se, confiadamente, à sua vontade, desejar ardentemente a cura, mas também acolher serenamente sua vontade de chamar-nos para si: eis a presença da energia espiritual. Não morremos, Deus vem nos buscar e nos levar para onde pertencemos desde sempre, para a sua Casa e para o seu convívio. Tais convicções espirituais funcionam como fontes de água viva, geradoras de cura e de potência de vida. É o fruto da espiritualidade. (transcrito de O Tempo)

Relacionamento entre Barbosa e o juiz da vara de Execuções Penais era mesmo problemático

Deu no Correio Braziliense

O relacionamento esta mesmo conturbado entre o presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, e o titular da Vara de Execuções Penais, responsável pelas prisões dos condenados no mensalão, até ser afastado para outra vara do Tribunal de Justiça do Distrito Federal.

Barbosa vinha dizendo a pessoas próximas que o juiz estava atrapalhando o andamento dos trabalhos de conclusão da Ação Penal 470 e chegou mesmo a criticar o tamanho da vaidade de Ademar de Vasconcelos. O juiz, por sua vez, reclamava que o presidente do STF estaria usurpando a sua competência para definir o dia a dia dos presos no complexo da Papuda.

Entre colegas de Vasconcelos, havia uma avaliação de que o juiz poderia até pedir para se afastar do processo, alegando suspeição. Nessa hipótese, teria o direito de não dar explicações sobre suas motivações. Ao mesmo tempo, o magistrado vinha sendo aconselhado a se manter à frente do caso e se submeter às diretrizes do presidente do STF, como forma de evitar uma crise entre o Tribunal de Justiça do DF e o STF.

As rusgas entre os dois já haviam sido evidenciadas em público. No despacho de Barbosa, em que concedeu o tratamento domiciliar ou hospitalar ao ex-presidente do PT José Genoino, o presidente do STF ressaltou que houve contradições entre o que foi repassado pelo gabinete do juiz Vasconcelos, na noite da última quarta-feira, e as informações que o magistrado deu por telefone ao presidente do Supremo no dia seguinte. Primeiro, Barbosa foi informado de que não era preciso que Genoino fosse hospitalizado. Depois, de que o deputado precisava de internação.

A solução foi substituí-lo pelo juiz Bruno Ribeiro, que já estava atuando na Vara de Execuções Penais.

Ex-diretor da Siemens afirma ter provas que envolvem tucanos em cartel

Paulo de Tarso Lyra
Correio Braziliense

Uma denúncia feita pelo ex-diretor da Siemens Everton Rheinheimer ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), em abril deste ano, sacudiu o ninho tucano em São Paulo a menos de um ano das eleições estaduais. Everton, de acordo com matéria publicada ontem pelo Estado de S.Paulo, afirma que secretários próximos ao governador Geraldo Alckmin (PSDB) receberam propina no escândalo do cartel dos trens em São Paulo, entre os anos de 1998 a 2008.

O ex-diretor da multinacional garantiu ter documentos que comprovam o esquema de corrupção. Ele cita como beneficiários o chefe da Casa Civil do governo Alckmin, Edson Aparecido, o senador Aloysio Nunes Ferreira (SP), o secretário de Minas e Energia de São Paulo, José Aníbal, o secretário de transportes metropolitano, Jurandir Fernandes e o secretário de Desenvolvimento Econômico, Rodrigo Garcia.

A denúncia feita por Everton afirma ainda que o ex-governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda e o atual vice-governador Tadeu Fillipelli teriam envolvimento com a MGE Transportes (Caterpillar), apontada pelo Ministério Público como uma outra rota das propinas. Por intermédio de sua assessoria, Arruda afirmou que “não conhece a suposta empresa, os envolvidos no caso e jamais teve qualquer relação com nenhum dos envolvidos nas investigações”.

O vice-governador Tadeu Fillipelli entrou ontem com uma interpelação judicial contra Everton Rheinheimer. Em nota, negou “conhecer ou ter qualquer tipo de contato com o autor dessa suposta denúncia ou com a empresa citada pelo denunciante.”

O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, solicitou ao Cade cópia do relatório para apurar as denúncias. Ele negou, contudo, que pretende afastar os secretários citados na denúncia feita pelo ex-diretor da Siemens. “Não tem sentido fazer afastamento se [o governo] não teve nem acesso aos documentos”, afirmou.

PROCESSOS

Os demais tucanos foram bem mais incisivos que Alckmin. “Eu vou interpelar esse senhor judicialmente. Eu não o conheço, não sei quem ele é nem nunca ouvi falar nesse suposto lobista Arthur Teixeira (dono da Procint Projetos e Consultoria Internacional)”, protestou Edson Aparecido.

Aparecido afirma ainda que existe um caso claro de tráfico de influência, já que Everton reuniu-se duas vezes com o deputado estadual Simão Pedro (PT) e com o presidente do Cade, Vinícius Carvalho, para acertar detalhes do “acordo de leniência firmado entre a Siemens e o órgão. Em troca, tentaria uma vaga de diretor-executivo da Vale. “Vou processar o Simão Pedro e o presidente do Cade”, prosseguiu o chefe da casa civil de Alckmin.

O secretário de Minas e Energia, José Aníbal, também disse que processará o ex-diretor da Siemens. “De mim ele vai receber o tratamento que merece. Construí minha vida pública com posições em defesa do interesse público e da população, sempre. Quero vê-lo onde ele estará cedo ou tarde: na cadeia.”

Já o senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP) informou por meio de nota, que o jornal O Estado de São Paulo cometeu um erro na primeira página da edição dessa quinta-feira ao tratar das apurações sobre o cartel do metrô de São Paulo. O texto explica que o senador foi questionado se teve estreito relacionamento com Arthur Teixeira, da Procint Projetos e Consultoria Internacional. Aloysio afirmou ter conhecido Teixeira à época em que foi secretário dos Transportes Metropolitanos, entre 1991 e 1994, e teve com sua empresa, entre muitas outras do setor ferroviário, relações estritamente profissionais. Mas negou qualquer relação com o empresário.

“Construí minha vida pública com posições em defesa do interesse público e da população, sempre. Quero vê-lo onde ele estará cedo ou tarde: na cadeia”, José Aníbal, secretário de Minas e Energia de São Paulo

PROPINAS

O cartel dos trens de São Paulo foi descoberto a partir de um acordo de leniência feito pela Siemens, em maio deste ano, com o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). A multinacional admitiu participar de um esquema de cartel para obter contratos metroferroviários em São Paulo e no Distrito Federal.

Em troca da delação do cartel, a empresa espera reduzir eventuais penas. Além da combinação de preços envolvendo as empresas Siemens, Alstom, Bombardier e Caterpillar, há suspeitas de pagamentos de propinas a agentes do governo paulista, administrados pelos tucanos desde 1995. O esquema teria sido colocado em prática em cinco contratos assinados entre agosto de 2000 e maio de 2007, e teria aumentado em 30% o preço das obras, ou R$ 577,5 milhões. Com o superfaturamento, esses contratos teriam atingido R$ 1,9 bilhão, em valores atualizados.

Após o acordo feito com o Cade, a Polícia Federal encaminhou a denúncia à superintendência em São Paulo para apurar a atuação da organização criminosa. Até o surgimento da recente denúncia feita pelo ex-diretor da Siemens Everton Rheinheimer, apenas nomes administrativos tinham aparecidos como beneficiários das supostas propinas, como o consultor Arthur Teixeira e o ex-diretor de operações da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos) João Roberto Zaniboni.

Ministério pÚBLICO PÕE FIM AO FESTIVAL DE VISITAS AOS MENSALEIROS

Militantes saudaram parlamentares que visitaram os presos na quinta-feira

Olívia Florência
Correio Braziliense

A partir de hoje, o Ministério Público efetivará a recomendação, que publicou na última quinta-feira, em que pede o cumprimento das normas de isonomia de tratamento dos visitantes do sistema prisional. O órgão exige que todos sejam tratados igualmente.

O texto é uma resposta à semana incomum no Complexo Penitenciário da Papuda onde se encontram os presos do processo do mensalão. Desde que foram detidos, os condenados receberam visitas em dias aleatórios, descumprindo assim, as normas do regimento. A ação do MP torna-se ainda mais evidente depois que a administração do complexo prisional sugeriu que os réus tenham um dia de visita diferente dos demais detentos, às sextas-feiras.

A maioria dos internos da Papuda é autorizada a receber visitas apenas nas quartas ou nas quintas-feiras, das 9h às 15h. Com um dia de antecedência, as famílias já começam a fazer fila na frente do presídio para pegar a senha e garantir algumas horas com os detentos. Os mensaleiros, como o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu, o ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares, o ex-deputado federal Romeu Queiroz (MG), têm recebido familiares, advogados e políticos diariamente. Entre os visitantes da última semana, estavam o deputado federal Zezéu Ribeiro (PT-BA) e os senadores Humberto Costa, Jorge Viana, Paulo Paim, Wellington Dias, José Pimentel e Eduardo Suplicy. A regalia também valeu para os condenados do caso que estão em outros presídios do Distrito Federal.

O Ministério Público informou, por meio de nota, que o regime de visitas é regulamentado pela Subsecretaria do Sistema Penitenciário (Sesipe) e listou as exigências para a visitação, tais como cadastro prévio, roupa adequada, procedimentos de revista, horários e datas fixadas e número máximo de visitantes. O texto da recomendação ainda diz que a fiscalização dos estabelecimentos cabe às Promotorias de Execuções Penais do Distrito Federal.

O ideal da vida, na visão poética de Raul de Leôni

O advogado e poeta Raul de Leôni (1895-1926), nascido em Petrópolis (RJ), expressa no soneto “ Legenda dos Dias” o cotidiano do Homem atrás do ideal da vida, onde a eterna esperança possa estar no dia seguinte.

LEGENDA DOS DIAS
Raul de Leôni
O Homem desperta e sai cada alvorada
Para o acaso das cousas… e, à saída,

Leva uma crença vaga, indefinida,
De achar o Ideal nalguma encruzilhada…
As horas morrem sobre as horas… Nada!
E ao poente, o Homem, com a sombra recolhida,
Volta, pensando: “Se o Ideal da Vida
Não veio hoje, virá na outra jornada…Ontem, hoje, amanhã, depois, e, assim,
Mais ele avança, mais distante é o fim,
Mais se afasta o horizonte pela esfera;

E a Vida passa… efêmera e vazia:
Um adiamento eterno que se espera,
Numa eterna esperança que se adia…

         (Colaboração enviada por Paulo Peres –  site Poemas & Canções)

Regalias de mensaleiros recebem críticas de quem se dedica a ajudar os presos mais pobres

Renata Mariz
Correio Braziliense

Da ordem de prisão imediata às condições do cumprimento da pena, não faltaram críticas e revolta. O encarceramento dos condenados mais famosos do processo do mensalão fez petistas bradarem contra as “ilegalidades” cometidas no ato. Esqueceram-se, entretanto, de que as cadeias brasileiras são verdadeiras “masmorras medievais”, como atestou o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo. Ciente do problema, o governo do PT, há 11 anos no poder, fez pouco para mudar o quadro. Dos R$ 3,9 bilhões para investir nos presídios desde 2003, só aplicou R$ 1,8 bilhão (46% do total).

À falta de apoio federal somaram-se a incompetência e o desinteresse dos estados, resultando em uma população carcerária de 548 mil pessoas em espaços que só poderiam abrigar 345 mil, aos quais faltam condições mínimas de vida digna.

O ex-ministro da Casa Civil José Dirceu e o ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares não estão sozinhos na queixa por unidades de regime semiaberto. Só no Complexo da Papuda, onde a dupla cumpre pena, 916 detentos também aguardam, só que alojados em um bloco para o regime fechado. Já os mensaleiros célebres foram colocados no Centro de Internamento e Reeducação (CIR), unidade própria para apenados de semiaberto sem trabalho externo autorizado.

PRISÃO CAUTELAR

A reclamação de estar atrás das grades antes de analisados todos os recursos na Justiça — embora as prisões decretadas pelo Supremo Tribunal Federal tenham sido apenas para os crimes com possibilidade esgotada de apelação — também é compartilhada por nada menos que 195 mil presos provisórios no Brasil, o equivalente a 35% da massa carcerária. “A regra no país é a prisão cautelar para as pessoas mais pobres”, critica Douglas de Melo Martins, coordenador do Departamento de Monitoramento e Fiscalização do Sistema Carcerário do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

Brancos capitalistas e negros operários

Marlucio Luna (UOL)

O conceito de democracia racial, durante décadas, serviu de disfarce para o racismo no Brasil. O movimento negro, surgido na República Velha, passou por diversas fases. Viveu o desejo de integração à sociedade, buscou a afirmação de identidade e chegou ao século XXI defendendo a preservação de valores culturais, bem como a implementação de políticas compensatórias. Joel Rufino dos Santos – historiador, professor universitário, escritor agraciado com o Prêmio Jabuti em 1979 (categoria Literatura Infantil) e em 2008 (categoria Literatura Juvenil) – é um dos grandes estudiosos da cultura afro-brasileira. Nesta entrevista, ele analisa a trajetória do movimento negro, fala sobre o caráter racista da sociedade brasileira e destaca a necessidade de ajustes na política de cotas raciais.

Como o senhor avalia a trajetória do movimento negro brasileiro?

Podemos dizer que o movimento negro nasce na República Velha, dentro da perspectiva de integrar o negro à sociedade. Essa lógica vai guiar posteriormente a Frente Negra, movimento social que reunia negros liberais, getulistas e até mesmo integralistas. Ela surgiu no início da década de 1930, tendo como objetivo combater o racismo e lutar por melhores condições de trabalho, saúde e educação para a população negra. Para tanto, era estimulada a fundação de clubes, associações e entidades que apresentassem o negro como cidadão cumpridor de seus deveres e detentor de direitos.

Essa foi a visão incorporada pelas escolas de samba naquele período.

Exato. Paulo da Portela promove uma profunda transformação no universo das escolas de samba. Ele diz que sambista deve ter pescoço e pés cobertos. Isso significa que o lenço de seda e tamanco típicos do malandro dão lugar ao sapato e ao colarinho fechado. A própria escola de samba se organiza de maneira institucional, buscando reconhecimento e aceitação por parte da sociedade. Paulo da Portela adota o “bom-mocismo” como estratégia para trazer também o branco para dentro da escola de samba. Assim vemos o aparecimento do enredo, a entrada do poder público na organização dos desfiles e a disputa por títulos.

(…)

O “ponto de virada” ao qual o senhor se refere é influenciado pelo movimento negro americano?

Eu diria que a transformação no seio do movimento negro brasileiro recebe influência direta de dois elementos importantíssimos: o black soul dos Estados Unidos e as lutas de libertação na África. Torna-se importante conhecer a história da África e da luta contra a escravidão. Depois de décadas de primazia da ideia de democracia racial, ganha força a percepção de que há uma grave situação a ser enfrentada.

Como assim?

O sociólogo Octavio Ianni dizia que quem estudasse as relações raciais no Brasil estaria contando a história do Brasil. Na década de 1970, havia um grande debate sobre a suposta alienação dos negros brasileiros, em função das referências da cultura americana – música e roupa, por exemplo. Eu, particularmente, achava essa influência positiva. A estética e o discurso estavam juntos. A experiência dos negros americanos podia ser, sim, útil para os brasileiros. A identidade que se afirmava era antes de tudo a do negro, independentemente de ser americano ou brasileiro.

(…)

A sociedade brasileira é racista?

Gosto de trabalhar com três conceitos: preconceito, discriminação e racismo. Preconceito existe em toda parte do mundo e é a manifestação branda do racismo. A discriminação carrega em si a ideia de monopólio do papel social. Quer um exemplo? A visão estabelecida de que cabe ao branco mandar e ao negro cumprir tarefas. Já o racismo é mais profundo. Ele é um elemento estruturante da sociedade brasileira.

Em que sentido?

O Brasil se estruturou como república a partir da separação entre brancos (capitalistas e proprietários) e negros (operários ou membros do exército de mão de obra de reserva). Os últimos 100 anos acentuaram as consequências do racismo. Volto ao exemplo do mercado de trabalho e as suas ocupações. A tecnoburocracia dos altos escalões não tem negro. A ele restam as atividades menos sofisticadas. Cito o meu caso como exemplo. Eu era o único negro entre os professores na pós-graduação da área de humanas na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).


Entrevista enviada por Sergio Caldieri. Leia na íntegra na História Viva 121

http://www2.uol.com.br/historiaviva/reportagens/brancos_capitalistas_e_negros_operarios.html

Barbosa consegue afastar juiz responsável pela execução das penas do mensalão

Deu no Correio Braziliense

O juiz Ademar Silva de Vasconcelos, titular da Vara de Execuções Penais (VEP), não é mais o responsável pela execução das penas da Ação 470, o mensalão.

Ele foi substituído por Bruno André Silva Ribeiro. Na última quinta-feira (21/11), um grupo de juízes do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios teria ido ao Supremo Tribunal Federal e comunicado a assessores do presidente Joaquim Barbosa, sobre a intenção de substituir Vasconcelos.

Esses juízes estariam insatisfeito com a forma como Ademar Vasconcelos vinha conduzindo as decisões relativas aos 11 presos do processo do mensalão.

OS MOTIVOS

Desde a última sexta-feira (22/11), todas as decisões relativas ao mensalão estão sob a responsabilidade de Bruno Ribeiro, que também é integrante da Vara de Execuções Penais. Dois fatos teriam aumentado a insatisfação de Barbosa em relação à forma como Vasconcelos conduzia o caso. O primeiro seriam contradições relacionadas ao estado de saúde do ex-presidente do PT, José Genoino, e o segundo fator uma entrevista que o petista concedeu ainda na Papuda a revista IstoÉ.Conforme o Correio havia antecipado, o relacionamento entre Barbosa e Ademar de Vasconcelos, era conturbado e havia forte pressão sobre o titular da VEP. A ponto de ser avaliada a possibilidade de afastamento do magistrado do processo ou até a remoção para outra vara do Tribunal de Justiça do Distrito Federal (TJDF).

Barbosa teria dito a pessoas próximas que o juiz está atrapalhando o andamento dos trabalhos de conclusão da Ação Penal 470 e chegou mesmo a criticar o tamanho da vaidade de Ademar. O juiz, por sua vez, tem reclamado de que o presidente do STF estaria usurpando a sua competência para definir o dia a dia dos presos no complexo da Papuda.

Portas fechadas ao mundo da inovação

Cristovam Buarque

A história oferece uma certeza: não tem passaporte para o futuro econômico e social o país que não for capaz de fazer parte do mundo da inovação. Para ingressar nesse mundo, o país deve abrir pelo menos cinco portas.

A primeira é ter universidades e institutos de pesquisas, públicos e privados, com padrões internacionais, convivendo com o setor produtivo em um robusto sistema nacional do conhecimento e da inovação, interagindo com os mais qualificados centros científicos e tecnológicos do mundo.

A segunda envolve as empresas. Não entra no mundo da inovação o país cujos empresários se limitem a produzir apenas o que é inventado fora, porque têm aversão a investimentos em pesquisas e desenvolvimento ou porque o setor público despreza a inovação ao não vincular seus financiamentos à criatividade da empresa. Para entrar no mundo da inovação, é necessário que os incentivos fiscais e financeiros exijam contrapartida criativa das empresas beneficiadas.

A terceira porta trata da estabilidade institucional. Não é possível o país ser inovador se professores e pesquisadores são obrigados a parar suas atividades por falta de recursos ou salários ou se leis instáveis mudam constantemente as regras de funcionamento dos centros de pesquisa. Da mesma forma, não há como um país ser inovador se seus empresários não souberem quais leis nortearão o funcionamento da economia, a política fiscal, o grau de abertura comercial e de intervenção estatal.

Uma quarta e decisiva porta para o mundo da inovação é a educação básica de qualidade máxima e equivalente para todas as crianças e jovens. Cada criança que não aprende idiomas, regras básicas das ciências e da matemática é um capital inovador interrompido.

UM SALTO PARA O FUTURO

Mas a mais necessária porta para o mundo da inovação é a vontade nacional de dar um salto para ingressar no seleto conjunto de países inovadores. O Brasil não parece ter a vontade necessária para fazer hoje os sacrifícios necessários para entrar em um mundo inovador daqui a 20 ou 30 anos. O país prefere dar isenções fiscais aos automóveis criados no exterior e fabricados aqui do que investir na criação de nossos carros e sistemas de transporte público. Prefere incentivar o aumento do consumo de energia elétrica por meio de isenções fiscais do que investir no desenvolvimento de fontes alternativas de energia. Prefere ser um celeiro de alimentos a ser uma fonte de novas tecnologias. Nossa mentalidade imediatista mantém fechadas as portas que nos separam do mundo da inovação.

Não há estadistas nem partidos que se proponham a conduzir o país nessa direção, com visão de futuro, carisma para mobilizar a opinião pública, competência política para conseguir os votos e os apoios necessários para abrir as portas que nos amarram no lado de cá, enquanto outros países menores e mais pobres estão avançando em direção ao futuro por meio da inovação.

A ética e a origem da vida

João Batista Libânio

Debate-se a origem da vida como se fosse simples problema científico. E ponto. No entanto, as posições, em última análise, esbarram em questões filosóficas e teológicas com graves repercussões éticas.

No princípio está o acaso, o aleatório, sem finalidade nenhuma. No jogo quase infinito de possibilidades, em dado momento, surge a vida. Mínima, frágil, desenvolve-se em bilhões de anos até que, acidentalmente, se complexifica e se centra de tal modo que desponta esse ser humano que somos. Filhos, portanto, do acaso e da necessidade.

Que ética da vida brota de tal compreensão do humano? Dificilmente se estabelece algum valor absoluto que se imponha a todos. Também ela se gesta nos acasos da existência. O ser humano descobre na batalha do “try and error” normas que o fazem feliz, que lhe facilitam o convívio e então, lentamente, cria éticas. Permanecem válidas enquanto cumpre a dupla função do bem individual e das relações humanas.

O espaço do arbitrário permanece amplo, já que a percepção dos indivíduos se torna o último critério de verdade. Nada existe além dele, já que ele mesmo surgiu de acasos evolutivos.

Filosoficamente, existe outro caminho. No princípio está o Espírito. Eterno, soberano, transcendente, preside o processo evolutivo, sustentando todos os seres no existir e potencializando-os na direção do ser humano. Teilhard de Chardin vai mais longe. Vê que tudo caminha para o ponto Ômega divino, já que veio do mesmo Alfa divino. Então, o ser humano descobre, ao longo da história, o caminho da felicidade e da convivência humana. E ele constrói também a ética. Mas já não por puro acaso, mas para responder à dimensão de transcendência que o habita e, portanto, maior do que ele e a que ele se submete. Na relatividade das descobertas históricas dos valores, percebe um Absoluto que não depende de seu arbítrio. Antes se lhe pinta como Algo maior, incontornável, injuntivo.

ABSOLUTO

Na linha teilhardiana, esse Absoluto não se reduz a alguma força ou poder transcendente sem mais. Tem nome. É pessoa. É mais ainda: é comunhão de amor. Vale então repetir a belíssima frase de L. Boff: “No princípio não está a solidão do UM, mas a comunhão dos Três”. O princípio último da ética se expressa na comunhão de amor trinitário que cria e chama o ser humano a mesmo tipo de vida. Viver em comunhão consigo, com os outros, com a natureza e com o Divino constitui o núcleo existencial do ser humano.

E à medida que historicamente ele concretiza e atualiza tal dimensão de existência, estabelece para si e para os outros princípios éticos. E os seres humanos reconhecem então neles não o acaso contingente, mas a tematização e a historização do Absoluto que se lhes impõe. A ética deixa o campo do puramente convencional para normatizar as condutas de vida dos humanos. E contrariá-la resulta não em simples culpabilidade exterior e julgada de fora, mas na negação de si mesmo, do Absoluto que o sustenta no existir e que o conforma ao chamado de vida e de comunhão com ele. A ética adquire a sublimidade do valor transcendente, apontando caminhos para a realização do ser humano na história e para além dela. (transcrito de O Tempo)

Condições objetivas de poder

Carla Kreefft

Eles não acreditavam! Um erro muito comum dos poderosos. Quem está no poder dificilmente consegue visualizar qualquer possibilidade de não o ter mais. Os mensaleiros, alguns já na cadeia, além do crime pelo qual foram julgados e condenados, cometeram um segundo equívoco. Eles acreditaram ser intocáveis. Não são, como na verdade ninguém é.

Mesmo em sistema ditatoriais, em algum momento, a justiça se faz presente. É claro que esse é um processo demorado e insuficiente para penalizar os criminosos na mesma intensidade e força de seus crimes. Mas a frase popular faz sentido: “Não há mal que não acabe”. É preciso reconhecer o esgotamento de qualquer situação de tensão.

A esquerda gosta muito de falar das condições objetivas. E qual seriam elas no caso do processo do mensalão? Talvez a mais importante seja o amadurecimento da sociedade brasileira. Não é mais aceitável que erros sejam repetidos sem penalização. A luta pelo fim da impunidade é real e já chegou às ruas.

Uma outra condição objetiva é a independência do Poder Judiciário. Certo ou errado, ele tem a liberdade de se posicionar com clareza e sem nenhum risco para si próprio ou para a sociedade.

TERCEIRA VIA

Ainda há uma terceira: em uma democracia, as pressões dos diversos setores da sociedade existem, são legítimas -– fazem parte da disputa pelo poder – e compõem sempre um cenário político. Então, essa história de que a força das elites brasileiras atuou para penalizar Lula e o PT deve ser verdade. O que não é verdadeiro é culpá-las por estarem exercendo um papel que é próprio delas. As elites vão defender seu espaço, tal como os trabalhadores.

Vivemos uma luta de classes, como em qualquer sociedade capitalista. O que não deve existir mais é a ilegalidade dos instrumentos da luta. Ou seja, trabalhadores e elite devem fazer o enfrentamento no palco da democracia, na disputa nas urnas e nos espaços de poder.

As condições objetivas não favoreceram os mensaleiros. E ainda é preciso reconhecer que essas condições existem também pelo esforço da esquerda brasileira. O que está acontecendo hoje é o exercício legal do papel institucional de cada um dos Poderes. Mas não é pelo fato de o PT ter contribuído e ainda contribuir para a democracia brasileira que o partido está autorizado a fazer tudo o que quiser. A força da lei vale para todos. Para tal, estão aí a Comissão da Verdade, o Ministério Público e o Poder Judiciário.

A aceitação do julgamento do mensalão é o primeiro passo para o reinício de uma outra fase. Isso não elimina o passado. Esses mesmos que agora estão na cadeia foram importantes para a redemocratização do país. Um ato não elimina outro. A história é feita de acúmulos e continuará a ser construída, com o sem o consentimento de cada um desses personagens. O país vai continuar andando. Essa certeza é a única que é possível ter neste momento. A vida não vai parar, e a dor pode ou não servir para alguma coisa. Alguns gostam de revisar, outros preferem esquecer e ainda há os que querem simplesmente o caminhar. Mas que fique ao menos uma leitura: ninguém é intocável porque poder não é para sempre. (transcrito de O Tempo)

AUMENTA A Pressão para tirar juiz responsável pelas prisões de mensaleiros

AdemarSilvaDeVasconcelosSergioLimaFolhaAna Maria Campos, Grasielle Castro, Leonardo Cavalcanti
(Correio Braziliense)

O juiz titular da Vara de Execuções Penais, responsável pelas prisões dos condenados no mensalão, Ademar Silva de Vasconcelos, está sob forte pressão para deixar o cargo. Uma guerra de nervos nos bastidores da Justiça pede a saída do juiz, que é considerado pelo presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Joaquim Barbosa, um entrave no andamento do cumprimento das penas da Ação Penal 470.

No despacho de quinta-feira, em que concede o tratamento domiciliar ou hospitalar ao ex-presidente do PT, José Genoino, Barbosa expôs que há desentendimento entre os dois. No documento, o presidente do STF diz que houve contradições entre o que foi repassado pelo gabinete do juiz da Vara de Execuções Penais, na noite de quarta-feira, e as informações que o juiz passou por telefone no dia seguinte.

Os desentendimentos entre Joaquim Barbosa e Ademar Vasconcelos começaram na quinta-feira (14), um dia antes das prisões dos mensaleiros. Segundo integrantes do Supremo, ao telefonar para a Vara, o presidente Joaquim Barbosa não teria encontrado o juiz titular e despachou os pedidos de prisão com o substituto Bruno André da Silva Ribeiro. Ao informar Ademar sobre o episódio, o titular teria ficado insatisfeito de não ter participado do procedimento. Ao ser procurado pelo Correio, o juiz Ademar Vassconcelos disse que não poderia dar entrevistas à imprensa: “Esse caso já me trouxe transtornos demais”.

Os EUA e o mundo

Gelio Fregapani

Desde o final da Guerra Fria os EUA detêm tal supremacia militar que lhes permite não ter escrúpulos em defesa de seus interesses. Isto não é novidade na História, quem tem o poderio de um Império Romano costuma agir como um Império Romano. Entretanto, nos próprios EUA se ouvem alertas de que esse rumo é insensato e que estariam sendo vistos como um Estado criminoso e até mesmo como “a grande ameaça externa às suas sociedades”.

Um novo cenário global vislumbra, se não uma redução do poderio dos EUA, ao menos a consolidação de outros centros de poder. Outros países desenvolverão armas nucleares próprias ou exigirão sua destruição total, pondo limites no poder absoluto norte-americano, até agora isento de seguir as normas que impõe aos outros.

A relativa ausência de notícias pode indicar que os EUA desistiram de interferir diretamente na Síria ou mesmo de atacar o Irã. Ainda é cedo para saber se é uma mudança de mentalidade ou o sinal de um maior equilíbrio de força .