Celso de Mello diz que Bolsonaro se julga um “monarca absolutista” que “desconhece o valor da vida”

Ex-ministro enviou mensagem a amigos criticando postura de Bolsonaro

Aguirre Talento
O Globo

 O ex-ministro do Supremo Tribunal Federal Celso de Mello enviou uma mensagem a amigos na qual fez duras críticas à atuação do presidente Jair Bolsonaro na pandemia da Covid-19, afirmando que o presidente “desconhece o valor da vida” por impedir a decretação de um lockdown nacional.

Aposentado do STF em outubro do ano passado, Celso tem se mantido afastado da vida pública desde então. Tem vivido em reclusão na sua residência em Tatuí (SP), sua cidade natal, mas fez esse desabafo a respeito do assunto.

DESGASTES DE NUNES – A vaga de Celso no Supremo foi ocupada pelo ministro Nunes Marques, indicado por Bolsonaro. Marques tem enfrentado desgastes dentro da corte após ter determinado, em uma decisão monocrática concedida no final de semana, a abertura dos cultos religiosos em meio ao recorde de casos e mortes da Covid-19.

O ex-ministro cita, em sua mensagem, o lockdown feito no município de Araraquara (SP), pelo prefeito Edinho Silva (PT), como exemplo bem-sucedido para o Brasil de combate à pandemia e elogia o fato de a medida ter seguido recomendações científicas das principais autoridades do mundo.

Após o fechamento das atividades, os casos e mortes na cidade foram reduzidos drasticamente. Especialistas têm defendido um lockdown nacional como única forma de frear o crescimento dos casos da Covid-19 e impedir o surgimento de novas variantes.

“MONARCA ABSOLUTISTA” – “Hoje, em nosso País, o Presidente da República (que julga  ser um monarca absolutista ou um contraditório ‘monarca presidencial’) tornou-se, com justa razão, o Sumo Sacerdote que  desconhece tanto o valor e a primazia da vida  quanto o seu dever ético de celebrá-la incondicionalmente !!! A sua arbitrária recusa em decretar o ‘lockdown’ nacional (como ocorreu em países de inegável avanço civilizatório) equivale a um repulsivo e horrendo ‘grito necrófilo'”, escreveu Celso de Mello.

A mensagem do ex-ministro foi revelada pelo site “Conjur” e obtida pelo O Globo. Esse grito necrófilo, explica o ex-ministro, refere-se a um fato histórico: “o conflito entre Miguel de Unamuno, Reitor da Universidade de Salamanca no início da Guerra Civil espanhola, em 1936, e o General Millán Astray, que, seguidor falangista fiel ao autocrata Francisco Franco, ‘Caudilho de Espanha’, lançou o grito  terrível  ‘¡Viva la Muerte; abajo la inteligencia’!”.

“Esse gesto insensato do Presidente da República , opondo-se ao ‘lockdown’ nacional, mostra-se, de um lado, próprio de quem não possui o atributo virtuoso do ‘statesmanship'”. A expressão pode ser traduzida como sentido de Estado ou qualidade de estadista.

NEGACIONISMO – Conclui na mensagem: “De outro lado, essa conduta negacionista torna imputável ao Chefe de Estado, em face de seu inqualificável despreparo político e pessoal, a nota  constrangedora e negativa reveladora daquela ‘obtusidade córnea” de que falava Eça de Queirós , em 1880, no prefácio da 3a. edição de sua obra ‘O Crime do Padre Amaro’, no contexto da célebre polêmica que manteve com o nosso Machado de Assis”.

No prefácio da terceira edição do seu livro, Eça de Queirós rebate críticas de que a obra seria cópia de outra, dizendo que isso só poderia ser dito por quem tem “obtusidade córnea” ou age de “má-fé cínica”.

13 thoughts on “Celso de Mello diz que Bolsonaro se julga um “monarca absolutista” que “desconhece o valor da vida”

  1. Vai depender de quais periódicos extraiu e formou sua base de informações!
    Hasta la vitória, siempre….e eis que quatro passos adelante, quedou-se estatelado!

  2. Há diferença entre Mao, Pol Pot, Stalin, Hitler, Kublai Khan-Mongólia, Imperatriz Cixi – China, Leopoldo 2º – Bélgica, Chiang Kai-shek, Gêngis Khan,
    Hideki Tojo, Saddan, Gadaffi, Bush e Obama?
    Todos, redutores populacionais, à “serviço”!

  3. Por que Celso não falou isso, quando a sua palavra tinha mais peso?
    Ou ele está imitantando Rodrigo Maia: só depois que Augusto Haras “mandou” Fachin limpar a ficha dele e do pai, o “porquinho defumado” ganhou goela?

  4. Bolsonaro deveria rechaçá-lo, alegando: “Eu sou um monarca eleito com 57 milhões de votos”.
    Vamos puxar para
    a etimologia: MONO (um) + ARQUI, ARCE (superior, maior). Em confrontação com Decisão Monocrática no STF (arbitrada por um agente isoladamente, não eleito pelo sufrágio popular). Monocrática, adjetivo feminino de MONOCRATA = MONO (um) + CRATO(A) (domínio, poder) = PODER UNITÁRIO.
    Qual dos dois é mais arbitrário?

  5. …podem pichar a vontade o Celso. Mas que ele tem razão, expresso como cidadão observador, não há a menor dúvida. Bozó é um negacionista genocida.

  6. Acham que a relação dele muito próxima àquele que alguns jornalistas e pessoas teimam em chamar de príncipe tem que propósito de fundo, senão reinstalar a Monarquia no Brasil (hein?)

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