Ciro concorre mesmo em São Paulo

Pedro do Coutto

Quem assistiu na noite de terça-feira, entre um intervalo e outro da novela Viver a Vida, os spots que couberam ao PSB colocar no ar utilizando a figura de Ciro Gomes, não pode ter dúvida de que será candidato ao governo de São Paulo para atrapalhar José Serra na sua principal base de votos. Logicamente não pode ser outra a interpretação, tais e tantos elogios fez às realizações do atual governo. Principalmente na construção de residências populares. Nenhum candidato que cogitasse pelo menos vir a disputar pela oposição faria tais e repetidos pronunciamentos.

Como transferiu o título eleitoral para São Paulo, ficou absolutamente evidente que está disposto a enfrentar o próprio Serra, se candidato à reeleição, o que não parece provável, ou então Geraldo Alckmin. É claro que a hipótese de vitória o interessa diretamente, uma vez que se coloca em posição de vir a disputar a presidência no futuro. Mas no presente, a intenção clara é a de abalar o PSDB, aliás já abalada pelas vacilações de Serra e o recuo explícito de Aécio Neves de disputar a vice-presidência.

O panorama assim aparece a cada dia mais favorável a Lula e Dilma Roussef, uma dupla que deu certo. Pelo menos até a chegada nas urnas. Depois serão outros tempos. Mas o afastamento da criatura e do criador, muito comum em política, no caso Lula-Dilma não parece tão fácil tal é o índice de popularidade e aprovação alcançado pelo presidente da República. Afinal de contas, romper, mesmo que parcialmente com tão grande contingente de apoio popular não é algo que se possa procurar fazer rapidamente. Nem mesmo a médio prazo. Pois ninguém tem bola de cristal para prever o futuro. Nem o próximo, quanto mais o distante.

Há vários casos de ruptura na política, o mais decisivo foi o verificado entre o governador Lucas Nogueira e Ademar de Barros, nas eleições de 55, quando Nogueira Garcez apoiado integralmente por Ademar, preferiu a candidatura de Jânio Quadros que derrotou Ademar em 54 para o governo de São Paulo. Com isso, mudou a história do Brasil, pois um ano depois, em 55, Jânio apoiou Juarez Távora, recebendo do presidente Café Filho o Ministério da Fazenda, Eugênio Gudin, e dos Transportes, Marcondes Ferraz. Resultado: em São Paulo, Ademar liderou com 840 mil votos, seguido de Juarez com 660 mil e JK com apenas 240 mil votos.

Não fosse a candidatura de Jânio, JK dificilmente em Minas teria descontado a vantagem de Ademar em São Paulo. Mas isso hoje pertence ao passado. No futuro próximo não haverá campo para uma divisão tão profunda tão poucos são os candidatos e, menos profunda a influência das lideranças. Em 55, houve ainda a candidatura de Plínio Salgado, 90 mil votos em São Paulo, além de 10 por cento de sufrágios brancos e nulos. O quadro atual é muito mais restrito. A campanha, mesmo com a televisão, é muito menos empolgante. Havia Carlos Lacerda que finalizou apoiando Juarez Távora, depois de tentar a candidatura de Etelvino Lins.

As divisões hoje são muito mais difíceis, inclusive porque a sigla PT transformou-se numa duplicidade: é, ao mesmo tempo, uma força sindical super organizada do que um partido muito bem estruturado sobre ela. A UNE, com a oposição que fazia em qualquer governo, desapareceu de cena. Hoje é uma entidade governamental. As divisões, hoje, são muito mais difíceis. Sempre haverá, mas não na dimensão do passado. O Palácio do Planalto parece ter absorvido todo o quadro político. Nacional e regional. É difícil derrotá-lo. Mais difícil ainda dividi-lo em correntes.

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