Cocaína vem da Bolívia, mas como chega aos morros?

Pedro do Coutto

Numa entrevista ao apresentador Roberto Canázio, Rádio Globo do Rio, tarde de quarta-feira, José Serra responsabilizou o governo Evo Morales, da Bolívia, por cumplicidade no narcotráfico ao permitir a exportação ilegal de cocaína para o Brasil. De 80 a 90 por cento do consumo nacional de cocaína vêm daquele país – acrescentou. O candidato do PSDB à presidência tentou, com isso, deslocar o debate sucessório para o plano internacional, deixando montada uma armadilha para Lula, formulando a suposição que Brasília tomasse o partido de La Paz num confronto entre suas declarações e a defesa do estado boliviano.

Mas Luis Inácio da Silva, intuitivo como é, dificilmente cairá nessa. Se não cair, o truque não sortirá efeito concreto. Fica na tentativa. Entretanto, o ministro – chefe da administração Morales, Oscar Coca – uma coincidência incrível de nome – rebateu as declarações do ex-governador. José Serra forçou mesmo a deslocação do debate sucessório, incluindo a América Latina em seu projeto. Tanto assim que disse que, se eleito, não transformará o Brasil numa nova Argentina. E acentuou, comparando Dilma Roussef à presidente Cristina Kirchner, que o eleitorado brasileiro precisa conhecer bem os candidatos antes de votar, para que não cometa o mesmo erro dos argentinos.

O Globo e O Estado de São Paulo focalizaram as afirmações de Serra, mas a melhor matéria disparado, foi a do repórter Sérgio Torres, Folha de São Paulo, manchete principal do jornal na edição de 27 de maio.

Ao abordar a exportação criminosa de cocaína da Bolívia para o Brasil, José Serra não errou. Porém ocultou a verdade total e ocultar a verdade não pode ser considerado um ato positivo. Ocultar dependendo do caso, pode ser até pior.

Vamos por partes. Em primeiro lugar, a cocaína vem da Bolívia, mas como ultrapassa as fronteiras com o Brasil? O produto ou vem de caminhão, ônibus, trem ou avião. Não existe policiamento, ou ele não funciona nessas áreas? Parece, ao que os sintomas indicam, tratar-se de uma corrupção binacional. Em segundo lugar, a cocaína da Bolívia só pode chegar ao Rio, cidade focalizada por Serra, por ferrovia, rodovia ou aeroporto. Assunto de competência da Polícia Federal. Seria o caso de ouvir a direção da PF para ver se ela possui mapas das rotas do tráfico. Mas a questão não termina ai. Em terceiro lugar, o tóxico chega à cidade por caminhos sinuosos, vá lá que seja. Entretanto, como chega ao alto dos morros? Um mistério, um enigma que precisa ser decifrado.

Precisa ser decifrado uma vez que as rodovias, ferrovias e aviões não podem chegar ao alto das favelas, é claro. Aliás dizer que a droga vem da Bolívia e que o governo do Rio de Janeiro não tem culpa, tornou-se através do tempo a mesma desculpa (falsa) colocada pelos governadores Leonel Brizola, Moreira Franco, Marcelo Alencar, Anthony Garotinho, Benedita da Silva, Rosinha Matheus e agora Sérgio Cabral.

É fácil e cômodo afirmar que a cocaína e as armas vêm de fora para os traficantes. Porém é difícil e incômodo reconhecer a omissão que permite a subida das drogas e das armas pelas íngremes ladeiras que levam ao topo dos morros. Representa a confissão de que os governos estaduais não conseguem fechar o anel em trono das favelas capaz de impedir a chegada da cocaína.

José Serra precisa levar em conta estes aspectos. A exportação é boliviana, mas a omissão é brasileira. Federal e estadual.

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