Como o patriarcado se impôs ao matriarcado há mais de 10 mil anos

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Ilustração de Duke (O Tempo)

Leonardo Boff
O Tempo

É difícil rastrear os passos que possibilitaram a liquidação do matriarcado e o triunfo do patriarcado, há 10 mil, 12 mil anos. Mas foram deixados rastros dessa luta de gêneros. A forma como foi relido o pecado de Adão e Eva nos revela o trabalho de desmonte do matriarcado pelo patriarcado. Essa releitura foi apresentada por duas conhecidas teólogas feministas, Riane Eisler e Françoise Gange.

Segundo elas, se realizou um processo de culpabilização das mulheres no esforço de consolidar o domínio patriarcal. Os ritos e símbolos sagrados do matriarcado são diabolizados e retroprojetados às origens na forma de um relato primordial, com a intenção de apagar totalmente os traços do relato feminino anterior.

PECADO ORIGINAL – O atual relato do pecado das origens, acontecido no paraíso terrenal, coloca em xeque quatro símbolos fundamentais da religião das grandes deusas-mães.
O primeiro símbolo a ser atacado foi a própria mulher (Gn 3,16), que na cultura matriarcal representava o sexo sagrado, gerador de vida. Como tal, ela simbolizava a Grande Mãe, a Suprema Divindade.

Em segundo lugar, desconstruiu-se o símbolo da serpente, considerado o atributo principal da Deusa Mãe. Ela representava a sabedoria divina que se renovava sempre, como a pele da serpente. Em terceiro lugar, desfigurou-se a árvore da vida, sempre tida como um dos símbolos principais da vida. Ligando o céu com a terra, a árvore continuamente renova a vida, como fruto melhor da divindade e do universo. Gênesis 3,6 diz explicitamente que “a árvore era boa para se comer, uma alegria para os olhos e desejável para se agir com sabedoria”.

E em quarto lugar, destruiu-se a relação homem-mulher que originariamente constituía o coração da experiência do sagrado. A sexualidade era sagrada, pois possibilitava o acesso ao êxtase e ao saber místico.

UMA INVERSÃO – Ora, o que fez o atual relato do pecado das origens? Inverteu totalmente o sentido profundo e verdadeiro desses símbolos. Dessacralizou-os, diabolizou-os e os transformou de bênção em maldição.

A mulher será eternamente maldita, feita um ser inferior. O texto bíblico diz explicitamente que “o homem a dominará” (Gen 3,16). O poder da mulher de dar a vida foi transformado numa maldição: “multiplicarei o sofrimento da gravidez” (Gn 3,16). A inversão foi total e de grande perversidade.

A serpente é maldita (Gn 3,14) e feita símbolo do demônio tentador. O símbolo principal da mulher foi transformado em seu inimigo fidagal: “porei inimizade entre ti e a mulher… tu lhe ferirás o calcanhar” (Gn 3,15).

PERIGO MORTAL – A árvore da vida e da sabedoria vem sob o signo do interdito (Gn 3,3,). Antes, na cultura matriarcal, comer da árvore da vida era se imbuir de sabedoria. Agora, comer dela significa um perigo mortal (Gn 3,3), anunciado por Deus mesmo. O cristianismo posterior substituirá a árvore da vida pelo lenho morto da cruz, símbolo do sofrimento redentor de Cristo.

O amor sagrado entre o homem e a mulher vem distorcido: “entre dores darás à luz os filhos; a paixão arrastar-te-á para o marido e ele te dominará” (Gn 3,16). A partir de então se tornou impossível uma leitura positiva da sexualidade, do corpo e da feminilidade.

Aqui se operou uma desconstrução total do relato anterior, feminino e sacral. Apresentou-se outro relato das origens, que vai determinar todas as significações posteriores. Todos somos, bem ou mal, reféns do relato adâmico, antifeminista e culpabilizador.

20 thoughts on “Como o patriarcado se impôs ao matriarcado há mais de 10 mil anos

  1. Luta de gêneros. ? Esse senhor prega a divisão ….
    A figura de Nossa Senhora nas Bodas de Caná nao diz nada?
    Que texto deprimente e tendencioso. Que decepção…

  2. Bofe escreveu: “Todos somos, bem ou mal, reféns do relato adâmico, antifeminista e culpabilizador”.

    Alem desses todos há tambem os loucos desvairados que fazem uso da palavra para moralizar a galera enquanto em casa solta a franga em frente ao espelho liberando o capeta que traz em si. Estes sao os dirigentes das TFP, vizinhos do FHC e dos banqueiros. Estes sao os falsos moralistas que escrevem essas merdas…

    ‘O cacete’, velhinho!!!!
    Nós não somos como os outros sãos.
    Vá pregar tachinha em jato d’água!

    • Seu André, conheço a TFP há 53 anos. Não é nada disso que sua imaginação fantasia. Um pouco de honestidade intelectual não dói. Creia.

  3. “O amor sagrado entre o homem e a mulher vem distorcido” no Gênesis. Caramba: o Boff ainda acredita que as mulheres atuais e minimamente cultas e independentes crêem no blá-blá-blá do antigo testamento e a ele se submetem. Este cara é uma piada.

  4. Até hoje não consigo entender que diabos é esse tal de “pecado original”? Só pode ser invenção dos “Doutores da Lei”, para assegurar o controle sobre os fiéis garantido pelo medo de uma danação eterna…

  5. Anunnaki, o pecado em Gên. é o desvio do alvo e o homem dignificado que foi com o livre arbítrio, escolheu a autodeterminação; o que envolve excluir Deus em sua legitimidade em estabelecer padrões de moral e assim, o primeiro Adão entendeu que podia construir o paraíso sem Deus. De fato, construiu diversos paraísos, mas em nenhum deles nos sentimos num lar, doce lar.
    O último Adão vem a terra com a promessa de reconstruir o que fora perdido e isto está compreendido na oração que ele ensinou e quando inseriu: “Venha o teu reino e seja a tua vontade feita aqui na terra.” Ele quando isto falou tinha plena consciência de que o seu Pai não criara a terra para um vazio e um nada onde vive-se correndo atrás do vento, a vaidade. A racionalidade humana está humilhada e arrasada como nunca, mesmo diante o progresso científico-tecnológico nunca dantes alcançado.
    A autodeterminação humana está com os seus dias contados!
    Lamento que o sr. Boff, que escreveu alguns livros que li e gostei, não defenda a Teocracia nas mãos do Messias como o único instrumento possível de salvar o planeta e a humanidade.

    • Se o amigo tivesse lido “O 12º Planeta”, de Zecharia Sitchin, não estaria redigindo esse texto! O homem foi nada mais, nada menos que consultor da Nasa e especialista na tradução de línguas extintas. Veja o que dizem as escrituras da antiga Civlização Suméria, de onde as judaicas foram adaptações…

      • Prezado Anunnaki, obrigado pela indicação do livro. De fato, não conheço Zecharia Sitchin, mas procurarei ler o que ele escreveu sobre Gên. e contrapor ao que o maior homem que já viveu atestou sobre o referido relato com a autoridade de coparticipante da criação do universo material que foi.
        O douto conhecedor das sagradas escrituras hebraicas, o chamado apóstolo Paulo disse; “Cada casa foi construída por alguém, mas quem construiu todas as coisas foi Deus.” Hoje nós sabemos que a célula é semelhante a uma fábrica e que o ADN é uma imensa biblioteca e ambos revelam uma racionalidade que desafia o conhecimento do homem do séc. XXI e nos obriga a admitir um projetista e construtor e Jesus é apresentado como o mestre de obras junto ao Pai, de modo que pelo testemunho de 4 evangelhos sabemos que o que ele fez e disse, jamais alguém chegou perto e ninguém esteve tão junto ao Pai que pudesse nos revelar os seus sentimentos desse com referencia a criação do que ele.

  6. Na ignorância dos significados simbólicos e esotéricos do texto bíblico a soberba de Boff quer questionar o relato de Moises inspirado por Deus.
    Para quem quiser conhecer o significado sábio e profundo do Livro do Gênesis sugiro a leitura dos Arcanos Celestes do místico sueco Emanuel Swendemborg.

  7. Pequenos textos que desejam explicar a transformação da sociedade antes matriarcal para patriarcal não encontram espaço suficiente para o devido esclarecimento, ainda mais resumindo as causas ou apresentando-as superficialmente.

    Boff, ardilosamente, deixa de lado que uma das maiores culpadas pelo declínio da importância da mulher na sociedade tem sido a Igreja Católica Apostólica Romana, tanto com a sua misoginia clássica, quanto pelo poder que a mulher sempre teve do homem, pela sua sensualidade, suas curvas, o sexo imprescindível à vida!

    Se os seguidores de Pedro posteriormente não poderiam casar, pois precisavam se manter celibatários como até hoje, de modo que os religiosos pudessem enfrentar a solidão e renegar a própria Natureza, a mulher sempre foi afastada da Igreja, humilhada, a pecadora que contribuiu à expulsão de Adão do Paraíso.

    Havia a necessidade de se diminuir a sedução das mulheres sobre o homem, a sua magia, a sua paixão, o seu cheiro inebriante.

    Então as acusações de bruxaria; as mulheres de cabelos ruivos eram queimadas; olhos azuis também; mulheres alegres eram punidas porque oferecidas; aos poucos, o gênero feminino foi classificado mais como inimigo do gênero masculino do que a sua complementação como ser humano, umbilicalmente ligada ao homem, a parte mais importante deste ente quando unido à sua companheira, esposa ou amante pelo poder de perpetuação da espécie.

    Padres, bispos, Papas, casavam-se em segredo, quando não abandonavam a batina por causa de uma mulher, que aparentava ter mais poderes do que Deus, logo, precisava ser perseguida e humilhada sem tréguas!

    E, a Igreja, mantém-se inflexível em não estender às mulheres o poder do sacerdote, além de impedir que o celibato seja abolido, em pleno século XXI!

    Portanto, o artigo de Boff é tendencioso, haja vista não apontar ou acusar a sua Igreja como alimentadora dessa discriminação contra as mulheres, da sua misoginia, que beira quase dois mil anos que, indiscutivelmente, foi a causadora desse distanciamento das mulheres do poder, das decisões, de compartilhar as administrações de países e condados ao longo de quase dois mil anos!

    E, lamentavelmente, a mulher ainda é humilhada, violentada, maltratada pelos homens porque a própria Igreja, e não só o catolicismo, mas também as neopentecostais, fazem questão de divulgar a obediência da mulher ao seu esposo, como se este fosse o seu amo e senhor.

    O ex-frei Boff não possui a necessária autoridade moral para defender as mulheres, nessas alturas, sem antes fazer o seu ato de contrição e pedir perdão pelas suas falhas em ter pertencido a uma religião que mais segregou as mulheres, que mais as fez sofrer, que mais as tenha desprezado!

  8. Há muito não lia algo tão interessante vindo de Boff!
    O arquétipo feminino é tabu ameaçador ao universo machista: reflete mecanismo de defesa, o poder da criação em catarse sagrada e profana!
    Isso porque o poder da força bruta não pode resistir ao poder da junção entre o masculino e o feminino enquanto “quintessência”. Independente do lugar de cada um destes elementos.

  9. “Quem pode ser contra o ideal, a perfeição?”
    Assim começa a deterioração do indivíduo.
    A degradação da nossa natureza.
    Boff não nos deixa mentir.

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