Corrupo, uma nova cultura no pas

Pedro do Coutto

Neste final de semana, os historiadores Marco Antonio Villa, em entrevista a Adauri Antunes Barbosa, O Globo, e Boris Fausto em artigo publicado em O Estado de So Paulo, edies de domingo, cada qual sua maneira focalizaram o avano da corrupo no pas nos tempos modernos para citar Chaplin- , mas concluram suas teses de forma diversa. Ambos desenvolveram raciocnios tericos e no focalizaram os pontos prticos da questo. Marco Antonio Villa acredita ingenuamente que o Brasil est se preparando para virar a pgina da crise dose nado, pois a seu ver ela produtiva na medida em que assinala a superao poltica de Jos Sarney, principal foco de um mar de denncias. Boris Fausto analisa a corrupo em sua perspectiva histrica, reconhecendo contudo que a velocidade de seu crescimento muitas vezes maior que o das punies que sobre ela incidem. So ambos ensaios intelectuais que parte de prismas idealizados e pouco reais. Boris Fausto, entretanto, aproxima-se muito mais do plano concreto do que se reflete o pensamento de Marco Antonio Villa.

Para Marco Antonio Villa, o enquadramento do senador Sarney dentro da tica da tica deve significar uma pgina virada na histria do pas, abrindo assim a perspectiva de uma redeno moral. No nada disso. Com ou sem Sarney, a corrupo vai prosseguir seu trajeto veloz porque as condies que levaram a esta acelerao no foram eliminadas. Boris Fausto mais claro quanto ao processo e mais ctico quanto aos efeitos de avalanche de denncias que desabem sobre o presidente do Senado e sua famlia. Se eu tivesse que escolher entre uma tese e outra no ficaria com nenhuma das duas.

Porque penso que a corrupo, principalmente a partir do movimento poltico militar que derrubou o governo Goulart em 64, foi se alastrando de tal forma que terminou cristalizando concretamente uma nova cultura no Brasil: a da corrupo. Ela passou a ser considerada um fenmeno positivo, descompromissado com a sociedade, consagrando efeitos individuais no lugar dos interesses coletivos. Os desonestos passaram a ser cultuados, os honestos vistos sob desconfiana. O fato de algum ser honesto passou a ser quase um defeito. Algo desagradvel, intoxicante. Construir algo de coletivo transformou-se em atitude utpica, ridcula, motivo de deboche e menosprezo, algo passadista e bizantino. O objetivo de lucro e riqueza a qualquer preo, de qualquer maneira, substituiu no plano do conceito positivo, o comportamento correto.

Conta-se at como anedota a pergunta que um poltico fez a um governador de Estado: o senhor vai nomear fulano prea uma Secretaria? No faa isso. Esse homem honesto. Ou ento a peada inspirada em Oscar Wilde: um dirigente chamou auxiliares seus e pediu a indicao de algum para determinado posto. Os indagados perguntam: _No serve Ernesto? Antigamente no era assim.

A corrupo era uma exceo, na a regra. Hoje, ao contrrio, a regra, a honestidade a exceo. Os sinais majoritrios se inverteram. Basta dizer que se chegou ao ponto de se criar o mensalo em pleno Congresso Nacional. Em bancos de Braslia havia at filas para que muitos recebessem suas mesadas. A superao de Sarney significa algo evidente. Mas ele no representa o fim de um processo. Longe disso. Pois uma cultura quando se cristaliza leva pelo menos dcadas para ser dissolvida. Os fatos que conduziram, em nosso pas permanecem. Eles no so mais fortes que as pessoas. As pessoas passam. As razes da cultura ficam.

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.