CPI da Petrobras, o Teatro do Absurdo

Pedro do Coutto

A Comisso Parlamentar de Inqurito da Petrobrs, que se instala tera-feira, caso contrrio, a presso sobre o senador Jos Sarney romperia o limite do possvel, j que nos ltimos captulos da novela veio tona a vinculao da estatal com a Fundao que leva o nome do ex presidente da Repblica, mais parece o teatro do absurdo de Ionesco que esteve na cena brasileira h 50 anos trs. Sem dvida. Isso porque a CPI inicia seus trabalhos (no se sabe se os consolidar) no em funo das denncias a respeito de contratos firmados em vrios setores da estatal, incluindo-se o da compra de plataformas a patrocnios culturais, passando pelo setor de publicidade, mas sim em consequncia de um panorama extremamente crtico atingindo o Senado como instituio.

As tentativas de salvar o presidente da Casa, o prprio Sarney, tornaram-se impossveis diante do acmulo dos fatos. Pois como seria dificlimo resguardar o ex presidente do vendaval que abala o Memorial, que na cidade de So Luis tem o seu nome e rene seu acervo pessoal, a soluo foi de concordar com o inqurito na etapa mais prxima. Quer dizer: interessam menos as acusaes colocadas alcanando o patrimnio pblico. Interessa mais poupar a figura poltica do presidente do senado.

No preocupa ao governo o que aconteceu na Petrobrs. Tensiona o fato de constataes concretas virem a pblico. Ora, se no ocorreu nada, e assim as denncias so vazias, melhor oportunidade para ressaltar a correo de atitudes dos dirigentes no existe do que arrasar as provas publicamente numa CPI. Ou ento, se irregularidades aconteceram, no existe melhor cenrio do que o debate para corrigi-las e prestar contas opinio pblica. E, sobretudo recompor e guarnecer o patrimnio pblico.

Como as preliminares essenciais, claro, no so essas justamente por isso que nos encontramos em cena no palco do absurdo. De qualquer forma, a soluo finalmente adotada melhor do que se nada fosse feito. Haver atrito, surgiro explicaes, contradies sero colocadas em confronto, e o pas, seja por qual caminho for, ter a ganhar. Alis, com base em exemplos histricos, fundamental no subestimar os efeitos de comisses parlamentares de inqurito.

No governo Vargas, foi a criao da CPI do Jornal ltima Hora, de Samuel Wainer, que terminaria levando ao desfecho de agosto de 54, antecedido na vspera de 24 pelo ultimato dos generais para que o presidente deixasse o Palcio do Catete. O atentado da Rua Toneleros, 5 de agosto, contra o jornalista Carlos Lacerda, foi por si uma extenso da CPI sobre o financiamento do Banco do Brasil ao dirio criado por Wainer.

Em 1958, foi uma CPI da Cmara dos Deputados que provocou uma crise no governo JK e impediu o acordo de Robor envolvendo questes ligadas ao petrleo boliviano. Robor, idealizado por Roberto Campos, ento presidente do BNDES, foi interpretado como uma investida indireta para abalar a Petrobrs. Para no perder tempo com exemplos de importncia menor, em matria de CPI nada supera a criada em 92 e que culminou com o impeachment do presidente Fernando Collor.

Portanto, no se deve minimizar sua importncia. s vezes as CPIS sem grande arsenal de descobertas, mas, atravs dos meses, vo se transformando em verdadeiras exploses de grande alcance e repercusso. No quero dizer que seja este o caso da CPI da Petrobrs. Mas apenas admitindo que a velocidade dos fatos em muitas situaes se multiplica de forma inesperada. Sobretudo em 2009, vspera de mais uma sucesso presidencial. Os reflexos podem se tornar intensos e no controlveis. Como Sarney no conseguiu controlar o palco de agora.

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