De ressaca, Rubem Braga se olhou ao espelho e teve inspiração para um poema

Sou um homem quieto, o que eu gosto é... Rubem BragaPaulo Peres
Poemas & Canções

Considerado o maior cronista brasileiro desde Machado de Assis, o capixaba Rubem Braga (1913–1990), sempre afirmou que a poesia é necessária, tanto que escreveu vários poemas, entre eles o soneto “Ao Espelho”, no qual retrata uma reflexão pessoal no inexorável passar do tempo.

AO ESPELHO
Rubem Braga

Tu, que não foste belo nem perfeito,
Ora te vejo (e tu me vês) com tédio
E vã melancolia, contrafeito,
Como a um condenado sem remédio.

Evitas meu olhar inquiridor
Fugindo, aos meus dois olhos vermelhos,
Porque já te falece algum valor
Para enfrentar o tédio dos espelhos.

Ontem bebeste em demasia, certo,
Mas não foi, convenhamos, a primeira
Nem a milésima vez que hás bebido.

Volta portanto a cara, vê de perto
A cara, tua cara verdadeira,
Oh, Braga envelhecido, envilecido.

3 thoughts on “De ressaca, Rubem Braga se olhou ao espelho e teve inspiração para um poema

  1. Esse soneto representa um autorretrato do inconformismo que vai abatendo o ser, quando passa a perceber os primeiros traços da decreptude.
    Tal declínio deve ser mais devastador para a autoestima e autoconfiança, à medida que vão ficando mais raros aqueles elogios: “Oh homem bonito!” Que mulher gostosa!”
    De natureza vaidosa, a mulherada tenta recompor a beleza perdida com recauchutagem e maquiagem, esta última que sai com água e sabão. O bicho homem é mais arredio a esse tipo de emboscada artificialista; ele busca mais aquilo que reforce o seu estágio de massa, esporte bruto, academia etc. À exceção aqui para os neologismos metrossexual e travestis. Outros se afundam nós vícios, numa tentativa de construírem uma lente narcisista ao espelho, no esforço vão de enganarem a se mesmos. O resto é com a senhora viagra.
    Feliz é aquele que já nasceu feioso: leva uma vida livre de conbranças irremediáveis, e ainda conta com a solidariedade de todos: “Coitado, não podemos cobrar dele, aquilo que ele não pode oferecer”. Em seguida vem a barganha, ressaltada pelos valores abstratos: “Tomara vocês soubessem: ele é medonho assim, mas tem um coração generosissimo, é sangue bom!”
    “O que é a formosura, senão uma caveira bem vestida?” Esta frase parece-me ser de um pensador francês.

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