Debate sobre o desimportante

Carlos Chagas

Parece brincadeira, mas ultrapassam as raias do inimaginvel o tempo, os recursos e a pacincia roubados da sociedade pelos debates sobre o suprfluo. Por ingenuidade ou malandragem, deixa-se de discutir aquilo que realmente nos interessaria, em troca de firulas sobre o desimportante e o ridculo.

Tome-se a disputa em torno das viagens do presidente Lula pelo pas, acompanhado da ministra Dilma Rousseff. Estaria caracterizada campanha eleitoral antecipada? Deveria o chefe do governo enclausurar-se num de seus palcios, proibido de visitar obras, fiscalizar e inaugurar realizaes? Ou, matreiramente, estaria o primeiro-companheiro encenando um espetculo explcito de visibilidade para sua candidata?

As oposies entram em paroxismo, a situao fica indignada e a Justia oscila entre os dois extremos, conforme a inclinao de cada juiz. As semanas passam sem que se chegue a uma concluso, a mdia abre espaos interminveis para a arte de enxugar gelo e ensacar fumaa e os verdadeiros problemas nacionais vo sendo empurrados com a barriga.

No fundo, constatamos desenvolver-se uma farsa. Por que a lei determina que apenas meses antes das eleies os candidatos possam aparecer e pedir votos? A Constituio no assegura a liberdade de expresso do pensamento? Assiste quem quer as imagens televisadas, ouve quem quer as mensagens radiofnicas, l quem quer o noticirio sobre as viagens presidenciais. Como a mesma coisa aconteceria, ou j acontece, com a movimentao de Jos Serra, Ciro Gomes, Marina Silva e outros. Se campanha eleitoral antecipada ou no, tanto faz, mas por que tentar obstar o debate se vivemos numa democracia? O Lula est no governo porque ganhou as ltimas eleies, detendo o direito de viajar para onde quiser e levar em sua companhia quem quiser. Vale o mesmo para seus adversrios.

A nica restrio para as campanhas eleitorais, antecipadas ou no, deveria restringir-se poluio visual ou sonora, porque ningum deve ser condenado aos exageros de alto-falantes e de out-doors. Melhor seria revogar esse monte de leis e regulamentaes restritivas e incuas ao de candidatos que, com elas ou sem elas, continuaro sendo candidatos.

M-f ou burrice?

Informa o prprio governo haver o Brasil contribudo para aumentar o ndice de poluio da atmosfera, por conta do nmero crescente de usinas trmicas a carvo e a diesel, financiadas com recursos pblicos. primeira vista trata-se de um esforo para no faltar energia nas casas e nas indstrias, uma iniciativa patritica em favor do desenvolvimento.

Descendo um pouco mais na questo, porm, conclui-se em sentido inverso. Por que o Brasil deve igualar-se a naes poluidoras como a China, a ndia e tantas outras, quando existe alternativa mais eficaz, mais barata e no poluente?

Com as bacias hidrogrficas de que dispomos, poderamos implantar nmero quase infinito de hidreltricas em todo o territrio nacional. No precisariam ser monumentos como Itaipu e sucedneos, mas usinas mdias e pequenas, capazes de atender com vantagem as necessidades energticas nacionais.

Por que o governo salta de banda, fixando em apenas trs ou quatro novos projetos, ao tempo em que contribui para dezenas de termoeltricas de vida curta, dependentes do combustvel fssil que um dia vai escassear, tornar-se mais caro e contribuir para o aquecimento impondervel do planeta?

A resposta est nas contradies do prprio governo. Porque se as licenas ambientais tornaram-se imprescindveis para qualquer obra pblica ou privada, tambm certo que os exageros de seus responsveis tornam ridculas as operaes. Um sapinho de meio centmetro paralisa iniciativas em condies de redimir a vida de milhares de famlias que vivem luz de velas. Um peixinho dourado atrapalha a remessa de megawattes a regies abandonadas ou inspitas. Se para preservar essas espcies, que se criem aqurios, da mesma forma como jardins zoolgicos para macaquinhos, lagartos e minhocas.

Deciso

O Supremo Tribunal Federal tem na pauta de hoje, pela terceira vez, que decidir em mandado de segurana se obriga a mesa do Senado a cumprir determinao do Tribunal Superior Eleitoral mandando dar posse imediata a Acir Gurgacs, do PDT, segundo mais votado nas eleies para senador por Rondnia, em 2006. O senador eleito e ainda em exerccio Expedito Jnior, do PSDB, que h meses teve seu mandato cassado por abuso de poder econmico na campanha. Por duas vezes o Supremo tirou de pauta a deciso. Enquanto ela no for tomada, a mesa do Senado manter o senador tucano.

Sem validade

Na direo nacional do PMDB, ningum teve coragem de contestar a afirmao de Roberto Requio, de que nenhuma conseqncia deve ser tirada do jantar entre o presidente Lula e os caciques peemedebistas, semana passada, selando compromisso em favor da candidatura Dilma Rousseff. O governador do Paran no se coloca em oposio candidata do PT, que poder apoiar, mas rejeita a precipitao e a arrogncia dos dirigentes do partido, comprometidos sem consultar as bases e os diretrios regionais.

Est sendo articulado um encontro dos governadores do PMDB com o presidente Lula, para reforarem o acordo em favor de Dilma, mas pelo menos trs deles no comparecero ou falaro contra: Roberto Requio, do Paran, Luiz Henrique, de Santa Catarina, e Andr Pucinelli, do Mato Grosso do Sul.

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