Decadncia da ABI

Saber envelhecer uma virtude pouco apreciada e nada cultivada por quem se apega desmedidamente a algum poder, mesmo que seja o de sndico de prdio residencial. De sndico a presidente da repblica, muitas gradaes do brilho que mais alimenta as vaidades hipnotizam as almas pequenas de seres humanos menores ainda.

Quando o poder individual, em qualquer nvel, resulta de processos coletivos de conquista de direitos, temos justificada uma liderana real, que nasce com os dias contados por causa de sua prpria natureza transformadora. Contrariar esse movimento condenar a conquista realizada estagnao e degradao.

Comecei minha carreira de jornalista aos 19 anos, no extinto Correio da Manh, e sempre integrei os processos coletivos da minha categoria profissional, tanto na luta contra a ditadura como nas reivindicaes por melhores salrios, reconhecendo e apoiando as lideranas legtimas que se afirmaram nesses processos.

Durante toda a minha vida profissional portei com orgulho a carteira da Associao Brasileira de Imprensa (ABI), que renovei todos os anos, at recentemente. H coisa de uns dois anos, desisti da carteira, e no ano passado, pensei em desistir da prpria ABI. Ao receber os primeiros boletos de cobrana de mensalidade, olhei com melancolia para eles e os joguei no lixo.

Passados alguns meses, com mensalidades acumuladas, reagi e retomei os pagamentos, resgatando em mim a crena de que ABI s podia estar reservado um destino digno, ao menos, apesar de se evidenciar na sociedade que a brava combatente do passado parece no ter sabido envelhecer, se escondendo envergonhada atrs de andaimes de fachada.

Alm disso, para um ex-estudante de arquitetura como eu, mais do que os andaimes de fachada, a aparncia lgubre das instalaes do Edifcio Herbert Moses, projetado com inspirao nas ideias do meu dolo Le Corbusier, denuncia a incria da sua administrao. Do hall de entrada, no andar trreo, ao jardim de Burle Marx que no existe mais, no 13 andar, tudo cheira a mofo.

Bons tempos em que ventos transformadores arejavam as salas e auditrios da ABI, expulsando o mofo que hoje ocupa suas paredes e acomoda sua administrao em apego apopltico a um poder decrpito! Quero voltar a ter orgulho da ABI e a renovar minha carteira de scio todo ano, e no vejo como isso poder acontecer com a permanncia do atual estado de coisas.

preciso mudar a ABI, para que a instituio no envelhea sem a dignidade que no faz falta a quem no sabe envelhecer e, decadente, a compromete com evidente incapacidade de gesto. Quero voltar a frequentar a Casa do Jornalista com o mesmo esprito que me animava nos processos coletivos dos jornalistas no passado, solidrio e encorajado pelos meus pares.

Para a ABI, saber envelhecer , antes de tudo, saber renovar a alma com a grandeza de reconhecer que nenhum poder eterno e a alternncia na sua ocupao mantm saudvel o seu corpo, que coletivo, de todos os jornalistas.

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2 thoughts on “Decadncia da ABI

  1. Andrei Bastos: oportuno seu bom artigo. No sei para onde iremos com esse pouco apreo s entidades mais representativas do povo brasileiro. Ou por pouco apreo ou por criminosa irresponsabilidade dos que se comprometeram a administr-las ou ainda por deslumbramento pelo vil metal o certo que metem os ps pelas mos e desfiguram o prestgio pblico medida que empobrecem o patrimnio material de tradicionais entidades, como a ABI e a UNE. Esta parece nem mais existir!
    Tudo acontece numa poca em que, na dinmica com que os fatos se sucedem, necessita a sociedade civil de rgos coletivos capazes de defend-la com prontido, altivez e com o manejo das armas da eficincia.
    Os protestos da sociedade, dispersos como os que estamos vendo veiculados, no infundem temor aos calhordas!
    Para falar a verdade, os mais autnticos lutadores perderam a motivao, talvez por verem tantos canalhas triunfando. Todos chegam concluso de que, no Brasil, no h mais espao para o triunfo da virtude! Nada pior do que esse desestmulo!

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