Dentro do tubo de neve em que a Rússia se transforma, todo ano

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Operário retira a neve que se acumulou na fuselagem

 

Sebastião Nery

Na Recordação da Casa dos Mortos, de Dostoievski, editado pela José Olympio, o genial Goeldi comoveu gerações de leitores com suas ilustrações inesquecíveis: aquelas filas intermináveis de russos, humilhados, ofendidos e recurvados, enrolados em trapos negros, caminhando sobre a neve para a Sibéria, enxotados pela tirania dos tzares.

Chego ao aeroporto de Domodedovo, um dos quatro de Moscou, para pegar o avião até Volgogrado, primeira etapa da minha viagem à Sibéria e, das janelas, vejo uma cena bela: longos e elegantes TUS/2 turbinas (correspondem ao Boeing 737; os Iliushin correspondem ao 707/4 turbinas, mas são mais compridos e mais finos) estão pousados sobre um tapete branco e infinito e, andando para eles, grupos e mais grupos de homens, mulheres e crianças, todos bem-vestidos, bem calçados, grandes gorros peludos, de couro de veado, botas pretas, marrons, vermelhas, luvas e capotes de pele de todos os tipos e de todas as elegâncias.

A Unesco proclamou 1981 o ano de Dostoievski: em fevereiro fez 100 anos que ele morreu e em novembro 160 que ele nasceu. Um século e a mudança foi total. Logo, não há por que desacreditar da capacidade do homem de construir seu amanhã.

RASPANDO A NEVE – A neve cai sem parar, grossa, intensa. Como é possível os aviões chegarem e saírem? Caminhões enormes, como jamantas, empurrando largas navalhas negras, do tamanho das pistas, vão passando e raspando a neve. O avião desce, a neve volta, vem de novo o caminhão com sua navalha. Um avião, um caminhão, um avião, um caminhão, na brincadeira de derrotar a neve.

Às 9 horas da noite, chamam meu voo. Perto do avião, um susto. Está absolutamente coberto de neve. Um meigo e longilíneo tubo de neve, como doce fantasma, arriado sobre o lençol branco. Será que vai decolar? As turbinas esquentam? Lá dentro, um aviso. Vamos ter que esperar um pouco para tirarem a neve que cobre o aparelho. Tiram na hora, porque, se tirarem um pouco antes, ela cai de novo e novamente encobre. Um caminhão se aproxima com grossos tubos, soprando bafo e derretendo a capa branca. São turbinas de velhos aviões que eles usam para, engatados nos caminhões, lançarem os jatos de ar.

ESPERAR NA PISTA – Daí a pouco, outro aviso: o aeroporto de Volgogrado fechou. A neve lá cai tão forte que se torna um guarda-chuva compacto sobre as pistas, impossibilitando a descida. É preciso esperar, e esperar na pista, para, quando abrir lá, haver tempo de limpar de novo nosso tudo, decolar rápido e ver se descemos uma hora e meia depois, antes que a borrasca volte e feche mais uma vez. Uma hora, duas, três. Meia-noite, levantamos. Dois minutos depois, uma lua gorda boiando no céu azul-marinho, todo estrelado. Dez mil metros de altura e aquela lâmina sólida, cinza, como acrílico lá embaixo.

E fico a pensar como é vário o mundo, tão diferente as realidades. Por mais que saibamos o que é a neve mesmo depois vista aqui e ali em tantos países, uma coisa é você vê-la como turista, entrar e sair do hotel, dar uma andada na rua, e outra, muito outra, é a experiência de um povo que tem de conviver, cada ano, meses inteiros, 6, 8, 10, 12, com tudo coberto de gelo e frio. Os rios e lagos endurecem. As ruas e calçadas sobem centímetros, nos parques metros de neve acumulada. E é preciso ir tirando, e ela voltando, hora a hora, dia a dia, cada manhã, meses direto. Uma batalha interminável. Brinco com os russos:

– Eu pensava que vocês tinham ficado livres de Napoleão, que atolou sua invasão na neve das estepes russas. Mas não, todo ano é uma guerra certa, fixa, marcada, de meses, guardando tudo, reservando tudo, diminuindo a produção, até a primavera voltar e com ela o sol e as flores e os frutos da terra.

E eles me respondem, sábios:

– É, mas é o inverno que nos faz fortes. Ele nos acostuma a resistir e esperar. E, sobretudo, a saber vencer as dificuldades.

13 thoughts on “Dentro do tubo de neve em que a Rússia se transforma, todo ano

  1. O frio é a morte.
    Nada produz.
    Até às estrelas quando morrem, esfriam.
    Não se tem de onde tirar energia, nem como se produzir alimentos. Tomara que estejamos mesmo entrando em uma época de aquecimento global, ao invés de estarmos iniciando um resfriamento, pois ele é muito mais fácil de ser controlado pela nossa atual tecnologia do que uma glaciação…

  2. No RS e em SC não raro costuma nevar no inverno, claro que nunca com essa mesma intensidade. O fato é que a neve nem é algo tão distante para qualquer brasileiro, portanto.

    Com esse frio que tem feito só não nevou ainda nas regiões mais altas porque o tempo está seco, para nevar é preciso alguma umidade e formação de nuvens.

    As vezes esquecemos disso, mas o Brasil é um país bastante diverso e plural, tanto na cultura quanto no aspecto físico, como no clima.

  3. 1) Por falar em aviões e aeroporto lembrei de certa conhecida, nasceu ali perto do Campos dos Afonsos, nos anos 1950…

    2) O pai era um dos dirigente gráficos do antigo PCB – Partido Comunista Brasileiro… veio o movimento de 1964 e ele foi preso, a família conseguiu se exilar na antiga União Soviética.

    3) A então menina, cresceu e formou-se em Língua Russa, na Universidade Patrice Lumumba, de Moscou.

    4) Fazia traduções do russo para o português e vice-versa.

    5) Contou-me que no inverno brabo, uma das brincadeiras dos adolescentes, onde ela morava, era todo o grupo: moças e rapazes, saírem pelados, correndo sob a neve… parece que é muito bom para fortalecer a saúde e encarar o frio.

    6) O pai ficou preso durante 10 anos, foi solto. Me disse que o então Arcebispo do RJ, Dom Eugênio Salles, ia sempre visitá-lo, ele e os demais camaradas.

    7) Conversas místicas transcendentais.

    8) Foi aí que eu soube que Luiz Carlos Prestes, gostava de ler sobre uma Filosofia Indiana chamada “Samkya”, uma das milenares escolas clássicas do Hinduísmo.

  4. Caro Antônio Rocha;

    Muito interessante o seu comentário, por dois aspectos, que parecem distintos, mas que convergem num ponto:

    Um é sobre a neve, fica demonstrado que para quem convive com o fenômeno ele nem é tão hostil quanto parece para quem olha de fora, sem conhecer.

    O outro é sobre o aspecto humano da vida de uma família e de um líder comunista.

    Hoje chegamos a um grau de estreitamento nas diferentes visões de mundo que parece que retrocedemos ao tempo em que se acreditava que comunistas comiam criancinhas, ou até pior.

    Uma coisa é fazer a crítica a uma postura política com a qual não concordamos, outra é nos fecharmos numa bolha que nos impede de ver, numa posição de empatia, tanto um fenômeno climático distante quanto um fenômeno ideológico adverso, mas que sempre terão por trás um outro ser humano, nosso semelhante.

    Não sei se me fiz entender, mas resumindo é isso: a bolha é sempre muito limitante, redutora, empobrecedora, e pode se tornar até perigosa, nos casos extremos.

  5. Somente um mundo vislumbrado por um prisma sombrio e congelado, pode explicar o porquê dalguns cientistas russos preverem uma Era Semiglacial, pela qual passaria a terra, nos proximos anos.

    “Todas as manchas solares desapareceram do lado do Sol que permanece virado para a Terra, relataram cientistas do Instituto de Física Lebedev, em Moscou, após análise de fotos tiradas há duas semanas. Consequências podem ter grande efeito sobre todo o planeta.
    Em setembro passado, a Nasa anunciou a maior erupção solar em 12 anos, considerada “inesperada”, uma vez que o Sol caminha para um período de mínimo solar, isto é, quando as atividades solares diminuem.
    Com base em observações de outras estrelas parecidas com o Sol feitas pela sonda americana Kepler, os cientistas dos EUA já haviam anunciado em 2016 que o Sol estava entrando em uma fase especial de sua evolução magnética. Esses resultados ofereceram a primeira confirmação real de que os ciclos de manchas solares de 11 anos iriam provavelmente desaparecer por completo e que o Sol teria menos manchas do que na primeira metade de seus 10 bilhões de anos de existência……….”

    https://www.google.com/amp/s/br.rbth.com/document/5a0d84a385600a048b429416/amp

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