Dívidas e moeda escritural crescem no País

Pedro do Coutto

Ótima a reportagem de Wagner Gomes e Luciene Carneiro, O Globo, edição de 6 de julho, sobre o crescimento dos índices de inadimplência no país de 2009 a 2010. Confrontando-se a taxa de maio do ano passado para maio deste ano, os repórteres encontraram, com base na estatística da SERASA, entidade encarregada de zelar pelo pagamento dos créditos, uma elevação real de 4,3%. Como se focalizou o aumento real, verifica-se que o avanço nominal atinge 9,6%, já que pelo IBGE a inflação dos últimos doze meses situa-se na escala de 5,3 pontos.

A inadimplência começou a alcançar as classes D e E, exatamente as de menor renda e também, claro, menor capacidade de crédito. Basta dizer, também segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, que nada menos do que 27% da mão de obra ativa brasileira ganham um salário mínimo. Por mês. E de 1 a 5 pisos encontram-se 60% dos trabalhadores. É dos mais baixos o perfil de renda em nosso país. Isso de um lado.

De outro, agora com base em dados do Banco Central há alguns meses divulgados pelo economista Altamir Lopes, diretor do Departamento Econômico – saiu em todos os jornais – as dívidas dos assalariados supera 1 trilhão e 100 bilhões de reais. Quase cinqüenta por cento a mais do que a massa salarial paga por ano, que oscila em torno de 800 bilhões de reais. O PIB cresceu – e está crescendo – em 2010, com ele a renda per capita e, em conseqüência o consumo. Só que o consumo, cuja escala é positiva já que representa maior produção e mais empregos, é sustentado pelo giro do crédito.

Hoje, o crédito é muito mais facilitado do que antigamente. Mas os juros cobrados são muito mais altos. Os bancos e o comércio cobram por mês em torno do valor oficial da inflação por ano. Sendo que os cartões de crédito cobram mensalmente três vezes a taxa inflacionária anual. A utilização dos limites dos cheques especiais acarreta juros igualmente elevados. Não há saída para o endividamento. Como ele resiste então?

Para explicar o fenômeno – de fato um fenômeno – só a criação em larga escala da moeda escritural pode interpretar e fornecer uma explicação lógica. O giro das dívidas, um tipo de saque para o futuro, especialmente através dos cartões de crédito. Como os bancos, como outro dia me lembrou meu amigo Afonso Castilho, ex-superintendente da Caixa Econômica Federal em Brasília, fornecem cartão de crédito a qualquer pessoa, os portadores vão recorrendo a débitos sobre débitos em meses e prazos diferentes.

A inadimplência no setor, de acordo com Wagner Gomes e Luciane Carneiro, já chega a 26%. Muito alta. E para comprovar que as dívidas envolvem mais as classes D e E verifica-se que a média do endividamento é baixa: 392 reais. Um contraste absoluto com o montante dos juros cobrados.

O endividamento se mantém graças à imagem semelhante a do eterno poema de Vinicius de Moraes sobre a felicidade: é como a pluma, voa tão leve, mas tem a vida breve, precisa que haja vento sem parar. Quanto às dívidas se o vento parar, é que são elas.

A reportagem de O Globo está excelente, mas seu bloco final contém um equívoco. Está dito que a taxa SELIC, através da qual o governo paga aos bancos para girar a dívida interna de 1 trilhão e 400 bilhões, deve chegar ao final deste ano na escala de 12,1%. Hoje é de 10,75. E que isso causará elevação de juros bancários. Não. Os bancos não são devedores dessa taxa. São, de fato, credores dela. Se subir, melhor para os banqueiros. Colocam mais 20 bilhões no bolso.

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