Dom Helder sem Marx, na fase mais dura do regime militar…

Resultado de imagem para dom helder camaraSebastião Nery

A Bahia fazia 400 anos, em 1949. Houve um congresso eucarístico em Salvador. Muitos bispos e padres se hospedaram no nosso multissecular Seminário Central, que é hoje o magnífico Museu de Arte Sacra, com suas imensas janelas coloniais. Cada um de nós do Seminário Maior ficou encarregado de secretariar um bispo ou um padre. A mim, com 17 anos, coube o magérrimo, falante e simpático padre Helder Câmara. Ajudei-lhe as missas, carreguei o Breviário, acompanhei-o pela cidade, a caminho dos atos públicos do congresso.

Uma noite, ele teve uma longa conversa com professores e seminaristas, sobre o país e a política. Tínhamos alguns padres fervorosamente integralistas. Lembro uma frase dele: “Também eu fui algum tempo integralista. Naquela época, depois da revolução de 30, o Brasil se dividia entre o Integralismo cristão e o Comunismo ateu. Fiquei com o Integralismo cristão. Hoje temos a doutrina social da Igreja, mais cristã e mais profunda que o Integralismo”.

UM BILHETE – Em 1964, depois do golpe, ele já arcebispo de Olinda e Recife, mandou para o quartel do 19º BC do Exercito, em Salvador, onde sabia que eu estava preso, um bilhete que só me foi entregue na saída: “Meu caro sacristão. Estão maltratando você? O Cristo há de lhe dar forças. Rezemos. (as.) Padre Helder”.

Numa tarde de 1971, eu estava na avenida Rio Branco, no Rio, na pequena redação do “Politika”, o primeiro semanário de oposição ao golpe de 64 (houve o Pif-Paf e havia o Pasquim, mas eram de humor).

Fundado e dirigido pelo saudoso Oliveira Bastos e por mim, o jornal enfrentava uma dura censura prévia toda semana. Apareceu o jornalista, professor e escritor pernambucano Harrison de Oliveira, mestre de história do Colégio Pedro II e da Universidade Cândido Mendes, com uma jóia rara.

UMA ENTREVISTA – Harrison tinha na pasta uma longa e polêmica entrevista de Dom Helder Câmara, o valente arcebispo de Olinda e Recife, que estava desafiando a ditadura aqui dentro e denunciando-a em conferências pelo mundo. O padre Henrique Neto, assessor dele, tinha sido barbaramente assassinado. Era no governo Médici, uma censura terrível e Dom Helder falava sobre o Nordeste, o Brasil, o mundo e a Igreja. Harrison, amigo e compadre dele (tem um filho chamado Helder), não conseguiu publicar a entrevista em nenhum jornal. Não deixariam sair também no “Politika”.

Oliveira Bastos estava no Pará, resolvi não mandar a entrevista para a censura, publicar de surpresa e ver no que dava. Deu no que deu. Fizemos a capa com uma foto grande de Dom Helder e apenas esta manchete: “Dom Helder entre Cristo e Marx!

SEM MARX – Harrison telefonou avisando para Dom Helder, que vetou: “Não estou com Marx coisa nenhuma. Sou de Cristo e dos meus pobrezinhos”.

Quando o jornal ficou pronto, estávamos preparados para o que desse e viesse. De madrugada, entupimos a kombi do jornal e iamos felizes e vitoriosos para a Distribuidora Chinaglia, na Zona Norte. Na praça Mauá, já na espreita, um carro da polícia nos cercou.

Prenderam tudo: o jornal, eu e o Harrison. Foi um dia inteiro de ameaças e sufoco na Polícia Federal. Ficaram furiosos com o nosso golpe falho. Por pouco não conseguimos. Diziam: “Sobre Dom Helder, nem a morte da mãe”.

9 thoughts on “Dom Helder sem Marx, na fase mais dura do regime militar…

  1. 1) Grande Dom Helder Câmara !

    2) Grande Sebastião Nery !

    3) Por falar em Marx: “No dia 19 de março de 1937, o papa Pio XI proclamou São José patrono daqueles que combatem o comunismo ateu”.

    4) A informação está na página 237, “O Livro dos Santos”, Rogério de Campos, editora Veneta.

    5) A pergunta que fica é: comunismo cristão pode? Comunismo com outra religião pode?

    6) Contudo, parece que nesta peleja São José está vencendo.

  2. 1) O mesmo livro diz que em sua “Encíclica contra o Comunismo Ateu”, o papa Pio XI decretou, em 1955 o Dia Primeiro de Maio como o Dia de São José Operário…

    2) Para se contrapor ao Dia Internacional do Trabalho “Primeiro de Maio do anarco-comunismo ateu”.

    3) página 238.

    • 1) Salve Joca, respeito sua opinião, Marx não era 100% perfeito, e o que ele disse/escreveu naquela época, a meu ver não se coaduna com o momento atual.

      2) Inteligente como era, penso que Marx, se estivesse vivo hoje, estaria muito interessado pesquisando o fenômeno do Islã.

      3) Ele era, entre outras atividades, um Cientista Social, um Acadêmico e estaria atento ao que vivemos hoje…

      4) Abraços de boa semana.

  3. Prezado Antônio Rocha,

    O lugar onde nascemos é o principal, dos fatores que definem a religião e a fé que praticamos.

    Se você nasceu em algum país do ocidente muito provavelmente é cristão e adora Jesus.

    Mas se você tivesse nascido em Israel, provavelmente seria judeu e estaria esperando o Messias… na Arábia Saudita, muçulmano e adorando Maomé…no Japão, budista e adorando Buda…na Índia, hindu e seguindo aquela complexa religião.

    Na China, país com quase 1,5 bilhões de habitantes, Jesus, Maria e José são desconhecidos para a imensa maioria da população e nós ocidentais, quase nada sabemos sobre Maomé, Buda ou Krishna.

    PS
    Não tenho religião.

    Saudações

  4. Sebastião Nery, que presentão para este domingo:
    O arcebispo D. Helder Câmara. “Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto porque eles são pobres, chamam-me de comunista.”
    Dom Helder Câmara
    Tenho uma grande amiga que trabalhou com ele. Para ela foi um privilégio, uma bênção.
    Tenho vários livros dele “Revolução dentro da paz” que é a Biblia dos nordestinos. Espiral da Violência” editado em 8 linguas (estes dois, emprestei-os e nunca me devolveram). Mil razões para viver; o Deserto é fértil, Indagações sobre uma vida melhor, Um olhar sobre a cidade e outros; Novas Utopias, livro psicografado pelo médium Carlos Pereira, composto de crônicas curtas e outros. Ainda não li. Nem sei como a Igreja recebeu este livro. Foi cunhado pelo também grande Carlos Lacerda de “O arcebispo vermelho”. Lacerda o tinha como um comunista.
    Os jornais não publicavam as conferências que ele fazia em suas viagens à Austria, Bélgica, Suiça, França e outros paises. Quem conviveu com D. Helder sabe de sua ação em favor da Justiça e da Paz. E o Banco da Providência, com o objetivo de promover inclusão social para os jovens que vivem em situação de extrema pobreza. Não sei como se encontra o Banco da Providência.
    “Não, não pares. É graça Divina começar bem. Graça maior é persistir na caminhada certa, manter o ritmo… Mas a graça das graças é não desistir. Prosseguir firme. Podendo ou não podendo. Caindo embora aos pedaços… Chegar até o fim”. D. Helder Câmara – já beatificado.

  5. Velhos vinhos

    Agora
    que a velhice começa
    preciso aprender com o vinho
    a melhorar, envelhecendo
    e sobretudo
    a escapar
    do perigo terrivel de envelhecendo
    virar vinagre….
    D. Helder Câmara erm Mil Razões para Viver

  6. Poderia ter sido o nosso primeiro e único Nobel, que seria o da paz, mas o Itamaraty se encarregou de sabotar de todas as maneiras a indicação. Obra do Pio Corrêa e do Serviço de Informações do Exterior.

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