E assim adormece esse homem Que nunca precisa dormir pra sonhar…

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Caymmi, no início da carreira, em Salvador

Paulo Peres
Site Poemas & Canções

O violonista, cantor, pintor e compositor baiano Dorival Caymmi (1914-2008), construiu sua obra inspirado pelos hábitos, costumes e tradições do povo baiano. Teve como forte influência a música negra, desenvolveu um estilo pessoal de compor e cantar, demonstrando espontaneidade nos versos, sensualidade e riqueza melódica.

O samba “João Valentão”, gravado pelo próprio Dorival Caymmi, em 1942, pela Odeon, fala sobre um brutamontes que não dispensa uma boa briga, mas cujo coração amolece no final do dia, quando chega cansado para o aconchego do lar, significando que João Valentão é, simultaneamente, o bruto e o sensível, que vive numa terra tão problemática e tão bela.

JOÃO VALENTÃO
Dorival Caymmi

João Valentão é brigão
Pra dar bofetão
Não presta atenção e nem pensa na vida
A todos João intimida
Faz coisas que até Deus duvida
Mas tem seu momento na vida

É quando o sol vai quebrando
Lá pro fim do mundo pra noite chegar
É quando se ouve mais forte
O ronco das ondas na beira do mar
É quando o cansaço da lida da vida
Obriga João se sentar
É quando a morena se encolhe
Se chega pro lado querendo agradar

Se a noite é de lua
A vontade é contar mentira
É se espreguiçar
Deitar na areia da praia
Que acaba onde a vista não pode alcançar

E assim adormece esse homem
Que nunca precisa dormir pra sonhar
Porque não há sonho mais lindo do que sua terra, não há

13 thoughts on “E assim adormece esse homem Que nunca precisa dormir pra sonhar…

  1. Ele se autointitulava o “baiano mais preguiçoso do mundo”. Cruzes, meu avô materno era baiano! O baiano aguerrido já caminha em passos de jabuti, imaginem o mais preguiçoso da terra?
    A propósito, se você não sabe os estados onde se homiziam os brasileiros mais indolentes, pergunte aos chefes de barrancos, nos garimpos; ou aos recrutadores, em canteiros de grandes obras da construções civil: barragens, rodovias etc. Os grupos de trabalhadores de um campo agrícola também podem fornecer-lhe uma mostra bastante reveladora.
    PS: estou-me referindo apenas aos peões, que, devido à situação econômica, finaceira e escolar, da maioria em seus estados, vêem-se obrigados a pegar no labor mais árduo.
    Os sulistas possuem a fama de batalhadores, mas eles são mais operacionais e tecnocientíficos.

  2. João Valentão”, um homem à primeira vista bruto, mas que guarda em seu interior a capacidade de avistar a vida com admiração, nobreza e calma. É quando João abstrai a simplicidade que alcança seu grau de mais extrema beleza, numa variedade que permeia a construção desse samba de 1953, lançado por Dorival Caymmi, e que inicia num rompante de intempestividade para depois dar à luz a calmaria. “E assim adormece esse homem que nunca precisa dormir pra sonhar, porque não há sonho mais lindo do que sua terra, não há…”

    Acho eu, que temos muitos Joões e muitas Joanas Valentes que no recôndito da alma que sonha, uma alma bonita, bondosa.

  3. Ouvir Dorival Caymmi deixa a alma lavada, em paz. Foi asssim: Andei por andar andei e todo caminho deu no mar, lá onde é doce morrer, lá aonde a gente vê “jangada voltar só” e ficamos com Marina, morena, com saudades de Itapoã. Decidimos (junto com Marina) ir para Maracangalha, então convidamos Anália, mas se ela não quiser ir, “eu vou só, eu vou só, sem Anália, mas eu vou. Lá vem ele de uniforme branco e chapéu de palha , afinal ele é um homem livre.
    Salve o poeta do Mar que com Stela, sua querida, nos deixou mais 3 cantores seus filhos -Nana, Danilo e Dory que honram o nome do pai.

  4. Marina
    Quantas Marinas existem por causa da Marina, morena, Marina, de Dorival Caymmi.
    Uma Marina que nasceu, quando seu filho Dori, com 3 anos, contrariado disse: “to de mal com você”. Dorival idealizou uma Marina bonita com o que Deus lhe deu, sem precisar de maquiagem, de nenhum artificio que as mulheres usam para se embelezarem.

    Marina
    Dorival Caymmi

    Marina, morena
    Marina, você se pintou
    Marina, você faça tudo
    Mas faça um favor
    Não pinte esse rosto que eu gosto
    Que eu gosto e que é só meu
    Marina, você já é bonita
    Com o que deus lhe deu
    Me aborreci, me zanguei
    Já não posso falar
    E quando eu me zango, marina
    Não sei perdoar
    Eu já desculpei muita coisa
    Você não arranjava outra igual
    Desculpe, marina, morena
    Mas eu tô de mal

    Marina, morena
    Marina, você se pintou
    Marina, você faça tudo
    Mas faça um favor
    Não pinte esse rosto que eu gosto
    Que eu gosto e que é só meu
    Marina, você já é bonita
    Com o que deus lhe deu
    Me aborreci, me zanguei
    Já não posso falar
    E quando eu me zango, marina
    Não sei perdoar
    Eu já desculpei muita coisa
    Você não arranjava outra igual
    Desculpe, marina, morena
    Mas eu tô de mal
    De mal com você
    De mal com você.

  5. Amigos, no inicio de tarde do Recife ler essas História de Amores do genial Dorival Caymmi, principalmente com a aula sobre Caymmi e Família dada pela pernambucana Carmem Lins. se transforma numa tarde iluminada de Paz e Amor. Carmem, como pernambucanos, não podemos esquecer da Música Dora, onde o Amor das noites recifenses de Dorival Caymmi evocava o Frevo, Maracatu e os madrigais de nosso Amado Recife. Meu Pai era fã do Dorival Caymmi, foi quem me levou para ver uma apresentação dele no antigo Auditório da TV Jornal e também no Auditório da Rádio Jornal do Commércio. Vibro com a Família linda que ele deixou de geniais Compositores e Cantores. Nana Caymmi é uma das maiores Cantoras do Brasil, e no meu ideário brasileiro de Cantoras ela estar ao lado de Dalva de Oliveira, Elizeth Cardoso, Maysa, Gal Costa e Betânia. Abraço a todos vocês, Carlos, Paulo e Carmem, muito obrigado por esse momento de beleza !!!! VIVA DORIVAL CAYMMI !

    DORA .
    Dorival Caymmi

    Dora, rainha do frevo e do maracatu
    Dora, rainha cafuza de um maracatu
    Te conheci no Recife
    Dos rios cortados de pontes
    Dos bairros, das fontes coloniais
    Dora, chamei
    Ò Dora! . . .Ò Dora!
    Eu vim à cidade
    Pra ver você passar
    Ò Dora …
    Agora no meu pensamento eu te vejo requebrando
    Pra cá,ora prá lá
    Meu bem! ….
    Os clarins da banda militar, tocam para anunciar
    Sua Dora, agora vai passar.
    Venham ver o que é bom
    Ò Dora, rainha do frevo e do maracatu
    Ninguém requebra, nem dança, melhor que tu!

  6. Você tomou chá de sumiço, Edjailson! Pode não.
    Em Dora, muito bem lembrado, Dorival descreve tão bem o Recife
    “cortado de pontes ” chega a doer no coração desta pernambucana desgarrada, vindo parar em Minas Gerais que quem “te conhece não esquece jamais”

  7. Amigos, obrigado, continuo atento a tudo, no possível vou aprendendo com vocês a Arte da Poesia em forma de Vida. Quando Caymmi falou de rios cortados de pontes, lembro-me sempre de Papai e seus Amigos caminhando pelas ruas do Recife rumo a Bar Savoy, antes tomava um sorvete lá na Botijinha ou no Perola, bem perto do Restaurante Leite (Graças a Deus que ainda sobrevive ao meu Recife desprezado), tudo alí entre a Guararapes, Rua da Palma, Siqueira Campos, Rua Nova, Praça Joaquim Nabuco, Rua da Concórdia, como as ruas do Recife ao se pisar conta a História Irredenta do Povo Pernambucano na História do Brasil. Foi em um desses encontros que Papai em sua sabedoria matuta me disse ao ouvido…” Todo Poeta tem na Rua a Essência de sua Poesia, lá ele encontra seus Amores, suas Dores, seus Sonhos, sua Fé, sua Esperança e a Vida em Janelas fechadas no silêncio das tardes recifenses…” Até hoje quando ando pelas ruas do Recife vivo essa procura, e quem quiser, ainda, sentir os cheiros dos flamboyants das tardes recifenses vai sentir o cheiro dos sons e sonhos dos frutos de nosso Amado Recife. Grande Abraço e Viva o Jornalismo em forma de Poesia da Tribuna da Internet !!!!!

  8. “Porque não há sonho mais lindo do que sua terra, não há”.
    Se você está me escutando, seu Caymmi, preste atenção no que vou falar: a terra que o senhor cantava, não dá mais nem pra morar! Aqui todos estão se matando, só existe maldade e político filho de puta. Aqui não mais se vive, viver se tornou uma luta constante só para sobreviver.
    A única coisa que continua a mesma é a indolência do João.

  9. Senhora Carmen Lins apontou o mais importante legado de Dorival Caymmi.

    De forma completamente oposta ao Brás Cubas de As Memórias de Machado de Assis:

    “[…] porque ao chegar a este outro lado do mistério, achei-me com um pequeno saldo, que é a derradeira negativa deste capítulo de negativas: — Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.”
    ― Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas “[…]”

    Ao contrário, como pode-se observar, numa auto-confissão em forma de canção, de um dos legados do velho Caymmi:

    O Bem e o Mal
    Danilo Caymmi

    eu guardo em mim
    dois corações
    um que é do mar
    um das paixões
    um canto doce
    um cheiro de tem…poral
    eu guardo em mim
    um deus, um louco, um santo
    um bem e um mal
    eu guardo em mim
    tantas canções
    de tanto mar
    tantas manhãs
    encanto doce
    o cheiro de um vendaval
    guardo em mim
    o deus, o louco, o santo
    o bem, o mal
    Composição: Danilo Caymmi / Dudu Falcão

    Obrigado a todos!

    • Pedro Augusto, em Machado de Assis, o que lemos é ficção. A gente não sabe, na vida real, se o casal não poderia ter filhos (um ou outro). Jamais, alguém saberá. Em Memórias Póstumas de Bras Cubas, passam-se muitos amores . Não é um livro autobiográfico.

  10. Voltei para deixar Grabriela que tanto nos encantou na novela. E há pessoas que têm síndrome de Gabriela – não quer mudar – quer ser sempre assim.

    Modinha para Gabriela
    Dorival Caymmi

    Quando eu vim pra esse mundo
    Eu nao atinava em nada
    Hoje eu sou gabriela
    Gabriela he! meus camaradas
    Eu nasci assim, eu cresci assim
    Eu sou mesmo assim
    Vou ser sempre assim
    Gabriela, sempre gabriela
    Quem me batizou, quem me iluminou
    Pouco me importou, e assim que eu sou
    Gabriela, sempre gabriela
    Eu sou sempre igual, nao desejo mal
    Amo o natural, etecetera e tal
    Gabriela, sempre gabriela

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