Esgotos

Jacques Gruman
Os vivos são e serão sempre, cada vez mais, governados pelos mais vivos (Apparício Torelly, o Barão de Itararé)

Era cor-de-rosa, uma ousadia para a época. Misturava futebol e, nos finais de ano, dicas e resultados do vestibular. Lá por meados dos anos 60, o Jornal dos Sports veio com a novidade: o Flamengo estava prestes a contratar um “novo Pelé”. Todo mundo vivia aflito garimpando fenômenos. Vinha do interior de São Paulo, diziam ser exímio cabeceador (um novo Baltazar Cabecinha de Ouro ?) e se chamava Berico. O Menino foi, ansioso, ao Maracanã, assistir a estreia contra o Olaria. O chamado grêmio da rua Bariri tinha um bom time, mas naquela tarde ensolarada não foi páreo, num Maraca sacolejante, com a torcida eufórica. Berico marcou dois gols, parecia que ia confirmar a expectativa. Ledo e ivo engano. Foi murchando, toc-toc na perna de pau, desapareceu em pouco tempo sem deixar saudades. Uma das muitas fraudes que enfiaram goela abaixo do mais querido.

Fraudes andam nas paradas de sucessos do Brasilzão (alguém ainda se lembra das paradas de sucessos ?). Eike Batista foi uma espécie de cometa do “empreendedorismo”. Em menos de uma década, se tornou o homem mais rico do Brasil. Há três anos, era a terceira maior fortuna do planeta e não escondia a ambição de subir ao alto do pódio. “Tenho que concorrer com o senhor Carlos Slim (dono da América Móvil). Não sei se vou passá-lo pela esquerda ou pela direita, mas vou ultrapassá-lo”, afirmou. Foi recebido em todas as esferas de governo como uma espécie de herói nacional, campeão do arrojo e da criatividade. Teve amplo acesso a dinheiro público, cultivou uma relação carnal com presidente e ex-presidente, que não cansaram de levar água ao seu moinho. Ganhou biografia chapa branca. Nada parecia segurar a escalada rumo ao Olimpo.

O castelo de cartas acaba de desabar e, atrás dele, um rastro de destruição e desalento. Hoje, pobrezinho, tem uma fortuna modesta de US$ 75 milhões e o descrédito dos arruinados pela cobiça. As louvações viraram murmúrios envergonhados em busca de “explicações”. Marqueteiros buscam detergentes milagrosos que apaguem declarações ufanistas, difíceis de justificar em períodos eleitorais. Enquanto isso, o teatro Glória foi demolido e o hotel Glória, joia arquitetônica do Rio, jaz abraçado em telas de plástico, numa reforma jogada para as calendas. Obras do visionário falido.

EXIBIR PODER

Nossos (nossos ?) ricos, com as exceções de praxe, precisam exibir poder. Suas extravagâncias e hábitos são vendidos como metas de vida, como prova de que vale a pena investir nas leis de mercado, na competição “sadia”. Somos bombardeados por essa ideologia do sucesso, supostamente ao alcance dos esforçados, dos que perseveram. Resistir, quem há de ? O site Mercado Livre colocou um anúncio de venda de embalagens da marca Louis Vuitton. Traduzindo: você tem uma bolsa francesa made in Paraguai, mas pode andar por aí exibindo a tal embalagem, simulando um status de fancaria.

Isso me faz lembrar de uma história contada pelo Augusto Boal. Num dos exílios na América Latina, estava na rua com seu Teatro do Oprimido, quando viu um dos locais, traços indígenas, com um seixo colado ao ouvido. Estranhou e procurou saber o que era aquilo. Descobriu que uma multinacional fazia uma campanha agressiva para a venda de radinhos de pilha, com muitos outdoors. Tal como se faz ainda hoje em dia com produtos mais sofisticados, a posse dos radinhos passou a ser sinal de inclusão, de afirmação, de humanidade. Impossibilitado de adquiri-lo, o indígena foi a um rio, pegou um seixo, desenhou nele botões e alto-falante e grudou-o no ouvido. Sentiu-se gente … Consumo hipnotiza.

Há alguns dias, os jornais mostraram o outro extremo da farra das elites, que continuam fazendo o carnaval de sempre. Um menino de 9 anos, Paulo Henrique, mostrou o Brasil que não cabe nos discursos, na “filantropia de resultados” e no futuro que nunca chega. O fotógrafo Diego Nigro flagrou Paulo Henrique nadando no canal do Arruda, em Recife. Não, ele não estava numa aula de natação. Seus bracinhos magros lutavam para afastar a imundície do esgoto, na tentativa de achar latinhas de alumínio que lhe rendessem uns R$ 10 no fim do dia. Aquela cena se passava a apenas 15 minutos do centro de Recife. Uma tragédia que se reflete, também, na resignação da mãe do menino:

“Fico com medo porque tem muito micróbio nesse canal. Acho ruim porque, se ele fica doente, me dá prejuízo. É mixaria, mas o dinheiro do lixo ajuda na feira”. Quantas famílias “clássicas”, pai-mãe-filhos, estão destruídas, afetos amputados pelas necessidades materiais ? Outro fato me chamou a atenção. A família – 8 pessoas – vive num barraco onde todos dormem no mesmo ambiente, que dividem com duas televisões, uma geladeira, um fogão de seis bocas e um armário. Duas televisões ! Ótimo para as estatísticas, aumenta o contingente formal de consumidores. Me lembrei de imediato do seixo pintado.

“O BICHO”

Um recifense ilustre, sem conhecer Paulo Henrique e sua família, desenhou, com horror, este Brasil profundo, esquecido e triste. Manuel Bandeira escreveu o poema “O Bicho”:

Vi ontem um bicho

Na imundície do pátio

Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,

Não examinava nem cheirava:

Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,

Não era um gato,

Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem.

2 thoughts on “Esgotos

  1. Caro Jornalista,

    O BRASIL NÃO FOI FEITO, NÃO FOI PLANEJADO PARA QUEM É HONESTO, MAS PARA QUEM É BANDIDO!
    Para este último, tudo é mais fácil.

    Esta criança trabalha no esgoto para ganhar 10 reais por dia, longe dos olhos do Estado e dos defensores dos Direitos Humanos. Mas, SE FOSSE UM BANDIDO, se tivesse assaltando ou matado teria direito de pelo menos a SEIS REFEIÇÕES DIÁRIAS, a psicólogos e garantias feitas por um bando de deputados suspeitos, preocupado com as suas condições de higiene e alimentação!

    Para se ter idéia, na última vez que comprei mídias de DVD, o vendedor me falou, em tom resignado, que ganhava CINCO CENTAVOS em cada mídia vendida, enquanto que o BANDIDO DONO DO ESTACIONAMENTO PÚBLICO em frente, tirava, líquido, pelo menos UM REAL por cada carro que “vigiava”, sem nada produzir!

    É dureza…

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