Estatização da CUT faz salários descerem

Pedro do Coutto

Ótima reportagem de Rafael Bruno, Jornal do Brasil de 29 de junho, revelou que 21% das entidades que pertenciam ao sistema da CUT dele se desvincularam, insatisfeitas com os rumos da Central Única dos Trabalhadores, outrora firme nas reivindicações trabalhistas, hoje acomodada no ninho estatal.

Não podia dar certo o processo de estatização sindical por que passa o país. Uma coisa é ficar incondicionalmente ao lado do governo, outro lutar pela melhoria salarial e das condições de trabalho. Falta, para início de conversa, uma política trabalhista no Brasil. E não só trabalhista, mas também institucional envolvendo as associações organizadas. Vejam os leitores o exemplo da UNE. Antigamente protestava contra os absurdos e injustiças que se verificavam no panorama nacional. Hoje, embora motivos de protestos não faltem, encontra-se em doce silêncio. Está se omitindo.

Nem os escândalos em série abrangendo o Senado e a Câmara Federal tiram a União Nacional dos Estudantes da omissão pelo silencia. Isso é péssimo para o país, sobretudo porque assinala a cooptação da juventude universitária. Cedo demais, portanto.

Mas vamos focalizar a questão dos salários. Sem organização e reivindicações fortes, eles vêm perdendo para a inflação do IBGE. Significa grave retrocesso nas relações entre capital e trabalho. Um desastre. Atravessamos um momento em que a CUT seria ainda mais necessária. Isso porque estamos enfrentando uma entre safra no universo do trabalho, desemprego muito alto, portanto demanda muito maior que a oferta de vagas, em consequência rebaixamento dos padrões de remuneração e assim das condições sociais.

A CUT deveria se fazer presente. Mas esta presença ativa requer que assumisse, como na peça de Goldoni, tradução de Millor Fernandes, a posição de arlequim de dois patrões. Impossível. Pois ninguém, entidade alguma, pode, ao mesmo tempo, tornar-se juiz e parte. Em matéria de governo Lula, a CUT tornou-se parte da questão. Seus interesses como associação estatal chocam-se com os interesses daqueles milhões de trabalhadores que representa.

Resultado: greves em série, insatisfação generalizada, falta de perspectiva, angústia para os que honestamente vivem de seu esforço.

É claro que o capital, sobretudo num período de baixo emprego, é infinitamente mais forte do que o trabalho. Por isso mesmo, a presença da CUT na luta seria ainda mais essencial. Mas não se consegue ouvir a sua voz. Tampouco asa sua imagem nas ruas e nas portas das fábricas. Um dos pontos essenciais, que venho dizendo há muito tempo, é o de separar o reajuste de vencimentos do aumento salarial. São coisas distintas. Reajuste é para repor o índice inflacionário de determinado período. Aumento é o acréscimo acima de tal limite. Se os reajustes não empatarem, pelo menos com a taxa de inflação, os salários estarão sendo concretamente diminuídos, o que a Constituição proíbe. No papel.

Mas é o que acontece na prática. Onde stá a CUT? Onde estão os sindicatos que não se mobilizam? Ninguém responde. Possivelmente só o ministro Carlos Lupi saiba dizer. Era oposição, hoje é governo. A CUT transformou-se em legenda partidária, em partido político. Uma pena. Um desastre.

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