“Foi o Kim-1 que me prendeu, porque errei de Coreia”

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Nery (à esquerda) quando ainda errava de Coreia

Sebastião Nery

Alucinante aquela terça-feira, 30 de dezembro de 1952. Tinha 20 anos e amanheci preso em Belo Horizonte e na primeira página de todos os jornais de Minas, execrado com foto e tudo. Há apenas dois anos, ainda no seminário, de batina, piedoso, estudava Filosofia, para ser padre, talvez um dia bispo, quiçá cardeal. Na “Tribuna de Minas” a manchete era minha:

– “Confirmam-se as Acusações da TM sobre as Ligações do sr. José Mendonça com Elementos Comunistas. Preso ontem um redator de ‘O Diário’, justamente o homem de confiança do presidente do sindicato dos jornalistas de Minas. Carregava cartazes encimados pelo retrato de Prestes. Veem de longe as atividades subversivas do Sr. Sebastião Nery”.

O “Diario da Tarde”, também com manchete na primeira página:

– “Desmantelada Pela Policia uma Reunião Comunista – Varejada a sala de um prédio da rua Carijós. Efetuadas numerosas prisões. Apreendido farto material de propaganda vermelha”.

O “Estado de Minas”, como o “Diário da Tarde” também dos “Diários Associados” de Assis Chateaubriand, o maior jornal de Minas (o mais importante era “O Diário”), abriu manchete:

– “Mais de 40 Pessoas Foram Detidas Pelas Autoridades”.

O campeão de títulos berrantes era o “Diário de Minas”:

– “Surpreendidos os comunistas quando tramavam planos de ação”.

NO XADREZ – Dia seguinte, 31 de dezembro, Ano Novo, continuávamos presos, réveillon no xadrez, e a “Tribuna de Minas” não me dava folga:

– “Esse rapaz que apareceu nos jornais de ontem, fotografado com esse sorriso todo dentes, como se tivesse acabado de praticar a ação mais louvável desse mundo, é o tarefeiro comunista Sebastião Nery, de “O Diário”, o jornal do arcebispado, amigo e confidente do senhor José Mendonça, redator-chefe do jornal e presidente do Sindicato dos Jornalistas de Minas. Sebastião Nery foi preso com uma malta de desclassificados”.

Hoje, 66 anos depois, vejo os jornais e me surpreendo. Éramos todos muito jovens, nenhum de cara triste nem inocente. Sabíamos muito bem que estávamos em uma ação política proibida pela polícia e que, mais dia menos dia, seriamos soltos. Não havia crime nenhum.

Só uma frustração. Elegante, terno claro, gravata bonita, lencinho no bolso esquerdo do paletó, cabelo bem penteado, sorridente, meio abusado e desafiador, eu era bonito e não sabia, porque ninguém me dizia.

Quando a policia chegou à inauguração do “Movimento Mundial da Paz” em Minas, estávamos lá jovens estudantes e velhos lideres: Armando Ziller, venerando dirigente dos bancários e ex-deputado comunista,  sua bela filha Helia Ziller, estudante; Luis Bicalho, nosso professor na Faculdade de Filosofia; Aluisio Ordones, meu colega de Faculdade e vários outros.

Todos presos, socados em rádio-patrulhas. Lembro-me bem da calma da Helia que, empurrada aos tombos para dentro da radio patrulha, derrubada, levantou-se, sentou-se, abriu uma bolsa, tirou um pente e passou nos cabelos, alourados, lindos.

Depois de receber alguns tabefes, percebi que o simpático e magérrimo coronel Olimpio, da reserva do Exercito, havia desaparecido. Tinha sumido na hora. Dias depois, já solto, encontrei-o em outra reunião:

– O senhor é muito rápido, coronel. Foi o único que conseguiu fugir.

– Meu filho, não repita isso. Não fugi. Um oficial do Exercito brasileiro não foge. Bate em retirada.

AÇÃO DISFARÇADA – A reunião era uma ação disfarçada do Partido Comunista e da UJC, União da Juventude Comunista, drasticamente reprimidos pela polícia. Para atuarmos politicamente, lançávamos mão de atividades legais. Naquele dia, discutíamos o Brasil e o mundo e instalávamos em Minas o “Movimento Mundial da Paz”, criado na Finlândia para“combater a guerra”.

A guerra da Coreia dividia a opinião pública mundial e estávamos indignados com a Coréia do Sul, capitalista e ligada aos Estados Unidos, que, segundo pensávamos e denunciávamos, “havia criminosamente invadido a Coréia do Norte”, socialista e aliada da União Soviética e China.

ERREI DE CORÉIA – E por defender a Coreia do Norte e denunciar a Coreia do Sul é que tínhamos sido presos. Anos depois, Adido Cultural em Roma, fui a uma recepção ao ex-líder soviético Mikhail Gorbachev, que tinha acabado de ganhar o Prêmio Nobel da Paz e recebia grande homenagem da Itália.

Perguntei a Gorbachev quem, na guerra da Coreia, havia começado as hostilidades, quem tinha atacado quem e dele ouvi, perplexo, que a Coreia do Norte é que tinha invadido a Coreia do Sul e não como dizíamos.

Em 1952 eu estava enganado. Fui preso por causa do Kim-1, pai do Kim-2. Fui preso merecidamente. Errei de Coréia.

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