Gay Talese: “jornalismo novo”, mais antigo e mais velho do que Gutemberg em 1460

O titulo destas notas já diz tudo, é completo, irreversível, irrevogável e indestrutível. Mas um homem que escreve um livro de 510 páginas e acrescenta cinco, que chama com alta criatividade de “posfacio” merece mais do que as 14 palavras que coloquei, antes de começar a analisá-lo.

“O Reino e o Poder” foi publicado em 1971 e o “posfacio” em 1992, o que parece mágica. Não é. O autor, muito mais tarde, percebeu (ou deve ter sido alertado), o que constatei logo que comecei a ler (e grifando, como sempre), que ele “não é uma “lenda viva”, como se julga, e sim o autor mas não o precursor, de um jornalismo chatíssimo, monótono, cansativo, e que precisava de uma explicação.

Gay Talese escreveu o livro em 1971. Tinha então 39 para 40 anos, hoje tem 77, que comemora diariamente, principalmente em países como o Brasil, que adora bajular os que já aparecem bajulados sem qualquer razão de ser. Essa identificação de “criador do novo jornalismo”, deve ter surgido de sua própria imaginação.

Talese trabalhou no Times, pouco tempo. Pois quando escreveu (ou publicou) o livro, ainda ia fazer 40 anos. E usar a palavra trabalhou é força de expressão, pois não deve ter tido tempo para se dedicar ao jornalismo, por esse motivo impressionante: citou nominal e pessoalmente, 384 pessoas que trabalharam no New York Times, desde o tempo do “fundado” (vá lá) Adolph Ochs, até o ultimo editor retratado, Daniel Clifton. Que mereceu 49 meias paginas no seu índice Remissivo. (Só quem ganhou mais espaço e citação foi Catledge Turner, também editor).

Esses 384 personagens ocuparam os mais diversos cargos no Times, como Talese chama quase sempre, usando apenas a ultima pagina do titulo do jornal.

Foram: Publisher, editor, editor adjunto (pelo menos 20 simultaneamente, segundo ele) copidesques, repórteres, redatores e 49 correspondentes que o Times mantinha nos mais diversos lugares, não apenas países, mas também cidades, pois o Times se dava ao prazer, satisfação e orgulho, de manter às vezes 5 no mesmo país. (Não esquecer: o livro foi acabado em 1966, quando a cobertura não era tão intensa quanto hoje).

Em relação a esses 384 personagens, Talese usa toda a sua mais do que visível arrogância, e um orgulho indisfarçável de estar fazendo a biografia do jornal, “e da família mais importante dos Estados Unidos”.

Escreve sobre todos, numa exibição de hipocrisia crítica, ninguém escapa da sua análise e do seu comportamento sem constrangimento. Ninguém recebe elogios sem receber a carga de restrições, a contrapartida é ainda mais verdadeira. Só se livram inteiramente Adolph Ochs, o fundador (que evidentemente não conheceu, morreu em 1935, Talese nasceu em 1932) e Daniel Clifton, editor que o abrigou por um tempo. Mas desconfio que Clifton foi salvo pelo fato de ter casado com Margareth Truman, que além de ser filha de presidente, era muito bonita. Apesar de se apresentar como rigorosamente independente, Talese adorava festas e relacionamento com poderosos.

* * *

PS- “O Reino e o Poder”, é impiedoso, mas como o próprio autor. Escreveu interminavelmente, mas baseado no seu livro, ninguém irá conhecer ou descobrir o que aconteceu durante esse tempo, nos EUA e no mundo. Além de 384 personagens dispersivos, Talese citou outros 400, (também do Times) que abandonei por falta de espaço ou de importância.

PS2- Espero que muitos que fizeram o exercício da vassalagem a Talese, (televisão, jornalões, Flip) usem essa matéria como arrependimento. O novo jornalismo começa há mais de 500 anos. A imponência de Gay Talese é sepultada nas 521 páginas que ele mesmo escreveu.

PS3- Não pode ser ressuscitado, literaria ou fisicamente. Embora, na segunda citação, faça uma força enorme para convencer que ainda existe.

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